O Retrato De Dorian Gray.  Oscar Wilde
Capítulo 4. (Capítulo 4. )
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Uma tarde, passado um mês, estava Dorian Gray recostado numa sumptuosa poltrona, na pequena biblioteca da casa de Lord Henry, em Mayfair. Era, no seu estilo, uma sala encantadora, com altos lambris de carvalho cor de azeitona, friso creme, tecto de estuque lavrado e alcatifa de feltro cor de tijolo juncada de tapetes persas de seda franjados. Sobre uma pequena mesa de pau-cetim, estava uma estatueta de Clodion e um exemplar de Les Cent Nouvelles, encadernada para Margarida de Valois por Clovis Eve e ornamentada com as margaridas douradas que a rainha adoptara como sua divisa. Umas jarras azuis de porcelana e umas túlipas ornamentavam o rebordo da chaminé, e, através das pequenas vidraças da janela, coava-se a luz cor de damasco de um dia de Verão londrino.

Cierta tarde, un mes después, Dorian Gray estaba recostado en un lujoso sillón, en la pequeña biblioteca de la casa de lord Henry en Mayfair. Se trataba, en su estilo, de una habitación muy agradable, con alto revestimiento de madera de roble color oliva, friso de color crema, techo de escayola y alfombra de fieltro color ladrillo, sobre la que se habían extendido otras alfombras persas de seda, más pequeñas, con largos flecos. En una diminuta mesa de madera de satín había una estatuilla obra de Clodion y, junto a ella, un ejemplar de Les CentNouvelles, encuadernado para Margarita de Valois por Clovis Eve y adornado con las margaritas que la reina había elegido como emblema. Algunos grandes jarrones de porcelana azul con tulipanes de colores abigarrados ocupaban la repisa de la chimenea y, a través de los emplomados rectángulos de cristal de la ventana, se derramaba la luz de color albaricoque de un día de verano en Londres.

Lord Henry ainda não tinha chegado. Normalmente, atrasava-se sempre, tendo por princípio que a pontualidade é o ladrão do tempo. Por isso o rapaz estava um pouco aborrecido, enquanto os seus dedos distraídos folheavam uma edição primorosamente ilustrada de Manon Lescaut, que encontrara numa das estantes. A monotonia do tiquetaque metódico do relógio Luís XIV incomodava-o. Por uma ou duas vezes pensou em ir-se embora.

Finalmente ouviu passos, e a porta abriu-se.

- Tão atrasado, Harry! - murmurou.

- Não foi o Harry quem chegou, Mr. Gray - respondeu uma voz aguda.

Ele olhou rapidamente de relance, e levantou-se.

- Peço perdão. Pensava...

Lord Henry no había vuelto aún. Siempre se retrasaba por principio, ya que, en su opinión, la puntualidad es el ladrón del tiempo. De manera que el muchacho parecía bastante enfurruñado mientras con una mano distraída pasaba las páginas de una edición de Manon Lescaut, suntuosamente ilustrada, que había encontrado en una de las estanterías. El solemne y monótono tictac del reloj Luis XIV le molestaba. Una o dos veces pensó en marcharse.

- Pensava que era o meu marido. É apenas a sua esposa.

Finalmente oyó pasos fuera y se abrió la puerta.

Permita-me que seja eu mesma a apresentar-me. Já o conheço muito bem pelas fotografias. Creio que o meu marido tem umas dezassete.

-¡Qué tarde llegas, Harry! -murmuró.

-Me temo que no se trata de Harry, señor Gray -respondió una voz muy aguda.

- Dezassete, não, Lady Henry!

Dorian se volvió rápidamente, poniéndose en pie. -Le ruego me disculpe. Creí...

- Então, serão dezoito. E vi o senhor na companhia dele, uma noite destas na Ópera.

-Creyó usted que era mi marido. Soy sólo su mujer. Permítame que me presente. A usted lo conozco bien por sus fotografías. Me parece que mi marido tiene diecisiete.

Ela ria nervosamente enquanto falava, e observava-o com uns olhos vagos cor de miosótis. Era uma mulher estranha, cujos vestidos pareciam ter sido inventados num momento de fúria, e usados em dia de vendaval. Habitualmente estava apaixonada por alguém, mas, como as suas paixões nunca eram retribuídas, mantinha todas as suas ilusões. Esforçava-se por ter um aspecto original, e só conseguia ter um ar desalinhado. Chamava-se Victoria, e tinha uma rematada mania de frequentar a igreja.

- Foi no Lohengrin, não foi, Lady Henry?

- Foi, foi no nosso querido Lohengrin. Não há ninguém que goste mais da música de Wagner do que eu. É tão ruidosa que podemos conversar todo o tempo sem que ninguém nos oiça. É uma grande vantagem. Não acha, Mr. Gray?

-No, lady Wotton, ¡no diecisiete!

-Dieciocho, entonces. Y los vi juntos la otra noche en la ópera -rió con nerviosismo mientras hablaba, contemplándolo con sus ojos azules, un poco vagos, de nomeolvides. Era una mujer curiosa, cuyos vestidos siempre daban la impresión de haber sido diseñados en la cólera y utilizados en la tempestad. De ordinario estaba enamorada de alguien y, como su pasión nunca era correspondida, había conservado todas sus ilusiones. Trataba de conseguir una apariencia pintoresca, pero sólo conseguía dar sensación de desaseo. Se llamaba Victoria y tenía la manía perseverante de ir a la iglesia.

Dos seus lábios finos irrompia o mesmo riso nervoso em staccato, e os seus dedos começaram a brincar com uma comprida faca de tartaruga.

-Se trataba de Lohengrin, si no recuerdo mal.

Dorian sorriu e abanou a cabeça.

- Não me parece, Lady Henry. Nunca converso durante a música, pelo menos quando é boa música. Se a música for má, então é nosso dever abafá-la com a nossa conversa.

-Sí, era mi querido Lohengrin. La música de Wagner me gusta más que ninguna otra. Es tan ruidosa que se puede hablar todo el tiempo sin que otras personas oigan lo que se dice. Eso es una gran ventaja, ¿no le parece, señor Gray?

- Ah, essa é uma das opiniões do Harry, não é assim, Mr. Gray? Costumo ouvir as opiniões dele pela boca dos amigos. Só assim é que fico a conhecê-las. Mas não deve pensar que não gosto de boa música. Adoro-a, mas tenho medo dela. Torna-me excessivamente romântica. Tenho tido uma enorme adoração por pianistas - às vezes, por dois ao mesmo tempo, disse-me o Harry. Não sei o que têm de especial. Talvez por serem estrangeiros. Todos eles o são, não é verdade? Mesmo os que nasceram em Inglaterra ficam estrangeirados passado algum tempo, não ficam?

La misma risa, nerviosa y entrecortada, se escapó de los delgados labios, y sus dedos empezaron a jugar con un abrecartas de carey.

Dorian sonrió y negó con la cabeza.

-Me temo que no estoy de acuerdo, lady Wotton. Nunca hablo cuando suena la música; al menos, si se trata de buena música. Si la música es mala, es nuestro deber ahogarla con la conversación.

Isso só revela talento da parte deles, e é também uma homenagem à Arte. Torna-a muito cosmopolita, não acha? Ah, nunca esteve em nenhuma das minhas recepções, pois não, Mr. Gray? Tem de aparecer. Não posso gastar dinheiro em orquídeas, mas não olho a despesas com estrangeiros. Dão um ar tão pitoresco aos nossos salões. Ah! O Harry já chegou! Harry, vim à sua procura para lhe fazer uma pergunta sobre qualquer coisa que já esqueci, e encontrei Mr. Gray. Tivemos uma conversa muito agradável sobre música. Temos exactamente as mesmas ideias. Não, creio que as nossas ideias são completamente diferentes. Mas foi agradabilíssimo. Ainda bem que o encontrei.

- Folgo muito em saber, meu amor, mesmo muito - comentou Lord Henry, erguendo as sobrancelhas escuras em forma de crescente e olhando para os dois com um sorriso divertido. Peço desculpa por chegar atrasado, Dorian. Fui ver se conseguia um pedaço de brocado antigo em Wardour Street, e tive que regatear horas e horas. Actualmente, as pessoas sabem o preço de tudo e não sabem o valor de coisa nenhuma.

-¡Ah! Ésa es una de las ideas de Harry, ¿no es así, señor Gray? Siempre oigo las ideas de Harry de labios de sus amigos. Es así como me entero de que existen. Pero no debe usted pensar que no me gusta la buena música. La adoro, pero me da miedo. Me pone demasiado romántica. Sencillamente, venero a los pianistas; dos a la vez, en algunas ocasiones, me dice Harry. No sé qué es lo que tienen. Quizá el ser extranjeros. Todos lo son, ¿no es cierto? Incluso los que han nacido en Inglaterra se convierten en extranjeros con el tiempo, ¿no le parece? ¡Qué habilidad la suya! Y para el arte, ¡qué excelente cumplido! La hace sumamente cosmopolita, ¿verdad? ¿No ha estado usted nunca en alguna de mis fiestas, señor Gray? Tiene que venir. No puedo permitirme orquídeas, pero no reparo en gastos con extranjeros. ¡Hacen que la casa parezca tan pintoresca! ¡Pero aquí está Harry! Harry, vine buscándote para preguntarte algo, no recuerdo qué, y encontré al señor Gray. Hemos tenido una conversación muy agradable sobre música. Tenemos exactamente las mismas ideas. No; creo que nuestras ideas son completamente distintas. Pero ha sido la simpatía personificada. Y me alegro mucho de haberlo conocido.

-Espléndido, amor mío, espléndido -dijo lord Henry, alzando la doble media luna oscura de las cejas y contemplando a ambos con una sonrisa divertida.

- Tenho de me ir embora - exclamou Lady Henry, interrompendo um silêncio incómodo com o seu súbito riso apalermado. Prometi passear de carro com a duquesa. Adeus, Mr. Gray. Adeus, Harry. Suponho que jantas fora. Eu também. Talvez te encontre em casa de Lady Thornbury.

-Siento llegar tarde, Dorian. Fui en busca de una pieza de brocado antiguo en Wardour Street, y he tenido que regatear durante horas para conseguirla. En los días que corren la gente sabe el precio de todo y el valor de nada.

- É provável, querida - disse Lord Henry, fechando a porta depois de ela, qual ave do paraíso que tivesse passado a noite à chuva, ter saído rapidamente da sala, deixando atrás de si um leve aroma de frangipana. Depois ele acendeu um cigarro e refastelou-se no sofá.

-Me temo que he de irme -exclamó lady Wotton, rompiendo un silencio embarazoso con su repentina risa sin sentido-. He prometido salir en coche con la duquesa. Hasta la vista, señor Gray. Hasta luego, Harry. Imagino que cenas fuera. Yo también. Quizá te vea en casa de lady Thornbury.

- Nunca case com uma mulher de cabelo cor de palha, Dorian disse, após umas fumaças.

- Porquê, Harry?

- Porque são tão sentimentais.

- Mas eu gosto de pessoas sentimentais.

- É melhor nunca se casar, Dorian. Os homens casam-se por cansaço, as mulheres, por curiosidade, e uns e outros ficam decepcionados.

-Imagino que sí, querida mía -lord Henry cerró la puerta tras ella, cuando, con el aspecto de un ave del paraíso que se hubiera pasado toda la noche bajo la lluvia, salió revoloteando de la habitación, dejando un leve olor a tarta de almendras; luego encendió un cigarrillo y se dejó caer en el sofá.

- Não é provável que eu me case, Henry. Estou demasiado apaixonado. Esse é um dos seus aforismos. Estou a pô-lo em prática, como faço com tudo o que você diz.

-Nunca te cases con una mujer con el pelo de color pajizo, Dorian -dijo después de lanzar unas cuantas bocanadas de humo.

- Por quem está apaixonado? - perguntou Lord Henry, após uma pausa.

-¿Por qué, Harry?

-Porque son muy sentimentales.

-Pero a mí me gusta la gente sentimental.

- Por uma actriz - respondeu Dorian Gray, corando.

- Para estreia, não é nada original - disse Lord Henry, encolhendo os ombros.

- Se a conhecesse não diria isso, Harry.

-No te cases, Dorian. Los hombres se casan porque están cansados; las mujeres, porque sienten curiosidad: unos y otras acaban decepcionados.

- Quem é ela?

- Chama-se Sibyl Vane.

- Nunca ouvi falar dela.

- Nem ninguém. Mas um dia as pessoas hão-de ouvir falar dela. Ela é um génio.

-Creo que no es probable que me case, Harry. Estoy demasiado enamorado. Ése es uno de tus aforismos. Lo estoy poniendo en práctica, y hago todo lo que recomiendas.

- Meu caro, não há mulher alguma que seja um génio. As mulheres pertencem ao sexo de ornamento. Nunca têm nada para dizer, mas dizem-no de uma maneira encantadora. As mulheres representam o triunfo da matéria sobre o espírito, ao passo que os homens representam o triunfo do espírito sobre a moral.

-¿De quién te has enamorado? -preguntó lord Henry, después de una pausa.

-De una actriz -dijo Dorian Gray, ruborizándose. Lord Henry se encogió de hombros.

-Es un debut bastante corriente.

-No dirías eso si la vieras, Harry.

-¿Quién es?

-Se llama Sibyl Vane.

-Nunca he oído hablar de ella.

- Harry, como é possível que fale assim?

-Nadie ha oído. Pero todo el mundo oirá algún día. Es un genio.

- Meu caro Dorian, é rigorosamente verdade. Presentemente, dedico-me a analisar as mulheres, por isso é natural que saiba. O assunto não é tão confuso como eu pensei que fosse. Acabo de descobrir que, basicamente, há apenas duas espécies de mulheres: as simples e as pintadas. As mulheres simples são muito úteis. Se quisermos obter reputação de respeitabilidade, levamo-las simplesmente a cear. As outras mulheres são encantadoras. Cometem, porém, um erro. Pintam-se para tentar parecer jovens. As nossas avós pintavam-se a fim de tentar conversar com brilhantismo. Rouge e esprit costumavam andar juntos. Tudo isso acabou já. Assim que consegue parecer dez anos mais nova do que a própria filha, uma mulher fica totalmente satisfeita. Relativamente a conversação, há unicamente cinco mulheres em Londres com quem vale a pena conversar, e duas delas não podem ser admitidas na sociedade de boas maneiras. Mas, fale-me do seu génio. Há quanto tempo a conhece?

-Mi querido muchacho, ninguna mujer es un genio. Las mujeres son un sexo decorativo. Nunca tienen nada que decir, pero lo dicen encantadoramente. Representan el triunfo de la materia sobre la mente, de la misma manera que los hombres representan el triunfo de la mente sobre la moral.

-¿Cómo puedes decir una cosa así, Harry?

-Mi querido Dorian, no es más que la verdad. Estoy analizando a las mujeres en el momento actual, de manera que debo saberlo. No es un tema tan abstruso como yo pensaba. Descubro que, en último extremo, sólo hay dos clases de mujeres, las corrientes y las que se pintan. Las primeras son muy útiles.

- Ah! As suas teorias assustam-me, Harry.

- Não dê importância. Há quanto tempo a conhece?

- Há aproximadamente três semanas.

- E onde é que a conheceu?

Si quieres conseguir una reputación de persona respetable, basta con invitarlas a cenar. Las otras mujeres son sumamente encantadoras. Pero cometen un error. Se pintan con el fin de parecer jóvenes. Nuestras abuelas se pintaban para tratar de hablar con brillantez. Rouge y esprit solían ir juntos. Ahora eso se ha acabado. Siempre que una mujer pueda parecer diez años más joven que sus hijas, estará perfectamente satisfecha. En cuanto a conversación, sólo hay cinco mujeres en Londres con las que merece la pena hablar, y a dos de ellas no las recibe la buena sociedad. De todos modos, háblame de tu genio. ¿Cuánto hace que la conoces?

- Eu conto, Harry. Mas você tem que ser um pouco indulgente. No fim de contas, isto nunca teria acontecido se eu não o tivesse encontrado. Foi você que fez nascer dentro de mim um desejo desenfreado de conhecer todas as coisas da vida. Depois de o ter encontrado, e durante vários dias, parecia que havia algo a latejar nas minhas veias. Quando deambulava pelo Parque, ou caminhava até Piccadilly, costumava olhar para todas as pessoas que passavam e apoderava-se de mim uma louca curiosidade de saber como eram as suas vidas. Umas fascinavam-me. Outras enchiam-me de terror. Pairava no ar um veneno subtil. Eu sentia paixão pelas sensações... Ora uma noite, por volta das sete horas, resolvi sair em busca de uma aventura. Sentia que esta nossa Londres cinzenta e monstruosa, com suas miríades de pessoas, os seus sórdidos pecadores, e os seus gloriosos pecados - como você uma vez fraseou -, devia ter alguma coisa reservada para mim. Imaginei milhares de coisas. A simples ideia de perigo provocava em mim uma sensação deliciosa. Lembrei-me do que você me havia dito naquela noite maravilhosa em que jantámos juntos pela primeira vez: procurar a verdade é o verdadeiro segredo da vida. Não sei do que estava à espera, mas encaminhei-me ao acaso para a zona oriental, perdendo-me pouco depois num labirinto de ruas imundas e praças escuras e sem relva. Deviam ser umas oito horas e trinta quando passei por um teatrinho ridículo, iluminado pelo clarão de enormes bicos de gás e exibindo uns cartazes de mau gosto. Um judeu repelente, com o colete mais espantoso que já vi em toda a minha vida, estava à entrada a fumar um cigarro abominável.

O cabelo tínha uns pequenos caracóis oleosos, e mesmo ao centro da camisa imunda luzia um enorme diamante. "Quer um camarote, senhor?", perguntou ele quando me viu, tirando o chapéu com um gesto de servilismo exagerado. Mas, Harry, havia nele qualquer coisa que me divertia. Era tal qual um monstro. Vai rir-se de mim, eu sei, mas entrei mesmo e paguei um guinéu por um camarote de proscénio. Ainda hoje não consigo descobrir o motivo por que o fiz. Porém, se o não tivesse feito, meu caro Harry, se não tivesse... teria perdido a maior aventura amorosa da minha vida. Bem vejo que está a rir-se. Não seja horrível!

-¡Harry, Harry! Tus opiniones me aterran.

-No te preocupes por eso. ¿Cuánto hace que la conoces?

-Unas tres semanas.

-Y, ¿cómo te tropezaste con ella?

-Te lo voy a contar, Harry; pero tienes que ser comprensivo. Después de todo, no me habría pasado si no te hubiera conocido. Hiciste que sintiera un tremendo deseo de saberlo todo acerca de la vida. Durante varios días, después de conocerte, algo especial me latía en las venas. Mientras estaba en el parque o me paseaba por Picadilly, miraba a todas las personas con las que me cruzaba, preguntándome con tremenda curiosidad cómo era su vida. Algunas personas me fascinaban. Otras me llenaban de horror. Venenos exquisitos flotaban en el aire. Sentía pasión por las sensaciones... Bien, una tarde, hacia las siete, decidí salir en busca de alguna aventura. Sentía que este Londres nuestro, tan gris y tan monstruoso, con sus miríadas de personas, sus sórdidos pecadores y sus espléndidos pecados, tal como tú dijiste una vez, me reservaba algo. Me imaginé mil cosas. La simple sensación de peligro me llenaba de gozo. Recordé lo que me habías dicho en aquella maravillosa velada cuando cenamos juntos por vez primera, sobre el hecho de que la búsqueda de la belleza es el verdadero secreto de la vida. No sé qué esperaba, pero salí a la calle y me dirigí hacia el este, perdiéndome muy pronto en un laberinto de calles mugrientas y plazas oscuras y sin hierba. A eso de las ocho y media pasé por delante de un absurdo teatrillo, con luces brillantes y carteles chillones. En la entrada había un judío horroroso, con el chaleco más exótico que he visto en mi vida y fumando un cigarro apestoso. El cabello le caía en bucles grasientos y en mitad de una sucia camisa resplandecía un enorme diamante. «¿Un palco, milord?», dijo al verme, y se quitó el sombrero con un aire fascinantemente servil. Había algo en él que me divirtió, Harry. ¡Era tan monstruoso! Te vas a reír de mí, lo sé, pero entré y pagué nada menos que una guinea por un palco junto al escenario. Todavía hoy sigo sin saber por qué lo hice; pero si no lo hubiera hecho, mi querido Harry, me hubiera perdido la gran historia de amor de mi vida. Veo que te estás riendo. ¡Qué mal me parece!

- Não estou a rir-me, Dorian, isto é, não estou a rir-me de você. Você não deveria ter dito a maior aventura amorosa da sua vida, mas sim a primeira aventura amorosa da sua vida. Você será sempre amado e estará sempre apaixonado pelo amor. Uma grande passion é privilégio dos que não têm nada que fazer. É o único hábito das classes ociosas de um país. Não tenha medo. Há coisas extraordinárias à sua espera. Isto é apenas o começo.

-No me río, Dorian; al menos, no me río de ti. Pero no debes decir la gran historia de amor de tu vida.

- Julga-me assim tão frívolo? - exclamou Dorian Gray muito irritado.

- Não, julgo-o muito profundo.

- O que quer dizer com isso?

Debes decir la primera. Siempre te querrán, y tú siempre estarás enamorado del amor. Una grande passion es el privilegio de quienes no tienen nada que hacer. Ésa es la única utilidad de las clases ociosas de un país. No tengas miedo. Te están reservadas aventuras exquisitas. Esto no es más que el principio.

- Meu caro rapaz, pessoas frívolas são aquelas que amam só uma vez na vida. Àquilo a que chamam lealdade e fidelidade, chamo eu letargia do hábito ou falta de imaginação (1). A fidelidade está para a vida emocional como a coerência está para a vida do intelecto, quer dizer, uma simples confissão de fracassos. A fidelidade! Preciso de a analisar um dia destes. Existe nela a paixão pela posse. Há muitas coisas que atiraríamos fora se não receássemos que os outros as pudessem apanhar. Mas não quero interrompê-lo. Continue a sua história.

*1. Palavras e expressões em francês, latim, italiano... encontram-se no texto original inglês. (N. da T.)

-¿Tan superficial me consideras? -exclamó Dorian Gray, muy dolido.

-No; te creo muy profundo.

-¿Qué quieres decir?

-Mi querido muchacho, las personas que sólo aman una vez en la vida son realmente las personas superficiales. A lo que ellos llaman su lealtad, y su fidelidad, yo lo llamo sopor de rutina o falta de imaginación. La fidelidad es a la vida de las emociones lo que la coherencia a la vida del intelecto: simplemente una confesión de fracaso. ¡Fidelidad! Tengo que analizarla algún día. La pasión de la propiedad está en ella. Hay muchas cosas de las que nos desprenderíamos si no tuviéramos miedo de que otros las recogieran. Pero no te quiero interrumpir. Sigue con tu historia.

- Bem, fiquei sentado num horrível camarotezinho privado e tinha mesmo à minha frente um vulgar pano de boca. Espreitei pela cortina e inspeccionei a sala. Era uma coisa de mau gosto, com cupidos e cornucópias, mais parecendo um bolo de noiva de terceira categoria. A galeria e a plateia estavam bastante completas, mas as duas filas de poltronas encardidas estavam totalmente vazias e nem sei se haveria uma pessoa naquilo que suponho chamar-se primeiro balcão. Andavam umas mulheres a vender laranjas e gasosas, e havia um elevado consumo de amendoins.

- Deve ter sido exactamente como na época florescente do drama britânico.

-Bueno, me encontré sentado en un palquito espantoso, con un telón de lo más vulgar delante de los ojos. Desde mi discreto escondite me dediqué a examinar la sala. Era un lugar perfectamente chabacano, todo él cupidos y cornucopias, como una tarta nupcial de cuarta categoría. El paraíso y la platea estaban bastante llenos, pero las dos primeras filas de descoloridas butacas se hallaban completamente vacías y apenas había nadie en las mejores entradas del anfiteatro. Había mujeres vendiendo naranjas y refrescos y se consumían grandes cantidades de frutos secos.

- Precisamente, mas também muito deprimente. Começava a interrogar-me o que havia eu de fazer quando vi o programa. Que peça acha que era, Harry?

-Debía de ser como en los días gloriosos del drama británico.

- Talvez O Idiota ou Pateta mas Inocente. Os nossos pais é que costumavam apreciar esse género de peça, creio eu. Quanto mais anos vivo, Dorian, mais vivamente sinto que o que era bom para os nossos pais não é bom para nós. Em arte, bem como em política, les grands pères ont toujors tort.

-Precisamente, creo yo, y muy deprimente. Empezaba a preguntarme qué demonios estaba haciendo allí, cuando me fijé en el programa. ¿Qué obra crees que representaban, Harry?

-Imagino que El joven idiota o Mudo pero inocente. A nuestros padres les gustaba ese tipo de obras, según creo. Cuantos más años tengo, Dorian, más convencido estoy de que lo que era suficientemente bueno para nuestros padres no lo es para nosotros. En arte, como en política, les grand-péres ont toujours tort.

- A peça era bastante boa para nós, Harry. Era Romeu e Julieta. Devo confessar que me mortificou bastante a ideia de ver Shakespeare representado numa baiuca. Mesmo assim, sentia, de certo modo, algum interesse. Seja como for, resolvi esperar pelo primeiro acto. A orquestra era péssima, regida por um jovem hebreu que se encontrava sentado a um piano tão desafinado que estive para fugir dali, mas finalmente o pano de boca subiu e a peça começou. Romeu era um cavalheiro idoso e corpulento, de sobrancelhas escurecidas com rolha queimada, uma voz enrouquecida e trágica, e roliço como um barril de cerveja. A figura de Mercúcio não era melhor. Era representado por um comediante de baixo coturno, que intercalava piadas de sua autoria e que tinha o melhor relacionamento com a plateia. Eram ambos tão grotescos como o cenário, que parecia ter saído de uma barraca de feira. Ah! Mas Julieta!

-La obra era suficientemente buena para nosotros, Harry. Se trataba de Romeo y Julieta. He de reconocer que no me hizo mucha gracia la idea de ver representar a Shakespeare en un antro como aquél.

Imagine, Harry, uma menina que talvez não tivesse ainda dezassete anos, o rosto lindo como uma flor, uma pequena cabeça grega de longas tranças castanhas, os olhos, fontes violáceas de paixão, e os lábios, duas pétalas de rosa. Era o ser mais formoso que jamais havia visto na minha vida. Você disse-me uma vez que era insensível ao patético, mas que a beleza podia provocar-lhe as lágrimas. Pois eu, Harry, mal conseguia ver esta menina através da névoa de lágrimas que me arrasaram os olhos. E tinha uma voz como nunca ouvi.

Pero sentí interés, de todos modos. Decidí presenciar al menos el primer acto. Había una orquesta detestable, presidida por un hebreo joven sentado ante un piano desafinado que casi me echó del teatro; pero finalmente se alzó el telón y comenzó la obra. Romeo era un caballero corpulento y con muchos años a sus espaldas, cejas pintadas con negro de corcho, ronca voz de tragedia y silueta cíe barril de cerveza. Mercutio era casi igual de siniestro. Lo interpretaba un cómico de la legua que había añadido al texto chistes de su cosecha y mantenía relaciones sumamente amistosas con la platea. Los dos eran tan grotescos como el decorado, que parecía salido de una barraca de feria. Pero, ¡Julieta! Imagínate una muchachita de apenas diecisiete años, con un rostro como de flor, una cabecita griega con cabellos de color castaño oscuro recogidos en trenzas, ojos que eran pozos violeta de pasión, labios como pétalos de rosa. ¡La criatura más encantadora que había visto nunca! Una vez me dijiste que el patetismo no te conmovía en absoluto, pero que la belleza, la simple belleza, podía llenarte los ojos de lágrimas. Te lo aseguro, Harry, apenas veía a esa muchacha porque siempre tenía los ojos nublados por las lágrimas. ¡Y su voz! No he oído nunca una voz semejante. Sólo un hilo al principio, con notas bajas y melodiosas, que parecían caer una a una en el oído. Luego creció en volumen, y sonaba como una flauta o un lejano oboe.

Era muito grave, a princípio, de sons profundos e melodiosos, que pareciam cair um a um no nosso ouvido. Depois tornava-se um pouco mais alta e soava como uma flauta ou um longínquo oboé. Na cena do jardim, tinha o êxtase trémulo que ouvimos quando a madrugada vai chegar e os rouxinóis cantam. Havia, depois, momentos em que possuía a paixão desvairada das violetas. Você sabe bem como uma voz nos pode perturbar. A sua voz e a voz de Sibyl Vane, nunca as esquecerei. Quando fecho os olhos, oiço-as e cada uma delas diz-me algo diferente. Não sei qual das duas hei-de seguir. Por que não haveria de amá-la? É que eu amo-a, Harry. Ela é tudo para mim na vida. Vou vê-la representar todas as noites. Uma noite ela é Rosalinda e na noite seguinte é Imogénia. Assisti à sua morte num sombrio túmulo italiano, sugando o veneno dos lábios do amante. Vi-a vagueando pela floresta de Arden, disfarçada de lindo rapazinho de calças justas, gibão e uma boina gracica. Ela enlouqueceu e chegou à presença de um rei criminoso, e deu-lhe arruda para se enfeitar, e ervas amargas para provar. Ela foi inocente, e as negras mãos do ciúme estrangularam-lhe a garganta frágil como um junco. Vi-a em todas as épocas e vestida à moda de cada época. As mulheres vulgares nunca apelam para a nossa imaginação. Ficam limitadas ao seu tempo. Nenhum encanto as transfigura.

Conhecemos-Lhes as mentalidades com a mesma facilidade com que conhecemos as suas toucas. Acabamos sempre por descobrir-lhas. Não possuem mistério algum. De manhã montam a cavalo no Parque, e à tarde tagarelam à hora do chá.

En la escena del jardín tuvo todo el júbilo estremecido de los ruiseñores cuando cantan poco antes del amanecer. Hubo momentos, más adelante, en los que alcanzó la desenfrenada pasión de los violines.

Sabes perfectamente cuánto puede afectarnos una voz. Tu voz y la de Sibyl Vane son dos cosas que nunca olvidaré. Cuando cierro los ojos las oigo, y cada una dice algo diferente. No sé a cuál seguir. ¿Por qué tendría que no amarla? La quiero, Harry. Para mí lo es todo. Voy a verla actuar día tras día. Una noche es Rosalinda y la siguiente Imogen. La he visto morir en la penumbra de un sepulcro italiano, recogiendo el veneno de labios de su amante. La he contemplado atravesando el bosque de las Ardenas, disfrazada de muchacho, con calzas, jubón y un gorro delicioso. Ha sido la loca que se presenta ante un rey culpable, dándole ruda para llevar y hierbas amargas que gustar. Ha sido inocente, y las negras manos de los celos han aplastado su cuello de junco. La he visto en todas las épocas y con todos los trajes. Las mujeres ordinarias no hacen volar nuestra imaginación. Están ancladas en su siglo. La fascinación nunca las transfigura. Se sabe lo que tienen en la cabeza con la misma facilidad que si se tratara del sombrero.

Têm sorrisos estereotipados e maneiras ditadas pela moda. São totalmente previsíveis. Mas uma actriz, como é diferente! Harry! Por que não me disse que a única coisa que merece ser amada é uma actriz?

- Porque amei tantas, Dorian.

- Ah, estou a ver, pessoas horrendas que pintam o cabelo e a cara.

- Não deprecie o cabelo pintado e as caras pintadas. Têm por vezes um encanto extraordinário - disse Lord Henry.

Siempre se las encuentra. No hay misterio en ninguna de ellas. Van a pasear al parque por la mañana y charlan por la tarde en reuniones donde toman el té. Tienen una sonrisa estereotipada y los modales del momento. Son transparentes. ¡Pero una actriz! ¡Qué diferente es una actriz, Harry! ¿Por qué no me dijiste que la única cosa merecedora de amor es una actriz?

- Agora estou arrependido por Lhe ter contado tudo acerca de Sibyl Vane.

-Porque he querido a demasiadas, Dorian.

- Você não podia deixar de me contar, Dorian. Durante toda a sua vida contar-me-á tudo o que fizer.

-Sí, claro; gente horrible con el pelo teñido y el rostro pintado.

- Sim, Harry, creio que tem razão. Não consigo deixar de lhe contar tudo. Você exerce em mim uma estranha influência. Se por acaso eu cometesse um crime, viria logo confessar-lho. Você compreender-me-ia.

-No desprecies el pelo teñido y los rostros pintados. En ocasiones tienen un encanto extraordinario - dijo lord Henry.

-Ahora quisiera no haberte contado nada sobre Sybil Vane.

-No hubieras podido evitarlo, Dorian. A lo largo de tu vida me contarás todo lo que hagas.

- As pessoas como você - obstinados raios de sol desta vida - não cometem crimes, Dorian. Mas, apesar de tudo, agradeço-lhe o elogio. E agora conte-me. seja amável e passe-me os fósforos, obrigado. conte-me quais são exactamente as suas relações com Sibyl Vane?

-Tienes razón, Harry; creo que estás en lo cierto. No puedo dejar de contarte las cosas. Tienes una curiosa influencia sobre mí. Si alguna vez cometiera un delito, vendría a confesártelo. Tú lo entenderías.

Dorian Gray pôs-se de pé num salto, as faces afogueadas e os olhos chamejantes.

- Harry! Sibyl Vane é sagrada!

-Personas como tú, los caprichosos rayos de sol de la vida, no delinquen. Pero, de todos modos, te quedo muy agradecido por ese cumplido. Y ahora dime..., alcánzame las cerillas, como un buen chico, gracias... ¿Cuáles son tus relaciones actuales con Sybil Vane?

- As coisas sagradas são as únicas em que vale a pena tocar, Dorian - disse Lord Henry, com uma estranha entoação patética na voz. - Mas por que fica tão melindrado? Suponho que um dia ela há-de pertencer-lhe. Quando uma pessoa se apaixona, começa sempre por se enganar a si mesma e acaba sempre por enganar outras pessoas.

Dorian Gray se puso en pie de un salto, las mejillas encendidas y los ojos echando fuego.

-¡Harry! ¡Sybil Vane es sagrada!

A isso o mundo chama um caso de amor. Ao menos, conhece-a?

- Claro que a conheço. Na primeira noite em que estive no teatro, o tal judeu horrendo veio ter comigo ao camarote, depois do espectáculo, oferecendo-se para me levar até aos bastidores e apresentar-ma. Fiquei indignado e disse-lhe que Julieta morrera havia muitos séculos, e que o seu corpo jazia num túmulo de mármore em Verona. Pelo ar perplexo e atónito com que me olhou, devia ter pensado que eu bebera champanhe a mais, ou coisa parecida.

-Sólo las cosas sagradas merecen ser tocadas, Dorian -dijo lord Henry, con una extraña nota de patetismo en la voz-. Pero, ¿por qué tienes que enfadarte? Supongo que será tuya algún día. Cuando se está enamorado, empiezas por engañarte a ti mismo y acabas engañando a los demás. Eso es lo que el mundo llama una historia de amor. Al menos, la conoces personalmente, imagino.

- Não me surpreende nada.

- Depois perguntou-me se eu escrevia para os jornais. Respondi-Lhe que nem sequer os leio. Pareceu ter ficado extremamente decepcionado, e confidenciou-me que todos os críticos de teatro estavam conluiados contra ele e que todos eles se deixavam comprar - Não me surpreendia nada que nisso ele tivesse razão.

-Claro que la conozco. La primera noche que estuve en el teatro, el horrible judío viejo se presentó en el palco después de que terminara la representación y se ofreció a llevarme entre bastidores y presentármela. Consiguió enfurecerme, y le dije que Julieta llevaba muerta cientos de años y que su cuerpo yacía en Verona, en una tumba de mármol. Por la mirada de asombro que me lanzó, creo que tuvo la impresión de que había bebido demasiado champán o algo parecido.

-No me sorprende.

Mas, por outro lado, a julgar pelo seu aspecto, grande parte deles não devem sair muito caros.

-Luego me preguntó si escribía para algún periódico. Le dije que nunca los leía. Pareció terriblemente decepcionado al oírlo, y me confesó que todos los críticos teatrales le eran hostiles y que a todos se los podía comprar.

- Bem, talvez pensasse que eles viviam acima dos seus recursos - observou Dorian a rir. - Ora àquela hora, porém, estavam a apagar as luzes do teatro, e eu tive que sair. Então ele quis que eu experimentasse uns charutos que me recomendava veementemente. Recusei. Na noite seguinte, como é evidente, voltei lá. Quando me viu, fez-me uma grande vénia e asseverou-me que eu era um generoso patrono das artes. Embora fosse um repulsivo brutamontes, tinha uma paixão extraordinária por Shakespeare. Uma vez, contou-me, com um ar orgulhoso, que as cinco falências que sofrera se deviam inteiramente ao Bardo - era assim que ele insistia em chamar-lhe. Ele pensava que isso Lhe podia dar uma certa distinção.

- E dava mesmo, meu caro Dorian, uma grande distinção. Quase todas as pessoas que abrem falência investiram fortemente na prosa da vida. Ser levado à ruína pela poesia é uma honra. Mas quando é que falou com Miss Sibyl Vane pela primeira vez?

-No me extrañaría que tuviera razón en eso. Pero, por otra parte, a juzgar por el aspecto que tiene la mayoría, no deben de ser demasiado caros.

-Bien; pero él parece pensar que están por encima de sus posibilidades -rió Dorian-. Para entonces, sin embargo, ya estaban apagando las luces del teatro y tuve que irme. El judío quiso que probara unos cigarros de los que hizo grandes alabanzas. Pero decliné su ofrecimiento. A la noche siguiente, volví, por supuesto. Al verme, me hizo una profunda reverencia y me aseguró que yo era un munificente protector del arte. Es un ser insufrible, pero Shakespeare le apasiona. Ya me ha dicho, visiblemente orgulloso, que sus cinco bancarrotas se debieron enteramente a «el Bardo», como insiste en llamarlo. Parece considerarlo un timbre de gloria.

- Na terceira noite. Ela tinha representado o papel de Rosalinda. Não resisti e fui vê-la. Eu tinha-Lhe atirado algumas flores para o palco, e ela olhou para mim, pelo menos, imaginei que sim. Quanto ao velho judeu, continuava a insistir. Pareceu-me decidido a levar-me até aos bastidores, e, então, consenti. Não acha curioso que eu não tivesse querido conhecê-la?

- Não, não acho.

- E porquê, meu caro Harry?

- Dir-lho-ei noutra ocasião. Agora quero saber tudo sobre a rapariga.

-Lo es, mi querido Dorian; un verdadero timbre de gloria. La mayoría de la gente se arruina por invertir demasiado en la prosa de la vida. Arruinarse por la poesía es un honor. ¿Cuándo hablaste por vez primera con la señorita Sybil Vane?

-La tercera noche. Había interpretado a Rosalinda. Me fue imposible no ir a verla. Le había lanzado unas flores y ella me miró; al menos, imaginé que lo había hecho. El viejo judío insistió. Estaba decidido a llevarme entre bastidores, de manera que acepté. Es curioso que no deseara conocerla, ¿no te parece?

- Sibyl? Ah! Ela era tão tímida e tão meiga. Há nela ainda muito de criança. Os olhos escancararam-se de espanto quando Lhe disse o que pensava da sua actuação, e não parecia ter consciência da sua força. Creio que estávamos os dois bastante nervosos. O velho judeu, de sorriso alvar, ficou à porta do camarim poeirento, fazendo discursos floreados acerca de nós, enquanto nós ficámos a olhar um para o outro como duas crianças. Ele teimava em chamar-me My Lord, por isso tive que garantir a Sibyl que eu não era nada disso. Ela disse-me muito simplesmente: "O senhor parece-se mais com um príncipe. Devo chamar-lhe Príncipe Encantado"?

- Palavra de honra, Dorian, Miss Sibyl sabe elogiar.

-No; no me parece curioso.

-¿Por qué, mi querido Harry?

-Te lo diré en alguna otra ocasión. Ahora quiero saber más sobre esa chica.

-¿Sybil? ¡Tan tímida y tan amable! Hay algo infantil en ella. Abrió mucho los ojos con el más sincero de los asombros cuando le dije lo que pensaba de su interpretación, y pareció no tener conciencia de su talento. Creo que los dos estábamos bastante nerviosos. El judío viejo sonreía desde la puerta del polvoriento camerino, diciendo frases rebuscadas sobre los dos, mientras Sibyl y yo nos mirábamos como niños. El viejo insistía en llamarme «mylord», y tuve que explicar a Sybil que no era nada parecido. Ella me dijo: «Más bien parece usted un príncipe. Le llamaré Príncipe Azul».

- Você não a compreende, Harry. Ela considerava-me apenas uma personagem de uma peça. Ela não sabe nada da vida. Vive com a mãe, uma mulher cansada e débil, que, na primeira noite, fez de Lady Capuleto, vestindo um roupão escarlate, e que tem o ar de ter tido uma vida mais próspera.

-A fe mía, Dorian, la señorita Sybil sabe cómo hacer cumplidos.

- Conheço esse ar. Deprime-me - murmurou Lord Henry, olhando para os seus anéis.

- O judeu quis contar-me a história da vida dela, mas eu disse-lhe que não estava interessado.

-No la entiendes, Harry. Me veía sólo como un personaje en una obra de teatro. No sabe nada de la vida. Vive con su madre, una mujer apagada y fatigada que, con una túnica más o menos carmesí, interpretó la primera noche a la señora Capuleto; una mujer con aspecto de haber conocido días mejores.

- Fez muito bem. Há sempre qualquer coisa extremamente mesquinha na tragédia das outras pessoas.

-Conozco ese aspecto. Me deprime -murmuró lord Henry, examinando sus sortijas.

- Só a Sibyl me interessa. Que me importam as suas origens? Da cabeça aos pés, ela é absoluta e inteiramente divina. Vou vê-la actuar sem falhar uma noite, e ela é sempre mais maravilhosa noite após noite.

-El judío me quería contar su historia, pero le dije que no me interesaba.

-Tuviste toda la razón. Siempre hay algo infinitamente mezquino en las tragedias de los demás.

- Creio que é esse o motivo por que deixou de jantar comigo. Pensei que você devia andar envolvido em alguma aventura especial. E anda, só que não é exactamente o que eu esperava.

-Sybil es lo único que me interesa. ¿Qué más me da de dónde haya salido? Desde la cabecita a los piececitos es absoluta y enteramente divina. Noche tras noche voy a verla actuar, y cada noche lo hace mejor que la anterior.

- Mas meu caro Harry, jantamos, tocamus juntos todos os dias, e fui com você à Ópera várias vezes - disse Dorian, arregalando de espanto os seus olhos azuis.

- Você chega sempre tardíssimo.

-Imagino que ésa es la razón de que ya nunca cenes conmigo. Pensaba, y estaba en lo cierto, que quizá tuvieras entre manos alguna curiosa historia de amor. Pero no se trata exactamente de lo que yo imaginaba.

- Bem, não posso deixar de ir ver a Sibyl actuar - exclamou ele -, nem que seja apenas um único acto. Estou ávido da sua presença, e quando penso na alma maravilhosa que se oculta naquela figurinha de marfim, sinto admiração e respeito.

-Mi querido Harry, tú y yo almorzamos o cenamos juntos todos los días; y he ido varias veces a la ópera contigo -dijo Dorian, abriendo mucho los ojos para manifestar su asombro.

-Siempre llegas terriblemente tarde.

- Esta noite pode jantar comigo, Dorian, não pode?

- Esta noite ela faz de Imogénia - respondeu ele, abanando a cabeça -, e amanhã à noite vai representar Julieta.

- E quando é que ela é Sibyl Vane?

-No puedo dejar de ver actuar a Sybil -exclamó-, aunque sólo presencie el primer acto. Siento necesidad de su presencia; y cuando pienso en el alma maravillosa escondida en ese cuerpecito de marfil, me lleno de asombro.

- Nunca.

- Dou-lhe os meus parabéns.

-Esta noche cenas conmigo, ¿no es cierto? Dorian Gray hizo un gesto negativo con la cabeza.

- Você é horrível! Saiba que ela reúne em si todas as grandes heroínas do mundo. É mais do que uma pessoa. Você ri-se? Pois digo-Lhe que ela tem génio. Amo-a e tenho de levá-la a amar-me. Você, que conhece todos os segredos da vida, diga-me como hei-de enfeitiçar Sibyl Vane para que ela. me ame! Quero que Romeu tenha ciúmes de mim.

-Hoy hace de Imogen -respondió-, y mañana por la noche será Julieta.

-¿Cuándo es Sybil Vane?

-Nunca.

-Te felicito.

Quero que todos os amantes mortos do mundo ouçam o nosso riso e fiquem tristes. Quero que um sopro da nossa paixão remexa essas cinzas até ganharem consciência e que desperte as suas cinzâs para a dor. Meu Deus, Harry, como eu a adoro!

Ele percorria a sala, de um lado para o outro, enquanto falava. Manchas rosáceas esbraseavam-lhe febrilmente as faces. Estava excessivamente excitado.

-¡Qué malvado eres! Sybil es todas las grandes heroínas del mundo en una sola. Es más que una sola persona. Te ríes, pero yo te repito que es maravillosa. La quiero, y he de hacer que me quiera. Tú, que conoces todos los secretos de la vida, dime cómo hechizar a Sybil Vane para que me quiera. Deseo dar celos a Romeo. Quiero que todos los amantes muertos oigan nuestras risas y se entristezcan. Quiero que un soplo de nuestra pasión remueva su polvo, despierte sus cenizas y los haga sufrir. ¡Cielos, Harry, cómo la adoro! -iba de un lado a otro de la habitación mientras hablaba. Manchas rojas, como de fiebre, le encendían las mejillas. Estaba terriblemente exaltado.

Lord Henry observava-o com uma subtil sensação de prazer. Que diferente era agora do rapaz tímido e assustado que encontrara no atelier de Basil Hallward. O seu ser desabrochara como uma flor, em florescências de chama escarlate. A Alma conseguira sair do seu esconderijo secreto, e o Desejo viera ao seu encontro.

- E o que é que sugere: - disse, por fin, Lord Henry.

Lord Henry sentía un secreto placer contemplándolo. ¡Qué diferente era ya del muchachito tímido y asustado que había conocido en el estudio de Basil Hallward! Había madurado, produciendo flores de fuego escarlata. Desde su secreto escondite, el alma se le había salido al mundo, y el Deseo había acudido a reunirse con ella por el camino.

- Quero que você e o Basil venham uma noite comigo vê-la representar. Não tenho o mínimo receio do resultado. De certeza que vocês irão reconhecer o seu génio. Depois temos de arrancá-la às mãos do judeu. Ela tem com ele um contrato de três anos - pelo menos, de dois anos e oito meses - a partir de agora. Terei que pagar ao homem qualquer coisa, por certo. Quando tudo estiver resolvido, alugo um teatro do West End e há-de ser conhecida como merece. Há-de arrebatar o público tal como me arrebatou a mim.

-Y, ¿qué es lo que te propones hacer? -dijo finalmente lord Henry.

-Quiero que Basil y tú vengáis conmigo alguna noche para verla actuar. No tengo el menor temor al resultado. Sin duda, reconoceréis su genio. Luego hemos de arrancarla de las manos de ese viejo judío.

- Isso seria impossível, meu menino!

- Há-de, sim! Ela possui mais do que arte, um consumado instinto artístico, tem também personalidade, e você disse-me repetidas vezes que são as personalidades, e não os princípios, que fazem mover os nossos tempos.

Está atada a él por tres años, al menos dos años y ocho meses, desde el momento presente. Tendré que pagarle algo, por supuesto. Cuando todo esté arreglado, la traeré a algún teatro del West End y la presentaré como es debido. Enloquecerá al mundo como me ha enloquecido a mí.

-¡Eso es imposible, amigo mío!

- Pois bem, em que noite vamos?

- Deixe-me ver. Hoje é terça-feira. Marcamos para amanhã. Amanhã ela representa o papel de Julieta.

-Lo hará. No sólo hay en ella arte, arte e instinto consumados; también tiene personalidad; y tú me has dicho a menudo que son las personalidades, no los principios, lo que mueve nuestra época.

- Combinado. No Bristol às oito horas, eu trago o Basil.

-Bien; ¿qué noche iremos?

- Às oito não, Harry, por favor. Às seis e meia. Temos de estar lá antes de subir o pano. Têm de vê-la no primeiro acto, que é quando ela se encontra com o Romeu.

- Às seis e meia! Nem pensar! É como ir tomar chá, ou ler um romance inglês. Tem de ser às sete. Nenhum cavaLheiro janta antes das sete. Você ainda vai estar com o Basil até lá? Ou quer que eu Lhe escreva?

-Déjame ver. Hoy es martes. Quedemos para mañana. Mañana interpreta a Julieta.

-De acuerdo. En el Bristol alas ocho; yo llevaré a Basil. -A las ocho no, Harry, te lo ruego. A las seis y media. Hemos de estar allí antes de que se levante el telón. Has de verla en el primer acto, cuando conoce a Romeo.

- O querido Basil! Há uma semana que não o vejo. Tenho-me portado horrivelmente com ele, tanto mais que me mandou o meu retrato com uma moldura maravilhosa especialmente concebida por ele, e, posto que sinta alguns ciúmes do retrato por ser exactamente um mês mais novo do que eu, devo confessar que me encanta. É talvez preferível que você lhe escreva. Não quero estar a sós com ele.

Diz coisas que me aborrecem. Costuma dar-me bons conselhos.

- As pessoas - comentou Lord Henry, sorrindo -- gostam muito de se desfazer daquilo de que mais precisam.

-¡Seis y media! ¡Qué horas! Sería como tomar una merienda-cena o leer una novela inglesa. Tiene que ser a las siete. Ningún caballero cena antes de las siete. ¿He de ver a Basil de aquí a mañana? ¿O bastará con que le escriba?

-¡El bueno de Basil! Hace una semana que no le pongo la vista encima. Me da muchísima vergüenza, porque me ha enviado el cuadro con un magnífico marco, especialmente diseñado por él y, aunque estoy un poco celoso del retrato por ser un mes más joven que yo, debo admitir que me maravilla verlo. Quizá sea mejor que le escribas, no quiero estar a solas con él. Dice cosas que me fastidian. Se empeña en darme buenos consejos.

A isso costumo chamar generosidade levada ao extremo.

Lord Henry sonrió.

- Mas o Basil é o melhor dos indivíduos, ainda que tenha um pouco de filistino. Descobri isso depois de o ter conhecido a si, Harry.

-A la gente le encanta regalar lo que más necesita. Es lo que yo llamo el insondable abismo de la generosidad.

- O Basil, meu menino, põe na sua obra tudo o que há de fascinante dentro dele. Como consequência só lhe restaram para a vida os seus preconceitos, e princípios, e senso comum. Os únicos artistas de personalidade encantadora que conheci são maus artistas. Os bons artistas existem simplesmente em tudo o que criam e, por conseguinte, são completamente falhos de interesse em tudo o que são. Um grande poeta, um poeta que seja realmente extraordinário, é a menos poética de todas as criaturas. Contudo, os poetas menores são absolutamente fascinantes. Quanto mais medíocres são os seus versos, mais pitorescos parecem. O sinples facto de ter publicado um livro de sonetos de segunda ordem faz de um homem uma pessoa extraordinariamente irresistível. Ele vive a poesia que não consegue escrever. Os outros escrevem a poesía que não ousam realizar.

-No, no; Basil es la mejor de las personas, pero un tanto prosaico. Lo he descubierto a raíz de conocerte, Harry. -Basil, mi querido muchacho, pone en el trabajo todas sus mejores cualidades. La consecuencia es que para la vida sólo le quedan los prejuicios, los principios y el sentido común. Los únicos artistas encantadores que conozco son malos artistas. Los buenos sólo existen en lo que hacen y, en consecuencia, carecen por completo de interés como personas. Un gran poeta, un poeta verdaderamente grande, es la menos poética de todas las criaturas. Pero los poetas de poca monta son absolutamente fascinantes. Cuanto peores son sus rimas, más pintoresco es su aspecto. El simple hecho de haber publicado un libro de sonetos de segunda categoría hace a un hombre absolutamente irresistible.

Vive la poesía que es incapaz de escribir. Los otros escriben la poesía que no se atreven a poner por obra.

- Será mesmo assim, Harry? - perguntou Dorian Gray, pondo no lenço um pouco de perfume de um grande frasco com tampa de ouro que estava em cima da mesa. - Deve ser, se é você que o diz. E agora vou-me embora. Imogénia está à ninha espera. Não se esqueça do dia de amanhã.

Adeus.

-Me pregunto si es realmente así, Harry -dijo Dorian Gray, derramando sobre su pañuelo un poco de perfume de un gran frasco con tapón dorado que estaba sobre la mesa-. Debe de ser, si tú lo dices. Y ahora tengo que marcharme. Imogen me espera. No te olvides de mañana. Hasta la vista.

Quando ele saiu da sala, Lord Henry baixou as suas pesadas pálpebras e começou a meditar. Não havia, certamente, muitas pessoas que lhe tivessem despertado tamanho interesse como Dorian Gray, e, contudo, a exagerada adoração que o rapaz sentia por outra pessoa não lhe causava a mínima angústia ou ciúme. Causava-lhe mesmo satisfação e fazia dele um objecto de estudo mais interessante. Os métodos das ciências naturais tinham-no atraído sempre, mas o vulgar assunto dessas ciências representara-se-Lhe como trivial e sem importância. Por isso, começara por dissecar-se a si mesmo, e acabara por dissecar os outros. A vida humana é que lhe parecia ser a única coisa que valia a pena investigar. Não havia mais nada de valor que se lhe comparasse.

Era certo que, quando se observava a vida no seu singular cadinho de dor e de prazer, não era possível proteger o rosto com uma máscara de vidro, nem impedir que as emanações sulfurosas afectassem o cérebro, toldando a imaginação com fantasias monstruosas e sonhos disformes. Havia venenos tão subtis que para conhecer as suas propriedades era preciso adoecer, experimentando-os.

Cuando Dorian Gray salió de la habitación, lord Henry cerró los ojos y empezó a pensar. Ciertamente, pocas personas le habían interesado tanto como Dorian Gray, si bien la desmedida adoración del muchacho por otra persona no le producía la menor punzada de fastidio ni de celos. Le agradaba, por el contrario. Lo convertía en un objeto de estudio más interesante. Siempre le habían cautivado los métodos de las ciencias naturales, pero no su materia habitual, que le parecía trivial y sin importancia. De manera que había empezado por hacer vivisección consigo mismo y había terminado haciéndosela a otros. La vida humana era lo único que le parecía digno de investigar. Comparado con eso, no había nada que tuviera el menor valor. Aunque si se contemplaba la vida en su curioso crisol de dolor y placer, no era posible cubrir el propio rostro con una máscara de cristal, ni evitar que los vapores sulfúricos alterasen el cerebro y enturbiaran la imaginación con monstruosas fantasías y sueños deformes. Existían venenos tan sutiles que para conocer sus propiedades había que enfermar con ellos. Y enfermedades tan extrañas que era necesario padecerlas para entender su naturaleza. ¡Qué grande, sin embargo, la recompensa recibida!

Havia doenças tão invulgares que tinha que se passar por elas para se compreender a sua natureza. E, porém, a recompensa recebida era enorme! Como o mundo se tornava maravilhoso aos nossos olhos! Observar a lógica rigorosa e singular da paixão e a vida colorida e emocional do intelecto, atentar nos pontos em que se encontravam e se separavam, no ponto de concórdia e no de discórdia... que prazer havia em tudo isso! Não importava o custo que havia que pagar! Nunca era demasiado elevado o preço de qualquer sensação.

¡Qué cosa tan maravillosa llegaba a ser el mundo entero! Percibir la peculiar lógica inflexible de la pasión, y la vida del intelecto emocionalmente coloreada; observar dónde se encontraban y dónde se separaban, en qué punto funcionaban al unísono y en qué punto surgían las discordancias: ¡qué gran placer el así obtenido! ¿Qué importancia tenía el precio? Nunca se pagaba demasiado por las sensaciones.

Ele tinha consciência de que - e, só de pensar nisso, os olhos de um castanho ágata brilhavam de prazer - fora devido a determinadas palavras suas, palavras musícais e proferidas com uma expressão musical, que a alma de Dorian Gray se votara a essa rapariga inocente, que adorava com reverência. Em larga medida, o rapaz era uma criação sua. Tornara-o precoce. Foi um bom resultado. As pessoas vulgares aguardavam que a vida lhes revelasse os seus segredos, mas eram poucos, só os eleitos, aqueles a quem. os mistérios da vida se revelavam antes de se levantar o véu.

Sabía perfectamente -y la idea produjo un brillo de placer en sus ojos de ágata- que gracias a determinadas palabras suyas, palabras musicales dichas de manera musical, el alma de Dorian Gray se había vuelto hacia aquella blanca jovencita y se había inclinado en adoración ante ella. En gran medida aquel muchacho era una creación suya. Había acelerado su madurez, lo que no carecía de importancia.

Às vezes isso acontecia por efeito da arte, e principalmente da arte literária, que tinha uma relação imediata com as paixões e o intelecto. Todavia, por vezes, uma personalidade complexa surgia e assumia o labor da arte, passava a ser, de certo modo, uma verdadeira obra de arte, possuindo a Vida as suas esmeradas obras-primas, tal como a poesia, ou a escultura, ou a pintura o possuem.

La gente ordinaria esperaba a que la vida les desvelase sus secretos, pero para unos pocos, para los elegidos, la vida revelaba sus misterios antes de apartar el velo. Esto era a veces consecuencia del arte, y sobre todo del arte de la literatura, que se ocupa de manera inmediata de las pasiones y de la inteligencia.

Pero de cuando en cuando una personalidad compleja ocupaba su sitio y asumía las funciones del arte, y era, de hecho, a su manera, una verdadera obra de arte, porque, al igual que la poesía, la escultura o la pintura, la vida cuenta con refinadas obras maestras.

O rapaz era, na verdade, permaturo. Ele fazia a sua coLheita enquanto era ainda Primavera. Nele pulsava a paixão da juventude. mas estava a tornar-se consciente de si próprio.

Era maravilhoso observá-lo. A beleza do seu rosto e a da sua alma faziam dele um ser admirável. Não importava como tudo acabava, ou estava destinado a acabar. Ele assemelhava-se a uma dessas graciosas figuras de um cortejo alegórico ou de uma peça, cujas alegrias parecem afastadas de nós, mas cujas tristezas emocionam o nosso sentido de beleza e as chagas são como rosas vermelhas.

Sí; el adolescente era precoz. Estaba recogiendo la cosecha todavía en primavera. Tenía dentro de sí el latido y la pasión de la juventud, pero empezaba a reflexionar sobre todo ello. Era delicioso contemplarlo. Con su hermoso rostro y su alma igualmente hermosa, era un motivo de asombro. Daba lo mismo cómo terminara todo o cómo estuviese destinado a terminar. Era como una de esas figuras llenas de encanto en una cabalgata o en una obra de teatro, cuyas alegrías nos parecen muy lejanas, pero cuyos pesares despiertan nuestro sentido de la belleza, y cuyas heridas son como rosas rojas.

A alma e o corpo, o corpo e a alma - que mistério tinham! Havia sensualidade na alma e o corpo tinha momentos de espiritualidade. Os sentidos podiam aperfeiçoar-se, e o intelecto podia degradar-se. Quem podia dizer onde terminava o impulso carnal, ou começava o impulso espiritual? Como eram triviais as definições arbitrárias de vulgares psicólogos! E, porém, como era difícil decidir entre as pretensões das diversas escolas! Seria a alma uma sombra sentada na casa do pecado? Ou estaria realmente o corpo dentro da alma, como pensava Giordano Bruno? A separação entre o espírito e a matéria constituía um mistério, e a união do espírito com a matéria era também um mistério.

Alma y cuerpo, cuerpo y alma, ¡qué misteriosos eran! Había animalismo en el alma, y el cuerpo tenía sus momentos de espiritualidad. Los sentidos podían refinarse y la inteligencia degradarse. ¿Quién podía decir dónde cesaba el impulso carnal o empezaba el psíquico? ¡Qué superficiales eran las arbitrarias definiciones de los psicólogos ordinarios! Y, sin embargo, ¡qué dificil pronunciarse entre las afirmaciones de las distintas escuelas! ¿Era el alma un fantasma que habitaba en la casa del pecado? ¿O el cuerpo se funde realmente con el alma, como pensaba Giordano Bruno? La separación entre espíritu y materia era un misterio, y la unión del espíritu con la materia también lo era.

Ele começou a interrogar-se se poderíamos alguma vez fazer da psicologia uma ciência tão absoluta que cada pequena primavera da vida nos seria revelada. Nós, por assim dizer, nunca nos entendíamos a nós mesmos e raramente compreendíamos os outros. A experiência não tinha valor ético algum. Era simplesmente o nome que os homens davam aos seus próprios erros. Em regra, os moralistas tinham-na considerado um modo de advertência, tinham reivindicado para ela uma certa eficácia ética na formação do carácter, tinham-na elogiado como uma coisa que nos ensinava o que devíamos seguir e nos mostrava o que devíamos evitar. Mas a experiência não tinha força motriz. Era uma causa tão pouco activa como a própria consciência.

Na realidade, apenas demonstrava que o nosso futuro seria igual ao nosso passado, e que o pecado, que cometeramos apenas uma vez e com relutância, seria cometido muitas vezes e com prazer.

Empezó a preguntarse si alguna vez se conseguiría hacer de la psicología una ciencia tan exacta que fuese capaz de revelarnos hasta el último manantial de la vida. Mientras tanto, siempre nos equivocamos sobre nosotros mismos y raras veces entendemos a los demás. La experiencia carece de valor ético. Es sencillamente el nombre que dan los hombres a sus errores. Por regla general los moralistas la consideran una advertencia, reclaman para ella cierta eficacia ética en la formación del carácter, la alaban como algo que nos enseña qué camino hemos de seguir y qué abismos evitar. Pero la experiencia carece de fuerza determinante. Tiene tan poco de causa activa como la misma conciencia. Lo único que realmente demuestra es que nuestro futuro será igual a nuestro pasado, y que el pecado que hemos cometido una vez, y con amargura, lo repetiremos muchas veces, y con alegría.

Era bem evidente para ele que o método experimental era o único método através do qual se podia chegar a uma análise científica das paixões, e era certo que Dorian Gray era um objecto de estudo à sua medida e parecia prometer resultados ricos e frutificantes. A sua súbita paixão por Sibyl Vane era um fenómeno psicológico com interesse a não desprezar. Era indubitável que a curiosidade dera um grande contributo, a curiosidade e o desejo de experimentar novas sensações não era, porém, uma paixão simples, mas antes uma paixão muito complexa. O que nela havia de instinto puramente sensual da adolescência transformara-se, devido à actividade da imaginação, em algo que ao próprio jovem parecia muito distante dos sentidos, e era tanto mais perigoso por esse mesmo motivo. As paixões que mais violentamente nos tiranizavam eram aquelas acerca de cujas origens nos iludíamos a nós mesmos. As nossas razões mais inconsistentes eram aquelas de cuja natureza tínhamos consciência. Acontecia frequentemente que, quando julgávamos fazer experiências em outras pessoas, estávamos, de facto, a fazer experiências em nós próprios.

Consideraba evidente que el método experimental era el único que le llevaría al análisis científico de las pasiones; Dorian Gray, por su parte, era el sujeto soñado, y parecía prometer abundantes y preciosos resultados. Su repentino e insensato amor por Sybil Vane era un fenómeno psicológico de interés nada desdeñable. Sin duda, la curiosidad tenía mucho que ver con ello; la curiosidad y el deseo de nuevas experiencias; no se trataba, sin embargo, de una pasión simple sino muy complicada. Lo que había en ella de instinto adolescente puramente sensual había sido transformado gracias a la actividad de la imaginación, transformado en algo que al muchacho mismo le parecía alejado de los sentidos y que era, por esa misma razón, mucho más peligroso. Las pasiones sobre cuyo origen uno se engaña son las que más tiranizan. Los motivos que mejor se conocen tienen mucha menos fuerza. Cuántas veces sucedía que, al creer que se experimenta sobre otros, experimentamos en realidad sobre nosotros mismos.

Enquanto Lord Henry especulava sobre estas questões, ouviu-se bater à porta e o seu criado de quarto entrou e fez-lhe lembrar que eram horas de mudar de fato para o jantar. Levantou-se e olhou para fora para a rua. O sol poente tinha chapeado de ouro escarlate as janelas dos andares superiores das casas em frente. As vidraças brilhavam incandescentes como chapas de metal em brasa. O céu parecia uma rosa a esmaecer. Ele lembrou-se da fogosa vida juvenil do seu amigo e interrogava-se como iria tudo terminar.

Un golpe en la puerta sacó a lord Henry de aquella larga ensoñación. Su ayuda de cámara le recordó que tenía que vestirse para cenar. Se levantó y miró hacia la calle. El ocaso había deshecho en dorados escarlatas las ventanas altas de las casas de enfrente. Los cristales brillaban como láminas de metal al rojo vivo. Arriba, el cielo era como una rosa marchita. Lord Henry pensó en su amigo, en aquella vida coloreada por todos los fuegos de la juventud, y se preguntó cómo terminaría todo.

Quando chegou a casa, eram aproximadamente doze horas e trinta, viu um telegrama em cima da mesa do vestíbulo. Ao abri-lo, viu que era de Dorian Gray. O telegrama informava-o de que ele estava noivo de Sibyl Vane.

Cuando regresó a su casa, a eso de las doce y media, vio un telegrama sobre la mesa del vestíbulo. Al abrirlo descubrió que era de Dorian Gray. Le anunciaba que se había prometido con la señorita Sibyl Vane.