O Retrato De Dorian Gray.  Oscar Wilde
Capítulo 8. (Chapitre 8. )
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Passava muito do meio-dia quando acordou. Já várias vezes o criado entrara sorrateiramente no quarto, pé ante pé, para ver se ele estava acordado, magicando por que motivo o seu jovem patrão estaria a dormir até tão tarde.

Ouviu finalmente tocar a campainha. Victor entrou no quarto de mansinho, levando uma chávena de chá e uma rima de cartas sobre um pequeno tabuleiro de antiga porcelana de Sèvres, e afastou as cortinas de cetim cor de azeitona, forradas de um azul cintilante, que cobriam as três altas janelas.

Midi avait sonné depuis longtemps, quand il s’éveilla. Son valet était venu plu-sieurs fois sur la pointe du pied dans la chambre voir s’il dormait encore, et s’était demandé ce qui pouvait bien retenir si tard au lit son jeune maître. Finalement, Vic-tor entendit retentir le timbre et il arriva doucement, portant une tasse de thé et un paquet de lettres sur un petit plateau de vieux Sèvres chinois ; il tira les rideaux de satin olive, aux dessins bleus, tendus devant les trois grandes fenêtres...

– Monsieur a bien dormi ce matin, remarqua-t-il souriant.

- Vejo que monsieur dormiu bem esta manhã - disse ele, sorrindo.

– Quelle heure est-il, Victor, demanda Dorian Gray, paresseusement.

- Que horas são, Victor? - perguntou Dorian Gray, ainda sonolento.

– Une heure un quart, Monsieur.

- Uma hora e um quarto, Monsieur.

Tão tarde! Sentou-se na cama e, depois de uns goles de chá, pegou nas cartas. Uma era de Lord Henry e tinha sido entregue em mão essa manhã. Hesitou um instante, depois pô-la de lado. Abriu as outras com indiferença. Continham a habitual colecção de cartões, convites para jantar, bilhetes para exposições privadas, programas de concertos de caridade, e outras coisas do género, que chovem todas as manhãs sobre os jovens da alta sociedade durante a temporada. Havia ainda uma factura bastante avultada, referente a um conjunto de toucador Luís XV - com embutidos de prata, e que ainda não se atrevera a enviar aos seus tutores, pessoas extremamente antiquadas que não se apercebiam que vivemos numa época em que as coisas inúteis são as nossas únicas necessidades, havia várias mensagens, redigidas com a máxima cortesia, dos agiotas de Jermon Street, que se ofereciam a adiantar a quantia desejada em qualquer momento e a juros extremamente razoáveis.

Si tard !... Il s’assit dans son lit, et après avoir bu un peu de thé, se mit à regar-der les lettres ; l’une d’elles était de lord Henry, et avait été apportée le matin même. Il hésita un moment et la mit de côté. Il ouvrit les autres, nonchalamment. Elles contenaient la collection ordinaire de cartes, d’invitations à dîner, de billets pour des expositions privées, des programmes de concerts de charité, et tout ce que peut rece-voir un jeune homme à la mode chaque matin, durant la saison. Il trouva une lourde facture, pour un nécessaire de toilette Louis XV en argent ciselé, qu’il n’avait pas encore eu le courage d’envoyer à ses tuteurs, gens de jadis qui ne comprenaient point que nous vivons dans un temps où les choses inutiles sont les seules choses nécessai-res ; il parcourut encore quelques courtoises propositions de prêteurs d’argent de Jermyn Street, qui s’offraient à lui avancer n’importe quelle somme aussitôt qu’il le jugerait bon et aux taux les plus raisonnables.

Uns dez minutos depois, levantou-se e, envolvendo-se num roupão de caxemira de lã lavrado a seda, passou à casa de banho de pavimento de ónix. A água fria refrescou-o depois de um sono tão prolongado. Parecia haver esquecido tudo o que se passara consigo. Assaltou-o uma ou duas vezes a vaga sensação de ter participado numa estranha tragédia mas tudo isso envolvido pela atmosfera irreal de um sonho.

Dix minutes après, il se leva, mit une robe de chambre en cachemire brodée de soie et passa dans la salle de bains, pavée en onyx. L’eau froide le ranima après ce long sommeil ; il sembla avoir oublié tout ce par quoi il venait de passer... Une obs-cure sensation d’avoir pris part à quelque étrange tragédie, lui traversa l’esprit une fois ou deux, mais comme entourée de l’irréalité d’un rêve...

Assim que se vestiu, passou à biblioteca para tomar um ligeiro pequeno-almoço à francesa, que havia sido servido numa pequena mesa redonda próximo da janela aberta. Estava um dia excepcional. O ar tépido parecia impregnado de especiarias. Uma abelha voou para dentro da sala e zumbiu em redor da taça dragão azul cheia de rosas amarelas, que se encontrava à sua frente. Sentia-se completamente feliz.

Aussitôt qu’il fut habillé, il entra dans la bibliothèque et s’assit devant un léger déjeuner à la française, servi sur une petite table mise près de la fenêtre ouverte.

Il faisait un temps délicieux ; l’air chaud paraissait chargé d’épices... Une abeille entra et bourdonna autour du bol bleu-dragon, rempli de roses d’un jaune de soufre qui était posé devant lui. Il se sentit parfaitement heureux.

Ses regards tout à coup, tombèrent sur le paravent qu’il avait placé devant le portrait et il tressaillit...

De repente, o olhar incidiu no biombo que havia colocado em frente do retrato, e estremeceu.

– Monsieur a froid, demanda le valet en servant une omelette. Je vais fermer la fenêtre...

- Muito frio, Monsieur? - perguntou-lhe o criado, servindo uma omeleta. - Fecho a janela?

Dorian secoua la tête.

– Je n’ai pas froid, murmura-t-il.

Dorian abanou a cabeça.

- Não tenho frio - disse num murmúrio.

Era mesmo verdade? Havia sido real a alteração do retrato? Ou fora apenas a sua imaginação que o levara a ver uma expressão de maldade onde havia uma expressão de alegria? Certamente que uma tela pintada não podia mudar! Era absurdo. Ora aí estava uma bela história para contar um dia a Basil, e que o havia de fazer sorrir.

Était-ce vrai ? Le portrait avait-il réellement changé ? Ou était-ce simplement un effet de sa propre imagination qui lui avait montré une expression de cruauté, là où avait été peinte une expression de joie. Sûrement, une toile peinte ne pouvait ainsi s’altérer ? Cette pensée était absurde. Ça serait un jour une bonne histoire à raconter à Basil ; elle l’amuserait.

E, mesmo assim, como era nítida a lembrança de tudo o que se passara! Primeiro, na obscuridade da penumbra, e depois à luz clara do amanhecer, vira o ricto de crueldade nos lábios contorcidos. Quase temia que o criado abandonasse a sala. Sabia que, logo que ficasse só, não resistia e examinaria o retrato. Temia a certeza. Quando o criado, após ter trazido o café e os cigarros, se voltou para sair, sentiu uma vontade irresistível de lhe dizer que ficasse. No mesmo instante em que a porta se fechava, chamou-o de novo.

O homem parou, aguardando ordens.

Cependant, le souvenir lui en était encore présent... D’abord, dans la pénom-bre, ensuite dans la pleine clarté, il l’avait vue, cette touche de cruauté autour de ses lèvres tourmentées... Il craignit presque que le valet quittât la chambre, car il savait, il savait qu’il courrait encore contempler le portrait, sitôt seul... Il en était sûr.

Quand le domestique, après avoir servi le café et les cigarettes, se dirigea vers la porte, il se sentit un violent désir de lui dire de rester. Comme la porte se fermait derrière lui, il le rappela... Le domestique demeurait immobile, attendant les ordres... Dorian le regarda.

Dorian olhou-o por um breve instante.

- Não estou em casa para ninguém, Victor - disse-Lhe, dando um suspiro.

– Je n’y suis pour personne, Victor, dit-il avec un soupir.

O criado fez uma vénia e retirou-se.

Então, Dorian ergueu-se da mesa, acendeu um cigarro e estendeu-se num sofá sumptuosamente almofadado que estava de frente para o biombo. O biombo era antigo, de couro dourado de Espanha, gravado e lavrado com motivos Luís XIV- um tanto floreados. Examinou-o com alguma curiosidade, interrogando-se se alguma vez teria ocultado o segredo da vida de um homem.

L’homme s’inclina et disparut... Alors, il se leva de table, alluma une cigarette, et s’étendit sur un divan aux luxueux coussins placé en face du paravent ; il observait curieusement cet objet, ce paravent vétuste, fait de cuir de Cordoue doré, frappé et ouvré sur un modèle fleuri, datant de Louis XIV, se demandant s’il lui était jamais arrivé encore de cacher le secret de la vie d’un homme.

Afinal, deveria desviá-lo para o lado? E por que não havía de o deixar onde estava? De que valia saber? Se aquilo era verdade, era terrível. Se não era verdade, porquê preocupar-se? Mas o que aconteceria se, por um acaso do destino ou uma fatalidade, outros olhos que não os seus espreitassem por detrás do biombo e vissem a medonha transformação? Que faria se Basil Hallward viesse pedir-lhe para ver o seu quadro? De certeza que Basil Lhe iria pedir isso.

Enlèverait-il le portrait après tout ? Pourquoi pas le laisser là ? À quoi bon sa-voir ? Si c’était vrai, c’était terrible ?... Sinon, cela ne valait la peine que l’on s’en oc-cupât...

Mais si, par un hasard malheureux, d’autres yeux que les siens découvraient le portrait et en constataient l’horrible changement ?... Que ferait-il, si Basil Hallward venait et demandait à revoir son propre tableau. Basil le ferait sûrement.

Il lui fallait examiner à nouveau la toile... Tout, plutôt que cet infernal état de doute !...

Não, aquilo tinha de ser examinado, e imediatamente. Fosse o que fosse seria preferível àquela dúvida atroz.

Il se leva et alla fermer les deux portes. Au moins, il serait seul à contempler le masque de sa honte... Alors il tira le paravent et face à face se regarda... Oui, c’était vrai ! le portrait avait changé !...

Levantou-se e fechou à chave as duas portas. Pelo menos estaria só quando enfrentasse a máscara da sua vergonha. Afastou então o biombo e ficou frente a frente consigo mesmo. Era absolutamente verdade. O retrato tinha mudado.

Como muitas vezes se havia de lembrar mais tarde, e sempre com profundo espanto, começou por fixar o retrato com um interesse quase científico. Afigurava-se-lhe incrível que tal mudança tivesse ocorrido. E, todavia, era um facto irrefutável. Haveria alguma misteriosa afinidade entre os átomos químicos que assumiam forma e cor na tela e a alma que dentro de si existia? Seria possível que eles tivessem a percepção de tudo o que a alma pensava? Que dessem realidade ao que ela sonhava? Ou existiria outra razão mais terrível ainda? Estremeceu, atemorizado, e voltou a estender-se no sofá, fitando o retrato numa náusea de horror.

Comme souvent il se le rappela plus tard, et toujours non sans étonnement, il se trouva qu’il examinait le portrait avec un sentiment indéfinissable d’intérêt scienti-fique. Qu’un pareil changement fut arrivé, cela lui semblait impossible... et cependant cela était !... Y avait-il quelques subtiles affinités entre les atomes chimiques mêlés en formes et en couleurs sur la toile, et l’âme qu’elle renfermait ? Se pouvait-il qu’ils l’eussent réalisé, ce que cette âme avait pensé ; que ce qu’elle rêva, ils l’eussent fait vrai ? N’y avait-il dans cela quelque autre et... terrible raison ? Il frissonna, effrayé... Retournant vers le divan, il s’y laissa tomber, regardant, hagard, le portrait en frémis-sant d’horreur !...

Uma coisa, porém, reconhecia que o retrato fizera por ele. Levara-o a aperceber-se de quão injusto e cruel fora para com Sibyl Vane. Ainda estava a tempo de reparar o mal que fizera. Ela ainda podia ser sua esposa. O amor irreal e egoísta que sentira antes submeter-se-ia a uma influência superior, transformar-se-ia numa paixão mais nobre, e o seu retrato pintado por Basil Hallward servir-lhe-ia de guia ao longo da vida, seria para si o que as coisas sagradas são para algumas pessoas, e o que a consciência é para outras, e o que o temor a Deus é para todos nós. Havia narcóticos para o remorso, havia drogas para fazerem adormecer os princípios morais. Mas ele tinha sempre presente um símbolo visível da degradação do pecado, um sinal imperecível da ruína que os homens infligiam às suas almas.

Cette chose avait eu, toutefois, un effet sur lui... Il devenait conscient de son in-justice et de sa cruauté envers Sibyl Vane... Il n’était pas trop tard pour réparer ses torts.

Elle pouvait encore devenir sa femme. Son égoïste amour irréel céderait à quelque plus haute influence, se transformerait en une plus noble passion, et son portrait par Basil Hallward lui serait un guide à travers la vie, lui serait ce qu’est la sainteté à certains, la conscience à d’autres et la crainte de Dieu à tous... Il y a des opiums pour les remords, des narcotiques moraux pour l’esprit.

Oui, cela était un symbole visible, de la dégradation qu’amenait le péché !... C’était un signe avertisseur des désastres prochains que les hommes préparent à leurs âmes !

Trois heures sonnèrent, puis quatre. La demie tinta son double carillon... Do-rian Gray ne bougeait pas.

Bateram as três horas, e as quatro, e soou a dupla badalada da meia hora, sem que, entretanto, Dorian Gray esboçasse qualquer movimento. Procurava juntar os fios escarlates da sua vida e entrelaçá-los, encontrar o caminho no labirinto sanguíneo de paixões em que se perdia. Não sabia o que fazer, nem o que pensar. Por fim, dirigiu-se para a mesa e escreveu uma carta apaixonada à rapariga que amara, a suplicar-Lhe que lhe perdoasse, e acusando-se de estar louco. Encheu páginas e páginas de veementes protestos de arrependimento e de palavras, ainda mais veementes, expressando a sua mágoa. A auto-recriminação é um luxo.

Il essayait de réunir les fils vermeils de sa vie et de les tresser ensemble ; il ten-tait de trouver son chemin à travers le labyrinthe d’ardente passion dans lequel il errait. Il ne savait quoi faire, quoi penser ?... Enfin, il se dirigea vers la table et rédigea une lettre passionnée à la jeune fille qu’il avait aimée, implorant son pardon, et s’accusant de démence.

Il couvrit des pages de mots de chagrin furieux, suivis de plus furieux cris de douleur...

Il y a une sorte de volupté à se faire des reproches... Quand nous nous blâmons, nous pensons que personne autre n’a le droit de nous blâmer. C’est la confession, non le prêtre, qui nous donne l’absolution. Quand Dorian eût terminé sa lettre, il se sentit pardonné.

Quando nos autocensuramos, temos a sensação de que mais ninguém tem o direito de nos censurar. É a confissão, e não o sacerdote, que nos dá a absolvição. Depois de ter terminado a carta, Dorian sentiu-se perdoado.

On frappa tout à coup à la porte et il entendit en dehors la voix de lord Henry :

– Mon cher ami, il faut que je vous parle. Laissez-moi entrer. Je ne puis sup-porter de vous voir ainsi barricadé...

De repente bateram à porta, e ouviu do outro lado a voz de Lord Henry.

Il ne répondit pas et resta sans faire aucun mouvement. On cogna à nouveau, puis très fort...

- Meu rapaz, preciso de o ver. Deixe-me entrar imediatamente. Não suporto que se enclausure assim.

A princípio não deu resposta alguma, e permaneceu em absoluto silêncio. As pancadas na porta continuavam, tornando-se cada vez mais fortes.

Ne valait-il pas mieux laisser entrer lord Henry et lui expliquer le nouveau genre de vie qu’il allait mener, se quereller avec lui si cela devenait nécessaire, le quitter, si cet inévitable parti s’imposait.

Bem, era preferível deixar entrar Lord Henry, e explicar-lhe a nova vida que ia levar, e discutir com ele se fosse necessário discutir, e separarem-se se a separação fosse inevitável. Levantou-se lesto, ocultou apressadamente o retrato com o biombo e abriu a porta.

Il se dressa, alla en hâte tirer le paravent sur le portrait, et ôta le verrou de la porte.

– Je suis vraiment fâché de mon insistance, Dorian, dit lord Henry en entrant. Mais vous ne devez pas trop songer à cela.

– À Sibyl Vane, voulez-vous dire, interrogea le jeune homme.

- Lamento muito o que aconteceu, Dorian - disse Lord Henry, ao entrar. - Mas não pense muito no assunto.

- Está a referir-se a Sibyl Vane? - perguntou o rapaz.

– Naturellement, répondit lord Henry s’asseyant dans un fauteuil, en retirant lentement ses gants jaunes... C’est terrible, à un certain point de vue mais ce n’est pas votre faute. Dites-moi, est-ce que vous êtes allé dans les coulisses après la pièce ?

- Claro que estou - respondeu Lord Henry, afundando-se numa poltrona e descalçando vagarosamente as luvas amarelas. - De um certo ponto de vista, é horrível, mas você não teve culpa. Foi ter com ela ao camarim quando a peça terminou?

- Fui.

- Eu tinha a certeza. E fez-lhe alguma cena?

– Oui...

– J’en étais sûr. Vous lui fîtes une scène ?

– Je fus brutal, Harry, parfaitement brutal. Mais c’est fini maintenant. Je ne suis pas fâché que cela soit arrivé. Cela m’a appris à me mieux connaître.

- Fui brutal, Harry, absolutamente brutal. Mas já passou. Não lamento nada do que aconteceu. Ensinou-me a conhecer-me melhor.

– Ah ! Dorian, je suis content que vous preniez ça de cette façon. J’avais peur de vous voir plongé dans le remords, et vous arrachant vos beaux cheveux bouclés...

- Ah, Dorian, muito me alegra saber que encara as coisas dessa maneira! Receava vir encontrá-lo num poço de remorsos, a arrancar esse seu lindo cabelo anelado.

- Ultrapassei já tudo isso - disse Dorian, abanando a cabeça e sorrindo. - Sinto-me agora completamente feliz. Em primeiro lugar, sei o que é a consciência. Não é nada daquilo que você me dizia. É a coisa mais sublime que existe dentro de nós. Não seja sarcástico a respeito disto, Harry, nunca mais, pelo menos, não o seja na minha presença. Quero ser bom. Não suporto a ideia de possuir uma alma hedionda.

– Ah, non, j’en ai fini !... dit Dorian, secouant la tête en souriant... Je suis à pré-sent parfaitement heureux... Je sais ce qu’est la conscience, pour commencer ; ce n’est pas ce que vous m’aviez dit ; c’est la plus divine chose qui soit en nous... Ne vous en moquez plus, Harry, au moins devant moi. J’ai besoin d’être bon... Je ne puis me faire à l’idée d’avoir une vilaine âme...

– Une charmante base artistique pour la morale, Dorian. Je vous en félicite, mais par quoi allez-vous commencer.

– Mais, par épouser Sibyl Vane...

- Ora aqui temos um encantador fundamento artístico para a ética, Dorian! Os meus parabéns. E pode saber-se como vai começar?

– Épouser Sibyl Vane ! s’écria lord Henry, sursautant et le regardant avec un étonnement perplexe. Mais, mon cher Dorian...

- Casando com Sibyl Vane.

- Casar com Sibyl Vane! - exclamou Lord Henry, pondo-se de pé e fitando-o, profundamente estupefacto - Mas, meu caro Dorian...

- Sim, Harry, já sei o que me vai dizer. Certamente coisas horríveis acerca do casamento. Não diga.

– Oui, Harry. Je sais ce que vous m’allez dire : un éreintement du mariage ; ne le développez pas. Ne me dites plus rien de nouveau là-dessus. J’ai offert, il y a deux jours, à Sibyl Vane de l’épouser ; je ne veux point lui manquer de parole : elle sera ma femme...

Nem sequer volte a dizer-me as coisas do costume. Há dois dias pedi a Sibyl que casasse comigo. Não vou faltar à minha palavra.

– Votre femme, Dorian !... N’avez-vous donc pas reçu ma lettre ?... Je vous ai écrit ce matin et vous ai fait tenir la lettre par mon domestique.

Ela tem de ser minha esposa!

- Sua esposa! Mas, Dorian. Não recebeu a minha carta?

Escrevi-lha esta manhã e mandei-a pelo meu criado.

- A sua carta? Ah, sim, já me lembro. Ainda não a li, Harry. Receei que tivesse alguma coisa de que não gostasse.

– Votre lettre ?... Ah ! oui, je me souviens ! Je ne l’ai pas encore lue, Harry. Je craignais d’y trouver quelque chose qui me ferait de la peine. Vous m’empoisonnez la vie avec vos épigrammes.

– Vous ne connaissez donc rien ?...

Você retalha a vida em pedacinhos com o seus epigramas.

– Que voulez-vous dire ?...

- Então você não sabe nada?

- Que quer dizer com isso?

Lord Henry traversa la chambre, et s’asseyant à côté de Dorian Gray, lui prit les deux mains dans les siennes, et les lui serrant étroitement :

Lord Henry atravessou a sala e, sentando-se junto de Dorian Gray, pegou-Lhe nas mãos e apertou-as com força.

- Dorian - disse então -, a minha carta... não se assuste.

– Dorian, lui dit-il, ma lettre – ne vous effrayez pas ! – vous informait de la mort de Sibyl Vane !...

era para lhe comunicar que Sibyl Vane morreu.

Un cri de douleur jaillit des lèvres de l’adolescent ; il bondit sur ses pieds, s’arrachant de l’étreinte de lord Henry :

Um brado de dor irrompeu dos lábios do rapaz, que se levantou de um salto, retirando violentamente as mãos das de Lord Henry.

– Morte !... Sibyl morte !... Ce n’est pas vrai !... C’est un horrible mensonge ! Comment osez-vous dire cela ?

- Morreu! Sibyl morreu! Não é verdade! É uma mentira monstruosa! Como ousa dizer tal coisa?

- É realmente verdade, Dorian - disse Lord Henry, gravemente. - Vem publicado em todos os matutinos. Escrevi a pedir-Lhe que não recebesse ninguém antes de eu chegar.

Evidentemente que vai haver um inquérito, e é preciso que você não esteja envolvido. Estas coisas dão prestígio a um homem em Paris. Mas em Londres, as pessoas têm tantos preconceitos.

– C’est parfaitement vrai, Dorian, dit gravement lord Henry. C’est dans les journaux de ce matin. Je vous écrivais pour vous dire de ne recevoir personne jusqu’à mon arrivée. Il y aura une enquête dans laquelle il ne faut pas que vous soyez mêlé. Des choses comme celles-là, mettent un homme à la mode à Paris, mais à Londres on a tant de préjugés... Ici, on ne débute jamais avec un scandale ; on réserve cela pour donner un intérêt à ses vieux jours. J’aime à croire qu’on ne connaît pas votre nom au théâtre ; s’il en est ainsi, tout va bien. Personne ne vous vit aux alentours de sa loge ? Ceci est de toute importance ?

Aqui, nunca devemos fazer a nossa estreia na sociedade com um escândalo. Devíamos deixar isso de reserva para dar algum interesse à nossa velhice. Bem, não conhecem o seu nome no teatro, creio. Se assim for, não há problema. Alguém o viu a dirigir-se para o camarim dela? Este é um ponto importante. Durante álguns instantes, Dorian não respondeu. Ficara aturdido pelo horror da notícia. Por fim, balbuciou numa voz abafada.

- Harry, você falou em inquérito? O que quis dizer com isso?

Dorian ne répondit point pendant quelques instants. Il était terrassé d’épouvante... Il balbutia enfin d’une voix étouffée :

– Harry, vous parlez d’enquête ? Que voulez-vous dire ? Sibyl aurait-elle ?... Oh ! Harry, je ne veux pas y penser ! Mais parlez vite ! Dites-moi tout !...

Será que Sibyl?... Oh, Harry, não posso suportar tal ideia...

Mas não demore. Conte-me tudo imediatamente.

- Não duvido de que não se tratou de um acidente, Dorian, embora seja essa a versão destinada ao público. Segundo consta, quando ela ia a sair do teatro com a mãe, era aproximadamente meia-noite e meia, disse que se esquecera de uma coisa. Esperaram algum tempo, mas ela não regressou. Acabaram por encontrá-la morta no chão do camarim. Tinha engolido qualquer coisa por engano, uma dessas coisas horríveis que usam no teatro. Não sei o que era, mas continha ácido prússico ou alvaiade. Eu diria que era ácido prússico, pois parece que teve morte instantânea.

– Je n’ai aucun doute ; ce n’est pas un accident, Dorian, quoique le public puisse le croire. Il paraîtrait que lorsqu’elle allait quitter le théâtre avec sa mère, vers minuit et demie environ, elle dit qu’elle avait oublié quelque chose chez elle... On l’attendit quelque temps, mais elle ne redescendait point. On monta et on la trouva morte sur le plancher de sa loge. Elle avait avalé quelque chose par erreur, quelque chose de terrible dont on fait usage dans les théâtres. Je ne sais ce que c’était, mais il devait y avoir de l’acide prussique ou du blanc de céruse là-dedans. Je croirais volon-tiers à de l’acide prussique, car elle semble être morte instantanément...

– Harry, Harry, c’est terrible ! cria le jeune homme.

- Harry, Harry, que coisa horrível! - exclamou o rapaz.

- Sim, realmente é muito trágico, mas você não deve deixar-se envolver. Sei pelo Standard que ela tinha dezassete anos. Supunha que fosse ainda mais nova. Tinha um ar tão infantil e parecia saber tão pouco da arte de representar. Dorian, não deixe que isto lhe afecte os nervos. Tem de vir jantar comigo, e a seguir vamos à Ópera. Esta noite canta a Patti e vai lá estar toda a gente. Você pode ir até ao camarote da minha irmã. Ela vai ter por companhia umas mulheres muito elegantes.

– Oui, c’est vraiment tragique, c’est sûr, mais il ne faut pas que vous y soyez mêlé. J’ai vu dans le Standard qu’elle avait dix-sept ans ; j’aurais cru qu’elle était plus jeune, elle avait l’air d’une enfant et savait si peu jouer... Dorian, ne vous frappez pas !... Venez dîner avec moi, et après nous irons à l’Opéra. La Patti joue ce soir, et tout le monde sera là. Vous viendrez dans la loge de ma sœur ; il s’y trouvera quelques jolies femmes...

- Então fui eu quem matou Sibyl Vane - disse Dorian Gray, como que falando consigo mesmo -, e foi tão verdade como se Lhe tivesse golpeado com uma faca a delicada garganta. No entanto, as rosas não deixam de ser menos belas por causa disso. As aves continuam a cantar alegremente no meu jardim. E esta noite devo jantar consigo, e depois vou à Ópera, e acabo por ir cear em qualquer sítio, suponho. Que extraordinariamente dramática é a vida! Se tivesse lido isto num livro, Harry, creio que teria chorado. Não sei porquê, mas agora que aconteceu de facto, e comigo, parece espantoso demais para me provocar lágrimas: Aqui tem a primeira carta de amor apaixonada que escrevi na minha vida. Como é estranho que a minha primeira carta de amor apaixonada fosse dirigida a uma rapariga morta.

– Ainsi, j’ai tué Sibyl Vane, murmurait Dorian, je l’ai tuée aussi sûrement que si j’avais coupé sa petite gorge avec un couteau... et cependant les roses pour cela n’en sont pas moins belles... les oiseaux n’en chanteront pas moins dans mon jardin... Et ce soir, je vais aller dîner avec vous : j’irai de là à l’Opéra, et, sans doute, j’irai souper quelque part ensuite... Combien la vie est puissamment dramatique !... Si j’avais lu cela dans un livre, Harry, je pense que j’en aurais pleuré... Maintenant que cela arrive, et à moi, cela me semble beaucoup trop stupéfiant pour en pleurer !... Tenez, voici la première lettre d’amour passionnée que j’ai jamais écrite de ma vie ; ne trouvez-vous pas étrange que cette première lettre d’amour soit adressée à une fille morte !... Peu-vent-elles sentir, ces choses blanches et silencieuses que nous appelons les morts ? Sibyl ! Peut-elle sentir, savoir, écouter ? Oh ! Harry, comme je l’aimais ! Il me semble qu’il y a des années !...

Será que esses seres brancos e silenciosos a que chamamos mortos podem sentir? Sibyl! Poderá sentir, saber ou ouvir? Oh, Harry, como eu a amava! Tenho a sensação de que se passou há anos. Ela era tudo para mim. Depois aconteceu aquela noite fatídica. foi realmente apenas na noite passada?. em que ela representou tão mal, que o meu coração ficou quase destroçado. Ela deu-me todas as justificações.

Foi uma cena terrivelmente patética. Mas não me comovi nem um pouco. Achei-a fútil. Aconteceu então, de repente, uma coisa que me atemorizou. Não lhe posso dizer o que foi, mas foi algo terrível. Eu disse que voltaria para ela, sentia que procedera mal. E agora ela está morta. Meu Deus! Meu Deus! Harry, que hei-de fazer? Você ignora o perigo em que me encontro, e não há nada que me possa valer. Ela tê-lo-ia feito. Não tinha o direito de se matar. Foi um acto de egoísmo.

« Elle m’était tout... Vint cet affreux soir – était-ce la nuit dernière ? – où elle joua si mal, et mon cœur se brisa ! Elle m’expliqua pourquoi ? Ce fut horriblement touchant ! Je ne fus pas ému : je la croyais sotte !... Quelque chose arriva soudain qui m’épouvanta ! Je ne puis vous dire ce que ce fut, mais ce fut terrible... Je voulus re-tourner à elle ; je sentis que je m’étais mal conduit... et maintenant elle est morte ! Mon Dieu ! Mon Dieu ! Harry, que dois-je faire ? Vous savez dans quel danger je suis, et rien n’est là pour m’en garder ! Elle aurait fait cela pour moi ! Elle n’avait point le droit de se tuer... Ce fut égoïste de sa part.

- Meu caro Dorian - respondeu Lord Henry, tirando um cigarro da cigarreira e puxando de uma fosforeira dourada -, a única maneira de uma mulher poder alguma vez regenerar um homem consiste em aborrecê-lo tanto, que ele perde todo o interesse que possa ter pela vida. Você seria um desgraçado se tivesse casado com essa rapariga. É certo que teria sido atencioso para com ela. Podemos ser sempre atenciosos com as pessoas por quem não nos interessamos. Mas em pouco tempo ela haveria de chegar à conclusão de que você Lhe era completamente indiferente.

– Mon cher Dorian, répondit lord Henry, prenant une cigarette et tirant de sa poche une boîte d’allumettes dorée, la seule manière dont une femme puisse réformer un homme est de l’importuner de telle sorte qu’il perd tout intérêt possible à l’existence. Si vous aviez épousé cette jeune fille, vous auriez été malheureux ; vous l’auriez traitée gentiment ; on peut toujours être bon envers les personnes desquelles on attend rien. Mais elle aurait bientôt découvert que vous lui étiez absolument indif-férent, et quand une femme a découvert cela de son mari, ou elle se fagote terrible-ment, ou bien elle porte de pimpants chapeaux que paie le mari... d’une autre femme. Je ne dis rien de l’adultère, qui aurait pu être abject, qu’en somme je n’aurais pas permis, mais je vous assure en tous les cas, que tout cela eut été un parfait malenten-du.

E quando uma mulher chega a essa conclusão a respeito do marido, ou se torna pavorosamente desmazelada, ou passa a usar toucas muito elegantes pagas pelo marido de outra mulher. Nem sequer falo do erro social, que teria sido humilhante, e que, evidentemente, eu não teria permitido.

Mas pode ter a certeza de que tudo isso teria sido um completo fracasso.

- Creio que sim - murmurou o rapaz, passeando nervosamente pela sala, horrivelmente pálido. - Mas pensei que esse era o meu dever. Não tenho culpa de que esta terrível tragédia me tenha impedido de fazer o que era correcto.

– C’est possible, murmura le jeune homme horriblement pâle, en marchant de long en large dans la chambre ; mais je pensais que cela était de mon devoir ; ce n’est point ma faute si ce drame terrible m’a empêché de faire ce que je croyais juste. Je me souviens que vous m’avez dit une fois, qu’il pesait une fatalité sur les bonnes résolu-tions, qu’on les prenait toujours trop tard. La mienne en est un exemple...

Recordo-me de me ter dito uma vez que há uma fatalidade nas boas resoluções: são tomadas sempre demasiado tarde. As minhas foram-no, de certeza.

- As boas resoluções são sempre tentativas inúteis para se interferir nas leis científicas. Na sua origem está a pura vaidade. O seu resultado é um zero absoluto. Dão-nos, uma vez ou outra, algumas daquelas estéreis emoções voluptuosas que para os fracos têm um certo encanto. É tudo o que se pode dizer delas. São apenas cheques que passamos sobre um banco onde não temos conta aberta.

– Les bonnes résolutions ne peuvent qu’inutilement intervenir contre les lois scientifiques. Leur origine est de pure vanité et leur résultat est nul. De temps à autre, elles nous donnent quelques luxueuses émotions stériles qui possèdent, pour les faibles, un certain charme. Voilà ce que l’on peut en déduire. On peut les comparer à des chèques qu’un homme tirerait sur une banque où il n’aurait point de compte ouvert.

– Harry, s’écria Dorian Gray venant s’asseoir près de lui, pourquoi est-ce que je ne puis sentir cette tragédie comme je voudrais le faire ; je ne suis pas sans cœur, n’est-ce pas ?

- Harry - exclamou Dorian Gray, aproximando-se dele e sentando-se a seu lado -, por que será que não consigo sentir esta tragédia tão profundamente como quero? Não me considero desumano. Acha que sou?

– Vous avez fait trop de folies durant la dernière quinzaine pour qu’il vous soit permis de vous croire ainsi, Dorian, répondit lord Henry avec son doux et mélancoli-que sourire.

- Os disparates que fez nestas duas últimas semanas foram tantos que nem tem direito a esse atributo - respondeu Lord Henry, com o seu sorriso doce e melancólico.

Le jeune homme fronça les sourcils.

O rapaz franziu o sobrolho.

- Não me agrada essa explicação, Harry - retorquiu ele -, mas agrada-me saber que não me considera desumano. Não sou nada disso: Sei que não sou. Porém, sou obrigado a admitir que isto que aconteceu não me afecta como deveria. Vejo-o como um final fantástico de uma peça fantástica. Possui toda a terrível beleza de uma tragédia grega, uma tragédia em que desempenhei um papel importante, mas da qual saí incólume.

– Je n’aime point cette explication, Harry, reprit-il, mais cela me fait plaisir d’apprendre que vous ne me croyez pas sans cœur ; je ne le suis vraiment pas, je le sais... Et cependant je me rends compte que je ne suis affecté par cette chose comme je le devrais être ; elle me semble simplement être le merveilleux épilogue d’un mer-veilleux drame. Cela a toute la beauté terrible d’une tragédie grecque, une tragédie dans laquelle j’ai pris une grande part, mais dans laquelle je ne fus point blessé.

- É uma questão interessante - disse Lord Henry, que tinha um singular prazer em tirar proveito do egotismo inconsciente do rapaz -, uma questão extremamente importante. Imagino que a verdadeira explicação é a seguinte.

Sucede frequentemente que as tragédias da vida real ocorrem de um modo tão pouco artístico que somos afectados pela sua violência brutal, absoluta incoerência, absurda carência de significado e total falta de estilo. Afectam-nos exactamente do mesmo modo que a grosseria. Transmitem-nos uma mera sensação de força bruta, pelo que nos sentimos revoltados. Por vezes, porém, surge na nossa vida uma tragédia que possui elementos artísticos de beleza. Se esses elementos de beleza são reais, todo o dramatismo acaba por apelar para o nosso sentido de efeito dramático.

– Oui, en vérité, c’est une question intéressante, dit lord Henry qui trouvait un plaisir exquis à jouer sur l’égoïsme inconscient de l’adolescent, une question extrê-mement intéressante... Je m’imagine que la seule explication en est celle-ci. Il arrive souvent que les véritables tragédies de la vie se passent d’une manière si peu artisti-que qu’elles nous blessent par leur violence crue, leur incohérence absolue, leur ab-surde besoin de signifier quelque chose, leur entier manque de style. Elles nous affec-tent tout ainsi que la vulgarité ; elles nous donnent une impression de la pure force brutale et nous nous révoltons contre cela. Parfois, cependant, une tragédie possé-dant des éléments artistiques de beauté, traverse notre vie ; si ces éléments de beauté sont réels, elle en appelle à nos sens de l’effet dramatique. Nous nous trouvons tout à coup, non plus les acteurs, mais les spectateurs de la pièce, ou plutôt nous sommes les deux. Nous nous surveillons nous mêmes et le simple intérêt du spectacle nous séduit.

De súbito, damo-nos conta de que já não somos os actores, mas sim os espectadores da peça. Melhor dizendo, somos uma coisa e outra. Observamo-nos a nós mesmos, e ficamos subjugados pelo fascínio do espectáculo. No caso em questão, o que é que aconteceu realmente? Uma pessoa suicidou-se porque... o amava. Eu desejaria ter passado por uma experiência semelhante. Deixar-me-ia apaixonado pelo amor para o resto da vida. As pessoas que me adoraram... não foram muitas, mas ainda houve algumas. persistiram sempre em continuar a viver, mesmo muito depois de ter deixado de interessar-me por elas, ou de elas já não se interessarem por mim. Tornaram-se corpulentas e fastidiosas, e quando as encontro apenas manifestam interesse pelas recordações do passado. Que memória tremenda a de uma mulher! É uma coisa medonha. E como revela uma absoluta estagnação intelectual! Devemos absorver o colorido da vida, mas não recordar os detalhes. Os detalhes são sempre vulgares.

« Qu’est-il réellement arrivé dans le cas qui nous occupe ? Une femme s’est tuée par amour pour vous. Je suis ravi que pareille chose ne me soit jamais arrivée ; cela m’aurait fait aimer l’amour pour le restant de mes jours. Les femmes qui m’ont adoré – elles n’ont pas été nombreuses, mais il y en a eu – ont voulu continuer, alors que depuis longtemps j’avais cessé d’y prêter attention, ou elles de faire attention à moi. Elles sont devenues grasses et assommantes et quand je les rencontre, elles entament le chapitre des réminiscences... Oh ! la terrible mémoire des femmes ! Quelle chose effrayante ! Quelle parfaite stagnation intellectuelle cela révèle ! On peut garder dans sa mémoire la couleur de la vie, mais on ne peut se souvenir des détails, toujours vulgaires...

– Je sèmerai des pavots dans mon jardin, soupira Dorian.

- Tenho de semear papoilas no meu jardim - disse Dorian, com um suspiro.

- Não há necessidade - retorquiu o companheiro. - A vida traz sempre papoilas nas mãos. É certo que, de vez em quando, as coisas tendem a prolongar-se. Uma ocasião houve em que usei sempre violetas na lapela durante toda uma temporada, como forma de luto artístico por uma aventura que não morria. No entanto, acabou por morrer. Esqueci o que a matou. Acho que foi porque ela se propôs sacrificar o mundo inteiro pela minha pessoa. É sempre um momento terrível esse. Ficamos dominados pelo terror da eternidade...

Bem, parece inacreditável, mas uma semana atrás, num jantar em casa de Lady Hampshire, encontrei-me sentado ao lado da senhora em questão, que insistia em reviver o nosso caso, desenterrando o passado e revolvendo o futuro. Eu enterrara o meu caso de amor num canteiro de asfódelos. Pois ela desenterrou-o, e afiançou-me que eu lhe estragara a vida. Devo dizer que ela devorou um enorme jantar, por isso não senti a mínima preocupação. Mas que falta de gosto o seu! O único encanto do passado é o de ser passado.

– Je n’en vois pas la nécessité, répliqua son compagnon. La vie a toujours des pavots dans les mains. Certes, de temps à autre, les choses durent. Une fois, je ne portais que des violettes toute une saison, comme manière artistique de porter le deuil d’une passion qui ne voulait mourir. Enfin, elle mourut, je ne sais ce qui la tua. Je pense que ce fut la proposition de sacrifier le monde entier pour moi ; c’est tou-jours un moment ennuyeux : cela vous remplit de la terreur de l’éternité. Eh bien ! le croyez-vous, il y a une semaine, je me trouvai chez lady Hampshire, assis au dîner près de la dame en question et elle insista pour recommencer de nouveau, en dé-blayant le passé et ratissant le futur. J’avais enterré mon roman dans un lit d’asphodèles ; elle prétendait l’exhumer et m’assurait que je n’avais pas gâté sa vie. Je suis autorisé à croire qu’elle mangea énormément ; aussi ne ressentis-je aucune an-xiété... Mais quel manque de goût elle montra !

« Le seul charme du passé est que c’est le passé, et les femmes ne savent jamais quand la toile est tombée ; elles réclament toujours un sixième acte, et proposent de continuer le spectacle quand l’intérêt s’en est allé... Si on leur permettait d’en faire à leur gré, toute comédie aurait une fin tragique, et toute tragédie finirait en farce. Elles sont délicieusement artificielles, mais elles n’ont aucun sens de l’art.

Mas as mulheres nunca sabem quando termina o espectáculo. Querem sempre um Sexto acto, e assim que termina completamente o interesse da peça pretendem que ela continue. Se lhes fizéssemos a vontade, toda a comédia teria um final trágico e toda a tragédia culminaria numa farsa. São encantadoramente artificiais, mas não possuem sentido artístico. Você é mais afortunado do que eu. Posso afiançar-lhe, Dorian, que nenhuma das mulheres que conheci teria feito por mim o que Sibyl Vane fez por si. As mulheres banais acabam sempre por se consolar. Há as que começam a interessar-se por cores sentimentais. Nunca confie numa mulher que se vista de lilás, seja ela de que idade for, nem numa mulher com mais de trinta e cinco anos que goste de fitas cor-de-rosa. Significa sempre que elas têm um passado turbulento. Outras sentem-se muito consoladas ao descobrirem de repente as boas qualidades dos maridos. Exibem a sua felicidade conjugal mesmo em frente do nosso nariz, como se fosse o mais fascinante dos pecados. Algumas acham consolo na religião. Os seus mistérios têm todo o encanto de um namoro, segundo me disse uma vez uma mulher, e consigo compreender isso perfeitamente. Além disso, não há nada que nos envaideça mais do que chamarem-nos pecadores. A consciência faz de todos nós uns egotistas. De facto, não têm fim os consolos que as mulheres costumam achar na vida moderna. Ah, não cheguei a mencionar o mais importante.

« Vous êtes plus heureux que moi. Je vous assure Dorian, qu’aucune des fem-mes que j’ai connues n’aurait fait pour moi ce que Sibyl Vane a fait pour vous. Les femmes ordinaires se consolent toujours, quelques-unes en portant des couleurs sentimentales. Ne placez jamais votre confiance en une femme qui porte du mauve, quelque soit son âge, ou dans une femme de trente-cinq ans affectionnant les rubans roses ; cela veut toujours dire qu’elles ont eu des histoires. D’autres trouvent une grande consolation à la découverte inopinée des bonnes qualités de leurs maris. Elles font parade de leur félicité conjugale, comme si c’était le plus fascinant des péchés. La religion en console d’autres encore. Ses mystères ont tout le charme d’un flirt, me dit un jour une femme, et je puis le comprendre. En plus, rien ne vous fait si vain que de vous dire que vous êtes un pêcheur. La conscience fait de nous des égoïstes... Oui, il n’y a réellement pas de fin aux consolations que les femmes trouvent dans la vie mo-derne, et je n’ai point encore mentionné la plus importante.

– Quelle est-elle, Harry ? demanda indifféremment le jeune homme.

- Qual, Harry? - perguntou o rapaz, de modo apático.

– La consolation évidente : prendre un nouvel adorateur quand on en perd un. Dans la bonne société, cela vous rajeunit toujours une femme... Mais réellement, Dorian, combien Sibyl Vane devait être dissemblable des femmes que nous ren-controns. Il y a quelque chose d’absolument beau dans sa mort.

- Ora, o consolo óbvio. Roubar o admirador a outra, quando se perde o próprio. Na boa sociedade, isso reabilita sempre uma mulher. Mas realmente, Dorian, como Sibyl Vane deve ter sido diferente de todas as mulheres que habitualmente conhecemos! Encontro uma certa beleza na sua morte. Gosto de viver num século em que acontecem prodígios como este. Levam-nos a acreditar na realidade das coisas com que todos nós costumamos divertir-nos, como a aventura, a paixão e o amor.

– Je suis heureux de vivre dans un siècle où de pareils miracles se produisent. Ils nous font croire à la réalité des choses avec lesquelles nous jouons, comme le ro-man, la passion, l’amour...

– Je fus bien cruel envers elle, vous l’oubliez...

- Fui de uma tremenda crueldade com ela, e você esquece-se disso.

- Infelizmente as mulheres apreciam a crueldade, a pura crueldade, mais que tudo. Têm instintos espantosamente primitivos. Nós emancipámo-las, mas, mesmo assim, continuam a ser escravas à procura dos seus senhores. Adoram ser dominadas. Tenho a certeza de que você foi magnífico. Nunca o vi realmente zangado, mas posso imaginar que deve ter sido encantador. E, no fim de contas, anteontem você disse-me uma coisa que no momento me parecera pura fantasia, mas que vejo agora ser absolutamente verdade e explicar tudo isto.

- E o que foi, Harry?

– Je suis certain que les femmes apprécient la cruauté, la vraie cruauté, plus que n’importe quoi. Elles ont d’admirables instincts primitifs. Nous les avons éman-cipées, mais elles n’en sont pas moins restées des esclaves cherchant leurs maîtres ; elles aiment être dominées. Je suis sûr que vous fûtes splendide !... Je ne vous ai jamais vu dans une véritable colère, mais je m’imagine combien vous devez être charmant. Et d’ailleurs, vous m’avez dit quelque chose avant-hier, qui me parut alors quelque peu fantaisiste, mais que je sens maintenant parfaitement vrai, et qui me donne la clef de tout...

– Qu’était-ce, Harry ?

– Vous m’avez dit que Sibyl Vane vous représentait toutes les héroïnes de ro-man, qu’elle était un soir Desdémone, et un autre, Ophélie, qu’elle mourait comme Juliette, et ressuscitait comme Imogène !

- Disse-me que Sibyl Vane representava para si todas as heroínas românticas, que uma noite era Desdémona, e na outra era Ofélia, que se morresse como Julieta ressuscitaria como Imogénia.

– Elle ne ressuscitera plus jamais, maintenant, dit le jeune homme, la face dans ses mains.

- Agora jamais ressuscitará - observou o rapaz num sussurro, mergulhando a cara entre as mãos.

- De facto, jamais ressuscitará. Ela representou o seu último papel. Mas você deve pensar nessa morte solitária num camarim de mau gosto como um estranho fragmento sinistro de uma peça jacobina, ou uma cena magnífica de Webster, ou de Ford, ou de Cyril Tourneur. A rapariga nunca teve vida real, por isso a sua morte nunca foi real.

– Non, elle ne ressuscitera plus ; elle a joué son dernier rôle... Mais il vous faut penser à cette mort solitaire dans cette loge clinquante comme si c’était un étrange fragment lugubre de quelque tragédie jacobine, comme à une scène surprenante de Webster, de Ford ou de Cyril Tourneur. Cette jeune fille n’a jamais vécu, à la réalité, et elle n’est jamais morte... Elle vous fut toujours comme un songe..., comme ce fan-tôme qui apparaît dans les drames de Shakespeare, les rendant plus adorables par sa présence, comme un roseau à travers lequel passe la musique de Shakespeare, enri-chie de joie et de sonorité.

Pelo menos para você, ela foi sempre um sonho, uma visão que passou como uma sombra pelas peças de Shakespeare e que as deixou mais belas com a sua presença, um junco que entoava com mais doçura e júbilo a música de Shakespeare. Assim que entrou na vida real, destruiu-a e a vida destruiu-a a ela, por isso morreu. Chore por Ofélia, se quiser. Cubra a cabeça de cinzas porque Cordélia foi estrangulada. Clame aos céus porque a filha de Brabâncio morreu. Mas não desperdice as suas lágrimas com Sibyl Vane. Era menos real do que todas elas.

« Elle gâta sa vie au moment où elle y entra, et la vie la gâta ; elle en mourut... Pleurez pour Ophélie, si vous voulez ; couvrez-vous le front de cendres parce que Cordélie a été étranglée ; invectivez le ciel parce que la fille de Brabantio est trépas-sée, mais ne gaspillez pas vos larmes sur le cadavre de Sibyl Vane ; celle-ci était moins réelle que celles-là...

Fez-se silêncio. O crepúsculo adensava-se na sala. Silenciosas, e com seus pés argênteos, iam entrando as sombras vindas do jardim. As cores das coisas esmaeciam lentamente.

Un silence suivit. Le crépuscule assombrissait la chambre ; sans bruit, à pas de velours, les ombres se glissaient dans le jardin. Les couleurs des objets s’évanouissaient paresseusement.

Après quelques minutes, Dorian Gray releva la tête...

Algum tempo depois, Dorian Gray ergueu a cabeça.

- Você explicou-me a mim próprio - murmurou, como que suspirando de alívio. - Eu sentia tudo o que acabou de dizer, mas, não sei porquê, tinha medo e não conseguia expressá-lo a mim mesmo. Conhece-me tão bem! Mas não havemos de voltar a falar no que aconteceu. Foi uma experiência maravilhosa, e apenas isso. Será que a vida me reserva ainda coisas tão maravilhosas?

– Vous m’avez expliqué à moi-même, Harry, murmura-t-il avec un soupir de soulagement. Je sentais tout ce que vous m’avez dit, mais en quelque sorte, j’en étais effrayé et je n’osais me l’exprimer à moi-même. Comme vous me connaissez bien !... Mais nous ne parlerons plus de ce qui est arrivé ; ce fut une merveilleuse expérience, c’est tout. Je ne crois pas que la vie me réserve encore quelque chose d’aussi merveil-leux.

- A vida reserva-lhe tudo, Dorian. Não há nada que você, com a sua extraordinária beleza, não possa fazer.

– La vie a tout en réserve pour vous, Dorian. Il n’est rien, avec votre extraordi-naire beauté, que vous ne soyez capable de faire.

- Mas, Harry, suponha que fico macilento, velho e cheio de rugas? E então?

– Mais songez, Harry, que je deviendrai grotesque, vieux, ridé !... Alors ?...

- Ah, então - disse Lord Henry, levantando-se para se retirar -, então, meu caro Dorian, teria de se bater para alcançar as suas vitórias. Por enquanto, elas vêm ter consigo. Ora, o importante é que conserve a sua beleza. Vivemos numa época sem sabedoria por tanto ler, e sem beleza por tanto pensar. Não podemos passar sem você. E agora é melhor ir vestir-se, e seguirmos para o clube. Já estamos bastante atrasados.

– Alors, reprit lord Henry en se levant, alors, mon cher Dorian, vous aurez à combattre pour vos victoires ; actuellement, elles vous sont apportées. Il faut que vous gardiez votre beauté. Nous vivons dans un siècle qui lit trop pour être sage et qui pense trop pour être beau. Vous ne pouvons nous passer de vous... Maintenant, ce que vous avez de mieux à faire, c’est d’aller vous habiller et de descendre au club. Nous sommes plutôt en retard comme vous le voyez.

- Acho que vou ter consigo à Ópera, Harry. Estou demasiado cansado para comer seja o que for. Qual é o número do camarote de sua irmã?

– Je pense que je vous rejoindrai à l’Opéra, Harry. Je suis trop fatigué pour manger quoi que ce soit. Quel est le numéro de la loge de votre sœur ?

- O vinte e sete, creio. Fica na primeira ordem. Poderá ver o nome dela na porta. Mas tenho muita pena que não venha jantar.

– Vingt-sept, je crois. C’est au premier rang ; vous verrez son nom sur la porte. Je suis désolé que vous ne veniez dîner.

- Não me sinto com forças - disse Dorian, languidamente. Mas fico-lhe muito grato por tudo o que me disse. É sem dúvida o meu melhor amigo. Jamais alguém me compreendeu como você.

– Ça ne m’est point possible, dit Dorian nonchalamment... Je vous suis bien obligé pour tout ce que vous m’avez dit ; vous êtes certainement mon meilleur ami ; personne ne m’a compris comme vous.

- Estamos ainda no começo da nossa amizade, Dorian respondeu Lord Henry, apertando-lhe a mão. - Adeus. Espero vê-lo antes das nove e meia. Lembre-se, a Patti canta esta noite.

Quando ele fechou a porta após ter saído, Dorian Gray tocou a campainha, e, poucos minutos depois, Victor apareceu com as luzes e baixou os estores.

– Nous sommes seulement au commencement de notre amitié, Dorian, répon-dit lord Henry, en lui serrant la main. Adieu. Je vous verrai avant neuf heures et de-mie, j’espère. Souvenez-vous que la Patti chante...

Dorian esperava impacientemente que ele se fosse embora. O homem parecia demorar um tempo interminável com tudo o que fazia.

Comme il fermait la porte derrière lui, Dorian Gray sonna, et au bout d’un ins-tant, Victor apparut avec les lampes et tira les jalousies. Dorian s’impatientait, vou-lant déjà être parti, et il lui semblait que Victor n’en finissait pas...

Logo que o criado saiu, precipitou-se para o biombo e afastou-o. Não, o retrato não sofrera outra alteração. Recebera a notícia da morte de Sibyl Vane antes de ele próprio ter tido conhecimento. Apercebia-se dos acontecimentos da vida no momento em que ocorriam. A crueldade perversa que desfigurava os traços delicados da boca aparecera, sem dúvida, no momento exacto em que a rapariga bebera o veneno. Ou não o afectavam as consequências? Tomaria conhecimento apenas do que se passava na alma? Ele interrogava-se, e esperava um dia ver a transformação no retrato realizar-se diante dos seus olhos, mas estremecia só de o desejar.

Aussitôt qu’il fut sorti, il se précipita vers le paravent et découvrit la peinture.

Non ! Rien n’était changé de nouveau dans le portrait ; il avait su la mort de Si-byl Vane avant lui ; il savait les événements de la vie alors qu’ils arrivaient. La cruauté méchante qui gâtait les fines lignes de la bouche, avait apparu, sans doute, au mo-ment même où la jeune fille avait bu le poison... Ou bien était-il indifférent aux évé-nements ? Connaissait-il simplement ce qui se passait dans l’âme. Il s’étonnait, espé-rant que quelque jour, il verrait le changement se produire devant ses yeux et cette pensée le fit frémir.

Pobre Sibyl! Que estranho romance de amor o seu! Foram tantas as vezes que simulara a morte no palco. Depois foi tocada pela própria Morte, que a levou consigo. Como teria representado a terrível e última cena? Tê-lo-ia amaldiçoado ao morrer? Não, morrera por amor, e agora o amor passaria a ser para ele um sacramento. Ela tudo resgatara, ao sacrificar a própria vida. E ele deixaria de pensar em tudo o que a fizera sofrer naquela horrível noite no teatro. Quando pensasse nela, vê-la-ia como maraVilhosa e trágica personagem enviada ao palco do mundo para revelar a realidade suprema do Amor. Maravilhosa e trágica personagem? Vieram-Lhe lágrimas aos olhos ao recordar o seu ar infantil, os seus cativantes caprichos e a sua tímida graciosidade. Limpou-as rapidamente e olhou de novo o retrato.

Pauvre Sibyl ! Quel roman cela avait été ! Elle avait souvent mimé la mort au théâtre. La mort l’avait touchée et prise avec elle. Comment avait-elle joué cette ul-time scène terrifiante ? L’avait-elle maudit en mourant ? Non ! elle était morte par amour pour lui, et l’amour, désormais, lui serait un sacrement. Elle avait tout racheté par le sacrifice qu’elle avait fait de sa vie. Il ne voulait plus songer à ce qu’elle lui avait fait éprouver pendant cette terrible soirée, au théâtre... Quand il penserait à elle, ce serait comme à une prestigieuse figure tragique envoyée sur la scène du monde pour y montrer la réalité suprême de l’Amour. Une prestigieuse figure tragique ! Des lar-mes lui montèrent aux yeux, en se souvenant de son air enfantin, de ses manières douces et capricieuses, de sa farouche et tremblante grâce. Il les refoula en hâte, et regarda de nouveau le portrait.

Sentiu que chegara o momento de fazer uma opção. Ou seria que a sua opção já havia sido feita? Na verdade, a vida decidira por ele. a vida, e a sua inesgotável curiosidade acerca da vida. Eterna juventude, paixão ilimitada, subtis e secretos prazeres, desvairados deleites, pecados ainda mais desvairados. tudo isso seria seu. O retrato é que suportaria o peso da sua vergonha.

Il sentit que le temps était venu, cette fois, de faire son choix. Son choix n’avait-il été déjà fait ? Oui, la vie avait décidé pour lui... la vie, et aussi l’âpre curiosité qu’il en avait... L’éternelle jeunesse, l’infinie passion, les plaisirs subtils et secrets, les joies ardentes et les péchés plus ardents encore, toutes ces choses il devait les connaître. Le portrait assumerait le poids de sa honte, voilà tout !...

Invadiu-o uma sensação dolorosa, quando pensou na profanação que estava reservada ao belo rosto do quadro. Uma vez, num infantil arremedo de Narciso, beijara, ou fingira beijar, aqueles lábios pintados que lhe sorriam agora tão cruelmente. Passara muitas manhãs sentado em frente do retrato, surpreendido pela sua beleza, às vezes quase dela enamorado. Iria mudar a cada variação de humor a que ele se entregasse? Iria transformar-se em algo monstruoso e abominável, que teria de ser escondido num quarto trancado, ou privado da luz do sol que tantas vezes iluminara em reflexos de ouro o ondulado do seu cabelo? Que pena! Que pena!

Une sensation de douleur le poignit en pensant à la désagrégation que subirait sa belle face peinte sur la toile. Une fois, moquerie gamine de Narcisse, il avait baisé, ou feint de baiser ces lèvres peintes, qui, maintenant, lui souriaient si cruellement. Des jours et des jours, il s’était assis devant son portrait, s’émerveillant de sa beauté, presque énamouré d’elle comme il lui sembla maintes fois... Devait-elle s’altérer, à présent, à chaque péché auquel il céderait ? Cela deviendrait-il un monstrueux et dégoûtant objet à cacher dans quelque chambre cadenassée, loin de la lumière du soleil qui avait si souvent léché l’or éclatant de sa chevelure ondée ? Quelle dérision sans mesure !

Por uns momentos pensou em fazer uma prece para que cessasse a terrível afinidade que existia entre ele e o retrato. Transformara-se para dar resposta a uma prece, talvez permanecesse inalterado para atender uma prece. E, todavia, quem é que, conhecedor da Vida, renunciaria à oportunidade de permanecer jovem para sempre, por muito fantástica que ela fosse, ou por muito fatídicas que fossem as consequências daí provenientes? Além disso, o retrato seria realmente dominado pela sua vontade? Fora de facto o desejo formulado que provocara a alteração? Não haveria uma singular explicação científica para tudo isso? Se o pensamento podia exercer influência sobre um organismo vivo, não poderia exercê-la igualmente sobre coisas inertes e inorgânicas? E, mais do que isso, apesar de destituídas de pensamento ou de desejo consciente, não poderiam as coisas exteriores a nós vibrar em uníssono com os nossos caprichos e as nossas paixões, átomo atraindo átomo num secreto amor de estranha afinidade? Mas a explicação não era importante. Ele não tornaria a incitar qualquer terrível poder com um pedido. Se o quadro tivesse que mudar, pois que mudasse. Não havia nada a fazer. Por que havia de examiná-lo tão minuciosamente?

Un instant, il songea à prier pour que cessât l’horrible sympathie existant entre lui et le portrait. Une prière l’avait faite ; peut-être une prière la pouvait-elle dé-truire ?...

Cependant, qui, connaissant la vie, hésiterait pour garder la chance de rester toujours jeune, quelque fantastique que cette chance pût paraître, à tenter les consé-quences que ce choix pouvait entraîner ?... D’ailleurs cela dépendait-il de sa volon-té ?...

Contemplá-lo seria, pois, um verdadeiro prazer. Poderia perscrutá-lo até aos seus mais secretos recantos. Este retrato seria para si o mais mágico de todos os espelhos.

Assim como Lhe revelara o próprio corpo, haveria de revelar-lhe também a alma. E quando o Inverno descesse sobre o retrato, ele estaria ainda onde a Primavera vacila à beira do Verão. Quando o sangue lhe abandonasse o rosto, deixando atrás de si uma lívida máscara de giz com olhos plúmbeos, ele conservaria o encanto da mocidade. Nenhuma flor da sua formosura haveria de murchar. Nem uma única pulsação da sua vida se tornaria mais fraca. Seria como os deuses da antiga Grécia: forte, e ágil, e exuberante. Que importava o que acontecia à imagem colorida da tela? Ele não correria perigo. E isso era o essencial.

Était-ce vraiment la prière qui avait produit cette substitution ? Quelque raison scientifique ne pouvait-elle l’expliquer ? Si la pensée pouvait exercer une influence sur un organisme vivant, cette influence ne pouvait-elle s’exercer sur les choses mor-tes ou inorganiques ? Ne pouvaient-elles, les choses extérieures à nous-mêmes, sans pensée ou désir conscients, vibrer à l’unisson de nos humeurs ou de nos passions, l’atome appelant l’atome dans un amour secret ou une étrange affinité. Mais la raison était sans importance. Il ne tenterait plus par la prière un si terrible pouvoir. Si la peinture devait s’altérer, rien ne pouvait l’empêcher. C’était clair. Pourquoi appro-fondir cela ? Car il y aurait un véritable plaisir à guetter ce changement ? Il pourrait suivre son esprit dans ses pensées secrètes ; ce portrait lui serait le plus magique des miroirs. Comme il lui avait révélé son propre corps, il lui révélerait sa propre âme. Et quand l’hiver de la vie viendrait, sur le portrait, lui, resterait sur la lisière frissonnante du printemps et de l’été. Quand le sang lui viendrait à la face, laissant derrière un masque pallide de craie aux yeux plombés, il garderait la splendeur de l’adolescence. Aucune floraison de sa jeunesse ne se flétrirait ; le pouls de sa vie ne s’affaiblirait point. Comme les dieux de la Grèce, il serait fort, et léger et joyeux. Que pouvait lui faire ce qui arriverait à l’image peinte sur la toile ? Il serait sauf : tout était là !...

Arrastou o biombo novamente para o lugar habitual à frente do retrato, sorrindo ao fazê-lo, e passou ao seu quarto, onde já se encontrava o criado a aguardá-lo. Uma hora depois estava na Ópera, com Lord Henry apoiado na sua cadeira.

Souriant, il replaça le paravent dans la position qu’il occupait devant le por-trait, et passa dans la chambre où l’attendait son valet. Une heure plus tard, il était à l’Opéra, et lord Henry s’appuyait sur le dos de son fauteuil.