O Retrato De Dorian Gray.  Oscar Wilde
Capítulo 4. (Chapter 4. )
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Uma tarde, passado um mês, estava Dorian Gray recostado numa sumptuosa poltrona, na pequena biblioteca da casa de Lord Henry, em Mayfair. Era, no seu estilo, uma sala encantadora, com altos lambris de carvalho cor de azeitona, friso creme, tecto de estuque lavrado e alcatifa de feltro cor de tijolo juncada de tapetes persas de seda franjados. Sobre uma pequena mesa de pau-cetim, estava uma estatueta de Clodion e um exemplar de Les Cent Nouvelles, encadernada para Margarida de Valois por Clovis Eve e ornamentada com as margaridas douradas que a rainha adoptara como sua divisa. Umas jarras azuis de porcelana e umas túlipas ornamentavam o rebordo da chaminé, e, através das pequenas vidraças da janela, coava-se a luz cor de damasco de um dia de Verão londrino.

One afternoon, a month later, Dorian Gray was reclining in a luxurious arm-chair, in the little library of Lord Henry's house in Mayfair. It was, in its way, a very charming room, with its high panelled wainscoting of olive-stained oak, its cream-coloured frieze and ceiling of raised plasterwork, and its brickdust felt carpet strewn with silk, long-fringed Persian rugs. On a tiny satinwood table stood a statuette by Clodion, and beside it lay a copy of Les Cent Nouvelles, bound for Margaret of Valois by Clovis Eve and powdered with the gilt daisies that Queen had selected for her device. Some large blue china jars and parrot-tulips were ranged on the mantelshelf, and through the small leaded panes of the window streamed the apricot-coloured light of a summer day in London.

Lord Henry ainda não tinha chegado. Normalmente, atrasava-se sempre, tendo por princípio que a pontualidade é o ladrão do tempo. Por isso o rapaz estava um pouco aborrecido, enquanto os seus dedos distraídos folheavam uma edição primorosamente ilustrada de Manon Lescaut, que encontrara numa das estantes. A monotonia do tiquetaque metódico do relógio Luís XIV incomodava-o. Por uma ou duas vezes pensou em ir-se embora.

Finalmente ouviu passos, e a porta abriu-se.

- Tão atrasado, Harry! - murmurou.

Lord Henry had not yet come in. He was always late on principle, his principle being that punctuality is the thief of time. So the lad was looking rather sulky, as with listless fingers he turned over the pages of an elaborately illustrated edition of Manon Lescaut that he had found in one of the book-cases. The formal monotonous ticking of the Louis Quatorze clock annoyed him. Once or twice he thought of going away.

- Não foi o Harry quem chegou, Mr. Gray - respondeu uma voz aguda.

Ele olhou rapidamente de relance, e levantou-se.

At last he heard a step outside, and the door opened. "How late you are, Harry!" he murmured.

- Peço perdão. Pensava...

- Pensava que era o meu marido. É apenas a sua esposa.

"I am afraid it is not Harry, Mr. Gray," answered a shrill voice.

Permita-me que seja eu mesma a apresentar-me. Já o conheço muito bem pelas fotografias. Creio que o meu marido tem umas dezassete.

He glanced quickly round and rose to his feet. "I beg your pardon. I thought--"

- Dezassete, não, Lady Henry!

- Então, serão dezoito. E vi o senhor na companhia dele, uma noite destas na Ópera.

"You thought it was my husband. It is only his wife. You must let me introduce myself. I know you quite well by your photographs. I think my husband has got seventeen of them."

Ela ria nervosamente enquanto falava, e observava-o com uns olhos vagos cor de miosótis. Era uma mulher estranha, cujos vestidos pareciam ter sido inventados num momento de fúria, e usados em dia de vendaval. Habitualmente estava apaixonada por alguém, mas, como as suas paixões nunca eram retribuídas, mantinha todas as suas ilusões. Esforçava-se por ter um aspecto original, e só conseguia ter um ar desalinhado. Chamava-se Victoria, e tinha uma rematada mania de frequentar a igreja.

- Foi no Lohengrin, não foi, Lady Henry?

"Not seventeen, Lady Henry?"

"Well, eighteen, then. And I saw you with him the other night at the opera." She laughed nervously as she spoke, and watched him with her vague forget-me-not eyes. She was a curious woman, whose dresses always looked as if they had been designed in a rage and put on in a tempest. She was usually in love with somebody, and, as her passion was never returned, she had kept all her illusions. She tried to look picturesque, but only succeeded in being untidy. Her name was Victoria, and she had a perfect mania for going to church.

- Foi, foi no nosso querido Lohengrin. Não há ninguém que goste mais da música de Wagner do que eu. É tão ruidosa que podemos conversar todo o tempo sem que ninguém nos oiça. É uma grande vantagem. Não acha, Mr. Gray?

"That was at Lohengrin, Lady Henry, I think?"

Dos seus lábios finos irrompia o mesmo riso nervoso em staccato, e os seus dedos começaram a brincar com uma comprida faca de tartaruga.

Dorian sorriu e abanou a cabeça.

"Yes; it was at dear Lohengrin. I like Wagner's music better than anybody's. It is so loud that one can talk the whole time without other people hearing what one says. That is a great advantage, don't you think so, Mr. Gray?"

- Não me parece, Lady Henry. Nunca converso durante a música, pelo menos quando é boa música. Se a música for má, então é nosso dever abafá-la com a nossa conversa.

The same nervous staccato laugh broke from her thin lips, and her fingers began to play with a long tortoise-shell paper-knife.

- Ah, essa é uma das opiniões do Harry, não é assim, Mr. Gray? Costumo ouvir as opiniões dele pela boca dos amigos. Só assim é que fico a conhecê-las. Mas não deve pensar que não gosto de boa música. Adoro-a, mas tenho medo dela. Torna-me excessivamente romântica. Tenho tido uma enorme adoração por pianistas - às vezes, por dois ao mesmo tempo, disse-me o Harry. Não sei o que têm de especial. Talvez por serem estrangeiros. Todos eles o são, não é verdade? Mesmo os que nasceram em Inglaterra ficam estrangeirados passado algum tempo, não ficam?

Dorian smiled and shook his head: "I am afraid I don't think so, Lady Henry. I never talk during music--at least, during good music. If one hears bad music, it is one's duty to drown it in conversation."

Isso só revela talento da parte deles, e é também uma homenagem à Arte. Torna-a muito cosmopolita, não acha? Ah, nunca esteve em nenhuma das minhas recepções, pois não, Mr. Gray? Tem de aparecer. Não posso gastar dinheiro em orquídeas, mas não olho a despesas com estrangeiros. Dão um ar tão pitoresco aos nossos salões. Ah! O Harry já chegou! Harry, vim à sua procura para lhe fazer uma pergunta sobre qualquer coisa que já esqueci, e encontrei Mr. Gray. Tivemos uma conversa muito agradável sobre música. Temos exactamente as mesmas ideias. Não, creio que as nossas ideias são completamente diferentes. Mas foi agradabilíssimo. Ainda bem que o encontrei.

"Ah! that is one of Harry's views, isn't it, Mr. Gray? I always hear Harry's views from his friends. It is the only way I get to know of them. But you must not think I don't like good music. I adore it, but I am afraid of it. It makes me too romantic. I have simply worshipped pianists--two at a time, sometimes, Harry tells me. I don't know what it is about them. Perhaps it is that they are foreigners. They all are, ain't they? Even those that are born in England become foreigners after a time, don't they? It is so clever of them, and such a compliment to art. Makes it quite cosmopolitan, doesn't it? You have never been to any of my parties, have you, Mr. Gray? You must come. I can't afford orchids, but I share no expense in foreigners. They make one's rooms look so picturesque. But here is Harry! Harry, I came in to look for you, to ask you something--I forget what it was--and I found Mr. Gray here. We have had such a pleasant chat about music. We have quite the same ideas. No; I think our ideas are quite different. But he has been most pleasant. I am so glad I've seen him."

- Folgo muito em saber, meu amor, mesmo muito - comentou Lord Henry, erguendo as sobrancelhas escuras em forma de crescente e olhando para os dois com um sorriso divertido. Peço desculpa por chegar atrasado, Dorian. Fui ver se conseguia um pedaço de brocado antigo em Wardour Street, e tive que regatear horas e horas. Actualmente, as pessoas sabem o preço de tudo e não sabem o valor de coisa nenhuma.

"I am charmed, my love, quite charmed," said Lord Henry, elevating his dark, crescent-shaped eyebrows and looking at them both with an amused smile. "So sorry I am late, Dorian. I went to look after a piece of old brocade in Wardour Street and had to bargain for hours for it. Nowadays people know the price of everything and the value of nothing."

- Tenho de me ir embora - exclamou Lady Henry, interrompendo um silêncio incómodo com o seu súbito riso apalermado. Prometi passear de carro com a duquesa. Adeus, Mr. Gray. Adeus, Harry. Suponho que jantas fora. Eu também. Talvez te encontre em casa de Lady Thornbury.

"I am afraid I must be going," exclaimed Lady Henry, breaking an awkward silence with her silly sudden laugh. "I have promised to drive with the duchess. Good-bye, Mr. Gray. Good-bye, Harry. You are dining out, I suppose? So am I. Perhaps I shall see you at Lady Thornbury's."

- É provável, querida - disse Lord Henry, fechando a porta depois de ela, qual ave do paraíso que tivesse passado a noite à chuva, ter saído rapidamente da sala, deixando atrás de si um leve aroma de frangipana. Depois ele acendeu um cigarro e refastelou-se no sofá.

- Nunca case com uma mulher de cabelo cor de palha, Dorian disse, após umas fumaças.

- Porquê, Harry?

- Porque são tão sentimentais.

"I dare say, my dear," said Lord Henry, shutting the door behind her as, looking like a bird of paradise that had been out all night in the rain, she flitted out of the room, leaving a faint odour of frangipanni. Then he lit a cigarette and flung himself down on the sofa.

- Mas eu gosto de pessoas sentimentais.

"Never marry a woman with straw-coloured hair, Dorian," he said after a few puffs.

- É melhor nunca se casar, Dorian. Os homens casam-se por cansaço, as mulheres, por curiosidade, e uns e outros ficam decepcionados.

"Why, Harry?"

"Because they are so sentimental."

"But I like sentimental people."

- Não é provável que eu me case, Henry. Estou demasiado apaixonado. Esse é um dos seus aforismos. Estou a pô-lo em prática, como faço com tudo o que você diz.

"Never marry at all, Dorian. Men marry because they are tired; women, because they are curious: both are disappointed."

- Por quem está apaixonado? - perguntou Lord Henry, após uma pausa.

- Por uma actriz - respondeu Dorian Gray, corando.

"I don't think I am likely to marry, Harry. I am too much in love. That is one of your aphorisms. I am putting it into practice, as I do everything that you say."

- Para estreia, não é nada original - disse Lord Henry, encolhendo os ombros.

"Who are you in love with?" asked Lord Henry after a pause.

- Se a conhecesse não diria isso, Harry.

"With an actress," said Dorian Gray, blushing.

- Quem é ela?

- Chama-se Sibyl Vane.

- Nunca ouvi falar dela.

Lord Henry shrugged his shoulders. "That is a rather commonplace debut."

- Nem ninguém. Mas um dia as pessoas hão-de ouvir falar dela. Ela é um génio.

"You would not say so if you saw her, Harry."

- Meu caro, não há mulher alguma que seja um génio. As mulheres pertencem ao sexo de ornamento. Nunca têm nada para dizer, mas dizem-no de uma maneira encantadora. As mulheres representam o triunfo da matéria sobre o espírito, ao passo que os homens representam o triunfo do espírito sobre a moral.

- Harry, como é possível que fale assim?

"Who is she?"

"Her name is Sibyl Vane."

"Never heard of her."

"No one has. People will some day, however. She is a genius."

"My dear boy, no woman is a genius. Women are a decorative sex. They never have anything to say, but they say it charmingly. Women represent the triumph of matter over mind, just as men represent the triumph of mind over morals."

- Meu caro Dorian, é rigorosamente verdade. Presentemente, dedico-me a analisar as mulheres, por isso é natural que saiba. O assunto não é tão confuso como eu pensei que fosse. Acabo de descobrir que, basicamente, há apenas duas espécies de mulheres: as simples e as pintadas. As mulheres simples são muito úteis. Se quisermos obter reputação de respeitabilidade, levamo-las simplesmente a cear. As outras mulheres são encantadoras. Cometem, porém, um erro. Pintam-se para tentar parecer jovens. As nossas avós pintavam-se a fim de tentar conversar com brilhantismo. Rouge e esprit costumavam andar juntos. Tudo isso acabou já. Assim que consegue parecer dez anos mais nova do que a própria filha, uma mulher fica totalmente satisfeita. Relativamente a conversação, há unicamente cinco mulheres em Londres com quem vale a pena conversar, e duas delas não podem ser admitidas na sociedade de boas maneiras. Mas, fale-me do seu génio. Há quanto tempo a conhece?

- Ah! As suas teorias assustam-me, Harry.

"Harry, how can you?"

"My dear Dorian, it is quite true. I am analysing women at present, so I ought to know. The subject is not so abstruse as I thought it was. I find that, ultimately, there are only two kinds of women, the plain and the coloured. The plain women are very useful. If you want to gain a reputation for respectability, you have merely to take them down to supper. The other women are very charming. They commit one mistake, however. They paint in order to try and look young. Our grandmothers painted in order to try and talk brilliantly. Rouge and esprit used to go together. That is all over now. As long as a woman can look ten years younger than her own daughter, she is perfectly satisfied. As for conversation, there are only five women in London worth talking to, and two of these can't be admitted into decent society. However, tell me about your genius. How long have you known her?"

- Não dê importância. Há quanto tempo a conhece?

- Há aproximadamente três semanas.

"Ah! Harry, your views terrify me."

"Never mind that. How long have you known her?"

- E onde é que a conheceu?

"About three weeks."

"And where did you come across her?"

- Eu conto, Harry. Mas você tem que ser um pouco indulgente. No fim de contas, isto nunca teria acontecido se eu não o tivesse encontrado. Foi você que fez nascer dentro de mim um desejo desenfreado de conhecer todas as coisas da vida. Depois de o ter encontrado, e durante vários dias, parecia que havia algo a latejar nas minhas veias. Quando deambulava pelo Parque, ou caminhava até Piccadilly, costumava olhar para todas as pessoas que passavam e apoderava-se de mim uma louca curiosidade de saber como eram as suas vidas. Umas fascinavam-me. Outras enchiam-me de terror. Pairava no ar um veneno subtil. Eu sentia paixão pelas sensações... Ora uma noite, por volta das sete horas, resolvi sair em busca de uma aventura. Sentia que esta nossa Londres cinzenta e monstruosa, com suas miríades de pessoas, os seus sórdidos pecadores, e os seus gloriosos pecados - como você uma vez fraseou -, devia ter alguma coisa reservada para mim. Imaginei milhares de coisas. A simples ideia de perigo provocava em mim uma sensação deliciosa. Lembrei-me do que você me havia dito naquela noite maravilhosa em que jantámos juntos pela primeira vez: procurar a verdade é o verdadeiro segredo da vida. Não sei do que estava à espera, mas encaminhei-me ao acaso para a zona oriental, perdendo-me pouco depois num labirinto de ruas imundas e praças escuras e sem relva. Deviam ser umas oito horas e trinta quando passei por um teatrinho ridículo, iluminado pelo clarão de enormes bicos de gás e exibindo uns cartazes de mau gosto. Um judeu repelente, com o colete mais espantoso que já vi em toda a minha vida, estava à entrada a fumar um cigarro abominável.

O cabelo tínha uns pequenos caracóis oleosos, e mesmo ao centro da camisa imunda luzia um enorme diamante. "Quer um camarote, senhor?", perguntou ele quando me viu, tirando o chapéu com um gesto de servilismo exagerado. Mas, Harry, havia nele qualquer coisa que me divertia. Era tal qual um monstro. Vai rir-se de mim, eu sei, mas entrei mesmo e paguei um guinéu por um camarote de proscénio. Ainda hoje não consigo descobrir o motivo por que o fiz. Porém, se o não tivesse feito, meu caro Harry, se não tivesse... teria perdido a maior aventura amorosa da minha vida. Bem vejo que está a rir-se. Não seja horrível!

"I will tell you, Harry, but you mustn't be unsympathetic about it. After all, it never would have happened if I had not met you. You filled me with a wild desire to know everything about life. For days after I met you, something seemed to throb in my veins. As I lounged in the park, or strolled down Piccadilly, I used to look at every one who passed me and wonder, with a mad curiosity, what sort of lives they led. Some of them fascinated me. Others filled me with terror. There was an exquisite poison in the air. I had a passion for sensations.... Well, one evening about seven o'clock, I determined to go out in search of some adventure. I felt that this grey monstrous London of ours, with its myriads of people, its sordid sinners, and its splendid sins, as you once phrased it, must have something in store for me. I fancied a thousand things. The mere danger gave me a sense of delight. I remembered what you had said to me on that wonderful evening when we first dined together, about the search for beauty being the real secret of life. I don't know what I expected, but I went out and wandered eastward, soon losing my way in a labyrinth of grimy streets and black grassless squares. About half-past eight I passed by an absurd little theatre, with great flaring gas-jets and gaudy play-bills. A hideous Jew, in the most amazing waistcoat I ever beheld in my life, was standing at the entrance, smoking a vile cigar. He had greasy ringlets, and an enormous diamond blazed in the centre of a soiled shirt. 'Have a box, my Lord?' he said, when he saw me, and he took off his hat with an air of gorgeous servility. There was something about him, Harry, that amused me. He was such a monster. You will laugh at me, I know, but I really went in and paid a whole guinea for the stage-box. To the present day I can't make out why I did so; and yet if I hadn't--my dear Harry, if I hadn't--I should have missed the greatest romance of my life. I see you are laughing. It is horrid of you!"

- Não estou a rir-me, Dorian, isto é, não estou a rir-me de você. Você não deveria ter dito a maior aventura amorosa da sua vida, mas sim a primeira aventura amorosa da sua vida. Você será sempre amado e estará sempre apaixonado pelo amor. Uma grande passion é privilégio dos que não têm nada que fazer. É o único hábito das classes ociosas de um país. Não tenha medo. Há coisas extraordinárias à sua espera. Isto é apenas o começo.

"I am not laughing, Dorian; at least I am not laughing at you. But you should not say the greatest romance of your life. You should say the first romance of your life. You will always be loved, and you will always be in love with love. A grande passion is the privilege of people who have nothing to do. That is the one use of the idle classes of a country. Don't be afraid. There are exquisite things in store for you. This is merely the beginning."

"Do you think my nature so shallow?" cried Dorian Gray angrily.

- Julga-me assim tão frívolo? - exclamou Dorian Gray muito irritado.

"No; I think your nature so deep."

"How do you mean?"

- Não, julgo-o muito profundo.

- O que quer dizer com isso?

- Meu caro rapaz, pessoas frívolas são aquelas que amam só uma vez na vida. Àquilo a que chamam lealdade e fidelidade, chamo eu letargia do hábito ou falta de imaginação (1). A fidelidade está para a vida emocional como a coerência está para a vida do intelecto, quer dizer, uma simples confissão de fracassos. A fidelidade! Preciso de a analisar um dia destes. Existe nela a paixão pela posse. Há muitas coisas que atiraríamos fora se não receássemos que os outros as pudessem apanhar. Mas não quero interrompê-lo. Continue a sua história.

"My dear boy, the people who love only once in their lives are really the shallow people. What they call their loyalty, and their fidelity, I call either the lethargy of custom or their lack of imagination. Faithfulness is to the emotional life what consistency is to the life of the intellect--simply a confession of failure. Faithfulness! I must analyse it some day. The passion for property is in it. There are many things that we would throw away if we were not afraid that others might pick them up. But I don't want to interrupt you. Go on with your story."

*1. Palavras e expressões em francês, latim, italiano... encontram-se no texto original inglês. (N. da T.)

- Bem, fiquei sentado num horrível camarotezinho privado e tinha mesmo à minha frente um vulgar pano de boca. Espreitei pela cortina e inspeccionei a sala. Era uma coisa de mau gosto, com cupidos e cornucópias, mais parecendo um bolo de noiva de terceira categoria. A galeria e a plateia estavam bastante completas, mas as duas filas de poltronas encardidas estavam totalmente vazias e nem sei se haveria uma pessoa naquilo que suponho chamar-se primeiro balcão. Andavam umas mulheres a vender laranjas e gasosas, e havia um elevado consumo de amendoins.

"Well, I found myself seated in a horrid little private box, with a vulgar drop-scene staring me in the face. I looked out from behind the curtain and surveyed the house. It was a tawdry affair, all Cupids and cornucopias, like a third-rate wedding-cake. The gallery and pit were fairly full, but the two rows of dingy stalls were quite empty, and there was hardly a person in what I suppose they called the dress-circle. Women went about with oranges and ginger-beer, and there was a terrible consumption of nuts going on."

"It must have been just like the palmy days of the British drama."

- Deve ter sido exactamente como na época florescente do drama britânico.

"Just like, I should fancy, and very depressing. I began to wonder what on earth I should do when I caught sight of the play-bill. What do you think the play was, Harry?"

- Precisamente, mas também muito deprimente. Começava a interrogar-me o que havia eu de fazer quando vi o programa. Que peça acha que era, Harry?

- Talvez O Idiota ou Pateta mas Inocente. Os nossos pais é que costumavam apreciar esse género de peça, creio eu. Quanto mais anos vivo, Dorian, mais vivamente sinto que o que era bom para os nossos pais não é bom para nós. Em arte, bem como em política, les grands pères ont toujors tort.

"I should think 'The Idiot Boy', or 'Dumb but Innocent'. Our fathers used to like that sort of piece, I believe. The longer I live, Dorian, the more keenly I feel that whatever was good enough for our fathers is not good enough for us. In art, as in politics, les grandperes ont toujours tort."

- A peça era bastante boa para nós, Harry. Era Romeu e Julieta. Devo confessar que me mortificou bastante a ideia de ver Shakespeare representado numa baiuca. Mesmo assim, sentia, de certo modo, algum interesse. Seja como for, resolvi esperar pelo primeiro acto. A orquestra era péssima, regida por um jovem hebreu que se encontrava sentado a um piano tão desafinado que estive para fugir dali, mas finalmente o pano de boca subiu e a peça começou. Romeu era um cavalheiro idoso e corpulento, de sobrancelhas escurecidas com rolha queimada, uma voz enrouquecida e trágica, e roliço como um barril de cerveja. A figura de Mercúcio não era melhor. Era representado por um comediante de baixo coturno, que intercalava piadas de sua autoria e que tinha o melhor relacionamento com a plateia. Eram ambos tão grotescos como o cenário, que parecia ter saído de uma barraca de feira. Ah! Mas Julieta!

Imagine, Harry, uma menina que talvez não tivesse ainda dezassete anos, o rosto lindo como uma flor, uma pequena cabeça grega de longas tranças castanhas, os olhos, fontes violáceas de paixão, e os lábios, duas pétalas de rosa. Era o ser mais formoso que jamais havia visto na minha vida. Você disse-me uma vez que era insensível ao patético, mas que a beleza podia provocar-lhe as lágrimas. Pois eu, Harry, mal conseguia ver esta menina através da névoa de lágrimas que me arrasaram os olhos. E tinha uma voz como nunca ouvi.

Era muito grave, a princípio, de sons profundos e melodiosos, que pareciam cair um a um no nosso ouvido. Depois tornava-se um pouco mais alta e soava como uma flauta ou um longínquo oboé. Na cena do jardim, tinha o êxtase trémulo que ouvimos quando a madrugada vai chegar e os rouxinóis cantam. Havia, depois, momentos em que possuía a paixão desvairada das violetas. Você sabe bem como uma voz nos pode perturbar. A sua voz e a voz de Sibyl Vane, nunca as esquecerei. Quando fecho os olhos, oiço-as e cada uma delas diz-me algo diferente. Não sei qual das duas hei-de seguir. Por que não haveria de amá-la? É que eu amo-a, Harry. Ela é tudo para mim na vida. Vou vê-la representar todas as noites. Uma noite ela é Rosalinda e na noite seguinte é Imogénia. Assisti à sua morte num sombrio túmulo italiano, sugando o veneno dos lábios do amante. Vi-a vagueando pela floresta de Arden, disfarçada de lindo rapazinho de calças justas, gibão e uma boina gracica. Ela enlouqueceu e chegou à presença de um rei criminoso, e deu-lhe arruda para se enfeitar, e ervas amargas para provar. Ela foi inocente, e as negras mãos do ciúme estrangularam-lhe a garganta frágil como um junco. Vi-a em todas as épocas e vestida à moda de cada época. As mulheres vulgares nunca apelam para a nossa imaginação. Ficam limitadas ao seu tempo. Nenhum encanto as transfigura.

Conhecemos-Lhes as mentalidades com a mesma facilidade com que conhecemos as suas toucas. Acabamos sempre por descobrir-lhas. Não possuem mistério algum. De manhã montam a cavalo no Parque, e à tarde tagarelam à hora do chá.

Têm sorrisos estereotipados e maneiras ditadas pela moda. São totalmente previsíveis. Mas uma actriz, como é diferente! Harry! Por que não me disse que a única coisa que merece ser amada é uma actriz?

- Porque amei tantas, Dorian.

"This play was good enough for us, Harry. It was Romeo and Juliet. I must admit that I was rather annoyed at the idea of seeing Shakespeare done in such a wretched hole of a place. Still, I felt interested, in a sort of way. At any rate, I determined to wait for the first act. There was a dreadful orchestra, presided over by a young Hebrew who sat at a cracked piano, that nearly drove me away, but at last the drop-scene was drawn up and the play began. Romeo was a stout elderly gentleman, with corked eyebrows, a husky tragedy voice, and a figure like a beer-barrel. Mercutio was almost as bad. He was played by the low-comedian, who had introduced gags of his own and was on most friendly terms with the pit. They were both as grotesque as the scenery, and that looked as if it had come out of a country-booth. But Juliet! Harry, imagine a girl, hardly seventeen years of age, with a little, flowerlike face, a small Greek head with plaited coils of dark-brown hair, eyes that were violet wells of passion, lips that were like the petals of a rose. She was the loveliest thing I had ever seen in my life. You said to me once that pathos left you unmoved, but that beauty, mere beauty, could fill your eyes with tears. I tell you, Harry, I could hardly see this girl for the mist of tears that came across me. And her voice--I never heard such a voice. It was very low at first, with deep mellow notes that seemed to fall singly upon one's ear. Then it became a little louder, and sounded like a flute or a distant hautboy. In the garden-scene it had all the tremulous ecstasy that one hears just before dawn when nightingales are singing. There were moments, later on, when it had the wild passion of violins. You know how a voice can stir one. Your voice and the voice of Sibyl Vane are two things that I shall never forget. When I close my eyes, I hear them, and each of them says something different. I don't know which to follow. Why should I not love her? Harry, I do love her. She is everything to me in life. Night after night I go to see her play. One evening she is Rosalind, and the next evening she is Imogen. I have seen her die in the gloom of an Italian tomb, sucking the poison from her lover's lips. I have watched her wandering through the forest of Arden, disguised as a pretty boy in hose and doublet and dainty cap. She has been mad, and has come into the presence of a guilty king, and given him rue to wear and bitter herbs to taste of. She has been innocent, and the black hands of jealousy have crushed her reedlike throat. I have seen her in every age and in every costume. Ordinary women never appeal to one's imagination. They are limited to their century. No glamour ever transfigures them. One knows their minds as easily as one knows their bonnets. One can always find them. There is no mystery in any of them. They ride in the park in the morning and chatter at tea-parties in the afternoon. They have their stereotyped smile and their fashionable manner. They are quite obvious. But an actress! How different an actress is! Harry! why didn't you tell me that the only thing worth loving is an actress?"

- Ah, estou a ver, pessoas horrendas que pintam o cabelo e a cara.

"Because I have loved so many of them, Dorian."

- Não deprecie o cabelo pintado e as caras pintadas. Têm por vezes um encanto extraordinário - disse Lord Henry.

"Oh, yes, horrid people with dyed hair and painted faces."

- Agora estou arrependido por Lhe ter contado tudo acerca de Sibyl Vane.

"Don't run down dyed hair and painted faces. There is an extraordinary charm in them, sometimes," said Lord Henry.

- Você não podia deixar de me contar, Dorian. Durante toda a sua vida contar-me-á tudo o que fizer.

"I wish now I had not told you about Sibyl Vane."

- Sim, Harry, creio que tem razão. Não consigo deixar de lhe contar tudo. Você exerce em mim uma estranha influência. Se por acaso eu cometesse um crime, viria logo confessar-lho. Você compreender-me-ia.

"You could not have helped telling me, Dorian. All through your life you will tell me everything you do."

"Yes, Harry, I believe that is true. I cannot help telling you things. You have a curious influence over me. If I ever did a crime, I would come and confess it to you. You would understand me."

- As pessoas como você - obstinados raios de sol desta vida - não cometem crimes, Dorian. Mas, apesar de tudo, agradeço-lhe o elogio. E agora conte-me. seja amável e passe-me os fósforos, obrigado. conte-me quais são exactamente as suas relações com Sibyl Vane?

Dorian Gray pôs-se de pé num salto, as faces afogueadas e os olhos chamejantes.

"People like you--the wilful sunbeams of life--don't commit crimes, Dorian. But I am much obliged for the compliment, all the same. And now tell me--reach me the matches, like a good boy--thanks--what are your actual relations with Sibyl Vane?"

- Harry! Sibyl Vane é sagrada!

Dorian Gray leaped to his feet, with flushed cheeks and burning eyes. "Harry! Sibyl Vane is sacred!"

- As coisas sagradas são as únicas em que vale a pena tocar, Dorian - disse Lord Henry, com uma estranha entoação patética na voz. - Mas por que fica tão melindrado? Suponho que um dia ela há-de pertencer-lhe. Quando uma pessoa se apaixona, começa sempre por se enganar a si mesma e acaba sempre por enganar outras pessoas.

A isso o mundo chama um caso de amor. Ao menos, conhece-a?

"It is only the sacred things that are worth touching, Dorian," said Lord Henry, with a strange touch of pathos in his voice. "But why should you be annoyed? I suppose she will belong to you some day. When one is in love, one always begins by deceiving one's self, and one always ends by deceiving others. That is what the world calls a romance. You know her, at any rate, I suppose?"

- Claro que a conheço. Na primeira noite em que estive no teatro, o tal judeu horrendo veio ter comigo ao camarote, depois do espectáculo, oferecendo-se para me levar até aos bastidores e apresentar-ma. Fiquei indignado e disse-lhe que Julieta morrera havia muitos séculos, e que o seu corpo jazia num túmulo de mármore em Verona. Pelo ar perplexo e atónito com que me olhou, devia ter pensado que eu bebera champanhe a mais, ou coisa parecida.

- Não me surpreende nada.

"Of course I know her. On the first night I was at the theatre, the horrid old Jew came round to the box after the performance was over and offered to take me behind the scenes and introduce me to her. I was furious with him, and told him that Juliet had been dead for hundreds of years and that her body was lying in a marble tomb in Verona. I think, from his blank look of amazement, that he was under the impression that I had taken too much champagne, or something."

- Depois perguntou-me se eu escrevia para os jornais. Respondi-Lhe que nem sequer os leio. Pareceu ter ficado extremamente decepcionado, e confidenciou-me que todos os críticos de teatro estavam conluiados contra ele e que todos eles se deixavam comprar - Não me surpreendia nada que nisso ele tivesse razão.

Mas, por outro lado, a julgar pelo seu aspecto, grande parte deles não devem sair muito caros.

"I am not surprised."

"Then he asked me if I wrote for any of the newspapers. I told him I never even read them. He seemed terribly disappointed at that, and confided to me that all the dramatic critics were in a conspiracy against him, and that they were every one of them to be bought."

- Bem, talvez pensasse que eles viviam acima dos seus recursos - observou Dorian a rir. - Ora àquela hora, porém, estavam a apagar as luzes do teatro, e eu tive que sair. Então ele quis que eu experimentasse uns charutos que me recomendava veementemente. Recusei. Na noite seguinte, como é evidente, voltei lá. Quando me viu, fez-me uma grande vénia e asseverou-me que eu era um generoso patrono das artes. Embora fosse um repulsivo brutamontes, tinha uma paixão extraordinária por Shakespeare. Uma vez, contou-me, com um ar orgulhoso, que as cinco falências que sofrera se deviam inteiramente ao Bardo - era assim que ele insistia em chamar-lhe. Ele pensava que isso Lhe podia dar uma certa distinção.

- E dava mesmo, meu caro Dorian, uma grande distinção. Quase todas as pessoas que abrem falência investiram fortemente na prosa da vida. Ser levado à ruína pela poesia é uma honra. Mas quando é que falou com Miss Sibyl Vane pela primeira vez?

"I should not wonder if he was quite right there. But, on the other hand, judging from their appearance, most of them cannot be at all expensive."

"Well, he seemed to think they were beyond his means," laughed Dorian. "By this time, however, the lights were being put out in the theatre, and I had to go. He wanted me to try some cigars that he strongly recommended. I declined. The next night, of course, I arrived at the place again. When he saw me, he made me a low bow and assured me that I was a munificent patron of art. He was a most offensive brute, though he had an extraordinary passion for Shakespeare. He told me once, with an air of pride, that his five bankruptcies were entirely due to 'The Bard,' as he insisted on calling him. He seemed to think it a distinction."

- Na terceira noite. Ela tinha representado o papel de Rosalinda. Não resisti e fui vê-la. Eu tinha-Lhe atirado algumas flores para o palco, e ela olhou para mim, pelo menos, imaginei que sim. Quanto ao velho judeu, continuava a insistir. Pareceu-me decidido a levar-me até aos bastidores, e, então, consenti. Não acha curioso que eu não tivesse querido conhecê-la?

- Não, não acho.

- E porquê, meu caro Harry?

- Dir-lho-ei noutra ocasião. Agora quero saber tudo sobre a rapariga.

"It was a distinction, my dear Dorian--a great distinction. Most people become bankrupt through having invested too heavily in the prose of life. To have ruined one's self over poetry is an honour. But when did you first speak to Miss Sibyl Vane?"

"The third night. She had been playing Rosalind. I could not help going round. I had thrown her some flowers, and she had looked at me--at least I fancied that she had. The old Jew was persistent. He seemed determined to take me behind, so I consented. It was curious my not wanting to know her, wasn't it?"

- Sibyl? Ah! Ela era tão tímida e tão meiga. Há nela ainda muito de criança. Os olhos escancararam-se de espanto quando Lhe disse o que pensava da sua actuação, e não parecia ter consciência da sua força. Creio que estávamos os dois bastante nervosos. O velho judeu, de sorriso alvar, ficou à porta do camarim poeirento, fazendo discursos floreados acerca de nós, enquanto nós ficámos a olhar um para o outro como duas crianças. Ele teimava em chamar-me My Lord, por isso tive que garantir a Sibyl que eu não era nada disso. Ela disse-me muito simplesmente: "O senhor parece-se mais com um príncipe. Devo chamar-lhe Príncipe Encantado"?

- Palavra de honra, Dorian, Miss Sibyl sabe elogiar.

"No; I don't think so."

"My dear Harry, why?"

"I will tell you some other time. Now I want to know about the girl."

"Sibyl? Oh, she was so shy and so gentle. There is something of a child about her. Her eyes opened wide in exquisite wonder when I told her what I thought of her performance, and she seemed quite unconscious of her power. I think we were both rather nervous. The old Jew stood grinning at the doorway of the dusty greenroom, making elaborate speeches about us both, while we stood looking at each other like children. He would insist on calling me 'My Lord,' so I had to assure Sibyl that I was not anything of the kind. She said quite simply to me, 'You look more like a prince. I must call you Prince Charming.'"

- Você não a compreende, Harry. Ela considerava-me apenas uma personagem de uma peça. Ela não sabe nada da vida. Vive com a mãe, uma mulher cansada e débil, que, na primeira noite, fez de Lady Capuleto, vestindo um roupão escarlate, e que tem o ar de ter tido uma vida mais próspera.

"Upon my word, Dorian, Miss Sibyl knows how to pay compliments."

- Conheço esse ar. Deprime-me - murmurou Lord Henry, olhando para os seus anéis.

- O judeu quis contar-me a história da vida dela, mas eu disse-lhe que não estava interessado.

"You don't understand her, Harry. She regarded me merely as a person in a play. She knows nothing of life. She lives with her mother, a faded tired woman who played Lady Capulet in a sort of magenta dressing-wrapper on the first night, and looks as if she had seen better days."

- Fez muito bem. Há sempre qualquer coisa extremamente mesquinha na tragédia das outras pessoas.

"I know that look. It depresses me," murmured Lord Henry, examining his rings.

- Só a Sibyl me interessa. Que me importam as suas origens? Da cabeça aos pés, ela é absoluta e inteiramente divina. Vou vê-la actuar sem falhar uma noite, e ela é sempre mais maravilhosa noite após noite.

"The Jew wanted to tell me her history, but I said it did not interest me."

"You were quite right. There is always something infinitely mean about other people's tragedies."

- Creio que é esse o motivo por que deixou de jantar comigo. Pensei que você devia andar envolvido em alguma aventura especial. E anda, só que não é exactamente o que eu esperava.

"Sibyl is the only thing I care about. What is it to me where she came from? From her little head to her little feet, she is absolutely and entirely divine. Every night of my life I go to see her act, and every night she is more marvellous."

- Mas meu caro Harry, jantamos, tocamus juntos todos os dias, e fui com você à Ópera várias vezes - disse Dorian, arregalando de espanto os seus olhos azuis.

- Você chega sempre tardíssimo.

"That is the reason, I suppose, that you never dine with me now. I thought you must have some curious romance on hand. You have; but it is not quite what I expected."

- Bem, não posso deixar de ir ver a Sibyl actuar - exclamou ele -, nem que seja apenas um único acto. Estou ávido da sua presença, e quando penso na alma maravilhosa que se oculta naquela figurinha de marfim, sinto admiração e respeito.

"My dear Harry, we either lunch or sup together every day, and I have been to the opera with you several times," said Dorian, opening his blue eyes in wonder.

"You always come dreadfully late."

- Esta noite pode jantar comigo, Dorian, não pode?

- Esta noite ela faz de Imogénia - respondeu ele, abanando a cabeça -, e amanhã à noite vai representar Julieta.

- E quando é que ela é Sibyl Vane?

- Nunca.

- Dou-lhe os meus parabéns.

"Well, I can't help going to see Sibyl play," he cried, "even if it is only for a single act. I get hungry for her presence; and when I think of the wonderful soul that is hidden away in that little ivory body, I am filled with awe."

- Você é horrível! Saiba que ela reúne em si todas as grandes heroínas do mundo. É mais do que uma pessoa. Você ri-se? Pois digo-Lhe que ela tem génio. Amo-a e tenho de levá-la a amar-me. Você, que conhece todos os segredos da vida, diga-me como hei-de enfeitiçar Sibyl Vane para que ela. me ame! Quero que Romeu tenha ciúmes de mim.

"You can dine with me to-night, Dorian, can't you?"

He shook his head. "To-night she is Imogen," he answered, "and to-morrow night she will be Juliet."

"When is she Sibyl Vane?"

"Never."

"I congratulate you."

Quero que todos os amantes mortos do mundo ouçam o nosso riso e fiquem tristes. Quero que um sopro da nossa paixão remexa essas cinzas até ganharem consciência e que desperte as suas cinzâs para a dor. Meu Deus, Harry, como eu a adoro!

Ele percorria a sala, de um lado para o outro, enquanto falava. Manchas rosáceas esbraseavam-lhe febrilmente as faces. Estava excessivamente excitado.

Lord Henry observava-o com uma subtil sensação de prazer. Que diferente era agora do rapaz tímido e assustado que encontrara no atelier de Basil Hallward. O seu ser desabrochara como uma flor, em florescências de chama escarlate. A Alma conseguira sair do seu esconderijo secreto, e o Desejo viera ao seu encontro.

"How horrid you are! She is all the great heroines of the world in one. She is more than an individual. You laugh, but I tell you she has genius. I love her, and I must make her love me. You, who know all the secrets of life, tell me how to charm Sibyl Vane to love me! I want to make Romeo jealous. I want the dead lovers of the world to hear our laughter and grow sad. I want a breath of our passion to stir their dust into consciousness, to wake their ashes into pain. My God, Harry, how I worship her!" He was walking up and down the room as he spoke. Hectic spots of red burned on his cheeks. He was terribly excited.

- E o que é que sugere: - disse, por fin, Lord Henry.

Lord Henry watched him with a subtle sense of pleasure. How different he was now from the shy frightened boy he had met in Basil Hallward's studio! His nature had developed like a flower, had borne blossoms of scarlet flame. Out of its secret hiding-place had crept his soul, and desire had come to meet it on the way.

- Quero que você e o Basil venham uma noite comigo vê-la representar. Não tenho o mínimo receio do resultado. De certeza que vocês irão reconhecer o seu génio. Depois temos de arrancá-la às mãos do judeu. Ela tem com ele um contrato de três anos - pelo menos, de dois anos e oito meses - a partir de agora. Terei que pagar ao homem qualquer coisa, por certo. Quando tudo estiver resolvido, alugo um teatro do West End e há-de ser conhecida como merece. Há-de arrebatar o público tal como me arrebatou a mim.

- Isso seria impossível, meu menino!

- Há-de, sim! Ela possui mais do que arte, um consumado instinto artístico, tem também personalidade, e você disse-me repetidas vezes que são as personalidades, e não os princípios, que fazem mover os nossos tempos.

"And what do you propose to do?" said Lord Henry at last.

"I want you and Basil to come with me some night and see her act. I have not the slightest fear of the result. You are certain to acknowledge her genius. Then we must get her out of the Jew's hands. She is bound to him for three years--at least for two years and eight months--from the present time. I shall have to pay him something, of course. When all that is settled, I shall take a West End theatre and bring her out properly. She will make the world as mad as she has made me."

"That would be impossible, my dear boy."

- Pois bem, em que noite vamos?

- Deixe-me ver. Hoje é terça-feira. Marcamos para amanhã. Amanhã ela representa o papel de Julieta.

- Combinado. No Bristol às oito horas, eu trago o Basil.

"Yes, she will. She has not merely art, consummate art-instinct, in her, but she has personality also; and you have often told me that it is personalities, not principles, that move the age."

- Às oito não, Harry, por favor. Às seis e meia. Temos de estar lá antes de subir o pano. Têm de vê-la no primeiro acto, que é quando ela se encontra com o Romeu.

"Well, what night shall we go?"

"Let me see. To-day is Tuesday. Let us fix to-morrow. She plays Juliet to-morrow."

"All right. The Bristol at eight o'clock; and I will get Basil."

- Às seis e meia! Nem pensar! É como ir tomar chá, ou ler um romance inglês. Tem de ser às sete. Nenhum cavaLheiro janta antes das sete. Você ainda vai estar com o Basil até lá? Ou quer que eu Lhe escreva?

"Not eight, Harry, please. Half-past six. We must be there before the curtain rises. You must see her in the first act, where she meets Romeo."

- O querido Basil! Há uma semana que não o vejo. Tenho-me portado horrivelmente com ele, tanto mais que me mandou o meu retrato com uma moldura maravilhosa especialmente concebida por ele, e, posto que sinta alguns ciúmes do retrato por ser exactamente um mês mais novo do que eu, devo confessar que me encanta. É talvez preferível que você lhe escreva. Não quero estar a sós com ele.

"Half-past six! What an hour! It will be like having a meat-tea, or reading an English novel. It must be seven. No gentleman dines before seven. Shall you see Basil between this and then? Or shall I write to him?"

Diz coisas que me aborrecem. Costuma dar-me bons conselhos.

- As pessoas - comentou Lord Henry, sorrindo -- gostam muito de se desfazer daquilo de que mais precisam.

A isso costumo chamar generosidade levada ao extremo.

"Dear Basil! I have not laid eyes on him for a week. It is rather horrid of me, as he has sent me my portrait in the most wonderful frame, specially designed by himself, and, though I am a little jealous of the picture for being a whole month younger than I am, I must admit that I delight in it. Perhaps you had better write to him. I don't want to see him alone. He says things that annoy me. He gives me good advice."

- Mas o Basil é o melhor dos indivíduos, ainda que tenha um pouco de filistino. Descobri isso depois de o ter conhecido a si, Harry.

Lord Henry smiled. "People are very fond of giving away what they need most themselves. It is what I call the depth of generosity."

- O Basil, meu menino, põe na sua obra tudo o que há de fascinante dentro dele. Como consequência só lhe restaram para a vida os seus preconceitos, e princípios, e senso comum. Os únicos artistas de personalidade encantadora que conheci são maus artistas. Os bons artistas existem simplesmente em tudo o que criam e, por conseguinte, são completamente falhos de interesse em tudo o que são. Um grande poeta, um poeta que seja realmente extraordinário, é a menos poética de todas as criaturas. Contudo, os poetas menores são absolutamente fascinantes. Quanto mais medíocres são os seus versos, mais pitorescos parecem. O sinples facto de ter publicado um livro de sonetos de segunda ordem faz de um homem uma pessoa extraordinariamente irresistível. Ele vive a poesia que não consegue escrever. Os outros escrevem a poesía que não ousam realizar.

- Será mesmo assim, Harry? - perguntou Dorian Gray, pondo no lenço um pouco de perfume de um grande frasco com tampa de ouro que estava em cima da mesa. - Deve ser, se é você que o diz. E agora vou-me embora. Imogénia está à ninha espera. Não se esqueça do dia de amanhã.

"Oh, Basil is the best of fellows, but he seems to me to be just a bit of a Philistine. Since I have known you, Harry, I have discovered that."

"Basil, my dear boy, puts everything that is charming in him into his work. The consequence is that he has nothing left for life but his prejudices, his principles, and his common sense. The only artists I have ever known who are personally delightful are bad artists. Good artists exist simply in what they make, and consequently are perfectly uninteresting in what they are. A great poet, a really great poet, is the most unpoetical of all creatures. But inferior poets are absolutely fascinating. The worse their rhymes are, the more picturesque they look. The mere fact of having published a book of second-rate sonnets makes a man quite irresistible. He lives the poetry that he cannot write. The others write the poetry that they dare not realize."

Adeus.

"I wonder is that really so, Harry?" said Dorian Gray, putting some perfume on his handkerchief out of a large, gold-topped bottle that stood on the table. "It must be, if you say it. And now I am off. Imogen is waiting for me. Don't forget about to-morrow. Good-bye."

Quando ele saiu da sala, Lord Henry baixou as suas pesadas pálpebras e começou a meditar. Não havia, certamente, muitas pessoas que lhe tivessem despertado tamanho interesse como Dorian Gray, e, contudo, a exagerada adoração que o rapaz sentia por outra pessoa não lhe causava a mínima angústia ou ciúme. Causava-lhe mesmo satisfação e fazia dele um objecto de estudo mais interessante. Os métodos das ciências naturais tinham-no atraído sempre, mas o vulgar assunto dessas ciências representara-se-Lhe como trivial e sem importância. Por isso, começara por dissecar-se a si mesmo, e acabara por dissecar os outros. A vida humana é que lhe parecia ser a única coisa que valia a pena investigar. Não havia mais nada de valor que se lhe comparasse.

Era certo que, quando se observava a vida no seu singular cadinho de dor e de prazer, não era possível proteger o rosto com uma máscara de vidro, nem impedir que as emanações sulfurosas afectassem o cérebro, toldando a imaginação com fantasias monstruosas e sonhos disformes. Havia venenos tão subtis que para conhecer as suas propriedades era preciso adoecer, experimentando-os.

Havia doenças tão invulgares que tinha que se passar por elas para se compreender a sua natureza. E, porém, a recompensa recebida era enorme! Como o mundo se tornava maravilhoso aos nossos olhos! Observar a lógica rigorosa e singular da paixão e a vida colorida e emocional do intelecto, atentar nos pontos em que se encontravam e se separavam, no ponto de concórdia e no de discórdia... que prazer havia em tudo isso! Não importava o custo que havia que pagar! Nunca era demasiado elevado o preço de qualquer sensação.

As he left the room, Lord Henry's heavy eyelids drooped, and he began to think. Certainly few people had ever interested him so much as Dorian Gray, and yet the lad's mad adoration of some one else caused him not the slightest pang of annoyance or jealousy. He was pleased by it. It made him a more interesting study. He had been always enthralled by the methods of natural science, but the ordinary subject-matter of that science had seemed to him trivial and of no import. And so he had begun by vivisecting himself, as he had ended by vivisecting others. Human life--that appeared to him the one thing worth investigating. Compared to it there was nothing else of any value. It was true that as one watched life in its curious crucible of pain and pleasure, one could not wear over one's face a mask of glass, nor keep the sulphurous fumes from troubling the brain and making the imagination turbid with monstrous fancies and misshapen dreams. There were poisons so subtle that to know their properties one had to sicken of them. There were maladies so strange that one had to pass through them if one sought to understand their nature. And, yet, what a great reward one received! How wonderful the whole world became to one! To note the curious hard logic of passion, and the emotional coloured life of the intellect--to observe where they met, and where they separated, at what point they were in unison, and at what point they were at discord--there was a delight in that! What matter what the cost was? One could never pay too high a price for any sensation.

Ele tinha consciência de que - e, só de pensar nisso, os olhos de um castanho ágata brilhavam de prazer - fora devido a determinadas palavras suas, palavras musícais e proferidas com uma expressão musical, que a alma de Dorian Gray se votara a essa rapariga inocente, que adorava com reverência. Em larga medida, o rapaz era uma criação sua. Tornara-o precoce. Foi um bom resultado. As pessoas vulgares aguardavam que a vida lhes revelasse os seus segredos, mas eram poucos, só os eleitos, aqueles a quem. os mistérios da vida se revelavam antes de se levantar o véu.

Às vezes isso acontecia por efeito da arte, e principalmente da arte literária, que tinha uma relação imediata com as paixões e o intelecto. Todavia, por vezes, uma personalidade complexa surgia e assumia o labor da arte, passava a ser, de certo modo, uma verdadeira obra de arte, possuindo a Vida as suas esmeradas obras-primas, tal como a poesia, ou a escultura, ou a pintura o possuem.

O rapaz era, na verdade, permaturo. Ele fazia a sua coLheita enquanto era ainda Primavera. Nele pulsava a paixão da juventude. mas estava a tornar-se consciente de si próprio.

He was conscious--and the thought brought a gleam of pleasure into his brown agate eyes--that it was through certain words of his, musical words said with musical utterance, that Dorian Gray's soul had turned to this white girl and bowed in worship before her. To a large extent the lad was his own creation. He had made him premature. That was something. Ordinary people waited till life disclosed to them its secrets, but to the few, to the elect, the mysteries of life were revealed before the veil was drawn away. Sometimes this was the effect of art, and chiefly of the art of literature, which dealt immediately with the passions and the intellect. But now and then a complex personality took the place and assumed the office of art, was indeed, in its way, a real work of art, life having its elaborate masterpieces, just as poetry has, or sculpture, or painting.

Era maravilhoso observá-lo. A beleza do seu rosto e a da sua alma faziam dele um ser admirável. Não importava como tudo acabava, ou estava destinado a acabar. Ele assemelhava-se a uma dessas graciosas figuras de um cortejo alegórico ou de uma peça, cujas alegrias parecem afastadas de nós, mas cujas tristezas emocionam o nosso sentido de beleza e as chagas são como rosas vermelhas.

Yes, the lad was premature. He was gathering his harvest while it was yet spring. The pulse and passion of youth were in him, but he was becoming self-conscious. It was delightful to watch him. With his beautiful face, and his beautiful soul, he was a thing to wonder at. It was no matter how it all ended, or was destined to end. He was like one of those gracious figures in a pageant or a play, whose joys seem to be remote from one, but whose sorrows stir one's sense of beauty, and whose wounds are like red roses.

A alma e o corpo, o corpo e a alma - que mistério tinham! Havia sensualidade na alma e o corpo tinha momentos de espiritualidade. Os sentidos podiam aperfeiçoar-se, e o intelecto podia degradar-se. Quem podia dizer onde terminava o impulso carnal, ou começava o impulso espiritual? Como eram triviais as definições arbitrárias de vulgares psicólogos! E, porém, como era difícil decidir entre as pretensões das diversas escolas! Seria a alma uma sombra sentada na casa do pecado? Ou estaria realmente o corpo dentro da alma, como pensava Giordano Bruno? A separação entre o espírito e a matéria constituía um mistério, e a união do espírito com a matéria era também um mistério.

Soul and body, body and soul--how mysterious they were! There was animalism in the soul, and the body had its moments of spirituality. The senses could refine, and the intellect could degrade. Who could say where the fleshly impulse ceased, or the psychical impulse began? How shallow were the arbitrary definitions of ordinary psychologists! And yet how difficult to decide between the claims of the various schools! Was the soul a shadow seated in the house of sin? Or was the body really in the soul, as Giordano Bruno thought? The separation of spirit from matter was a mystery, and the union of spirit with matter was a mystery also.

Ele começou a interrogar-se se poderíamos alguma vez fazer da psicologia uma ciência tão absoluta que cada pequena primavera da vida nos seria revelada. Nós, por assim dizer, nunca nos entendíamos a nós mesmos e raramente compreendíamos os outros. A experiência não tinha valor ético algum. Era simplesmente o nome que os homens davam aos seus próprios erros. Em regra, os moralistas tinham-na considerado um modo de advertência, tinham reivindicado para ela uma certa eficácia ética na formação do carácter, tinham-na elogiado como uma coisa que nos ensinava o que devíamos seguir e nos mostrava o que devíamos evitar. Mas a experiência não tinha força motriz. Era uma causa tão pouco activa como a própria consciência.

Na realidade, apenas demonstrava que o nosso futuro seria igual ao nosso passado, e que o pecado, que cometeramos apenas uma vez e com relutância, seria cometido muitas vezes e com prazer.

He began to wonder whether we could ever make psychology so absolute a science that each little spring of life would be revealed to us. As it was, we always misunderstood ourselves and rarely understood others. Experience was of no ethical value. It was merely the name men gave to their mistakes. Moralists had, as a rule, regarded it as a mode of warning, had claimed for it a certain ethical efficacy in the formation of character, had praised it as something that taught us what to follow and showed us what to avoid. But there was no motive power in experience. It was as little of an active cause as conscience itself. All that it really demonstrated was that our future would be the same as our past, and that the sin we had done once, and with loathing, we would do many times, and with joy.

Era bem evidente para ele que o método experimental era o único método através do qual se podia chegar a uma análise científica das paixões, e era certo que Dorian Gray era um objecto de estudo à sua medida e parecia prometer resultados ricos e frutificantes. A sua súbita paixão por Sibyl Vane era um fenómeno psicológico com interesse a não desprezar. Era indubitável que a curiosidade dera um grande contributo, a curiosidade e o desejo de experimentar novas sensações não era, porém, uma paixão simples, mas antes uma paixão muito complexa. O que nela havia de instinto puramente sensual da adolescência transformara-se, devido à actividade da imaginação, em algo que ao próprio jovem parecia muito distante dos sentidos, e era tanto mais perigoso por esse mesmo motivo. As paixões que mais violentamente nos tiranizavam eram aquelas acerca de cujas origens nos iludíamos a nós mesmos. As nossas razões mais inconsistentes eram aquelas de cuja natureza tínhamos consciência. Acontecia frequentemente que, quando julgávamos fazer experiências em outras pessoas, estávamos, de facto, a fazer experiências em nós próprios.

It was clear to him that the experimental method was the only method by which one could arrive at any scientific analysis of the passions; and certainly Dorian Gray was a subject made to his hand, and seemed to promise rich and fruitful results. His sudden mad love for Sibyl Vane was a psychological phenomenon of no small interest. There was no doubt that curiosity had much to do with it, curiosity and the desire for new experiences, yet it was not a simple, but rather a very complex passion. What there was in it of the purely sensuous instinct of boyhood had been transformed by the workings of the imagination, changed into something that seemed to the lad himself to be remote from sense, and was for that very reason all the more dangerous. It was the passions about whose origin we deceived ourselves that tyrannized most strongly over us. Our weakest motives were those of whose nature we were conscious. It often happened that when we thought we were experimenting on others we were really experimenting on ourselves.

Enquanto Lord Henry especulava sobre estas questões, ouviu-se bater à porta e o seu criado de quarto entrou e fez-lhe lembrar que eram horas de mudar de fato para o jantar. Levantou-se e olhou para fora para a rua. O sol poente tinha chapeado de ouro escarlate as janelas dos andares superiores das casas em frente. As vidraças brilhavam incandescentes como chapas de metal em brasa. O céu parecia uma rosa a esmaecer. Ele lembrou-se da fogosa vida juvenil do seu amigo e interrogava-se como iria tudo terminar.

While Lord Henry sat dreaming on these things, a knock came to the door, and his valet entered and reminded him it was time to dress for dinner. He got up and looked out into the street. The sunset had smitten into scarlet gold the upper windows of the houses opposite. The panes glowed like plates of heated metal. The sky above was like a faded rose. He thought of his friend's young fiery-coloured life and wondered how it was all going to end.

Quando chegou a casa, eram aproximadamente doze horas e trinta, viu um telegrama em cima da mesa do vestíbulo. Ao abri-lo, viu que era de Dorian Gray. O telegrama informava-o de que ele estava noivo de Sibyl Vane.

When he arrived home, about half-past twelve o'clock, he saw a telegram lying on the hall table. He opened it and found it was from Dorian Gray. It was to tell him that he was engaged to be married to Sibyl Vane.