O Retrato De Dorian Gray.  Oscar Wilde
Capítulo 14. (Chapter 14. )
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Às nove da manhã, o criado entrou com uma chávena de chocolate num tabuleiro, e abriu as portadas das janelas. Dorian dormia tranquilamente, deitado sobre o lado direito, com a mão sob a face. Parecia um rapazinho cansado de brincar, ou de estudar.

At nine o'clock the next morning his servant came in with a cup of chocolate on a tray and opened the shutters. Dorian was sleeping quite peacefully, lying on his right side, with one hand underneath his cheek. He looked like a boy who had been tired out with play, or study.

O criado teve de lhe tocar duas vezes no ombro para o acordar. Quando abriu os olhos, perpassou-lhe pelos lábios um leve sorriso, como se tivesse andado perdido num sonho delicioso. Porém, não tivera sonho algum. O seu sono não fora perturbado por imagens de prazer, nem de dor. Mas a mocidade ri sem motivo. É um dos seus principais encantos.

The man had to touch him twice on the shoulder before he woke, and as he opened his eyes a faint smile passed across his lips, as though he had been lost in some delightful dream. Yet he had not dreamed at all. His night had been untroubled by any images of pleasure or of pain. But youth smiles without any reason. It is one of its chiefest charms.

Voltou-se e, apoiado no cotovelo, começou a tomar o seu chocolate. O brando sol de Novembro entrava a jorros no quarto. O céu estava luminoso, e o ar era cálido e suave. Quase como numa manhã de Maio.

He turned round, and leaning upon his elbow, began to sip his chocolate. The mellow November sun came streaming into the room. The sky was bright, and there was a genial warmth in the air. It was almost like a morning in May.

A pouco e pouco, com pés silenciosos e tintos de sangue, os acontecimentos da noite anterior insinuavam-se-Lhe no cérebro, e reconstituíam-se aí com uma nitidez tremenda. Estremeceu ao recordar tudo o que sofrera, e, por um breve momento, tornou a sentir a estranha aversão que o levara a matar Basil Hallward, quando este se encontrava sentado na cadeira, e gelou com a emoção sentida. O morto ainda lá estava sentado e, agora, ao sol. Que horrível! Essas coisas medonhas pertenciam às trevas, e não à claridade.

Gradually the events of the preceding night crept with silent, blood-stained feet into his brain and reconstructed themselves there with terrible distinctness. He winced at the memory of all that he had suffered, and for a moment the same curious feeling of loathing for Basil Hallward that had made him kill him as he sat in the chair came back to him, and he grew cold with passion. The dead man was still sitting there, too, and in the sunlight now. How horrible that was! Such hideous things were for the darkness, not for the day.

Sentiu que se cismasse naquilo por que passara ficaria doente ou louco. Certos pecados possuem mais fascínio na memória do que no próprio acto de os cometer, estranhos triunfos que satisfaziam mais o orgulho do que as paixões, e que proporcionavam ao intelecto uma intensa sensação de júbilo, maior do que qualquer júbilo que trouxessem, ou pudessem trazer, aos sentidos. Mas este era de natureza diferente. Essa coisa tinha de ser afastada da mente, ou narcotizada com papoilas, ou estrangulada, não fosse ela a estrangular.

He felt that if he brooded on what he had gone through he would sicken or grow mad. There were sins whose fascination was more in the memory than in the doing of them, strange triumphs that gratified the pride more than the passions, and gave to the intellect a quickened sense of joy, greater than any joy they brought, or could ever bring, to the senses. But this was not one of them. It was a thing to be driven out of the mind, to be drugged with poppies, to be strangled lest it might strangle one itself.

Quando soou a meia hora, passou a mão pela testa, e depois levantou-se rapidamente. Vestiu-se com mais esmero do que habitualmente, escolhendo meticulosamente a gravata e o alfinete, e mudando várias vezes de anéis. Tomou o pequeno-almoço demoradamente, saboreando os diversos pratos, falando com o seu criado a propósito das novas librés que pensava mandar fazer para os criados de Selby, e passando os olhos pela correspondência. Umas cartas fizeram-no sorrir. Outras aborreceram-no. Houve uma que leu repetidas vezes, a seguir rasgou-a, com um leve ar de enfado. Que coisa horrível, a memória de uma mulher! como uma vez dissera Lord Henry.

Depois de ter bebido o café, limpou vagarosamente os lábios ao guardanapo, fez sinal ao criado que esperasse, e sentou-se à mesa a escrever duas cartas. Meteu uma no bolso e entregou a outra ao criado.

When the half-hour struck, he passed his hand across his forehead, and then got up hastily and dressed himself with even more than his usual care, giving a good deal of attention to the choice of his necktie and scarf-pin and changing his rings more than once. He spent a long time also over breakfast, tasting the various dishes, talking to his valet about some new liveries that he was thinking of getting made for the servants at Selby, and going through his correspondence. At some of the letters, he smiled. Three of them bored him. One he read several times over and then tore up with a slight look of annoyance in his face. "That awful thing, a woman's memory!" as Lord Henry had once said.

- Francis, leve esta carta ao n.o 152 da Hertford Street, e se Mr. Campbell não estiver em Londres, veja se consegue o seu endereço.

After he had drunk his cup of black coffee, he wiped his lips slowly with a napkin, motioned to his servant to wait, and going over to the table, sat down and wrote two letters. One he put in his pocket, the other he handed to the valet.

Assim que ficou só, acendeu um cigarro e começou a desenhar, num pedaço de papel, primeiro flores e esboços de arquitectura, e depois rostos. Subitamente, notou que cada rosto que desenhava parecia ter uma parecença extraordinária com Basil Hallward. De semblante carregado, levantou-se e dirigiu-se à estante, de onde tirou um volume ao acaso. Estava decidido a não pensar no que Lhe acontecera, salvo quando fosse absolutamente necessário.

Depois de estendido no sofá, olhou para o título do livro: Era Emaux et Camées, de Gautier, uma edição Charpentier em papel japonês, com uma água-forte de Jacquemart. Estava encadernado em pele verde-limão, com um desenho dourado de entrelaçados e semeado de romãs.

"Take this round to 152, Hertford Street, Francis, and if Mr. Campbell is out of town, get his address."

As soon as he was alone, he lit a cigarette and began sketching upon a piece of paper, drawing first flowers and bits of architecture, and then human faces. Suddenly he remarked that every face that he drew seemed to have a fantastic likeness to Basil Hallward. He frowned, and getting up, went over to the book-case and took out a volume at hazard. He was determined that he would not think about what had happened until it became absolutely necessary that he should do so.

Fora-Lhe oferecido por Adrian Singleton. Ao virar as páginas, deparou com um poema sobre a mão de Laenaire, á gélida mão amarela du supplice encore mal lavée, de penugentos pêlos arruivados e doigts de faune. Olhou para os seus dedos brancos e esguios com um arrepio involuntário, e continuou a folhear o livro, até chegar àquelas preciosas estrofes sobre Veneza: Sur une gamme chromatique, Le sein de perles ruisselant, La Vénus de l'Adriatique Sort de l'eau son corps rose et blanc.

Les domes, sur l'ázur des ondes Suivant la phrase au pure contour, S'enflent comme des gorges rondes Que soulève un soupir d'amour.

When he had stretched himself on the sofa, he looked at the title-page of the book. It was Gautier's Emaux et Camees, Charpentier's Japanese-paper edition, with the Jacquemart etching. The binding was of citron-green leather, with a design of gilt trellis-work and dotted pomegranates. It had been given to him by Adrian Singleton. As he turned over the pages, his eye fell on the poem about the hand of Lacenaire, the cold yellow hand "du supplice encore mal lavee," with its downy red hairs and its "doigts de faune." He glanced at his own white taper fingers, shuddering slightly in spite of himself, and passed on, till he came to those lovely stanzas upon Venice:

L'esquife aborde et me dépose Jetant son amarre au pilier, Devant une façade rose, Sur le marbre d'un escalier.

Sur une gamme chromatique,
Le sein de peries ruisselant,
La Venus de l'Adriatique
Sort de l'eau son corps rose et blanc.

Que belas! Ao ler estas estrofes, tinha-se a sensação de deslizar pelos verdes canais da cidade pérola e rosa, sentados em negra gôndola de proa prateada e de cortinas a arrastar. Os simples versos pareciam-lhe aquelas linhas rectas de cor azul-turquesa que nos seguem quando se sai do Lido. Os súbitos lampejos coloridos faziam-lhe lembrar o fulgor das aves de irisado pescoço opalino que esvoaçam em redor do alto Campanile alveolado, ou se passeiam com majestosa graciosidade pelas arcadas sombrias e poeirentas. Recostado, de olhos semicerrados, repetia vezes sem conta: Devant une façade rose, Sur le marbre dun escalier.

Toda a Veneza estava naqueles dois versos. Recordou-se do Outono que lá passara, e de um amor maravilhoso que o arrastara para delirantes e maravilhosas loucuras. Havia aventuras amorosas em toda a parte. Mas Veneza, tal como Oxford, conservara o cenário romanesco, e, para o verdadeiro romântico, o cenário era tudo, ou quase tudo. Basil estivera com ele durante parte desse tempo, e ficara louco por Tintoretto. Pobre Basil! Que maneira horrível de um homem morrer!

Les domes, sur l'azur des ondes
Suivant la phrase au pur contour,
S'enflent comme des gorges rondes
Que souleve un soupir d'amour.

L'esquif aborde et me depose,
Jetant son amarre au pilier,
Devant une facade rose,
Sur le marbre d'un escalier.

How exquisite they were! As one read them, one seemed to be floating down the green water-ways of the pink and pearl city, seated in a black gondola with silver prow and trailing curtains. The mere lines looked to him like those straight lines of turquoise-blue that follow one as one pushes out to the Lido. The sudden flashes of colour reminded him of the gleam of the opal-and-iris-throated birds that flutter round the tall honeycombed Campanile, or stalk, with such stately grace, through the dim, dust-stained arcades. Leaning back with half-closed eyes, he kept saying over and over to himself:

"Devant une facade rose,
Sur le marbre d'un escalier."

Suspirou e, pegando de novo no livro, procurou esquecer. Leu sobre as andorinhas que voam para dentro e fora de um pequeno café de Esmirna, onde os hadjis se sentam a desfiar as suas contas de âmbar, e os mercadores de turbante fumam os seus longos cachimbos de borlas e conversam com certa gravidade uns com os outros, leu sobre o Obelisco da Praça da Concórdia, que chora lágrimas de granito em seu exílio solitário e sem sol, e anseia por regressar ao calor do Nilo coberto de lótus, onde há esfinges, e íbis de um rosa vivo, e abutres brancos de garras douradas, e crocodilos de pequenos olhos de berilo que se arrastam pelo lodo verde e fumegante, pôs-se a meditar naqueles versos que, extraindo música do mármore manchado de beijos, falam daquela estátua singular que Gautier compara a uma voz de contralto, o monstre charmant que jaz na sala de pórfiro do Louvre.

Mas, passado algum tempo, o livro caiu-Lhe das mãos. Tomado de um pavoroso acesso de terror, começou a sentir-se nervoso. E se Alan Campbell se tivesse ausentado de Inglaterra? Só poderia regressar depois de terem passado alguns dias. Talvez recusasse vir. Nesse caso, que poderia ele fazer? Cada momento que passava era de vital importância. Haviam sido amigos cinco anos atrás, amigos inseparáveis até. Depois a intimidade entre eles terminara abruptamente. Quando agora se encontravam em convívios sociais, Dorian Gray era o único que sorria, Alan Campbell nunca sorria.

The whole of Venice was in those two lines. He remembered the autumn that he had passed there, and a wonderful love that had stirred him to mad delightful follies. There was romance in every place. But Venice, like Oxford, had kept the background for romance, and, to the true romantic, background was everything, or almost everything. Basil had been with him part of the time, and had gone wild over Tintoret. Poor Basil! What a horrible way for a man to die!

He sighed, and took up the volume again, and tried to forget. He read of the swallows that fly in and out of the little cafe at Smyrna where the Hadjis sit counting their amber beads and the turbaned merchants smoke their long tasselled pipes and talk gravely to each other; he read of the Obelisk in the Place de la Concorde that weeps tears of granite in its lonely sunless exile and longs to be back by the hot, lotus-covered Nile, where there are Sphinxes, and rose-red ibises, and white vultures with gilded claws, and crocodiles with small beryl eyes that crawl over the green steaming mud; he began to brood over those verses which, drawing music from kiss-stained marble, tell of that curious statue that Gautier compares to a contralto voice, the "monstre charmant" that couches in the porphyry-room of the Louvre. But after a time the book fell from his hand. He grew nervous, and a horrible fit of terror came over him. What if Alan Campbell should be out of England? Days would elapse before he could come back. Perhaps he might refuse to come. What could he do then? Every moment was of vital importance.

Era um jovem extremamente inteligente, embora não tivesse verdadeiro apreço pelas artes visuais, e a reduzida sensibilidade pela beleza da poesia devia-se inteiramente a Dorian. A sua paixão intelectual predominante era votada à ciência. Em Cambridge, passara grande parte do seu tempo a trabalhar no laboratório, e tivera uma boa classificação no exame final de Ciências da Natureza. Na verdade, ainda se dedicava ao estudo da química, e tinha um laboratório só seu, onde costumava encafuar-se o dia inteiro, para grande desespero da mãe, que se empenhara na sua candidatura ao Parlamento e tinha uma vaga ideia de que um químico era uma pessoa que fazia receitas. Ele era, todavia, também excelente músico, e tocava violino e piano melhor do que numerosos amadores. De facto, foi a música que aproximou os dois, ele e Dorian Gray, a música, e aquela atracção indizível que Dorian parecia saber exercer sempre que desejava, mas que chegava também a ser exercida inconscientemente. Tinham travado conhecimento em casa de Lady Berkshire na noite em que Rubenstein dera lá um concerto, e depois disso costumavam ser vistos juntos na Ópera e onde quer que se tocasse boa música. A intimidade entre eles durou dezoito meses. Campbell estava sempre em Selby Royal ou na Grosvenor Square. Para ele, assim como para muitos outros, Dorian Gray era o modelo de tudo o que é maravilhoso e fascinante na vida. Se houvera, ou não, uma desavença entre eles, ninguém sabia. Mas, de repente, as pessoas notaram que eles mal se falavam quando se encontravam, e que Campbell parecia retirar-se sempre cedo de qualquer reunião social em que Dorian estivesse presente. E também se modificara: às vezes estava inexplicavelmente melancólico, quase parecia detestar ouvir música, e nunca mais tocara, desculpando-se, quando a isso se via obrigado, com a falta de tempo para praticar, pois a ciência absorvia-o muito. E isto era mesmo verdade. Parecia interessar-se cada vez mais por biologia, e o seu nome apareceu uma ou duas vezes em algumas revistas científicas, associado a determinadas experiências curiosas.

Era este o homem que Dorian Gray aguardava. A cada segundo olhava para o relógio. À medida que os minutos avançavam, ia ficando tremendamente agitado. Por fim, levantou-se e começou a passear na sala, de um lado para o outro, parecendo qualquer coisa de muito belo dentro de uma jaula. Dava longas passadas furtivamente. Tinha as mãos geladas.

They had been great friends once, five years before--almost inseparable, indeed. Then the intimacy had come suddenly to an end. When they met in society now, it was only Dorian Gray who smiled: Alan Campbell never did.

He was an extremely clever young man, though he had no real appreciation of the visible arts, and whatever little sense of the beauty of poetry he possessed he had gained entirely from Dorian. His dominant intellectual passion was for science. At Cambridge he had spent a great deal of his time working in the laboratory, and had taken a good class in the Natural Science Tripos of his year. Indeed, he was still devoted to the study of chemistry, and had a laboratory of his own in which he used to shut himself up all day long, greatly to the annoyance of his mother, who had set her heart on his standing for Parliament and had a vague idea that a chemist was a person who made up prescriptions. He was an excellent musician, however, as well, and played both the violin and the piano better than most amateurs. In fact, it was music that had first brought him and Dorian Gray together--music and that indefinable attraction that Dorian seemed to be able to exercise whenever he wished--and, indeed, exercised often without being conscious of it. They had met at Lady Berkshire's the night that Rubinstein played there, and after that used to be always seen together at the opera and wherever good music was going on. For eighteen months their intimacy lasted. Campbell was always either at Selby Royal or in Grosvenor Square. To him, as to many others, Dorian Gray was the type of everything that is wonderful and fascinating in life. Whether or not a quarrel had taken place between them no one ever knew. But suddenly people remarked that they scarcely spoke when they met and that Campbell seemed always to go away early from any party at which Dorian Gray was present. He had changed, too--was strangely melancholy at times, appeared almost to dislike hearing music, and would never himself play, giving as his excuse, when he was called upon, that he was so absorbed in science that he had no time left in which to practise. And this was certainly true. Every day he seemed to become more interested in biology, and his name appeared once or twice in some of the scientific reviews in connection with certain curious experiments.

A expectativa tornava-se insuportável. O tempo parecia arrastar-se com pés de chumbo, enquanto ele era arrastado por ventos monstruosos para a berma escarpada da negra fenda de um precipício. Sabia o que o esperava lá, chegava mesmo a vê-lo, e, a tremer, pressionava com as mãos húmidas de suor as pálpebras escaldantes, como se quisesse roubar a visão ao próprio cérebro e empurrar os globos oculares para o fundo das órbitas. Era inútil. O cérebro tinha alimento próprio que o sustentava, e a imaginação, que o terror tornava grotesca, enroscada e distorcida como ser vivo em sofrimento, dançava como uma marioneta imunda sobre um estrado, e arreganhava os dentes através de máscaras móveis. Depois, subitamente, o Tempo parou. Sim, aquela coisa cega, de lento arfar, já não se arrastava, e os pensamentos medonhos, agora que o Tempo estava morto, correram ligeiros e puxaram para fora da sepultura um futuro hediondo, e mostraram-Lho. Ele fitou-o, petrificado de horror.

Por fim, abriu-se a porta e o criado entrou. Dorian volveu-lhe um olhar vago.

- Chegou Mr. Campbell, senhor - disse o criado.

This was the man Dorian Gray was waiting for. Every second he kept glancing at the clock. As the minutes went by he became horribly agitated. At last he got up and began to pace up and down the room, looking like a beautiful caged thing. He took long stealthy strides. His hands were curiously cold.

The suspense became unbearable. Time seemed to him to be crawling with feet of lead, while he by monstrous winds was being swept towards the jagged edge of some black cleft of precipice. He knew what was waiting for him there; saw it, indeed, and, shuddering, crushed with dank hands his burning lids as though he would have robbed the very brain of sight and driven the eyeballs back into their cave. It was useless. The brain had its own food on which it battened, and the imagination, made grotesque by terror, twisted and distorted as a living thing by pain, danced like some foul puppet on a stand and grinned through moving masks. Then, suddenly, time stopped for him. Yes: that blind, slow-breathing thing crawled no more, and horrible thoughts, time being dead, raced nimbly on in front, and dragged a hideous future from its grave, and showed it to him. He stared at it. Its very horror made him stone.

Um suspiro de alívio brotou-lhe dos lábios ressequidos, e as faces retomaram cor.

At last the door opened and his servant entered. He turned glazed eyes upon him.

- Peça-lhe que entre imediatamente, Francis.

"Mr. Campbell, sir," said the man.

Sentia-se de novo senhor de si. O acesso de cobardia passara.

A sigh of relief broke from his parched lips, and the colour came back to his cheeks.

O criado saiu, com uma vénia. Pouco depois, entrou Alan Campbell, de semblante severo e um pouco pálido, uma palidez realçada pelo cabelo negro e pelas sobranceLhas escuras.

"Ask him to come in at once, Francis." He felt that he was himself again. His mood of cowardice had passed away.

- Alan! Que gentileza da sua parte. Obrigado por ter vindo.

The man bowed and retired. In a few moments, Alan Campbell walked in, looking very stern and rather pale, his pallor being intensified by his coal-black hair and dark eyebrows.

- Era minha intenção nunca mais voltar a entrar em sua casa, Gray. Mas disse que era um caso de vida e de morte. - A voz era dura e fria. Falava com lenta deliberação. Havia desprezo no olhar firme e perscrutador que lançou a Dorian. Tinha as mãos metidas nos bolsos do casaco de astracã, parecendo ignorar o gesto de cumprimento com que fora recebido.

- Sim, é um caso de vida e de morte, Alan, e que envolve mais de uma pessoa. Sente-se.

"Alan! This is kind of you. I thank you for coming."

"I had intended never to enter your house again, Gray. But you said it was a matter of life and death." His voice was hard and cold. He spoke with slow deliberation. There was a look of contempt in the steady searching gaze that he turned on Dorian. He kept his hands in the pockets of his Astrakhan coat, and seemed not to have noticed the gesture with which he had been greeted.

Campbell sentou-se numa cadeira perto da mesa, e Dorian sentou-se do outro lado. Os olhos dos dois homens cruzaram-se. Nos de Dorian havia uma piedade infinita. Sabia que o que ia fazer era terrível.

"Yes: it is a matter of life and death, Alan, and to more than one person. Sit down."

Após um momento de tensão e silêncio, inclinou-se para a frente e falou com grande serenidade, mas observando o efeito de cada palavra no rosto daquele que mandara chamar.

Campbell took a chair by the table, and Dorian sat opposite to him. The two men's eyes met. In Dorian's there was infinite pity. He knew that what he was going to do was dreadful.

- Alan, num quarto trancado do último andar desta casa, um quarto a que ninguém tem acesso senão eu, está um morto sentado a uma mesa. Morreu há precisamente dez horas. Não se enerve, nem me olhe assim. Quem é este homem, por que motivo e como morreu são assuntos que lhe não interessam. O que você tem de fazer é...

- Basta, Gray. Não quero saber mais nada. Seja verdade ou mentira, o que me contou não me diz respeito. Recuso absolutamente envolver-me na sua vida. Guarde para si os seus segredos horrendos. Não me interessam mais.

After a strained moment of silence, he leaned across and said, very quietly, but watching the effect of each word upon the face of him he had sent for, "Alan, in a locked room at the top of this house, a room to which nobody but myself has access, a dead man is seated at a table. He has been dead ten hours now. Don't stir, and don't look at me like that. Who the man is, why he died, how he died, are matters that do not concern you. What you have to do is this--"

- Alan, vão ter de Lhe interessar. Este terá de Lhe interessar. Lamento muito, Alan. É que eu não posso resolver nada sozinho. Você é o único homem que me pode salvar. Vejo-me obrigado a metê-lo no caso. Não me resta outra solução. Alan, você é um homem de ciência, sabe química, e coisas do género. Fez experiências. O que você tem de fazer é destruir aquilo que está lá em cima, destruí-lo para que não fique vestígio algum. Ninguém viu essa pessoa entrar cá em casa.

"Stop, Gray. I don't want to know anything further. Whether what you have told me is true or not true doesn't concern me. I entirely decline to be mixed up in your life. Keep your horrible secrets to yourself. They don't interest me any more."

Na verdade, presentemente supõem que está em Paris. Só daqui a alguns meses notarão a sua falta. Quando isso acontecer, não quero que encontrem aqui nenhum sinal da sua passagem. Você, Alan, deve reduzi-lo, e tudo o que lhe pertence, a um punhado de cinzas que eu possa dispersar.

- Você está louco, Dorian.

- Ah! Eu estava à espera que me tratasse por Dorian.

"Alan, they will have to interest you. This one will have to interest you. I am awfully sorry for you, Alan. But I can't help myself. You are the one man who is able to save me. I am forced to bring you into the matter. I have no option. Alan, you are scientific. You know about chemistry and things of that kind. You have made experiments. What you have got to do is to destroy the thing that is upstairs--to destroy it so that not a vestige of it will be left. Nobody saw this person come into the house. Indeed, at the present moment he is supposed to be in Paris. He will not be missed for months. When he is missed, there must be no trace of him found here. You, Alan, you must change him, and everything that belongs to him, into a handful of ashes that I may scatter in the air."

- Digo-Lhe que você está louco, louco ao imaginar que eu levantaria um dedo para o ajudar, louco por fazer essa confissão monstruosa. Não terei nada a ver com esse assunto, seja qual for. Julga que vou arriscar a minha reputação por você? Não me interessa a maquinação diabólica que você anda a congeminar.

"You are mad, Dorian."

"Ah! I was waiting for you to call me Dorian."

- Foi suicídio, Alan.

- Antes isso. Mas quem o induziu a fazê-lo? Você, calculo eu.

- Continua a recusar fazer-me isto?

"You are mad, I tell you--mad to imagine that I would raise a finger to help you, mad to make this monstrous confession. I will have nothing to do with this matter, whatever it is. Do you think I am going to peril my reputation for you? What is it to me what devil's work you are up to?"

- Com certeza. Não quero ter absolutamente nada a ver com o caso. É-me indiferente que se cubra de ignomínia. Você merece-a. Não me afligiria vê-lo cair em desgraça na praça pública. Como ousa pedir-me, e logo a mim, que me envolva neste horror? Sempre pensei que você conhecesse melhor o carácter das pessoas. O seu amigo Lord Henry Wotton não lhe deve ter ensinado muito de psicologia, por muito que Lhe tivesse ensinado. Não há nada que me convença a dar um passo para o ajudar. Veio bater a má porta. Dirija-se aos seus amigos. Não a mim.

- Foi assassínio, Alan. Matei-o. Você não sabe o que ele me fez sofrer. Seja como for, ele teve mais influência na formação ou na destruição da minha vida do que o pobre do Harry. Ainda que não tenha sido essa a sua intenção, o resultado foi o mesmo.

"It was suicide, Alan."

"I am glad of that. But who drove him to it? You, I should fancy."

"Do you still refuse to do this for me?"

"Of course I refuse. I will have absolutely nothing to do with it. I don't care what shame comes on you. You deserve it all. I should not be sorry to see you disgraced, publicly disgraced. How dare you ask me, of all men in the world, to mix myself up in this horror? I should have thought you knew more about people's characters. Your friend Lord Henry Wotton can't have taught you much about psychology, whatever else he has taught you. Nothing will induce me to stir a step to help you. You have come to the wrong man. Go to some of your friends. Don't come to me."

- Assassínio! Meu Deus, Dorian, foi a isso que você chegou? Não o denunciarei. Não me diz respeito. Aliás, mesmo que eu não toque no assunto, tenho a certeza de que você irá preso.

"Alan, it was murder. I killed him. You don't know what he had made me suffer. Whatever my life is, he had more to do with the making or the marring of it than poor Harry has had. He may not have intended it, the result was the same."

Não há ninguém que cometa um crime sem fazer qualquer estupidez. Mas não terei nada a ver com isso.

"Murder! Good God, Dorian, is that what you have come to? I shall not inform upon you. It is not my business. Besides, without my stirring in the matter, you are certain to be arrested. Nobody ever commits a crime without doing something stupid. But I will have nothing to do with it."

- Terá de ter. Espere, espere um pouco. Ouça. Ouça apenas, Alan. Tudo o que lhe peço é que faça uma determinada experiência científica. Você costuma ir aos hospitais e às morgues, e os horrores que aí comete não o afectam, Se, em alguma medonha sala de dissecação ou em fétido laboratório, encontrasse este homem sobre uma mesa de chumbo sulcada de calhas vermelhas para escoarem o sangue, considerá-lo-ia apenas um excelente objecto de estudo. Você continuaria imperturbável. Nem acreditava que estivesse a fazer algo de reprovável. Pelo contrário, sentiria talvez que estava a prestar um benefício à humanidade, ou a incrementar a totalidade de conhecimentos no mundo, ou a satisfazer a curiosidade intelectual, ou outra coisa do género. O que eu quero que faça não é mais do que já fez muitas vezes. Na verdade, destruir um cadáver deve ser muito menos impressionante do que as práticas a que está habituado. E veja bem que esta é a única prova contra mim. Se for descoberta estou perdido. E certamente que será, se você não me ajudar.

- Não estou disposto a ajudá-lo. Já se esqueceu? Tudo isso me é indiferente. Não tem nada a ver comigo.

"You must have something to do with it. Wait, wait a moment; listen to me. Only listen, Alan. All I ask of you is to perform a certain scientific experiment. You go to hospitals and dead-houses, and the horrors that you do there don't affect you. If in some hideous dissecting-room or fetid laboratory you found this man lying on a leaden table with red gutters scooped out in it for the blood to flow through, you would simply look upon him as an admirable subject. You would not turn a hair. You would not believe that you were doing anything wrong. On the contrary, you would probably feel that you were benefiting the human race, or increasing the sum of knowledge in the world, or gratifying intellectual curiosity, or something of that kind. What I want you to do is merely what you have often done before. Indeed, to destroy a body must be far less horrible than what you are accustomed to work at. And, remember, it is the only piece of evidence against me. If it is discovered, I am lost; and it is sure to be discovered unless you help me."

- Alan, suplico-lhe. Pense na minha situação. Precisamente antes de você chegar, quase desmaiava de pavor. Até você pode um dia sentir pavor. Não! Não pense nisso. Encare o assunto unicamente do ponto de vista científico. Você nunca pergunta de onde vêm os cadáveres em que pratica as suas experiências. Não pergunte também agora. Já lhe contei demais. Mas imploro-lhe que faça isto. Dantes éramos amigos, Alan.

- Não fale nesses dias, Dorian. Estão mortos.

"I have no desire to help you. You forget that. I am simply indifferent to the whole thing. It has nothing to do with me."

"Alan, I entreat you. Think of the position I am in. Just before you came I almost fainted with terror. You may know terror yourself some day. No! don't think of that. Look at the matter purely from the scientific point of view. You don't inquire where the dead things on which you experiment come from. Don't inquire now. I have told you too much as it is. But I beg of you to do this. We were friends once, Alan."

- Por vezes os mortos ficam. O homem que está lá em cima não se quer ir embora. Está sentado à mesa, de cabeça pendida e braços estendidos. Alan! Alan! Se não vier em meu auxílio estou perdido. Não vê que me vão enforcar, Alan! Não compreende? Vão enforcar-me pelo que fiz.

"Don't speak about those days, Dorian--they are dead."

- Escusa de prolongar esta cena. Recuso em absoluto intervir no assunto. É loucura da sua parte pedir-mo.

- Recusa?

- Recuso.

- Suplico-lhe, Alan.

- É inútil.

"The dead linger sometimes. The man upstairs will not go away. He is sitting at the table with bowed head and outstretched arms. Alan! Alan! If you don't come to my assistance, I am ruined. Why, they will hang me, Alan! Don't you understand? They will hang me for what I have done."

A mesma expressão de piedade surgiu nos olhos de Dorian Gray. Depois, estendeu a mão para pegar num pedaço de papel, e escreveu nele qualquer coisa. Leu-o duas vezes, dobrou-o meticulosamente e passou-o para o outro lado da mesa. Feito isto, levantou-se e foi até à janela.

"There is no good in prolonging this scene. I absolutely refuse to do anything in the matter. It is insane of you to ask me."

"You refuse?"

"Yes."

"I entreat you, Alan."

"It is useless."

Campbell olhou-o surpreendido, e então pegou no papel e abriu-o. Ao lê-lo, cobriu-se-lhe o rosto de uma palidez cadavérica, e tombou para trás na cadeira. Assaltou-o uma atroz sensação de náusea. Era como se o coração batesse desordenadamente num buraco oco até desfalecer Após dois ou três minutos de um silêncio terrível. Dorian voltou-se, aproximou-se e postou-se atrás dele, pousando-lhe a mão no ombro.

The same look of pity came into Dorian Gray's eyes. Then he stretched out his hand, took a piece of paper, and wrote something on it. He read it over twice, folded it carefully, and pushed it across the table. Having done this, he got up and went over to the window.

Campbell looked at him in surprise, and then took up the paper, and opened it. As he read it, his face became ghastly pale and he fell back in his chair. A horrible sense of sickness came over him. He felt as if his heart was beating itself to death in some empty hollow.

- Tenho tanta pena de si, Alan - disse, num sussurro -, mas você não me deixou alternativa alguma. Já escrevi uma carta. Ei-la. Veja o endereço. Se não me ajudar, sou obrigado a enviá-la. Se não me ajudar, vou enviá-la. Você conhece as consequências. Mas você vai ajudar-me. Agora é-lhe impossível recusar. Procurei poupá-lo. Far-me-á a justiça de o admitir. Você foi severo, implacável, ofensivo. Tratou-me como jamais homem algum ousou tratar-me... pelo menos um que esteja vivo. Suportei tudo. Agora chegou a minha vez de ditar as condições.

Campbell mergulhou o rosto entre as mãos, estremecendo.

- Sim, chegou a minha vez de ditar as condições, Alan. Sabe quais são. A coisa é muito simples. Vamos, não fique nessa agitação febril. A coisa tem de ser feita. Enfrente-a, e faça-a.

After two or three minutes of terrible silence, Dorian turned round and came and stood behind him, putting his hand upon his shoulder.

"I am so sorry for you, Alan," he murmured, "but you leave me no alternative. I have a letter written already. Here it is. You see the address. If you don't help me, I must send it. If you don't help me, I will send it. You know what the result will be. But you are going to help me. It is impossible for you to refuse now. I tried to spare you. You will do me the justice to admit that. You were stern, harsh, offensive. You treated me as no man has ever dared to treat me--no living man, at any rate. I bore it all. Now it is for me to dictate terms."

Campbell buried his face in his hands, and a shudder passed through him.

Campbell soltou um gemido, e todo o seu corpo tremia. O tiquetaque do relógio que estava no rebordo da chaminé parecia-lhe dividir o tempo em átomos de tormento, cada um deles demasiado atroz para se poder suportar. Tinha a sensação de que um anel de ferro lhe apertava lentamente a fronte, como se a ignomínia com que fora ameaçado se houvesse abatido já sobre si. A mão pousada no seu ombro pesava como mão de chumbo. Era insuportável. Parecia esmagá-lo.

- Vamos, Alan, tem que tomar imediatamente uma decisão.

- Não consigo fazê-lo - respondeu, maquinalmente, como se as palavras pudessem alterar as coisas.

- Mas tem de o fazer. Não tem outro remédio. Não perca tempo.

"Yes, it is my turn to dictate terms, Alan. You know what they are. The thing is quite simple. Come, don't work yourself into this fever. The thing has to be done. Face it, and do it."

A groan broke from Campbell's lips and he shivered all over. The ticking of the clock on the mantelpiece seemed to him to be dividing time into separate atoms of agony, each of which was too terrible to be borne. He felt as if an iron ring was being slowly tightened round his forehead, as if the disgrace with which he was threatened had already come upon him. The hand upon his shoulder weighed like a hand of lead. It was intolerable. It seemed to crush him.

Ele hesitou um pouco.

"Come, Alan, you must decide at once."

- Há alguma lareira no quarto lá em cima?

- Sim, há uma lareira a gás, com amianto.

"I cannot do it," he said, mechanically, as though words could alter things.

- Tenho de ir a casa para trazer umas coisas do laboratório.

"You must. You have no choice. Don't delay."

- Não, Alan, não pode sair daqui. Escreva numa folha de papel aquilo de que precisa, e o meu criado irá de fiacre buscar essas coisas.

He hesitated a moment. "Is there a fire in the room upstairs?"

"Yes, there is a gas-fire with asbestos."

"I shall have to go home and get some things from the laboratory."

Campbell escrevinhou umas linhas, secou-as com o mata-borrão e endereçou um envelope ao seu assistente. Dorian pegou na folha e leu-a atentamente. Em seguida, tocou a campainha e entregou a mensagem ao criado, ordenando-lhe que estivesse de volta o mais breve possível e que trouxesse as coisas consigo.

"No, Alan, you must not leave the house. Write out on a sheet of notepaper what you want and my servant will take a cab and bring the things back to you."

Quando se fechou a porta do vestíbulo, Campbell teve um sobressalto de nervosismo, e, levantando-se, aproximou-se da lareira. Tremia como se tivesse sezões. Durante cerca de vinte minutos, os dois homens permaneceram calados. Pela sala esvoaçava uma mosca que zumbia ruidosamente, e o tiquetaque do relógio parecia a pancada de um martelo.

Quando soou uma hora, Campbell voltou-se e, ao olhar para Dorian Gray, viu que este tinha os olhos rasos de lágrimas. Havia qualquer coisa na pureza e perfeição daquele rosto triste que parecia enfurecê-lo.

Campbell scrawled a few lines, blotted them, and addressed an envelope to his assistant. Dorian took the note up and read it carefully. Then he rang the bell and gave it to his valet, with orders to return as soon as possible and to bring the things with him.

As the hall door shut, Campbell started nervously, and having got up from the chair, went over to the chimney-piece. He was shivering with a kind of ague. For nearly twenty minutes, neither of the men spoke. A fly buzzed noisily about the room, and the ticking of the clock was like the beat of a hammer.

- Você é infame, absolutamente infame! - balbuciou.

- Não diga nada, Alan. Você salvou-me a vida - disse Dorian.

As the chime struck one, Campbell turned round, and looking at Dorian Gray, saw that his eyes were filled with tears. There was something in the purity and refinement of that sad face that seemed to enrage him. "You are infamous, absolutely infamous!" he muttered.

- A sua vida? Céus! Mas que vida! Você andou de corrupção em corrupção até culminar no crime. Ao fazer o que vou fazer, aquilo que você me obriga a fazer, não é na sua vida que estou a pensar.

"Hush, Alan. You have saved my life," said Dorian.

- Ah, Alan, desejaria que sentisse por mim a milésima parte da compaixão que sinto por você.

"Your life? Good heavens! what a life that is! You have gone from corruption to corruption, and now you have culminated in crime. In doing what I am going to do--what you force me to do--it is not of your life that I am thinking."

E dizendo isto, voltou-se e pôs-se a olhar para o jardim lá fora. Campbell não lhe deu resposta.

Uns dez minutos depois, bateram à porta, e entrou o criado transportando uma grande caixa de mogno para produtos químicos, com um rolo comprido de fio de aço e platina, e dois grampos de ferro que tinham uma forma bastante curiosa.

"Ah, Alan," murmured Dorian with a sigh, "I wish you had a thousandth part of the pity for me that I have for you." He turned away as he spoke and stood looking out at the garden. Campbell made no answer.

- Quer que deixe as coisas aqui, senhor? - perguntou a Campbell.

After about ten minutes a knock came to the door, and the servant entered, carrying a large mahogany chest of chemicals, with a long coil of steel and platinum wire and two rather curiously shaped iron clamps.

- Sim, deixe - disse Dorian. - E, Francis, parece-me que tenho outra incumbência para si. Como se chama o homem de Richmond que fornece as orquídeas para Selby?

"Shall I leave the things here, sir?" he asked Campbell.

- Chama-se Harden, senhor.

"Yes," said Dorian. "And I am afraid, Francis, that I have another errand for you. What is the name of the man at Richmond who supplies Selby with orchids?"

- Ah, sim. Harden. Vá imediatamente a Richmond procurar esse Harden e diga-Lhe que mande o dobro das orquídeas que encomendei, mas o mínimo possível de orquídeas brancas. Para ser mais exacto, não quero nenhumas brancas. Está um lindo dia, Francis, e Richmond é muito bonito, se não fosse assim não lhe daria essa maçada.

- Não é maçada nenhuma, senhor. A que horas devo estar cá?

Dorian olhou para Campbell.

"Harden, sir."

"Yes--Harden. You must go down to Richmond at once, see Harden personally, and tell him to send twice as many orchids as I ordered, and to have as few white ones as possible. In fact, I don't want any white ones. It is a lovely day, Francis, and Richmond is a very pretty place--otherwise I wouldn't bother you about it."

- Quanto tempo irá levar a sua experiência, Alan? perguntou, numa voz calma, indiferente. A presença de uma terceira pessoa na sala parecía transmitir-lhe uma calma extraordinária.

Campbell, de semblante carregado, fez por se dominar.

"No trouble, sir. At what time shall I be back?"

Dorian looked at Campbell. "How long will your experiment take, Alan?" he said in a calm indifferent voice. The presence of a third person in the room seemed to give him extraordinary courage.

- Levará aproximadamente cinco horas - respondeu.

Campbell frowned and bit his lip. "It will take about five hours," he answered.

- Então basta que você esteja de regresso às sete e meia, Francis. Não. Não volte. Deixe apenas tudo em ordem para eu mudar de roupa. Pode ficar com a noite livre. Como não janto em casa, não vou precisar de si.

- Obrigado, senhor - disse o criado, ao sair da sala.

"It will be time enough, then, if you are back at half-past seven, Francis. Or stay: just leave my things out for dressing. You can have the evening to yourself. I am not dining at home, so I shall not want you."

- Agora, Alan, não há um momento a perder. Como esta caixa pesa! Eu levo-lha. Traga as outras coisas.

"Thank you, sir," said the man, leaving the room.

Falava depressa e com modos autoritários. Campbell sentia-se dominado por ele. Saíram os dois juntos da sala.

"Now, Alan, there is not a moment to be lost. How heavy this chest is! I'll take it for you. You bring the other things." He spoke rapidly and in an authoritative manner. Campbell felt dominated by him. They left the room together.

Quando chegaram ao último patamar, Dorian tirou a chave do bolso e fê-la girar na fechadura. Depois parou, e os seus olhos reflectiam uma certa inquietação. E recuou.

- Creio que não consigo entrar, Alan - disse, num murmúrio.

- É-me indiferente. A sua presença não é necessária - disse Campbell, com frieza.

When they reached the top landing, Dorian took out the key and turned it in the lock. Then he stopped, and a troubled look came into his eyes. He shuddered. "I don't think I can go in, Alan," he murmured.

"It is nothing to me. I don't require you," said Campbell coldly.

Dorian só abriu a porta até meio. Ao fazê-lo, viu, à luz do sol, o olhar maldoso no rosto do seu retrato. À frente deste, caída no chão, estava a cortina rasgada. Lembrou-se então de que na noite anterior se esquecera, pela primeira vez na vida, de ocultar a fatídica tela. E quando ia avançar precipitadamente, recuou assustado.

Dorian half opened the door. As he did so, he saw the face of his portrait leering in the sunlight. On the floor in front of it the torn curtain was lying. He remembered that the night before he had forgotten, for the first time in his life, to hide the fatal canvas, and was about to rush forward, when he drew back with a shudder.

O que seriam aquelas repugnantes gotas vermelhas que luziam, húmidas e cintilantes, numa das mãos, como se a tela ressumasse suor de sangue? Que horrendo era aquilo! Mais horrendo - assim lhe parecia naquele instante do que aquela coisa silenciosa que ele sabia que estava de bruços sobre a mesa, e cuja sombra grotesca e disforme projectada no tapete salpicado lhe permitia ver que não se movera, mas que ainda ali estava onde a deixara.

What was that loathsome red dew that gleamed, wet and glistening, on one of the hands, as though the canvas had sweated blood? How horrible it was!--more horrible, it seemed to him for the moment, than the silent thing that he knew was stretched across the table, the thing whose grotesque misshapen shadow on the spotted carpet showed him that it had not stirred, but was still there, as he had left it.

Respirou fundo, abriu a porta um pouco mais e, de olhos quase fechados e virando a cabeça, entrou rapidamente, decidido a não olhar, nem uma vez sequer, para o morto. Depois, debruçando-se, levantou do chão a cortina de ouro e púrpura e lançou-a por sobre o retrato.

He heaved a deep breath, opened the door a little wider, and with half-closed eyes and averted head, walked quickly in, determined that he would not look even once upon the dead man. Then, stooping down and taking up the gold-and-purple hanging, he flung it right over the picture.

Ficou ali parado, com medo de se voltar, de olhos fixos no emaranhado do desenho que estava à sua frente.

Ouviu Campbell a trazer para dentro do quarto a pesada caixa, e os ferros, e as outras coisas de que necessitava para a sua pavorosa tarefa. Começou a interrogar-se se ele e Basil Hallward se teriam alguma vez encontrado, e, se assim fora, que opinião teriam tido um do outro.

There he stopped, feeling afraid to turn round, and his eyes fixed themselves on the intricacies of the pattern before him. He heard Campbell bringing in the heavy chest, and the irons, and the other things that he had required for his dreadful work. He began to wonder if he and Basil Hallward had ever met, and, if so, what they had thought of each other.

- Agora deixe-me só - disse, atrás de si, uma voz dura. Voltou-se e saiu apressadamente, apercebendo-se apenas de que o morto havia sido recostado na cadeira e que Campbell contemplava um rosto amarelecido e luzidio. Quando descia as escadas, ouviu a chave girar na fechadura.

"Leave me now," said a stern voice behind him.

He turned and hurried out, just conscious that the dead man had been thrust back into the chair and that Campbell was gazing into a glistening yellow face. As he was going downstairs, he heard the key being turned in the lock.

Já passava muito das sete horas quando Campbell entrou na biblioteca. Estava pálido, mas absolutamente calmo.

- Fiz o que me pediu - disse entre-dentes. - E agora, adeus. Espero que jamais nos voltemos a ver!

It was long after seven when Campbell came back into the library. He was pale, but absolutely calm. "I have done what you asked me to do," he muttered "And now, good-bye. Let us never see each other again."

- Salvou-me da desgraça, Alan. Não posso esquecer isso limitou-se a dizer Dorian.

"You have saved me from ruin, Alan. I cannot forget that," said Dorian simply.

Assim que Campbell saiu, subiu ao último andar. No quarto havia um cheiro horrível a ácido nítrico. Mas aquilo que estivera sentado à mesa desaparecera.

As soon as Campbell had left, he went upstairs. There was a horrible smell of nitric acid in the room. But the thing that had been sitting at the table was gone.