O Retrato De Dorian Gray.  Oscar Wilde
Capítulo 1. (Chapter 1. )
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Por todo o atelier pairava o aroma intenso das rosas e quando a branda aragem estival corria por entre as árvores do jardim, entrava pela porta a fragrância carregada do lilás, ou ainda o perfume delicado do espinheiro de floração rósea. Estendido no divã de bolsas de seda persas, a fumar, como era seu costume, cigarro após cigarro, Lord Henry Wotton só conseguia vislumbrar do seu canto as flores adocicadas e cor de mel de um laburno, cujos ramos trémulos pareciam mal poder suportar o peso de beleza tão fulgurante. De vez em quando, através dos cortinados de tussor de seda que cobriam a enorme janela, via passarem velozes as sombras fantásticas das aves, que produziam como que um momentâneo efeito japonês, o que o levava a pensar naqueles pintores de Tóquio, de rostos cor de jade e pálidos, que, servindo-se de uma arte que é necessariamente imóvel, procuram transmitir a sensação de rapidez e movimento. O zumbido lento das abelhas, que abriam caminho por entre a relva crescida, ou voavam com monótona insistência à volta das hastes douradas e poeirentas de uma madressilva desgarrada, parecia tornar o silêncio mais opressivo. Ao longe, os vagos ruídos de Londres soavam como o bordão de um órgão longínquo.

The studio was filled with the rich odour of roses, and when the light summer wind stirred amidst the trees of the garden, there came through the open door the heavy scent of the lilac, or the more delicate perfume of the pink-flowering thorn.

From the corner of the divan of Persian saddle-bags on which he was lying, smoking, as was his custom, innumerable cigarettes, Lord Henry Wotton could just catch the gleam of the honey-sweet and honey-coloured blossoms of a laburnum, whose tremulous branches seemed hardly able to bear the burden of a beauty so flamelike as theirs; and now and then the fantastic shadows of birds in flight flitted across the long tussore-silk curtains that were stretched in front of the huge window, producing a kind of momentary Japanese effect, and making him think of those pallid, jade-faced painters of Tokyo who, through the medium of an art that is necessarily immobile, seek to convey the sense of swiftness and motion. The sullen murmur of the bees shouldering their way through the long unmown grass, or circling with monotonous insistence round the dusty gilt horns of the straggling woodbine, seemed to make the stillness more oppressive. The dim roar of London was like the bourdon note of a distant organ.

No centro do atelier, afixado a um cavalete vertical, estava o retrato em corpo inteiro de um jovem de beleza invulgar. À sua frente, sentado a uma certa distância, estava o autor, Basil Hallward, cujo desaparecimento súbito, há alguns anos, havia provocado, na altura, grande alvoroço e dera origem às mais surpreendentes conjecturas.

In the centre of the room, clamped to an upright easel, stood the full-length portrait of a young man of extraordinary personal beauty, and in front of it, some little distance away, was sitting the artist himself, Basil Hallward, whose sudden disappearance some years ago caused, at the time, such public excitement and gave rise to so many strange conjectures.

Ao olhar a figura grácil, formosa, que com tanta perfeição registara através da sua arte, assomou-Lhe ao rosto um sorriso de prazer, que parecia aí querer demorar-se. Mas sobressaltou-se repentinamente e, fechando os olhos, colocou os dedos sobre as pálpebras, como se tentasse aprisionar dentro do cérebro um sonho estranho do qual receava despertar.

As the painter looked at the gracious and comely form he had so skilfully mirrored in his art, a smile of pleasure passed across his face, and seemed about to linger there. But he suddenly started up, and closing his eyes, placed his fingers upon the lids, as though he sought to imprison within his brain some curious dream from which he feared he might awake.

- É o seu melhor trabalho, Basil, o melhor que já fez disse Lord Henry, languidamente. - Não pode deixar de o enviar à exposição de Grosvenor do ano que vem. A Academia é demasiado grande e demasiado popular. Todas as vezes que lá fui, ou as pessoas eram tantas que não conseguia ver os quadros, o que era horrível, ou os quadros eram tantos que não conseguia ver as pessoas, o que era ainda mais horrível. Grosvenor é realmente o único local.

- Não penso enviá-lo para lugar nenhum - respondeu ele, atirando a cabeça para trás, naquele seu jeito peculiar que, em Oxford, provocava o riso entre os amigos. - Não, não vou enviá-lo para lugar nenhum.

"It is your best work, Basil, the best thing you have ever done," said Lord Henry languidly. "You must certainly send it next year to the Grosvenor. The Academy is too large and too vulgar. Whenever I have gone there, there have been either so many people that I have not been able to see the pictures, which was dreadful, or so many pictures that I have not been able to see the people, which was worse. The Grosvenor is really the only place."

Lord Henry arqueou as sobrancelhas e, estupefacto, olhou para ele através das ténues espirais azuis de fumo que subiam em volutas caprichosas do seu cigarro saturado de ópio.

"I don't think I shall send it anywhere," he answered, tossing his head back in that odd way that used to make his friends laugh at him at Oxford. "No, I won't send it anywhere."

- Para lugar nenhum? Mas, meu caro amigo, porquê? Tem algum motivo? Vocês, os pintores, são uns indivíduos estranhos! Fazem tudo para ganhar fama e, assim que a têm na mão, parecem querer atirá-la fora. É um disparate, pois só há uma coisa no mundo pior do que falarem de nós: é que de nós ninguém fale. Um retrato como este colocá-lo-ia muito acima de todos os jovens de Inglaterra e faria muita inveja aos velhos, se é que os velhos são capazes de qualquer emoção.

- Sei que vai rir-se de mim - respondeu ele -, mas de facto não posso expô-lo. Pus nele demasiado de mim mesmo.

Lord Henry estendeu-se no divã e desatou a rir.

Lord Henry elevated his eyebrows and looked at him in amazement through the thin blue wreaths of smoke that curled up in such fanciful whorls from his heavy, opium-tainted cigarette. "Not send it anywhere? My dear fellow, why? Have you any reason? What odd chaps you painters are! You do anything in the world to gain a reputation. As soon as you have one, you seem to want to throw it away. It is silly of you, for there is only one thing in the world worse than being talked about, and that is not being talked about. A portrait like this would set you far above all the young men in England, and make the old men quite jealous, if old men are ever capable of any emotion."

- Eu bem sabia que você havia de rir. Mas seja como for, o que eu disse é a pura verdade.

"I know you will laugh at me," he replied, "but I really can't exhibit it. I have put too much of myself into it."

- Demasiado de si mesmo!? Palavra de honra, Basil, não sabia que era tão vaidoso. Na verdade, não consigo ver qualquer semelhança entre você, com esse rosto rude e enérgico, o cabelo escuríssimo, e este jovem Adónis, que parece feito de marfim e pétalas de rosa. Ora, meu caro Basil, ele é um Narciso, enquanto você... Bem, é certo que o meu caro amigo tem um ar intelectual, e tudo o mais. Mas a beleza, a verdadeira beleza, acaba onde começa a expressão intelectual. O intelecto é em si uma forma de exagero e destrói a harmonia de qualquer rosto. Assim que nos sentamos a pensar, ficamos todos nariz, todos testa, ou outra coisa horrenda. Veja esses homens que triunfam em qualquer profissão intelectual. São completamente hediondos! Com excepção, evidentemente, dos homens da Igreja. Mas é que os da Igreja não pensam. Um bispo continua a dizer aos oitenta anos aquilo que lhe mandaram dizer aos dezoito e, como consequência natural, ele mantém-se sempre uma pessoa encantadora. Esse seu jovem amigo tão misterioso, cujo nome você nunca me revelou, mas cujo retrato me deixa verdadeiramente fascinado, nunca pensa. Tenho absoluta certeza. É uma dessas criaturas belas, sem inteligência, que devia estar sempre aqui no Inverno, quando não temos flores para contemplar, e sempre aqui no Verão, quando necessitamos de algo que nos refresque a inteligência. Não se sinta lisonjeado, Basil, você não se parece nada com ele.

Lord Henry stretched himself out on the divan and laughed.

"Yes, I knew you would; but it is quite true, all the same."

"Too much of yourself in it! Upon my word, Basil, I didn't know you were so vain; and I really can't see any resemblance between you, with your rugged strong face and your coal-black hair, and this young Adonis, who looks as if he was made out of ivory and rose-leaves. Why, my dear Basil, he is a Narcissus, and you--well, of course you have an intellectual expression and all that. But beauty, real beauty, ends where an intellectual expression begins. Intellect is in itself a mode of exaggeration, and destroys the harmony of any face. The moment one sits down to think, one becomes all nose, or all forehead, or something horrid. Look at the successful men in any of the learned professions. How perfectly hideous they are! Except, of course, in the Church. But then in the Church they don't think. A bishop keeps on saying at the age of eighty what he was told to say when he was a boy of eighteen, and as a natural consequence he always looks absolutely delightful. Your mysterious young friend, whose name you have never told me, but whose picture really fascinates me, never thinks. I feel quite sure of that. He is some brainless beautiful creature who should be always here in winter when we have no flowers to look at, and always here in summer when we want something to chill our intelligence. Don't flatter yourself, Basil: you are not in the least like him."

- Você não me compreende, Harry - respondeu o artista. - É certo que não me pareço com ele. Sei isso perfeitamente. Até nem gostaria de parecer-me com ele. Encolhe os ombros? Estou a dizer a verdade. Há em toda a superioridade física e intelectual uma certa fatalidade, aquela fatalidade que parece perseguir ao longo da história os passos vacilantes dos reis. É preferível não sermos diferentes dos outros. Os feios e os estúpidos são os que mais ganham neste mundo. Podem ficar despreocupadamente embasbacados a olhar. Se não conhecem o triunfo, pelo menos também não conhecem a derrota. Vivem como todos nós devíamos viver - impassíveis, indiferentes, e sem inquietações. Não trazem o mal a ninguém, nem o recebem de mãos alheias. A sua posição social e a sua fortuna, Harry, a minha inteligência, seja ela o que for, a minha arte, valha ela o que valer, a beleza de Dorian Gray... havemos todos de sofrer por aquilo que os deuses nos concederam... sofrer terrivelmente.

- Dorian Gray? É assim que ele se chama? - perguntou Lord Henry, atravessando o atelier em direcção a Basil Hallward.

"You don't understand me, Harry," answered the artist. "Of course I am not like him. I know that perfectly well. Indeed, I should be sorry to look like him. You shrug your shoulders? I am telling you the truth. There is a fatality about all physical and intellectual distinction, the sort of fatality that seems to dog through history the faltering steps of kings. It is better not to be different from one's fellows. The ugly and the stupid have the best of it in this world. They can sit at their ease and gape at the play. If they know nothing of victory, they are at least spared the knowledge of defeat. They live as we all should live--undisturbed, indifferent, and without disquiet. They neither bring ruin upon others, nor ever receive it from alien hands. Your rank and wealth, Harry; my brains, such as they are--my art, whatever it may be worth; Dorian Gray's good looks--we shall all suffer for what the gods have given us, suffer terribly."

- É. Mas não pretendia dizer-lho.

- E por que não?

"Dorian Gray? Is that his name?" asked Lord Henry, walking across the studio towards Basil Hallward.

- Bem... Não sei explicar. Quando gosto imenso de uma pessoa, nunca digo a ninguém o seu nome. Seria como que entregar uma parte dela. Habituei-me a manter o segredo. Parece ser a única coisa que nos pode tornar a vida moderna misteriosa, ou maravilhosa. A coisa mais banal adquire encanto simplesmente quando não revelada. Quando me ausento da cidade, nunca digo aos da casa para onde vou. Perdia todo o prazer, se o fizesse. É um hábito tolo, confesso, mas, de certo modo, traz algum romantismo à nosa vida. Você deve achar tudo isto um disparate.

"Yes, that is his name. I didn't intend to tell it to you."

"But why not?"

"Oh, I can't explain. When I like people immensely, I never tell their names to any one. It is like surrendering a part of them. I have grown to love secrecy. It seems to be the one thing that can make modern life mysterious or marvellous to us. The commonest thing is delightful if one only hides it. When I leave town now I never tell my people where I am going. If I did, I would lose all my pleasure. It is a silly habit, I dare say, but somehow it seems to bring a great deal of romance into one's life. I suppose you think me awfully foolish about it?"

- De modo nenhum - contestou Lord Henry -, de modo nenhum, meu caro. Você parece esquecer-se de que sou casado, e o único encanto do casamento é a necessidade absoluta de uma vida de engano recíproco. Nunca sei onde está a minha mulher, e ela nunca sabe o que eu faço. Quando nos encontramos, o que acontece uma vez por outra quando jantamos fora ou visitamos o duque, contamos um ao outro as histórias mais absurdas, e com o ar mais sério deste mundo. A minha mulher tem muito jeito para isso, muito mais do que eu. Nunca confunde as datas, ao passo que eu confundo-as sempre. Mas se me apanha em falta, nunca protesta. Às vezes, eu bem gostaria que o fizesse, mas ela limita-se a rir de mim.

"Not at all," answered Lord Henry, "not at all, my dear Basil. You seem to forget that I am married, and the one charm of marriage is that it makes a life of deception absolutely necessary for both parties. I never know where my wife is, and my wife never knows what I am doing. When we meet--we do meet occasionally, when we dine out together, or go down to the Duke's--we tell each other the most absurd stories with the most serious faces. My wife is very good at it--much better, in fact, than I am. She never gets confused over her dates, and I always do. But when she does find me out, she makes no row at all. I sometimes wish she would; but she merely laughs at me."

- Detesto o modo como você fala da sua vida conjugal, Harry - observou Basil Hallward, caminhando em direcção à porta que dava para o jardim. - Considero-o um excelente marido que se envergonha das suas boas qualidades. Você é um indivíduo extraordinário. Não prega a moral, contudo não comete más acções. Esse seu cinismo não é mais do que uma pose.

- A naturalidade não é mais do que uma pose, a pose mais irritante que conheço - exclamou, a rir, Lord Henry.

"I hate the way you talk about your married life, Harry," said Basil Hallward, strolling towards the door that led into the garden. "I believe that you are really a very good husband, but that you are thoroughly ashamed of your own virtues. You are an extraordinary fellow. You never say a moral thing, and you never do a wrong thing. Your cynicism is simply a pose."

E os dois jovens saíram juntos para o jardim e instalaram-se num comprido banco de bambu, à sombra de um matagal de altos loureiros. A luz do sol escorregava pelas folhas lustrosas. Na relva estremeciam os malmequeres brancos.

Após breve silêncio, Lord Henry puxou do relógio.

- Tenho de me ir embora, Basil - murmurou -, mas antes de ir, quero que responda à pergunta que Lhe fiz há instantes.

- Que pergunta? - volveu o pintor, de olhos fixos no chão.

"Being natural is simply a pose, and the most irritating pose I know," cried Lord Henry, laughing; and the two young men went out into the garden together and ensconced themselves on a long bamboo seat that stood in the shade of a tall laurel bush. The sunlight slipped over the polished leaves. In the grass, white daisies were tremulous.

- Sabe muito bem qual é.

- Não, não sei, Harry.

- Então digo-lha já. Quero que me explique porque não quer expor o retrato de Dorian Gray. Quero saber o verdadeiro motivo.

After a pause, Lord Henry pulled out his watch. "I am afraid I must be going, Basil," he murmured, "and before I go, I insist on your answering a question I put to you some time ago."

- Mas eu disse-lhe o verdadeiro motivo.

"What is that?" said the painter, keeping his eyes fixed on the ground.

- Não, não disse. O que me disse foi que havia nele demasiado de si mesmo. Ora, isso é uma grande infantilidade.

"You know quite well."

"I do not, Harry."

- Harry - disse Basil Hallward, olhando-o cara a cara -, todo o retrato pintado com sentimento é um retrato do artista, e não do modelo. O modelo é apenas o acidente, o pretexto. O pintor não o revela a ele, o pintor é que se revela a si mesmo na tela colorida. O motivo por que não exponho este quadro é o medo de que eu tenha revelado nele o segredo da minha alma.

"Well, I will tell you what it is. I want you to explain to me why you won't exhibit Dorian Gray's picture. I want the real reason."

"I told you the real reason."

"No, you did not. You said it was because there was too much of yourself in it. Now, that is childish."

Lord Henry desatou a rir.

- E que segredo é esse?

- Vou contar-Lhe - disse Hallward, mas notava-se-lhe no rosto uma certa perplexidade.

- Estou ansioso por saber - continuou o companheiro, olhando-o de relance.

- Ora, Harry, há muito pouco que contar - respondeu o pintor -, e receio que você nem chegue a entender. Talvez nem chegue a acreditar.

"Harry," said Basil Hallward, looking him straight in the face, "every portrait that is painted with feeling is a portrait of the artist, not of the sitter. The sitter is merely the accident, the occasion. It is not he who is revealed by the painter; it is rather the painter who, on the coloured canvas, reveals himself. The reason I will not exhibit this picture is that I am afraid that I have shown in it the secret of my own soul."

Lord Henry laughed. "And what is that?" he asked.

Lord Henry sorriu e, debruçando-se, arrancou da relva um malmequer de pétalas rosadas e pôs-se a examiná-lo.

"I will tell you," said Hallward; but an expression of perplexity came over his face.

- Tenho absoluta certeza de que vou entender - retorquiu ele, olhando atentamente o pequeno disco dourado de penas brancas -, e, no que respeita a acreditar, sou capaz de acreditar em qualquer coisa, contanto que seja absolutamente inacreditável.

"I am all expectation, Basil," continued his companion, glancing at him.

"Oh, there is really very little to tell, Harry," answered the painter; "and I am afraid you will hardly understand it. Perhaps you will hardly believe it."

O vento sacudiu das árvores algumas flores, e os pesados lilases, com seus cachos de estrelas, balouçaram no ar lânguido. Junto ao muro, uma cigarra cantava a sua estrídula cegarrega, e, como um fio azul, passou uma delicada libelinha levada pelas asas esfumadas e transparentes. Lord Henry tinha a sensação de ouvir o bater do coração de Basil Hallward e interrogou-se sobre o que iria acontecer.

Lord Henry smiled, and leaning down, plucked a pink-petalled daisy from the grass and examined it. "I am quite sure I shall understand it," he replied, gazing intently at the little golden, white-feathered disk, "and as for believing things, I can believe anything, provided that it is quite incredible."

- A história é simplesmente esta - disse o pintor, passado algum tempo. - Há dois meses, fui a uma recepção em casa de Lady Brandon. Você sabe que nós, pobres artistas, temos de nos mostrar, de vez em quando, à sociedade, para fazer lembrar ao público que não somos selvagens. Como você uma vez me disse, de fraque e laço branco qualquer pessoa, até um corretor da Bolsa, pode ganhar a reputação de civilizado. Bem, uns dez minutos depois de ter estado a conversar com viúvas cheias de títulos de nobreza e nada discretas no trajar, e com académicos enfadonhos, apercebi-me subitamente de que estava alguém a olhar para mim. Virei-me e vi Dorian Gray pela primeira vez. Cuando os nossos olhos se encontraram, senti que empalidecia. Apoderou-se de mim uma estranha sensação de terror. Sabia que tínha deparado com alguém de personalidade tão fascinante que, se eu o permitisse, iria absorver todo o meu ser, toda a minha alma, a minha própria arte. Não queria nenhuma influência externa na minha vida. Você sabe bem, Harry, que sou, por temperamento, independente. Fui sempre senhor de mim mesmo, pelo menos sempre o fora até encontrar Dorian Gray. Então... nem sei explicar-lhe o que se passou. Era como se alguma coisa me dissesse que me aproximava de uma crise terrível. Tinha a estranha sensação de que o destino me reservava intensas alegrias e intenso sofrimento. Fiquei atemorizado e voltei-me para abandonar a sala. Não foi por razões de consciência que o fiz: foi uma espécie de cobardia. Não me pertence, pois, o mérito desta tentativa de fuga.

- A consciência e a cobardia são de facto a mesma coisa, Basil. A consciência é a marca comercial da firma. Mais nada.

The wind shook some blossoms from the trees, and the heavy lilac-blooms, with their clustering stars, moved to and fro in the languid air. A grasshopper began to chirrup by the wall, and like a blue thread a long thin dragon-fly floated past on its brown gauze wings. Lord Henry felt as if he could hear Basil Hallward's heart beating, and wondered what was coming.

"The story is simply this," said the painter after some time. "Two months ago I went to a crush at Lady Brandon's. You know we poor artists have to show ourselves in society from time to time, just to remind the public that we are not savages. With an evening coat and a white tie, as you told me once, anybody, even a stock-broker, can gain a reputation for being civilized. Well, after I had been in the room about ten minutes, talking to huge overdressed dowagers and tedious academicians, I suddenly became conscious that some one was looking at me. I turned half-way round and saw Dorian Gray for the first time. When our eyes met, I felt that I was growing pale. A curious sensation of terror came over me. I knew that I had come face to face with some one whose mere personality was so fascinating that, if I allowed it to do so, it would absorb my whole nature, my whole soul, my very art itself. I did not want any external influence in my life. You know yourself, Harry, how independent I am by nature. I have always been my own master; had at least always been so, till I met Dorian Gray. Then--but I don't know how to explain it to you. Something seemed to tell me that I was on the verge of a terrible crisis in my life. I had a strange feeling that fate had in store for me exquisite joys and exquisite sorrows. I grew afraid and turned to quit the room. It was not conscience that made me do so: it was a sort of cowardice. I take no credit to myself for trying to escape."

- Não acredito, Harry, e creio que você também não. Contudo, fosse qual fosse o motivo - orgulhoso como eu era, poderá ter sido por orgulho -, consegui encaminhar-me para a porta. Mas, evidentemente, deparei com Lady Brandon. "Não pode deixar-nos tão cedo, Mr. Hallward!",, gritou ela. Você conhece-Lhe aquela voz particularmente esganiçada?

"Conscience and cowardice are really the same things, Basil. Conscience is the trade-name of the firm. That is all."

- Conheço. Ela é em tudo como um pavão, excepto na beleza disse Lord Henry, desfazendo o malmequer com os dedos longos e nervosos.

"I don't believe that, Harry, and I don't believe you do either. However, whatever was my motive--and it may have been pride, for I used to be very proud--I certainly struggled to the door. There, of course, I stumbled against Lady Brandon. 'You are not going to run away so soon, Mr. Hallward?' she screamed out. You know her curiously shrill voice?"

- Não púde ver-me livre dela. Apresentou-me a gente da Realeza, e a pessoas de estrelas e jarreteiras, e a damas idosas de tiaras gigantescas e narizes de papagaio. Referia-se a mim como o seu queridíssimo amigo. Tinha-a encontrado só uma vez, mas cismou que havia de me tratar como uma celebridade.

"Yes; she is a peacock in everything but beauty," said Lord Henry, pulling the daisy to bits with his long nervous fingers.

Creio que na altura um quadro meu obteve grande êxito, pelo menos chegou a ser muito falado nos jornais, o que, no século XIX, é a medida-padrão da imurtalidade... De repente, encontrei-me frente a frente com o jovem, cuja personalidade me perturbara de modo tão particular. Estávamos muito juntos um do outro, quase nos tocávamos. Os nossos olhos voltaram a encontrar-se. Sei que fui muito irreflectido ao pedir a Lady Brandon que me apresentasse a ele. Talvez não tenha sido assim tão irreflectido, afinal. Era uma coisa inevitável.

Acabaríamos por falar um com o outro, mesmo sem apresentações. Tenho a certeza. Dorian chegou a dizer-mo mais tarde. Também ele sentiu que estava predestinado que nos havíamos de conhecer.

"I could not get rid of her. She brought me up to royalties, and people with stars and garters, and elderly ladies with gigantic tiaras and parrot noses. She spoke of me as her dearest friend. I had only met her once before, but she took it into her head to lionize me. I believe some picture of mine had made a great success at the time, at least had been chattered about in the penny newspapers, which is the nineteenth-century standard of immortality. Suddenly I found myself face to face with the young man whose personality had so strangely stirred me. We were quite close, almost touching. Our eyes met again. It was reckless of me, but I asked Lady Brandon to introduce me to him. Perhaps it was not so reckless, after all. It was simply inevitable. We would have spoken to each other without any introduction. I am sure of that. Dorian told me so afterwards. He, too, felt that we were destined to know each other."

- E como descreveu Lady Brandon esse jovem admirável? perguntou o amigo. - Sei que ela adora fazer uma breve biografia de cada um dos seus convidados. Recordo uma ocasião em que me apresentou a um cavalheiro idoso, truculento, cara vermelha e coberto de condecorações, então, com uma voz tão sibilante que deve ter sido perfeitamente audível para todas as pessoas presentes na sala, ela começou a segredar-me ao ouvido, e num tom trágico, os pormenores mais assombrosos. Resolvi fugir. Gosto de ser eu a descobrir as pessoas. Lady Brandon, porém, trata os seus convidados exactamente como um leiloeiro trata a sua mercadoria. Ou os descreve minuciosamente, ou diz tudo acerca deles, excepto o que queremos saber.

- Pobre Lady Brandon! Está a ser muito severo com ela, Harry! - comentou Hallward, um pouco distraído.

"And how did Lady Brandon describe this wonderful young man?" asked his companion. "I know she goes in for giving a rapid precis of all her guests. I remember her bringing me up to a truculent and red-faced old gentleman covered all over with orders and ribbons, and hissing into my ear, in a tragic whisper which must have been perfectly audible to everybody in the room, the most astounding details. I simply fled. I like to find out people for myself. But Lady Brandon treats her guests exactly as an auctioneer treats his goods. She either explains them entirely away, or tells one everything about them except what one wants to know."

- Meu caro amigo, ela tentou abrir uma sala de recepções, e o que conseguiu foi abrir um restaurante. Como poderia sentir admiração por ela? Mas, afinal, o que lhe disse de Dorian Gray?

"Poor Lady Brandon! You are hard on her, Harry!" said Hallward listlessly.

- Ah, coisas como "Rapaz encantador... eu e sua pobre mãe éramos absolutamente inseparáveis. Esqueci completamente o que ele faz... parece-me que não faz nada... ah, sim, toca piano... ou é violino, meu querido Mr. Gray?" Nem ele nem eu pudemos deixar de rir, e ficámos logo amigos.

- O riso não é nada um mau começo para uma amizade, e é de longe o seu melhor final - disse o jovem lorde, arrancando outro malmequer.

"My dear fellow, she tried to found a salon, and only succeeded in opening a restaurant. How could I admire her? But tell me, what did she say about Mr. Dorian Gray?"

"Oh, something like, 'Charming boy--poor dear mother and I absolutely inseparable. Quite forget what he does--afraid he--doesn't do anything--oh, yes, plays the piano--or is it the violin, dear Mr. Gray?' Neither of us could help laughing, and we became friends at once."

Hallward abanou a cabeça, discordando.

"Laughter is not at all a bad beginning for a friendship, and it is far the best ending for one," said the young lord, plucking another daisy.

- Você não sabe o que é a amizade, Harry - murmurou ele -, nem mesmo a inimizade. Você gosta de toda a gente, o que significa que todos Lhe são indiferentes.

Hallward shook his head. "You don't understand what friendship is, Harry," he murmured--"or what enmity is, for that matter. You like every one; that is to say, you are indifferent to every one."

- É muito injusto comigo! - exclamou Lord Henry, puxando o chapéu para trás e erguendo o olhar para as nuvenzinhas de verão que, como meada de seda branca já desfeita, flutuavam pelo vazio azul-turquesa do céu. - Sim, tremendamente injusto. Eu estabeleço uma norma para diferenciar bem as pessoas. Escolho os amigos pela beleza, os conhecidos pelas qualidades de carácter, e os inimigos pelas de inteligência. Todo o cuidado é pouco na escolha dos inimigos. Não tenho um único que seja estúpido. São todos homens de capacidade intelectual e, por conseguinte, todos me apreciam. Será isto vaidade? Talvez seja um pouco.

- Talvez, Harry. Mas, segundo a sua classificação, eu devo ser um simples conhecido.

- Meu velho, você é muito mais do que um conhecido.

"How horribly unjust of you!" cried Lord Henry, tilting his hat back and looking up at the little clouds that, like ravelled skeins of glossy white silk, were drifting across the hollowed turquoise of the summer sky. "Yes; horribly unjust of you. I make a great difference between people. I choose my friends for their good looks, my acquaintances for their good characters, and my enemies for their good intellects. A man cannot be too careful in the choice of his enemies. I have not got one who is a fool. They are all men of some intellectual power, and consequently they all appreciate me. Is that very vain of me? I think it is rather vain."

- E muito menos do que um amigo. Uma espécie de irmão.

"I should think it was, Harry. But according to your category I must be merely an acquaintance."

- Ora, os irmãos! Os irmãos pouco me importam. O meu irmão mais velho nunca mais morre, enquanto os mais novos parecem não fazer outra coisa.

"My dear old Basil, you are much more than an acquaintance."

- Harry! - protestou Hallw ard, de semblante carregado.

"And much less than a friend. A sort of brother, I suppose?"

- Meu caro amigo, não estou a falar a sério. Mas não consigo deixar de detestar os meus parentes. Creio que se deve ao facto de nenhum de nós poder suportar ver nos outros os próprios defeitos. Apoio inteirâmente a indignação que a democracia inglesa manifesta contra aquilo a que chama os vícios das classes superiores. As grandes massas acham que a embriaguez, a estupidez e a imoralidade devem ser exclusivamente propriedade sua, e que se algum de nós faz figura de parvo é como se tivesse ido caçar na sua coutada. Quando o pobre do Southwark foi a tribunal por causa do processo de divórcio, a indignação dessa gente foi estrondosa. E, todavia, não me parece que dez por cento do proletariado viva decentemente.

- Não concordo com uma única palavra que acaba de proferir e, além do mais, Harry, tenho a certeza de que nem você mesmo concorda.

"Oh, brothers! I don't care for brothers. My elder brother won't die, and my younger brothers seem never to do anything else."

"Harry!" exclaimed Hallward, frowning.

"My dear fellow, I am not quite serious. But I can't help detesting my relations. I suppose it comes from the fact that none of us can stand other people having the same faults as ourselves. I quite sympathize with the rage of the English democracy against what they call the vices of the upper orders. The masses feel that drunkenness, stupidity, and immorality should be their own special property, and that if any one of us makes an ass of himself, he is poaching on their preserves. When poor Southwark got into the divorce court, their indignation was quite magnificent. And yet I don't suppose that ten per cent of the proletariat live correctly."

Lord Henry cofiou a barba castanha e, com a ponta da bengala de ébano ornamentada com borlas, bateu na biqueira da bota de verniz preto.

"I don't agree with a single word that you have said, and, what is more, Harry, I feel sure you don't either."

- Você é tipicamente inglês, Basil! Já é a segunda vez que faz semelhante observação. Se expomos uma ideia a um inglês genuíno, o que é sempre uma grande imprudência, nunca lhe ocorre pensar se a ideia é correcta ou errada. A única coisa que considera importante é saber se acreditamos na ideia por nós exposta. Ora o valor de uma ideia não tem nada que ver com a sinceridade da pessoa que a expressa. Na realidade, existem fortes probabilidades de que quanto mais insincero for o homem, mais puramente intelectual é a ideia, visto que, nessas circunstâncias, ela não será colorida pelas suas necessidades, nem desejos, nem preconceitos. Contudo, não pretendo discutir consigo política, sociologia ou metafísica. Gosto mais das pessoas do que dos princípios e, mais que tudo no mundo, gosto de pessoas sem princípios. Mas, meu caro, conte-me mais coisas acerca de Mr. Dorian Gray. Com que frequência costuma vê-lo?

- Todos os dias. Não podia sentir-me feliz se não o visse todos os dias. Ele é-me absolutamente necessário.

Lord Henry stroked his pointed brown beard and tapped the toe of his patent-leather boot with a tasselled ebony cane. "How English you are Basil! That is the second time you have made that observation. If one puts forward an idea to a true Englishman--always a rash thing to do--he never dreams of considering whether the idea is right or wrong. The only thing he considers of any importance is whether one believes it oneself. Now, the value of an idea has nothing whatsoever to do with the sincerity of the man who expresses it. Indeed, the probabilities are that the more insincere the man is, the more purely intellectual will the idea be, as in that case it will not be coloured by either his wants, his desires, or his prejudices. However, I don't propose to discuss politics, sociology, or metaphysics with you. I like persons better than principles, and I like persons with no principles better than anything else in the world. Tell me more about Mr. Dorian Gray. How often do you see him?"

- Que extraordinário! Eu supunha que você não se interessava por mais nada que não fosse a sua arte.

"Every day. I couldn't be happy if I didn't see him every day. He is absolutely necessary to me."

"How extraordinary! I thought you would never care for anything but your art."

- Agora é ele toda a minha arte - reconheceu o pintor, gravemente. - Às vezes penso, Harry, que há apenas duas eras realmente importantes na história do mundo. A primeira é o aparecimento de um novo meio para a arte, e a segunda é o aparecimento de uma nova personalidade também para a arte. O que foi para os venezianos a invenção da pintura a óleo, o rosto de Antínoo para a escultura grega tardia, e o que será um dia para mim o rosto de Dorian Gray. E não é apenas por ser ele o tema da minha pintura, e dos meus desenhos, e dos meus esboços. Evidentemente que fiz tudo isso. Mas, para mim, ele significa muito mais do que um modelo. Isto não quer dizer que me sinta insatisfeito com o que fiz dele, ou que a sua beleza seja de tal ordem que a Arte não pode exprimi-la.

Não há nada que a Arte não possa exprimir, e reconheço que todo o trabalho que realizei desde que conheci Dorian Gray é um trabalho de qualidade, é a melhor obra da minha vida. Mas, é curioso que - será que você me vai compreender? - a personalidade dele sugeriu-me uma forma inteiramente nova em arte, um estilo inteiramente novo. Vejo as coisas e penso nelas de maneira diferente. Posso agora recriar a vida de um modo que me estava oculto. Um sonho da forma em dias de pensamento., Quem disse isto? Não me recordo. Mas é precisamente o que Dorian Gray tem sido para mim. A simples presença física deste rapaz - para mim não passa de um rapaz, embora tenha mais de vinte anos -, a sua simples presença física... Ah, mas será que você compreende o que tudo isto significa? Inconscientemente, ele define-me uma nova escola, uma escola que há-de conter toda a paixão do espírito romântico, toda a perfeição do espírito grego. A harmonia da alma e do corpo... quão sublime é tudo isso: Loucos que somos, separámos o corpo e a alma, e inventámos um realismo grosseiro, uma idealidade vazia. Harry, se você ao menos soubesse o que Dorian Gray representa para mim! Lembra-se daquela minha paisagem pela qual Agnes me ofereceu um preço elevadíssimo, mas de que eu não quis separar-me? É uma das coisas melhores que fiz. E sabe porquê? Porque enquanto a pintava, Dorian Gray estava ao meu lado. Uma emanação subtil passava dele para mim, e, pela primeira vez na vida, vi num bosque vulgar a magia que sempre procurei e que nunca encontrara.

"He is all my art to me now," said the painter gravely. "I sometimes think, Harry, that there are only two eras of any importance in the world's history. The first is the appearance of a new medium for art, and the second is the appearance of a new personality for art also. What the invention of oil-painting was to the Venetians, the face of Antinous was to late Greek sculpture, and the face of Dorian Gray will some day be to me. It is not merely that I paint from him, draw from him, sketch from him. Of course, I have done all that. But he is much more to me than a model or a sitter. I won't tell you that I am dissatisfied with what I have done of him, or that his beauty is such that art cannot express it. There is nothing that art cannot express, and I know that the work I have done, since I met Dorian Gray, is good work, is the best work of my life. But in some curious way--I wonder will you understand me?--his personality has suggested to me an entirely new manner in art, an entirely new mode of style. I see things differently, I think of them differently. I can now recreate life in a way that was hidden from me before. 'A dream of form in days of thought'--who is it who says that? I forget; but it is what Dorian Gray has been to me. The merely visible presence of this lad--for he seems to me little more than a lad, though he is really over twenty--his merely visible presence--ah! I wonder can you realize all that that means? Unconsciously he defines for me the lines of a fresh school, a school that is to have in it all the passion of the romantic spirit, all the perfection of the spirit that is Greek. The harmony of soul and body--how much that is! We in our madness have separated the two, and have invented a realism that is vulgar, an ideality that is void. Harry! if you only knew what Dorian Gray is to me! You remember that landscape of mine, for which Agnew offered me such a huge price but which I would not part with? It is one of the best things I have ever done. And why is it so? Because, while I was painting it, Dorian Gray sat beside me. Some subtle influence passed from him to me, and for the first time in my life I saw in the plain woodland the wonder I had always looked for and always missed."

- Mas, Basil, isso é extraordinário! Preciso de ver Dorian Gray.

"Basil, this is extraordinary! I must see Dorian Gray."

Hallward levantou-se do banco e começou a passear pelo jardim. Passado algum tempo, aproximou-se.

- Harry, Dorian Gray representa para mim unicamente um motivo de arte. Você poderá não ver nele nada de especial. Eu vejo tudo. A sua presença na minha obra não é menor quando não se encontra nela a sua imagem. Como já afirmei, ele é uma sugestão de um novo estilo.

Descubro-o nas curvas de certas linhas, na beleza e nas subtilezas de certas cores. Nada mais.

- E então por que não expõe o seu retrato?

Hallward got up from the seat and walked up and down the garden. After some time he came back. "Harry," he said, "Dorian Gray is to me simply a motive in art. You might see nothing in him. I see everything in him. He is never more present in my work than when no image of him is there. He is a suggestion, as I have said, of a new manner. I find him in the curves of certain lines, in the loveliness and subtleties of certain colours. That is all."

- Porque, involuntariamente, pus nele um pouco da expressão desta singular idolatria mística, de que, evidentemente, nunca me interessou falar-lhe. Ele não sabe nada disto. Nem nunca saberá. O público, porém, poderia descobrir, e eu não quero desnudar a minha alma à sua curiosidade grosseira. Nunca sujeitarei o meu coração a essa bisbilhotice microscópica. Há muito de mim mesmo nesta obra, Harry... Demasiado!

"Then why won't you exhibit his portrait?" asked Lord Henry.

"Because, without intending it, I have put into it some expression of all this curious artistic idolatry, of which, of course, I have never cared to speak to him. He knows nothing about it. He shall never know anything about it. But the world might guess it, and I will not bare my soul to their shallow prying eyes. My heart shall never be put under their microscope. There is too much of myself in the thing, Harry--too much of myself!"

- Os poetas não são tão escrupulosos como você. Sabem que a paixão lhes é muito útil como tema publicável. Actualmente, um coração destroçado faz aumentar o número de edições.

"Poets are not so scrupulous as you are. They know how useful passion is for publication. Nowadays a broken heart will run to many editions."

- Odeio-os por isso mesmo - exclamou Hallward. - Um artista deve criar coisas belas, mas sem que nelas ponha seja o que for da sua vida pessoal. Vivemos numa época em que os homens tratam a arte como se devesse ser um género autobiográfico. Perdemos o sentido abstracto da beleza. Um dia hei-de mostrá-la ao mundo, e, por isso, o mundo jamais verá o meu retrato de Dorian Gray.

"I hate them for it," cried Hallward. "An artist should create beautiful things, but should put nothing of his own life into them. We live in an age when men treat art as if it were meant to be a form of autobiography. We have lost the abstract sense of beauty. Some day I will show the world what it is; and for that reason the world shall never see my portrait of Dorian Gray."

- Creio que você não tem razão, Basil. Mas não quero discutir consigo. Só os intelectualmente perdidos é que discutem. Diga-me, Dorian Gray gosta muito de si?

O pintor ficou uns instantes a pensar.

"I think you are wrong, Basil, but I won't argue with you. It is only the intellectually lost who ever argue. Tell me, is Dorian Gray very fond of you?"

- Ele gosta de mim - respondeu, após uma pausa -, sei que gosta de mim. É claro que costumo lisonjeá-lo de uma maneira horrível. Tenho um estranho prazer em dizer-lhe certas coisas, mesmo sabendo que vou arrepender-me de as ter dito. Em regra, ele é encantador comigo, e ficamos no estúdio a falar de mil e uma coisas. Às vezes, porém, ele é terrivelmente irreflectido e parece ter um enorme prazer em me fazer sofrer. E então, Harry, sinto que entreguei toda a minha alma a alguém que a trata como se fosse uma flor para colocar na lapela, um ornamento para deleite da sua vaidade, um enfeite para um dia de Verão.

The painter considered for a few moments. "He likes me," he answered after a pause; "I know he likes me. Of course I flatter him dreadfully. I find a strange pleasure in saying things to him that I know I shall be sorry for having said. As a rule, he is charming to me, and we sit in the studio and talk of a thousand things. Now and then, however, he is horribly thoughtless, and seems to take a real delight in giving me pain. Then I feel, Harry, that I have given away my whole soul to some one who treats it as if it were a flower to put in his coat, a bit of decoration to charm his vanity, an ornament for a summer's day."

- Os dias de Verão, Basil, tendem a alongar-se - murmurou Lord Henry. - Talvez você se canse primeiro do que ele. É triste pensar nisso, mas não há dúvida de que o Génio dura mais que a Beleza. E isto explica o facto de nos esforçarmos tanto para nos cultivarmos de modo tão exagerado. Na luta feroz pela existência, queremos possuir algo de duradouro e, por isso, atafulhamos as nossas mentes de inutilidades e factos, na esperança absurda de conservar o nosso lugar. O homem bem informado faz parte do ideal moderno. E a mente do homem bem informado é uma coisa horrível. Assemelha-se a uma loja de bricabraque, repleta de monos e pó, onde tudo está marcado com um preço superior ao seu real valor. Mesmo assim, creio que você será o primeiro a cansar-se. Há-de chegar o dia em que, ao olhar o seu amigo, vai achá-lo com traços menos correctos, ou não vai gostar da tonalidade do rosto, ou de qualquer outra coisa. No seu íntimo, você irá censurá-lo amargamente, e pensará muito a sério que ele teve consigo um comportamento incorrecto. Quando ele voltar a aparecer-Lhe, irá recebê-lo com total frieza e indiferença. O que será lamentável, pois você passa a ser uma pessoa diferente. O que acaba de me contar é uma fantasia romântica - poderia chamar-se mesmo um romance de arte -, e o pior em qualquer aventura romântica é que ela nos deixa tão pouco românticos.

"Days in summer, Basil, are apt to linger," murmured Lord Henry. "Perhaps you will tire sooner than he will. It is a sad thing to think of, but there is no doubt that genius lasts longer than beauty. That accounts for the fact that we all take such pains to over-educate ourselves. In the wild struggle for existence, we want to have something that endures, and so we fill our minds with rubbish and facts, in the silly hope of keeping our place. The thoroughly well-informed man--that is the modern ideal. And the mind of the thoroughly well-informed man is a dreadful thing. It is like a bric-a-brac shop, all monsters and dust, with everything priced above its proper value. I think you will tire first, all the same. Some day you will look at your friend, and he will seem to you to be a little out of drawing, or you won't like his tone of colour, or something. You will bitterly reproach him in your own heart, and seriously think that he has behaved very badly to you. The next time he calls, you will be perfectly cold and indifferent. It will be a great pity, for it will alter you. What you have told me is quite a romance, a romance of art one might call it, and the worst of having a romance of any kind is that it leaves one so unromantic."

- Não fale assim, Harry. Enquanto viver, serei dominado pela personalidade de Dorian Gray. Você não pode sentir o que eu sinto. Você é muito inconstante.

"Harry, don't talk like that. As long as I live, the personality of Dorian Gray will dominate me. You can't feel what I feel. You change too often."

- Ah, meu caro Basil, é por isso mesmo que o posso sentir. Os que são fiéis conhecem apenas o lado trivial do amor, os infiéis são precisamente aqueles que conhecem o seu lado trágico.

E Lord Henry acendeu um fósforo numa delicada caixa de prata, e começou a fumar um cigarro com um ar convencido e satisfeito, como se tivesse resumido o mundo numa frase.

Ouvia-se a chilreada dos pardais por entre o verde lacado das folhas de hera, e as sombras azuladas das nuvens perseguiam-se umas às outras pelo relvado como andorinhas. Que aprazível estava o jardim! E como eram deliciosas as emoções dos outros! Pareciam-Lhe muito mais deliciosas do que as ideias. A nossa alma e as paixões dos nossos amigos - eis as coisas fascinantes da vida - Imaginava, intimamente divertido, o almoço fastidioso a que faltara, por ter ficado tanto tempo com Basil Hallward. Se tivesse ido a casa de sua tia, iria com certeza encontrar Lord Hoodbody-, e toda a conversa teria andado à volta de alimento para os pobres e da necessidade de casas-modelo. Cada classe teria pregado a importância dessas virtudes, para a prática das quais não havia necessidade nas suas vidas. Os ricos teriam falado sobre o valor da poupança, e os ociosos teriam perorado com eloquência sobre a dignidade do trabalho. Como era agradável ter-se livrado de tudo isso! Ao pensar em sua tia, aconteceu-lhe de súbito uma ideia, e dirigiu-se a Hallward.

- Meu prezado amigo, lembrei-me mesmo agora...

"Ah, my dear Basil, that is exactly why I can feel it. Those who are faithful know only the trivial side of love: it is the faithless who know love's tragedies." And Lord Henry struck a light on a dainty silver case and began to smoke a cigarette with a self-conscious and satisfied air, as if he had summed up the world in a phrase. There was a rustle of chirruping sparrows in the green lacquer leaves of the ivy, and the blue cloud-shadows chased themselves across the grass like swallows. How pleasant it was in the garden! And how delightful other people's emotions were!--much more delightful than their ideas, it seemed to him. One's own soul, and the passions of one's friends--those were the fascinating things in life. He pictured to himself with silent amusement the tedious luncheon that he had missed by staying so long with Basil Hallward. Had he gone to his aunt's, he would have been sure to have met Lord Goodbody there, and the whole conversation would have been about the feeding of the poor and the necessity for model lodging-houses. Each class would have preached the importance of those virtues, for whose exercise there was no necessity in their own lives. The rich would have spoken on the value of thrift, and the idle grown eloquent over the dignity of labour. It was charming to have escaped all that! As he thought of his aunt, an idea seemed to strike him. He turned to Hallward and said, "My dear fellow, I have just remembered."

- Lembrou-se de quê, Harry?

"Remembered what, Harry?"

- De onde ouvi o nome de Dorian Gray.

"Where I heard the name of Dorian Gray."

- Onde foi? - perguntou Hallward, franzindo levemente as sobrancelhas.

"Where was it?" asked Hallward, with a slight frown.

- Não faça essa cara tão zangada, Basil. Foi em casa de minha tia, Lady Agatha. Ela contou-me que descobrira um jovem maravilhoso que estava disposto a ajudá-la no East End, e disse que o nome dele era Dorian Gray. Mas devo dizer-Lhe que ela nunca falou da sua beleza. As mulheres não apreciam a beleza... pelo menos, as mulheres boazinhas. O que ela me disse foi que ele era muito sério e de uma índole maravilhosa. E logo imaginei uma criatura de óculos e cabelo escorrido, horrivelmente sardento, e com pés enormes. Que pena não ter sabido então que ele era o seu amigo.

"Don't look so angry, Basil. It was at my aunt, Lady Agatha's. She told me she had discovered a wonderful young man who was going to help her in the East End, and that his name was Dorian Gray. I am bound to state that she never told me he was good-looking. Women have no appreciation of good looks; at least, good women have not. She said that he was very earnest and had a beautiful nature. I at once pictured to myself a creature with spectacles and lank hair, horribly freckled, and tramping about on huge feet. I wish I had known it was your friend."

- Ainda bem que não soube, Harry.

"I am very glad you didn't, Harry."

- Porquê?

"Why?"

- Não quero que se encontrem.

"I don't want you to meet him."

- Não quer que eu me encontre com ele?

"You don't want me to meet him?"

- Não.

"No."

- Mr. Dorian Gray- está no atelier - anunciou o mordomo, aparecendo no jardim.

"Mr. Dorian Gray is in the studio, sir," said the butler, coming into the garden.

- Agora, terá mesmo de me apresentar - exclamou, rindo, Lord Henry.

"You must introduce me now," cried Lord Henry, laughing.

O pintor voltou-se para o criado, que continuava à espera, pestanejando à luz do sol.

- Peça a Mr. Gray o favor de esperar, Parker. Não vou demorar muito.

The painter turned to his servant, who stood blinking in the sunlight. "Ask Mr. Gray to wait, Parker: I shall be in in a few moments." The man bowed and went up the walk.

O homem fez uma vénia e retirou-se. Então Basil Hallward olhou para Lord Henry.

- Dorian Gray é o meu mais querido amigo.1ém uma índole simples e bela. O que a sua tia disse dele é absolutamente correcto. Não o estrague. Não tente influenciá-lo. A sua influência sobre ele seria nociva. O mundo é vasto e tem muitas pessoas maravilhosas. Não me roube a única pessoa que empresta à minha arte o encanto que possui, a minha vida como artista depende dele. Veja bem, Harry, confio em si.

Falava muito devagar, como se arrancasse as palavras quase a contragosto.

Then he looked at Lord Henry. "Dorian Gray is my dearest friend," he said. "He has a simple and a beautiful nature. Your aunt was quite right in what she said of him. Don't spoil him. Don't try to influence him. Your influence would be bad. The world is wide, and has many marvellous people in it. Don't take away from me the one person who gives to my art whatever charm it possesses: my life as an artist depends on him. Mind, Harry, I trust you." He spoke very slowly, and the words seemed wrung out of him almost against his will.

- Não diga disparates! - acudiu Lord Henry a sorrir, e, pegando-Lhe num braço, quase o arrastou para dentro de casa.

"What nonsense you talk!" said Lord Henry, smiling, and taking Hallward by the arm, he almost led him into the house.