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A Liga Ruiva.  Arthur Conan Doyle
Livro. A Liga Ruiva
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FORA FAZER UMA VISITA a meu amigo, o Sr. Sherlock Holmes, um dia de outono no ano passado, e encontrei-o em conversa animada com um senhor idoso muito gordo, de rosto corado e cabelos cor-de-fogo. Com uma desculpa pela minha intrusão, ia me retirar quando Holmes me puxou abruptamente para dentro da sala e fechou a porta.

— Não poderia ter vindo em hora melhor, meu caro Watson – disse cordialmente. — Pensei que estivesse ocupado.

— E estou. Muito ocupado.

— Então posso esperar na sala ao lado.

— De forma alguma. Este cavalheiro, Sr. Wilson, tem sido meu companheiro e assistente em muitos dos meus casos de maior sucesso e não tenho dúvida que será muito útil no seu também.

O cavalheiro gordo ergueu-se em sua cadeira e cumprimentou-me ligeiramente com a cabeça, lançando um rápido olhar curioso de seus olhinhos rodeados de gordura.

— Experimente o sofá – disse Holmes, voltando à sua poltrona e juntando as pontas dos dedos, como era seu costume quando contemplava um problema. — Sei, meu caro Watson, que você compartilha meu amor por tudo que é bizarro e fora das convenções e da rotina do dia-a-dia. Demonstrou sua apreciação pelo entusiasmo com que relatou e, se me perdoa, até embelezou tantas aventuras minhas. — Seus casos na verdade têm sido muito interessantes para mim - observei. — Lembre que comentei outro dia, pouco antes de embarcarmos no problema muito simples apresentado pela Srta. Mary Sutherland, que para obter efeitos estranhos e combinações extraordinárias temos que apelar para a própria vida, que é sempre muito mais audaz que qualquer esforço da imaginação.

— Uma proposição de que tomei a liberdade de duvidar.

— Sim, Doutor, mas apesar disso você tem de vir para o meu lado, senão amontoarei fato em cima de fato até que seu raciocínio desmonte sob seu PC8o e reconheça que estou certo. Bem, o Sr. Jabez Wilson, aqui presente, teve a bondade de vir ver-me esta manhã e começar uma narrativa que promete ser das mais singulares que ouço há muito tempo. Já me ouviu comentar que as coisas mais estranhas são muitas vezes ligadas não aos grandes, mas aos crimes menores e, ocasionalmente, na verdade, à dúvida de que algum crime tenha sido realmente cometido. Pelo que ouvi até agora, é impossível dizer se o presente caso é ou não exemplo de crime, mas o curso dos acontecimentos é certamente dos mais estranhos que já ouvi. Talvez, Sr. Wilson, o senhor possa ter a bondade de recomeçar sua narrativa. Peço isso não só porque meu amigo Dr. Watson não ouviu o princípio, mas também porque a natureza peculiar da história deixa-me ansioso para colher todos os detalhes possíveis de seus lábios. Em geral, quando tenho alguma indicação do curso dos acontecimentos, posso guiar-me pelos milhares de outros casos semelhantes que me vêm à memória. Neste caso, sou forçado a admitir que os fatos são, pelo que sei, únicos.

O corpulento cliente estufou o peito com algum orgulho e tirou um jornal sujo e amarrotado do bolso de dentro do sobretudo. Enquanto olhava a coluna de anúncios com a cabeça esticada para a frente e o jornal aberto no joelho, examinei-o cuidadosamente e tentei, à moda de meu companheiro, ler as indicações apresentadas por suas roupas e sua aparência.

Não consegui muito, entretanto, com essa inspeção. Nosso visitante parecia um comerciante inglês tradicional, obeso, pomposo e lerdo. Usava calças cinzentas quadriculadas meio largas, um paletó preto não muito limpo, aberto, e um colete com uma corrente de metal amarelo com um pedaço quadrado de metal pendurado como ornamento. Um chapéu gasto e um sobretudo marrom-desbotado com gola de veludo enrugado repousavam em uma cadeira a seu lado. Por mais que olhasse, não havia nada de especial sobre o homem exceto os cabelos vermelhoflamejantes e a expressão de profundo desgosto e descontentamento em seu rosto. Sherlock Holmes observou minha ocupação e sacudiu a cabeça com um sorriso quando notou meu olhar inquisitivo. — Além do fato óbvio de que em alguma ocasião fez trabalhos braçais, que cheira rapé, que pertence à Maçonaria, que esteve na China e que tem escrito muito ultimamente, não posso deduzir nada mais.

O Sr. Jabez Wilson ergueu-se a meio da cadeira, com o indicador no jornal e os olhos fixos em meu companheiro.

— Como, em nome dos céus, o senhor sabe tudo isso, Sr. Holmes? - perguntou. — Como sabe, por exemplo, que fiz trabalhos braçais? É verdade, comecei como carpinteiro de bordo.

— Suas mãos, meu caro senhor. Sua mão direita é bem maior que a esquerda. Trabalhou com ela, e os músculos são mais bem desenvolvidos.

— Bem, o rapé, então, e a Maçonaria.

— Não insultarei sua inteligência contando como deduzi isso, especialmente porque, contra as regras rígidas de sua ordem, o senhor usa um arco e compasso no alfinete de gravata.

— Ah, sim, esqueci isso.

— Que mais poderia ser o significado de um direito tão lustroso braço direito gasto perto do cotovelo, onde o senhor o apoia na mesa.

— Bem, e a China?

— O peixe tatuado logo acima de seu pulso direito só pode na China. Fiz um pequeno estudo de marcas de tatuagem, até contribuí para a literatura sobre o assunto, uma dos peixes só existe na China. Quando, além, de pendurada em sua corrente de relógio, tudo se torna ainda mais simples.

O Sr. Jabez Wilson riu gostosamente — Ora, ora, pensei de início que era uma verdadeira façanha mental, mas estou vendo que tudo muito fácil.

— Estou começando a acreditar, Watson – disse Holmes.

— Sim, encontrei – respondeu, com o dedo grosso no meio da coluna. — Aqui está. Isso foi o começo de tudo. Tomei o jornal e li o seguinte:

A LIGA RUIVA. — finado um membro partido, Pensilvânia, EUA, existe agora outra vaga que dá direito a da Liga receber um salário de quatro fibras por semana por serviços puramente nominais. Todos os homens ruivos de perfeita saúde física e Mental de mais de vinte e um anos de idade podem candidatar-se.

Apresente-se em pessoa na segunda-feira às onze horas a Duncan Ross, nos escritórios da liga, 7 Pope's Court, Rua Fleet".

— QUE DIABO significa isso? – exclamei, depois de ler duas vezes o extraordinário anúncio.

— É um pouco fora do comum, comentou. — E agora, Sr. Wilson, comece a falar e conte tudo sobre si mesmo, sua família e o efeito que esse anúncio teve em sua vida. Primeiro, anote o jornal e a data.

— É o Morning Chronicle de 27 de abril de 1890. De dois meses atrás. — Muito bem. E agora, Sr. Wilson?

— Bem, é como estava lhe contando, Sr. Sherlock Holmes – disse enxugando a testa. — Tenho uma pequena loja de penhores na Coburg, perto do Centro.

Não é muito grande nos últimos anos. Antigamente tinha dois assistentes, mas agora só tenho um. E seria problema pagar seu ordenado, mas ele concordou em ganhar a metade, para aprender o negócio.

— Como se chama esse rapaz de tão boa vontade? – perguntou Sherlock Holmes.

— Seu nome é Vincent Spaulding e não é nenhum rapaz. É difícil dizer quantos anos tem. Não poderia ter um assistente melhor, Sr. Holmes. E sei muito bem que ele poderia estar muito melhor de vida, ganhar o dobro do que lhe pago. Mas, afinal de contas, se está satisfeito, por que botar idéias na cabeça dele?

— Realmente, por quê? O senhor tem muita sorte em ter um empregado que ganha menos do que o preço do mercado. Não é uma experiência muito comum nos dias de hoje. Acho que seu assistente é tão notável quanto esse anúncio.

— Ah, tem seus defeitos também – continuou o Sr. Wilson. — Nunca vi um camarada tão louco por fotografia. Agarrado com a máquina quando devia estar melhorando seus conhecimentos e depois se afundando no porão para revelar fotografas, como um coelho em sua toca. É seu maior defeito. Mas, de modo geral, é bom empregado. Não tem vícios.

— Continua trabalhando com o senhor?

— Sim, senhor. Ele e uma moça de quatorze anos, que cozinha um pouco e faz a limpeza. É só o que tenho em casa, pois sou viúvo e nunca tive família.

Vivemos muito pacatamente, os três. Mantemos a casa, pagamos as contas, e nada mais.

— A primeira coisa que nos abalou foi esse anúncio. Spaulding entrou no escritório, exatamente há oito semanas, com esse jornal na mão e disse:

— Daria tudo para ser ruivo, Sr. Wilson.

— Por quê?, perguntei.

— Ora, disse, há outra vaga na Liga dos Ruivos. Vale uma pequena fortuna para quem a ocupar e parece que há mais vagas do que candidatos e os membros do Conselho estão desatinados sem saber o que fazer com o dinheiro. Se pudesse mudar a cor dos cabelos, aqui está um ninho maravilhoso prontinho para mim.

— Mas de que se trata, então?, perguntei. Sabe, Sr. Holmes, sou um homem muito caseiro e como meus negócios vêm a mim e não preciso sair à sua procura, às vezes passo semanas a fio sem sair à rua. Por isso não sei o que está acontecendo lá fora e sempre gosto de ouvir as notícias.

— Nunca ouviu falar na Liga dos Homens Ruivos? – perguntou, de olhos esbugalhados.

— Nunca.

— Estou surpreso, pois o senhor podia ser candidato a uma das vagas. — Quanto vale uma vaga?, perguntei.

— Olhe, somente umas duzentas por ano, mas o trabalho é leve e não ia interferir com outras ocupações.

— Bem, isso me fez prestar atenção, pois os negócios não têm sido muito bons nos últimos anos e esse dinheiro extra viria a calhar.

— Conte-me tudo que sabe, disse.

— Bem, ele respondeu, mostrando o anúncio, pode ver aqui que há vaga na Liga e dá o endereço onde deve ir para maiores detalhes. Pelo que sei, a Liga foi fundada por um milionário americano, Ezekiah Hopkins, que era um homem muito peculiar. Ele era ruivo e tinha muita simpatia pelos ruivos e quando morreu descobriram que deixara sua enorme fortuna a curadores, com instruções para que aplicassem os juros em facilitar a vida de homens de cabelos ruivos. Pelo que ouvi dizer, pagam muito bem e há muito pouco a fazer.

— Mas, comentei, há milhões de homens ruivos que devem ter se candidatado. — Não tantos assim, respondeu. Repare, é limitado a londrinos de vinte e um anos. Esse americano começou em Londres, quando era jovem. Queria beneficiar a cidade. E também ouvi dizer que não adianta se seu cabelo for ruivo-claro, ou ruivoescuro, tem de ser o vermelho-vivo, cor-de-fogo. Se o senhor quisesse, Sr. Wilson, bastava se apresentar, mas talvez não valha a pena se incomodar por umas centenas de libras.

— Bem, é verdade, cavalheiros, como podem ver, que meu cabelo é bem cor-de-fogo. Então achei que, se houvesse concorrência, teria tanta chance de vencer quanto qualquer outro. Vincent Spaulding parecia saber tanto sobre o assunto que achei que podia ser útil, então mandei que fechasse a loja e viesse comigo.

Estava pronto a tirar um dia de folga, assim fechamos tudo e fomos ao endereço dado no anúncio.

— Espero nunca ver um espetáculo desses, Sr. Holmes. Do Norte, Sul, Leste e Oeste, todos os homens com um vestígio de vermelho nos cabelos vieram à cidade, em resposta ao anúncio. A Rua Fleet estava entupida de homens de cabelos vermelhos e a Praça Pope parecia um caminhão cheio de laranjas. Nunca pensei que houvesse tantos ruivos no país inteiro. Eram de todos os tons possíveis:

cor-depalha, de limão, de laranja, de tijolo, de barro... mas, como Spaulding disse, não havia muitos de legítima cor-de-fogo. Quando vi quantos estavam esperando, quis desistir, mas Spaulding não deixou. Não sei como conseguiu, mas empurrou e acotovelou até que atravessamos a multidão e chegamos aos degraus que levavam ao escritório. Havia duas filas nas escadas, uma subindo, esperançosa, outra descendo, desanimada.

— Sua experiência foi muito interessante – disse Holmes, quando seu cliente parou e refrescou a memória com uma imensa pitada de rapé. — Por favor, continue sua narrativa.

— O escritório continha apenas duas cadeiras de madeira e uma mesa de pinho, atrás da qual sentava um pequeno homem com cabelos ainda mais vermelhos que os meus. Dizia algumas palavras a cada candidato que se aproximava e sempre conseguia encontrar alguma coisa de errado que os desqualificava. Obter uma vaga não parecia ser assim tão fácil. Mas quando chegou a nossa vez o homenzinho foi mais favorável a mim do que aos outros e fechou a porta quando entramos, para termos alguma privacidade.

— Este é o Sr. Jabez Wilson, disse meu assistente, que deseja ocupar uma vaga na Liga.

— Muito apropriado, respondeu o outro. Tem todos os requisitos. Não me lembro de ter visto outro assim. Deu um passo atrás, inclinou a cabeça e olhou meu cabelo até eu ficar encabulado. De repente avançou, segurou minha mão e me congratulou pelo meu sucesso.

— Seria uma injustiça hesitar, disse. Mas vai me perdoar, tenho certeza, por tomar uma precaução óbvia. Dizendo isso, segurou meus cabelos com ambas as mãos e puxou até eu gritar de dor. Seus olhos estão cheios de lágrimas, disse, me soltando. Tudo está como devia ser. Mas temos de ter cuidado, pois já fomos enganados duas vezes com perucas e com tinta. Poder-lhes-ia contar histórias que os deixariam desiludidos com a natureza humana. Foi até a janela e gritou em voz alta que a vaga havia sido preenchida. As exclamações dos desapontados subiram até nós e a multidão dispersou em direções diferentes, até que não havia mais nenhum ruivo a não ser o gerente e eu.

— Meu nome, disse ele, é Duncan Ross e sou um dos beneficiários do fundo deixado por nosso nobre benfeitor. O senhor é casado, Sr. Wilson? Tem família?

Respondi que não.

— Ah!, disse, muito grave. Isso é mau, muito mau! Sinto muito ouvi-lo dizer isso. O fundo é, naturalmente, para a propagação dos ruivos, assim como para sua manutenção. É extremamente infeliz que seja solteiro.

— Fiquei triste com isso, Sr. Holmes, pois pensei que não ia conseguir a vaga afinal. Mas depois de pensar uns instantes, ele disse que não fazia mal.

— Se fosse outra pessoa, disse, isso poderia ser fatal, mas devemos fazer uma concessão considerando a cor de seus cabelos. Quando poderá assumir seu cargo?

— Bem, é um pouco difícil, pois tenho o meu negócio, respondi.

— Ora, não se importe com isso, Sr., disse Vincent Spaulding. Posso tomar conta disso para o senhor.

— Qual seria o horário?, perguntei.

— Das dez às duas.

— O negócio de penhores, Sr. Holmes, funciona mais à noite, especialmente nas quintas e sextas, perto do dia de pagamento, portanto, me convinha ganhar alguma coisa nas manhãs. Além disso, sabia que meu assistente era bom e que poderia resolver qualquer problema que surgisse.

— Isso me convém, disse. E quanto ao pagamento?

— Quatro libras por semana.

— E o trabalho?

— Onze, puramente nominal.

— O que chama de puramente nominal?

— Bem, tem de estar no escritório, ou pelo menos no prédio, todo o tempo. Se sair, perde sua posição para sempre. O testamento é muito claro nesse ponto. Não preencherá as condições se ausentar do prédio nesse período. Somente quatro horas por dia e não pensaria em sair – respondi. — Nenhuma desculpa será aceita, disse o Sr. Duncan Ross, nem doença, nem negócios, nem qualquer outra coisa. Tem de ficar aqui, ou perde esta posição.

— E o trabalho?

— É copiar a Enciclopédia Britânica. O primeiro volume está ali. O senhor fornece tinta, canetas e papel e nós fornecemos essa mesa e cadeira. Pode começar amanha?

— Certamente, respondi.

— Então, até logo, Sr. Jabez Wilson, e deixe-me cumprimentá-lo mais uma vez pela posição importante que teve a sorte de conseguir. Levou-me até a porta e fui para casa com meu assistente, sem saber o que dizer ou fazer, pois estava tão contente com minha sorte.

— Pensei no assunto o dia inteiro e à noite estava deprimido, pois me convenci que tudo isso devia ser uma grande fraude, embora não pudesse imaginar qual o motivo. Parecia totalmente impossível que alguém tivesse feito tal testamento e que pagassem essa quantia simplesmente para copiar a Enciclopédia Britânica. Vincent Spaulding fez tudo para me animar, mas na hora de dormir eu tinha mentalmente cancelado tudo. Mas de manhã resolvi que ia ver, de qualquer maneira, e comprei um vidrinho de tinta e uma pena, sete folhas de papel almaço, e fui para a Praça Pope.

— Para minha surpresa tudo estava certinho. A mesa estava pronta para mim e o Sr. Duncan Ross estava lá para me ver começar a trabalhar. Lançou-me na letra A e saiu, mas disse que voltaria de vez em quando para ver como eu ia. Às duas horas desejou-me um bom-dia, cumprimentou-me pelo que tinha feito até então e trancou a porta do escritório quando saí.

— Isso continuou por vários dias, Sr. Holmes, e no sábado o gerente entrou e colocou quatro libras de ouro na mesa pelo trabalho de uma semana. O mesmo aconteceu na semana seguinte, e na outra. Todo dia eu chegava às dez e saía às duas. Aos poucos o Sr. Duncan Ross começou a vir só uma vez de manhã e depois de algum tempo, nem isso. Mas é claro que eu não ousava sair da sala nem por um minuto, pois não tinha certeza quando ele viria e o lugar era tão bom e tão conveniente para mim que não arriscaria perdê-lo.

— Passaram-se oito semanas assim, e eu escrevera sobre Abades, e Arqueiros e Arte, e Arquitetura e esperava entrar no B muito em breve. Gastei um bocado em papel e quase enchera uma prateleira, quando tudo terminou.

— Terminou?

— Sim, senhor. Esta manhã. Fui trabalhar, como de costume, às dez horas, mas a porta estava fechada e trancada, e havia um pedaço de papel preso com uma tacha. Aqui está, pode ver. Estendeu um papel que dizia:

"A LIGA RUIVA FOI EXTINTA. 9 de outubro de 1890".

Sherlock Holmes e eu estudamos a breve notícia e o rosto tristonho do cliente até que o lado cômico do assunto predominou e ambos começamos a rir.

— Não vejo nada de engraçado – disse nosso cliente, com o rosto tão vermelho quanto seus cabelos de fogo. — Se só podem rir de mim, vou procurar auxílio em outro lugar.

— Não, não – exclamou Holmes, fazendo-o sentar novamente. — Não perderia seu caso de maneira nenhuma. É maravilhosamente original. Mas me perdoe se disser que há alguma coisa um pouquinho engraçada em tudo isso. Diga-me, o que fez quando viu o papel na porta?

— Fiquei estatelado, senhor. Não sabia o que fazer. Perguntei nas salas ao lado, mas ninguém sabia nada. Finalmente, fui procurar o senhorio, que é um contador que mora no andar térreo, e perguntei se podia me dizer o que tinha acontecido com a Liga Ruiva. Ele disse que nunca ouvira falar nisso. Então perguntei quem era o Sr. Duncan Ross. Respondeu que não conhecia o nome. — Bem, eu disse, o cavalheiro da sala nº 4.

— Ora, o homem de cabelos vermelhos?

— Sim.

— Ah!, respondeu. Seu nome era William Morris. Era um advogado e estava usando a sala temporariamente até seu escritório ficar pronto. Mudou-se ontem.

— Onde posso encontrá-lo?

— No seu novo endereço. Ele me deu, sim. Rua Frei Eduardo, 17, perto de S. Paul. — Fui até lá, Sr. Holmes, mas quando cheguei vi que era uma fábrica de rótulas artificiais e ninguém lá ouvira falar do Sr. William Morris ou do Sr.

Duncan Ross.

— O que fez então? – perguntou Holmes.

— Fui para casa e pedi a opinião de meu assistente, mas ele não pôde me ajudar. Só disse que esperasse e talvez soubesse alguma coisa pelo correio.

Mas isso não era bastante, Sr. Holmes. Não queria perder essa posição sem lutar, por isso vim aqui procurar o senhor, pois sabia que dá conselhos a pessoas em apuros.

— E fez muito bem – retorquiu Holmes. — Seu caso é altamente original e terei muito prazer em estudá-lo. Pelo que me contou, acho possível que tenha conseqüências muito mais graves do que pode parecer.

— Já são graves bastante – exclamou o Sr. Jabez Wilson. — Perdi quatro libras por semana.

— No que lhe diz respeito – comentou Holmes – não vejo o que possa reclamar dessa extraordinária Liga. Pelo contrário, o senhor ganhou umas trinta libras, além de ter aprendido alguma coisa copiando a letra A. Não perdeu nada. — Não senhor. Mas quero descobrir quem são e qual era seu objetivo em fazer essa brincadeira, se é que era brincadeira, comigo. Custou bem caro, exatamente trinta e duas libras.

— Vamos tentar esclarecer isso para o senhor, Sr. Wilson. Primeiro, deixe-me fazerlhe umas perguntas. Esse seu assistente que chamou sua atenção para o anúncio... quanto tempo está com o senhor?

— Naquela ocasião, mais ou menos um mês.

— Como o conheceu?

— Respondeu a um anúncio.

— Foi o único candidato?

— Não, houve uma dúzia.

— Por que o escolheu?

— Por que tinha boa vontade e trabalhava barato.

— Pela metade do preço, na verdade.

— Sim.

— Como é esse Vincent Spaulding?

— Baixo, gorducho, de movimentos muito rápidos, rosto sem pêlos, apesar de ter pelo menos trinta anos. Tem uma mancha branca de ácido na testa.

Holmes empertigou-se na cadeira, visivelmente excitado.

— É o que pensei – disse. — Por acaso notou se tem as orelhas furadas para brincos? — Sim, senhor. Ele disse que uma cigana fizera isso quando ele era criança. — Hum – disse Holmes, recostando-se, pensativo.

— Ah, sim. Acabei de deixá-lo.

— E seus negócios correram bem em sua ausência?

— Não posso me queixar.

— Muito bem, Sr. Wilson. Terei o prazer de lhe dar uma notícia sobre esse assunto dentro de um dia ou dois. Hoje é sábado, espero que na segunda-feira tenha chegado a uma conclusão.

— Bem, Watson, – disse Holmes, quando nosso visitante saiu – o que acha disso tudo? — Não acho nada – respondi, com toda a franqueza. — É um negócio muito misterioso.

— Em geral – retorquiu Holmes – quanto mais bizarra uma coisa, menos misteriosa é. Os crimes comuns é que são realmente difíceis, da mesma maneira que um rosto comum é o mais difícil de identificar.

— O que vai fazer? – perguntei.

— Fumar – respondeu. — É problema para três cachimbos e peço que não fale comigo por cinqüenta minutos. – Enroscou-se na cadeira, com os joelhos encostando no nariz adunco, e lá ficou, de olhos fechados, com o cachimbo de barro preto se projetando da boca como o bico de um pássaro estranho. Cheguei à conclusão que adormecera, e cabeceava de sono eu mesmo, quando de repente saltou da cadeira com o gesto de um homem que tivesse tomado uma resolução e colocou o cachimbo na prateleira acima da lareira.

— Estão tocando em St. James' Hall hoje à tarde – disse. — o que acha, Watson? Seus doentes podem dispensar você por algumas horas?

— Não tenho nada a fazer hoje. Minha clientela nunca me absorve muito. — Então pegue seu chapéu e vamos. Vou passar pela cidade primeiro e podemos almoçar no caminho. Notei que há muitas peças alemãs no programa, que me agradam muito mais que a música italiana ou francesa. É introspectiva, e quero ser introspectivo. Vamos!

Fomos de metrô até Aldersgate e uma curta caminhada nos levou à Praça SaxeCoburg, cena da história singular que ouvíramos de manhã. Era um lugar pequeno, mesquinho, onde quatro filas de casas de tijolo de dois andares, encardidas, enfrentavam uma área cercada, onde um gramado de grama e mato e umas moitas desbotadas lutavam heroicamente contra a atmosfera carregada de fumaça. Três bolas douradas e um cartaz marrom onde estava escrito "JABEZ WILSON" em letras brancas proclamavam, na casa da esquina, o lugar onde nosso cliente ruivo tinha seu negócio. Sherlock Holmes parou em frente da casa e a examinou detalhadamente, com a cabeça inclinada de lado e os olhos brilhando entre pálpebras semicerradas. Depois seguiu rua acima e voltou, olhando ainda atentamente para as casas.

Finalmente voltou para a loja de penhores e, após bater vigorosamente na calçada com a bengala duas ou três vezes, foi até a porta e bateu. Foi imediatamente aberta por um rapaz de ar esperto, imberbe, que o convidou a entrar.

— Obrigado – disse Holmes — só queria saber o caminho do Strand. — Terceira à direita, quarta à esquerda – respondeu o assistente e fechou a porta. — Rapaz esperto, esse – observou Holmes enquanto nos afastávamos. — Na minha opinião é o quarto homem mais esperto de Londres, e não aposto que não seja o terceiro. Sei alguma coisa sobre ele.

— Evidentemente – eu disse — o assistente do Sr. Wilson é responsável por grande parte desse mistério da Liga Ruiva. Estou certo de que você perguntou o caminho somente para vê-lo.

— Ele não.

— O que, então?

— Os joelhos de suas calças.

— E o que viu?

— O que esperava ver.

— Por que bateu na calçada?

— Meu caro Doutor, está na hora de observar, não de falar. Somos estranhos em território inimigo. Sabemos algo sobre a Praça Saxe-Coburg. Vamos agora explorar os caminhos atrás dela.

A estrada em que nos encontramos quando viramos a esquina da Praça Coburg era um contraste tão grande quanto a frente e as costas de um quadro. Era uma das artérias principais que levava o trânsito da cidade para o Leste e para o Oeste. O asfalto estava completamente bloqueado por um duplo fluxo constante, enquanto que as calçadas estavam negras com a multidão de pedestres. Era difícil conceber, ao olhar as lindas lojas e imponentes edifícios, que estávamos logo atrás da praça estagnada e desbotada que acabávamos de deixar.

— Deixe-me ver – disse Holmes, de pé na esquina e olhando em volta. Gostaria de me lembrar da ordem das casas, É um dos meus hobbies conhecer bem Londres.

Ali está Mortimer, a tabacaria, a lojinha de jornais, a Coburg do Banco City and Suburban, o Restaurante Vegetariano e o armazém de carruagens de McFarlane. Isso nos leva ao outro quarteirão. E agora, Doutor, já fizemos nosso trabalho e está na hora de nos divertir. Um sanduíche e uma xícara de café e depois à terra do violino, onde tudo é doçura e delicadeza e harmonia, e não há nenhum cliente ruivo para nos aborrecer com seus problemas.

Meu amigo era um músico entusiasta, e não só tocava muito bem, como era compositor de grande mérito. Passou a tarde inteira na poltrona de orquestra mergulhado na mais perfeita felicidade, abalando delicadamente os longos dedos finos no compasso da música, com o rosto sorrindo brandamente e olhos lânguidos e sonhadores, totalmente diferente de Holmes, o caçador de homens; Holmes o implacável, de mente aguçada, perseguidor de criminosos. Em sua personalidade singular, essa dualidade de natureza se estava alternadamente, e sua extrema precisão e astúcia representavam, como sempre pensei, a reação contra o estado poético e contemplativo que ocasionalmente predominava. Essa oscilação de sua natureza o levava do extremo a uma energia devoradora; e, como eu bem sabia, ele se tornava verdadeiramente terrível quando, dias a fio, ficava sentado em sua poltrona afundado em improvisações e na famosa coleção de edições de livros. Era então que a ânsia da caçada o atingia subitamente, e que seus poderes brilhantes subiam ao nível da intuição, e aqueles que desconheciam seus métodos o olhavam de banda, como se fosse um homem de conhecimentos não revelados a outros mortais. Quando o vi aquela tarde, absorto na música, senti que algo ia muito mal.

— Quer ir para casa, sem dúvida, Doutor — observou, ao sairmos.

— Sim, acho melhor.

— E eu tenho algo a fazer que vai levar algumas hora. Esse caso da Coburg é bastante grave.

— Por que grave?

— Um considerável crime está sendo planejado. Tenho quase certeza absoluta que temos tempo de sustá-lo. Mas como hoje é sábado, isso complica as coisas.

Vou precisar de seu auxílio hoje à noite.

— A que horas?

— Dez está bem.

— Estarei na Baker Street às dez.

— Muito bem. Um momento, Doutor. Pode haver algum perigo. Leve seu revólver do Exército no bolso. — Acenou com a mão, virou-se e imediatamente sumiu na multidão.

Eu não sou mais parvo que meus semelhantes, mas sempre me senti oprimido por uma sensação de minha própria estupidez quando lidava com Sherlock Holmes.

Dissera que era um homem temível, um homem que poderia estar envolvido em jogadas perigosas. Tentei resolver o enigma, mas desisti desanimado e pus o assunto de lado até que a noite trouxesse uma explicação.

Faltavam quinze para as nove quando saí de casa e atravessei o Parque da Rua Oxford até a Baker Street. Dois cabriolés estavam parados à porta e, ao entrar no corredor, ouvi o som de vozes vindo de dentro. Ao entrar na sala, encontrei Holmes conversando animadamente com dois homens, um dos quais reconheci como sendo Peter Jones, agente oficial da polícia. O outro era um homem alto e magro, de rosto triste, com um chapéu e um fraque opressivamente respeitável.

— O grupo está completo – disse Holmes, abotoando o casaco o pegando um chicote junto à parede. — Acho que conhece o Sr. Jones, da Scotland Yard. Deixe-me apresentá-lo ao Sr. Merryweather, que será nosso companheiro na aventura de hoje à noite.

— Estamos aos pares novamente como o senhor vê, Doutor. Jones disse, de maneira pomposa:

— Nosso amigo aqui é maravilhoso para com caçadas. Só precisa de um cão velho para ajudá-lo a pegar a caça.

— Espero que a caçada não seja de todo infrutífera – observou o Merryweather sombriamente.

— Pode ter toda confiança no Sr. Holmes, senhor – disse o agente de polícia com ar superior. — Tem seus métodos especiais, que são um pouco teóricos e fantásticos, mas tem tudo para um detetive. Não é exagero dizer que uma ou duas vezes, como no caso do tesouro de Agra, ele estava mais certo do que a força.

— Oh, se é o senhor que o diz, Sr. Jones, está tudo bem! – disse respeitosamente. — Mas devo confessar que sinto falta do meu jogo. O primeiro sábado à noite em mais de vinte e sete anos que perco o jogo.

— Acho que vai descobrir – observou Sherlock Holmes – que as partidas de hoje à noite serão as mais altas de sua vida e o jogo muito mais excitante.

Para o senhor, Sr. Merryweather, serão aproximadamente trinta mil libras; e para você, Jones, será o homem que você tanto queria preender.

— John Clay, o assassino, ladrão, arrombador e falsário. É um rapaz jovem, Sr. Merryweather, mas está à cabeça de sua profissão, e preferiria votar nele do que em qualquer outro criminoso de Londres. É um homem, esse jovem John Clay. Seu avô era um duque real, e ele freqüentou as universidades de Eton e Oxford. Seu cérebro é tão astuto quanto seus dedos, e, embora encontremos sinais dele em toda parte, nunca sabemos onde é que o homem está. Rouba um banco na Escócia uma semana e angaria fundos para construir um orfanato na Cornuália na semana seguinte. Estou em sua pista há anos, e nem sequer consegui vê-lo até hoje.

— Espero ter o prazer de apresentá-los hoje. Também tive um ou dois episódios com o Sr. John Clay e concordo que está à frente. Já passa das dez, entretanto, e está na hora de irmos. Tomem o primeiro carro, que Watson e eu seguiremos no segundo.

Sherlock Holmes não estava muito comunicativo durante a longa via, e recostou-se no carro cantarolando as músicas que ouvira durante a tarde. Chocalhamos por um labirinto infinito de ruas iluminadas a gás até saírem na rua.

— Estamos perto – comentou meu amigo. — Esse camarada Merryweather, é diretor de um banco e está pessoalmente interessado nesse assunto. Não é má pessoa, embora seja um perfeito exemplar em sua profissão. Tem uma grande virtude:

tem a coragem de um cão e a tenacidade de uma lagosta quando enfia as garras em alguém. Aqui, estão à nossa espera.

Havíamos chegado à mesma estrada apinhada de carruagens em que estivéramos naquela manhã. Despedimos os cabriolés e passamos por estreito corredor e atravessamos uma porta lateral que o Sr. Merryweather abriu para nós. Dentro havia uma pequena passagem que terminava em um tremendo portão de ferro.

Esse foi também aberto e levava a um lanço de degraus de pedra em caracol que terminava em outro portão maciço. O Sr. Merryweather parou para acender uma lanterna e nos conduziu então por uma passagem escura, cheirando a terra úmida, e, após abrir uma terceira porta, a um imenso porão ou caverna, na qual se empilhavam caixas volumosas e caixotes.

— Não estamos muito vulneráveis lá de cima – observou Holmes, segurando a lanterna e olhando em volta.

— Nem por baixo – disse o Sr. Merryweather, batendo com a bengala nas pedras que forravam o chão. — Mas que é isso, parecem ocas – exclamou, erguendo os olhos surpresos.

— Peço-lhe encarecidamente que fique quieto – disse Holmes severamente. — Já pôs em perigo o sucesso de nossa expedição. Posso lhe pedir a gentileza de sentar em uma dessas caixas e não interferir?

O solene Sr. Merryweather sentou-se em um caixote, com uma expressão injuriada, e Holmes ajoelhou-se no chão e, com a lanterna e uma lente, começou a examinar detalhadamente as fendas entre as pedras. Uns poucos segundos foram suficientes e pôs-se de pé novamente, satisfeito, colocando a lente no bolso.

— Temos pelo menos uma hora à nossa frente – comentou – porque nada podem fazer até que o bom agiota esteja quieto na cama. Então não perderão um segundo, pois quanto mais cedo terminarem seu trabalho, mais tempo terão para escapar. Estamos no momento, Doutor, como sem dúvida deve ter adivinhado, no porão da agência de um dos bancos principais de Londres. O Sr. Merryweather é o presidente e ele lhe explicará por que há razões para os criminosos mais audaciosos de Londres estarem muito interessados neste porão no momento.

— É nosso ouro francês – murmurou o presidente. — Tivemos vários avisos de que poderia ser feita uma tentativa de assalto.

— Seu ouro francês?

— Sim. Há alguns meses, tivemos oportunidade de aumentar nossas reservas e tomamos um empréstimo de trinta mil napoleões do Banco da França. É sabido que não tínhamos desempacotado o dinheiro e que ele continuava em nosso porão. O caixote no qual estou sentado contém dois mil napoleões arrumados entre camadas de folhas de chumbo. Nossa reserva de ouro é muito maior no momento do que é normal em uma única agência e os diretores estavam muito receosos.

— E com razão – comentou Holmes. — E agora está na hora de fazermos nossos planos. Espero que dentro de uma hora as coisas se resolvam. Nesse ínterim, Sr. Merryweather, devemos colocar um anteparo naquela lanterna escura. — E ficar no escuro?

— Receio que sim. Trouxe um baralho comigo e pensei que poderíamos jogar cartas. Mas vejo que os preparativos do inimigo estão tão avançados que não podemos arriscar uma luz. E, em primeiro lugar, temos de escolher nossas posições. São homens audazes, e embora tenhamos surpresas, podem nos fazer algum mal. Ficarei atrás dessa caixa e os senhores se escondam atrás daquelas. Quando jogar alguma luz em cima deles, fechem o círculo rapidamente. Se atirarem, Watson, não hesite em fazer fogo sobre eles.

Coloquei o revólver, engatilhado, sobre a caixa atrás da qual me escondi. Holmes escureceu a lanterna e nos deixou em completa escuridão, a mais negra que jamais vira. O cheiro de metal quente permanecia para nos lembrar que a luz continuava lá, pronta a ser revelada quando necessário. Para mim, com os nervos tensos de espera, havia algo deprimente no súbito negrume e no ar frio e úmido da caverna.

— Só têm uma saída – murmurou Holmes — pela casa, para a Praça Saxe-Coburg. Espero que tenha feito o que lhe pedi, Jones?

— Um inspetor e dois oficiais estão à espera na porta da frente.

— Então tapamos todos os buracos. E agora temos de ficar calados.

Como o tempo custou a passar! Quando comparamos impressões depois, fora só uma hora e um quarto, mas me pareceu então que a noite já havia passado e a madrugada estava raiando acima de nós. As pernas e braços me doíam, pois temia mudar de posição e meus nervos estavam na maior tensão; os ouvidos estavam tão aguçados que ouvia perfeitamente a respiração de meus companheiros e chegava até a distinguir a inspiração mais pesada do corpulento Jones e a nota fina e alta do presidente do banco. Do meu lugar, podia olhar sobre a caixa em direção ao chão. De repente meus olhos vislumbraram o reluzir de uma luz.

A princípio era somente uma centelha no chão de pedra. Depois aumentou até se tomar uma linha amarela e então, sem nenhum ruído ou aviso, uma fenda pareceu se abrir e surgiu uma mão, muito branca, quase feminina, que apalpou o centro da pequena área iluminada. Por um minuto ou mais a mão, com seus dedos contorcidos, projetou-se do chão. Depois retirou-se tão súbito quanto havia aparecido e tudo foi escuridão novamente, exceto a única centelha que marcava a fenda entre as pedras.

Esse desaparecimento, entretanto, foi apenas momentâneo. Com um movimento brusco, uma das largas pedras brancas foi virada de lado e deixou um buraco quadrado escancarado pelo qual jorrava a luz de uma lanterna. Na borda surgiu um rosto jovem que olhou vivamente ao redor e então, com uma das mãos em cada lado da abertura, foi-se erguendo até emergirem os ombros e finalmente um joelho se apoiar na borda. Mais um instante, e estava de pé junto ao buraco e puxava um companheiro para cima, esguio e pequeno como ele mesmo, com rosto pálido e cabelos cor-de-fogo.

— Tudo bem – murmurou. — Você tem o formão e os sacos. Deus meu! Pule, Rachei, pule que eu me defendo. Sherlock Holmes saltara e segurara o intruso pelo colarinho. O outro mergulhou no buraco e ouvi o ruído de fazenda rasgando quando Jones agarrou-o pelo paletó. A luz reluziu no cano de um revólver, mas o chicote de Holmes bateu no pulso do homem e a pistola caiu no chão de pedra. — Não adianta, John Clay – disse Holmes calmamente — você não tem a menor chance.

— Estou vendo – respondeu o outro, completamente senhor de si. — Acho que meu companheiro está bem, embora você tenha ficado com a aba de seu casaco.

— Há três homens esperando por ele na porta – disse Holmes.

— Olhe, é mesmo? Parece que tomou todas as providências necessárias. Devo cumprimentá-lo.

— E eu a você – respondeu Holmes. — Sua idéia ruiva foi uma novidade e muito eficiente.

— Vai ver seu companheiro novamente daqui a pouco – disse Jones— Ele é mais rápido em descer por buracos do que eu. Estenda as mãos para eu colocar as algemas.

— Peço que não me toque com suas mãos imundas – disse nosso prisioneiro quando as algemas fecharam-se ruidosamente em seus punhos. — Talvez não saiba que tenho sangue azul nas veias. E tenha a bondade de se dirigir a mim sempre dizendo "senhor" e "por favor".

— Está bem – disse Jones, casquinando uns risinhos irônicos. — Bem, teria a bondade, senhor, de marchar lá para cima, onde poderemos pegar um cabriolé para levar sua alteza à delegacia.

— Assim está melhor – disse John Clay serenamente. Fez uma cortesia a nós três e saiu calmamente sob a custódia do detetive.

— Realmente, Sr. Holmes – disse o Sr. Merryweather, ao sairmos do porão — não sei como o banco pode lhe agradecer ou recompensar. Não há dúvida que o senhor descobriu e derrotou da maneira mais completa uma das mais audazes tentativas de assalto a banco de que jamais tive conhecimento em minha vida toda.

— Tinha uma ou duas contas a acertar com o Sr. John Clay – disse Holmes. — Tive algumas despesas com esse assunto, que espero que o banco cubra, mas fora disso considero-me amplamente recompensado por uma experiência que é, de muitas formas, única, e por ter ouvido a extraordinária narrativa da Liga Ruiva.

* * * — Sabe, Watson, – explicou de manhã cedinho, quando tomávamos um uísque com soda na Baker Street – era perfeitamente óbvio desde o início que o único motivo possível de toda essa história fantástica do anúncio da Liga e a Enciclopédia Britânica era o de afastar esse agiota; algumas horas todos os dias.

Foi uma maneira curiosa de alcançar o objetivo, mas é difícil sugerir uma melhor. Sem dúvida alguma a idéia criativa de Clay pela associação com a cor dos cabelos.

As quatro libras por semana eram uma isca para atraí-lo, e o que era isso para eles, que jogavam com milhares? Colocaram o anúncio; um bandido ocupa o escritório temporário, o outro o instiga a se candidatar, e juntos conseguem garantir sua ausência todas as manhãs, a semana inteira. Desde que ouvi dizer que o assistente trabalhava por metade do salário normal, vi que havia uma razão muito forte para querer esse lugar.

— Mas como pôde adivinhar qual era a razão?

— Se houvesse mulheres na casa, teria suspeitado de uma intriga mais vulgar. Mas esse não era o caso. O negócio era pequeno e não havia nada na casa que justificasse preparativos tão elaborados e gastos tão grandes. Então tinha alguma coisa fora da casa. O que poderia ser? Pensei no amor do sujeito pela fotografia e seu hábito de desaparecer no porão. O porão. Aí esta o fim dessa meada embaralhada. Investiguei, então, e descobri que se tratava de um dos mais frios e audazes criminosos de Londres. Estava fazendo alguma coisa no porão que necessitava muitas horas por dia durante meses e meses. Mais uma vez, o que poderia ser? Não pude imaginar nada, a não ser um túnel para outro prédio.

— Estava nesse ponto em minhas deduções quando fomos visitar a cena da ação.

Surpreendi você quando bati na calçada com minha bengala. Estava verificando se o porão vinha até a frente da casa. Não vinha. Então toquei a campainha e, como esperava, o assistente atendeu. Tínhamos tido algumas escaramuças, mas nunca nos havíamos visto antes. Mal olhei para seu rosto; queria ver seus joelhos. Você mesmo deve ter observado como estavam gastos, passados e manchados.

Revelavam aquelas horas e horas de escavação. Só o que faltava então era saber por que estavam cavando. Dei a volta à esquina, vi que o Banco City and Suburban dava fundos para a casa e senti que resolvera o problema. Quando você foi para casa após o concerto, fiz uma visita à Scotland Yard e ao presidente do banco e o resultado foi o que você viu.

— E como sabia que fariam essa tentativa hoje à noite? – perguntei. — Bem, quando fecharam os escritórios da Liga era sinal de que a presença do Sr.

Jabez Wilson não mais importava. Em outras palavras, haviam terminado o túnel. Mas era essencial que o usassem logo, pois podia ser descoberto, ou o ouro podia ser removido. Sábado era mais conveniente que qualquer outro dia, pois dava dois dias para efetuarem a fuga. Por essas razões, esperava que viessem hoje à noite.

— Deduziu tudo lindamente – exclamei com admiração. — É uma longa cadeia mas cada elo é verdadeiro.

— Salvou-me do enfado – respondeu, bocejando. — Deus, já o sinto se apossando de mim. Toda minha vida é um esforço para escapar do enfado do cotidiano.

Esses pequenos problemas ajudam.

— E é um benfeitor da humanidade – retorqui.

Encolheu os ombros. — Bem, talvez, afinal de contas, sirva para alguma coisa – observou.

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