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Drácula.  Bram Stoker
Capítulo 20.
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DIÁRIO DE JONATHAN HARKER

19 DE outubro, à noite – Encontrei Thomas Snelling em sua casa, mas tão bêbado que nada me pôde adiantar. Sua mulher, porém, disse-me que ele é apenas ajudante de Smollet. Assim, parti para Walworth e encontrei o Sr. Joseph Smollet em casa e em manga de camisa tomando chá em um pires. É trabalhador sério, inteligente e consciencioso. Lembrava-se bem do caso das caixas e tirando do bolso um caderno de notas, repleto de anotações que me pareceram hieroglifos, deu-me o destino dos caixotes.

Havia, disse ele, seis na partida que levou de Carfax para o número 197 da Chicksand Street, Mile End New Town, e outras seis para Jamaica Lane, Bermondsey.

Se o Conde quer espalhar suas sinistras caixas por toda a extensão de Londres, esses lugares devem ter sido escolhidos para que de lá as caixas sejam distribuídas mais amplamente.

Perguntei a Smollet se não poderia nos dizer se outras caixas tinham sido retiradas de Carfax.

– Há uns quatro dias, numa taberna, ouvi um homem chamado Bloxam contar que ele e seu companheiro tinham feito um carreto muito poeirento de uma velha casa em Purfleet. Esses trabalhos não são comuns e, portanto, é capaz de se tratar dessas caixas pelas quais o senhor se interessa. Talvez Sam Bloxam possa lhe dar a informação.

Prometi-lhe outra meia libra se me arranjasse o endereço de Sam Bloxam.

– Não adianta o senhor fica tempo hoje – disse ele. – Talvez eu me encontre com Sam ainda hoje, mas não é certo; mas, mesmo que encontre não é provável que ele esteja em condições de conversar esta noite. Quando começa a beber, vai longe... Se o senhor deixar um envelope selado e com seu endereço, vou saber onde Sam pode ser encontrado e mando para o senhor esta noite. Mas é bom procurá-lo de manhã, pois ele sai sempre cedo, mesmo que tenha bebido muito na véspera.

2 de outubro, à noite – Hoje foi movimentado. Recebi, pelo primeiro correio, 0 envelope que eu subscritara para mim mesmo e que trazia dentro um pedaço de papel muito sujo com o endereço de Sam Bloxam. Levantei-me sem acordar Mina, que tem andado pálida e indisposta. Só estive com o Dr. Seward por um momento, e disse-lhe aonde ia, prometendo voltar logo que pudesse.

Não foi fácil encontrar o bairro em questão e quando encontrei o endereço, fui informado que Bloxam. saíra às cinco da manhã para trabalhar em Poplar. 0 informante não sabia onde era o seu local de trabalho, mas tinha uma vaga idéia de que se tratava de "um armazém novo". Dispondo apenas dessa precária informação segui para Poplar e só ao meio-dia tive uma informação satisfatória a respeito do tal armazém, num botequim onde alguns operários estavam almoçando.

Finalmente, consegui descobrir o tal armazém e um capataz me disse que, de fato, havia um sujeito chamado Bloxam que trabalhava ali.

Mandou-o chamar, pois prometi-lhe uma recompensa. Era um sujeito bem esperto embora sem educação. Quando prometi pagar-lhe generosamente a informação, ele me contou que fizera duas viagens entre Carfax e uma casa em Piccadilly e havia levado nove caixas "muito pesadas". Perguntei-lhe se podia dizer o número da casa de Piccadilly e ele respondeu:

– Esqueci-me do número, mas sei que fica bem perto de uma grande igreja branca, ou coisa parecida. É também, uma casa muito cheia de poeira, embora não tanto quanto a casa de onde tiramos as caixas.

– Como foi que entrou nas casas, se ambas estavam vazias?

– 0 velho que tinha me contratado estava esperando na casa de Purffeet. Ajudou a carregar as caixas. Nunca vi sujeito tão forte, apesar de já ter o bigode branco!

– Como foi que você entrou na casa de Piecadilly?

– Ele estava lá, também. Chegou na minha frente, pois, quando toquei a campainha, ele mesmo abriu a porta e ajudou-me a colocar as caixas no vestíbulo.

– Todas as nove caixas?

– Sim. Cinco na primeira viagem e quatro na segunda.

Não ficou com alguma chave?

– Não. 0 velho abriu a porta e fechou-a quando eu saí.

E não pode se lembrar do número da casa?

– Não, senhor, mas não será difícil encontrá-la. Tem uma fachada de pedra e uma escada na porta.

Certo de que conseguiria encontrar a casa, graças a essa descrição, e tendo pago o informante, segui para Piccadilly.

Não tive dificuldade em encontrar a casa. Evidentemente estava desocupada há muito tempo. As janelas estavam cobertas de poeira e as cortinas descidas. Indaguei de alguns homens que vi pelas proximidades se sabiam alguma coisa a respeito da casa desocupada e um deles me informou que, ultimamente, havia um letreiro anunciando que a mesma estava à venda e que se lembrava de ter visto no anúncio o nome da firma Mítchell, Filhos & Candy.

Tratei de procurar o endereço dessa firma e, pouco depois, estava lá. Fui recebido por um cavalheiro bem-educado, mas muito reticente. Negou-se a me dar qualquer informação, a não ser que a casa estava vendida. Resolvi entrar com meu jogo.

– Eu também sou de sua profissão – disse-lhe. – Sou procurador de Lord Godalming que está interessado em comprar a casa. A quem é que ele deve se dirigir para isso?

Ao mesmo tempo, entreguei-lhekmeiU cartão.

– Eu teria muito prazer em ser útil, Sr. Harker, e especialmente em ser útil a Lord Godalming – disse o homem. – Já fuemos alguns serviços para ele. Se quiser deixar o endereço, consultarei os diretores e me comunicarei com Lord Godalming pelo correio da noite.

Como eu queria fazer um amigo e não um inimigo, dei-lhe o endereço do Dr. Seward, agradeci-lhe e saí.

Tomei o primeiro trem para Purfleet. Encontrei todos os outros em casa. Mina estava abatida e pálida, mas fez um grande esforço para parecer animada. É desagradável ter de esconder as coisas dela.

Não podia contar aos outros minha descoberta senão quando ficássemos a sós; assim, depois do jantar – seguido por um pouco de música, para salvar as aparências, mesmo entre nós – levei Mina para o quarto e deixei-a na cama.

Ela se mostrou mais afetuosa que sempre. Graças a Deus tudo continuou na mesma entre nós, embora eu tenha deixado de contar-lhe muita coisa que acontece comigo.

Encontrei os outros na sala e contei o resultado de minhas investigações.

– Aproveitou bem o dia, Jonathan – disse Van Helsing. – Não há dúvida de que estamos na pista das caixas que faltam. Se encontrarmos todas na casa, nosso trabalho estará quase terminado. Mas se faltar algumas, temos de procurar até encontrá-las.

– Mas como entraremos naquela casa? – perguntou Morris.

– Já entramos na outra – apressou-se em dizer Lord Godalming.

– Mas o caso é diferente, Art. Entramos na casa de Carfax, mas protegidos pela noite e por um parque murado, Será muito diferente praticarmos um arrombamento em Piccadilly, de noite ou de dia.

– Quincey tem razão – disse Lord Godalming. – A tarefa é difícil, a não ser que encontremos as chaves do Conde.

Como nada se poderia fazer antes da manhã seguinte e convinha esperar a comunicação de Mitchell a Lord Godalming, resolvemos nada fazer antes do amanhecer.

Aproveitei para escrever este diário, embora esteja morrendo de sono. Mina está dormindo profundamente e respirando com regularidade.

DIÁRIO DO DR. SEWARD

1 de outubro – Estou preocupado com Renfield. Tive uma longa conversa com ele hoje e percebi que está agora preocupado com a "alma" de alguma coisa. Não há perigo de querer a "vida" no futuro. Desprezando as formas inferiores de vida, teme ser perseguido por suas almas. Logicamente, todas essas coisas apontam para um caminho. Ele tem alguma garantia de que irá adquirir uma vida mais elevada e teme as conseqüências: a responsabilidade por uma alma. Portanto, é uma vida humana que está procurando!

E a garantia?

Meu Deus, o Conde o tem influenciado e deve ter tramado algum novo plano de terror!

Mais tarde – Comuniquei minha suspeita a Van Helsing. Ele ficou muito sério e, depois de refletir, pediu-me para levá-lo ao quarto de Renfield. Quando entramos, vimos, com assombro, que o doente tinha espalhado de novo o açúcar para pegar moscas. Tentamos fazê-lo voltar ao assunto de nossa conversa anterior, mas em vão. Começou a cantar, como se estivesse sozinho. Tinha na mão um pedaço de papel, que dobrou e meteu num caderno de notas.

CARTA DE MITCHELL, FILHOS & CANDY A LORD GODALMING

Meu Lord:

1° de outubro

É com o máximo prazer que nos apressamos a satisfazer seu desejo. Com referência à informação, solicitada por intermédio do Sr. Harker, a respeito da compra e venda do prédio número 347 de Piccadilly, temos a dizer que os vendedores são os testamenteiros de Archibald Winter Suffield e o comprador é um nobre estrangeiro, Conde de Ville, que fez o pagamento à vista. Além disso, nada mais sabemos.

Somos, meu Lorde, Seus humildes servidores,

MITCHELL,FILHOS & CANDY

DIÁRIO DO DR. SEWARD

2 de outubro – Coloquei um homem no corredor, para prestar atenção em qualquer ruído suspeito que saísse do quarto de Renfield e chamar-me imediatamente. Antes de deitar-me, observei a cela, pela abertura da porta. Renfield estava dormindo.

Esta manhã, o guarda me disse que, um pouco depois de meia-noite, Renfield mostrou-se agitado, rezando em voz alta. Perguntei-lhe se era tudo e ele me respondeu que fora tudo que ouvira. Desconfiei do seu modo e, insistindo, fi-lo confessar que "cochilara" um pouco.

Hoje, Harker saiu, seguindo a pista que descobriu, e Art e Quincey saíram para procurar cavalos. Godalming acha que é bom termos cavalos à mão, pois, quando tivermos a informação de que necessitamos, não podemos perder tempo. Temos que esterilizar toda a terra importada entre o levantar e o pôr do sol; assim, apanharemos o Conde quando está mais fraco e sem refúgio para onde ir. Van Helsing está no Museu Britânico, estudando as velhas autoridades de medicina. Os antigos médicos atentavam para coisas que seus sucessores não aceitam e o professor está procurando tratamentos para bruxas e demônios, que podem nos ser úteis mais tarde.

Às vezes, penso que nós todos estamos doidos e que o aconselhável seria nos metermos em camisas-de-força.

Mais tarde – 0 guarda entrou correndo em meu gabinete e me disse que ocorreu um acidente com Renfield. Ouviu-o gritar e, quando entrou, encontrou-o caído de bruços, coberto de sangue. Vou para lá imediatamente.