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Ivanhoe.  Walter Scott
Capítulo 8.
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Em voz alta o desafiante seu grito soltou,
Que, ao toque de trombetas, o rival aceitou
O clamor enche o campo e no recôncavo céu ecoou.
Viseiras, descidas e as lanças apoiadas,
Ou ao elmo, ou ao topete, apontadas,
Desaparecem da barreira, apressando passo,
À força de esporas entre si diminuem espaço.
Palamon e Arcite

A meio da parada, o príncipe João estacou e, virado para o prior de Jorvaulx, lembrou-lhe terem-se esquecido do pormenor mais importante da festa.

- Virgem Santa! - disse. - Esquecemo-nos de nomear a Soberana do Amor e da Beleza, cuja alva mão entregará a palma da vitória. Pessoalmente, e liberal como sou, nada me importava que fosse Rebeca, a dos olhos negros.

- Mãe do Céu! - horrorizou-se o Prior com os olhos em alvo.

Uma judia! Seríamos corridos à pedrada destas liças, e a verdade é que ainda sou novo de mais para me tornar mártir.

Além de tudo, juro que ela não é tão bela como Rowena, a beldade saxónica.

- Saxão ou judeu - perguntou o Príncipe -, canino ou suíno, que diferença fazem? Por mim escolhia a Rebeca, quanto mais não fosse, para arreliar esses patifes desses saxões.

Elevou-se um sussurro de protesto entre os seguidores mais próximos.

- Seria uma brincadeira de mau gosto, Senhor - observou De Bracy. - Nenhum cavaleiro tornaria a dar descanso à sua lança se tal insulto se concretizasse.

- Seria uma ofensa sem limites - lembrou Waldemar Fitzurse um dos mais idosos e importantes dos companheiros do Príncipe.

- Se Vossa Graça a levar avante, poderá vir a ver os seus projectos arruinados.

- Convidei-o, senhor - objectou João altivamente, erguendo as rédeas do palafrém -, para meu acompanhante e não como meu conselheiro.

- Todos os que acompanham Vossa Graça no caminho que trilha - lembrou Waldermar, mas em voz baixa - adquirem o direito de se tornar seus conselheiros, já que os seus interesses e segurança não estão mais empenhados do que os deles.

De forma como isto foi dito concluiu João ter de aquiescer.

- Brincava apenas - esclareceu -, e, mesmo assim, viraste- vos contra mim como víboras. Escolhei, a vosso gosto, quem quiserdes entre as assistentes.

- Não!. Não! - propôs De Bracy. - Deixemos o trono da bela soberana vago até que se saiba quem é o vencedor. Este indicará qual a dama que o ocupará. Tal acrescentará gentileza ao seu triunfo e ensinará às belas melhor apreciarem o cavaleiro que, desse modo, as venha a exaltar.

- Se Brian de Bois-Guilbert vencer - comentou o Prior -, aposto o meu rosário em como sei quem é que ele escolherá.

- Bois-Guilbert é uma excelente lança - lembrou De Bracy -, mas, Sr. Prior, nestas liças estão outros que não temem cruzar armas com ele.

- Silêncio, senhores! - bradou Waldemar. - Deixemos o Príncipe sentar-se. Tanto os cavaleiros como o público já estão impacientes. O tempo corre e já é altura de se iniciarem os jogos.

O príncipe João, embora não fosse rei ainda, já tinha em Waldemar Fitzurse um ministro com todas as inconveniências de quem deseja servir o seu soberano de acordo com a própria maneira de ver as coisas...

O Príncipe, concordando, conquanto a sua disposição, no momento, fosse mais de implicar com pequenos nadas, sentou-se no trono, rodeado da sua gente, e fez sinal aos arautos para que anunciassem as regras do torneio, que seriam as seguintes:

Primeiro: os cavaleiros desafiantes teriam de aceitar todos que com eles pretendessem combater.

Segundo: qualquer cavaleiro que quisesse combater poderia, se assim o desejasse, escolher um antagonista entre os cinco desafiantes, para o que bastaria tocar-lhe no escudo com a lança. Se o fizesse com o conto, a prova seria executada com aquilo que se denominavam armas de cortesia, ou seja, com lanças que tinham na ponta uma superfície circular e plana, para que não houvesse perigos, além dos resultantes do choque de cavalos e cavaleiros. Porém, se o escudo fosse batido com a ponta, ficava entendido que o combate seria à outrance(1), portanto com armas afiadas, como em verdadeiras batalhas.

Terceiro: quando os cavaleiros presentes tivessem cumprido a sua promessa, quebrando cada um cinco lanças, *1.. Em francês no original. Sem dó nem piedade, a doer. (N.

do T.) o Príncipe anunciaria o nome do vencedor do primeiro dia de torneio, que, como prémio, receberia um cavalo de batalha, de extraordinária beleza e força imensa. Além deste prémio pela sua bravura, estipulava-se agora, teria também a honra de ser ele quem nomearia a Rainha do Amor e da Beleza, rainha que entregaria o galardão no dia seguinte.

Quarto: no segundo dia haveria um torneio generalizado, em que todos os cavaleiros presentes, desejosos de méritos, poderiam tomar parte. Seriam divididos em dois grupos, de número igual de componentes, que lutariam até o Príncipe fazer sinal para pararem. A já eleita Rainha do Amor e da Beleza coroaria o cavaleiro que o Príncipe entendesse ter sido o mais merecedor da jornada com uma coroa de fina folha de ouro, recortada na forma de louros. Neste segundo dia, os jogos ficariam por ali.

Mas no terceiro dia realizar- se-iam competições diversas, como tiro ao arco, lutas de cães contra touros e outros divertimentos populares. Desta maneira procurava o Príncipe fortalecer a sua popularidade, que, no entanto, constantemente fazia diminuir devido a ilógicos actos de brutalidade que praticava, ferindo os sentimentos e preconceitos do povo.

As liças constituíam um espectáculo ainda mais esplêndido. As galerias em declive mostravam-se pejadas de toda a gente nobre e importante, abastada e bela do Norte da Inglaterra. As roupas de todas estas pessoas de posição, contrastando entre si, davam ao local um aspecto de poder festivo que o espaço inferior, cheio de sólidos burgueses e homens livres, mais sobriamente vestidos, envolvia como uma franja ou orla envolve um colorido bordado, suavizando-o e, ao mesmo tempo, relevando-lhe o esplendor.

Os arautos terminaram a proclamação com o habitual brado de «Largesse! Largesse!(2), bravos cavaleiros!», a que uma chuva de peças de ouro e prata respondia sobre eles caindo, num dos pontos altos da cavalaria, que, tomando esta atitude, mostrava a sua liberalidade para com aqueles homens, que considerava como os anotadores e historiadores de tudo que era honroso e nobre. Aquela bonança vinda dos espectadores era acusada com os usuais brados de «Amor às damas»; «Campeões perante a morte»; «Honra aos generosos», «Glória aos bravos! », aos quais os assistentes mais humildes juntavam as suas aclamações e um numeroso grupo de corneteiros o som dos seus instrumentos. Quando todo este alarde cessou, os arautos retiraram-se das liças, em faustosa procissão, ninguém lá ficando, a não ser os mestres-de-cerimónia, armados dos pés à cabeça, imóveis nos seus cavalos, nos extremos opostos do campo. Neste interim, a porção cercada no norte das liças, *2.. Em francês no original. Liberalidade. (N. do T.) grande como era, abarrotava de cavaleiros desejosos por demonstrarem o seu valor, os quais, vistos das galerias, formavam um mar de plumas, elmos brilhantes e longas lanças, muitas com pequenos galhardetes, dum palmo de comprido, que, tocados pela brisa, adejavam também.

Finalmente abriram-se as barreiras, e cinco cavaleiros, escolhidos por sorteio, entraram vagarosamente na área. Um campeão marchava isolado na frente, os outros quatro seguindo-o em pares. Todos esplendidamente armados, registando a minha fonte de informação saxónica (no Manuscrito de Wardour), com grande pormenor, os seus emblemas a cores bordados nos panos das suas montadas. Não valerá a pena transcrevê-los. Recorrendo a um poeta contemporâneo que, lamentavelmente, muito pouco escreveu:

Pé são os cavaleiros andantes, Ferrugem as belas espadas montantes.

Oxalá aos santos se tenham junto as suas almas errantes (3).

Lembremo-nos somente de que de há muito os seus brasões já não emolduram as paredes dos castelos, castelos que já não são mais do que outeiros verdejantes ou derruídas ruínas - os sítios que os conheciam já não os conhecem mais -, tal como muitas outras gerações depois deles morreram ou foram olvidadas pela terra que ocuparam com toda a autoridade de senhores e proprietários feudais. Deste modo, de que serviria ao leitor ficar a saber os seus nomes, conhecer os efémeros símbolos da sua patente marcial?

Naquela ocasião, todavia, e sem poderem prever o esquecimento que iria cobrir-lhes os nomes e os feitos, os campeões percorriam as liças, contendo as suas fogosas montadas, obrigando-as a seguir lentamente, em passada que avultava a sua graça e maestria na arte de equitação. Ao entrar o cortejo no terreno, o som duma música bárbara e selvagem saiu de detrás das tendas dos desafiantes, onde se ocultavam músicos.

Eram tais acordes de origem levantina, tendo sido trazidos da Terra Santa, parecendo, naquele conjunto de címbalos e campânulas, dar simultaneamente as boas-vindas e desafiar os cavaleiros que se achegavam. com os olhos da turba neles postos, alcançaram a plataforma, onde se erguiam as tendas *3. - Estas linhas pertencem a um poema inédito de Coleridge, cuja musa tão frequentemente nos tantaliza por meio de fragmentos do seu poder, enquanto a maneira como o dardeja tanto capricho revela em resultados que. mesmo inacabados, nos mostram muito mais talento do que aquele que existe em obras-primas de outros.

dos desafiantes, e, separando-se, então, cada um deles tocou ao de leve, com o reverso da lança, no escudo do opositor que escolhera As camadas mais baixas dos assistentes, e igualmente muitos de classe mais elevada e inúmeras damas, mostraram-se desapontados ao verem que a escolha era de armas de cortesia.

Pelos mesmos motivos que muita gente, hoje em dia, se excita com as maiores tragédias, também dantes, nos torneios, o interesse era proporcional aos riscos a que os guerreiros se submetiam.

Tendo evidenciado os seus relativamente pacíficos propósitos, retiraram-se os campeões para os extremos das liças, onde se colocaram em linha. Os desafiantes saíram das tendas, montaram e, conduzidos por Brian de Bois-Guilbert, desceram da elevação, tomando posições, cada um frente àquele que lhe tocara o escudo.

Ao soar de clarins e cornetas, partiram a todo o galope, uns contra os outros, sendo de tal forma superior a destreza ou sorte dos desafiantes que os opositores de Bois-Guilbert, Malvoisin e Front-de-Boeuf logo rolaram pelo chão. O antagonista de Grantmesnil, em vez de, lealmente, dirigir a sua lança para o escudo ou para o elmo, afastou-se tanto da linha directa que bateu de través no corpo do oponente, facto muito mais reprovável do que tombar do cavalo, uma vez que isto poderia suceder por acidente, enquanto aquilo somente poderia ser atribuído a inabilidade no manejo da arma ou do cavalo. Apenas o quinto cavaleiro salvou a honra do grupo, ao entrechocar-se com o cavaleiro de São João, pois ambos partiram as lanças, sem vantagens para qualquer deles.

Os gritos da multidão, aliados às aclamações dos arautos e ao fragor das cornetas, cantaram o triunfo dos vencedores e a derrota dos vencidos. Os primeiros regressaram aos pavilhões e os outros, arranjando-se o melhor que podiam, partiram dali, desalentados e envergonhados, para assentarem com os seus vencedores o resgate das suas armas e montadas, que, segundo o regulamento do torneio, tinham perdido em favor deles. Apenas o quinto entre eles se deixou ficar, recebendo aplausos dos espectadores, para junto dos quais se retirou pouco depois, para maior agravo e mortificação dos companheiros.

Um segundo e um terceiro grupo de cavaleiros vieram a campo.

Se bem que os resultados variassem de caso para caso, no cômputo final o sucesso ficou inteiramente nas mãos dos desafiantes, nenhum dos quais fora derrubado ou ferira o adversário de esguelha, fracassos que aconteceram a dois dos seus antagonistas, em cada encontro. O moral dos que os desejavam enfrentar estava pois muito amolecido por tantas vitórias repetidas, pelo que, na quarta justa, somente três cavaleiros se apresentaram, e mesmo esses evitaram as lanças de Bois-Guilbert e Front-de-Boeuf, contentando-se em tocar os escudos dos outros três, que não tinham mostrado tanta força e habilidade. Esta opção também não resultou.

Um deles caiu e os outros dois não conseguiram attaint(4), ou seja, bater ou no escudo ou no elmo do oponente, forte e firmemente, com a lança directamente apontada para que se quebrasse, caso o campeão não fosse atirado abaixo.

A seguir a este quarto encontro fez-se um considerável intervalo, parecendo não haver mais ninguém interessado em combates. Os espectadores resmungavam já, mesmo porque Malvoisin e Front-de-Boeuf eram, devido ao seu temperamento, pouco populares e os outros, não contando Grantmesnil mal vistos porque não locais, mas estrangeiros.

Ninguém, porém, mais profunda e completamente partilhava deste sentimento geral do que Cedric, o Saxão. que, em cada ponto ganho pelos normandos via mais outro triunfo contra a honra da Inglaterra. A sua educação não lhe dera destreza para os jogos da cavalaria, muito embora, com as armas dos seus antepassados saxões, se tivesse mostrado, em muitas ocasiões, um bravo e afoito soldado. Remirava, ansioso, Athelstane, que aprendera aquela forma de combater, como que rogando-lhe fizesse um esforço pessoal para arrancar a vitória que parecia caminhar para o colo do Templário e dos seus companheiros. Mas Athelstane, embora de rija têmpera e de corpo robusto, era demasiado parado para se encarregar dos exercícios que Cedric dele parecia esperar.

- O dia vai mau para a Inglaterra, senhor - lembrou Cedric num tom carregado de implicações. - Não estará tentado a pegar na lança?

- Fica para amanhã - respondeu Athelstane, - na mélée(5). Não vale a pena pôr hoje a armadura às costas.

Duas coisas desagradaram a Cedric nestas frases. A palavra normanda mélée (significando luta generalizada) e uma certa indiferença pela honra da nação. Porém, como haviam partido da boca de Athelstane, pessoa que lhe merecia a maior consideração, deixou de tentar aprofundar a sua razão de ser.

Aliás, nem tempo para isso teria tido, pois Wamba interrompeu-o dizendo «ser preferível, se bem que ligeiramente mais fácil, ser-se o melhor entre unia centena do que o melhor de dois».

Athelstane tomou esta observação como um cumprimento, mas Cedric, que conhecia o bobo muito bem e vira onde ele quisera chegar, lançou-lhe um olhar severo e ameaçador. Wamba teve sorte em ser ali e naquele momento, senão, não obstante o seu lugar e serviços, teria, do aborrecimento do seu amo, recebido marcas bem mais dolorosas.

*4.. Este termo de cavalaria, entrando mais tarde na terminologia leiga inglesa, passou a querer significar «atingido à traição».

5. Em francês no original. Refrega. (N. do T.) A paragem do torneio estendia-se, apenas quebrada pelos arautos bradando «Quebrem-se lanças por amor às damas!

Avançai, bravos cavaleiros, que belos olhos vos contemplarão!» Também a música dos desafiantes se fazia ouvir, de quando em vez, em selvagem e expressivo tom de vitória ou de desafio, enquanto palhaços, para entreterem o público, iam mostrando as meninices. Cavaleiros e nobres idosos segredavam uns com os outros, lamentando o decair do espírito guerreiro, recordando os triunfos dos tempos em que eram mais novos e todos concordando já não haver damas de beleza tão sublime e tão radiante animação como as de outrora. O príncipe João já falava com o pessoal acerca do banquete a realizar-se e sobre o ter de ver qual o prémio a dar a Bois-Guilbert, que, com a mesma lança, derrubara dois cavaleiros e vencera um terceiro.

inesperadamente, quando os acordes musicais sarracenos, num floreado agudo e prolongado, terminavam uma das suas intervenções, uma trombeta isolada, soando no extremo norte das liças, respondeu-lhes em tom de repto. Todos se viraram para verem quem era o campeão que assim se anunciava e que, abertas as cancelas, já entrava no terreno. Tanto quanto se podia apreciar num homem de ferro coberto, o novo aventureiro não aparentava um físico muito acima da média, sendo mais para o esbelto do que para o pesado. A sua armadura era de aço, com formosas incrustações de ouro, e o escudo com a figura pintada de um carvalho arrancado pelas raízes, sob o qual se lia a palavra castelhano «Desdichado», isto é, «Desditoso». Montado num maravilhoso cavalo negro, saudou com elegância o Príncipe e as damas, descendo a lança. A destreza com que fazia seguir a montada e qualquer coisa de juventude que dele irradiava ganharam-lhe a simpatia da multidão, do meio da qual, principalmente de entre os de classe mais baixa, vieram recomendações como «Toque o escudo de Vipont», «Toque o escudo do Hospitalário. É o que menos se aguenta, logo o de escolher!

» O campeão continuou, sem prestar atenção a estas bem intencionadas bocas, subiu à plataforma pela rampa e, perante o espanto de todos, trotou directamente para o pavilhão central, frente ao qual bateu com a ponta da lança no escudo de Brian de Bois-Guilbert, fazendo-o tinir. Todos se surpreenderam com tamanho arrojo, mas ninguém mais do que o poderoso cavaleiro, deste modo desafiado para combate mortal e que, de modo algum esperando um repto daqueles, se deixara, descontraídamente, estar encostado à entrada da tenda.

- Confessaste-te, irmão? - perguntou o Templário. - Assististe, hoje de manhã, à missa? o perigo a que estás a expor a tua vida é imenso.

- Estou mais preparado para a morte do que tu - respondeu-lhe o cavaleiro Desditoso, pois fora sob esse epíteto que se registara no torneio.

- Toma então o teu lugar na liça - disse-lhe Bois-Guilbert - e olha para o Sol pela última vez, pois esta noite estarás a dormir no Paraíso.

- Muito obrigado pela tua gentileza - replicou-lhe o cavaleiro Desditoso. - para a retribuir. sugiro-te que montes um cavalo fresco e empunhes uma lança nova, já que, pela minha honra, de ambos precisarás.

Tendo-se assim, com tanta confiança, exprimido, fez recuar o cavalo pela ladeira abaixo e, continuando a obrigá-lo a andar para trás, percorreu o campo até à ponta norte, onde, voltando-se, ficou estático, aguardando que o antagonista ocupasse a sua posição. Tanto saber de equitação sacou uma onda de aplausos.

Ainda que enfurecido com o topete do adversário, Brian de Bois-Guilbert não lhe ignorou os avisos. A sua honra estava demasiado em jogo para se permitir não se garantir por todos os meios para uma vitória sobre tão presunçosa criatura.

Substituiu, portanto, o cavalo por outro fresco, de grande força e genica, e escolheu uma nova e resistente lança, não fosse a madeira da que usara estar abalada pelos encontros anteriores. Pôs também de lado o escudo ligeiramente amolgado e pediu outro aos escudeiros. O primeiro tinha pintados dois cavaleiros montados no mesmo cavalo, seu símbolo usual, representativo da humildade e pobreza originais dos Templários, qualidades que haviam perdido em favor da arrogância e do amor às riquezas que acabariam por levar a Ordem à extinção; o escudo em que pegava agora ostentava um corvo, segurando uma caveira nas patas, em pleno voo, tendo por moto Gare le Corbeau(6).

Mal tinham as trombetas terminado de dar o seu sinal e já os campeões se afastavam dos seus postos, galopando como coriscos para quase de imediato se chocarem, no preciso centro da liça, com o fragor do trovão. As lanças partiram- se em pedaços até aos Punhos, tendo por instantes parecido que ambos os guerreiros iriam tombar, uma vez que o recontro obrigara os cavalos a quase caírem para trás, apoiados nas ancas. A extrema habilidade dos cavaleiros não deixou que assim acontecesse e, à força de rédeas e esporas, conseguiram dominá-los. Uma troca de olhares flamejantes e, após meia volta, regressaram às respectivas extremidades para receberem novas armas.

A gritaria, o agitar de lenços, a aclamação geral, confirmavam o interesse da assistência por este combate, o mais equilibrado e executado até àquela altura do dia.

*6.. Em francês no original. Cautela com o Corvo. N. do T.) Logo que os cavaleiros de novo tomaram posições, fez-se um silêncio tão profundo, tão total, que dava a ideia ter a multidão medo de respirar que fosse.

Passados os minutos de descanso, que concedera aos combatentes e aos seus cavalos para que retomassem o fôlego, o príncipe João, com o seu bastão, mandou que as trombetas repetissem o toque de carga.

Mais uma vez os campeões voaram e se embateram com a mesma velocidade, a mesma destreza, a mesma violência, mas não com a mesma fortuna de antes.

Neste segundo encontro, o Templário apontou bem para o centro do escudo do adversário e lá bateu com tanta força que a lança se desfez e o cavaleiro Desditoso estremeceu na sela. Contudo, este, que, no começo da corrida, assestara o seu ferro para o escudo de Bois-Guilbert, elevou-o, quase no momento do embate, na direcção do elmo, um alvo muito mais difícil, mas que, quando atingido, tornava a pancada quase irresistível. Apanhou em cheio a viseira do normando, em cujas barras a ponta da lança se prendeu. Mesmo nesta difícil situação, justiça lhe seja feita, o Templário não teria desmentido a sua reputação e ter-se-ia aguentado não fosse a cilha ter rebentado, fazendo que sela, cavalo e cavaleiro rolassem no solo no meio duma nuvem de pó.

Em segundos, o Templário desenvencilhou-se dos estribos e do animal e, enfurecido tanto pela desgraça que lhe sucedera como pela forma como o público aclamava, desembainhou a espada, apontando-a, em desafio, ao seu vencedor. O cavaleiro Desditoso prontamente desmontou e igualmente desnudou a sua espada. os mestres-de-cerimónia, contudo, colocaram, às esporadas, as suas montadas entre eles, lembrando-lhes que as regras daquele torneio não permitiam tal tipo de luta.

- Tornaremos a encontrar-nos - rosnou o Templário com um olhar de rancor - onde não houver quem nos aparte!

- Se assim não acontecer - respondeu o cavaleiro Desditoso não o será por culpa minha. A pé, a cavalo, com lança, com acha de armas, à espada, seja como for, sempre te vencerei.

Mais e mais irritadas trocas de palavras se seguiriam se os mestres-de-cerimónia, cruzando as suas bafordas entre eles, os não forçassem a separar-se. O cavaleiro Desditoso voltou para o lugar e Bois-Guilbert para a tenda, donde não saiu durante o resto da tarde, doido de desespero.

Sem sair do cavalo, o triunfador pediu uma taça de vinho e, abrindo a viseira, anunciou que a bebia "à saúde de todos os autênticos corações ingleses e contra toda a tirania estrangeira". Pediu, a seguir, ao cornetim que entoasse a sua aceitação aos restantes desafiantes, a quem mandou um arauto informar não tencionar fazer qualquer escolha, estando pronto a enfrentá-los na ordem que preferissem.

O gigantesco Front-de-Boeuf, coberto por uma armadura negra, foi o primeiro em campo. No escudo branco via-se, ainda, a pintura da cabeça dum touro negro, debaixo da qual se podia ler o arrogante mote Cave, adsum, já muito apagado pelas lutas anteriores. Sobre este campeão obteve o cavaleiro Desditoso uma ligeira mas decisiva vantagem. Ambos partiram as lanças, como Front-de-Boeuf perdeu um estribo no recontro, a vitória foi concedida ao seu oponente.

No terceiro encontro o desconhecido venceu também Sir Philip de Malvoisin, batendo-lhe com tamanha força no casco que só o romper dos tirantes, que o deixaram ir pelos ares, evitou ao bom barão o cair, mas não o impedindo de ser declarado derrotado.

No quarto combate, este com Grantmesnil, o Desditoso mostrou tanto cavalheirismo como, até então, coragem e destreza exibira, O cavalo de Grantmesnil, novo e violento, empinou-se, entrando na carreira de modo a tornar impossível qualquer precisão com a lança. O desconhecido, percebendo-o, desprezou a oportunidade que lhe era oferecida, ergueu a sua lança, passou pelo opositor sem lhe tocar e, regressando ao seu lugar, por um arauto propôs nova corrida. De Grantmesnil declinou a oferta, dando-se por vencido ante tanta cortesia e perícia.

Ralph de Vipont fechou a série de sucessos do incógnito ao ser atirado a terra com tal violência que, deitando sangue pelo nariz e pela boca, teve de ser levado, sem sentidos, Para fora das liças.

As aclamações dos milhares ali presentes saudaram a decisão do Príncipe e dos mestres-de-cerimónia, dando as honras do dia ao cavaleiro Desditoso.