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Ivanhoe.  Walter Scott
Capítulo 44.
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E tudo acabou como um conto de velhas.
- Webster

Quando se refez do espanto que o invadira, Wilfred de Ivanhoe perguntou ao Grão-Mestre se entendia ter ele pugnado dentro da justiça e hombridade.

- Sim, com toda a hombridade e legalidade - acordou o Grão-Mestre. - Declaro a donzela livre e inocente. As armas e o corpo do vencido estão ao dispor do vencedor.

- Não lhe tomarei as armas - disse o cavaleiro Ivanhoe -, nem lhe vexarei o corpo. Lutou pela cristandade. Foi a mão de Deus e não a do homem que hoje o venceu. No entanto, que as suas exéquias sejam o mais simples possível, como convém a quem morreu por causa injusta. No que refere à donzela...

Passos de muitos cavalos ouviam-se e tão depressa que tudo faziam estremecer. O Cavaleiro Negro entrou na liça com um numeroso grupo de homens de armas e vários cavaleiros com as armaduras rebrilhando.

- Cheguei tarde - proferiu, olhando em seu redor. - Queria ser eu a impor justiça a Bois-Guilbert... Ivanhoe, achas bem teres-te arriscado a uma aventura destas, quando mal te aguentas na sela?

- Foi o Céu, meu senhor - respondeu Ivanhoe -, quem venceu este homem orgulhoso, não lhe permitindo a honra de por vós ser abatido.

- Que descanse em paz - acrescentou Ricardo fixando o corpo -, se puder ser. Foi um garboso cavaleiro e morreu com a sua armadura... Mas não percamos tempo. Bohum, cumpre o teu dever!

Este cavaleiro destacou-se do meio dos acompanhantes reais e, colocando uma mão no ombro de Albert de Malvoisin, declarou:

- Prendo-te por alta traição!

O Grão-Mestre, que o espanto calara, falou agora:

- Quem se atreve a prender um cavaleiro da Ordem do Templo de Sião, dentro dos limites da sua própria preceptoria? Por autoridade de quem acontece um ultraje destes?

- Sou eu quem executa a prisão - informou o cavaleiro -, eu Henry Bohum, conde de Essex e grão-condestável de Inglaterra.

- E prende Malvoisin - concluiu o rei, levantando a viseira - por ordem de Ricardo Plantageneta, aqui presente... Conrade Mont-Fitchet, tens sorte em não seres meu súbdito, senão acontecer-te-ia como a Malvoisin e a seu irmão Philip, que morrerão antes que uma semana passe.

- Opor-me-ei a tal sentença combatendo-a - declarou o Grão-Mestre.

- Templário a quem o orgulho cega! - bradou o rei. - Não podes! Olha e vê que naquelas torres é o estandarte real inglês que flutua e não a bandeira do Templo. Ganha juízo, Beaumanoir, e não te oponhas em vão. Tens a cabeça metida entre as fauces do leão.

- Contra ti apelarei em Roma - disse o Grão-Mestre -, como usurpador das imunidades e privilégios da nossa ordem.

- Faz isso - concordou o rei -, mas, para teu bem, convirá que não me acuses agora de usurpação. Dissolve o teu capítulo e parte com os teus seguidores para outra preceptoria (se alguma conseguires encontrar) onde não se tenha conspirado traiçoeiramente contra o rei de Inglaterra... Ou, se preferires, deixa-te ficar como nosso hóspede e espectador da nossa justiça.

- Hóspede na casa onde fui patrão? - explodiu o Templário.

- Nunca... Capelães, cantai o salmo Quare fremuerunt Gentes?... Cavaleiros, escudeiros e seguidores do sagrado Templo, aprontai-vos para acompanhar a bandeira de Beau-Séant!

O Grão-Mestre exprimira-se com dignidade à altura da do próprio rei de Inglaterra, incutindo coragem aos seus surpresos e desnorteados seguidores, que o rodearam como ovelhas em volta dum cão de guarda quando escutam os lobos a uivar ao longe. Não se mostravam, porém, atemorizados como um rebanho. Os seus semblantes carregados e os olhares hostis diziam tudo o que as palavras não podiam. Agruparam-se num ouriço de lanças, saindo dos mantos brancos dos cavaleiros pontilhando as vestimentas pretas dos seus inferiores, como caudas de arminho num manto negro. A multidão, que levantara um brado de protesto, calou-se e observou em silêncio temeroso aquele formidável e experimentado corpo que sempre temera e sempre evitara.

O Conde de Essex, ao vê-los agruparem-se, roseteou as ilhargas do cavalo e, galopando para trás e para a frente, preparou os seus para um possível embate com aquela força tão potente.

Somente Ricardo, que se sentia deleitado com a perigosa situação provocada pela sua presença, marchou lentamente ao longo da vanguarda dos Templários, dizendo bem alto:

- O quê, senhores? Não existe, entre tantos e tão garbosos cavaleiros, um único que queira cruzar lanças com Ricardo?

Senhores do Templo, vossas damas tornar-se-ão torresmos se nenhuma merece o quebrar duma lança.

- Os irmãos do Templo - soltou o Grão-Mestre, colocando- se-lhe na frente - não entram em querelas tão ocas e profanas... e nenhum templário cruzará lanças contigo na minha presença. O papa e os príncipes europeus serão os juízes da nossa questão e resolverão se um príncipe cristão, como tu, bem procedeu tomando a posição que acabaste de tomar. Se não nos atacarem, partiremos sem ninguém atacar. À tua honra confiamos as armas e bens que não levamos e à tua consciência deixamos o escândalo e ofensa que neste dia causaste à cristandade.

Isto dito e sem aguardar réplica, o Grão-Mestre deu o sinal de partida. As trombetas entoaram um selvático acorde de gosto levantino, o toque de marcha próprio dos Templários.

Formaram-se em coluna e afastaram-se tão lentamente quanto possível, demonstrando desta maneira obedecerem às ordens do seu mestre e não por medo à força superior que se lhes opunha e os obrigava a retirarem-se.

- Pela fronte de Nossa Senhora! - exclamou o rei Ricardo. - Que lamentável é não serem estes Templários tão leais como disciplinados e valentes são.

A populaça, como um canito que só ladra quando aquele que desafia desaparece, soltou um grito fraco, logo que o último esquadrão se afastou.

Na confusão desta retirada, Rebeca nada viu e ouviu. Estava nos braços do seu idoso pai, tonta, quase sem sentidos, devido a toda a alteração de coisas. Uma frase de Isaac a chamaria à realidade.

- Vamos, querida filha, meu tesouro recuperado. Vamo- nos pôr aos pés daquele generoso jovem.

- Isso não - disse Rebeca. - Não, não... não. Nesta altura não me atrevo a falar-lhe, pois... ai de mim!... diria mais do que quero. Não, meu pai, saiamos já deste sítio de perversidade.

- Mas, filha minha - insistiu Isaac -, deixar quem voou, como se gozasse de toda a saúde, com lança e escudo na mão, esquecendo a própria vida, para te salvar, apenas para te salvar? E logo tu, que és de raça diferente da dele. Temos de lho agradecer.

- Estou... estou-lhe o mais completa... totalmente grata - gaguejou Rebeca. - Muito, muito mais, do que... mas agora, não. Pela memória de Raquel, pai, faz-me a vontade. Nesta altura, não.

- Terá de ser - persistiu Isaac -, ou pensará que somos cães ingratos.

- Vê, pai. O rei Ricardo está lá e...

- Certo, minha maravilha, meu tesouro. Afastemo-nos. Deve necessitar de dinheiro, pois acaba de regressar da Palestina, ou, como dizem, da prisão, e, se precisar de algum, pode exigir-mo baseando-se na minha simples transacção com seu irmão João. Tens razão. - Apressando-se ele agora, levou a filha ao longo da liça até ao transporte de que se servira, chegando muito depressa a casa do rabino Nathan.

Tendo-se retirado a judia, cuja sorte fora o fulcro das atenções do dia, o interesse da populaça transferira-se para o Cavaleiro Negro, aplaudindo, no momento: «Viva, o rei Ricardo Coração de Leão! Abaixo com os Templários usurpadores!» - Não obstante toda esta lealdade de boca - comentou Ivanhoe para o conde de Essex -, foi bom o rei ter tido o cuidado de ter trazido consigo tantos dos seus fiéis colaboradores.

Abanando a cabeça e sorrindo, o conde disse:

- Bravo Ivanhoe! Tu, que tão bem conheces o nosso amo, julgas capaz de tão prudente precaução? Eu caminhava para Iorque, pois sabia que o príncipe João para lá se dirigia, quando me encontrei com o rei Ricardo, tal cavaleiro andante, galopando como um louco para aqui para, sozinho, resolver o assunto do Templário e da judia. Deixou-me acompanhá-lo de má vontade.

- E que novas há de Iorque, caro conde? - perguntou Ivanhoe.

- Os rebeldes esperam-nos?

- Tanto como as neves do Inverno esperam o sol do Verão.

Dispersaram-se e foi o próprio príncipe João quem trouxe a notícia!

- O traidor! O traidor insolente! - surpreendeu-se Ivanhoe. - Ricardo não mandou confiná-lo?

- Recebeu-o como se estivessem a chegar duma caçada. Apontou para mim e para os nossos homens de armas, comentando: «Sabes, irmão, tenho comigo alguns homens enfurecidos. Seria conveniente que te juntasses a nossa mãe, apresentando-lhe os meus votos de afeição, e com ela te deixares ficar até que esta gente esfrie.» - Foi só isso que disse? - perguntou Ivanhoe. - Qualquer um pode afirmar que este príncipe, com tanta clemência, convida à rebelião.

- Exacto - assentiu o conde. - Precisamente como brinca com a morte todo aquele que, ainda com grandes ferimentos, se mete em combates.

- Perdoo-te a graça, conde - sorriu Ivanhoe -, mas lembrai-vos de que arriscava apenas a minha vida, enquanto Ricardo o faz com o bem-estar do seu reino.

- Os que pouco cuidam do bem-estar próprio raramente atentam no dos demais... Mas apressemo-nos para o castelo, onde Ricardo pondera como castigar alguns elementos rebeldes menores, ao mesmo tempo que desculpa os maiores.

Das investigações, que se seguiram e que nos são prolongadamente descritas no Manuscrito de Wardour, conclui-se, ao que parece, que Maurice de Bracy fugiu para lá do mar, oferecendo os seus serviços a Filipe de França, Philip de Malvoisin e seu irmão Albert, o preceptor de Templestowe, foram executados, mas Waldemar de Fitzurse escapou, partindo para o desterro. Quanto ao príncipe João, por causa de quem toda a traição se urdira, não foi nem sequer repreendido pela mãe. Ninguém, porém, chorou a sorte dos dois Malvoisins, que apenas tiveram a morte que os cruéis, os falsos e os opressores merecem.

Pouco tempo após o torneio, Cedric, o Saxão, foi chamado à corte do rei Ricardo, que, a fim de pacificar os condados que a ambição de João levantara, estava reunida em Iorque. Cedric resmungou e bufou à convocação, mas não deixou de a acatar. Na realidade, o regresso do rei Ricardo abafara-lhe toda e qualquer esperança que tivesse de reposição duma dinastia saxónia em Inglaterra. Na verdade, se os Saxões se juntassem sob o pendão de fosse quem fosse para desencadearem uma guerra civil, nada alcançariam, pois a posição de Ricardo era indisputável, pela sua popularidade, qualidades pessoais e fama guerreira, ainda que a sua administração fosse descuidada e indiferente, ora indulgente, ora despótica.

Além de tudo mais, até mesmo Cedric tinha relutantemente de reconhecer que o seu plano para uma completa unificação dos Saxões mediante o casamento de Rowena com Athelstane não era exequível, visto ambas as partes o não desejarem. Nunca, no seu entusiasmo, contara com um pormenor destes, e, mesmo quando a falta de atracção mútua se manifestou clara e evidentemente, muito lhe custou a aceitar que saxões de sangue real pudessem opor-se, por razões pessoais, a uma aliança necessária para a prosperidade da nação. Era um facto, contudo. Rowena sempre mostrava o seu desdém pela pessoa de Athelstane e este era agora igualmente claro e positivo ao proclamar a sua decisão de não mais desejar cortejá-la. Mesmo a obstinácia de Cedric teve de ceder perante tamanhos obstáculos, pois não podia juntá-los agarrando cada um pelo braço e obrigando-os ao que não queriam. Fez ainda uma derradeira tentativa junto de Athelstane, que em nada resultou, pois aquele renascido rebento da realeza saxónia somente se interessava agora, como os senhores rurais de hoje, por tremendos conflitos com o clero local.

Consta que, depois de todas as suas ameaças ao abade de Santo Edmundo, o espírito de vingança de Athelstane, abalado pela sua bondosa indolência e rogos de sua mãe, Edith, muito chegada, como a maioria das senhoras (de época) à Ordem, se satisfez encerrando o abade e os monges na masmorra de Conningsburgh por três dias, quase sem alimentos.

Por esta atrocidade ameaçou-se o abade com a excomunhão, queixando-se atrozmente de males estomacais e intestinais que o achacavam, e aos seus frades, resultantes do injusto e tirânico tratamento recebido. Foi no meio desta controvérsia que Cedric o foi encontrar, sem cabeça para pensar noutras coisas. Quando o nome de Rowena foi citado, Athelstane logo aproveitou para beber uma taça à sua saúde, desejando que brevemente se confirmasse o seu noivado com o seu parente Wilfred de Ivanhoe. Era óbvio nada mais se poder fazer com ele. OU, como Wamba diria, numa frase que conseguiu chegar desde esse tempo até aos nossos dias, «era um galo que cantava baixo».

Entre os dois namorados e Cedric levantavam-se agora duas barreiras: a teimosia do último e o muito pouco que gostava da dinastia normanda. A primeira foi-se derretendo com o carinho da pupila e com o muito orgulho que não conseguia disfarçar pela fama do filho. Também não era de todo insensível a ideia de juntar a sua linhagem à de Alfredo, uma vez que as mais altas pretensões de Eduardo, o Confessor, tinham para sempre sido abandonadas. A aversão de Cedric à raça dos reis normandos também perdia bases, primeiro pela impossibilidade de livrar a Inglaterra da nova dinastia, sentir que levou muitos ingleses a prestarem homenagem ao rei de facto, e segundo pelas atenções de Ricardo, que altamente apreciava o seu humor sem papas na língua e que, para se citar o Manuscrito de Wardour, de modo tal lidou com o fidalgo saxão que não se tinham ainda passado sete dias e já ele dera o seu consentimento para o enlace da sua pupila Rowena com o filho, Wilfred de Ivanhoe.

As núpcias do herói, assim formalmente aprovadas, foram celebradas no mais augusto dos templos, a Catedral de Iorque.

Assistiu o próprio rei, cujo comportamento nesta ocasião, como em tantas outras, concedeu aos até então espoliados e degradados Saxões uma melhor esperança de obterem os seus justos direitos do que certamente iriam conseguir recorrendo a hipotéticas guerras civis. A Igreja revestiu a boda com toda a solenidade e esplendor que Roma tão bem e com tão brilhantes efeitos sabe emprestar.

Gurth, elegantemente vestido, serviu de escudeiro ao seu jovem amo, que tão dedicadamente servira. Wamba ostentava um barrete novo, cheio de guizos de prata. Companheiros de Wilfred em muitos perigos e na adversidade, para sempre ficariam, como é natural, ao seu lado e com ele compartilhando da sua próspera carreira.

Além destes convidados da casa, assistiram a este distinto casamento muitos fidalgos, tanto normandos como saxões, a que, jubilosamente, se juntaram as classes mais baixas. Este matrimónio constituiria, pois, um sinal de paz e harmonia entre as duas nações, que, a partir dessa data, tão completamente se misturaram que qualquer distinção entre elas se tornou impossível de perceber. Cedric viveria para ver essa união quase se completar, pois, à medida que socialmente se mesclavam e entre si se casavam, os Normandos foram perdendo a sua altivez e os Saxões saindo da sua rusticidade. Porém, seria somente no reinado de Eduardo III (1327-1377) que o idioma híbrico, agora denominado inglês, passou a ser falado pela corte em Londres e a hostil separação entre Normandos e Saxões desapareceria por completo.

Dois dias depois deste feliz enlace, Lady Rowena foi informada por sua aia, Elgitha, de que uma donzela pedia licença para vir à sua presença, que rogava fosse em privado. Rowena surpreendeu-se, hesitou, teve curiosidade e, por fim, mandou que a menina fosse admitida e que a criadagem se retirasse.

Entrou, nobre e imponente, com o longo véu branco que a envolvia delineando, mais do que escondendo, a sua elegância e majestade. O seu porte era respeitoso, sem ponta de temor ou inferioridade. Rowena tinha tendência para reconhecer e respeitar os sentimentos dos outros. Pôs-se de pé e teria acompanhado a sua formosa visitante até à cadeira se ela, olhando para Elgitha, não tivesse reiterado o pedido para falarem a sós. Elgitha tinha acabado de sair e já, para surpresa da Sr.a de Ivanhoe, a sua radiosa hóspede, pousando um joelho no solo, lhe pegava numa mão, que encostou à testa.

Levou depois a cabeça ao soalho e, indiferente aos protestos de Rowena, beijou-lhe a orla da saia.

- Que significa tudo isto? - perguntou, surpresa, a jovem noiva. - Ou, melhor, porque me prestais tão raras deferências?

- Porque é a vós, Sr.a de Ivanhoe - disse Rebeca, erguendo-se e retomando toda a compostura e dignidade de maneiras - , que, completamente e sem recusas, poderei pagar a dívida de gratidão que tenho para com Wilfred de Ivanhoe. Sou, e perdoai-me que uma mulher da minha nação vos homenageie, a infeliz judia pela vida de quem o vosso esposo pôs em risco, e em ásperas circunstâncias, a própria vida, na liça de Templestowe.

- Donzela - respondeu Rowena -, nesse dia Ivanhoe não fez mais do que parcialmente liquidar a imensa caridade que lhe haveis estendido quando ferido e em sofrimento. Dizei: algo haverá que por vós possa fazer?

- Nada há - disse Rebeca calmamente -, senão transmitir- lhe a minha gratidão e o meu adeus.

- Deixais, portanto, a Inglaterra? - indagou Rowena, ainda mal refeita da surpresa que esta visita lhe causara.

- Deixá-la-ei ainda antes da a Lua se tornar a mudar. O meu pai tem um irmão ocupando um lugar exaltado na corte, Mohammed Boabdil, rei de Granada. para lá iremos, certos de paz e protecção, que o pagamento que os muçulmanos cobram à nossa gente nos garante.

- E não vos sentis protegida em Inglaterra? - quis Rowena saber. - O meu marido goza da benevolência do rei... e o rei é justo e generoso.

- Senhora - retorquiu Rebeca -, não o duvido... mas as gentes de Inglaterra são de raça fera, estando sempre em querelas com os vizinhos ou entre si, sempre prontos a enfiar espadas nas tripas uns dos outros. Terra assim não é segura para o nosso povo. Efraim é uma rola tímida... Isaac um escravo de trabalho. Nesta terra de guerras e sangue, cercada de inimigos e revolvida por lutas intestinas, Israel não pode esperar o descanso.

- Mas vós, donzela - disse Rowena -, vós nada tendes a temer de certeza. Aquela que tratou de Ivanhoe ferido - e, entusiasmando-se, continuou - nada tem a temer nesta terra, onde normandos e saxões entre si disputarão o direito de vos servir.

- As tuas palavras são belas e mais belo o teu propósito. Mas não pode ser... Levanta-se entre nós um muro. A nossa educação, a nossa religião, proíbem-nos a ambas que o ultrapassemos. Adeus... Mas, antes, concede-me uma graça, dignando-vos levantar esse véu para que vos aprecie o tão cantado rosto.

- Quase nem merece ser olhado - respondeu Rowena. Porém, certa de que a minha visitante o mesmo fará, retirarei o meu véu.

Tirando-o e, em parte por se saber formosa, em parte por acanhamento, corou tanto que rosto, testa, pescoço e colo lhe ficaram rubros. Também Rebeca se ruborizou, mas por instantes apenas. Dominada por sentimentos mais elevados, a cor apagou-se como o Sol, à tarde, no horizonte.

- Senhora - disse -, o rosto que acabais de me revelar nunca o esquecerei. Nele reina a gentileza e a bondade e, se um pouco de orgulho ou vaidade terrenos se misturarem em tão belas feições, como poderemos nós reprovar que o que é da terra dela alguma mostra tenha. Nunca, nunca olvidarei vosso rosto, e Deus seja abençoado por o saber deixar unido ao meu nobre salvador a... - Parou subitamente, com os olhos cheios de lágrimas. Limpou-as à pressa e respondeu às ansiosas questões de Rowena. - Estou bem, senhora. Só que o meu coração se aperta à ideia de Torquilstone e da liça de Templestowe.

Adeus. Aceitai este cofrezinho. Que o seu conteúdo vos não surpreenda.

Rowena abriu a caixinha encastoada de prata. Lá dentro refulgiam um colar e uns brincos de brilhantes de valor incalculável.

- É-me impossível - disse, entregando-lhe a caixa -, não posso aceitar um presente desta valia.

- Conservai-o, senhora - insistiu Rebeca. - Tendes poder, posição, respeito e influência. Nós temos fortuna, a base da nossa força e fraqueza. O valor destas minhas ninharias, mesmo que multiplicado por dez, valeria menos do que o menor dos vossos desejos, para vós o presente é, pois, de pouco valor e para mim, que vo-lo ofereço, bastante menos ainda.

Não me deixeis crer que pensais tão mal da minha gente como a maioria o faz. Pensareis que darei mais valor a estes pedaços reluzentes de pedras do que à minha liberdade? Ou que o meu pai os aprecia mais do que à honra da sua única filha?

Aceitai-os, senhora. Eu jamais tornarei a usar qualquer jóia.

- Sois infeliz? - perguntou Rowena, a quem o tom das últimas palavras chocara. - Oh! Fica connosco. Os conselhos dos nossos santos homens afastar-te-ão da tua fé errada e eu serei uma irmã para ti.

- Não, senhora - prosseguiu Rebeca, sempre calma e com voz na mesma triste -, não pode ser. Não deixarei a fé dos meus antepassados como um vestido velho impróprio para novos climas, que se deita fora. Aquele a que devotarei a minha vida futura confortar-me-á se lhe obedecer à vontade.

- Tendes então conventos para onde vos retirar? - indagou Rowena.

- Não - respondeu a judia -, mas, entre a nossa gente, desde os tempos de Abraão, sempre houve mulheres dedicando-se ao Céu, bons actos e bondade praticando, tratando dos doentes, alimentando os famintos e ajudando os aflitos. Rebeca será mais uma delas. Dizei isto a vosso marido, caso ele pergunte por aquela que do mal livrou.

A voz de Rebeca tremera-lhe sem querer e rodeara-se dum carinho muito superior àquele que pretenderia, talvez, deixar transparecer. Apressou-se a despedir-se de Rowena.

- Adeus - disse. - Que Aquele que nos fez, judeus e cristãos, vos cubra das maiores bênçãos. A barca que nos levará levantará ferro logo que cheguemos ao porto.

Como que deslizando, saiu do apartamento, deixando Rowena tão confundida como se tivesse estado a contactar com uma aparição. A bela saxónia relatou esta entrevista ao marido, que com ela ficou muitíssimo perturbado.

Juntos viveram muitos anos, felizes na sua afeição tão cedo nascida. Ainda mais amor sentiam um pelo outro à recordação dos impecilhos que haviam surgido no seu caminho para a felicidade.. Apesar de tudo isto, teria interesse saber-se se a recordação da beleza e magnanimidade de Rebeca não viriam à mente da linda descendente de Alfredo com mais frequência do que aquela que desejaria.

Ivanhoe distinguiu-se ao serviço de Ricardo e foi, por muitas vezes, largamente agraciado com favores reais. Mais alto subiria se não fora a prematura morte do heróico Coração de Leão, cerca do Castelo de Châlus, perto de Limoges. com a vida do generoso mas impetuoso e romântico monarca acabaram-se os projectos que a sua ambição e generosidade haviam criado.

A ela poderão, com pequenas alterações, ser dedicadas as linhas compostas por Johnson para Carlos da Suécia:

A praias estranhas seu fado destinou, Uma praça menor e mão larga herdou; Seu nome o mundo tem na memória Como grande, com lugar na HiSTóRIA.

FIM SIR WALTER SCOTT (1771-1832) Walter Scott pertencia a uma família da pequena nobreza escocesa. O pai, que cumpria as funções de procurador da corte em Edimburgo, era um desses lairds da Escócia cujas famílias forneciam tradicionalmente o seu contingente de soldados ou de aventureiros. O próprio Walter Scott refere que, na sua infância, muitas vezes sonhou com ser um deles. A conjunção destes sonhos com as circunstâncias literárias do romantismo iria torná-lo num dos mestres do romance épico de aventuras.

Mas a sua infância deveria influenciar ainda, de outra maneira, a vocação literária. Uma doença torna-o incapaz de levar a cabo a actividade militar e aventureira com que sonhara. Tal circunstância leva-o a compensar, pela imaginação literária, a impossibilidade de se tornar um homem de acção. A vocação literária de Walter Scott é, pois, uma vocação romântica, como o serão na mesma época, em França, as de um Chateaubriand ou de um Stendhal. E os românticos franceses, junto dos quais será tão popular, considerá-lo- ão um irmão espiritual.

Após os estudos de Direito, Walter Scott foi nomeado xerife do condado de Selhirk. Durante este período, interessa-se com paixão pela literatura germânica e traduz o Goetz von Berlichinger, de Goethe (1799). Um pouco mais tarde, entre 1802 e 1803, publica uma recolha folclórica de antigas canções, que irá constituir o seu primeiro sucesso literário.

Progressivamente, e encorajado por esta primeira tentativa, publica, em 1805, The Lay of the Last Minstrel. Os dez anos seguintes serão consagrados a esta poesia, que oscila entre a balada e o recitativo lendário, e de que as principais obras serão, em 1810, The Lady of the Lake e, em 1813, Rokeby. Neste período, a reputação de Walter Scott aumenta, quer na Inglaterra, quer em toda a Europa. com os proventos que obtém pode, em 1811, adquirir a propriedade de Abbotsford, onde constrói, no quadro natural das montanhas escocesas que lhe são queridas, um castelo de estilo medieval que, daí em diante, será o lugar da sua vida e da sua actividade literária.

A partir de 1814, Walter Scott vai entrar definitivamente na via do romance. Com efeito, é então que publica, sem nome de autor, Waverley, que se tornou um sucesso. A partir daí, até 1827, os romances de Scott serão sempre publicados como sendo escritos pelo «autor de Waverley». Esses romances sucedem-se com um ritmo rápido e fazem do seu autor o fundador do romance histórico romântico. É o caso de, para citarmos os principais, The Antiquary (1816), Rob Roy (1818), The Bride of Lammermoor (1819), Ivanhoe (1820), Quentin Durward (1823), The Fair Maid of Perth (1828).

Em 1826, após a falência de uma casa editora a que estava associado, Walter Scott arruinou-se e teve de dedicar-se a outros trabalhos, como uma biografia de Napoleão, publicada em nove volumes, em 1827.

É na pobreza que iria morrer, cinco anos mais tarde, o grande criador do romance histórico, cuja influência se exerceria profundamente sobre toda a literatura romanesca do século XIX.

NOTA Introdutória Sir Walter Scott criou os romances históricos, marcando-os de tal modo com a sua personalidade que, à parte alterações mínimas, assim se mantiveram por mais de um século. Na literatura de língua inglesa, James Fenimore Cooper, Bulwer Lytton, Charles Reade e Charles Kinsley são declarados seguidores do seu estilo, como o foram, no continente, Alexandre Dumas e Vítor Hugo em França, Manzoni na Itália e G.

M. Ebers na Alemanha. Numa geração posterior, Robert Louis Stevenson aprovaria cordialmente os temas de Scott, conquanto que, simultaneamente, lhe lastimasse a técnica.

Completara quarenta e três anos quando terminou e anonimamente editou, no Outono de 1814, o Waverley, conto em prosa que iniciara e pusera de parte dez anos atrás. Antes desta obra existia quase toda uma vida de compilações de antigas baladas e velhos romances, edições de clássicos ingleses, como Swift e Dryden, de traduções de baladas alemãs e composição de longos poemas narrativos de sua criação. A partir daí, porém, passou a ser «o autor do Waverley», mesmo depois de o diáfano manto do anonimato ter desaparecido em 1826.

Cada um dos estratos da carreira literária de Scott sucedeu, com toda a naturalidade, ao anterior. Após ter coligido velhas baladas e traduzido outras mais actuais, não foi necessário mais do que um pequeno passo para passar à composição do desarticulado Lady of the Last Minstrel. Entre os que a este se seguiram, Marmion e The Lady of the Lake eram autênticas novelas melodramáticas em verso. No entanto, começavam-lhe a faltar temas para a poesia. Foi então, também, que lhe surgiu pela frente um vigoroso oponente. Francamente e com sagacidade escocesa, admitiu dever afastar-se das rimas, já que Byron, com os seus exóticos contos orientais, tudo varria. Evitando tal concorrência, voltou-se para a prosa e para o romântico passado da sua terra nativa.

Nos cinco anos que se seguiram a 1814 publicou nove obras de ficção, num total de vinte e quatro volumes. Todas tratavam questões escocesas, todas decorriam em ambientes escoceses.

Embora sejam vistas, no seu conjunto, como romances históricos, os períodos das suas acções situavam-se entre o seu contemporâneo, como o Guy Mannering e The Antiquary, até, lá para trás, nos «tempos de morte» da rebelião dos Covenanters, de 1685 como em Old Mortality.

Somente na banal e de pouco êxito Legend of Montrose se atreveu Scott a recuar mais de século e meio relativamente ao seu tempo. Na verdade, fora intenção sua, no Waverley, fazer contrastar a rude vida feudal nas Terras Altas escocesas, antes de 1745, com os mais brandos costumes de sessenta anos mais tarde. Em jovem, Scott conversara com gente mais velha, que conhecera em primeira mão todas as tragédias e excitação da mal predestinada pretensão ao trono do príncipe Carlos Eduardo.

Acontecimentos mais antigos ainda, como os tumultos de Porteous, em 1736, citados nos capítulos iniciais do Heart of Midlothian, e a rebelião de 1715, no Rob Roy, eram quase transcrições de testemunhos oculares. Na Escócia, o viver e o pensar rurais não se tinham alterado tanto assim, continuando vivos os vestígios do espírito dos Covenanters, como Robert Burns aprendeu à sua custa, - durante a juventude de Scott.

Além de mais, Scott conhecia perfeitamente todos os pormenores físicos dos seus cenários, desde o velho Tolbooth, em Edimburgo, até ao covil de Rob Roy no Loch Achray. Cavalgara as solitárias e perigosas estradas da Border, que descreve no Guy Mannering, conhecia os penhascos da costa leste, não obstante, distraídamente, ter descrito aí um pôr do Sol a oriente. Todo e qualquer local da Escócia com história, tradições ou superstições era conhecido por Scott e por ele utilizado nos seus escritos.

Mais importante que tudo, Scott compreendia bem a sua gente, a todos os níveis, do mais ínfimo seareiro até aos senhores da magistratura. Os seus enredos eram sempre convencionais e, frequentemente, superficiais, os seus heróis-fidalgos, meros jovens arrojados, as suas heroínas virtuosas para lá das fronteiras da insipidez. É certo que a par desses fidalgos aparecem os seus vizinhos, os seus rendeiros, os seus criados - Dandie Dinmont, Bailie Nichol Jarvie, Cuddie Headrigg, Edie Ochiltree, Andrew Fairservice, Jeame Deans, Meg Merrilees -, uma rica e variegada galeria de personagens que tinham vindo a ser enquadrados, desde a morte de Shakespeare, na literatura inglesa e cuja presença transforma os livros onde surgem de simples romances de aventuras em novelas de costumes e torna suportável o tédio que Lady Bellenden, Jonathan Oldbuck e Jedediah Cleishbotham constituem.

De modo instintivo, Scott percebera e aplicara o princípio, ainda regendo a ficção clássica, que leva a dar a pessoas que realmente existiram lugares secundários nos textos.

*1.. Partidários da reforma protestante na Escócia. (N. do E.) Reis e rainhas aparecem como deus ex machina, nunca como protagonistas. A trilha do herói-fidalgo pode cruzar-se com a da realeza, mas nunca com ela coincide. A noção de distorção é, desta forma, maximamente atenuada.

Em 1819, Scott sentiu, de novo, que os assuntos se lhe tinham esgotado. As vendas baixavam. O que de facto acontecera fora ter inundado o mercado de alto a baixo com maior rapidez do que aquela que os leitores podiam acompanhar. Julgou, no entanto, que o público se saturara de cenas escocesas, de falares escoceses. «Cingindo-me», concluiu, «a coisas puramente escocesas,» - poderia não só abusar da paciência dos leitores como reduzir a minha capacidade de lhes dar prazer.» Ivanhoe é o primeiro fruto dessa conclusão, que o seu pronto sucesso justificou.

Na verdade, Ivanhoe é o ponto alto da popularidade de Scott.

Publicado em três volumes, ao preço elevado de 10 xelins cada um, teve uma venda inicial de doze mil cópias. Nunca outra obra anterior conseguira nada de parecido. Nenhuma subsequente o conseguiria. Isso seria inviável. Um protótipo pode ser produzido uma vez e uma vez somente e o enredo de Ivanhoe tornara-se num padrão não apenas para o restante da carreira de Scott, mas, igualmente, para os romancistas oitocentistas em geral.

O Herdeiro Perdido ou Desaparecido, a Donzela em Aflição e o sinistro Vilão eram, claro, figuras familiares dos palcos. O próprio Scott já delas se servira no Guy Mannering e na Old Mortality. No Ivanhoe retirou o melodrama do palco e levou-o até aos lares de cada um. Estabeleceu convenções menores, como fizera com as maiores. Assim criou heroínas rivais, uma delas morena e com um mínimo de inteligência e coragem, a outra, uma loura, indefesa e amimada, que vem a casar com o herói. Ainda aqui a convenção de que os vilões, merecedores dos piores dos fins, devem morrer às mãos dos heróis não sucede.

Front-de-Boeuf é acabado por Ulrica e Bois-Guilbert morre dum oportuno ataque cardíaco.

Toda a acção decorre num fundo prenhe de nomes históricos, se bem que qualquer semelhança com acontecimentos reais seja pura coincidência. Os únicos factos exactamente autênticos de toda a narrativa são o caso de o rei Ricardo ter sido resgatado em 1194 e a pretensão do príncipe João de lhe usurpar o trono.

Logo que se viu liberto, Ricardo veio a Inglaterra apenas pelo tempo suficiente para cobrar tantos impostos quanto pudesse.

Os seus verdadeiros interesses políticos estavam em França e na Palestina. Nunca errou, disfarçado, pelo seu reino, nem entrou, incógnito, em torneios. Scott dá-lhe uma maneira de ser que é um misto de Arum-al-Raxid, das Mil e Uma Noites, e de Henrique V, de Shakespeare. outros personagens têm, do mesmo modo, origens literárias. O prior Aymer é o monge de Chaucer transferido do século XIV para o XII, constituindo um anacronismo, já que a corrupção e o mundanismo monásticos não eram, nos últimos tempos da época das cruzadas, ,sequer endémicos. Mais deslocado, talvez, é o frade, visto as ordens mendicantes só se terem estabelecido várias décadas

mais tarde do que a ocasião em que a história se passa. A rude abundância do salão de Cedric recorda a casa do Fundiário de Chaucer, onde a comida e a bebida «choviam» também. Isaac de Iorque é uma cópia de Shylock. Wamba é, em parte, o Bobo de Lear, em parte Feste e Touchstone. Gurth é o criado estereotipado dos dramas cor Herdeiros Perdidos.

O que faz principalmente falta no Ivanhoe são personagens bem temperadas que, volta e meia, quebrem toda aquela retórica e pomposidade com um banho de conversa fresca e de todos os dias e manifestações de senso comum. A discussão filológica de Wamba com Gurth é um magro substituto das magistrais evasões de Cuddy Headrigg ou da ingénua eloquência de Jeanie Dean.

Scott enfrentava o problema, nunca inteiramente resolvido por romancistas e dramaturgos, que consiste em transcrever a fala de gente que viveu no antanho e que, sabe-se, se expressava de modo diverso do actual. A solução esteve em empregar cadências enfáticas, mais próximas da dicção das tragédias do século XVIII do que de qualquer conversa normal. Não há qualquer distinção entre a forma de falar de Bois - Guilbert e Fitzurse e do prior Aymer e de Frei Tuck.

Os trabalhos de Scott posteriores a Ivanhoe revelam um declínio progressivo de qualidade, mais evidente hoje do que no seu tempo. Livros como Quentin Durward e Redgauntlet eram suficientemente melhores do que os de quaisquer outros escritores do género para deixarem que as pessoas entendessem que os enredos se haviam cristalizado e que a maioria das personagens eram velhos conhecidos do Ivanhoe sob nomes diferentes. Scott preocupava-se tão pouco com o seu repetitivo como com os seus anacronismos.

A este último propósito mostrava-se totalmente descontraído:

«É extremamente provável o ter confundido os modos de dois ou três séculos, colocando no reino de Ricardo I circunstâncias mais apropriadas a eras anteriores ou posteriores.» A importância dos anacronismo varia. Se factuais, não passam de pecadilhos. Ninguém se aflige quando Shakespeare põe um relógio batendo as horas na Roma de Júlio César. Um anacronismo moral, contudo, é bem mais sério, e Scott, ao buscar um motivo formal sob a acção do Ivanhoe, comete-o.

Cedric, é-nos dito, sonhava com a restauração de uma dinastia saxónica, de linhagem anterior à Conquista. Nunca existiu, porém, uma dinastia saxónia no sentido em que, mais tarde, haveria a Tudor e a Stuart. Antes da Conquista, a coroa de Inglaterra mudava de mãos mais por eleições ou usurpações do que por descendência. Scott transplanta o jacobinismo pegajoso da Grã-Bretanha do século XVIII para o período onde até os Plantagenetas dominantes se sentiam periclitantes nos tronos que herdavam.

Resumindo: Scott era um antiquário romântico e, de forma alguma, um sociólogo ou arqueólogo. Abbotsford é um exemplo perfeito da sua imaginação - parte um primor, parte pretenso gótico. Sentia-se fascinado pelas roupas que as pessoas usavam, pelas armas que empunhavam. Contudo, tinha como certo que «opiniões, modos de pensar e de actuar, ainda que influenciados pela localização temporal duma sociedade, sempre se pareciam profundamente uns com os outros através dos tempos». Isto só parcialmente é verdadeiro. As pessoas de todas as idades sempre tiveram as mesmas emoções e os mesmos apetites, mas o que pensavam do mundo em que viviam era condicionado pelas instituições desse mesmo mundo. Seja qual for o sistema dentro do qual se nasce - o Zen, a Inquisição, a monarquia absoluta ou a escravatura -, a maioria sempre o vê como inevitável e correcto.

Exactamente como Mark Twain, Scott nunca entendeu a Igreja medieval. É possível que tenha pensado terem as cruzadas resultado de algo mais do que desejo adolescente de actividade, mas o caso é que nunca o reconheceu emocionalmente. A sua mente lúcida e o seu bom senso rejeitavam o fanatismo exactamente como repudiava histórias de fantasmas.

Com todas estas limitações, como se explica que o Ivanhoe se continue a imprimir? É simples a resposta. Scott possuía o atributo primeiro do romancista, sem o qual todo o labor teorias artísticas, toda a seriedade de propósito, nada valem:

sabia contar uma história. O seu enredo poderá parecer parado, mas quando, finalmente, se começa a desdobrar, o leitor tem de o acompanhar. Sequestros, disfarces, feitos de armas, virtude em aflição - afectados leitores poderão pretender manifestar indiferença perante excitantes situações, mas, uma vez colhidos nas suas malhas, vivê-las-ão até à última linha. No auge da acção, mesmo o concurso de tiro ao arco - Impiedosamente escarnecido por Twain e Stephen Leacock -, tudo toma plausibilidade. Não é de espantar! os ingredientes já haviam dado boas provas de si antes de Scott deles se ter servido: Robin dos Bosques é imortal.

Nenhum crítico resumiu melhor as forças e as fraquezas de Scott do que ele próprio, depois de ter, pela terceira vez, lido o Orgulho e Preconceito. «Jane Austen», disse, «tinha um talento para descrever os acontecimentos, os sentimentos e a forma de ser das pessoas vulgares que considero a coisa mais maravilhosa que até hoje encontrei. Um grande estardalhaço consigo eu ou qualquer outro, mas aquele toque requintado, que torna as coisas e as pessoas banais em interessantes e dá verdade à descrição de sentimentos, é-me inteiramente vedado.» Este é um ponto a recordar. Viramo-nos para Scott precisamente por ele ser o estardalhaço e nunca porque seja intimista ou psicanalítico. Aceitando-o como foi, pode ainda entusiasmar-nos com a magia das fugas e de perseguições, aventuras singelas que, actualmente só os escritores de western e de livros policiais têm a coragem de escrever.

DELANCEY FERGUSON

PREFÁCIO DO AUTOR

Ora à frente do cabresto, ora o carro a puxar, Muitas vezes partindo. sempre desejando voltar(1).

Prior

O autor dos romances de Waverley tinha até então gozado de tal Popularidade que bem podia, no seu campo literário, ser denominado l'enfant gâté do sucesso. Era evidente, contudo, que publicações demasiado frequentes acabassem por cansar o público, a não ser que, de algum modo, conseguisse emprestar às obras seguintes uma qualquer aparência de novidade.

Maneiras escocesas, dialecto escocês e personagens escoceses, aqueles que o escritor melhor e de mais perto conhecia, constituíam os fundamentos com os quais contara para obter efeito nas suas narrativas. Obviamente, este género de interesses tornar-se-ia sempre igual e repetitivo se a eles teimasse recorrer e faria que os leitores se sentissem como nas palavras de Edwin, na História de Parnell:

«Agora ao contrário!», grita ele «E para já, já basta, »Pois já sabemos como é.» Nada é mais perigoso para o renome dum professor de Belas-Artes do que permitir (quando o possa evitar) que o apodo de maneirista lhe seja dado, ou criar a impressão de apenas ser capaz de êxito dentro dum estilo especial e limitado. O público em geral aceita muito prontamente a opinião de que quem lhe deu prazer usando determinada forma de composição é, em virtude desse mesmo talento, incapaz de se aventurar noutros campos. O resultado desta repulsa das pessoas para com aqueles que lhes dão gosto, quando tentam alargar as suas possibilidades, pode ser apreciado nas censuras, usualmente vistas como críticas, *1. Referência ao facto de o autor voltar frequentemente à cena depois de a ter deixado.

feitas a actores e artistas que ousam modificar o caminho dos seus esforços para que, fazendo-o, possam melhor abrir o leque da sua própria arte. Neste ponto de vista algo existe de justo, podendo até ser considerado como inevitável. Assim é possível acontecer com frequência que a um actor senhor de superiores qualidades necessárias para a boa comédia seja vedado o direito de poder sobressair na tragédia. Em pintura ou nas letras, um artista ou um poeta pode dominar exclusivamente linhas de pensamento ou poderes de expressão que o confinem a um só tipo de assuntos. Mais vulgarmente ainda, será a mesma capacidade que levou alguém até à popularidade num domínio específico lhe oferecer o sucesso noutro também. Isto dá-se mais no campo literário do que no teatro ou na pintura, porque o aventureiro naquele sector não tem a sua acção restringida por quaisquer características especiais, modo de ser apropriado a papéis definidos, ou hábitos mecanizados quanto a como se servir do lápis obrigando-o a não mudar de motivos.

Seja este razoamento correcto ou não, o autor em questão percebeu que, prendendo-se a coisas escocesas, somente iria, muito possivelmente, aborrecer os leitores e ainda diminuir o seu poder pessoal de lhes causar satisfação. Num país altamente culto, onde tanto génio se oferece mensalmente para entreter gente, um tópico fresco, como aquele a que teve a felicidade de deitar mão, é como uma nascente virgem no meio do deserto, Os homens agradecem-na às estrelas e chamam-na um luxo.

Mas quando homens e cavalos, camelos e dromedários a calcaram e espezinharam, tornando-a num lodaçal, apresenta-se como repugnante àqueles que primeiro e com gosto haviam dela bebido. Quem a encontrou, portanto, se desejar manter a sua reputação junto da sua tribo, terá de demonstrar qualidades encontrando novas fontes por descobrir.

Se o escritor que se sente cingido a determinado grupo de assuntos tentar conservar o seu nome pela inclusão de novidades que formem mais atraentes as mesmas questões que anteriormente lhe haviam trazido sucesso, existem razões certas para que, a partir de determinado ponto, falhe. Caso uma mina não seja bem explorada, a força e a capacidade dos mineiros esgotam-se. Caso imite de perto narrativas a que soube dar bom efeito, estará predestinado a «perguntar-se porque é que já não agradam mais». Se insistir apresentando, sob outro ângulo, temas que já bateu, cedo verificará que aquilo que fora óbvio, gracioso e natural se esgotou e que, para obter o encanto indispensável às novelas, terá de recorrer à caricatura e, para não cair na trivialidade, de se mostrar extravagante.

Talvez não seja preciso enumerar os muitos motivos pelos quais o autor das «novelas escocesas», como eram inicialmente conhecidas, pudesse desejar fazer uma experiência num texto puramente inglês.

Era também seu intento tornar esse experimento tão completo quanto possível, apresentando-o como os resultados dos esforços dum novo candidato a ser louvado para que nenhum preconceito, favorável ou não, se lhe ligasse. transformando-o numa mera obra mais do autor de Waverley. Afastou-se, no entanto, desta intenção, por motivos a apontar mais para diante.

O período escolhido para a narrativa decorre no reinado de Ricardo I (1157-1199), repleto de figuras cujos nomes somente bastam para chamar a atenção e ostentando ainda um chocante contraste entre os Saxões, que trabalhavam a terra e os Normandos, todavia agindo como conquistadores, relutantes quanto a misturas com os vencidos e desdenhando vê-los de igual para igual. A ideia deste contraste foi colhida da engenhosa e infeliz tragédia Runnamede, de Logan, na qual, mais ou menos na mesma época, o autor colocara barões saxões e normandos uns contra os outros. Não se lembrou, porém, de estabelecer qualquer contraste entre as duas raças quanto a costumes e sentimentos, e, na verdade, alterou até a veracidade histórica, apresentando os Saxões ainda existentes como tal como uma raça nobre de marciais e exaltados princípios.

Eles, os Saxónicos, sobreviveram de facto como um povo e algumas das suas antigas famílias detinham riquezas e poder, muito embora constituíssem excepções na generalidade da sua geração, que vivia em condições muito baixas. O escritor julgou que a existência no mesmo país de duas raças, os vencidos, caracterizados pelas suas simples, ingénuas e obtusas maneiras e um espírito livre resultante das antigas instituições e leis, e os vencedores, assinalados por um grande renome militar, gosto de aventuras e tudo mais que os elevasse à fina flor da cavalaria, juntamente com outras figuras coevas e da terra, devia interessar os leitores pelas suas diferenças, desde que o escritor soubesse cumprir o seu papel.

A Escócia fora ultimamente exclusivo cenário do que se denominara «romance histórico», pelo que as cartas preliminares de Mr. Laurence Templeton se revelaram em certa medida necessárias. para estas e para a introdução se chama a atenção do leitor, como expressivas do propósito e opiniões do autor aquando da resolução de se encarregar, sob reservas, ainda que consciente de que a não atingiria, da meta que se propusera.

Seria quase desnecessário pretender-se fazer passar Mr.

Templeton por uma pessoa real. Recentemente fora feita por um desconhecido uma espécie de continuação das Tales to my Landlord e supunha-se que a «Epístola dedicatória» poderia passar por algo semelhante e capaz de, apontando para pistas falsas, induzir os leitores a crerem tratar-se dum trabalho de novo candidato à sua atenção.

Depois de uma porção considerável do trabalho ter sido acabada e impressa, os editores, que haviam fingido ver ali uma semente de popularidade. protestaram alto e bom som contra o seu aparecimento como uma obra absolutamente anónima, argumentando haver vantagens em ser apresentada como produzida pelo autor de Waverley. O autor não levantou qualquer teimosa resistência, pois aceitava já a opinião do Dr. Wheeler, da excelente história de Miss Edgeworth, Manoeuvring, segundo a qual «truque em cima de truque» poderia transformar-se em futilidade.

O livro surgiu, pois, como uma reconhecida continuação dos romances de Waverley, havendo que aceitar-se ter tido um acolhimento tão agradável como o dos anteriores.

Anotações úteis para a compreensão pelo feitor de personagens como o Judeu, o Templário, o Comandante dos Mercenários ou Companheiros Livres são feitas, mas de modo muito resumido, já que a história nos dá informações completas sobre eles.

Na história, uma parte existe com a boa fortuna de ter caído nas graças dos leitores e que foi quase directamente transferida dum romance muito mais antigo. Refiro-me ao encontro do rei Ricardo com Frei Tuck na cela do prazenteiro eremita. Na sua generalidade, o tom da história pertence a todas as classes e nações que entre si competem com descrições das divagações de enaltecidos soberanos que disfarçados buscam informações ou divertimentos junto dos estratos mais baixos.

entre aventuras divertidas para quem as lê ou escuta, dadas as divergências entre a aparência externa do rei e aquilo que realmente é. O contador de histórias orientais explora este tema com as expedições de Harum-al-Raxid (764?-809) e os seus fiéis companheiros, Mesrur e Giafar, a altas horas da noite, pelas ruas de Bagdade; a tradição escocesa conta-nos explorações semelhantes de Jaime V (1512-1542), conhecido nos seus giros pelos nomes de «Goodman de Ballengeigh», como Comandante dos Fiéis, e «Il. Bondocani», quando incógnito.

Também os menestréis franceses não deixaram fugir este tema tão popular. Deve existir uma base original normanda para o romance escocês em verso Rauf Colziar, no qual Carlos Magno surge como hóspede dum carvoeiro(2). Parece ter sido ele o modelo de muitos outros poemas do género.

Na alegre Inglaterra não havia falta de baladas populares baseadas no tema. O poema «John the Reeve or Steward», citado por Bishop Thomas Perey, - nas Reliques of Ancient English Poetry (1765), diz-se ser baseado numa ocorrência semelhante.

Há ainda «The King and lhe Tanner of Tamwerth», «The King and the Miller of Mansfield», *2. Este altamente curioso poema, durante muito tempo um desideratum da literatura escocesa, julgado irremediavelmente perdido, veio a ser reencontrado quando das buscas feitas pelo Dr. Irving na Advocates Library e reimpresso por David Laing, de Edimburgo.

e outros com enredos parecidos. Contudo, o conto deste tipo de que o autor de Ivanhoe se serve tem uma origem dois séculos anterior à dos outros dois que se apontaram.

Foi primeiramente dado a conhecer ao público naquele interessante registo de literatura antiga, recolhida graças aos esforços conjuntos de Sir Egerton Brydges e de Mr.

Hazlewood. que foi a revista The British Bibliographer, de onde se transferiu, pelas mãos do reverendo Charles Henry Hartshorne. M. A., editor dum bom volume intitulado Ancient Metrical Tales, printed chiefly from original sources, 1829.

Mr. Hartshorne não aponta outra origem à parte o excerto do artigo no Bibliographer intitulado «The King and the Hermite».

Um resumo do mesmo revela-nos a sua semelhança com o encontro do rei Ricardo com Frei Tuck.

O rei Eduardo (não nos diz qual seria, entre os monarcas deste nome, mas, pelo temperamento, calcula-se que fosse Eduardo IV) deixara a corte para uma faustosa caçada na floresta de Sherwood, onde, como não é raro acontecer em romances, o príncipe encontra um veado de tamanho e agilidade fora do comum, que persegue incansavelmente até se perder do seu séquito. com cães e cavalo exaustos, percebe, na penumbra da floresta, a noite caindo. Apreensivo, como é natural, longe de todo o conforto, o rei lembra-se de ter ouvido dizer que os pobres, quando preocupados quanto a abrigo onde passarem a noite, se dirigiam a São Julião, que, no calendário dos santos, ocupa a posição máxima entre os patronos dos viajantes em apuros. De conformidade, Eduardo reza-lhe e, muito possivelmente guiado pelo bom santo, atinge uma vereda na grande mata que o leva até uma capela perto da qual um eremita ocupa uma cela. O rei, escutando o eremitão a conversar com um companheiro de solidão, pede humildemente que lhe seja dada recolha. «Não disponho de lugar para senhores como vós», respondem de dentro. «Vivo, aqui no bravio, de raízes e cascas, e não posso receber nem o mais pobre dos pobres, a não ser que fosse para lhe salvar a vida.» O rei pergunta qual o caminho para o povoado mais próximo e, entendendo que teria de tomar uma estrada que somente encontraria com dificuldade mesmo à luz do dia, declara que, com ou sem autorização do anacoreta, seria seu hóspede nessa noite. É deixado entrar, não sem ser devidamente informado pelo eremita de que, se não envergasse as suas vestes eclesiásticas, de pouco lhe serviriam as ameaças e que cede não por intimidação, mas para evitar escândalos.

O rei entra na cela, onde um feixe de palha lhe é ajeitado de modo a servir-lhe de cama. Consola-se com o telhado por cima de si, pensando que Uma noite depressa passa.

Sentindo, porém, outras necessidades, clama por uma ceia, observando:

«com certeza havíeis de reconhecer Que, após o triste dia que tive de ter, Uma noite de alegria desejo passar.» Esta insinuação de como gostaria de ser confortado, acrescida da informação de ser ele um cortesão que se perdeu na grande caçada real, não consegue levar o eremita a dar-lhe mais do que pão e queijo, que o não satisfazem, como não lhe agrada a «bebida fraquinha» que lhe é trazida. Por fim, o rei diz claramente o que pretende e que até então somente insinuara.

E diz o rei: «Por Deus verdadeiro, Vivendo num lugar tão prazenteiro, Na floresta algo deves colher; Quando os monteiros vão descansar, De todos o melhor hás-de apanhar Entre os muitos veados a correr.

Não parece ser coisa incorrecta Tu teres um arco e tanta seta, Ainda que sejas, frade a valer.» O eremitão, por seu lado, contesta manifestando a sua apreensão quanto ao convidado o querer levar à confissão de qualquer acto contrário às leis da caça, que, passado a ouvidos reais, corresponderia à sua morte. Eduardo promete-lhe segredo e insiste em que lhe arranje carne de veado. O frade lembra-lhe os deveres próprios dos clérigos e persiste afirmando-se inocente de qualquer falta.

«Muitos dias tenho passado Sem na carne poder tocar, Bebendo só leite de vaca.

Agasalha-te, vai dormir.

Protejo-te com minha capa, Que te irá aconchegar.» O manuscrito deve estar incompleto, pois não se descobre o motivo que finalmente leva o frade a servir o rei. Contudo, denomina o hóspede de «boa pessoa», garante que poucos assim o têm visitado e apresenta-lhe o melhor que há na ceia. São postas duas velas na mesa iluminando pão, empadas, caça da melhor, tanto salgada como fresca, de que escolhem bons nacos.

«Teria de ter comido pão seco», afirma o rei Eduardo, «se não tivesse insistido tanto nas tuas qualidades de arqueiro. Agora, para poder ter comido como um príncipe, precisava duma bebidinha.» Também isto o anacoreta fornece, mandando o ajudante buscar um vaso de quatro galões escondido debaixo dum dos cantos da ca ma, começando de imediato os três a beber a sério. A pândega segue sob a orientação do frade, que vai proferindo frases empoladas, mas apropriadas, que cada bebedor tem de repetir antes de esvaziar o copo, algo correspondente aos brindes que mais tarde surgiriam. Um bebedor dizia fusty bandias, ao que o outro era obrigado a responder Strike pantnere, enquanto o monge ia soltando piadas a propósito da falta de memória do rei, que por vezes se esquecia do que tinha a dizer. A noite passa-se neste pagode. De manhã, antes de partir, o rei convida o seu anfitrião a ir à corte para que lhe possa retribuir a hospitalidade e mostra-se extremamente satisfeito com as horas que passaram juntos. O prazenteiro eremita acede por fim a arriscar-se a ir ali procurar Jock Fletcher, o nome que o rei assumira. Antes de o rei partir, o monge ainda lhe faz umas demonstrações da sua perícia como arqueiro. O rei, regressado ao paço, retoma os seus afazeres. O romance é vago.

não explicando como o monge descobre a verdade, o que provavelmente será como noutros contos do mesmo género em que o anfitrião, preocupado por ter, talvez, faltado ao respeito ao soberano quando incógnito, fica agradavelmente surpreendido quando recebe honrarias e recompensa.

Na colecção de Mr. Hartsthorne existe um romance, cujo teor é muito semelhante, chamado King Edward and the Shepherd(3), que bem analisado, é mais curioso do que o The King and the Hermit(4), mas que no momento não viria a propósito(5), pois somente se desejava mostrar as parecenças do eremita pouco ortodoxo com Frei Tuck da história de Robin dos Bosques.

O nome de «Ivanhoe» vem duns versos antigos. Todos os romancistas, numa ou noutra ocasião, pretenderam como Falstaff, arranjar uma oportunidade para conseguirem nomes de bom agrado. Neste caso, o autor recordou-se duns versos onde apareciam os nomes de três casas senhoriais confiscadas pelo antepassado do celebrado Hampden, *3. O Rei Eduardo e o Pastor. (M do T) 4. O Rei e o Eremita. (N. do T.) 5. Como o eremita, o pastor cria grande confusão numa caçada real. Serve-se, porém, duma funda e não dum arco. Utiliza também frases especiais quando bebe, sendo o «santo» Passelodion e a «senha» Berafriend. Entende-se a graça que os nossos antepassados viam nestas coisas, que, no fundo, não passavam de desculpas para os copos.

devido a os seus proprietários terem batido no Príncipe Negro com uma raqueta quando, jogando ténis, discutiam.

Tring, Wing e Ivanhoe, Pelo golpe que apanhou, A praça todos levou, E bem que por aí ficou.

O termo agradou ao escritor por dois motivos, sendo, em primeiro lugar, um velho nome inglês e, em segundo, porque nada revelava do conteúdo da narrativa. Esta última característica via-a como de grande interesse e importância.

Um título tem de atrair o interesse dos livreiros ou editores.

que, acontece, baseados nele somente, conseguem efectuar vendas com a obra ainda no prelo. Também sucede que, quando o autor permite que o título crie à sua volta grande expectativa antes da sua publicação, a obra a ela não venha a corresponder, constituindo um erro tremendo para a sua reputação literária. Além disso, quando aparece um título como The Gunpowder Plot (6) ou qualquer outro ligado à história, os leitores, sem sequer terem visto o livro, já formaram uma ideia sobre o que tratará e do género de prazer que lhes proporcionará. Poderá ficar desapontado e acusar a pessoa do escritor desse seu sentir. Deste modo, o aventureiro literário ver-se-á criticado não por não ter acertado no alvo, mas, sim, por ter atirado a sua flecha numa direcção em que nem mesmo tinha sonhado.

Poder-se-á acrescentar que na sua obra o escritor incluiu também um nome dos da lista de guerreiros normandos do Manuscrito de Auchinleck, o do tremendo Front-de-Boeuf.

Ivanhoe foi, desde que surgiu, um sucesso, podendo dizer- se que concedeu ao autor liberdades propiciadoras da execução de composições fictícias tendo por cenário a Inglaterra e a Escócia.

A figura de Rebeca criou tal impressão entre muitas das leitoras que o escritor chegou a ser censurado por, ao estabelecer o destino dos seus personagens, não ter dado a sua mão a Ivanhoe, em vez da menos interessante Rowena. Mas, já não se falando nos preconceitos do tempo, tornando tal união quase impossível, dir-se-á que teria pensado que um personagem tão altamente virtuoso e de espírito tão elevado se lhe degradariam as virtudes compensando-as com prosperidades materiais. A Providência vê valia no mérito de quem sofre, mas é doutrina perigosa e quiçá fatal ensinar aos jovens, os maiores leitores de romances, que a rectidão de conduta e de princípios está naturalmente ligada ou é correspondentemente *6.- A conspiração da pólvora. (N. Do T.) premiada pela satisfação das paixões ou realização de desejos.

Em resumo: se a um personagem virtuoso e altruísta é dado o acaba por receber riquezas, grandezas, categoria ou ser premiado por paixões semelhantes à que Rebeca sentia por Ivanhoe. o leitor concluiria que a virtude compensa. Só que uma vista de olhos à nossa volta nos revela que o altruísmo, o sacrificar de paixões a princípios, raramente são deste modo recompensados, sendo o mais comum tais grandiosas atitudes receberem algo que é muito maior: uma paz de espírito que o mundo nunca pode dar ou tirar.

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