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Ivanhoe.  Walter Scott
Capítulo 40.
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Afastem-se as sombras... É Ricardo, ele próprio, outra vez.
- Ricardo III

Quando o Cavaleiro Negro (temos de lhe acompanhar as aventuras) se afastou da árvore-da-reunião do generoso fora-da-lei, seguiu directamente para uma casa religiosa de importância e rendimentos consideráveis, denominada Priorado de São Botolph, para onde Ivanhoe fora transferido, quando o castelo fora tomado, pelos cuidados do fiel Gurth e do magnânimo Wamba. Será escusado, nesta altura, relatar o que se passou neste intervalo entre Wilfred e o seu salvador. Bastará informar que, após séria e longa troca de impressões, o Prior despachou mensageiros com destinos variados e que no dia seguinte o Cavaleiro negro se preparava para prosseguir, acompanhado por Wamba, o bobo, que lhe serviria de guia.

- Encontrar-nos-emos - disse a Ivanhoe - em Conningsburgh, o castelo do falecido Athelstane, já que é lá que o teu pai, Cedric, dá a festa fúnebre em honra do seu nobre parente.

Quero ver os vossos parentes saxões, Sr. Wilfred, para que, reunidos, melhor os fique a conhecer. A nós vos juntareis para que eu vos reconcilie com vosso pai.

Despediu-se afectuosamente de Ivanhoe, que mostrou toda a vontade de ir também, servindo-o, oferta que o Cavaleiro Negro declinou.

- Descansa ainda hoje. Pouca força terás, quiçá, amanhã. Não terei outro guia senão o honesto Wamba, que, de acordo com a minha disposição, tanto me servirá de padre como de bufão.

- Do meu coração vos acompanharei - interpôs-se Wamba aos festejos fúnebres de Athelstane, que, se não forem completos e a preceito, o poderão fazer levantar-se do caixão para rezingar com o cozinheiro, com o mordomo e com o escanção, coisa que mereceria ser apreciada. Conto, Sr. Cavaleiro, que me desculpareis junto de meu amo, Cedric, caso as minhas piadas o não convençam.

- E onde é que o meu fraco valor pode, Sr. Bobo, quando a graça brejeira não vale? Dizei-mo.

- O espírito, Sr. Cavaleiro - respondeu o bobo -, pode muito.

É um patifezinho que vê por que lado pode chegar-se a alguém e como se defender do vento das suas paixões quando elas sopram raivosas. O valor, porém, é um tipo robusto que tudo leva na sua frente. Rema contra o vento e contra a maré, vencendo-os.

Portanto Sr. Cavaleiro, embora eu esteja ao de cima, com bom tempo na casa do meu amo, espero que vós intervenhais se a borrasca se levantar.

- Sr. Cavaleiro do Aloquete, já que assim gostais de ser conhecido - disse Ivanhoe. - Temo tenhais escolhido um louco turbulento e palrador como guia. É certo que conhece todas as veredas e caminhos da mata tão bem como qualquer caçador habituado a percorrê-los e, fora isso, é um indivíduo fiel como um cão, como sabeis.

- Ná - respondeu o cavaleiro -, se me sabe indicar o caminho, nada me importa que mo torne agradável. Passa bem, Wilfred.

Não te permito que te desloques senão amanhã, no máximo.

- Estendendo a mão, Ivanhoe levou-a aos lábios. Despediu-se do Prior, saltou para a montada e partiu, com Wamba ao lado.

Ivanhoe ficou, seguindo-os com a vista, até que se perderam nas sombras da floresta que os circundavam, após o que regressou ao convento.

Pouco depois do cântico das matinas, pediu para falar com o Prior. O velho apareceu, todo apressado, perguntando-lhe como se sentia.

- Estou muito melhor - informou Ivanhoe - do que alguma vez poderia esperar. Ou o meu ferimento era mais leve do que a efusão de sangue me levou a entender, ou este bálsamo é uma maravilha. Sinto-me perfeitamente capaz de pôr a armadura, e ainda bem, pois odeio a inactividade.

- Valham-me todos os santos! - invocou o Prior. - Que não deixem o filho de Cedric abandonar o convento antes de totalmente curado! Seria uma vergonha para nós!

- Nem eu quereria deixar o vosso hospitaleiro telhado, venerando senhor - sossegou-o Ivanhoe -, se me não sentisse capaz de aguentar a jornada.

- E qual será o motivo para tão súbita partida?

- Nunca haveis sentido, santo padre - perguntou o cavaleiro -, uma sensação de algo mau no ar, sem saber a que atribuí-la?

Nunca a vossa mente se ensombrou como uma paisagem soalheira, de repente coberta por nuvens augurando a borrasca? Entendeis serem esses avisos indignos de atenção e não vindos do nosso anjo-da- guarda, avisando-nos de perigos vindouros?

- Não o desdigo - benzeu-se o Prior. - Tais coisas são e vêm do Céu. Mas, normalmente, têm objectivos e tendências úteis.

Mas tu, ferido como estás, que poderias fazer se te assaltassem?

- Prior - esclareceu Ivanhoe. - Estás errado. Sinto forças bastantes para trocar socos com quem quer que, no caminho, a isso me desafie. E, mesmo que assim não fosse, não arranjaria eu meios para ajudar quem em perigo estivesse que não fossem as armas? É sabido que os Saxões não gostam dos Normandos, e quem sabe o que sucederá, quando ele surgir entre eles, furiosos com a morte de Athelstane e aquecidos pela beberagem que lhes é servida? Vejo a sua ida ali, neste momento, como perigosa, e por isso vos peço me empresteis um cavalo de passo menos duro do que o do meu corcel de batalha.

- Com certeza - concordou o bom religioso. - Levareis a minha égua treinada, que vos carregará tão bem como se fôsseis o abade de Saint Albans. Digo-te ademais que, como Malkin, pois é esse o nome dela, não há outra, a não ser cavalos de circo, treinados a andar no meio de ovos, quanto a meiguice e suavidade de passo. Às costas dela já compus muitas homílias para o bem dos meus irmãos e demais cristãos.

- Rogo-vos, reverendo - pediu Ivanhoe -, que mandeis arrear Malkin, ordenando ao mesmo tempo a Gurth que se prepare.

- Recordo-vos - persistiu o Prior - que Malkin sabe tanto de combates como o seu dono e aviso-vos não saber se poderá com todo o peso das vossas armaduras e armas. Malkin é um animal esperto e tudo fará para evitar peso a mais. Lembro-me de que, uma vez, pedi o Fructus Temporum ao padre de Saint Bees e ela não se moveu enquanto não substituí o pesado volume por um breviário pequenino.

- Confie em mim, padre - pediu Ivanhoe. - Não a carregarei em demasia, mas, se tentar opor-se-me, ficará mal.

Esta frase foi dita quando Gurth já lhe afivelava um par de esporas douradas com tamanho suficiente para convencerem qualquer cavalo relutante das vantagens da obediência.

As imensas e aceradas rosetas das esporas de Ivanhoe levantaram agora algumas dúvidas ao bom prior quanto à sua amabilidade, levando-o a dizer:

- Mas, senhor, Malkin não está habituada a esporas! Seria talvez melhor levardes a égua que temos na granja. Deve estar livre dentro de uma hora, está acostumada a carregar-nos lenha e não gosta de comer grão.

- Muito obrigado, reverendo padre - agradeceu Ivanhoe -, mas fico-me com a primeira oferta, tanto mais que Malkin já está ali ao portal. Gurth leva-me a armadura e, quanto ao resto, garanto-vos que não sobrecarregarei Malkin, até porque a não quero aborrecer. Adeus!

Ivanhoe desceu as escadas mais depressa e melhor do que seria de esperar dum ferido em convalescença e montou a égua, ansioso por se livrar do maçador do Prior, que se lhe colava tanto quanto a sua idade e peso lhe permitiam, ora cantando os méritos de Malkin, ora pedindo ao cavaleiro que a não esfalfasse.

- Ela está na pior na altura para as raparigas e éguas. - Riu-se da própria piada. - Tem mais ou menos quinze anos.

Ivanhoe, que tinha mais que fazer do que aturá-lo, não lhe prestou atenção, nem às recomendações, nem às graças, mandando de cima da égua que o seu escudeiro (pois era esse actualmente o título de Gurth) se lhe pusesse ao lado, e seguiu o mesmo caminho para a floresta que o Cavaleiro Negro tomara. O Prior ficou ao portão resmungando: - Santa Maria, que impetuosos e decididos são estes guerreiros! Não lhe deveria ter emprestado Malkin, pois, se lhe acontece algo, o que será de mim com o meu reumatismo! No entanto, não devo pensar assim tanto nos velhos quando a velha Inglaterra de alguma coisa precisa. Malkin terá de se arriscar. Até pode ser que traga mérito à nossa casa e algumas recompensas das boas. Se não suceder deste modo, como muitas vezes acontece como os grandes que esquecem os serviços dos pequenos, dar-me-ei por bem pago com a boa acção que pratiquei. Bom, vão sendo horas de juntar os irmãos no refeitório para o pequeno-almoço. Nestas circunstâncias, são bem mais prontos a obedecer-me do que quando os chamo, com os sinos, para as primas e para as matinas.

O Prior lá tornou, mancando, para o convento, onde presidiria a uma refeição de bacalhau e cerveja, que iriam ser servidos aos frades como pequeno-almoço. Convencido e cheio de importância, sentou-se à mesa, comentando de forma vaga o muito que sempre fizera pela instituição, o que, noutra altura, teria chamado as atenções. Porém, como o bacalhau fora bem curado e a cerveja era da forte, os monges concentravam-se mais no que engoliam do que no que se dizia à sua volta.

Aliás, não temos conhecimento de nenhum membro daquela comunidade se ter permitido especular quanto às misteriosas insinuações do seu superior, exceptuando, talvez, Frei Diggory, que, devido a uma terrível dor de dentes, somente conseguia comer para um dos lados.

Entretanto, o Campeão Negro e o seu guia iam, calmamente, atravessando a floresta. O bom cavaleiro, ora trauteava um lai, ora, com perguntas, atiçava a tagarelice do criado, o que tornava o seu diálogo numa espécie de comédia musicada impossível de transcrever para os leitores. Terão, pois, de imaginar este cavaleiro, tal como o desenhámos, possante, alto, espadaúdo, pesado de Ossos, montado num enorme cavalo de guerra que parecia feito à medida do seu corpo e peso, tão ligeiro era o seu caminhar. Levava a viseira alçada para melhor respirar, mas, como mantinha a parte inferior para cima, não era, mesmo dessa maneira, fácil perceberem-se-lhe as feições. Notavam-se, contudo, as faces trigueiras e coradas, os olhos azuis brilhantes faiscando sob o elmo.

Todos os gestos e modos do campeão exprimiam alegria e confiança e uma disposição que, ignorando perigos, se sentia, todavia, pronta a enfrentá-los, caso surgissem, pois a eles estava acostumado, como só pode estar quem conhece bem o que são a guerra e as aventuras.

O bobo vestia-se bizarramente, como de costume, tendo somente, e devido aos últimos acontecimentos, substituído a espada de pau por uma boa cimitarra e um pequeno escudo a condizer e no uso dos quais, não obstante a sua profissão, se revelara bem eficiente aquando do assalto ao castelo de Torquilstone. Na realidade, o que Wamba sofria era dum irrequietismo constante, que o não deixava parar por muito tempo ou prender-se a qualquer ideia, embora lhe permitisse o tempo necessário para, bem alerta, executar qualquer tarefa imediata ou apreender algo a suceder em breve. No cavalo movia-se, ora para a frente, ora para trás, chegando-se quase até às orelhas do animal ou até à cauda, pondo as duas pernas para o mesmo lado, sentando-se ao contrário, fazendo caretas e macaquices, a tal ponto que o seu cavalo, não aguentando mais todas aquelas partes, o atirou para a erva, para grande gáudio do Cavaleiro Negro, mas que fez que se passasse a comportar mais ajuizadamente daí para diante.

No momento em que nos aproximamos deles, este alegre duo cantava um viralai muito mais difícil para o palhaço do que para o mais culto Cavaleiro do Aloquete. Era assim a sua letra:

Já há sol, Ana Maria, amor, Já faz sol, amor. Faz sol e calor, Amor, logo de manhã, Ana Maria.

É manhã e tens de te levantar, O caçador já partiu a caçar, Sua trompa toca na pradaria, Acorda-te, amor, Ana Maria.

- WAMBA Ó Tybalt, amor, não me acordes ainda, Quero do sonho ver a história finda, Quebrada perderá todo o seu sabor.

Permite-me que durma, Tybalt, meu amor.

Que as aves soltem os seus sons de cristal, Que o caçador procure no matagal, Eu quero desta almofada o fragor, A sonhar contigo. Tybalt, ó meu amor.

- Uma bela cantiga - comentou Wamba, quando acabaram. - E, juro pela minha vara com orelhas de jerico, muito moral.

Costumava cantá-la junto com Gurth, meu parceiro de brincadeiras, mas agora, graças a Deus e a meu amo, nada, mais nada do que um... homem livre. Uma vez apanhámos porque ficámos tão entusiasmados com ela que só saímos da cama, entre dormir e cantar, duas horas depois de o Sol ter nascido.

Dói-me o corpo só à lembrança disso. Mesmo assim, cantei-a para vos agradar, senhor.

O bobo iniciou então outra cantilena, que o cavaleiro acompanhou.

O CAVALEIRO E WAMBA Três homens do Sul, Oeste e Levante Cantavam e cantavam um viralai Para a viúva de Wycombe, a galante.

Mas a qual deles escolher ela vai?

O primeiro, de Tynedale, é cavaleiro, E que bem canta ele o viralai.

Seus pais, conhecidos do mundo inteiro, Será que a viúva não o querer vai?

De seu pai rico, nobre de seu tio, Orgulha-se disso no seu viralai, Ela convidou-o p'rá lareira p lo frio Porque a viúva não o querer vai.

WAMBA O outro jurou pelos seus bens e mates, Cantando alto e bem um viralai.

Era um cavaleiro vindo de Gales, Que preferir a viúva também não vai.

O Sr. Fulano Cicrano de Tal Cantou com força um lindo viralai, Dizendo que uma para três era mal, Diz ao galês ser o primeiro que vai.

A seguir, um nobre de Kent, cheio de prendas, Trinou mui bem trinado um viralai, Falando à viúva de ouro e rendas.

Qual é a viúva que nisto não cai?

AMBOS Nobre e guerreiro ficaram na lama E, em coro, cantando um viralai, O homem de Kent, que com ouro abana, É aquele por quem a viúva cai.

- Bem apreciaria que o nosso anfitrião da árvore grande e o alegre monge, seu capelão, tivessem ouvido esta canção enaltecendo o homem de Kent - disse o cavaleiro.

- Eu não - disse Wamba. - Só se me désseis essa trompa suspensa do vosso boldrié.

- Não passa duma prova duma boa promessa de Locksley, de que certamente não precisarei. Ao seu toque, sei, acorreria um feroz grupo daquela boa gente.

- Aposto que, se não fosse esse presente, não nos passearíamos tão à vontade.

- Quê?! Julgas que se não fosse a promessa nos assaltariam? - Eu cá não digo nada - respondeu Wamba. - As árvores têm ouvidos e as paredes também. Mas, respondei-me, Sr. Cavaleiro, quando é melhor terem-se o pichel e a bolsa vazios?

- Nunca pensei nisso - respondeu o cavaleiro.

- Então nunca mereceste qualquer um cheio, com uma resposta dessas. A certa é: pichel vazio quando se cruza com um saxão, bolsa vazia quando se marcha na mata.

- Consideras os nossos amigos como foras-da-lei?

- Eu não disse isso, ilustre senhor - recordou Wamba. - Pode aliviar-se um cavalo cansado ao fim do dia e livrar o cavaleiro daquilo que é a semente de todos os males. Só que, pessoalmente, os arreios na cavalariça e a bolsa no quarto são preferíveis quando me encontro com esses tipos. Poupa-me trabalho.

- Temos também de rezar por eles - lembrou o cavaleiro apesar da má conta em que os tens.

- Fá-lo-ei com todo o fervor - concordou Wamba - mas dentro da vila e não na mata, para me não acontecer como ao abade de Saint Bees, que obrigaram a dizer missa dentro dum carvalho oco.

- Digas o que disseres, aqueles homens prestaram um grande serviço a Cedric em Torquilstone.

- Claro - reconheceu Wamba.-, mas isso foi devido ao seu acordo com o Altíssimo.

- Acordo com o Altíssimo? - espantou-se o cavaleiro.

- Deus me valha - implorou Wamba. - Eles têm uma conta corrente no Céu, tal qual como o nosso despenseiro chamava às suas contas, direitinhas como as que Isaac, o Judeu, faz com os seus devedores, e, como ele dá pouco e muito recebe, igualmente recebem muito. Calculam. A sua usura é calculada multiplicando por sete, como os textos sagrados recomendam nos empréstimos de caridade.

- Explica-te melhor. Nada sei de números e juros - pediu o ca valeiro.

- Muito bem. Se Vossa Graça não sabe, fica a saber que aquela honesta gente equilibra as boas acções com outras muito menos louváveis. Dão uma Coroa a um mendicante e tiram cem bezâncios a um nédio abade, consolam uma viúva à custa da rapariga que apanham na mata...

- Quais dessas eram as boas acções e as más? - interrompeu-o o cavaleiro.

- Boa piada! Excelente piada! - bradou Wamba. - Companhia espirituosa e sempre espirituosa é sempre agradável. Não haveis dito nada tão engraçado naquela noite de borracheira com o eremita. Continuando: os homens da mata constróem uma cabana depois de derrubarem um castelo, colmam uma capela depois de saquearem uma igreja. Soltam um preso desgraçado depois de matarem um altivo xerife. E, para chegarmos onde quero: auxiliam um saxão em troca dum normando que queimam vivo. São, enfim, ladrões muito gentis e corteses. Mesmo assim, é sempre bom só os encontrar quando estão em débito.

- O quê, Wamba? - quis o cavaleiro saber.

- Quando se sentem arrependidos e tentam fazer as pazes com o Céu. Quando as contas estão equilibradas, ai de quem se encontra com eles nessa altura! Os viandantes que apanharam a seguir a um gesto bom, como o de Torquilstone, devem ter levado coças tremendas. No entanto - prosseguiu Wamba, chegando-se para mais perto do guerreiro -, há coisas piores de encontrar do que aqueles bandoleiros.

- E que serão, senão lobos e ursos? - perguntou o guerreiro. - Temos, por exemplo, os homens de armas de Malvoisin - citou Wamba. - Numa guerra civil são como alcateias. Preparam-se, no momento, para fazer a colheita, reforçados pelos soldados fugidos de Torquilstone. Se nos cruzarmos com um bando destes, teremos de pagar caro os nossos feitos de armas. Que faríeis, senhor, se encontrásseis dois deles?

- Pregava-os à terra com a lança se nos aborrecessem.

- E se fossem quatro?

- Apanhavam a mesma dose - respondeu o cavaleiro.

- E se fossem seis? - teimou Wamba. - Lembro-vos que somos só dois. Continuaríeis sem recorrer à trompa de Locksley?

- O quê? Tocar pedindo socorro? - explodiu o cavaleiro. - para me defender dessa rascaille (1) que qualquer cavaleiro enxota à sua frente como o vento sopra as folhas secas?

- Bem. Então peço-vos - rogou Wamba -, que me deixeis dar uma vista de olhos a essa trompa de tão poderoso troar.

O cavaleiro retirou-a do boldrié e estendeu-a ao companheiro, que imediatamente a pôs ao pescoço.

*1.. Ralé. (N. do T.) - Tra-la-rá - assobiou as notas. - Conheço a música tão bem como outra qualquer.

- Que dizes, patife? - rosnou o cavaleiro. - Passa-me a minha trompa!

- Sossegai, senhor! Está em boas mãos. Quando a Bravura e a Loucura viajam juntas, compete à Loucura levar a trompa, porque a sabe soprar melhor.

- Ná, ná, malandro! - bradou o Cavaleiro Negro. - Estás a sair dos limites. Não me rales a paciência.

- Não recorrais à violência, Sr. Cavaleiro - pediu o bobo - , ou terei de dar às de vila-diogo e ficareis sozinho à procura do caminho.

- Vá lá, levaste-me. Além de que não tenho tempo para o perder contigo. Fica lá com a trompa, mas vamos andando.

- Não me fareis mal, portanto? - perguntou Wamba. - Garanto-te que não!

- Mas dai-me a vossa palavra de cavaleiro - insistiu o bobo, aproximando-se a medo.

- Dou-ta, mas anda daí - foi a resposta.

- Pronto. Tornamos a ser companheiros - disse o bufão, chegando-se à vontade. - A verdade é que não aprecio socos do género do que haveis dado ao frade, fazendo Sua Santidade rolar na erva como um meco. E agora, que a Loucura tem a trompa nas unhas, será conveniente que a Bravura se prepare, pois, se me não engano, naquela moita, além, há companhia à nossa espera.

- Que te leva a dizê-lo? - perguntou o cavaleiro.

- Por duas ou três vezes vi brilhar algo parecendo capacetes no meio da verdura. Se fosse gente de bem, seguia o seu caminho e não escolhia aquele sítio, que lembra uma capela para os devotos de São Nicolau.

- Bofé o dizes - disse o cavaleiro descendo a viseira -, pois creio que acertaste.

Em bom tempo o fez, já que três flechas saíram do ponto indicado, batendo-lhe na cabeça e no peito. Uma delas ter-lhe-ia chegado aos miolos se não fosse a protecção de aço.

As outras duas foram desviadas pela couraça e pelo escudo que carregava.

- Obrigado, minha rica armadura! - proferiu o cavaleiro. - Wamba, vamos a eles! - bradou arrancando direito à moita, onde se chocou com seis homens de armas de lança em riste. Três das armas quebraram-se contra ele com tanto resultado como se batessem numa muralha de ferro. Os olhos do Cavaleiro Negro dardejavam por entre os interstícios da viseira. Erguendo-se nos estribos com um ar de indescritível dignidade, indagou: - Que significa isto, meus senhores?

Ao que os homens responderam desembainhando as espadas e, carregando de todos os lados, bradando:

- Morte ao tirano!

- Ah! Santo Eduardo! Ah! São Jorge! - respondeu o cavaleiro, abatendo um adversário a cada imprecação. - Haverá aqui traidores?

Os seus oponentes, atrevidos como eram, afastaram-se, mesmo assim, daquele punho que trazia a morte em cada golpe, tudo indicando já que, na sua força, lhes incutira terror bastante para que fugissem, não fora um cavaleiro de armadura negro-azulada, que se conservara, até então, oculto, avançar com a sua lança apontada, não ao cavaleiro, mas à sua nobre montada, que, dum só lance, abateu.

- Golpe de covarde! - exclamou o Cavaleiro Negro, arrastado na queda pelo seu cavalo.

Nesse mesmo instante, Wamba soprou com toda a força a trompa.

Tudo se passara tão velozmente que, antes, não houvera tempo para nada. O som fez estacar os assaltantes de novo e deu possibilidade a Wamba, mal armado como estava, de acorrer a ajudar o Cavaleiro Negro a levantar-se.

- Tende vergonha, poltrões! - gritou o da armadura azulada, que parecia ser o chefe. - Será que temeis um toque de trompa soprada por um bobo?

Animados por esta admoestação, atacaram o Cavaleiro Negro, que, encostando-se a um carvalho, tratou de se defender com a espada. O criminoso cavaleiro, que pegara noutra lança e aguardava que o adversário estivesse bem entretido, galopou na sua direcção, esperando empalá-lo contra a árvore.

O seu intento não se concretizou, porém, devido à intervenção de Wamba, que, substituindo a força pela agilidade e pela pouca atenção que os homens lhe prestavam, e se mantivera um pouco à margem da luta, alterou a falta carreira do cavaleiro, paralisando-lhe o cavalo com uma espadeirada. Cavaleiro e montada tombaram em roldão. Apesar disso, a situação do Cavaleiro do Aloquete mostrava-se precária, pois, acossado por vários homens bem armados, já mostrava sinais de cansaço, uma vez que tinha de se defender de todos os lados ao mesmo tempo.

Eis senão quando uma seta emplumada com penas de ganso fez, subitamente, um dos mais fortes dos atacantes comer a terra, logo seguida por um bando de homens que, com Locksley e o prazenteiro frade à frente, surgiram na clareira. Estes, entrando na refrega, dispersaram os rufiões, dos quais somente ficaram os mortos ou mortalmente feridos, O Cavaleiro Negro agradeceu com toda a dignidade e de forma Muito diferente daquela que, anteriormente, ostentara. Já não era mais um ousado soldado a fazê-lo, mas sim alguém de categoria Muito elevada.

- Muito me interessa - começou -, mesmo antes de vos agradecer, meus prontos amigos, descobrir quem serão os meus não provocados inimigos. Wamba, levanta a viseira desse cavaleiro blau, que parecia comandar os bandidos.

Wamba dirigiu-se para junto do comandante dos vilões, que, aturdido pela queda e preso pelo cavalo, ficara sem hipótese de fuga ou resistência.

- Por favor, senhor - disse Wamba -, além de vosso palafreneiro, também sou vosso armeiro. Desmontei-vos e agora retirar-vos-ei o elmo. - Sem ponta de gentileza, tirou-lhe o casco, que rolou pelo relvado, deixando ver- se uma cabeça cheia de cãs que o Cavaleiro Negro nunca esperaria ver ali.

- Waldermar Fitzurse! - surpreendeu-se. - Que leva uma pessoa da vossa categoria a descer tão baixo?

- Ricardo - respondeu o prisioneiro, olhando-o. - Conheces os homens mal se não sabes até onde a ambição e a vingança podem conduzi-los.

- Vingança? - continuou, surpreso, o Cavaleiro Negro. - Nunca te prejudiquei. De mim nada tens para te vingar.

- A minha filha, Ricardo, que recusaste! Achas isso pouco para um normando tão nobre como és?

- A tua filha? É ela a razão do teu ódio, o motivo por me quereres o sangue?... Afastai-vos, senhores, pois quero falar a sós com ele... E agora, Waldemar, conta-me a verdade.

Confessa quem te mandou levar avante esta traição!

- O filho de teu pai - respondeu Waldemar -, que, fazendo-o, se limitava a vingar a tua desobediência a teu pai.

Os olhos de Ricardo fuzilaram de indignação. Levando a mão à testa, fitou o rosto do humilhado barão, onde a vergonha e o orgulho contendiam.

- Não me pedes que te perdoe? - quis o rei saber.

- Quem está nas garras do leão - disse Fitzurse -, sabe que não valeria a pena.

- Conservarás a vida se, dentro de três dias, saíres de Inglaterra, indo esconder a tua infâmia no teu castelo na Normandia, e na condição de nunca mais citares o nome de João de Anjou em ligação com as tuas patifarias. Se te encontrar em solo inglês depois do prazo que te dei, morres... e se te ouço dizer algo contra a honra da minha casa... Por São Jorge! Nem o altar te servirá de asilo. Pendurar-te-ei para que sirvas de manjar aos corvos no alto do teu próprio castelo... Dai um cavalo a este cavaleiro, Locksley. Um daqueles à solta que os vossos homens estão a apanhar.

- Se não ouvisse uma voz que tem de ser obedecida - comentou o arqueiro -, espetava um chuço neste vilão, poupando-lhe os aborrecimentos da viagem.

- És um verdadeiro inglês - cumprimentou-o o Cavaleiro Negro.

- Fazes bem em acatar o meu comando... Eu sou Ricardo de Inglaterra!

A estas palavras impressionantes e majestosamente pronunciadas, como convinha a alguém de tão alta estirpe, como o Coração de Leão, os fora-da-lei ajoelharam-se, prestando-lhe homenagem e pedindo-lhe lhes desculpasse as faltas.

- De pé, amigos - ordenou graciosamente Ricardo, fitando-os com o usual bom humor, que já substituía o ressentimento que o combate recente lhe incutira às feições. Arfando ainda um pouco devido à acção a que fora forçado, repetiu: - De pé...

bons amigos! As vossas faltas, na mata ou nos campos, estão desculpadas pelos leais serviços que haveis prestado aos meus súbditos em aflição ante as muralhas de Torquilstone e pelo salvamento, hoje, do vosso soberano. Quanto a ti, Locksley...

- Por favor, não me chameis mais Locksley, meu real senhor, mas sim pelo nome que, temo, é demasiado conhecido para não ter chegado aos vossos ouvidos ainda. Sou Robin dos Bosques na floresta de Sherwood (1).

- Rei dos fora-da-lei e príncipe de boa gente! - disse o rei.

- Quem não conhece esse nome, que até à Palestina já chegou?

Assegurai-vos, meu bravo, de que nada do que haveis feito durante a nossa ausência e nestes anos turbulentos que ela provocou será lembrado em vosso desfavor.

- Bem diz o provérbio - comentou Wamba com um pouco menos de petulância do que a do costume:

Quando o gato está fora, Prós ratos chegou a hora.

- Quê, Wamba, estás aí? - riu-se Ricardo. - Já não te ouvia há tanto tempo que pensara tivesses fugido.

- Fugir, eu? - exclamou Wamba. - E desde quando é que a Loucura abandona a Bravura? Ali jaz como troféu a minha espada, naquele bom cavalo cinzento que bem gostaria de ver de pé, outra vez, conquanto que o seu dono ficasse quedo. É certo que, a princípio, a minha roupa às pintas não me deixava combater tão bem como, com uma armadura, o faria. Mas, mesmo neste caso, tereis de reconhecer que me saí muito bem, tocando quando toquei e batendo quando bati.

- E para bom fim, honesto rapaz - completou o rei. - Os teus serviços, Wamba, não serão esquecidos.

*1.. Sabe-se, pelas baladas, que este notório bandido tomava, às vezes, o nome de Locksley, o nome da aldeia onde nascera, que se não sabe onde exactamente era situada.

- Confiteor! Confiteor! - entoou uma voz submissa muito próxima dos reais ouvidos. - O meu latim não dá para muito, mas desde já confesso a minha mortal traição, para a qual peço absolvição antes de ser levado à execução.

Ricardo, voltando-se, encarou com o jovial frade, de joelhos e com o varapau, que tanto trabalhara na refrega, pousado ao lado. Tinha arranjado uma expressão da maior contrição, com os olhos voltados para cima e os cantos da boca caídos, ou seja, como Wamba diria, como as borlas duma saca. Esta pose de penitência extrema não convencia ninguém, devido ao ar de brincadeira que todas as suas imensas feições irradiavam, como que proclamando não serem verdadeiros nem o medo, nem o arrependimento.

- Que te pôs tão em baixo, padre maluco? - perguntou Ricardo.

Temes que o teu diocesano venha a saber como é que realmente serves a Nossa Senhora e a São Dunstan? Sossega-te, homem! Não tenhas medo. Ricardo não revela segredos escudados ao tinir de copos.

- Não, meu ilustre soberano - respondeu o eremita (bem conhecido na literatura de cordel por Frei Tuck) -, não é o bastão episcopal que temo, mas, antes, o ceptro real. Ai de mim! Como ousou o meu punho sacrílego tocar na face dum ungido do Senhor?

- Ah! Ah! - riu-se Ricardo. - É daí que o vento sopra? Na verdade, já esquecera esse murro, embora tivesse ficado a zunir o dia inteiro. Mas se esse soco foi bem aplicado, tenho aqui à volta estes homens honestos, que testemunharão ter ele sido bem retribuído.:. a não ser que penses ter eu ficado a dever-te qualquer coisa e queiras tornar...

- De forma alguma - interrompeu-o Frei Tuck. - o meu foi-me devolvido com os juros devidos. Que Vossa Majestade possa sempre assim liquidar as suas dívidas.

- Se as pudesse liquidar a murros, os meus credores nunca me acusariam de esvaziar o erário público.

- Não obstante tudo isso - gemeu o frade, tornando a tomar a mesma hipócrita atitude -, calculo qual será a pena correspondente ao meu sacrílego murro!

- Não penseis mais no assunto, irmão - falou o rei. - Apanhei tantos socos dos pagãos e descrentes que não vejo qualquer razão em me ofender com o que me foi dado por um frade tão beato como o de Copmanhurst. Parece, contudo, meu bom frade, que o melhor para ti e para a Igreja seria eu privar-te do hábito e tomar-te ao serviço da minha guarda pessoal, onde cuidarias tão bem de nós como o haveis feito para com o altar de São Dunstan.

- Senhor meu - implorou o frade -, com toda a humildade vos rogo perdão. Sei que de pronto me concederíeis se soubésseis a que ponto o pecado da preguiça de mim se apossou.

São Dunstan... bendito seja ele... deixa-se ficar quietinho no seu nicho mesmo quando me esqueço das minhas orações para Perseguir um veado gordo. Às vezes passo a noite fora da cela, fazendo nem sei bem o quê, e São Dunstan nunca se lamuria. É um amo dos mais pacientes dos que há entre os que são de pau.

Mas, se fosse um membro da guarda do meu rei, embora a honra não tivesse medida, como poderia eu consolar uma viúva aqui, apanhar um veadito acolá? Já sei que seria: «Onde está aquele cão do padre?», «Alguém viu o Tuck maldito?», «O vilão à paisana mata mais caça do que um condado inteiro», diria um guarda, e «Apanha as corças todas», diria outro. Em resumo, majestade, deixai-me ficar tal como me haveis encontrado, ou, se quiserdes estender a vossa magnanimidade sobre uma pessoa, fazei que eu passe a ser visto apenas como um frade da cela de São Dunstan de Copmanhurst, que aceita sempre qualquer esmolinha.

- Compreendo-te - disse o rei -, e o santo frade gozará do direito de caçar veação nas minhas matas de Warncliffe. Nota, porém, que apenas podes apanhar três machos por estação, embora não seja eu rei se não souber que trinta serão.

- Vossa Graça pode estar certo de que, com a graça de São Dunstan, arranjaremos forma de multiplicar essa generosa dádiva.

- Não duvido, bom irmão - concordou o rei. - E como veação não é mais do que comida, o nosso despenseiro receberá instruções para te entregar, todos os anos, uma pipa de xerez, outra de malvasia e três de cerveja da boa. Se isso não te saciar a sede, terás de ir à corte e ser apresentado ao meu mordomo, - E para São Dunstan? - Perguntou o frade.

- Uma capa, uma estola e uma mesa de altar terás tu também.

Mas acabemos com as brincadeiras, não vá Deus castigar-nos por pensarmos mais nas nossas loucuras do que na Sua honra e culto.

- Pelo meu padroeiro respondo eu - exclamou o frade, radiante.

- Responde por ti, frade - disse Ricardo um tanto severamente.

No entanto, logo estendeu a mão ao eremita, que, um pouco envergonhado, se ajoelhou saudando-o. - Menos me honrais com ela aberta do que quando a cerrei - observou o monarca. - À primeira ajoelhaste-te, enquanto à segunda te prostraste.

O frade, receando praticar nova ofensa caso continuasse mantendo a conversa em tom demasiado jocoso (atitude sempre de evitar por aqueles que falam com a realeza), fez uma grande vénia e afastou-se.

Nesse instante, dois novos personagens apareceram em cena.