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Ivanhoe.  Walter Scott
Capítulo 32.
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Todo o Estado tem a sua política;
Os reinos têm leis, as cidades os forais;
Até os bandidos escondidos na mata
Obedecem a uma certa disciplina,
Pois desde Adão, com a sua verde porra,
O homem sempre tem vivido em sociedade,
com os códigos para melhor os unir.
- Peça antiga

Amanhecia nas clareiras do vasto carvalhal. Nos verdes galhos reluziam pérolas de orvalho. As corças levavam os seus enhos desde os seus abrigos de grandes fetos até aos espaços mais abertos, onde o veado ostentava os seus imponentes chifres, sem temer a Presença dos caçadores.

Os bandidos tinham-se agrupado em redor da árvore-da-reunião, onde haviam passado a noite descansando das fadigas do cerco, uns bebendo vinho, outros dormindo, muitos escutando e contando pormenores da jornada, outros ainda apreciando o espólio aos montes, agora à disposição do chefe.

Aquele espólio era de facto muito grande, pois, apesar de muita coisa se ter perdido no incêndio, tinham conseguido apossar-se, sem a mínima hesitação, de grandes quantidades de ouro e prata, ricas armaduras e roupas esplêndidas. A lei da floresta, contudo, era tão rigorosa que ninguém ousaria tomar para si fosse o que fosse, sendo tudo reunido para que o chefe tratasse da sua distribuição.

O ponto de reunião era um vetusto carvalho. Não se tratava do mesmo até junto do qual Gurth e Wamba, no começo desta narrativa, tinham sido levados, mas de outro, no centro dum magnífico anfiteatro silvano a cerca de oitocentos metros do castelo arruinado de Torquilstone. Ali, Locksley ocupou o seu assento (um monte de turfa cobrindo galhos de carvalho entrecruzados), rodeado pelos seus companheiros. Convidou o Cavaleiro Negro a sentar-se à sua direita e Cedric à esquerda.

- Desculpai-me o à-vontade - pediu -, mas nestas matas sou eu o monarca e os meus súbditos não me acatariam o poder caso eu cedesse o meu lugar a outros mortais... Ora bem, quem viu o nosso capelão? Onde está ele, o da cabeça rapada? Uma boa manhã como esta, entre cristãos, deve iniciar-se com uma missa. - Ninguém vira o clérigo de Copmanhurst. - Que os deuses nos acudam - disse o chefe dos bandidos. - Será que o malandrote do padre ficou colado a alguma caneca de vinho? Quem o viu depois de termos tomado o castelo?

- Eu - informou Miller. - Vi-o muito atarefado às voltas com a porta duma adega jurando por todos os santos do calendário que havia de provar o gasconha de Front-de-Boeuf.

- Agora nem todos os santos que há - exclamou o chefe - lhe valerão, se bebeu de mais e ficou debaixo dos escombros do castelo. Vai lá, Miller! Leva contigo homens suficientes para te ajudarem a procurá-lo a partir do sítio onde o viste. Atira água do fosso para cima do rescaldo. Nem que tenha de levantar tudo, pedra a pedra, tenho de encontrar o meu frade.

A quantidade de gente que se ofereceu para esta tarefa demonstrava, tendo-se em conta que em breve se iria proceder à distribuição dum grande saque, quanto o padre era querido ali.

- Entretanto, tratemos da divisão do espólio - anunciou Locksley -, pois, quando o nosso feito se tornar conhecido, os batidos de De Bracy, Malvoisin e outros aliados de Front-de-Boeuf mover-se-ão contra nós, convindo pois que, temporariamente, abandonemos a região. Nobre Cedric - continuou, dirigindo-se ao Saxão -, este espólio será dividido em dois lotes. Escolhereis o que quiserdes para recompensar os vossos que vieram auxiliar-nos.

- Bom homem - respondeu Cedric -, o meu coração sangra de dor.

O nobre Athelstane já não existe... o último descendente do Confessor! Todas as esperanças com ele morreram para não mais voltarem. O brilho de esperança que ele representou foi extinto pelo próprio sangue, não havendo mais quem o possa novamente acender! O meu povo, salvo aqueles que me rodeiam, espera que eu carregue os seus respeitáveis restos até à sua última e condigna morada. Lady Rowena deseja regressar a Rotherwood e necessita duma forte escolta. Tenho pois mesmo de partir já. Se aguardei, não foi para receber parte do espólio no qual, por Deus e Santo Withold, nem eu nem nenhum dos meus tocará sequer. Aguardei para agradecer a ti e aos teus audaciosos companheiros o terem salvo não só a minha vida, como a minha honra.

- Não, não! - disse o bandido-chefe. - A nós apenas coube metade do trabalho... Levai a vossa parte para que possais recompensar os vossos amigos e vizinhos.

- Sou suficientemente rico para lhes pagar do meu dinheiro - respondeu Cedric.

- E alguns foram suficientemente espertos para se pagarem a si próprios e não partirem de mãos vazias. Nem todos andam de fatos às pintas.

- Estavam no seu direito - observou Locksley. - As nossas leis são para nós somente.

- Mas tu, caríssimo rapaz - disse Cedric, voltando-se e abraçando o bufão -, serás recompensado por mim. Ofereceste sem medo a tua vida em troca da minha. Quando todos me tinham abandonado, tu, pobre e fiel louco, apareceste!

Brilhavam lágrimas nos olhos do rude fidalgo. Uma mostra de sentimentos que nem a morte de Athelstane conseguira. Havia algo de semi-instintivo ligando-o ao bobo que se sobrepunha, inclusive, à dor.

- Não o quero! - exclamou o bobo, livrando-se das mãos do amo.

- Se é com a água dos teus olhos que me vais pagar, tenho de me pôr a chorar para te fazer companhia, e lá se vai a minha graça toda. Há, porém, tio, um modo de liquidares as tuas contas comigo: perdoa a Gurth, que te roubou uma semana de trabalho para a dar a teu filho.

- Perdoá-lo? - bradou Cedric. - Não só o perdoarei como o premiarei. Ajoelha-te, Gurth. - O porqueiro imediatamente lhe obedeceu.

- Deixaste de ser um escravo - proferiu Cedric, tocando-lhe com uma vara. - És, para todos os efeitos, um homem livre, tanto na vila como na floresta, tanto na floresta como no campo. Dar-te-ei algumas leiras das minhas terras de Walburgham, que de mim para ti passarão para sempre. E que a maldição divina tombe sobre quem o contrário venha a afirmar.

Não mais um servo, mas um homem livre e proprietário, Gurth pôs-se de pé e deu dois saltos de alegria.

- Venha um ferreiro com uma lima - pediu - para tirar a coleira do pescoço deste homem livre! Nobre amo! Haveis duplicado com este gesto as forças que sempre porei a vosso dispor. Um espírito livre adeja dentro de mim. Sou um homem que se transformou em si próprio. Ou será o contrário? Hei, Fangs - prosseguiu para o fiel rafeiro, que, à vista da alegria do dono, também saltitava de satisfação -, ainda conheces o teu dono?

- Eh! - interrompeu Wamba. - Tanto ele como eu te conhecemos ainda, embora continuemos de coleira. Talvez tu venhas primeiro a esquecer-te de nós...

- Esquecer-me-ia de mim - retorquiu Gurth - se te esquecesse, bom camarada. Acredita ainda que, se a liberdade fosse também apropriada para ti, o nosso amo ta concederia.

- Não - disse Wamba -, não penses que te invejo, irmão Gurth.

O servo fica no salão à lareira, enquanto os homens livres têm de partir para as guerras. Como dizia Oldhelm de Malmsbury, "mais vale ser bobo num banquete do que sábio numa refrega".

Ouviram-se passos de cavalos trazendo Lady Rowena e vários cavaleiros. Acompanhavam-no muitos mais peões que, jubilosamente, agitavam chuços e batiam com as alabardas.

Rowena, garbosamente vestida, montando num palafrém castanho, recuperara toda a sua dignidade de porte, restando do seu sofrimento apenas uma ligeira palidez. A sua linda fronte, se bem que triste, mostrava esperança a par de gratidão pelo seu salvamento. Sabia estar Ivanhoe livre de perigo e Athelstane morto. O primeiro facto enchia-a de júbilo e, quanto ao segundo, embora a não alegrasse, ter-se-ia de se lhe perdoar o alívio que sentia vendo-se livre da única questão em que jamais concordara com Cedric, Vendo o cavalo que ela montava dirigir-se na sua direcção, Locksley e todos os seus se levantaram numa instintiva manifestação de cortesia. Corando e com um gesto de mão e um abaixar de cabeça que, por instantes, fez que as suas tranças se juntassem às crinas da montada, agradeceu, em poucas mas gratas palavras, o que Locksley e a sua gente tinham feito por ela.

- Que Deus vos abençoe, brava gente - terminou. - Que Deus e Nossa Senhora vos recompensem por vos terdes arriscado em defesa dos oprimidos. Se a algum de vós, alguma vez, a comida faltar, que se lembre de mim, pois tenho para lha dar; se algum tiver sede, que tenho vinho e cerveja e que, se os normandos vos expulsarem daqui, tenho florestas, onde os meus corajosos salvadores poderão vaguear em total liberdade e onde ninguém lhes perguntará de que arcos partiram as flechas que abateram veados.

- Mil graças, gentil senhora - disse Locksley -, em meu nome e no dos meus companheiros. Ter-vos salvo já foi bastante para nós. Nós, que percorremos as matas, praticamos muita loucura.

O ter-vos salvo compensá-las-á em parte.

com nova vénia, Rowena ia partir, mas, tendo parado um pouco para esperar por Cedric, que se despedia, viu-se perto De De Bracy, prisioneiro. Estava junto duma árvore, com os braços cruzados, meditando gravemente, pelo que Rowena esperou que nela não reparasse. Contudo, ele ergueu os olhos e, percebendo-a, corou de intensa vergonha. Hesitou, mas depois aproximou-se do cavalo, nas rédeas do qual pegou, ajoelhando perante ela.

- Dignar-se-á, Lady Rowena, baixar o seu olhar sobre este cavaleiro cativo... sobre este soldado sem honra?

- Sr. Cavaleiro - respondeu ela -, em empresas como aquela que haveis tentado, a desonra não está na derrota, mas sim na vitória.

- Ainda que a segunda seja mais branda para a alma - disse De Bracy -, que Lady Rowena me perdoe o mal que lhe fiz, mercê da malfadada paixão que me tomou, e depressa verificará como nobremente a saberei servir.

- Perdoo-vos, Sr. Cavaleiro - concordou ela -, como cristã que sou.

- O que quer dizer - atalhou Wamba - que não vos perdoa nada.

- Mas nunca poderei desculpar-vos a dor e o sofrimento que a vossa loucura me causaram - prosseguiu Rowena.

- Soltai as rédeas do cavalo de Lady Rowena - comandou Cedric.

- Pela luz que nos ilumina, só não te trespasso com esta lança, pregando-te ao chão, porque teria vergonha de o fazer.

Sossegai, porém, Maurice de Bracy, que havereis de pagar cara a vossa participação nesta suja tramóia.

- É fácil ameaçar quem está preso - afirmou De Bracy afastando-se. - Também não espanta, pois os Saxões nunca souberam o que eram maneiras.

Cedric, antes de seguir, agradeceu muito em especial ao Cavaleiro Negro, a quem, insistindo, rogou que os acompanhasse até Rotherwood.

- Sei - disse - que vós, cavaleiros andantes, gostais de procurar a sorte com a ponta das vossas lanças e não apreciais terras ou valores. A guerra, porém, é uma amante exigente, e, às vezes, um lar é desejado pelos campeões errantes. Haveis ganho todo o direito aos salões de Rotherwood, nobre cavaleiro. Cedric tem posses bastantes para reparar os estragos da sorte e tudo que possui está ao dispor do seu salvador. Vinde, pois, connosco para Rotherwood, não como convidado, mas como filho ou irmão.

- Cedric já me tornou mais rico - contestou o cavaleiro -, ensinando-me quão virtuosos são os Saxões. A Rotherwood, irei em breve, bravo Saxão. No momento, questões urgentes me impedem de o fazer. Porém, quando por lá passar, terei, quiçá, algo a pedir-vos que constituirá uma prova da vossa generosidade.

- Mesmo sem mo dizerdes, já vo-lo concedi - disse Cedric batendo com a mão na manápula do guerreiro. - Está concedido, mesmo que me custe metade do que tenho.

- Não te comprometas tão ao de leve - respondeu o Cavaleiro Negro. - De qualquer modo, espero vir a fazer-te esse pedido.

Por agora, adeus!

- Quero ainda informar - acrescentou Cedric - que, durante as cerimónias fúnebres do nobre Athelstane, estarei residindo no seu castelo de Conningsburgh, que igualmente estará aberto a todos que ali possam compartilhar do banquete funerário.

Permito-me, ademais e em nome da nobre Edith, mãe do príncipe tombado, dizer que para aqueles que, sem sucesso mas bravamente, lutaram pela salvação de Athelstane de correntes e armas normandas, aquelas portas nunca se cerrarão.

- É mesmo - disse Wamba, já ao lado do patrão. - Vai haver comida da melhor. Pena é que o nobre Athelstane lhe não possa fazer justiça durante o próprio enterro. Mas ele, com certeza, ergueu os olhos para o alto -, está já à mesa do Paraíso e certamente honrando-a.

- Cala-te e marcha - ordenou Cedric com uma irritação pela piada despropositada que somente a recordação da recente abnegação de Wamba não deixou ir mais além.

Rowena despediu-se graciosamente do cavaleiro do aloquete e partiram em direcção da floresta.

Ainda mal tinham começado a andar, quando, atrás deles e vinda de baixo da orla de coníferas marginando a mata, saiu uma procissão que percorreu lentamente o anfiteatro florestal para, depois, tomar a mesma direcção de Rowena e do seu séquito. Os padres do convento próximo, na expectativa das amplas almas que Cedric prometera, acompanhavam um carro, onde jazia o corpo de Athelstane, cantando hinos e caminhando compassadamente, conduzindo-o para o castelo de Conningsburgh, onde seria depositado no jazigo de Hengist, de quem o defunto era remoto descendente. Muitos dos seus vassalos, à notícia do seu passamento, haviam acorrido e seguiam no momento o ataúde, com todas as manifestações exteriores, pelo menos, da maior dor e mágoa. Novamente, como acontecera perante a beldade saxónia, os bandidos se puseram de pé, numa espontânea homenagem, recordando, ao som dos tristes e arrastados cânticos dos frades, os seus camaradas caídos na véspera. Tal tipo de recordações não sói, todavia, perdurar naqueles que vivem uma vida de perigos e aventuras, pelo que ainda a cantoria se escutava e já eles tratavam da divisão do espólio.

- Bravo cavaleiro - disse Locksley para o Cavaleiro Negro -, sem o espírito e a força de quem a nossa empresa talvez não tivesse chegado a bom termo, escolhei deste monte o que quiserdes, quanto mais não seja para vos recordardes da árvore-de-reunião.

- Agradeço essa oferta sincera - agradeceu o cavaleiro. - Peço, pois, autorização para ficar com Sir Maurice de Bracy à minha disposição.

- É teu - respondeu Locksley - e sorte tem, pois ao tirano estava reservado ir engalanar o mais alto galho daquele carvalho, com tantos mercenários como bolotas pendurados a seu lado. Mas, como é teu prisioneiro, está salvo disso, embora tenha assassinado o meu pai.

- De Bracy - bradou o cavaleiro -, estás livre! Parte! Quem te apresou desdenha de ti se vingar. Mas vê como te comportas no futuro, para que o pior não tombe sobre ti. Cuidado, Maurice de Bracy!

De Bracy baixou-se numa profunda e silenciosa vénia, e ia afastar-se, quando um dos homens e depois vários outros iniciaram uma berraria imensa, dele troçando. O orgulhoso cavaleiro parou instantaneamente, deu meia volta e, fazendo peito, exclamou:

- Calai-vos, cachorros! Abafai chamados que não sois capazes de seguir, quando o veado-real acossado se resolve a vender a vida cara! Eu, De Bracy, desprezo a vossa troça como desprezaria o vosso aplauso. Ide para as vossas tocas e covis, bandidagem! Silenciai-vos. Dum cavaleiro ou dum nobre somente podeis falar quando ele se encontrar a uma légua das vossas luras.

Este inoportuno desafio poderia ter significado para De Bracy uma revoada de flechas, não fora a imediata e imperiosa interferência do chefe. Entretanto, o cavaleiro pegou nas rédeas dum dos muitos cavalos, vindos das cavalariças de Front-de-Boeuf, que ali pastavam e que faziam parte do saque, montou-o e desapareceu na mata.

Acalmado o alvoroço provocado pelo incidente, o bandido-chefe retirou do pescoço o valioso boldrié e a trompa que, com a sua perícia, ganhara com o arco em Ashby, e disse para o cavaleiro da barra e do aloquete:

- Nobre cavaleiro, se não desdenhais fazer o favor de aceitar a trompa que um inglês livre traz, peço-vos que a aceiteis como recordação do vosso garboso comportamento... e se alguma vez precisardes, como sói acontecer com cavaleiros andantes, nas florestas entre o Trent e o Tees, de auxílio, tocai três palavras(1), assim: Uó-si-hoá!, e pode ser que ele prontamente surja. - Demonstrando, entoou a trompa até o cavaleiro ter fixado o chamado.

- Mil mercês pela tua oferta, meu bravo - disse o cavaleiro -, pois melhor ajuda que a tua e dos teus nunca eu conseguirei se alguma vez me vir embaraçado. - Tocou ele próprio a trompa até fazer estremecer o arvoredo.

- Tão forte e bem tocaste - fez o arqueiro - que nada me custa dizer que sabes tanto das coisas da floresta como das da guerra. Já foste, tenho a certeza, caçador de cervos.

Camaradas decorai estas palavras que ouvistes! Formam o chamado do Cavaleiro Negro do Aloquete. Que quem as escute não perca tempo em voar em seu socorro. Quem o não fizer é corrido do bando às chicotadas com a corda do próprio arco.

- Viva o chefe! - gritaram os fora-da-lei. - Viva o Cavaleiro Negro do Aloquete! Que cedo nos chame para que veja como servi-lo saberemos!

Locksley iniciou nessa altura a partilha do saque, o que fez com a mais louvável das equidades e toda a imparcialidade. Pôs de lado um décimo para a Igreja e caridade, uma parte ficou como uma espécie de fundo geral e outra para as viúvas e filhos dos que tinham perecido, *1. As notas das trompas denominavam-se palavras, sendo nos velhos tratados de caça representadas não por caracteres musicais, mas sim por palavras escritas.

ou para missas pelas suas almas, caso não tivessem família. A parte restante foi dividida entre os salteadores de acordo com a respectiva categoria e mérito. Nestes casos, as decisões do chefe foram dadas com a maior argúcia e inteiramente acatadas.

o Cavaleiro Negro surpreendeu-se ao verificar que gente vivendo à margem da lei era, no seu conjunto, tão bem e correctamente dirigida. Tudo quanto viu e apreciou lhe fez crescer a admiração que já sentia pelo chefe Tendo-se os homens retirado com os respectivos quinhões e a parte comum levada pelo tesoureiro e um bandido de elevada estatura, certamente para esconderijo seguro, restava a porção da igreja.

- Quem me dera - disse o chefe - novas do meu alegre capelão!

Ele que nunca falta quando há viandas a abençoar ou saque a repartir... É, além do mais, seu dever cuidar das dizimas resultantes do nosso bem sucedido empreendimento, ofício que o desculpa de algumas pequenas irregularidades canónicas. Tenho também um santo colega dele prisioneiro perto daqui e queria que um frade me ajudasse a livrar-me dele. Tenho, contudo, muito temor no que respeita à sua sorte.

- Isso causar-me-ia grande pesar - observou o Cavaleiro Negro, até porque lhe estou devendo uma feliz e hospitaleira noite na sua cela. Vamos até às ruínas do castelo. Pode ser que nos digam qualquer coisa acerca dele.

Conversavam desta maneira quando uma grande aclamação anunciou a chegada de alguém que, pela voz estentória, viram logo ser a daquele que julgavam perdido.

- Abram-se alas, rapaziada! - exclamou ele -, alas para o vosso pai e para o prisioneiro que traz. Dai-me as boas-vindas de novo! Aqui regresso, ufano como a água com a presa nas unhas.

Abrindo caminho por entre a aglomeração, no meio de gargalhadas e ditotes amigáveis, surgiu, triunfalmente magnífico, com a enorme partasana numa mão e a outra segurando uma corda, amarrado à ponta da qual vinha o infeliz Isaac de Iorque, dobrado de dores e terror, o frade berrando:

- Onde está Allan-a-Dale para me dedicar uma balada ou, ao menos, uns versos? Por Santo Hermenegildo, o patife nunca aparece quando há um mote merecedor de rimas?

- Reverendo padre - disse o capitão dos ladrões -, disseste uma missa muito regada, por muito cedo que seja. Em nome de São Nicolau, quem trazes aí?

- Alguém que a minha lança e espada capturaram, nobre capitão - respondeu o frade de Copmanhurst -, ou, melhor, um prisioneiro do meu arco e da minha alabarda. Na realidade, salvei-o de cativeiro bem pior, Fala, Judeu... Não é verdade que te retirei das fauces de Satanás? Não te ensinei já o credo, o pater e a Ave Maria?

Não terei eu passado uma noite inteira contigo bebendo e explicando-te os mistérios?

- Por amor de Deus! - implorou o Judeu. - Não haverá ninguém que me livre deste louco... deste santo homem?

- O quê, Judeu? - ameaçou o frade. - Abjuras? Lembra-te que se tornares à tua falsa fé, ainda que não sejas tão tenro como um leitão (comia um, agora mesmo), não deves ficar mal bem assadinho. Acalma-te, Isaac, e diz comigo: Ave Maria...

- Não queremos profanações aqui, padre - disse Locksley.

Conta-nos, antes, onde é que topaste com este prisioneiro.

- Por São Dunstan, encontrei-o onde esperava melhor mercadoria. Fui lá para o fundo das caves para ver o que se poderia salvar, pois, ainda que um copo de vinho queimado com especiarias seja bebida imperial, seria uma pena deixar desaparecer tanto vinhinho duma só vez. Já arranjara uma dosezinha dele e ia pedir auxílio a alguns destes malandros aqui à volta, sempre prontos a colaborarem em boas acções, para que me ajudassem a dar cabo dele, quando me vi frente a frente com uma grande porta. Ultrapassei-a e fui encontrar lá dentro uma quantidade de cadeias ferrugentas e este judeu, que se declarou meu prisioneiro incondicional. Fatigado com o esforço físico para salvar este descrente, refresquei-me com uns copitos e preparava-me para voltar, quando ouvi estrondos atrás de estrondos e crepitar atrás de crepitar, que vinham duma torre exterior a ruir (que Nossa Senhora absolva as mãos que tão fracamente a construíram) e barrando-me a passagem.

Seguiu-se o estampido de outra torre tombando... Pensei que a minha vida acabaria ali e, entendendo ser uma desonra para a minha profissão passar para o outro mundo ao lado dum judeu, ergui a alabarda para lhe rebentar com a cabeça. Tive, porém, pena dele e achei por bem pôr de parte o pau e empregar armas espirituais em seu lugar. Na verdade, e graças a São Dunstan, a semente caiu em terra fértil. Só que, tendo de falar com ele a noite inteira e estando, por assim dizer, em jejum (as pingas com que o agucei nem contam), a minha cabeça ficou meio aturdida. Acabei exausto. Gilbert e Wibbald dirão em que estado me acharam. Rigorosamente exausto.

- É verdade - entoou Gilbert -, pois quando retirámos os escombros e demos... por São Dunstan!... com a escada do calabouço e mais além com uma bota de vinho seca, o Judeu estava quase morto e o frade mais que... exausto, como ele lhe chama.

- Patifes! Mentirosos! - retorquiu o frade, melindrado. - Fostes vós e os beberrões dos vossos companheiros que tudo beberam, chamando-lhe um figo. Seja eu um pagão se tudo não guardara para a gorja do chefe! Mas que interessa? O Judeu converteu-se, entendendo tudo quanto lhe expliquei. Se não foi tudo, foi quase tudo tão bem quanto eu o percebo.

- Judeu - disse o capitão -, isto é verdade? Renunciaste à tua descrença?

- Que alguém me faça justiça - implorou o Judeu -, pois não entendi uma única palavra das muitas que este reverendo prelado me endereçou durante esta pavorosa noite. Ai de mim!

Encontrava-me tão preocupado, cheio de sofrimento e dor, que, mesmo que o patriarca Abraão me viesse pregar, fá-lo-ia para ouvidos moucos.

- Mentes, Judeu e tu sabe-lo! - rosnou o frade. - Recordar-te-ei uma palavra somente da nossa entrevista:

prometeste dar tudo quanto tens para a nossa santa ordem...

- Valha-me a Santíssima Promessa - gritou o Judeu, mais amedrontado do que nunca -, se vez alguma eu disse tal coisa.

Ai! Sou velho e pobre e, temo-o, sem filhos. Tende misericórdia de mim e deixai-me partir!

- Não! - interpôs o frade. - Se retractas o voto que fizeste, terás de penar por essa atitude - Levantou a alabarda e tê-la-ia descarregado sobre os ombros do Judeu se o Cavaleiro Negro não tivesse aparado o golpe. É claro que a fúria do padre se virou logo para ele.

- Por São Tomás de Kent! - bradou. - Que eu seja teu criado se não te dou uma ensinadela, Sr. Cavaleiro Preguiçoso, que te metes onde não és chamado.

- Eh, não te zangues comigo! - acalmou-o o cavaleiro. - Recorda-te que prometemos amizade e camaradagem para todo o sempre.

- Não me lembro de nada, meu peralta metediço!

- Talvez tenhas esquecido isso - disse o cavaleiro, que parecia gostar de provocar o seu anfitrião do dia anterior -, mas devias lembrar-te de que por minha causa (e já não falo nas tentações da gula) quebraste os teus votos de temperança e vigília.

- Correcto - concordou o frade, mostrando-lhe o seu grande punho. - Por isso mesmo te darei um grande murro.

- Não quero prendas dessas - informou o cavaleiro -, mas guardarei essa ameaça de bofetada(2) como um empréstimo que te pagarei.

*2.. A troca de bofetadas com o padre não estava inteiramente fora da maneira de ser de Ricardo I, caso os romances falem verdade. Num deles, bastante interessante, aliás, e a propósito das suas aventuras, na Terra Santa e durante o seu regresso de lá, conta-se como utilizou as suas qualidades de Pugilista quando prisioneiro na Alemanha. o seu opositor seria o filho do carcereiro, que, imprudentemente, o desafiara para um combate desse género. O rei avançou como lhe competia e apanhou um soco que o abalou, mas, logo a seguir, com o punho, que encerara anteriormente (prática desconhecida, creio, dos cavalheiros que, hoje, se dedicam a tal desporto), desferiu tal murraça no ouvido do seu adversário, que o matou logo ali.

Ver em, Ellis Specimens of English Romance, o do Coração de Leão.

Os juros são tão altos como os que estavam a ser pedidos ao prisioneiro que trouxeste.

- Isso resolve-se já - propôs o frade.

- Eh! - interveio o chefe. - para onde vais tu, frade louco?

Andar à pancada debaixo da árvore da reunião?

- À pancada, não - foi a resposta do Cavaleiro Negro. - Apenas uma ligeira troca de amigáveis cortesias... Bate primeiro, frade, se ousas, que eu, se aguentar, te farei aguentar o meu, a seguir.

- Gozas de vantagem com esse panelão de ferro enfiado na cabeça - disse o religioso, - Mas que importa? Vais a terra como o Golias!

O frade arregaçou a manga até ao cotovelo e, com toda a força que tinha, mandou um soco ao cavaleiro capaz de abater um boi.

O oponente aguentou-o, enquanto todos à volta saudavam, já que os murros do frade eram conhecidos, tendo-os quase todos, se não todos, sentido alguma vez, a sério ou a brincar.

- Agora, padre - disse o cavaleiro -, se dispus de vantagens na cabeça, nenhuma te darei com o punho. Aguenta, se és gente! - Genam meam dedi vapulatori, aqui está o meu rosto, e, se me fizeres mexer, concedo-te de bom grado o resgate, do Judeu.

O frade, na sua vanglória, falara assim, mas quem pode fugir à sua sorte? O murro do cavaleiro foi tal e tão forte que o frade virou de pernas para o ar, para espanto dos presentes.

Todavia, levantou-se sem se mostrar zangado ou ressentido.

- Irmão - falou ele -, devias ter usado um pouco mais de discrição. Caí como um sapo. Se me tivesses partido o queixo, as minhas missas passariam a ser muito mancas, como mancas são as melodias do gaiteiro a quem amarraram os dedos. De qualquer modo, eis a minha mão como prova de que não mais bulharei contigo, já que perdi a aposta. Acabemos com a rixa e estudemos o resgate do Judeu, que, como o leopardo, que nunca perde as pintas, nunca deixa de ser judeu.

- O padre - observou Clement - não está tão seguro da conversão do Judeu, desde que levou aquele murro.

- Vai para o... Que sabes tu, patife, de conversões? Já não existe respeito? Tudo manda, ninguém obedece? Digo-te, amigo, que estava um pouco zonzo quando apanhei o soco do bom cavaleiro, senão não teria caído. Se tornas a zombar de mim, apanhas para aprenderes!

- Calma! Todos! - ordenou o capitão. - E, quanto a ti, Judeu, estuda o valor do teu resgate. É escusado informar-te que a tua raça é tida como maldita pelos cristãos, pelo que a tua presença entre nós nos incomoda. Vai pensando enquanto eu examino outro género de prisioneiro.

- Capturaram-se muitos homens de Front-de-Boeuf? - perguntou o Cavaleiro Negro.

- Nenhum valendo resgate - respondeu o chefe. - Uma data de covardolas que soltámos para que procurassem novo patrão... já nos tínhamos vingado e com bom lucro. Eles nada valiam. o prisioneiro de que falo é coisa fina: um fradeco que veio a cavalo ver o seu superior e que, pelos arreios e vestimentas... Aí vem o respeitável prelado, tão atrevido como uma pega...

Na verdade, ladeado por dois salteadores, era conduzido até ao trono do fora-da-lei o nosso conhecido e amigo prior Aymer de Jorvaulx.