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Ivanhoe.  Walter Scott
Capítulo 24.
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Cortejá-la-ei como o leão corteja a leoa.
- Douglas

Ao mesmo tempo que as cenas atrás relatadas decorriam noutros sectores do castelo, Rebecca, a judia, aguardava o seu destino num pequeno torreão, para onde fora levada pelos seus raptores mascarados. Dentro da diminuta cela encontrava-se uma velha sibila resmungando uma canção saxónica a compasso com o fuso que fazia rodar. A bruxa levantou a cabeça à entrada de Rebeca, lançando à linha judia um daqueles olhares de perversa inveja que a velhice e a fealdade, carregadas de maus pensamentos, descarregam sobre a juventude e a beleza.

- Tens de sair daqui, barata caquéctica - disse um dos homens.

- O nosso nobre amo assim o exige. O quarto é para esta formosa hóspede.

- Ai! - gemeu a velha -, é assim que se pagam os bons serviços. Ainda me lembro quando uma palavra minha fazia saltar da sela e perder o emprego a homens de armas tão bons como o melhor de vós, enquanto agora qualquer moço de estrebaria, como tu, me manda levantar e ir-me embora.

- Boa dama Urfried - disse outro dos homens -, não discutas e sai. os mandos do patrão são para ser cumpridos a correr. o teu tempo já passou e estás no teu ocaso. És exactamente como um velho cavalo de batalha que ceivaram finalmente no meio da urze seca... Já deste muitos passos de cortesia, mas hoje nada mais podes realizar do que um trôpego esquipar. Vamos, desaparece!

- Que as fadas transformem ambos em cães - praguejou a velha - e que a vossa campa seja cavada num canil! Que Zernebock, o pérfido demónio, vos arranque os membros se conseguirdes fazer-me ir lá para fora antes de ter acabado de fiar este linho na minha roca.

- Diz isso ao nosso amo, demónio - exclamou o homem, retirando-se e deixando Rebeca em companhia que certamente não apreciava.

- Que raio estão eles a fazer agora? - perguntou para si mesma a bruxa, olhando de revés e maldosamente para a rapariga. É fácil de adivinhar... Olhos brilhantes, caracóis negros, pele como papel antes de o padre o manchar com os seus unguentos...

Ai!, é simples adivinhar porque a mandaram para este solitário torreão, onde os gritos se ouvem tão bem como se viessem de cento e cinquenta metros abaixo do chão. Terás mochos por companhia, minha beleza, e os pios deles chegarão tão longe como os teus berros. Nem é de cá - acrescentou, notando o vestido e o turbante de Rebeca. - De que país és tu?

Sarracena? Egípcia?... Por que não respondes? Choras! Por que não falas?

- Não te zangues, piedosa mãe - disse Rebeca.

- É escusado dizeres mais - exclamou Urfried -; as raposas conhecem-se pelo rabo e as judias pelo falar.

- Por piedade - implorou Rebeca -, diz-me o que devo esperar como resultado da brutalidade que me trouxe até aqui. Será a minha vida que pretendem, para que expie pela minha crença?

Dá-la-ei de boa vontade.

- A tua vida, querida? - repetiu a sibila. - Que prazer lhes daria o tirarem-ta? Acredita-me: a tua vida não corre perigo.

Serás usada como, em tempos, acharam por bem usar uma nobre donzela saxónia. E terá uma judia como tu de se queixar por isso? Olha para mim. Era tão jovem e duas vezes mais bela do que tu quando o Front-de-Boeuf, o pai de Reginald, e os seus normandos invadiram este castelo. O meu pai e os seus sete filhos defenderam o que era deles andar a andar, quarto a quarto. Nem um só quarto, nem um só degrau, ficou sem sangue deles. Mas morreram. Morreram todos, e ainda os seus corpos não se tinham arrefecido e o seu sangue coagulado e já eu era presa e objecto de troca dos vencedores.

- Não existe possibilidade de ajuda? Não há meios de fuga?

perguntou Rebeca. - Recompensaria fabulosamente o teu auxílio.

- Não penses nisso - disse a bruxa. - Daqui não há saída se não para as portas da morte... e será tarde, demasiado tarde acrescentou, abanando a cabeça grisalha. - Mesmo quando essas se abrissem para nós... Será, no entanto, agradável saber-se que deixaremos neste mundo outros que sofrerão tanto como nós.

Passa bem. Judia, ou cristã, a tua sorte será igual, pois tens de enfrentar quem não possui nem escrúpulos, nem piedade.

Passa bem, repito. Acabei de fiar... A tua tarefa ainda está por principiar.

- Fica, pelo Céu, fica! - pediu Rebeca. - Fica, nem que seja para me amaldiçoar e injuriar... A tua presença já constituirá um pouco de protecção.

- A presença da Virgem Maria não me serviu de protecção - respondeu-lhe a mulher. - Ei-la, ali. - Apontou para uma imagem da Virgem. - Vê se ela é capaz de te salvar do que te espera.

Saiu com o rosto contorcido numa espécie de ricto escarnecedor que ainda a tornava mais repulsiva do que aquilo que já era.

Cerrou a porta, deixando Rebeca a ouvir-lhe as pragas atiradas contra os degraus íngremes que desciam do torreão.

Rebeca, agora, apenas podia aguardar um destino bem pior do que o de Rowena. Realmente, que probabilidades existiriam de alguém estender a mesma meiguice ou cerimónia, ainda que simuladas, dirigidas à herdeira saxónia, a um membro da raça oprimida? No entanto, a judia estava melhor preparada, quer pela sua força de vontade, quer pelos seus hábitos de pensamento, a enfrentar os perigos vindouros. Desde tenra idade, de temperamento forte e observador, sem que a pompa e a riqueza que o pai ostentava dentro de portas e aquelas que se notavam nas casas de outros hebreus abastados lhe tivessem alguma vez vendado os olhos quanto às circunstâncias precárias em que os da sua gente viviam. Como Dâmocles, no célebre banquete, Rebeca sempre sentira, dentro de todo esses esplendores, a espada que, presa por um cabelo, pendia sobre as cabeças do seu povo. Estas conclusões tinham dominado e levado para um plano de raciocínio mais ponderado a sua maneira de ser, que, noutras circunstâncias, talvez se orientasse para a altivez, sobrançaria e teimosia.

De seu pai tomara o exemplo e recebera recomendações para tratar cortesmente todos que dela se aproximassem. Não conseguia, é certo, imitar-lhe os extremos de subserviência, visto a mesquinhez mental e o constante estado de tímida apreensão que lhe são inerentes lhe serem completamente desconhecidos. Comportava-se com orgulhosa humildade, submetida à dolorosa situação que ocupava como uma filha da raça maldita, mas simplesmente consciente de merecer posição bem mais alta, em virtude dos seus méritos, do que aquela que preconceitos religiosos lhe deixavam aspirar.

Deste modo, sempre pronta a esperar a adversidade, adquirira grande firmeza para actuar quando nela envolvida. O momento exigia toda a sua presença de espírito e, por isso, tudo fazia para o fortalecer.

Primeiramente inspeccionou o apartamento, que poucas esperanças de fuga ou protecção oferecia. Não existia nele qualquer passagem secreta ou porta falsa, e, fora a entrada por onde viera, parecia ser totalmente rodeado pela parede exterior do torreão. A porta não tinha do lado de dentro qualquer fecho ou barra. A única janela dava para um pátio ameado acima do torreão, que, à primeira vista, deu a Rebeca algumas ideias de poder fugir por ali. Depressa, porém, verificou que não permitia qualquer ligação com o resto das muralhas, não passando duma varanda fortificada, isolada e, como era usual, com um parapeito com seteiras, onde se poderiam dispor alguns arqueiros para a defesa do torreão e do muro do castelo daquele lado.

Não havia, pois, outra hipótese que não a resistência passiva e a grande confiança no Céu, própria das personalidades perfeitas e generosas. Rebeca, ensinada a interpretar erradamente as promessas das Escrituras ao povo eleito, não caíra, mesmo assim, no erro de crer ter chegado o momento do julgamento ou pensar que os filhos de Sião seriam, um dia, chamados a receber tudo o que os gentios já gozavam. para já, tudo lhe mostrava tratar-se duma altura de castigo e provação, sendo dever seu aguentá-los sem pecar. Mentalizada para se ver como uma vítima do azar, Rebeca, que se conhecia, encheu-se de forças para enfrentar os perigos que, de certeza, viriam.

A prisioneira, apesar de tudo, estremeceu e perdeu a cor quando escutou passos na escada e a porta do torreão se abriu lentamente, deixando passar um homem alto, vestido como os bandidos que os haviam atacado. O barrete, enterrado até aos sobrolhos, cobria-lhe parte da face, sendo o resto tapado pela ponta do manto que segurava. Neste disfarce, aparentemente destinado a encobrir a realização duma acção de que ele próprio se envergonhava, deixou-se ficar parado perante a amedrontada presa. Por muito reles que fosse a sua indumentária, tudo indicava estar embaraçado quanto à forma de expor as razões que o haviam trazido até ali, dando tempo a Rebeca para se antecipar às suas declarações. Retirou duas pulseiras e um colar valioso, que ofereceu ao suposto bandoleiro, na suposição de que, amansando a sua cobiça, ganharia algo para si.

- Tomai-os - disse -, bom amigo, e, por Deus, sede compassivo para comigo e para com o meu idoso pai. Estas jóias são valiosas, mas autênticos nadas comparadas com o que ele vos entregará se sairmos deste castelo sãos e salvos.

- Bela flor da Palestina - respondeu o bandido -, estas pérolas, de invulgar oriente, são inferiores à brancura dos vossos dentes. Os diamantes rebrilham, mas não tanto como os vossos olhos, e, desde que me dediquei a este mister, sempre preferi a beleza à riqueza.

- Não erreis - exclamou Rebeca. - Tomai o resgate e tende piedade! O ouro trar-vos-á compensação, enquanto de nós abusar vos traria remorsos apenas. O meu pai saciará os teus maiores desejos, e, se souberdes agir com sabedoria, podereis, com o que vos pagaremos, retornar à sociedade normal, quiçá ser perdoado pelos erros passados e elevado até onde outros erros não serão mais precisos de cometer.

- Bem falado - retorquiu o fora-da-lei em francês, já que o prosseguimento duma conversa em saxão, língua que Rebeca utilizara desde o começo, lhe era difícil -, mas ficai sabendo, doce lírio do vale de Bacá, que o teu pai já se encontra, neste momento, nas mãos dum poderoso alquimista que sabe transformar em ouro e prata mesmo as grades ferrugentas dum calabouço. O venerando Isaac entrará num alambique, que dele destilará tudo a que quer bem, sem intervenção de pedidos meus ou ameaças tuas. O teu resgate será pago em amor e beleza, até porque outra moeda não aceitarei.

- Não és um fora-da-lei! - disse Rebeca no mesmo idioma que ele empregara. - Nenhum recusaria uma oferta como a que fiz.

Nenhum fora-da-lei fala como falaste. Não és um fora-da-lei, mas, sim, um normando... talvez um normando nobre de nascença.

Sê-o também nos teus actos e liberta-te dessa máscara de violência ultrajante!

- E tu, que tão bem sabes adivinhar - exclamou Brian de Bois-Guilbert deixando cair o manto -, não és uma autêntica filha de Israel, mas em tudo, fora a juventude e a beleza, uma bruxa de Endor. Não sou, de facto, um fora-da-lei, bela rosa de Saarão. Sou também daqueles que mais depressa cobririam o teu belo colo e braços de pérolas e diamantes em vez de tos roubar.

- Que mais podes querer de mim - perguntou Rebeca - senão a minha riqueza? Nada temos em comum... És cristão e eu sou judia. A nossa união seria contrária aos mandamentos da Igreja e da Sinagoga.

- Dessa forma seria - riu-se o Templário - se eu fosse casar com uma judia! Despardieux! Nem que se tratasse da rainha de Sabá. Saberás, ademais, doce filha de Sião, que se o mais cristão dos reis me oferecesse a mais cristã das suas filhas, com o Linguadoque como dote, eu não poderia desposá-la. É contra os meus votos amar qualquer donzela, a não ser da maneira como te vou amar. Repara na cruz da minha santa ordem.

- Atreves-te a invocá-la, num momento como o presente?

lembrou-lhe Rebeca.

- Nada tens com isso - respondeu o Templário -, pois não acreditas no abençoado símbolo da nossa salvação.

- A minha crença é a que os meus pais me ensinaram - informou Rebeca. - E que Deus me perdoe se sigo fé errada! Mas vós, Sr.

Cavaleiro, qual é a vossa, quando invocais sem escrúpulos o que dizeis considerar mais sagrado do que tudo, precisamente na altura em que vos preparais para transgredir o mais solene dos vossos votos como cavaleiro e como religioso?!

- Pregaste bem e com solenidade, ó filha de Sirac! - observou o Templário -, mas, gentil eclesiástica, os teus limitados preconceitos judaicos não te deixam reconhecer o nosso grande privilégio. O casamento seria para um templário um crime continuado, enquanto quaisquer loucuras menores que façam ser-nos-ão perdoadas e prontamente absolvidas, durante o próximo capítulo da preceptoria da nossa ordem. Nem o mais sábio dos monarcas, nem o seu pai, cujos exemplos deves conhecer, gozavam de privilégios tão amplos como nós, pobres soldados do Templo de Sião, que o conseguimos pelo esforço na sua defesa. O protector do Templo de Salomão pode exigir o mesmo que Salomão exigia.

- Se lês as Escrituras - recordou-lhe Rebeca -, e as vidas dos santos, isso apenas te serve de justificação para a tua depravação e devassidão. O teu crime compara-se ao de quem extrai venenos de plantas sadias e úteis.

Os olhos do Templário faiscaram à repreensão.

- Escuta, Rebeca. Até aqui falei de bons modos, mas, a partir de agora, a minha voz será a do conquistador. Apresei-te com o meu arco e as minhas frechas... estás, pela lei de todas as nações, sujeita à minha vontade. Não cederei um ponto que seja dos meus direitos, nem me absterei de tomar pela força o que tentares recusar-me.

- Espera! - gritou-lhe Rebeca. - Espera e ouve-me antes de cometeres tão mortal pecado! Podes, certamente, dominar-me, já que Deus fez as mulheres fracas, entregando a sua defesa à generosidade dos homens. No entanto, farei que toda a Europa, duma ponta à outra, tome conhecimento da tua torpeza, Templário. Servir-me-ei da superstição dos teus irmãos, em vez da compaixão, que, de certeza, me negariam. Todas as preceptorias, todos os capítulos da tua ordem, saberão que, como um herege, pecaste com uma judia. Aqueles que não tremerem ao saber do teu pecado amaldiçoar-te-ão por teres desonrado a cruz que usas chegando-te a uma rapariga da minha raça.

- És esperta - disse o Templário, bem consciente da verdade do que ela afirmara, pois a sua ordem considerava de forma tão categórica actos como o que se preparava para levar a cabo, que, por vezes, os castigava com a própria degradação. - És mesmo esperta - repetiu. - Só que as tuas queixas teriam de ser feitas em voz muito alta para que pudessem ir além dos muros deste castelo, dentro dos quais murmúrios, lamentos e brados por justiça se esvaem de igual modo. Só uma coisa te salvará, Rebeca. Submete-te ao teu destino... abraça a nossa religião e subirás tão alto que muitas damas normandas terão de ficar abaixo de ti em pompa e beleza, tu, a favorita da mais forte lança entre aquelas que defendem o Templo.

- Submeter-me ao meu destino!? - perguntou Rebeca. - E, Deus do Céu, que destino é esse? Tomar a tua religião? E que religião é essa, que permite no seu seio vilões como tu? Tu, a melhor das lanças dos Templários? Covarde cavaleiro! Falso religioso! Cuspo em ti e desprezo-te! O deus de Abraão abriu um caminho para a sua filha escapar a esta infâmia sem limites.

Acabando de proferir estas palavras, abriu a janela gradeada que dava para o pátio e, com agilidade, saltou-lhe para o parapeito, a medonha altura do solo. Sem esperar uma atitude tão drástica e desesperada, Bois-Guilbert nem teve tempo para a evitar ou sequer travá-la. Quando fez menção de avançar, a rapariga, agora perfeitamente imóvel, gritou:

- Deixa-te ficar onde estás, orgulhoso Templário, ou, se for essa a tua vontade, caminha, mas lembra-te de que um só passo mais e saltarei para o vácuo. O meu corpo esfacelar-se-á nas pedras, tornando-se irreconhecível, mas ter-se-á salvo de toda a tua brutalidade!

Juntando as mãos, ergueu-as como pedindo aos Céus piedade para com a sua alma. O Templário hesitou e a sua audácia, que nunca dó ou piedade haviam abrandado, cedeu perante a admiração por tão invulgar coragem.

- Desce - disse -, rapariga impetuosa! Juro-te pelo Céu, pelo mar e pela Terra que não te molestarei.

- Não confio em ti - respondeu Rebeca -, ensinaste-me a conhecer as virtudes da tua ordem. A próxima reunião de preceptoria absolver-te-á dum juramento que apenas se referia à honra e desonra duma miserável donzela judia.

- És injusta! - disse o Templário com fervor. - Juro-te pelo meu nome, pela cruz que trago ao peito, pela espada à minha cinta, pelo antigo brasão dos meus maiores, juro-te que nada te farei. Se não pensas em ti, lembra-te do teu pai. Posso ser seu amigo, e aqui dentro ele bem necessita de alguém poderoso...

- Infelizmente - reconheceu Rebeca -, sei ser assim. Mas poderei eu confiar em ti?

- Que o meu escudo seja dependurado às avessas e o meu nome para sempre desonrado - disse Bois-Guilbert - se vieres a ter alguma razão de queixa contra mim! Já infringi muitas leis e mandamentos, mas nunca a minha palavra.

- Aceito a tua palavra - disse Rebeca - por agora. - Descendo do peitoril, não se afastou, contudo, demasiado do vão. - Aqui fico - informou. - E tu, se tentares diminuir a distância entre nós, já sabes que esta donzela judia não hesita entre entregar a sua alma a Deus ou dar a sua honra a um templário.

Esta exposição firme e resoluta, condicente com toda a sua expressiva beleza, emprestava à sua atitude de maneiras e dignidade algo fora deste mundo. O seu olhar não vacilava, o seu rosto não perdera a cor, durante aqueles instantes tão tremendos. Pelo contrário, a certeza de ter o próprio destino nas mãos, podendo fugir à infâmia recorrendo à morte, colorizara-lhe a face, acrescera-lhe fulgor aos olhos.

Bois-Guilbert, orgulhoso de si mesmo e bem disposto, pensou que jamais vira ninguém tão belo, tão vivo e tão imponente.

- Que haja paz entre nós, Rebeca - propôs. - Paz, se a desejas, mas a distância.

- Não tens de ter medo - garantiu-lhe Bois-Guilbert.

- Não, não te temo, graças a quem construiu esta torre tão alta de causar vertigens e da qual ninguém pode saltar e sobreviver. Graças a ele e ao deus de Israel. Não, não te temo.

- Continuas sendo injusta para comigo - disse o Templário.

pela Terra, pelo mar, pelo Céu, persistes na tua injustiça.

Não sou, por natureza, a pessoa dura e egoísta e implacável que viste em mim. Foram as mulheres que me ensinaram o que é a crueldade e, por isso, é sobre elas que a exerço, Mas não sobre as que são como tu. Escuta, Rebeca: cavaleiro algum jamais empunhou a sua lança tão carregado de amor do que Bois-Guilbert. Ela, filha dum barãozeco que de seu possuía somente uma torre em ruínas, uma vinha improdutiva e algumas léguas de terreno estéril nas Landes, perto de Bordéus, era, porém, bem conhecida em todos os locais onde feitos de armas se praticassem, o seu renome era maior que o de muitas damas cujo dote era um condado inteiro. Sim - prosseguiu, andando para lá e para cá na pequena plataforma onde se encontrava, excitado e quase esquecido da presença de Rebeca -, sim, os meus feitos, os perigos que corri, o sangue que verti, levaram o nome de Adelaide de Montemare, desde a corte de Castela, até à de Bizâncio. E qual foi o meu pago? Quando regressei, coberto de glória tão duramente conquistada, fui encontrá-la casada com um fidalgote gascão, cujo nome dificilmente alguém conheceria para lá do seu desprezível domínio! Amava-a e ferozmente me vinguei da promessa que não cumprira. A minha vingança, contudo, apossou-se de mim, e, desde aquele dia, separei-me da vida sem que o seu peso - não, não posso ter um lar - possa ser mais aceitável ao lado duma esposa carinhosa.

Na velhice não terei companhia. A minha campa será solitária e de mim não haverá descendentes podendo orgulhar-se do antigo nome de Bois-Guilbert. Depus aos pés do meu superior o meu livre-arbítrio, o privilégio da independência. O Templário é um servo em tudo, na denominação. Não pode possuir terras e bens e vive, move-se e respira sempre de acordo com a vontade de outrem.

- Deus meu! - exclamou Rebeca. - Que vantagens há para recompensar tão completo sacrifício?

- O poder da vingança - replicou o Templário - e a possibilidade de se dar largas à ambição.

- Fraca recompensa é essa - observou Rebeca - para quem desiste do que mais caro existe para a humanidade.

- Tal não afirmes, rapariga - bradou o Templário. - A vingança é o prazer dos deuses! E se, como dizem os padres, eles o reservaram, é porque o prazer é demasiado grande para que mortais dele possam auferir também. E a ambição! A ambição é a tentação que nem a promessa da bem-aventurança celeste consegue perturbar. - Parou um momento, após o que acrescentou: - Rebeca! Quem prefere a morte à desonra tem de ser de espírito altivo e poderosíssimo. Tens de ser minha!...

Não, não fujas - pediu. Terás de o ser, sim, mas com o teu consentimento e segundo os teus termos. Terás de aceder a compartilhar comigo as minhas esperanças, que são maiores do que aquelas que se avistam do alto dum trono. Ouve antes de responderes e pondera antes de recusares. O Templário perde, como afirmaste, o seu poder de livre-arbítrio, mas transforma-se num elemento e num braço dum corpo tão poderoso e possante que, frente a ele, até Os tronos estremecem. Ele é como uma pinga de chuva que se junta e mistura com o oceano imenso e indomável, capaz de romper penedos e tragar armadas inteiras. Nesta poderosa ordem, o lugar que ocupo não é dos menores. Sou já um dos comandantes-chefes e posso perfeitamente aspirar, um dia, a tornar-me grão-mestre. os pobres soldados do Templo não só porão os seus pés nos cachaços dos monarcas (qualquer monge de sandálias pode fazê-lo), mas ainda, com os seus pés recobertos de malha de aço, se alçarão aos seus tronos. As nossas guantes arrancarão os ceptros que os reis seguram. Nem o reino do Messias, que vós aguardais em vão, oferecerá às vossas tribos dispersas tanto poder como aquele que a minha ambição quer atingir.

Sonhava com um espírito elevado para com ele a repartir.

Encontrei-o em ti!

- E fazeis essas afirmações a uma mulher do meu povo?

surpreendeu-se Rebeca. - Pensai melhor...

- Não respondas - tornou a dizer-lhe o Templário - lembrando as diferenças entre os nossos dois credos. Nos nossos conclaves mais secretos vemos tudo isso como historinhas de fadas. Não creias que continuamos, como cegos, acreditando nas loucas baboseiras dos nossos fundadores, que trocavam os prazeres terrenos pelo gosto de se martirizarem, morrendo de fome e de sede, pestes e espadas brandidas por selvagens, ao mesmo tempo que defendiam um árido deserto, apenas com valor para olhos iludidos. Cedo a nossa ordem estendeu melhor e mais longe as suas vistas, encontrando maiores prémios para os nossos sacrifícios. As nossas possessões enormes, em todos os reinos da Europa, a nossa fama como militares, que nos abre as portas da cavalaria de todos os países cristãos... tudo isto se destina a fins com os quais os nossos fundadores nem sequer sonhavam e que, igualmente, escondemos das pessoas fracas, que entram para a nossa ordem para seguir sem pensar os seus princípios arcaicos, cujas superstições os transformam em passivos instrumentos. Não levantarei mais o véu que tapa os nossos segredos. Aquele toque de trompa anunciará algo requerendo a minha presença. Pensa nas minhas palavras. Que fiques bem! Não te peço que me perdoes a violência com que te ameacei e que entendera ser a forma correcta de contigo lidar.

Saindo do quarto, desceu as escadas, deixando Rebeca ainda mais aterrada com a proximidade da morte a que se expusera do que com a furibunda exposição de toda a ambição daquele audacioso indivíduo em cujas mãos fora, lamentavelmente, parar. A primeira coisa que fez foi agradecer ao Céu, na pessoa de Jacob, a protecção concedida e implorar-lhe que a mantivesse, para si e para o pai. Outro nome entrou, quase involuntariamente, na sua prece: o do cavaleiro cristão ferido, a quem a sorte fizera também ser apanhado por aquela gente sanguinária e sua inimiga. O coração acalmou-se-lhe de facto, comungando, nas suas orações, com Deus, e acrescentando às suas devoções a lembrança daquele a que nunca se poderia unir por ser um nazareno e, portanto, um adversário dos da sua fé. Mas o pedido fora, mesmo assim, exposto e nem todos os estritos preconceitos da sua seita conseguiriam demovê-la a retirá-los.