Read synchronized with  English  German  Russian 
Ivanhoe.  Walter Scott
Capítulo 22.
< Prev. Chapter  |  Next Chapter >
Font: 

Minha filha... Ó ducados meus... Ó minha filha!
Ó meus ducados cristãos!
Justiça... Lei... ducados meus, filha minha!
- O Mercador de Veneza

Deixando os chefes saxões de volta com o seu banquete logo que a sua insatisfeita curiosidade lhes recordou a vontade ainda não satisfeita de comer, apreciemos as muito mais duras condições de prisão impostas a Isaac de Iorque. O pobre judeu fora atirado para um cárcere do castelo, enterrado muito abaixo do nível do solo, mais fundo do que o fosso, e portanto carregado de humidade. A pouca luz ali recebida provinha de duas frestas altas, às quais não se podia chegar com as mãos.

Permitiam, mesmo com o Sol a prumo, apenas a passagem duma luz difusa e vaga, que se tornava escuridão logo que aquele baixasse um pouco. Correntes e grilhões, empregues noutros prisioneiros para lhes travar qualquer tentativa de fuga, pendiam, ferrugentos e vazios, das paredes da masmorra. Nos aros dum desses cadeados viam-se dois ossos bolorentos, talvez duma perna humana, como se um preso não só tivesse sido deixado acolá, mas também abandonado até só dele restar o esqueleto.

Num dos extremos deste antro medonho havia uma grande grelha sobre a qual se entrecruzavam barras de ferro semicarcomidas.

O aspecto da masmorra e o perigo iminente, que deveriam fazer gelar a alma dos mais valentes, dera, pelo contrário, a Isaac uma calma que não ostentava quanto a temores cuja causa era ainda remota e contingente. Dizem os caçadores que a lebre sente mais durante a perseguição dos galgos do que quando estrebucha entre as fauces deles.(1) *1.. De modo nenhum garantimos a veracidade desta afirmação sobre um pormenor de história natural, que transcrevemos baseados no Manuscrito de Wardour. (N. do T.) É provável que os judeus, dada a frequência dos seus pavores em todas as ocasiões, tivessem as mentes de qualquer maneira adaptadas a todas as formas de agressão sobre eles exercida que nenhuma existisse já que, quando realmente acontecesse, contivesse para eles o elemento surpresa, que é a mais contundente característica do terror. Não era, de facto, a primeira vez que Isaac se encontrava em situação tão perigosa.

Gozava, pois, da experiência para o aconselhar, além da esperança de poder, como anteriormente, escapar como a presa escapa ao caçador. Acima de tudo, dispunha da tenaz obstinação da sua raça e aquela firmeza com que, é sabido, os Israelitas aguentam os mais pavorosos males que o poder e a violência possam sobre eles descarregar, sem ceder à exigência dos seus martirizadores.

Neste estado de resistência passiva, embrulhado nas suas roupas para evitar o contacto com o chão empapado, Isaac, num canto, com as mãos apertadas, os cabelos e as barbas desgrenhados, a capa forrada e barrete alto, àquela luz ténue, seria um modelo para um estudo de Rembrandt, se aquele célebre pintor tivesse vivido naquele período. O Judeu manteve-se imóvel durante cerca de três horas, ao fim das quais ouviu passos nos degraus conduzindo ao cárcere. Os ferrolhos correram com ruído, os gonzos chiaram e a porta abriu-se para Reginald Front-de-Boeuf, que, seguido pelos dois sarracenos do Templário, entrou na masmorra.

Front-de-Boeuf, alto e forte, cuja vida se passara entre guerras e feudos e questiúnculas pessoais e que não olhava a meios para levar tão longe quanto pudesse o seu poder feudal, tinha feições correspondentes ao seu carácter, claramente revelando as mais ferozes e perversas paixões. As cicatrizes que se lhe cruzavam no rosto, se fossem na cara de outro, provocariam compaixão ou respeito pelo que de valor significariam. No caso dele, apenas lhe acresciam a ferocidade de expressão. O tremendo barão envergava um gibão de couro bem justo ao corpo, roçado e sujo pela armadura. Além dum punhal, a um dos lados da cinta, contrabalançando o peso do molho de chaves à direita, não trazia qualquer outra arma.

Os escravos negros que atendiam Front-de-Boeuf tinham-se libertado das suas faustosas vestimentas, mostrando agora calças de linho grosseiro e jaquetas com as mangas arregaçadas até acima dos cotovelos, como os carniceiros quando se preparam para o trabalho no açougue. Ambos pegavam em pequenos cabazes e, logo que entraram no calabouço, estacaram à porta, enquanto Front-deBoeuf, com cuidado, fechava a porta, dando-lhe duas voltas. Tomada esta precaução, avançou lentamente em direcção do Judeu, de quem não despegava os olhos, como que desejando paralisá-lo com a vista, como de alguns animais se diz que hipnotizam as suas presas.

Na verdade, parecia que o funesto e pérfido olhar de Front-de-Boeuf possuía parte desse suposto poder sobre o infeliz prisioneiro. O Judeu conservava-se, de boca entreaberta, olhos postos no selvagem barão, com um Pavor tão intenso que, literalmente, parecia encolher-se e diminuir de tamanho sob o exame físico e calamitoso do duro normando. O desgraçado Isaac estava perfeitamente impossibilitado de se levantar para o cumprimentar como o terror lhe recomendava e nem sequer conseguia retirar o gorro ou balbuciar qualquer súplica de tão perturbado com as torturas e possível morte que sabia próximas.

Pelo contrário, a imponente estatura do normando aparentava crescer, como a águia que enfuna as penas antes do bote final sobre a sua vítima. Parou a três passos do canto onde o Judeu se recolhera e fez sinal a um dos escravos para que se acercasse. Um dos negros obedeceu e tirou do cabaz uma grande balança e vários pesos, que colocou aos pés de Front-de-Boeuf iniciou o acto dirigindo-se assim ao seu pobre cativo:

- Cão danado duma raça de cães danados - disse, tornando a voz cava e fazendo-a soar nas arcadas da prisão -, vês esta balança?

O desafortunado assentiu debilmente.

- Pois bem, nelas me pesarás mil libras de prata, de acordo com os Pesos e medidas da Torre de Londres.

- Pai Abraão! - exclamou o Judeu, a quem o perigo dera finalmente voz. - Quem ouviu alguma vez falar num pedido dessa ordem? Quem, mesmo em contos de menestréis, ouviu mencionar uma importância de mil libras de prata? Quem jamais pousou os olhos num fabuloso tesouro desses? Nem em Iorque, saqueassem a minha casa e a de todos da minha tribo, se encontraria um décimo dessa imensa quantidade de prata de que falas.

- Sou razoável - respondeu Front-de-Boeuf -, e, se há falta de Prata, aceitarei ouro. Ao câmbio de um marco de ouro por cada seis libras de prata, salvarás essa tua incrível carcaça de castigos como nunca imaginaste pudessem existir.

- Tende piedade de mim, nobre cavaleiro - implorou Isaac. Sou velho, pobre e desamparado. Vencer-me não requer valor.

Esmagar uma minhoca nada é.

- Lá velho és - concordou o cavaleiro -, para vergonha de quem te deixou ganhar cãs na usura e na patifaria... Fraco pode ser que sejas, pois desde quando têm os judeus coração? Mas rico é sabido que o és.

- Juro-vos, nobre cavaleiro - disse o Judeu -, por tudo aquilo em que creio e pelo que em comum temos...

- Não Perjures! - interrompeu-o o normando. - Não deixes que a tua teimosia dite a tua sorte, antes de saberes e ponderares qual é o fim que te aguarda. Não creias que falo para te assustar mais e para me aproveitar da covardia da tua gente.

Se não me acreditares, juro-te, Por aquilo em que não acreditas, pelo Evangelho que a Igreja nos ensina e pela autorização que goza de prender e soltar quem quiser, que o meu intento é firme e inabalável. Esta masmorra não é lugar para brincadeiras. Presos dez mil vezes mais importantes do que tu morreram dentro destas paredes e nunca mais ninguém tornou a ouvir falar deles. para ti reservo uma longa e continuada agonia, comparada com a qual as que eles sofreram seriam verdadeiramente suaves.

Novamente fez os escravos aproximarem-se e cochichou na língua deles, pois também estivera na Palestina, onde talvez tivesse colhido alguns ensinamentos de crueldade especial. Os sarracenos tiraram dos cabazes carvão de choça, tenazes e uma garrafa de azeite. Enquanto um, com fuzil e pederneira, preparava o lume, o outro espalhava o carvão na grelha que mencionámos e com um fole levava-o ao rubro.

- Vês, - disse Front-de-Boeuf -, aqueles ferros por cima do carvão em brasa (2)? - Irás deitar-te naquele leito aquecido, sem roupas, como se fosse a tua Própria cama.

*2.. Esta horrenda tortura poderá recordar ao leitor aquela outra que os Espanhóis aplicaram a Guatimozin para lhe arrancarem o segredo do local onde escondera o seu tesouro. Na verdade, temos, ainda mais próxima, neste país, uma barbaridade semelhante, constando de anais, da época da rainha Mary, que não só falam desta como de outras atrocidades.

os leitores estarão recordados que, após a igreja católica ter sido banida e o governo da igreja presbiteriana ter sido estabelecido por lei, a posição e, sobretudo, o rendimento da riqueza dos bispos, abades e priores deixaram de pertencer a eclesiásticos, passando para beneficiários seculares ou, como os síndicos escoceses os denominavam, titulares de benefícios temporais que não gozavam dos direitos espirituais dos seus predecessores em ofício.

Destes laicos, donatários dos rendimentos eclesiásticos, alguns eram pessoas bem nascidas e de posição, como o famoso Lorde James Stewart, prior de Saint Andrews, que para si conservavam a utilização dos valores de rendas, terras e proventos da Igreja. Se, por outro lado, esses titulares fossem de condição inferior, içados ao lugar por interesses de alguém poderoso, era implícito que o novo abade teria de conceder ao seu patrono a parte de leão dos arrendamentos e doutros contratos referentes a terrenos e dizimas. Daqui se criou a espirituosa designação de bispos tulchan [uma tulchan é uma vitela empalhada que se coloca junto duma vaca que perdeu a cria para que aquela continue a dar leite. A semelhança entre uma tulchan e um bispo nomeado para passar benefícios temporais para mãos superiores é evidente], uma espécie de prelados fictícios, cuja imagem era construída para que o seu patrono e patrão pudesse, sob o nome deles, apropinquar-se com a melhor parte dos benefícios recolhidos.

Casos, porém, havia em que indivíduos que tinham conseguido concessões e benefícios seculares de que não queriam largar mãos, mas para o que não gozavam de influência local bastante, eram forçados, por incapacidade pessoal para os manterem, a submeterem-se às exigências do tirano feudal da região.

Bannatyne, secretário de John Knox, relata um singular caso de opressão praticado sobre um desses abadei titulares pelo conde de Cassilis, no Ayrshire, cujo poder feudal era vasto, a ponto de ser conhecido como o rei de Carrick. Transcrevemos o facto tal como surge no diário de Bannatyne, lembrando apenas que o seu escritor seguia os pontos de vista do patrono, quer a respeito do conde de Cassilis, como opositor da facção real, quer como absolutamente contrário ao sistema que apoiava a transferência dos rendimentos da Igreja para titulares, em lugar de serem utilizados em fins mais pios, como auxílio ao clero, escolas e caridade para com os pobres. Mistura, na sua um tanto confusa narrativa, justificada repulsa contra o tirano que se servia da tortura em tom ridicularizante para com o torturado, como se, afinal de Contas, o martírio não fosse impróprio para criaturas tão ambíguas e escorregadias.

Intitula-se a história A TIRANIZAÇÃO PELO CONDE DE CASSILIS DUM HOMEM VIVENTE "Mestre Alan Stewart, amigo do capitão James Stewart, de Cardonall, obtivera da corrupta corte da rainha a abadia de Crossraguel. O dito conde, julgando-se acima do rei, naquelas bandas, determinou que usufruiria da mesma (como já fazia com diversas outras) para seu bel-prazer, mas, como não conseguia garantias certas para aquilo que o seu insaciável apetite exigia, gizou o seguinte plano: mestre Allan, que vivia na companhia de Laird de Bargany (Um Kennedy também), foi tentado pelo conde e amigos a deixar essa protecção e vir divertir-se juntamente com o citado conde. Alterada a sua simplicidade natural, aquele imprudente indivíduo Passou a dividir o seu tempo, parte em Maybole, com Thomas Kennedy, tio do citado conde, parte, calmamente, segundo dizia, visitando o local e terras de Crossraguel [a sua abadia], pelo que o mencionado conde, ao disso tomar conhecimento, resolveu pôr em prática formas tirânicas que há muito Concebera. Deste modo, e como rei da região, prendeu o dito mestre Allan e levou-o para a casa de Denure, onde, durante toda uma estação, foi honrosamente tratado (se é que um prisioneiro pode achar qualquer tratamento agradável), mas, depois de alguns dias terem decorrido, e como o conde não pudesse conseguir o feudo de Crossraguel, que o eu desejo ferventemente apetecia, procurou verificar se por meio duma refeição, a que nenhum almoço ou jantar se comparava, o alcançaria, pelo que o levou para um compartimento secreto. Fazia-lhe companhia o respeitável conde, o respeitoso irmão e os criados destacados para o serviço do banquete. No quarto havia uma grelha sobre um braseiro. Nenhum outro alimento estava à vista. O primeiro prato foi assim: "Sr. Abade", disse o conde, "confessai, por favor, ser de vontade própria que ficastes na minha companhia porque outra não desejais". Ao que o abade respondeu:

"Quereis, senhor, que minta para vos dar prazer? A verdade é que estou aqui contrafeito. Na realidade, nunca apreciei a vossa companhia." Disse então o conde: "Todavia, ficareis na mesma comigo." Disse o abade: "Não me é possível contrariar-vos aqui dentro.' "Deveis obedecer-me", disse o conde, apresentando-lhe simultaneamente certas cartas para assinar, entre as quais havia promissórias, de cinco e dezanove anos, e uma carta de cedência de todas as terras de Crossraguel, incluindo cláusulas suficientemente necessárias ao conde para o levar para o Inferno. Como o adultério, o sacrilégio, a opressão bárbara e a crueldade e furto em cima de roubo merecem o Reino dos Infernos, o grande rei de Carrick não podia fugir-lhe por tanto tempo como o imprudente abade o conseguiu por uma estação.

"Assim, verificando a sua repulsa e que de bons modos não alcançaria o que queria, mandou os seus cozinheiros prepararem o banquete. Estes esfolaram o carneiro, ou seja, despiram o abade até ficar com tudo ao léu. Depois amarraram-no à chaminé, com as pernas para um lado e os braços para o outro, e começaram a alimentar o fogo, ora com as nádegas, ora com as pernas e, às vezes, com os ombros e braços. para que não crestasse e ficasse em condições, foram untando-o, muito bem untado, com azeite (tal como os cozinheiros deitam molho nos assados). "Senhor! Que crueldade!" E, para que a gritaria do pobre homem não pudesse ser ouvida, taparam-lhe a boca de modo que a sua voz não saísse. Podia até supor-se que algum dos participantes do assassinato do rei [Damley] ali se encontrasse. Mantiveram-no naquele tormento até que o infeliz rogou a Deus que o despachasse depressa, pois só Ele detinha poder para lhe acabar com as dores. O famoso rei de Carrick e os seus cozinheiros, percebendo estar o assado em condições, ordenou que o retirassem, começando o próprio conde a abençoá-lo assim: "Benedicite, Jesus Maria, sois o homem mais teimoso que até hoje encontrei. Se soubesse que éreis tão obstinado, não vos teria dado este tratamento, desta maneira, nem que fosse por mil coroas. Nunca fiz tanto por ninguém como por ti". Passados dois dias, deu-lhe dose igual e não parou sem ter conseguido os seus intentos, isto é, tudo tão bem assinado quanto uma mão meio assada o poderia fazer. O conde, julgando-se seguro de si enquanto tivesse o abade assado à sua guarda, mas, ao mesmo tempo, envergonhando-se com a sua presença, vistas as crueldades a que o submetera, deixou a residência de Denure ao cuidado de certos criados e o abade, meio cozido, lá dentro, prisioneiro. O Laird de Bargany, à companhia de quem o abade fora arrancado, percebendo (não até que ponto) que o indivíduo fora preso, foi a tribunal e conseguiu termos de libertação, a que o conde desobedeceu, pelo que foi dado como rebelde. Não havia, no entanto, esperanças, nem de o martirizado ser liberto, nem de o remetente das cartas obter qualquer alívio, Deste modo, naquela altura, Deus foi desprezado, a autoridade desafiada na Escócia, todos esperando súbita mudança do governo daquele cruel assassino da própria carne, como os lordes chamavam ao conde. E, todavia, mais do que uma vez prestara vassalagem ao rei e ao seu regente.

O autor do diário prossegue relatando as queixas do lesado Allan Stewart, comendador de Crossraguel, ao regente e ao Conselho Privado, declarando ter sido aliciado, parte por lisonja, parte à força, para a escura masmorra de Denure, uma sólida fortaleza, construída sobre a rocha, frente ao canal da Irlanda, onde as suas ruínas existem ainda hoje. Comunicou ter-lhe sido exigido que assinasse determinadas concessões e facilidades de todas as igrejas e curatos pertencentes à Abadia de Crossraguel, o que recusara como impensável, tanto mais que já as havia transferido para John Stewart de Cardonall, a interesse de quem fora nomeado comendador. O queixoso segue explicando que, depois de ameaçado, despido, amarrado e os seus membros passados pelo fogo, da forma já descrita, obrigado pelo seu extremo sofrimento, assinara a carta e as promissórias que lhe foram apresentadas e cujo conteúdo ignorava completamente. Alguns dias mais tarde, sendo convidado a ratificar aqueles documentos perante um tabelião e testemunhas, recusou-se, pelo que tornou a ser submetido à mesma tortura, o que, na sua dor, o obrigou a exclamar:

"Malditos! Porque não me empalais ou fazeis explodir com pólvora, em vez de assim, implacavelmente, me torturardes?", após o que o conde mandou que Alexander Richard, um dos seus ajudantes, o amordaçasse com um guardanapo, ordem que foi cumprida, Deste modo, teve, uma vez mais, de se submeter. A petição terminava informando que o conde, baseado nos documentos assim conseguidos, tomara posse de Crossraguel, onde vivera e gozam por três anos.

A sentença do regente e do Conselho revela claramente a total ausência de Justiça durante aquele calamitoso período, mesmo em questões perfeitamente flagrantes. O Conselho declinou interferir no decorrer de processos de justiça do condado (que se encontrava inteiramente sob o controlo do conde de Cassilis) e somente decretou que mandaria que deixassem de molestar o Pobre comendador com a garantia de duas mil libras escocesas. Ao conde foi também decretado que deixasse em paz o célebre George Buchanan, dentro da mesma abadia e, em condições semelhantes, sujeito a igual castigo.

As consequências são-nos descritas no diário:

"O mencionado Laird de Bargany, entendendo que justiça corrente não ajudava nem oprimidos, nem aflitos, resolveu aplicar novo remédio pelo que, Pela mão de criados seus, assaltou a casa de Denure, onde o desgraçado abade estava preso. O rumor correu de Carrick até Galloway, e logo se reuniu um grupo de assalariados e mercenários do bando dos Kennedies, pelo que, em coisa de horas, a casa de Denure foi cercada. O senhor de Cassilis foi o mais arrojado e não perdeu tempo, pelo que, na sua raiva, deitou fogo à masmorra, vangloriando-se de que todos os inimigos, dentro da casa, morreriam.

"Foi-lhe pedido, após repreensão dos que estavam lá dentro, que fosse mais moderado e não se arriscasse tão loucamente.

Foi tudo em vão, até que um tiro de arcabuz lhe chamuscou um ombro e lhe abrandou a ira. O Laird de Bargany tinha, anteriormente, obtido das autoridades cartas recomendando a todos os súbditos fiéis a Sua Majestade que o auxiliassem contra o cruel tirano e traidor declarado, o conde de Cassilis, cujas cartas e conteúdo particular publicou, depressa conseguindo a concorrência de Kyle e Cunynghame e outros amigos, que fizeram que os do grupo de Carrick saíssem da habitação. Outros a ela se chegaram até a encherem de gente, soltaram o dito Allan e levaram-no para Ayre, onde, publicamente, em frente do cruzeiro do mercado dessa vila, declarou como fora cruelmente tratado, que nem o rei assassinado sofrera tormentos como ele, só com a diferença de que ele não morrera. Por esse motivo, abertamente refutava tudo quanto fizera em extremos, revogando especialmente a assinatura dos três escritos, nomeadamente as promissórias de cinco e dezanove anos e a carta de foro. A casa ficou e continua a ficar (até este dia 7 de Fevereiro de 1571) a cargo do dito Laird de Bargany e seus criados. A crueldade não venceu nem lucrou e será eternamente castigada, a não ser que o arrependimento surja depressa.

Esta crueldade serviu de exemplo a outros, como nobres degenerados, para que passassem a dar mais atenção ao seu comportamento e evitassem expô-los perante o mundo para que não se envergonhassem da própria bestialidade e para que as pessoas ficassem avisadas e prontas a recusar, detestar e evitar a companhia desses tiranos que não têm lugar na sociedade humana, devendo ser mandados para o Diabo, junto de quem arderão eternamente pelo seu desrespeito a Deus e crueldade contra a Sua obra. Que Cassilis e o irmão sirvam de exemplo aos demais! Amen! Amen!" Este extracto foi corrigido e ligeiramente modernizado quanto à ortografia de modo a torná-lo compreensível aos leitores comuns. Acrescentarei que os Kennedies de Bargany, que intervieram a favor do abade martirizado, eram dum ramo mais recente da família Cassilis, mas de vistas completamente diferentes e suficientemente poderosos para, neste e noutros casos, a assomarem.

O resultado final desta ocorrência não nos é contado. Contudo, como a casa de Cassilis ainda detém os feudos e foros que pertenceram à Abadia de Crossraguel, é de crer que as garras do rei de Carrick tenham, nesses desvairados tempos, tido força bastante para reterem a presa a que se haviam prendido.

Direi também que, segundo documentos em meu poder, os agentes, ou country keepers [guardas regionais], da fronteira (entre a Inglaterra e a Escócia) costumavam torturar os seus presos amarrando-os às grades dos fogões para lhes arrancarem confissões.

(Fim da nota que abrangia várias páginas.) Um dos escravos manterá o fogo em brasa por debaixo de ti, enquanto outro te untará com azeite os miseráveis membros para que o assado não fique queimado... Escolhe, agora, entre aquela cama escaldante e o pagamento de mil libras de prata, pois, pela alma de meu pai, não existe outra opção.

- É impossível - exclamou o miserável judeu, - É impossível que o vosso propósito seja verdadeiro. O bom Deus nunca permitiria a existência dum coração assim tão cruel!

- Não te fies nisso, Isaac - respondeu Front-de-Boeuf -, pois cairias num erro fatal. Julgas que eu, que já assisti ao saque duma cidade, no qual milhares de cristãos, compatriotas meus, pereceram sob ferro e fogo e águas, irias agora desviar-me do meu propósito devido aos berros dum único e miserável judeu?... Ou será que pensas que estes tipos morenos, que não têm nem lei, nem consciência, que não seja o desejo de seu amo (ao mínimo aceno de quem empregarão veneno, chuço, punhal ou cordas), terão dó de ti, quando nem mesmo entendem a fala em que ela lhes é implorada?... Tem juízo, velhote.

Alivia-te duma parte da tua supérflua riqueza. Põe em mãos cristãs um bocado daquilo que tens arrancado pela usura sobre os da mesma religião que as destas mãos.

A tua sagacidade saberá encher de novo a tua bolsa mirrada.

Não existem, porém, sanguessugas ou remédios capazes de te tornarem a dar a pele e carne crestadas, que virão quando te estirar naquelas barras. Paga o teu resgate e alegra-te por poderes escapar duma masmorra cujos segredos poucos puderam revelar. Não gasto mais palavras contigo. Escolhe entre o teu vil metal e a tua pele e ossos e, conforme escolheres, será.

- Valham-me Abraão, Jacob e todos os patriarcas do meu povo.

- Evocou Isaac. - Não posso escolher porque não disponho de meios para atender à vossa exorbitante exigência!

- Agarrem nele e dispam-no, escravos! - ordenou o cavaleiro.

Que os seus patriarcas o ajudem, se puderem.

os ajudantes, obedecendo mais ao olhar do barão do que às suas palavras, prenderam o infortunado Isaac contra o chão e, segurando-o, aguardaram novo sinal do fidalgo. O infeliz judeu remirava-lhes os rostos, deles e de Front-de-Boeuf, buscando qualquer prova de compaixão. O do barão continuava frio, com o mesmo sorriso, entre o carrancudo e o sarcástico, que apresentara desde o início, e os dos selvagens sarracenos, onde rolavam os olhos com um vago brilho sob as espessas arcadas, tinham tomado uma expressão ainda mais sinistra mostrando o branco que lhe rodeava a íris e revelando um prazer mórbido pelo que ia acontecer, a par de nenhuma relutância em serem eles a levá-lo a cabo. O Judeu olhou então para a fornalha incandescente sobre a qual iria em breve ser estirado e, percebendo não existir qualquer possibilidade de dó da parte do seu torcionário, tomou uma decisão.

- Pagarei - disse - as mil libras de prata... Quero dizer - acrescentou, após uma hesitação -, pagarei com a ajuda dos meus irmãos, depois do que terei de mendigar à porta da sinagoga, já que nunca conseguirei juntar essa soma de que ninguém, nunca, ouviu falar. Quando e onde deverá ser feita a entrega?

- Aqui - informou Front-de-Boeuf -, entregue aqui, aqui pesada e contada no chão deste mesmo calabouço. Cuidavas que me separaria de ti sem ter o resgate nas mãos?

- E qual é a garantia - quis o Judeu saber - que terei em como me soltareis depois do pagamento?

- A palavra dum nobre normando, escravo penhorista - bradou Front-de-Boeuf -; a fé dum nobre normando, que é mais puro do que o ouro e a prata que tu e a tua tribo têm.

- Peço perdão, nobre senhor - fez Isaac timidamente -, mas como posso eu confiar na vossa palavra se não confiais na minha? - Porque não tens outra forma - disse severamente o cavaleiro.

- Estivesses tu neste momento na tua tesouraria, em Iorque, e necessitasse eu de alguns cequins, serias tu quem ditaria o prazo de pagamento e as garantias. Esta é a minha tesouraria.

Estou em vantagem e não me dignarei a repetir os termos sob os quais te restituirei a liberdade.

O Judeu gemeu profundamente.

- Concedei-me - pediu -, pelo menos, juntamente com a minha, a liberdade dos companheiros com que viajava. Insultaram-me por ser judeu, mas, mesmo assim, apiedaram-se da nossa desgraça e foi por terem perdido tempo comigo que parte da minha pouca sorte veio a cair sobre eles. Além de que poderão contribuir também para a realização do valor do resgate.

- Se te estás a referir àqueles rústicos saxões, lá dentro - declarou Front-de-Boeuf -, o seu resgate tem outros termos que não os teus. Importa-te com o que te respeita, Judeu. Aviso-te de que não te metas nos assuntos dos outros.

- Serei então - perguntou o Judeu posto em liberdade apenas com o meu amigo ferido?

- Terei de repetir - exclamou Front-de-Boeuf - a este filho de Israel que se meta na própria vida e deixe o resto em paz?...

Fizeste a escolha e só te resta pagar o resgate, e isso mesmo depressa.

- Mesmo assim, escutai-me - rogou o Judeu, - Pelo próprio valor da riqueza que ireis obter graças à vossa... - Parou, temendo irritar o selvagem normando. Front-de-Boeuf apenas se riu e completou a frase incompleta, a partir donde o Judeu hesitara:

- ... à custa da minha consciência, tu, Isaac, ias dizer.

Fala! Sou razoável. Aguento as censuras dum perdedor, mesmo que esse perdedor seja judeu. Não foste tão paciente, Isaac, quando invocaste a justiça contra Jacques Fitzdotterel por te ter chamado uma sanguessuga usurária, quando as tuas exigências lhe devoravam o património.

- Juro pelo Talmude - gritou o Judeu - que estais mal informado sobre o caso. Fitzdotterel sacou do punhal contra mim, em minha casa, quando lhe pedi a minha prata. O prazo de pagamento vencera-se na Páscoa.

- Não me interessa o que ele fez - disse Front-de-Boeuf. - A questão é simples: quando recebo o meu? Quando recebo o dinheiro, Isaac?

- Deixai minha filha, Rebeca, ir a Iorque - respondeu o Judeu - com um salvo-conduto, nobre cavaleiro, e, dentro do tempo que um homem, a cavalo, leva a ir e vir, o tesouro será... - nesta altura gemeu, para logo prosseguir - contado neste mesmo chão.

- Tua filha! - bradou Front-de-Boeuf! como que surpreendido.

- Pelos Céus, Isaac, eu deveria ter adivinhado. Julgava que aquela moça trigueira fosse tua concubina e dei-a como aia a Sir Brian de Bois-Guilbert, segundo o costume que os patriarcas e heróis do passado nos deixaram como exemplo.

O grito que Isaac soltou ao receber esta lancinante informação fez a abóbada vibrar e surpreendeu os dois sarracenos a ponto de o largarem, o que ele aproveitou para se pôr de jorro no solo e abraçar os joelhos de Front-de-Boeuf.

- Levai tudo que pedistes - implorou -, Sr. Cavaleiro, levai dez vezes mais, arrastando-me para a ruína e mendicidade, se quiserdes... Não! Cravai-me o vosso punhal, queimai-me naquele braseiro, mas poupai a minha filha, pondo-a, com honra, em liberdade! Pela mãe que vos gerou,- conservai a honra da indefesa donzela! Ela é o retrato da minha falecida Raquel e a última de seis provas do nosso amor. Quereis privar um viúvo do seu derradeiro apoio? Quereis fazer que um pai deseje ver a sua única filha morta e enterrada ao lado da mãe, na tumba dos antepassados?

- É pena - disse o normando, cedendo ligeiramente - que não tivesse sabido disso antes. Julgava que a tua raça somente amava sacas de moedas.

- Não penseis tão mal de nós, judeus que somos - pediu Isaac, procurando explorar aquele instante de simpatia aparente. - A raposa perseguida, o gato bravo torturado, todos amam as suas crias... A desprezada e perseguida raça de Abraão ama os seus filhos.

- Se é assim - disse Front-de-Boeuf -, acreditá-lo-ei daqui em diante por consideração para contigo... mas de nada vale agora. Não posso evitar o que aconteceu, nem o que se lhe seguirá. Dei a minha palavra a um companheiro de armas e não vou quebrá-la, nem que fosse por dez judeus e judias juntos.

Além disso, porque terás medo que possa algo ter acontecido à rapariga como cativa de Bois-Guilbert?

- Acontece! Acontece, de certeza! - bradou Isaac, torcendo as mãos em aflição. - Desde quando é que os Templários não são cruéis para com os homens e desonrosos para com as mulheres?

- Cão infiel! - berrou Front-de-Boeuf com os olhos fuzilantes e, talvez, satisfeito com este pretexto para dar largas à sua fúria. Não blasfemes contra a santa Ordem do Templo de Sião e pensa somente em me pagares o resgate prometido, ou então acautela as goelas.

- Ladrão! Vilão! - chamou-o o Judeu, respondendo aos insultos do seu opressor com uma raiva que, embora impotente, não conseguia dominar. - Não vos pago nada... nem um tostão... sem que a minha filha seja honrosamente libertada!

- Perdeste o juízo, israelita? - perguntou duramente o normando. - Terão a tua pele e carne magia que as proteja dos ferros em brasa e do azeite a escaldar?

- Não quero saber disso! - bradou o Judeu, levado ao desespero pelo amor paternal. - Faz o pior. A minha filha é a carne da minha carne e muito mais querida do que estes membros que ameaças. Não te darei prata alguma, a não ser que pudesse despejá-la derretida por essa garganta de avarento... Não, não te dou uma única moeda, nazareno, nem que fosse para salvar a tua alma danada das penas eternas que a esperam. Toma a minha vida, se quiseres, e ficarás sabendo que um judeu, mesmo torturado, sabe impor-se a um cristão.

- Vamos ver isso - rosnou Front-de-Boeuf -, pois, pelo Santo Lenho, que a tua tribo tanto odeia, vais sentir o que é o ferro e o fogo. Dispam-no, escravos, e prendam-no sobre as barras.

Debalde e debilmente resistiu o velho. Os sarracenos, que já lhe tinham arrancado o manto, tratavam de o despir completamente, quando o som duma corneta, vindo do castelo, chegou até àqueles fundos, ouvindo-se, logo a seguir, vozes chamando por Front-de-Boeuf. Agastado por ter de suspender a sua diabólica intenção, fez sinal aos escravos para tornarem a dar as roupas a Isaac e, juntamente com eles, deixou a masmorra e o Judeu a agradecer a Deus a sua sorte, ou a lamentar o cativeiro e destino da filha, o que, pessoalmente e como pai, deveria ser bem pior.