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Ivanhoe.  Walter Scott
Capítulo 11.
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PRIMEIRO BANDIDO: - Quieto, senhor. Passe-nos o que traz, ou,
caso contrário, obrigá-lo-emos a sentar-se e enchemo-lo de
balas.
SPEED: - Senhor! Estamos perdidos! São os salteadores, que
todos os viajantes tanto temem.
VAL: - Amigos...
PRIMEIRO BANDIDO: - Não é assim. Nós somos inimigos.
SEGUNDO BANDIDO: - Calma! Vamos ouvi-los.
TERCEIRO BANDIDO: - Escutemo-lo, então. Trata-se dum homem
delicado.
- Dois Fidalgos de Verona

As aventuras nocturnas de Gurth não tinham acabado ainda.

Isso mesmo entenderia quando, depois de ter passado uma ou duas casas isoladas, nas cercanias da vila, se viu num carreiro estreito, ladeado de aveleiras e azevinhos, com, aqui e além, um carvalho anãzado estendendo os galhos por cima do caminho. Este estava cheio de buracos e marcado pelos sulcos das carroças que, recentemente, por ele tinham passado transportando material para o torneio. As sebes tornavam-no, tapando a Lua, muito escuro.

Vindos da povoação, escutavam-se ao longe os sons de gente divertindo-se, gargalhadas, gritos e música, tudo revelando o ambiente que se vivia na vila, cheia de nobres, militares e seus dissolutos servidores, o que inquietou Gurth. "A judia tinha razão", disse com os seus botões. "Queira o Céu e São Dunstan que consiga chegar a salvo com o meu tesouro! Há por aqui tantos, não direi ladrões, mas cavaleiros, escudeiros, frades, menestréis, peões, malabaristas e bobos, que até um homem com uma moeda apenas no bolso corre perigo, quanto mais um guardador de porcos com uma saca a abarrotar de cequins.

Tomara eu estar fora destas malditas sebes para que, ao menos, pudesse ver as caras dos súbditos de São Nicolau antes de eles me saltarem em cima." Estugou o passo para atingir o baldio para onde o carreiro o levava, mas não teve a sorte de o conseguir.

Mesmo quando chegava ao alto do caminho, onde os arbustos eram mais densos, quatro homens, exactamente como temera, saltaram sobre ele, vindos dos dois lados, e prenderam-no tão rapidamente que qualquer resistência teria sido impossível.

- Entregue-nos o que traz - mandou um deles -; somos os encarregados de aliviar quem vai carregado.

- Não me aliviaríeis tão facilmente - rosnou Gurth, cuja sombria franqueza não podia ser calada, mesmo quando em perigo se vos pudesse dar um par de socos.

- Veremos isso em breve - disse o ladrão, que, falando para os outros, acrescentou: - Tragam esse marau. Parece que quer ficar com a cabeça partida, a bolsa rasgada e as velas cortadas.

De conformidade, Gurth, arrastado um pouco à bruta e empurrado, por cima da sebe do lado esquerdo, para o meio dum bosquete entre aquela e o baldio, foi obrigado a seguir os seus captores até pararem numa zona com menos árvores, onde o luar penetrava com maior facilidade. Juntaram-se-lhes mais duas outras pessoas, do bando certamente, Carregavam espadas curtas e varapaus nas mãos. Gurth pôde então ver que os seis usavam mascarilhas, o que lhe tirou quaisquer dúvidas que ainda pudesse ter quanto à sua ocupação.

- Quanto dinheiro trazes, labrosca? - perguntou um dos ladrões.

- Trinta cequins, que são meus - respondeu Gurth de má vontade. ' - Confiscam-se! - gritou um dos salteadores. - Confisquem-se ao saxão que tem trinta cequins e volta sóbrio da vila. Uma inapelável e irrecuperável confiscação.

- Juntei-os para comprar a minha liberdade - explicou Gurth.

- És um burro - fez outro ladrão. - Quatro canadas de cerveja da boa tinham-te posto livre do teu amo. Muito mais livre ainda se ele for saxão também.

- É uma triste verdade - reconheceu Gurth -; mas se estes trinta cequins me podem libertar de vós, desamarrai-me para que vo-los dê.

- Espera - exclamou aquele que mais autoridade parecia ter sobre os demais -, essa saca que carregas, sinto-o por baixo do teu manto, tem muito mais do que nos disseste.

- O resto é do meu generoso amo. Não me referiria a ele se ficásseis satisfeitos com o que é meu.

- Pareces ser um tipo honesto - disse o ladrão. - Não somos tão devotos de São Nicolau que não te tivéssemos deixado ficar com os teus trinta cequins se te tivesses portado direito.

Passa o dinheiro para cá! - Isto dizendo, arrancou a Gurth a saca de couro, dentro da qual estava também a bolsa de seda que Rebeca lhe dera, e prosseguiu com o interrogatório. - Quem é o teu amo?

- O cavaleiro Desditoso.

- Cuja lança venceu hoje o torneio? - perguntou o ladrão. Quem é e como se chama ele?

- É de sua vontade - informou Gurth - ocultar isso. Por mim ninguém o conhecerá.

- E quem és tu e como te chamas?

- Dizê-lo corresponderia a revelar a identidade do meu amo. - És muito atrevido. Mas chega disto para já. Como conseguiu o teu amo todo este ouro? Herdou-o, ou como é que foi?

- À custa da sua lança. O que está dentro dessa saca corresponde ao resgate de quatro cavalos e quatro armaduras das boas, - Quanto há aqui?

- Duzentos cequins, - Só duzentos cequins?! - espantou-se o bandoleiro. - O teu amo foi muito condescendente para com os que venceu, exigindo-lhes tão diminuto resgate. Ora diz-me os nomes dos vencidos. Gurth citou-lhos um por um.

- Por quanto foram resgatados o cavalo e a armadura de Brian de Bois-Guilbert? Vês como não nos podes enganar?

- O meu amo nada quer do Templário, excepto tirar-lhe a vida.

Desafiaram-se para uma luta de morte, pelo que não pode haver gentilezas entre eles.

- Então é assim? - disse o ladrão, calando-se depois por uns momentos. - Que fazias tu com esses valores a teu cuidado, aqui em Ashby?

- Tinha ido pagar a Isaac, o Judeu de Iorque - explicou Gurth o valor do cavalo e da armadura que fornecera ao meu patrão para o torneio.

- Quanto pagaste a Isaac? Pelo peso, parece-me haver aqui duzentos cequins - Paguei-lhe oitenta e ele deu-me cem de troco - respondeu o saxão.

- O quê?! - exclamaram, em coro, os salteadores, - Atreves-te a brincar connosco dizendo essas mentiras impossíveis?

- O que disse - insistiu Gurth - é tão certo como a Lua estar a brilhar no céu. Encontrareis a importância numa bolsa de seda, dentro da saca de couro e separada do resto do ouro.

- Vê bem, homem! - recordou-lhe o chefe. - Estás a falar dum judeu, dum israelita que é tão capaz de oferecer ouro a alguém como os desertos, de onde é originário, de devolverem a água que os peregrinos neles entornam - Têm tanta comiseração como um ajudante de oficial de diligências não subornado - observou um membro daquela súcia.

- No entanto, foi como vos narrei - teimou Gurth.

- Acendam uma luz - mandou o chefe. - Quero examinar esta saca. Se for como o tipo assegura, esse judeu ainda é mais miraculoso do que o fio de água que salvou a vida dos seus antepassados quando perdidos nas sáfaras.

Trazida a luz, o bandido examinou a saca. Os demais rodearam-no e até os que prendiam Gurth abrandaram a força que faziam para, esticando os pescoços, poderem ver o resultado da busca. Aproveitando-se dessa distracção, Gurth, à custa de força e agilidade, libertou-se e poderia ter fugido se não desejasse recuperar o que era do seu patrão. Arrancou um varapau dum dos homens e, com uma pancada, derrubou o chefe, a quem tirou a saca. Os salteadores, porém, eram muitos e muito mexidos e tornaram a prendê-lo e a recuperar a saca.

- Patife! - bramou o chefe levantando-se. - Rachaste-me a cabeça. com outros, a insolência ficar-te-ia muito cara. Já saberás o que vai ser a tua sorte, mas, primeiro, falemos do teu amo. Os assuntos dos cavaleiros têm precedência sobre os dos peões, de acordo com as leis da cavalaria. Fica quieto agora. Se tornares a mexer-te, apanharás como nunca apanhaste!

- Dirigiu-se, então ao bando: - Camaradas! Esta bolsa tem caracteres hebreus bordados, o que me leva a crer que este malandro não mentiu. O cavaleiro andante não necessita de nos pagar portagem. É demasiado semelhante a nós para que o forcemos a isso. Os cães não se metem com os cães, quando há lobos e raposas à solta.

- Parecido connosco? - espantou-se um dos do bando. - Gostaria que mo explicassem.

- Então, louco - respondeu o chefe -, não será ele tão pobre e deserdado como nós? Não ganhará o seu sustento à força de espada, como nós? Não venceu ele o Front-de-Boeuf e o Malvoisin, como nós lhes faríamos, se pudéssemos? Não será ele um inimigo figadal de Brian de Bois-Guilbert, que tantos motivos temos para temer? E, ainda que tudo isto não bastasse, seremos nós menos misericordiosos do que um descrente, um hebreu, um judeu?

- De facto seria uma vergonha - murmurou um dos homens se bem que, quando servi no bando do velho e gordo Gandelyn, não tivéssemos esses pruridos. E este camponês malcriado também vai escapar sem nada se lhe exigir?

- Só se tu o não conseguires vencer - comunicou-lhe o chefe.

Tu, rapaz - chamou virado para Gurth -, sabes servir-te daquele varapau em que tão lestamente pegaste há pouco?

- Creio - disse Gurth - que tu, melhor do que ninguém, saberá responder a essa pergunta.

- Sim. Deste-me de facto uma boa castanhada - confirmou o chefe. - Faz o mesmo a este tipo e soltar-te-ei. Se não fores capaz, foste tão valente que eu próprio pagarei o teu resgate... Pega no teu pau, Miller(1) - comandou, e protege a cabeça... Vocês, soltem o tipo e ponham-lhe um varapau nas mãos.

*1. Miller significa, traduzido à letra, moleiro. (N. do T.) Julgo haver luz suficiente para poderem dar bordoada um no outro à vontade.

Os dois adversários, cada um com o seu varapau, avançaram para o meio da clareira para melhor se aproveitarem do luar. Os ladrões riam-se, aconselhando o camarada.

- Miller, acautela a tola!

Miller, pegando pelo centro do pau, fazia-o rodopiar por sobre a cabeça, daquela forma que os Franceses denominam faire te moulinet, e bazofiava-se:

- Avança, malandro, para veres o que te faz o moinho!

- Se és moleiro - respondeu-lhe Gurth, sem ponta de medo e imitando-lhe o movimento -, és também um ladrão, e eu, homem de bem, vou dar-te uma ensinadela.

Aproximaram-se e durante uns minutos evidenciaram iguais força, coragem é arte, aparando e devolvendo pauladas com tão veloz destreza que, para quem estivesse um pouco afastado, o som dos varapaus, batendo um contra o outro, poderia parecer resultante duma luta entre, pelo menos, seis pessoas. Menos encarniçados e muito menos perigosos combates já foram descritos em poemas épicos. O de Gurth contra Miller terá de ficar por cantar, por falta de poeta à altura de lhe rimar os feitos. Contudo, e ainda que o Jogo do pau tenha caído em desuso, tentarei, em prosa, o meu melhor.

Já lutavam há muito quando Miller principiou a perder a calma perante aquele teimoso oponente e as gargalhadas dos seus camaradas dele troçando. Não era esse, de forma alguma, o melhor dos estados de espírito para se prosseguir num nobre jogo como aquele, para o qual, como nas danças de pauliteiros, uma total frieza é essencial. Tal facto ofereceu a Gurth, cujo carácter era firme e sombrio, a oportunidade de tomar vantagens, que aproveitou com grande maestria.

Miller, fulo, pressionou, avançando a golpes alternados com as pontas do varapau, procurando achegar-se ao adversário. Gurth foi-se defendendo, com as mãos a uma distância de um metro uma da outra, e cobrindo-se com célebres movimentos da sua arma, tapando bem tanto a cabeça como o corpo. Manteve-se na defensiva, de olhos bem atentos, pés e mãos firmes, esperando.

Subitamente, vendo o antagonista perder o ímpeto, simulou, pela esquerda, uma paulada à cara. Quando Miller a tentava aparar, deu-lhe, pela direita, nova pancada, no lado esquerdo, atingindo-o com o pau, com toda a violência, na cabeça e obrigando-o a tombar.

- Maravilhosamente bem executado! - saudaram os malandrins. - Jogo limpo, à inglesa. O saxão salvou a pele e a bolsa e o Miller aprendeu uma grande lição.

- Podes continuar o teu caminho, amigo - disse-lhe o chefe em representação da vontade geral. - Serás acompanhado por dois dos meus camaradas até ao pavilhão do teu amo, para te protegerem de outros noctívagos de alma mais dura do que à nossa. Há por ali muitos que não teriam amabilidades destas, numa noite como a de hoje. Lembra-te - aconselhou com severidade - que te recusaste a dizer-nos o nome... não "nos peças os nossos ou tentes descobrir quem somos. Se o fizeres, triste será a tua sorte...

Gurth agradeceu-lhe a gentileza e prometeu acatar-lhe o conselho. Dois salteadores, com varapaus, acenaram para que fosse atrás deles e meteram-se por um atalho que atravessava o bosque e o terreno irregular em seu redor. Na orla da mata, dois homens falaram com eles e, tendo recebido uma resposta em voz baixa, tornaram aos seus esconderijos, deixando-os passar.

Este pormenor fez Gurth pensar ser o bando grande e bem organizado, com sentinelas e tudo.

Ao alcançarem o terreno aberto, onde Gurth talvez tivesse alguma dificuldade em reconhecer a direcção correcta, os ladrões conduziram-no até ao topo duma pequena elevação de onde se avistava, ao luar, a paliçada das liças, os garridos pavilhões, nos dois extremos, com os penantes que os decoravam tremulando, e escutar o cantar dos guardas que assim iam passando o tempo.

Os bandoleiros estacaram ali.

- Não vamos mais além - disseram. - Não seria seguro para nós.

Lembra-te do que te foi recomendado. Esquece o que se passou esta noite e não te arrependerás. Não ligues ao que te avisámos e nem a Torre de Londres te protegerá da nossa vingança.

- Boas noites e muito obrigado, bondosos senhores. Não esquecerei as vossas ordens e julgo não ofender ninguém desejando-vos um ofício menos arriscado e mais honesto.

Separaram-se, os ladrões na direcção em que tinham vindo, Gurth para a tenda do amo, onde, contrariamente às recomendações recebidas, tudo lhe descreveu.

O cavaleiro Desditoso muito se surpreendeu, não só com a generosidade de Rebeca, da qual logo decidiu não se aproveitar, como da dos salteadores, tão pouco própria de gente daquela igualha. Não pôde, todavia, prosseguir meditando nesses dois pontos por necessidade de descanso, que os esforços da luta e a obrigação de se pôr fresco para o dia a chegar lhe impunham.

Estendeu-se no confortável sofá que havia na tenda, O fiel Gurth, agarrando numa pele de urso que estava no chão, servindo de tapete, cobriu-se com ela e deitou-se à entrada para que ninguém nela penetrasse sem que ele disso desse fé.