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O Conde de Monte-Cristo.  Alexandre Dumas
Capítulo 40. O almoço
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O conde, recordamo-lo, era um conviva sóbrio. Albert salientou o facto, manifestando o receio de que, desde o princípio, a vida parisiense desagradasse ao viajante através do seu aspecto mais material, mas ao mesmo tempo mais necessário.

- Meu caro conde - disse -, ao vê-lo comer assaltou-me um receio: que a cozinha da Rua Helder lhe não agrade tanto como a da Praça de Espanha.

Deveria ter-lhe perguntado de que gostava e mandar preparar alguns pratos à sua escolha.

- Se me conhecesse melhor, senhor - respondeu o conde, sorrindo - , não se preocuparia com um pormenor quase humilhante para um viajante como eu, que comeu sucessivamente macaroni em Nápoles, polenta em Milão, olla podrida em Valência, pilau em Constantinopla, karrick na índia e ninhos de andorinha na China. Não existe cozinha para um cosmopolita como eu. Como de tudo e em toda a parte, simplesmente como pouco; e hoje, que me censura a minha sobriedade, estou num dos meus dias de apetite, pois desde ontem de manhã que não comia.

- Desde ontem de manhã! - exclamaram os convivas. - Não comia nada há vinte e quatro horas?

- Não - respondeu o conde. - Fui obrigado a desviar-me do meu caminho para obter informaçÕes nos arredores de Nímes, de forma que me atrasei um pouco e não quis parar.

- E comeu na sua carruagem? - perguntou Morcerf.

- Não, dormi, como me acontece quando me aborreço sem ter a coragem de me distrair ou quando tenho lume e não me apetece comer.

- Quer dizer que comanda o sono, senhor? - perguntou Morrel.

- Mais ou menos.

- Possui alguma receita para isso?

- Infalível.

- Aí está uma coisa que seria excelente para nós, africanos, que nem sempre temos de que comer e raramente temos de que beber - declarou Morrel.

- Decerto - respondeu Monte-cristo. - Infelizmente, a minha receita excelente para um homem como eu, que leva uma vida muito excepcional, seria perigosíssima aplicada a um exército, que não acordaria quando fosse necessário.

- E pode-se saber qual é essa receita? - perguntou Debray.

- Oh, meu Deus, claro que pode! - respondeu Monte-cristo. - Não faço segredo dela. É uma mistura de excelente ópio, que eu próprio fui buscar a Cantão, para ter a certeza de ser puro, e do melhor haxixe que se colhe no Oriente, isto é, entre o Tigre e o Eufrates. Juntam-se os dois ingredientes em partes iguais e faz-se uma espécie de pílulas, que se engolem quando necessárias. Passados dez minutos é efeito garantido. Perguntem ao Sr. Barão Franz de Epinay; creio que as provou um dia.

- Sim, ele disse-me qualquer coisa a esse respeito e até ficou com uma agradável recordação da experiência - declarou Morcerf.

- Mas então traz sempre essa droga consigo? - perguntou Beauchamp, que, na sua qualidade de jornalista, era muito incrédulo.

- Sempre - respondeu Monte-cristo.

- Seria indiscreto se lhe pedisse para ver essas preciosas pílulas? - continuou Beauchamp, esperando apanhar o estrangeiro em falta.

- Não, senhor - respondeu o conde.

E tirou da algibeira uma caixinha de bombons maravilhosa, feita de uma única esmeralda e fechada por meio de uma porca de ouro, que, ao desenroscar-se, dava passagem a uma bolinha esverdeada, do tamanho de uma ervilha. Essa bolinha tinha um cheiro acre e penetrante. Havia quatro ou cinco idênticas na esmeralda, que podia conter uma dúzia.

A caixinha de bombons deu a volta à mesa, mas muito mais para que os convivas examinassem aquela esmeralda admirável do que para verem ou cheirarem as pílulas.

- E é o seu cozinheiro que lhe prepara este petisco? - perguntou Beauchamp.

- Não, senhor - respondeu Monte-cristo. - Não deixo sem mais nem menos os meus verdadeiros prazeres à mercê de mãos indignas. Sou um químico razoável e preparo pessoalmente as minhas pílulas.

- Que admirável esmeralda! É a maior que já vi, embora a minha mãe tenha algumas jóias de família bastante notáveis - observou Château-Renaud.

- Tinha três idênticas - informou Monte-cristo. - Dei uma ao sultão, que a mandou montar no seu sabre, e a outra, ao nosso santo padre, o papa, que a mandou incrustar na sua tiara, ao pé de uma esmeralda mais ou menos idêntica, mas menos bela, que fora oferecida ao seu predecessor, Pio VII, pelo imperador Napoleão. Guardei a terceira para mim e mandei-a escavar, o que lhe tirou metade do seu valor, mas a tornou mais cómoda para o uso que desejava dar-lhe.

Todos olhavam Monte-cristo com espanto. Falava com tanta simplicidade que era evidente dizer a verdade ou estar louco. No entanto, a esmeralda com que ficara na mão levava-os a inclinarem-se naturalmente para a primeira suposição.

- E que lhe deram esses dois soberanos em troca desse magnífico presente? - perguntou Debray.

- O sultão, a liberdade de uma mulher - respondeu o conde. - O nosso santo padre, o papa, a vida de um homem. De modo que uma vez na minha existência fui tão poderoso como se Deus me tivesse feito nascer nos degraus de um trono.

- E foi Peppino quem libertou, não é verdade? - perguntou Morcerf. - Foi a ele que aplicou o seu direito de graça?

- Talvez - respondeu Monte-cristo sorrindo.

- Sr. Conde, não faz ideia do prazer que e experimento ao ouvi-lo falar assim! - disse Morcerf. - Anunciei-o antecipadamente aos meus amigos como um homem fabuloso, como um encantador das Mil e Uma Noites, como um feiticeiro da Idade Média. Mas os Parisienses são pessoas de tal modo subtis em paradoxos que tomam por caprichos da imaginação as verdades mais incontestáveis, quando essas verdades não preenchem todas as condiçÕes da sua existência quotidiana. Por exemplo, temos aqui Debray que lê e Beauchamp que imprime todos os dias que assaltaram e roubaram no bulevar um membro do Jockey-Club; que assassinaram quatro pessoas na Rua Saint-Germain; que prenderam dez, quinze, vinte ladrÕes, quer num café do Bulevar do Templo, quer nas Termas de Juliano, mas que contestam a existência dos bandidos das Maremmes, da campina de Roma ou dos Pântanos Pontinos. Diga-lhes portanto pessoalmente, Sr. Conde, peço-lhe, que fui raptado por esses bandidos e que sem a sua generosa intercessão esperaria, segundo todas as probabilidades, actualmente, a ressurreição eterna nas catacumbas de S. Sebastião, em vez de lhe oferecer de almoçar na minha indigna casita da Rua Helder.

- Então! - exclamou o conde. - Tinha-me prometido nunca mais me falar dessa miséria!...

- Não fui eu, Sr. Conde! - protestou Morcerf. - Foi porventura qualquer outro a quem terá prestado o mesmo serviço que a mim e que decerto confundiu comigo. Falemos, pelo contrário, peço-lhe. Porque se se decidir a falar desse caso, talvez não só me repita um pouco do que sei, mas também muito do que não sei.

- Mas parece-me - observou o conde, sorrindo - que o senhor desempenhou em todo esse caso um papel suficientemente importante para saber tão bem como eu o que se passou.

- Quer prometer-me, se eu disser tudo o que sei - propôs Morcerf -, dizer por sua vez tudo o que não sei?

- É justíssimo! - respondeu Monte-cristo.

- Pois bem - prosseguiu Morcerf -, a despeito do meu amor-próprio, julguei-me durante três dias alvo das negaças de uma máscara, que tomava por qualquer descendente das Túlias ou das Popeias, quando na realidade era pura e simplesmente alvo das negaças de uma e contadine. E observo que digo e contadine para não dizer camponesa. O que sei é que como um ingénuo, mais ingénuo ainda do que aquele de quem falava há pouco, tomei por essa camponesa um jovem bandido de quinze ou dezasseis anos, de queixo imberbe e cintura fina, que, no momento em que pretendia adiantar-me e depositar um beijo no seu casto ombro, me encostou a pistola à garganta e, com o auxílio de sete ou oito dos seus companheiros, me conduziu, ou antes arrastou para o fundo das catacumbas de S. Sebastião, onde encontrei um chefe de bandidos muito letrado, palavra, o qual lia os Comentários, de César, e que se dignou interromper a leitura para me dizer que se no dia seguinte, às seis horas da manhã, não tivesse depositado quatro mil escudos no seu cofre, nesse mesmo dia, às seis e um quarto, deixaria completamente de existir. A carta existe, está em poder de Franz, assinada por mim e com um post-scriptum de mestre luigi Vampa. Se duvidam, escrevo a Franz, que mandará reconhecer as assinaturas. Eis o que sei. Agora o que não sei é como conseguiu, Sr. Conde, merecer tão grande respeito dos bandidos de Roma, que respeitam tão poucas coisas. Confesso-lhe que Franz e eu ficámos boquiabertos de admiração.

- Nada mais simples, senhor - respondeu o conde. - Conhecia o famoso Vampa há mais de dez anos. Muito novo, e quando era ainda pastor, dei-lhe um dia já não sei que moeda de ouro por me ter indicado o meu caminho, e ele deu-me, para nada me ficar a dever, um punhal esculpido por si e que o senhor deve ter visto na minha colecção de armas. Mais tarde, quer porque tivesse esquecido essa troca de presentes que deveria manter a amizade entre nós, quer porque me não tivesse reconhecido, tentou capturar-me, mas fui eu, muito pelo contrário, que o apanhei com uma dúzia dos seus homens. Podia entregá-lo à justiça romana, que é expedita e que agiria ainda mais depressa no seu caso, mas não o fiz; soltei-o a ele e aos seus.

- Com a condição de não pecarem mais - observou o jornalista, rindo. - Vejo com prazer que mantiveram escrupulosamente a sua palavra!...

- Não, senhor - respondeu Monte-cristo. - Com a simples condição de que me respeitariam sempre, a mim e aos meus. Talvez o que lhes vou dizer lhes pareça estranho, senhores socialistas, progressistas e humanitários, mas nunca me preocupo com o meu próximo nem tento proteger a sociedade, que me não protege, e direi mesmo mais, que geralmente só se preocupa comigo para me prejudicar. Por isso, arredando-os da minha estima e mantendo a neutralidade em relação a eles, é ainda a sociedade e o meu próximo que me devem retribuição.

- Até que enfim! - exclamou Château-Renaud. - Aqui está o primeiro homem corajoso que ouço pregar leal e brutalmente o egoísmo. É muito belo isso! Bravo, Sr. Conde!

- É franco, pelo menos - disse Morrel. - Mas estou certo de que o Sr. Conde se não arrependeu de ter faltado uma vez aos princípios que acaba de expor de forma tão absoluta.

- Quando é que faltei a esses princípios, senhor? - perguntou Monte-Cristo, que de vez em quando não se podia impedir de olhar Maximilien, e com tanta atenção que já por duas ou três vezes o ousado jovem baixara os olhos diante do olhar claro e límpido do conde.

- A mim parece-me - respondeu Morrel - que libertando o Sr. de Morcerf, que o senhor não conhecia, servia o seu próximo e a sociedade...

- Da qual é o mais belo ornamento - declarou gravemente Beauchamp, despejando de uma golada uma taça de champanhe.

- Sr. Conde - interveio Morcerf -, caiu nas malhas do raciocínio, o senhor que é um dos mais argutos lógicos que conheço; só falta demonstrar-lhe claramente, o que não tarda, que longe de ser um egoísta é, pelo contrário, um filantropo. Ah, Sr. Conde, diz-se oriental, levantino, malaio, indiano, chinês, selvagem; chama-se Monte-cristo de seu nome de família e Simbad, o Marinheiro, de seu nome de baptismo, e eis que no dia em que pÕe pé em Paris revela possuir instintivamente o maior mérito ou o maior defeito dos nossos excêntricos Parisienses, isto é, usurpa os vícios que não tem e esconde as virtudes que tem!

- Meu caro visconde - redarguiu Monte-cristo -, não vejo em nada do que disse ou fiz uma única palavra que me valha da sua parte ou da destes senhores o pretenso elogio que acabo de receber. O senhor não era um estranho para mim, Porque o conhecia, porque lhe cedera dois quartos, porque lhe oferecera um almoço, porque lhe emprestara uma das minhas carruagens, porque víramos passar as máscaras juntos na Rua do Corso e porque tínhamos assistido de uma janela da Praça del Popolo àquela execução que tanto o impressionou que quase se sentiu indisposto. Ora, pergunto a todos estes senhores, podia deixar o meu convidado nas mãos daqueles horríveis bandidos, como lhos chamaram? De resto, como sabe, ao salvá-lo tinha um pensamento reservado; servir-me do senhor para me introduzir nos salÕes de Paris quando viesse a França. Houve tempo em que pôde considerar esta resolução um projecto vago e fugaz; mas hoje, como vê, é uma autêntica realidade a que tem de se submeter, sob pena de faltar à sua palavra.

- E cumpri-la-ei - declarou Morcerf. - Mas receio muito que fique deveras decepcionado, meu caro conde, o senhor, que está habituado aos lugares acidentados, aos acontecimentos pitorescos, aos horizontes fantásticos. Entre nós não se verifica o mais pequeno episódio do género daqueles a que a sua vida aventurosa o habituou. O nosso Chimborazzo é Montmartre; o nosso Himalaia é o monte Valeriano; o nosso Grande Deserto é a planície de Grenelle, só com a diferença de que abrimos lá um furo artesiano para que as caravanas tivessem água. Temos ladrÕes, muitos mesmo, embora não tenhamos tantos como dizem, mas são ladrÕes que temem infinitamente mais o mais insignificante polícia do que o maior senhor -, enfim, a França é um país tão prosaico e Paris uma cidade tão civilizada que o senhor não encontrara, procurando nos nossos oitenta e cinco departamentos (digo oitenta e cinco departamentos porque, evidentemente. exceptuo a Córsega da França), que não encontrará nos nossos oitenta e cinco departamentos a mais pequena montanha onde não haja um telégrafo nem a mais pequena gruta um pouco escura em que um comissário de polícia não tenha mandado colocar um bico de gás. Há pois um único serviço que lhe posso prestar, meu caro conde, e para isso estou à sua disposição: apresentá-lo em toda a parte, ou mandá-lo apresentar pelos meus amigos, escusado será dizer. Aliás, o senhor não precisa de ninguém para isso; com o seu nome, a sua fortuna e o seu espírito - Monte-cristo inclinou-se com um sorriso levemente irónico -, uma pessoa apresenta-se a si mesma e é bem recebida em toda a parte. Na realidade, só posso portanto ser-lhe útil numa coisa: se alguma experiência da vida parisiense, algum hábito do conforto e algum conhecimento dos nossos bazares me podem recomendar, estou ao seu dispor para lhe arranjar uma casa conveniente. Não me atrevo a propor-lhe que compartilhe o meu alojamento como compartilhei o seu em Roma porque, embora não professe o egoísmo, sou egoísta por excelência, e porque em minha casa nem uma sombra se sentiria bem, a não ser que fosse uma sombra de mulher.

- ora aí está uma reserva muito conjugal! - exclamou o conde. - De facto, lembro-me de me ter dito em Roma algumas palavras acerca de um projectado casamento; devo felicitá-lo pela sua próxima felicidade?

- O caso ainda continua em estado de projecto, Sr. Conde.

- E quem diz projecto, quer dizer eventualidade - interveio Debray.

- Não é bem assim - redarguiu Morcerf. - O meu pai insiste e espero apresentar-lhes dentro de pouco tempo, senão a minha mulher, pelo menos a minha futura: Mademoiselle Eugénie Danglars.

- Eugénie Danglars... - murmurou o conde de Monte-cristo. - Um momento: o pai não é o Sr. Barão Danglars?

- é, sim - respondeu Morcerf. - Mas barão de nova criação.

- E isso que importa - volveu-lhe Monte-cristo -, se prestou ao Estado serviços que lhe mereceram essa distinção?

- Enormes - confirmou Beauchamp. - Apesar de ser liberal de alma e coração, completou em 1829 um empréstimo de seis milhÕes a favor do rei Carlos X, que o fez barão e cavaleiro da Legião de Honra, de forma que usa a fita, não na algibeira do colete, como se poderia crer, mas sim na lapela da casaca.

- Ah! - exclamou Morcerf, rindo. - Beauchamp, Beauchamp, guarde isso para le Corsaire e le Charivari, mas diante de mim poupe o meu futuro sogro.

Depois, virando-se para Monte-cristo:

- Mas há pouco pronunciou o seu nome como se conhecesse o barão. Conhece-o, de facto?

- Não, não o conheço - respondeu negligentemente Monte-cristo - , mas provavelmente não tardarei a conhecê-lo, pois tenho um crédito aberto sobre ele pelas casas Richard & Blount, de Londres; Arstein & Eskeles, de Viena, e Thomson & French, de Roma.

E ao pronunciar estes dois últimos nomes, Monte-cristo olhou pelo canto do olho para Maximilien Morrel.

Se o estrangeiro pretendera produzir qualquer efeito em Maximilien Morrel, não se enganara. De facto, Maximilien. estremeceu como se tivesse sido atingido por um choque eléctrico.

- Thomson & French... - murmurou. - Conhece essa casa, senhor?

- São os meus banqueiros na capital do mundo cristão - respondeu tranquilamente o conde. - Posso ser-lhe útil nalguma coisa junto deles?

- Oh, o Sr. Conde talvez nos pudesse ajudar numas pesquisas até aqui infrutíferas! Há tempos, essa casa prestou um serviço à nossa, mas não sei porquê sempre tem negado que nos prestou esse serviço.

- às suas ordens, senhor - respondeu Monte-cristo, inclinando-se.

- Mas - observou Morcerf - por causa do Sr. Danglars afastámo-nos singularmente do tema da nossa conversa. Tratava-se de encontrar uma habitação conveniente para o conde de Monte-cristo. Vamos, meus senhores, procuremos ter uma ideia: onde instalaremos este novo hóspede do grande Paris?

- No Arrabalde de Saint-germain - sugeriu Château-Renaud - O senhor encontrará lá um encantador palacete com pátio e jardim.

- Ora, ora, Château-Renaud - protestou Debray -, você só conhece o seu triste e desagradável Arrabalde de Saint-germain. Não lhe dê ouvidos, Sr. Conde, e instale-se na Chaussée-d'Antin: é o verdadeiro centro de Paris.

- Bulevar da ópera - sugeriu Beauchamp. - No primeiro andar, uma casa com varanda. - O Sr. Conde mandará levar para lá almofadas de tecido prateado e verá, fumando o seu cachimbo ou tomando as suas pílulas, toda a capital desfilar debaixo dos seus olhos.

- Você não tem nenhuma ideia, Morrel? - perguntou Château-Renaud. - Não propÕe nada?

- Certamente - respondeu sorrindo o rapaz. - Pelo contrário, tenho uma, mas esperava que o senhor se deixasse tentar por qualquer das propostas brilhantes que acabam de lhe fazer. Mas como até agora se não pronunciou, creio poder oferecer-lhe aposentos num palacete muito encantador, muito Pompadour, que a minha irmã alugou há um ano na rua Meslay.

- Tem uma irmã? - perguntou Monte-cristo.

- Tenho, sim, senhor, e uma excelente irmã.

- Casada?

- Há quase nove anos.

- Feliz? - perguntou de novo o conde.

- Tão feliz quanto é permitido a uma criatura humana sê-lo - respondeu Maximillen. - Casou com o homem que amava, aquele que nos ficou fiel na nossa infelicidade: Emmanuel Herbaut.

Monte-cristo sorriu imperceptivelmente.

- Resido lá durante o meu semestre - prosseguiu Maximilien - e estaria, assim como o meu cunhado Emmanuel, à disposição do Sr. Conde para todas as informaçÕes que necessitasse.

- Um momento! - gritou Albert antes de Monte-cristo ter tempo de responder. - Cuidado com o que faz, Sr. Morrel, olhe que vai enclausurar um viajante, Simbad, o Marinheiro, na vida familiar. Vai fazer um patriarca de um homem que veio para ver Paris. - Oh, isso não! - respondeu Morrel, sorrindo. - A minha irmã tem vinte e cinco anos e o meu cunhado trinta; são jovens, alegres e felizes. Aliás, o Sr. Conde estará à vontade nos seus aposentos e só encontrará os seus anfitriÕes quando quiser descer aos aposentos deles.

- Obrigado, senhor, obrigado - disse Monte-cristo. - Contentar-me-ei com ser apresentado por si à sua irmã e ao seu cunhado, se quiser conceder-me essa honra, mas não aceito a oferta de nenhum dos senhores porque já tenho a minha residência pronta.

- Como?! - exclamou Morcerf. - Vai hospedar-se num hotel? Será muito desagradável para si...

- Esteve assim tão mal instalado em Roma? - perguntou Monte-cristo.

- Por Deus - redarguiu Morcerf -, em Roma gastou cinquenta mil piastras a mandar mobilar os seus aposentos; mas presumo que não está disposto a renovar todos os dias semelhante despesa.

- Não foi isso que me deteve - respondeu Monte-cristo mas sim ter resolvido possuir uma casa em Paris, uma casa minha, claro. Por isso, mandei à frente o meu criado de quarto, que já deve ter comprado a casa e mandado mobilar-ma.

- Quer dizer que tem um criado de quarto que conhece Paris? - admirou-se Beauchamp.

- É a primeira vez, como eu, que vem a França; é negro e não fala - respondeu Monte-cristo.

- Então... é Ali? - perguntou Albert, no meio da surpresa geral.

- E, sim, senhor, é Ali, o meu núbio, o meu mudo, que viu em Roma, segundo creio.

- Sim, certamente - respondeu Morcerf. - Lembro-me muito bem dele. Mas como encarregou um núbio de lhe comprar uma casa em Paris e um mudo de lha mobilar? Deve ter feito tudo às avessas, o pobre infeliz.

- Engana-se, senhor. Estou certo, pelo contrário, de que escolheu todas as coisas a meu gosto; porque, como sabe, o meu gosto não é o de toda a gente. Ali chegou há oito dias e deve ter corrido toda a cidade com esse instinto que possui um bom cão de caça quando caça sozinho. Conhece os meus caprichos, as minhas fantasias, as minhas necessidades; deve ter tudo organizado à minha vontade. Sabia que eu chegaria hoje às dez horas e esperava-me desde as nove na Barreira de Fontainebleau. Entregou-me este papel - é o meu novo endereço. Tome, leia.

E Monte-cristo passou um papel a Albert.

- Campos Elísios, 30 - leu Morcerf.

- Ora aí está uma coisa deveras original! - não pôde impedir-se de dizer Beauchamp.

- E muito principesca - acrescentou Château-Renaud.

- Como, não conhece a sua casa?! - perguntou Debray.

- Não - respondeu Monte-cristo. Já lhes disse que não queria chegar atrasado. Mudei de fato na minha carruagem e apeei-me à porta do visconde.

Os jovens entreolharam-se. Ignoravam se tudo aquilo não seria uma farsa desempenhada por Monte-cristo, mas tudo o que saía da boca daquele homem tinha, mal-grado o seu caracter original, tal cunho de simplicidade que se não podia supor que mentisse. Aliás, porque mentiria?

- Teremos portanto de nos contentar com prestar ao Sr. Conde todos os pequenos serviços que estão ao nosso alcance - disse Beauchamp. - Eu, na minha qualidade de jornalista, abro-lhe lodos os teatros de Paris.

- Obrigado, senhor - atalhou, sorrindo, Monte-cristo mas o meu intendente já tem ordem para me reservar um camarote em cada um.

- E o seu intendente é também um núbio, um mudo? - perguntou Debray.

- Não, senhor, é simplesmente um compatriota vosso, se é que um corso pode ser compatriota de alguém Mas o meu amigo conhece-o, Sr. de Morcerf.

- Será por acaso o excelente Signor Berluccio, que tão bem se saiu a alugar as janelas?

- Justamente, e viu-o nos meus aposentos no dia em que tive a honra de receber o senhor para almoçar. É um excelente homem, que foi um pouco soldado, um pouco contrabandista, um pouco de tudo o que se pode ser, enfim. Não juraria mesmo que não tenha tido os seus desaguisados com a Polícia, por uma ninharia, qualquer coisa como uma punhalada...

- E escolheu esse honesto cidadão do mundo para seu intendente, Sr. Conde? - perguntou Debray. - Quanto lhe rouba ele por ano?

- Bom... palavra de honra, não mais do que qualquer outro, tenho a certeza - respondeu o conde. - Mas serve-me bem, não conhece impossíveis e por isso conservo-o.

- Portanto, tem a sua casa montada - observou Château-Renaud. Um palácio nos Campos Elísios, criados, intendente... só lhe falta uma amante.

Albert sorriu. Pensava na bela grega que vira no camarote do conde no Teatro Vallo e no Teatro Argentina.

- Tenho melhor do que isso - respondeu Monte-cristo. - Tenho uma escrava. Os senhores «alugam» as suas amantes no Teatro da ópera, no Teatro do Vaudeville, no Teatro das Variedades; eu comprei a minha em Constantinopla. Ficou-me mais cara, mas a esse respeito não tenho de me preocupar com mais nada.

- Esquece, porém - redarguiu Debray, rindo -, que nós somos, como disse o rei Carlos, francos de nome e francos por natureza; que ao pôr os pés em terra de França a sua escrava se tornou livre?

- Quem lho dirá? - perguntou Monte-Cristo.

- Ora essa, o primeiro que calhar!

- Ela só fala o romaico.

- Isso então é outra coisa.

- Mas vê-la-emos, ao menos? - perguntou Beauchamp. - Ou, assim como tem um mudo, também tem eunucos?

- Juro-lhes que não - respondeu Monte-cristo. - Não levo o meu orientalismo tão longe. Todos os que me rodeiam são livres de me deixar, e deixando-me não precisarão mais de mim nem de ninguém. Talvez seja por isso que me não deixam...

Havia muito tempo que fora servida a sobremesa e tinham vindo os charutos.

- Meu caro - disse Debray, levantando-se -, são duas e meia, o seu convívio é muito agradável, mas não há boa companhia que se não deixe, às vezes até por uma má. Tenho de voltar ao ministério. Falarei do conde ao ministro, pois precisamos de saber quem ele é.

- Cuidado - observou Morcerf. - Até os mais espertos desistiram...

- Ora, temos três milhÕes para gastar com a nossa Polícia. É certo que são quase sempre gastos antecipadamente, mas não importa, ainda há-de haver uns cinquenta mil francos para gastar nisso.

- E quando souberem quem ele é dir-mo-á?

- Prometo-lhe. Adeus, Albert. Meus senhores, sou um vosso humílimo criado...

E depois de sair, gritou muito alto na antecâmara:

- Mande avançar!

- Bom - disse Beauchamp a Albert -, não vou à Câmara, mas tenho para oferecer aos meus leitores melhor do que um discurso do Sr. Danglars.

- Por favor, Beauchamp - pediu Morcerf -, nem uma palavra, suplico-lhe. Não me roube o mérito de o apresentar e explicar. Não é verdade que é curioso?

- E mais do que isso - respondeu Château-Renaud -, é realmente um dos homens mais extraordinários que já vi na minha vida. Vem, Morrel?

- é só o tempo de dar o meu cartão ao Sr. Conde, que desejo me prometa fazer-nos uma visitinha na Rua Meslay, 14.

- Esteja certo de que não faltarei. Senhor - respondeu o conde, inclinando-se.

E Maximilien Morrel saiu com o barão de Château-Renaud, deixando Monte-Cristo sozinho com Morcero.