Read synchronized with  English  Spanisch  French  Finnish  Russian  Chinese 
O Conde de Monte-Cristo.  Alexandre Dumas
Capítulo 17. A cela do abade
< Prev. Chapter  |  Next Chapter >
Font: 

Depois de passar curvado, mas mesmo assim com bastante facilidade, pela passagem subterrânea, Dantès chegou à extremidade oposta da galeria que dava para a cela do abade. Aí, a passagem estreitava e oferecia apenas o espaço suficiente para um homem poder deslizar rastejando. A cela do abade era lajeada. Fora levantando uma das lajes colocadas no canto mais escuro que ele começara a laboriosa operação de que Dantès vira o fim.

Mal entrou e se pôs de pé, o jovem examinou a cela com grande atenção. à primeira vista, não apresentava nada de especial.

- Bom - disse o abade -, é apenas meio-dia e um quarto e ainda temos aí. umas horas adiante de nós.

Dantès olhou à sua volta à procura do relógio em que o abade pudera ver as horas de forma tão precisa.

- Veja esse raio de luz que entra pela minha janela - disse o abade - e veja depois as linhas que tracei na parede. Graças a essas linhas, que se combinam com o duplo movimento da Terra e a elipse que ela descreve à volta do Sol, sei mais exactamente a hora do que se tivesse um relógio, porque um relógio desacerta-se, ao passo que o Sol e a Terra nunca se desacertam.

Dantès nada compreendera desta explicação, pois sempre julgara, ao ver o Sol levantar-se detrás das montanhas e pôr-se no Mediterrâneo, que era ele que andava e não a Terra. O duplo movimento do Globo onde morava e de que no entanto se não apercebia parecia-lhe quase impossível. Em cada palavra do seu interlocutor via mistérios da ciência tão interessantes de aprofundar como as minas de ouro e diamantes que visitara numa viagem que fizera ainda quase criança a Guzarate e a Golconda.

- Vamos - disse ao abade -, tenho pressa de examinar os seus tesouros.

O abade dirigiu-se para a chaminé, deslocou com o formão, que continuava a trazer na mão, a pedra que formava dantes a lareira e que ocultava uma cavidade bastante profunda.

Era nessa cavidade que se encontravam guardados todos os objectos de que falara a Dantès.

- Que quer ver primeiro? - perguntou-lhe.

- Mostre-me a sua grande obra sobre a monarquia na Itália.

Faria tirou do precioso esconderijo três ou quatro rolos de pano, enrolados como folhas de papiro. Eram tiras de pano com cerca de quatro polegadas de largura e dezoito de cumprimento. Essas tiras, numeradas, estavam cobertas de uma escrita que Dantès pôde ler, pois fora traçada na língua materna do abade, isto é, o italiano, idioma que, na sua qualidade de provençal, Dantès compreendia perfeitamente.

- Veja - disse-lhe ele -, está tudo aqui. Há mais ou menos oito dias que escrevi a palavra «fim» no fundo da sexagésima oitava

tira. Para as fazer rasguei duas das minhas camisas e todos os lenços que possuía. Se algum dia voltar a ser livre e houver em toda a Itália um editor que se atreva a editar-me a minha reputação está feita.

- Claro, bem vejo - respondeu Dantès. - E agora mostre-me, peço-lhe, as penas com que escreveu esta obra.

- Veja - disse Faria.

E mostrou ao jovem uma hastezinha de seis polegadas de comprimento e da grossura do cabo de um pincel, na extremidade e à volta do qual se encontrava ligada por uma linha uma das tais cartilagens, ainda suja de tinta, de que o abade falara a Dantès. Era alongada em bico e tendida como uma pena vulgar.

Dantès examinou-a e procurou com a vista o instrumento com que pudera ser talhada tão correctamente.

- Ah, sim! - disse Faria. - O canivete, não é verdade? É a minha obra-prima. Fi-lo, assim como esta faca, de um velho castiçal de ferro.

O canivete cortava como uma navalha de barba. Quanto à faca, tinha a vantagem de poder servir ao mesmo tempo de faca e punhal.

Dantès examinou os diversos objectos com a mesma atenção com que nas lojas de curiosidades de Marselha examinara noutros tempos, vezes, instrumentos executados por selvagens e trazidos dos mares do Sul pelos comandantes de longo curso.

- Quanto à tinta - disse Faria -, já sabe como procedo. Faço-a à medida que preciso dela.

- Agora há ainda uma coisa que me admira - declarou Dantès - que os dias lhe tenham chegado para fazer tudo isso.

- Também tinha as noites - respondeu Faria.

- As noites? Não me diga que é da natureza dos gatos e vê claro durante a noite!

- Não, mas Deus deu, ao homem a inteligência para o compensar da pobreza dos sentidos. Arranjei luz.

- Como?

- Retiro a gordura da carne que me dão, derreto-a e obtenho assim uma espécie de óleo grosso. Olhe, aqui tem a minha vela.

E o abade mostrou a Dantès uma espécie de lampião semelhante aos da iluminação pública.

- Mas o lume?

- Aqui tem duas pedras e pano queimado.

- E as acendalhas?

- Simulei uma doença de pele e pedi enxofre, que me deram.

Dantès pousou os objectos que tinha na mão em cima da mesa e baixou a cabeça, esmagado pela perseverança e pela força daquele espírito.

- Mas isto não, é tudo - continuou Faria. - Não devemos guardar todos os nossos tesouros num único esconderijo. Fechemos este.

Empurraram a laje para o seu lugar. O abade espalhou um pouco de pó por cima dela e depois passou com o pé para fazer desaparecer qualquer vestígio de solução de continuidade, dirigiu-se para a cama e afastou-a.

Atrás da cabeceira, oculto por uma pedra que o fechava com uma hermeticidade quase perfeita, havia um buraco, e nesse buraco uma escada de corda de vinte e cinco a trinta pés de comprimento.

Dantès examinou-a. Era de uma solidez a toda a prova.

- Quem lhe forneceu a corda necessária a este trabalho maravilhoso? - perguntou Dantès.

- Primeiro, utilizei algumas camisas que possuía; depois, os lençóis da minha cama, que desfiei durante os três anos de cativeiro em Fenestrelle. Quando me transferiram para o Castelo de If encontrei maneira de trazer comigo esses fios e continuei aqui o trabalho.

- E nunca descobriram que os lençóis da sua cama não tinham bainha?

- Voltava a fazê-la.

- Com quê?

- Com esta agulha.

E o abade abriu um farrapo do seu vestuário e mostrou a Dantès uma haste comprida, aguçada e ainda enfiada, que trazia consigo.

- Sim - continuou Faria -, primeiro pensei em descravar esses varÕes e fugir pela janela, que é um bocadinho mais larga do que a sua, como vê, e que teria alargado mais no momento da minha evasão. Mas descobri que a janela dava para o pátio interior e renunciei ao meu projecto por ser demasiado arriscado. No entanto, conservei a escada para uma circunstância imprevista, para uma dessas evasÕes de que lhe falei e que o acaso proporciona.

Embora parecesse examinar a escada, Dantès pensava desta vez noutra coisa. Atravessara-lhe o espírito uma ideia. Aquele homem tão inteligente, tão engenhoso, tão profundo, talvez visse claro nas trevas da sua própria desgraça, onde ele mesmo nunca conseguira distinguir fosse o que fosse.

- Em que pensa? - perguntou-lhe o abade sorrindo e tomando o absorvimento de Dantès por uma admiração levada ao mais alto grau.

- Antes de mais nada penso numa coisa: na soma enorme de inteligência que teve de despender para atingir o fim que se propusera. Que não faria portanto livre?

- Nada, talvez. Esse extravasamento do meu cérebro evaporar-se-ia em futilidades. É necessário sermos tocados pela desgraça para escavarmos certas minas misteriosas ocultas na inteligência humana; é necessário haver pressão para fazer explodir a pólvora. O cativeiro concentrou num só ponto todas as minhas faculdades que pairavam por aqui e por aí. Entrechocaram-se num espaço acanhado e, como sabe, de choque das nuvens resulta a electricidade da electricidade o relâmpago e do relâmpago a luz.

- Não, não sei nada - disse Dantès, abatido pela sua ignorância.

- Parte das palavras que profere são para mim palavras vazias de sentido. Não calcula como é feliz por ser assim tão sábio!

O abade sorriu.

- Pensava em duas coisas, não era o que dizia há pouco?

- Era.

- E deu-me a conhecer a primeira. Qual é a segunda?

- A segunda é que o senhor me contou a sua vida e não sabe nada a respeito da minha.

- A sua vida, rapaz, é muito curta para encerrar acontecimentos de qualquer importância.

- Encerra uma enorme desgraça - declarou Dantès. - Uma desgraça que eu não merecia. E desejaria, para não voltar a blasfemar contra Deus como fiz algumas vezes, poder atribuir aos homens a minha desgraça.

- Diz que está inocente do crime que lhe imputam?

- Completamente inocente, juro sobre a cabeça das duas únicas pessoas que me são queridas: sobre a cabeça de meu pai e sobre a cabeça de Mercédès.

- Vejamos - declarou o abade, fechando o esconderijo e empurrando a cama para o seu lugar -, conte-me a sua história.

Dantès contou então o que chamava a sua história e que se limitava a uma viagem à índia e a duas ou três viagens ao Levante. Finalmente chegou à sua última travessia, à morte do comandante Leclère, ao embrulho entregue por ele para o grande marechal, ao encontro com este, à carta entregue por ele e dirigida ao Sr. Noirtier e finalmente à sua chegada a Marselha, à sua festa de noivado, à sua prisão, o seu interrogatório, à sua detenção provisória no Palácio da Justiça e por último à sua prisão definitiva no Castelo de If. Chegado a este ponto, Dantès não sabia mais nada, nem mesmo o tempo a que já estava preso.

Terminado o relato, o abade reflectiu profundamente.

- Há - disse ao cabo de um instante - um axioma de direito de uma grande profundidade. Voltando ao que lhe dizia há pouco, a menos que os meus pensamentos provenham de uma organização falseada, à natureza humana repugna o crime. Contudo, a civilização moderna deu-nos necessidades, vícios, apetites fictícios, etc., que por vezes conseguem abafar os nossos bons instintos e conduzir-nos ao mal. Daí esta máxima: «Se quereis descobrir o culpado, começai por procurar aquele a quem o crime cometido possa ser útil!” A quem poderia ser útil o seu desaparecimento?

- A ninguém, meu Deus! Eu era tão insignificante.

- Não responda assim, porque à resposta falta ao mesmo tempo lógica e filosofia. Tudo é relativo, meu caro amigo, desde o rei que incomoda o seu futuro sucessor até ao empregado que incomoda o supranumerário. Se o rei morre, o sucessor herda uma coroa; se o empregado morre, o supranumerário herda mil e duzentas libras de ordenado. As mil e duzentas libras de ordenado são a sua lista civil e são-lhe tão necessárias para viver como os doze milhÕes de um rei. Cada indivíduo, desde o mais baixo ao mais alto grau da escala social, reúne à sua volta um pequeno mundo de interesses, com os seus turbilhÕes e os seus átomos recurvos, como os mundos de Descartes. Simplesmente, esses mundos vão sempre aumentando à medida que sobem. Trata-se de uma espiral invertida que se sustenta na ponta devido a um jogo de equilíbrio. Mas voltemos ao seu mundo. Ia ser nomeado comandante do Pharaon, não ia?

- Ia.

- Ia casar com uma bonita rapariga, não ia?

- Ia.

- Alguém tinha interesse em que se não tornasse comandante do Pharaon? Alguém tinha interesse em que não casasse com Mercédès? Responda primeiro à primeira pergunta; a ordem é a chave de todos os problemas. Alguém tinha interesse em que se não tornasse comandante do Pharaon?

- Não. Toda a gente gostava muito de mim a bordo. Se os marinheiros pudessem escolher um chefe, estou certo de que me escolheriam a mim. Apenas um homem tinha um motivo para me querer mal; tempos antes discutira com ele e desafiara-o para um duelo que ele recusara.

- Ora aí está! Como se chamava esse homem?

- Danglars.

- Que era a bordo?

- Guarda-livros.

- Se se tivesse tornado comandante conservá-lo-ia no seu lugar?

- Não, se isso dependesse de mim, pois julgara notar algumas incorrecçÕes nas suas contas.

- Muito bem. Agora outra pergunta: alguém assistiu à sua última conversa com o comandante Leclère?

- Não, estivemos sós.

- Mas alguém poderia ouvir a conversa?

- Podia, porque a porta estava aberta. E até... espere... sim, sim, Danglars passou precisamente no momento em que o comandante Leclère me entregava o embrulho destinado ao grande marechal.

- Bom, estamos no bom caminho - declarou o abade. - Levou alguém a terra consigo quando aportou à ilha de Elba?

- Ninguém.

- Entregaram-lhe uma carta?

- Entregaram, o grande marechal.

- Que fez dessa carta?

- Meti-a na carteira.

- Tinha portanto a carteira consigo? Como é que o marinheiro podia trazer no bolso uma carteira destinada a guardar uma carta oficial?

- Tem razão, a carteira estava a bordo.

- Portanto, foi só a bordo que meteu a carta na carteira?

- Foi.

- De Porto Ferraio a bordo, como levou a carta?

- Na mão.

- Quando subiu a bordo do Pharaon toda a gente viu, pois, que levava uma carta?

- Sim.

- Danglars como os outros?

- Danglars como os outros.

- Agora escute bem, reuna todas as suas recordaçÕes: lembra-se dos termos em que estava redigida a denúncia?

- Oh, perfeitamente! Reli-a três vezes e todas as palavras me ficaram na memória.

- Repita-ma.

Dantès concentrou-se um instante.

- Ei-la textualmente:

O Sr. Procurador Régio é avisado por um amigo do trono e da religião de que um tal Edmond Dantès, imediato do navio Pharaon chegado esta manhã de Esmirna depois de escalar Nápoles e Porto Ferraio, foi encarregado por Murat de entregar uma carta ao usurpador e pelo usurpador de entregar outra carta ao comité bonapartista de Paris.

Ter-se-á a prova do seu crime prendendo-o, pois encontrar-se-á essa carta com ele ou em casa do pai, ou no seu camarote a bordo do Pharaon.

O abade encolheu os ombros.

- É claro como a água - observou. - Só um homem dotado de um coração muito ingénuo e muito bom, como você, não adivinharia imediatamente a tramóia.

- Acha? - redarguiu Dantès. - Oh, seria uma grande infâmia!

- Como era a letra habitual de Danglars?

- Uma bonita letra cursiva.

- E a da carta anónima?

- Inclinada para trás.

O abade sorriu.

- Disfarçada, não é verdade?

- Muito perfeita para ser disfarçada.

- Um momento.

Pegou na pena, ou antes, no que chamava assim, molhou-a na tinta e escreveu com a mão esquerda, num pano preparado para o efeito, as duas ou três primeiras linhas da denúncia.

Dantès recuou e olhou quase com terror o abade.

- Oh, é espantoso como essa letra se parece com a outra! - exclamou.

- Porque a denúncia foi escrita com a mão esquerda. Observei uma coisa - continuou o abade.

- Qual?

- Todas as letras traçadas com a mão direita são diferentes, todas as letras traçadas com a mão esquerda assemelham-se.

- Portanto, já viu tudo, já adivinhou tudo?

- Continuamos?

- Oh, sim, sim!

- Passemos à segunda pergunta.

- às ordens.

- Alguém estava interessado em que você não casasse com Mercédès?

- Sim! Um rapaz que a amava: Fernand.

- Não é um nome espanhol?

- Ele era catalão.

- Acha que ele era capaz de escrever a carta?

- Não! Esse limitar-se-ia a dar-me uma facada.

- Claro, está na natureza espanhola: um assassínio, sim; uma cobardia, não.

- De resto - continuou Dantès -, ignorava todos os pormenores consignados na denúncia.

- Você não os revelou a ninguém?

- A ninguém.

- Nem mesmo à sua amante?

- Nem mesmo à minha noiva.

- Foi Danglars.

- Oh, agora tenho a certeza disso!

- Espere... Danglars conhecia Fernand?

- Não... Sim... Recordo-me...

- De quê?

- Na antevéspera do meu casamento viu-os sentados juntos a uma mesa debaixo do caramachão do Tio Pamphile. Danglars estava com ar amistoso e brincalhão e Fernand pálido e nervoso.

- Estavam sozinhos?

- Não, tinham consigo um terceiro companheiro, muito meu conhecido, que sem dúvida se lhes juntara, um alfaiate chamado Caderousse. Mas este estava já bêbedo. Espere... espere... Como não me lembrei disto? Junto da mesa onde bebiam encontrava-se um tinteiro, papel e penas...

Dantès levou a mão à testa e exclamou:

- Oh, os infames, os infames!

- Quer saber mais alguma coisa? - perguntou o abade rindo.

- Quero, claro que quero! Uma vez que o senhor aprofunda tudo, vê claro em todas as coisas, quero saber por que motivo só fui interrogado uma vez, porque não me deram juízes e como fui condenado sem julgamento.

- Oh, isso é um pouco mais grave! - exclamou o abade. - A justiça tem escaninhos sombrios e misteriosos em que é difícil penetrar. O que fizemos até aqui relativamente aos seus dois amigos não passou de uma brincadeira de crianças. A esse respeito, terá de me dar indicaçÕes mais precisas.

- Pronto, interrogue-me, pois na verdade o senhor vê mais claro na minha vida do que eu próprio.

- Quem o interrogou? Foi o procurador régio, o substituto ou o juiz de instrução?

- Foi o substituto.

- Era novo ou velho?

- Novo: vinte e sete ou vinte e oito anos.

- Bom, ainda não corrompido, mas já ambicioso - comentou o abade. - Quais foram as suas maneiras para consigo?

- Mais afáveis do que severas.

- Contou-lhe tudo?

- Tudo.

- E as suas maneiras mudaram no decurso do interrogatório?

- Alteraram-se apenas por um instante, quando leu a carta que me comprometia. Pareceu acabrunhado com a minha desgraça.

- Com a sua desgraça?

- Sim.

- Tem a certeza de que era a sua desgraça que o preocupava?

- Pelo menos deu-me uma grande prova da sua simpatia.

- Qual?

- Queimou a única peça que me podia comprometer.

- Qual? A denúncia?

- Não, a carta.

- Tem a certeza?

- Fê-lo diante de mim.

- Estranho... Esse homem poderia ser maior celerado do que você imagina.

- Palavra de honra que me está a assustar! - exclamou Dantès. - Estará o mundo povoado de tigres e crocodilos?

- Está. Simplesmente os tigres e os crocodilos de dois pés são mais perigosos do que os outros.

- Continuemos, continuemos.

- Com muito gosto. Queimou a carta, diz você?

- Sim, dizendo-me: «Como vê, só existe esta prova contra si e eu destruo-a.» - Essa conduta é demasiado sublime para ser natural.

- Parece-lhe?

- Tenho a certeza. A quem era endereçada a carta?

- Ao Sr. Noirtier, Rua Coq-Héron, n.o 13, em Paris.

- Pode presumir que o seu substituto tivesse algum interesse em que a carta desaparecesse?

- Talvez: porque me fez prometer duas ou três vezes, no meu interesse, dizia ele, não falar a ninguém na carta, e obrigou-me a jurar que não pronunciaria o nome inscrito no endereço.

- Noirtier... - repetiu o abade. - Noirtier... Conheci um Noirtier na corte da antiga rainha da Etrúria, um Noirtier que fora girondino durante a Revolução. Como se chamava o seu substituto?

- Villefort.

O abade desatou a rir.

Dantès olhou-o estupefacto.

- Que tem o senhor? - perguntou.

- Vê esse raio de luz? - inquiriu o abade.

- Vejo.

- Pois bem, agora é tudo mais claro para mim do que esse raio transparente e luminoso. Pobre criança, pobre rapaz! E esse magistrado foi bom para si?

- Foi.

- Esse digno substituto queimou, destruiu a carta?

- Sim.

- Esse honesto fornecedor do carrasco obrigou-o a jurar que nunca mais pronunciaria o nome de Noirtier?

- Obrigou.

- Esse Noirtier, pobre cego, sabe quem era esse Noirtier? Esse Noirtier era o pai dele!

Um raio que tivesse caído aos pés de Dantès e cavado um abismo no fundo do qual se abrisse o Inferno, ter-lhe-ia produzido efeito menos rápido, menos eléctrico, menos esmagador, do que aquelas palavras inesperadas. Levantou-se e agarrou a cabeça com as mãos, como se quisesse impedi-la de rebentar.

- Seu pai! Seu pai! - gritou.

- Sim, seu pai, que se chama Noirtier de Villefort - acrescentou o abade.

Então uma luz fulgurante atravessou o cérebro do prisioneiro e tudo o que até ali lhe parecera obscuro foi de súbito iluminado por uma claridade deslumbrante. As tergiversaçÕes de Villefort durante o interrogatório, a carta destruída, o juramento exigido, a voz quase suplicante do magistrado que, em vez de ameaçar, parecia implorar, tudo lhe veio à memória. Soltou um grito e cambaleou um instante como um homem ébrio. Depois, correu para a abertura que conduzia da cela do abade à sua dizendo:

- Oh, preciso de estar só para pensar em tudo isso!

Mal chegou à sua masmorra atirou-se para cima da cama, onde o carcereiro o encontrou à tardinha, sentado, de olhos fixos e as feiçÕes contraídas, imóvel e mudo como uma estátua.

Durante as horas de meditação que entretanto tinham passado como segundos tomara uma terrível resolução e fizera um formidável juramento.

Uma voz arrancou Dantès ao seu devaneio; a do abade Faria que, tendo recebido por sua vez a visita do carcereiro, vinha convidar Dantès para jantar com ele. A sua qualidade de louco reconhecido e sobretudo de louco divertido valia ao velho prisioneiro alguns privilégios, como o de receber pão um pouco mais branco e uma garrafinha de vinho ao domingo. Ora era justamente domingo e o abade vinha convidar o seu jovem companheiro a compartilhar o seu pão e o seu vinho.

Dantès seguiu-o. Todas as linhas do seu rosto se tinham recomposto e retomado o seu lugar habitual, mas com uma rigidez e uma firmeza, se assim se pode dizer, que denotavam ter tomado uma resolução. O abade olhou-o fixamente.

- Estou aborrecido por o ter ajudado nas suas investigaçÕes e por lhe ter dito o que disse - confessou.

- Porquê? - perguntou Dantès.

- Porque lhe infiltrei no coração um sentimento que lá não havia: a vingança.

Dantès sorriu.

- Falemos de outra coisa - pediu.

O abade olhou-o mais um instante e abanou tristemente a cabeça. Depois, como lhe pedira Dantès falou doutra coisa. O velho prisioneiro era um desses homens cuja conversação, como a das pessoas que muito sofreram, continha numerosos ensinamentos e encerrava sempre um interesse sempre renovado. Mas como não era egoísta, aquele infeliz nunca falava das suas desgraças.

Dantès escutava todas as suas palavras com admiração. Umas correspondiam a ideias que já possuía e a conhecimentos que faziam parte da sua condição de marinheiro, mas outras referiam-se a coisas desconhecidas e, como as auroras boreais que iluminam os navegadores nas latitudes austrais, mostravam ao jovem paisagens e horizontes novos iluminados por clarÕes fantásticos. Dantès compreendeu o prazer que experimentaria uma pessoa inteligente em acompanhar aquele espírito elevado nas alturas morais, filosóficas ou sociais em que tinha o hábito de se lançar.

- Devia ensinar-me um bocadinho do que sabe - declarou Dantès - , quanto mais não fosse para não se aborrecer comigo. Parece-me agora que deve preferir o isolamento a um companheiro sem educação nem cultura como eu. Se concordar com o que lhe peço, comprometo-me a nunca mais lhe falar de fugir.

O abade sorriu.

- Infelizmente, meu filho, a ciência humana é muito limitada e depois de lhe ensinar as matemáticas, a física, a história e as três ou quatro línguas vivas que falo, saberia tanto como eu. Ora toda esta ciência não levaria mais de dois anos a passar do meu espírito para o seu.

- Dois anos! - exclamou Dantès. - Acha que poderia aprender todas essas coisas em dois anos?

- Na sua aplicação, não; nos seus princípios, sim. Aprender não é saber. Há os sabichÕes e os sábios. Uns são fruto da memória, os outros da filosofia.

- Mas não se pode aprender a filosofia?

- A filosofia não se aprende; a filosofia é a reunião das ciências adquiridas com o talento que as aplica. A filosofia é a nuvem deslumbrante em que Cristo pousou o pé para subir ao Céu.

- Vejamos, que me ensinará primeiro? - perguntou Dantès. Tenho pressa de começar, sede de ciência.

- Tudo! - respondeu o abade.

Com efeito, logo naquela noite os dois prisioneiros estabeleceram um plano de educação que começaram a executar no dia seguinte. Dantès possuía uma memória prodigiosa e uma facilidade de concepção extrema. A disposição matemática do seu espírito habilitava-o a compreender tudo através do cálculo, enquanto a poesia do marinheiro corrigia tudo o que pudesse haver de excessivamente material na demonstração, reduzida à secura dos números ou à rectidão das linhas. Sabia já, aliás, o italiano e um bocadinho de grego moderno, que aprendera nas suas viagens ao Oriente. Com estas duas línguas, não tardou a compreender sem demora o mecanismo de todas as outras, e ao cabo de seis meses começava a falar espanhol, inglês e alemão.

Como dissera ao abade Faria. quer porque a distracção que lhe proporcionava o estudo substituísse nele a ânsia da liberdade, quer porque fosse, como já vimos' rígido observador da sua palavra, nunca falava de fugir e os dias passavam para ele rápidos e instrutivos. Passado um ano, era outro homem.

Quanto ao abade Faria, Dantès notava que, apesar da distracção que a sua presença trouxera ao seu cativeiro, entristecia de dia para dia. Uma ideia pertinaz e constante parecia assediar-lhe o espírito. Caí em profundos alheamentos, suspirava involuntariamente, levantava-se de súbito, cruzava os braços e passeava sombrio à volta da cela.

Um dia parou de repente no meio de um desses passeios centenas de vezes repetidos que fazia à roda da cela e exclamou:

- Ah, se não houvesse sentinela!...

- Só haverá sentinela se o senhor quiser - observou Dantès, que lhe seguira o pensamento através da caixa craniana como através de um cristal.

- Já lhe disse que me repugna um assassínio.

- E no entanto esse assassínio, se fosse cometido, sê-lo-ia pelo instinto da nossa conservação, por um sentimento de defesa pessoal.

- Não importa, não o cometeria.

- Mas em todo o caso pensa nele?

- Sem cessar, sem cessar - murmurou o abade.

- E descobriu um meio, não descobriu? - disse vivamente Dantès.

- Descobri, se fosse possível pôr na galeria uma sentinela cega e surda.

- Será cega e surda! - respondeu o rapaz, num tom resoluto que assustou o abade.

- Não, não! - gritou. - Impossível.

Dantès quis levá-lo a falar mais a tal respeito, mas o abade abanou a cabeça e recusou.

Passaram três meses.

- Você é forte? - perguntou um dia o abade a Dantès.

Sem responder, Dantès pegou no formão, torceu-o como uma ferradura e endireitou-o.

- Seria capaz de se comprometer a só matar a sentinela em última extremidade?

- Seria, palavra de honra.

- Então - disse o abade -, poderemos executar o nosso projecto.

- De quanto tempo precisaremos para o pôr em prática?

- De um ano, pelo menos.

- Quando começamos a trabalhar?

- Imediatamente.

- Está a ver? Com isso tudo já perdemos um ano! - exclamou Dantès.

- Acha que o perdemos? - redarguiu o abade.

- Oh, perdão, perdão! - desculpou-se Edmond, corando.

- Caluda! - atalhou o abade. - O homem nunca passa de um homem, e você é ainda um dos melhores que conheci. Veja, aqui está o meu plano.

O abade mostrou então a Dantès um desenho que fizera: era a planta da sua cela, da cela de Dantès e da galeria que ligava uma à outra. A meio da galeria abrira uma passagem estreita semelhante às que se usavam nas minas. Essa passagem serviria para os dois prisioneiros se deslocarem debaixo da galeria onde passeava a sentinela. Uma vez chegados aí, praticariam uma grande escavação e soltariam uma das lajes que formavam o pavimento da galeria. Em dado momento, a laje abater-se-ia debaixo do peso do soldado, que desapareceria engolido pela escavação. Dantès precipitar-se-ia sobre ele no momento em que, ainda aturdido da queda, o soldado não se poderia defender, amarrá-lo-ia, amordaçá-lo-ia, c então ambos passariam por uma das janelas da galeria, desceriam ao longo da muralha exterior com o auxílio da escada de corda e fugiriam.

Dantès bateu palmas e os seus olhos cintilaram de alegria. O plano era tão simples que devia resultar.

Os mineiros deitaram mãos à obra no mesmo dia, com tanto mais ardor quanto é certo o trabalho suceder a um longo repouso e, segundo todas as probabilidades, não ser mais do que a continuação do pensamento íntimo e secreto de cada um.

Nada os interrompia excepto a hora a que ambos eram forçados a regressar às suas celas para receber a visita do carcereiro. Aliás, tinham adquirido o hábito de distinguir, pelo ruído imperceptível dos passos, o momento em que o homem descia e nunca nem um, nem outro fora apanhado de surpresa. A terra que extraíam da nova galeria, e que acabaria por encher a antiga, deitavam-na pouco a pouco e com inauditas precauçÕes por uma ou outra das duas janelas da cela de Dantès ou da cela de Faria. Pulverizam-na com cuidado e o vento da noite levava-a para longe sem deixar vestígios.

Dedicaram mais de um ano a este trabalho executado com um escopro, uma faca e uma alavanca de madeira como únicos instrumentos. Durante esse ano, e sem deixarem de trabalhar, Faria continuou a instruir Dantès, falando-lhe ora numa língua ora noutra, ensinando-lhe a história das naçÕes e dos grandes homens que deixavam de vez em quando atrás de si um desses rastos luminosos chamados glória. O abade, homem do mundo e da alta sociedade, tinha além disso, nas suas maneiras, uma espécie de majestade melancólica de que Dantès, graças ao espírito de assimilação de que a natureza o dotara, soube extrair a polidez elegante que lhe faltava e os modos aristocráticos que habitualmente só se adquirem no convívio com as classes elevadas ou no contacto com homens superiores.

Ao cabo de quinze meses o buraco estava aberto. A escavação era feita por baixo da galeria. Ouvia-se passar e repassar a sentinela, e os dois trabalhadores, forçados a esperar uma noite escura e sem luar para tornar a evasão ainda mais segura, só tinham um receio: que o chão, demasiado delgado, abatesse por si mesmo debaixo dos pés do soldado. Obviou-se a esse inconveniente colocando como suporte uma espécie de vipazinha encontrada nos alicerces. Dantès estava ocupado a colocá-la quando ouviu de súbito o abade Faria, que ficara na cela do rapaz, onde se ocupava por seu turno a aguçar uma cavilha destinada a segurar a escada de corda, chamá-lo em tom angustiado. Dantès regressou rapidamente e deu com o abade de pé no meio da cela, pálido, com a testa coberta de suor e as mãos crispadas.

- Oh, meu Deus! - gritou Dantès. - Que aconteceu, que tem o senhor?

- Depressa, depressa! - atalhou o abade. - Escute.

Dantès olhou o rosto lívido de Faria, os seus olhos rodeados por um círculo azulado, os seus lábios brancos e os seus cabelos eriçados, e ficou tão impressionado que deixou cair no chão o escopro que tinha na mão.

- Mas que se passa? - gritou Edmond.

- Estou perdido! - respondeu o abade. - Ouça-me. Vou ser atacado por um mal terrível, talvez mortal. O acesso aproxima-se, sinto-o. Já uma vez me atacou no ano anterior à minha prisão. Para este mal só há um remédio, o que lhe vou dizer. Corra depressa à minha cela e retire o pé da cama. O pé é oco e encontrará dentro dele um frasquinho de cristal meio cheio de um licor vermelho. Traga-o. Ou antes, não, não poderia ser surpreendido aqui. Ajude-me a regressar à minha cela enquanto disponho ainda de algumas forças. Quem sabe o que acontecerá durante o tempo que durar o acesso?

Sem perder a cabeça, apesar de ser enorme a desgraça que o atingia, Dantès desceu a galeria arrastando o seu infeliz companheiro atrás de si e conduziu-o, com infinita mágoa, até à extremidade oposta. Logo que entrou na cela do abade deitou-o na cama.

- Obrigado - agradeceu o abade, tremendo tanto como se acabasse de sair de água gelada. - O mal aproxima-se e vou cair em catalepsia. É possível que não faça nenhum movimento, que não solte nem um gemido, mas também é possível que espume, me retese e grite. Procure que não ouçam os meus gritos. Isso é importante, pois nesse caso talvez me mudassem de cela e ficaríamos separados para sempre. Quando me vir imóvel, frio e morto, assim dizer, somente nesse instante, note bem, me descerrará os dentes com a faca e deitará na boca oito a dez gotas desse licor. Talvez depois volte a mim.

- Talvez?! - gritou dolorosamente Dantès.

- Socorro! Acudam-me! - gritou o abade. - Morro...

O acesso foi tão súbito e tão violento que o pobre prisioneiro nem sequer teve tempo de acabar a frase começada. Passou-lhe uma nuvem pela testa, rápida e escura como as das tempestades no mar, a crise dilatou-lhe os olhos, torceu-lhe a boca e congestionou-lhe as faces. Agitou-se, espumou, gritou. Mas tal como ele próprio recomendara, Dantès abafou-lhe os gritos debaixo do cobertor. O ataque durou duas horas. Então, mais inerte do que uma massa, mais pálido e frio do que o mármore, mais quebrado do que uma cana calcada aos pés, caiu, retesou-se ainda numa derradeira convulsão e ficou lívido.

Edmond esperou que a morte aparente invadisse o corpo e gelasse até ao coração. Nessa altura; pegou na faca, introduziu a lâmina entre os dentes do abade, descerrou com infinito cuidado os maxilares contraídos, contou uma após outra dez gotas do licor vermelho e esperou.

Passou uma hora sem que o velhote fizesse o mais pequeno movimento. Dantès receava ter agido demasiado tarde e olhava-o, com as mãos enterradas no cabelo. Por fim, surgiu uma leve coloração nas faces do abade, os seus olhos, que tinham permanecido constantemente abertos e átonos, recuperaram a expressão, saiu-lhe da boca um suspiro fraco e tez um movimento.

- Salvo! Salvo! - gritou Dantès.

O doente ainda não podia falar, mas estendeu com visível ansiedade a mão para a porta. Dantès escutou e ouviu os passos do carcereiro. Eram sete horas e Dantès nem tivera oportunidade de calcular o tempo.

O rapaz saltou para a abertura, introduziu-se nela, recolocou a laje por cima da cabeça e regressou à sua cela.

Um instante depois a porta abriu-se e o carcereiro encontrou, como de costume, o prisioneiro sentado na cama.

Mas assim que ele virou costas, assim que o ruído dos seus passos desapareceu na galeria, Dantès, devorado pela inquietação, retomou, sem pensar em comer, o caminho que acabara de percorrer e, levantando a laje com a cabeça voltou a entrar na cela do abade.

Este recuperara os sentidos, mas continuava estendido, inerte e sem forças, na cama.

- Já não esperava tornar a vê-lo - disse a Dantès.

- Porquê? - perguntou o rapaz. - Contava morrer?

- Não, mas como está tudo pronto para a fuga contava que fugisse.

O rubor da indignação coloriu as faces de Dantès.

- Sem o senhor?! gritou. - Julgou-me realmente capaz disso?

- Agora verifico que me enganei - declarou o doente. - Ah, estou muito fraco, muito quebrado, completamente exausto!

- Coragem, as suas forças voltarão - animou-o Dantès, sentando-se junto da cama de Faria e pegando-lhe nas mãos. O abade abanou a cabeça.

- Da última vez - disse - o ataque durou meia hora e depois dele tive fome e levantei-me sozinho. Hoje, não consigo mexer a perna nem o braço e tenho a cabeça nublada, o que prova um derramamento cerebral. à terceira vez ficarei inteiramente paralítico ou morrerei acto contínuo.

- Não, não, sossegue que não morrerá. Esse terceiro ataque, se o tiver, encontrá-lo-á livre. Salvá-lo-emos como desta vez, e melhor do que desta vez, pois teremos todos os meios necessários para isso.

- Meu amigo - redarguiu o velho -, não se iluda. A crise que acaba de me atacar condenou-me a prisão perpétua: para fugir é necessário poder andar.

- Pois bem, esperaremos oito dias, um mês, dois meses se for preciso. Entretanto, as suas forças voltarão. Está tudo preparado para a nossa fuga e temos a liberdade de poder escolher a hora e o momento. No dia em que se sentir com forças suficientes para nadar, nesse dia poremos o nosso projecto em prática.

- Nunca mais nadarei - redarguiu Faria. - Este braço está paralisado, não por um dia, mas sim para sempre. Levante-o você mesmo e veja o que pesa.

O rapaz levantou o braço, que voltou a cair, insensível, e soltou um suspiro.

- Está agora convencido, não é verdade, Edmond? - perguntou Faria. - Acredite que sei o que digo. Desde o meu primeiro ataque deste mal que não tenho deixado de reflectir. Esperava-o' pois trata-se de uma herança de família: o meu pai morreu à terceira crise e o meu avô também. o médico que me preparou este licor, nem mais nem menos do que o famoso Cabanis, predisse-me o mesmo destino.

- O médico enganou-se! - contrapôs Dantès. - Quanto à sua paralisia, não me preocupa: pô-lo-ei às costas e nadarei segurando-o.

- Criança - disse o abade. - É marinheiro, é nadador, deve portanto saber que um homem carregado com semelhante fardo não daria cinquenta braçadas no mar. Deixe de se iludir com quimeras que num sequer enganam o seu excelente coração. Ficarei aqui até soar a hora da minha libertação, que só pode ser agora a da morte. Quanto a si, fuja, parta! É novo, desembaraçado e forte. Não se preocupe comigo, restituo-lhe a sua palavra.

- Está bem - declarou Dantès. - Está bem. Nesse caso, também ficarei.

Em seguida, levantou-se e estendeu solenemente a mão por cima do velho.

- Pelo sangue de Cristo, juro só o deixar depois da sua morte. Faria observou aquele jovem tão nobre, tão simples e tão digno e leu-lhe no rosto, animado pela expressão da mais pura dedicação, a sinceridade do seu afecto e a lealdade do seu juramento.

- Seja - disse o doente. - Aceito, obrigado.

Depois, segurando-lhe na mão:

- É possível que seja recompensado por essa dedicação tão desinteressada - disse-lhe. - Agora, como eu não posso e você não quer fugir, devemos tapar o subterrâneo aberto por baixo da galeria. O soldado pode descobrir ao marchar, pela sonoridade dos seus passos, que o sítio está minado, chamar a atenção de um inspector e então seríamos descobertos e separados. Encarregue-se dessa tarefa, em que infelizmente não o posso ajudar. Trabalhe toda a noite, se for preciso, e só volte amanhã de manhã depois da visita do carcereiro. Terei uma coisa importante para lhe dizer.

Dantès pegou na mão do abade, que o tranquilizou com um sorriso, e saiu com a obediência e o respeito que votava ao seu velho amigo.