Read synchronized with  Chinese  English  French  German  Italian  Russian  Spanisch 
David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 7. O MEU PRIMEIRO SEMESTRE NO INTERNATO
< Prev. Chapter  |  Next Chapter >
Font: 

As aulas recomeçaram solenemente no dia seguinte. Que profunda impressão experimentei quando, após o primeiro almoço, o senhor Creakle entrou e ao ruído das altercações sucedeu um silêncio mortal! O director parou à porta e relanceounos a vista como um gigante dos livros de contos que vigia os seus cativos.

Tungay conservavase ao lado dele. Não houve necessidade de nos mandar calar, porque estávamos todos tolhidos da voz e dos movimentos.

Creakle tomou a palavra e o coxo, como de costume, repetiu o que o patrão dizia.

- Entramos no segundo período, rapazes. Tomai cuidado no que ides fazer. Sede fortes nas Upções que eu, previnovos, serei forte nos castigos. Nunca hesito. Por mais que vos laveis não apagareis os vestígios das marcas que eu vos deixar. E, agora, todos ao trabalho!

Acabada esta exortação, que se tornou a ouvir amplificada na voz de Tungay, Creakle aproximouse de mim e disseme que, se eu sabia morder, ele não o sabia menos. Mostroume então a bengala e perguntou o que eu pensava daquele dente? Era aguçado, hem? Mordia bem? E a cada pergunta davame uma pancada que me fazia torcer com dores. Depressa paguei, pois, como observou Steerforth, o meu tributo ao Internato de Salem. Quantas lágrimas verti.

Não quero dizer que só eu recebesse estes cunhos especiais de distinção. Pelo contrário, os alunos, na sua grande maioria (principalmente os mais novos) auferiam exemplos semelhantes deste tratamento todas as vezes que o senhor Creakle dava um giro pela sala. Metade da aula pranteava, antes mesmo de se iniciarem as lições quotidianas. E quantos estudantes choravam e sofriam no decorrer do ano lectivo, eis o que não me atrevo a comentar, com medo de parecer exagerado.

Creio que mais ninguém neste mundo apreciou a sua profissão como fez o senhor Creakle. Tinha um prazer mórbido em vergastar os rapazes, como se fosse a satisfação de um apetite devorador. Aquilo exercia nele uma fascinação que lhe não deixava repousar o espírito sem haver açoitado a torto e a direito durante todo o dia. Quando penso agora em semelhante criatura, o sangue revoltase com uma indignação tão desinteressada como se o caso pessoalmente me não dissesse respeito; mas sei que o homem era um brutamontes e um incapaz, que não tinha mais direito de ser director de um colégio como de ser almirante ou general, funções em que decerto teria feito muito menos mal.

Míseros propiciadores de um ídolo implacável, como nos curvávamos abjectamente diante dele! Que começo de vida foi o nosso, agora que o recordo: mostrarnos baixos e servis a quem não possuía qualidades mas apenas pretensões!

Vejome sentado na minha carteira, observando o olhar dele, observandoo humildemente, enquanto traça riscas num caderno de aritmética para outra vítima cujas mãos foram flageladas por essa mesma régua e que procura aplacar a dor esfregandoas num lenço. Tenho muito que fazer. Não lhe espio o olhar por frivolidade mas porque me atrai morbidamente, num desejo temeroso de adivinhar o que vai fazer em seguida e se será a minha vez de sofrer ou a de outrem. Uma fila de miúdos, atrás de mim, também o espreita com interesse igual ao meu. Julgo que ele o sabe, embora finja que não. Faz esgares temíveis enquanto traça as linhas no caderno; e eilo que envesga os olhos para o nosso lado, e nós baixamos todos a cabeça sobre os livros, e trememos. Momentos depois tornamos a erguer a vista. Um réu infeliz, acusado de ter feito mal o exercício, avança para o senhor Creakle, obedecendo ao seu chamamento. O delinquente balbucia desculpas, e promete ser melhor no dia seguinte. Creakle profere um gracejo antes de lhe bater, e todos rimos - cachorros miseráveis que somos, mortalmente pálidos e de coração desfalecente.

Estou outra vez sentado à minha carteira, numa tarde sonolenta de Verão. Em volta de mim há um zumbido e um frémito, como se os rapazes fossem moscardos. Experimento uma sensação de amolecimento, devido à carne que comi (almoçámos cerca de hora e meia antes) e tenho a cabeça pesada como chumbo. Quem me dera dormir! Não desfito o senhor Creakle, pestanejando como uma coruja nova. Quando, um instante, sou vencido pelo sono, ainda o vejo, no meu torpor, a contar os cadernos famosos, até que ele vem subtilmente por trás e me desperta com uma reguada rápida nas costas.

Agora encontrome no pátio do recreio, sempre fascinado por ele, se bem que o não possa ver. A janela, perto da qual o director está a jantar, elevase à minha frente e os meus olhos aí se cravam já que não me é possível craválos na sua pessoa. Se o homem a ela assoma, o meu rosto reflecte um ar de submissão implorativa; se ele mira através da vidraça, os alunos mais atrevidos (excepto Steerforth) param no meio das suas brincadeiras para tomar um aspecto pensativo. Certo dia Traddles (o mais desastrado de todos) parte essa mesma vidraça com uma bola. Estremeço neste momento ao rever a cena e pensando que a bola podia ter atingido a cabeça preciosa do senhor Creakle.

Coitado do Traddles! Com o seu fato apertadíssimo, que lhe fazia os braços e as pernas assemelharemse a salsichas ou a tortas, era o mais alegre e também o mais infortunado de todos os alunos. Apanhava sempre (creio que nesse semestre apanhou diariamente, salvo uma segundafeira, dia de saída, em que só recebeu reguadas nas duas mãos). Tencionava escrever ao tio para se queixar deste tratamento, mas nunca o fez. Depois de ficar por algum tempo com a cabeça apoiada à carteira, animavase de novo, começava a rir e desenhava esqueletos na ardósia, mesmo antes de haver enxugado as lágrimas. A princípio estranhei que ele achasse consolação em fazer tais esqueletos e, durante certo tempo, considereio uma espécie de ermita que quisesse ter sempre presente, por meio desses símbolos de morte, que o suplício da bengala não duraria eternamente. Mas concluí que a razão estava em ser coisa mais fácil, visto não exigir o desenho das feições.

Possuía em alto grau a noção da honra. Achava um dever solene, para todos os rapazes, apoiaremse uns aos outros. Disto veio a sofrer por mais de uma vez, especialmente um dia em que Steerforth riu na igreja e o sacristão o expulsou, tomandoo por aquele. Ainda me lembro de o ver conduzido sob escolta, enquanto a assembleia inteira o olhava com desprezo. Nunca revelou quem fora o verdadeiro sacrílego, apesar de que, no dia seguinte, o caso o amargurasse: ficou tantas horas preso que saiu do cárcere com um autêntico cemitério de esqueletos desenhados no Dicionário de Latim. Teve ,porém, a sua recompensa: Stterforth declarou que Traddles não era nada cobarde, e todos compreenderam que não podia haver maior elogio. Eu, por minha parte, suportaria muita coisa (não sendo, atinai, tão corajoso como Traddles e muito mais novo do que ele) só para obter semelhante recompensa.

Ver Steerforth ir para a igreja de braço dado com a menina Creakle era um dos encantos da minha vida. Não achava que ela igualasse a pequena Emily em matéria de beleza, nem me sentia enamorado (não tinha semelhante audácia), mas consideravaa uma rapariga bastante simpática, e quanto a distinção ninguém a ultrapassaria. Quando Steerforth, de calças brancas, lhe segurava na sombrinha, eu sentiame honrado com a sua camaradagem, e pensava que ela não podia deixar de o amar. Para mim, o senhor Sharp e o senhor Mell eram pessoas notáveis; mas, comparado com eles, Steerforth parecia o Sol no meio de duas estrelas.

Steerforth continuava a protegerme, e a sua amizade resultava muito útil, porque ninguém se atrevia a maçarme sabendo que ele me distinguia com o seu favor. Não seria capaz - pelo menos não o fazia - de me defender do senhor Creakle, por mais severo que este fosse comigo; diziame sempre que eu precisava de imitálo no denodo, que, se a coisa fosse com ele, jamais a suportaria. Bem percebia que falasse desse modo para me incutir coragem e no íntimo agradecialhe a solicitude.

A austeridade do director deume, aliás, certa vantagem, a única que desfrutava: o letreiro que eu trazia às costas começou a incomodálo, de modo que tempos depois tive ordem de o tirar, e para sempre.

Uma circunstância fortuita cimentou a intimidade entre mim e Steerforth, duma forma que me trouxe grande orgulho e satisfação, embora originasse os seus inconvenientes. Certo dia, quando ele me honrou com a sua conversa no recreio, eu aventureime a falarlhe de alguém ou de qualquer coisa (não me recordo de que se tratava) que me fazia lembrar personagem ou facto de Peregrine Pickle. Na ocasião Steerforth não disse nada, mas quando íamos deitar, à noite, perguntoume se eu possuía aquela obra.

Respondilhe que não, e expliqueilhe como acontecera que a tivesse lido, assim como os outros livros de que já falei.

- E lembraste deles? - indagou Steerforth.

- Perfeitamente. - A minha memória era boa, o que me permitia recordar tudo muito bem.

- Nesse caso, Copperfield, hásde me contar. Não adormeço com facilidade e costumo acordar muito cedo. Repetirmeás essas histórias umas após outras. Será como nas Mil e Uma Noites.

Lisonjeoume deveras este acordo e resolvemos começar naquela mesma noite. Que tropelias pratiquei no texto dos meus autores favoritos, ao interpretálos de cor, não serei capaz de dizer e prefiro ignorálo. Mas tinha neles arreigada fé, e o meu relato, ao que se me afigura, era simples e vivo, qualidades que hãode desculpar o resto.

Entretanto, à noite, eu caía de sono e outras vezes estava pouco disposto a reencetar a narrativa, o que me tornava penosa aquela obrigação. Devia, porém, fazêlo, sob pena de desiludir e desgostar Steerforth. Também, de manhã, viame ensonado, com vontade de continuar a dormir e achava desagradável ser acordado em sobressalto como a sultana Xerazada e ter de contar uma longa história antes que soasse a sineta do colégio. Ora Steerforth não desistia. Em compensação, explicavame os problemas e exercícios e ajudavame a fazer tudo quanto eu considerava difícil. Não perdia, pois, com a transacção. Contudo façaseme a justiça de acreditar que não era movido por interesse ou egoísmo, nem pelo medo que ele pudesse inspirarme. Admiravao e estimavao, bastandome como recompensa a sua aprovação. Dava tanto valor a isto que me dói o coração ao pensar hoje em tais ninharias. Steerforth mostravase igualmente compreensivo, e de um modo que, em certos casos, suponho ter provocado um suplício de Tântalo em Traddles como nos outros. A prometida carta de Peggotty chegou por fim, e que carta consoladora! O segundo período já ia avançado quando isto sucedeu.

Além da carta veio um bolo, várias laranjas e duas garrafas de licor, e este tesouro, como era justo, depulo aos pés de Steerforth, pedindolhe que o distribuísse.

- Ouve, Copperfield - disse o meu protector - estas garrafas serão para humedeceres a garganta quando contares histórias.

Corei à sugestão e, na minha modéstia, pedilhe que não pensasse em tal. Mas ele replicoume observando que eu às vezes andava encatarroado e que o licor o usaria para esse mesmo fim que ele determinara. Nestas condições guardouo no seu baú e passavao aos poucos para um frasco, quando achava que eu tinha necessidade de me fortalecer, dandomo a tomar através de uma cânula atravessada na rolha. Nalgumas ocasiões, para tornar o remédio mais eficaz, espremia nele uma laranja, ou adicionava umas gotas de essência de hortelãpimenta ou misturavalhe gengibre; e, embora não possa reconhecer que o gosto melhorava com estes adjuvantes nem que fosse o digestivo ideal para tomar àquela hora da noite, ou de manhã ao acordar, eu bebiao no entanto agradecido à sua bondade e manifestavalhe a minha gratidão.

O Peregrine e as outras histórias ocuparamnos durante meses, se não me engano. O entusiasmo nunca enfraqueceu por falta de temas e o licor durou quase tanto como as narrações. Traddles, coitado (nunca me lembro dele sem experimentar uma estranha vontade de rir e sem que as lágrimas me aflorem aos olhos), representava geralmente a parte do coro: fingia hilaridade nos passos mais cómicos e terror quando a descrição tomava um aspecto alarmante, o que, muitas vezes, me fazia perder o fio da meada. O seu maior truque era dar a impressão de que batia os dentes sempre que eu mencionava um alguazil, nas aventuras de Gil Blas, e lembrome de que, no momento em que Gil Blas encontra em Madrid o chefe dos ladrões, ele teve a ideia infeliz de simular tamanho horror que o senhor Creakle, rondando então nas proximidades do dormitório, ouviu o escarcéu e o castigou por mau comportamento nocturno.

O que em mim havia de romanesco e sonhador foi amplificado por esses relatos nas trevas, e talvez que, a este respeito, o caso me não favorecesse. Mas eu era acarinhado como um brinco naquela sala comum, sabia que a minha habilidade se divulgara entre os colegas e que lhes atraía a atenção, apesar de ser dos mais novos, e assim a reputação granjeada estimulava o meu pendor. Num colégio em que impera a pura crueldade, presidido ou não por um estúpido, não é de crer que se aprenda por aí além. Suponho que os meus camaradas foram tão ignorantes como costumam ser quaisquer alunos de colégio; estávamos atormentados, ensinavamnos à força e, portanto, éramos incapazes de aprender com proveito numa vida de infortúnio e de sobressaltos contínuos. Mas a minha vaidadezinha, estimulada por Steerforth, de certa maneira me serviu; sem ser muito poupado em matéria de castigos, torneime contudo uma excepção à regra geral, a ponto de ir armazenando algumas migalhas de ciência.

Nisto muito me valeu o senhor Mell, a quem me sinto grato pela afeição que me dispensou. Sempre me afligiu ver como Steerforth o arreliava sistematicamente; raras vezes perdia ocasião de o ferir nos seus sentimentos e de induzir os outros a fazêlo. Por muito tempo me afligiu essa atitude, tanto mais que eu revelara a Steerforth a minha visita à casa das duas velhas indigentes: sermeia impossível guardar esse segredo como me era impossível deixar de partilhar com ele um bolo ou qualquer outra coisa tangível. E sempre receei que o meu colega lhe falasse nisso e o magoasse com a alusão. Aquela visita teria consequências imprevistas e não despiciendas.

Certo dia em que o senhor Creakle ficou no seu quarto, por motivo de qualquer indisposição, houve grande balbúrdia na aula da manhã. Os estudantes, contentes com a ausência do director, mostravamse insubmissos, apesar de o coxo Tungay ter aparecido lá mais de uma vez e apontado o nome dos principais rebeldes (o que aliás não produziu muita impressão, porque de uma forma ou de outra os castigos abundariam no dia seguinte, e assim se aproveitava a oportunidade inesperada).

Era, a bem dizer, um meio feriado, por ser o último dia da semana. Mas como o barulho que faríamos no pátio podia incomodar o senhor Creakle, e o tempo não estava bom para passeios, obrigaramnos a reentrar na aula durante a tarde a fim de fazermos exercícios mais simples do que os habituais. Ao sábado, precisamente, é que o senhor Sharp ia pentear e frisar a cabeleira, e por isso o senhor Mell, que aguentava todas as estopadas, dirigiu sozinho os trabalhos desse dia.

Se eu pudesse ligar a ideia de um urso ou de um touro a um ente tão pacífico como o senhor Mell, diria que nessa tarde, em meio da refrega, ele se comparava com um desses animais assediado por uma chusma de cães. Ainda o evoco com a cabeça pendida sobre o livro e apoiada na mão ossuda, diligenciando prosseguir o seu labor fatigante, no meio de uma barulheira infernal susceptível de aturdir o próprio presidente da Câmara dos Deputados. Havia alunos que se levantavam para ir brincar num canto ao jogo do lume; havia os que cantavam, riam, falavam, dançavam, bramiam. Uns arrastavam os pés, outros andavam de roda do professor, troçando, fazendo esgares, imitandoo nas costas ou às claras, motejando da sua pobreza, das botas, do casaco, da mãe, de tudo o que se relacionava com ele e que devia merecer respeito.

Erguendose de repente, o senhor Mell bateu com o livro na secretária e gritou:

- Silêncio, rapazes! Que vem a ser isto? É intolerável! Acabo por enlouquecer. Por que se portam comigo dessa maneira?

Foi com o meu livro que ele bateu na mesa. Eu estava ao lado e segui o seu olhar, que relanceava toda a aula. Os alunos sustiveramse, alguns surpreendidos, outros amedrontados, muitos talvez arrependidos.

O lugar de Steerforth ficava ao fundo da sala; achavase indolentemente encostado à parede, de mãos nas algibeiras. Sempre que o professor o fitava, ele fazia o mesmo e fingia assobiar.

- Calese, Steerforth! - bradoulhe o senhor Mell.

- Calese o senhor! - replicou Steerforth, que enrubescera.- A quem é que fala?

- Sentese! - ordenou o professor.

- Sentese também, e cumpra as suas obrigações.

Houve risinhos abafados e alguns aplausos. Mas o mestre estava tão pálido que o silêncio se restabeleceu logo. Um rapaz, que correra de trás da cátedra para arremedar mais uma vez a mãe do senhor Mell, mudou de intenção e disse que ia aparar a pena.

- Se julga, Steerforth, que eu desconheço a influência que exerce aqui sobre estes rapazes -e poisou a mão na minha cabeça, sem reparar no que fazia, julgo eu - ou que eu o não vejo incitálos a ofenderme por todos os meios... então está muito enganado!

- Enganado não estou - redarguiu Steerforth, com a maior frieza - e nem me dou ao trabalho de pensar no senhor.

O professor, de lábios trémulos, prosseguiu:

- Abusa da sua posição de favoritismo para insultar um cavalheiro...

- Um quê? Onde está ele?

Alguém exclamou:

- Devias envergonharte, Steerforth. Isso é feio.

Era Traddles, a quem o mestre mandou imediatamente calarse.

- ... para insultar quem não é afortunado na vida e nunca lhe fez o menor mal. Você tem idade e entendimento para compreender as muitas razões que há para não me tratar dessa maneira - continuou o senhor Mell, cujos lábios tremiam cada vez mais. - Comete uma acção baixa, indigna. Tu, Copperfield, podes ir para o teu lugar se quiseres.

- Copperfield - atalhou Steerforth, avançando. - Espera um instante. Oiçame, senhor Mell, por uma vez. É o senhor que me classifica de baixo e indigno, e não passa de um mendigo descarado. Sempre foi mendigo, bem o sabe, mas, no caso presente, assume as raias do descaramento.

Não sei bem se ia bater no senhor Mell ou se o senhor Mell é que lhe ia bater, ou se realmente existia semelhante intenção em qualquer dos dois. Mas, de súbito, estabeleceuse em toda a aula uma suspensão, como se tudo se houvesse tornado de pedra, e nós vimos que o senhor Creakle e Tungay estavam no meio de nós. A mulher e a filha do director apareceram à porta, apavoradas, o senhor Mell, com os cotovelos na secretária, ficou por instantes paralizado. Então aquele, sacudindoo por um braço, disse assim:

- Espero que não se tenha esquecido, senhor Mell.

Desta vez o seu sopro de voz foi audível e o coxo não teve necessidade de lhe repetir as palavras.

- Não, senhor - respondeu o mestre, oscilando a cabeça e afastando as mãos trémulas com que ocultava a cara. - Não, senhor, não me esqueci e só lastimo que o senhor Creakle não se tenha lembrado de mim um pouco mais cedo. Teria sido mais generoso e mais justo. Pouparmeia muita coisa.

O senhor Creakle, olhando fixamente para o senhor Mell, apoiouse ao ombro de Tungay, subiu para o banco mais próximo e sentouse na secretária. Continuando a fitar do alto do seu trono o professor, que abanava sempre a cabeça e esfregava as mãos, muito agitado, voltouse para Steerforth e disse:

- Já que ele se não digna responder, fale você. Que se passou? Steerforth iludiu a pergunta durante uns segundos. Observava

o seu opositor com desprezo e cólera e permanecia silencioso. Não pude deixar, nesse momento, de pensar quanto a sua atitude era nobre e, em contrapartida, como era vulgar e mesquinha a do senhor Mell.

- Pois bem - começou por fim o meu camarada - que pretendia ele com isso de favoritismo?

- Favoritismo? - repetiu o director, cujas veias incharam de repente. - Quem falou de tal coisa?

- Foi ele.

Creakle virouse para o seu assistente.

- Que queria dizer com isso, senhor Mell?

- Queria dizer, senhor Creakle - replicou o interpelado em voz baixa - que nenhum aluno tem o direito de se valer da sua situação de favor para me rebaixar.

- Rebaixálo, a si? Meu Deus! - exclamou Creakle. - Permita que lhe pergunte - e aqui cruzou os braços no peito, com a bengala e tudo, e carregou de tal modo o cenho que mal se lhe viam os olhos - permita que lhe pergunte se, ao empregar o termo favoritismo, não perdeu o respeito que me é devido. A mim, senhor - insistiu, avançando a cabeça e recuando logo a seguir - que sou o seu chefe, o director deste estabelecimento, o seu patrão!

- Não fui justo - replicou o senhor Mell - confessoo. Não falaria dessa maneira se estivesse mais sereno.

Neste comenos interveio Steerforth.

- Então saiba que ele me chamou baixo e indigno e eu o tratei de mentiroso descarado. Talvez não devesse ter feito isso, mas filo e estou pronto a tomar a responsabilidade.

Sem calcular qual fosse aquela responsabilidade, eu rejubilei ao ouvir tão destemidas palavras. Os rapazes também se impressionaram, pois houve um sussurro geral, embora sem comentários mais concretos.

- Admirome, Steerforth - volveu o director - se bem que a sua franqueza lhe faça honra. Admirome que pronunciasse tal epíteto em relação a uma pessoa empregada neste Internato e por ele remunerada.

Steerforth deixou escapar uma risada.

- Isso não é resposta - insistiu Creakle. - Espero de si mais qualquer coisa.

Se o professor Mell me parecera desprezível perante a atitude elegante do aluno, que direi do director, que se me afigurava ainda mais desprezível?

- Ele que o negue - disse Steerforth.

- Negar que é mendigo? - acudiu Creakle. - Acha que pede esmola pelas ruas?

- Se não o faz pessoalmente, então é alguém da sua família. Vem a dar no mesmo.

Steerforth lançoume uma olhadela, e o senhor Mell afagoume o ombro. Volteime para ele, rubro de vergonha, mas os olhos de Mell estavam fixos em Steerforth; entretanto continuou a afagarme o ombro, sempre a fitar o seu adversário.

- Já que deseja uma explicação, senhor director - começou Steerforth - aí vai ela: a mãe do senhor Mell vive da caridade pública, numa casa de indigentes.

O alvejado não deixava de me passar a mão pelo ombro e de olhar para Steerforth. Num murmúrio, se bem ouvi, desabafou: «Era o que eu pensava.»

O director voltouse para o seu assistente, carrancudo, severo, e disse com forçada cortesia:

- Pois, senhor Mell, acaba de ouvir o que afirmou o aluno Steerforth. Peçolhe que tenha a bondade de o desmentir perante este auditório.

- Não há nada que desmentir - respondeu o professor, no meio de um silêncio confrangedor. - Ele tem razão, disse a pura verdade.

- Seja suficientemente leal para declarar diante de todos - retorquiu Creakle -, se, até agora, eu tinha conhecimento desse facto.

- Conhecimento directo, não.

- O quê?! Pois não sabe que...

- Suponho que ao senhor nunca passou pela cabeça que eu desfrutasse de uma situação abastada - explicou o professor. - Não ignora qual tem sido sempre a minha posição nesta casa.

- O que percebo - comentou o director, e as veias tornaram a entumescerselhe - é que está aqui numa situação falsa e que tomou o colégio por um asilo. Senhor Mell, faça favor de se ir embora, e quanto mais cedo melhor.

- Imediatamente - disse o outro, levantandose. - Despeçome de si e de todos - acrescentou, relanceando a vista pela sala e dandome pancadinhas afáveis nas costas. - James Steerforth, o que lhe desejo é que um dia se envergonhe do que hoje me fez. Por agora, prefiro que não seja meu amigo nem de ninguém da minha consideração.

Mais uma vez poisou a mão no meu ombro, tirou da secretária a flauta e alguns livros, deixou a chave para o seu sucessor e saiu da sala, com aquelas coisas debaixo do braço. Então o senhor Creakle fez um discurso, repetido pelo coxo, no qual agradeceu a Steerforth por haver afirmado (talvez com excessivo calor) a independência e a honorabilidade do Internato de Salem. Concluiu apertando a mão de Steerforth, enquanto nós soltávamos hurras, não sei por quem, mas decerto pelo meu protector, o que me fez associar a eles com energia, embora me sentisse acabrunhado. Seguidamente o senhor Creakle deu bengaladas em Traddles, porque o surpreendeu a chorar, em vez de aplaudir, pela partida do senhor Mell. E por fim regressou ao sofá, ou à cama, donde se havia levantado.

Ficámos sós e olhámos uns para os outros, desconcertados. Quanto a mim, estava tão triste e contrito do papel que desempenhara que só retive as lágrimas com medo de que Steerforth, que me observava, pudesse acharme pouco amigável, ou pouco atencioso para com ele, atendendo à nossa diferença de idade. Steerforth mostrouse indignado com Traddles e regozijouse com o castigo que o rapaz recebeu. O pobre Traddles, a quem a fase de depressão já havia passado, desenhava (de cabeça curvada sobre a carteira) uma nova série de esqueletos e insistiu em que o procedimento para com o senhor Mell não fora digno. No que lhe tocava, acrescentou, a coisa não tinha importância.

- Quem é que procedeu mal, ó maricas? - replicou Steerforth.

- Quem senão tu, Steerforth!

- Que fiz eu?

- Que fizeste? Magoasteo nos seus sentimentos e causaste a perda do seu emprego.

- Magoeio? - repetiu o outro com ar desdenhoso. - Depressa se consolará. Não é tão sensível como a menina Traddles. E no que respeita ao emprego... tão bom, não é verdade?...

julgas que não vou escrever para minha casa, recomendando que lhe enviem dinheiro?

Achámos nobilíssima a intenção de Steerforth, cuja mãe era viúva e rica e fazia tudo o que o filho lhe pedia; gostámos também de ver Traddles posto no seu lugar e elevámos Steerforth às nuvens, em especial quando nos disse, quando nos contou (teve essa condescendência) que fizera tudo aquilo por nossa causa e para nosso bem, sem o menor proveito da sua parte.

Devo, porém, confessar que nessa noite, ao recomeçar as minhas histórias, a flauta do senhor Mell me soou dolorosamente aos ouvidos - som que me pareceu realmente lúgubre quando, vendo Steerforth cansado, acabei por me calar, cada vez mais infeliz.

Não tardei em esquecer o senhor Mell, porque Steerforth, com o maior desembaraço, sem auxílio de qualquer livro (creio que sabia tudo de cor) se encarregou de substituir aquele nalgumas aulas, até que fosse contratado novo professor. Este veionos de uma escola de ensino secundário e, antes de entrar em funções, jantou no colégio para nessa altura ser apresentado a Steerforth, que o aceitou sem reparos e nos disse que era um «tipo decente». Sem fazer ideia do que isto significava quanto às qualidades pedagógicas do mestre, desde logo o respeitei, sem duvidar dos seus altos conhecimentos científicos. Contudo, nunca ele me concedeu as atenções que recebi do seu antecessor, mas a verdade é que eu não tinha nada que me recomendasse.

Nesse período houve só outro acontecimento que saiu do ramerrão diário e que me deixou uma impressão indelével. E isto por muitas razões.

Uma tarde em que estávamos a ser atormentados de modo terrível, sob a férula do senhor Creakle, Tungay entrou na aula e gritou no seu vozeirão:

- Visitas para o Copperfield!

O director e o coxo trocaram algumas palavras acerca da identidade dessas visitas e quanto à sala em que seriam recebidas. Eu puserame de pé, como de costume ao ouvir o meu nome; quase me senti doente de espanto. Enfim, deramme ordem de subir a escada de serviço, a fim de pôr um colarinho lavado antes de seguir para o refeitório. Obedeci e filo num estado de agitação e perplexidade como nunca experimentara. Alcancei a porta da sala, pensando que talvez fosse a minha mãe (até esse momento só me lembrara dos irmãos Murdstones), e, antes de dar volta ao puxador, parei para sufocar um soluço.

De começo, não vi ninguém. Mas como sentisse a porta resistir, olhei para trás dela, e, com a maior admiração, deparouseme o senhor Peggotty e o sobrinho Ham, que me faziam grandes cumprimentos, encostados à parede; não pude deixar de rir, mais do prazer de os encontrar do que do seu ar brincalhão. Apertámos

efusivamente a dextra e eu tornei a rir, até que tirei o lenço e enxuguei os olhos.

O senhor Peggotty - que, bem me lembro, nunca fechou a boca durante a visita - ficou inquieto ao verme chorar e deu uma cotovelada em Ham, para que este dissesse qualquer coisa.

- Então, menino Davy! - começou o rapaz, com o seu sorriso

ingénuo. - Está muito crescido - ajuntou a seguir.

- Cresci? - repliquei, ainda a secar as lágrimas. Não tinha,

se bem recordo, razões especiais para chorar. Mas os olhos humedeceramseme só por estar em presença de velhos amigos, não sei realmente porquê.

- Se cresceu! - insistiu Ham. - Não se faz ideia!

- É verdade!-corroborou o tio.

Riram e eu ri também, e assim continuámos os três, até que me voltou a vontade de chorar.

- Tem tido notícias da minha mãe? - perguntei ao senhor Peggotty. - E como vai a sua irmã e minha querida amiga?

- optimamente.

- E a Emily? E a senhora Gummidge?

- Optimamente.

Fezse um silêncio. Peggotty, para o preencher, extraiu das algibeiras duas lagostas enormes, um caranguejo também grande e um saco amplo de lona cheio de camarões, colocando tudo nos braços de Ham.

- Ora aqui tem, menino. Sabíamos que gostava disto, quando esteve connosco. Por isso tomei a liberdade. Foi a velhota quem os cozeu. - Como se lhe faltasse o assunto, insistiu no mesmo ponto: - Sim, menino, foram cozidos pela senhora Gummidge.

Apresenteilhe os meus agradecimentos. Depois de olhar para Ham, que sorria acanhado, sem lhe fornecer qualquer deixa, Peggotty acrescentou:

- Viemos com vento favorável, aproveitando a maré, desde a nossa Yarmouth até Gravesend. Minha irmã escreveunos a dizer o nome desta terra e pediume que o visitasse se viesse um dia a Gravesend, e lhe desse os seus cumprimentos e que, quanto à família, vai optimamente. A Emily deve escrever à minha irmã quando nós voltarmos, para contar como é que eu encontrei o menino e como estava de saúde; e assim se fez uma bela ida e volta.

Pensei um bocado no que ele queria exprimir e percebi, por fim, que se referia ao círculo giratório das notícias. Então agradecilhe sinceramente, e disse, sentindome corar, que sem dúvida a Emily estava também muito mudada desde o tempo em que apanhávamos conchas na praia.

- Dia a dia tornase uma mulherzinha - esclareceu o pescador. - Perguntelhe a ele.

Com isto designou Ham, que resplandecia de prazer, concordava e exibia sempre o braçado de mariscos.

- Tem uma carinha que é um encanto! - ajuntou Peggotty.

- E tão instruída! - acudiu o sobrinho.

- Escreve na perfeição - acrescentou o tio. - Uma letra que salta aos olhos, tão bemfeitinha!

Era comovedor ver o entusiasmo do pescador pela sobrinha. O rosto grosseiro e peludo irradiava uma expressão de amor e de orgulho feliz, que eu não consigo descrever. Os olhos leais cintilavam como que animados por um sentimento que lhe vinha do coração. O peito largo arfava de prazer. As mãos vigorosas premiamse uma contra a outra, com ardor. Ao falar, sublinhava as frases com o braço direito, que para mim, pigmeu, tomava as proporções de um martelo de bigorna.

Ham estava tão entusiasmado como ele. Creio que continuariam ainda a falar de Emily se não fosse a entrada intempestiva de Steerforth; este, vendome conversar a um canto com dois desconhecidos, interrompeu a ária que vinha cantarolando e disse:

- Não sabia que te encontravas aqui, Copperfield.

De facto, a sala não era geralmente a mais frequentada. Depois daquela observação, saiu.

Não sei se seria o facto de querer mostrar ter um amigo como Steerforth, se o desejo de lhe explicar como é que me relacionara com um homem como Peggotty que me fez chamálo quando ele se retirava.

- Espera, Steerforth - gritei. - São dois marítimos de Yarmouth, excelentes amigos, parentes da minha antiga criada. Vieram de Gravesend para me visitar.

Steerforth retrocedeu.

- Ah, ah, muito prazer. Como passam?

Nas suas maneiras havia tal desembaraço, uma graciosidade tão isenta de basófia, que (ainda hoje estou persuadido) exercia nos outros uma espécie de enfeitiçamento. E ainda estou convencido de que o seu porte, vivacidade, voz agradável, beleza das feições e do corpo e não sei que encanto inato o dotavam de tamanha sedução que justificava as pessoas do facto de não lhe poderem resistir. Vi logo que os dois visitantes simpatizavam com Steerforth e parecia haveremselhe entregado de alma e coração.

- Senhor Peggotty - disse eu - quando escrever à sua irmã digalhe que o senhor Steerforth é muito bondoso e que, sem ele, não saberia que fazer de mim.

- Que disparate - atalhou, rindo, o interessado. - Não diga nada disso!

- E se o senhor Steerforth - prossegui, dirigindome sempre ao pescador - aparecer algum dia em Norfolk ou Suffolk, pode crer que o levarei a ver a sua casa. - Virandome para o meu colega, observei:- É uma casa construída num barco.

- Num barco? - exclamou Steerforth. - Pois então é a melhor residência para um marinheiro perfeito como este senhor.

- Tem razão, tem razão - interrompeu Ham, rindo. - Menino

Davy, o seu amigo tem muita razão. Um marinheiro perfeito, é o que ele é!

Peggotty não estava menos contente que o sobrinho, embora a sua modéstia lhe não permitisse fazerse eco desse louvor. Limitouse, pois, a agradecer, enquanto enfiava no colete as pontas do lenço de pescoço.

--Faço o que posso, meus senhores...

-. Não se pode exigir mais, senhor Peggotty - asseverou Steerforth, que já decorara o nome do pescador.

- Aposto que é o mesmo que o senhor faz - aduziu este - porque háde fazer tudo pelo melhor. Agradeçolhe a atenção que me dispensou. Não passo de homem rude, mas estou às suas ordens. E a minha casa tambem, ofereçolha da melhor vontade se nos der o prazer de a visitar, na companhia do menino Davy. Desculpem o tempo que lhes tomámos, são horas de nos irmos andando. Desejo a ambos as maiores venturas.

Ham comungou nestes sentimentos e nós despedimonos com a maior cordialidade. Nessa noite estive quase tentado a falar a Steerforth na pequena Emily, mas a minha timidez não o consentiu, tanto mais que tinha medo de que ele se risse. Transportámos os mariscos para o dormitório, às ocultas, e, antes de nos deitarmos, banqueteámonos opiparamente. Mas Traddles não teve sorte. Era tão infortunado que mesmo uma ceia como aquela foi suficiente para lhe trazer complicações. Passou mal a noite, verdadeiramente prostrado, tudo por causa do caranguejo. Depois de haver ingerido purgantes sob formas líquidas e sólidas, em doses suficientes para matar um cavalo (na opinião de Demple, cujo pai era médico), ainda por cima recebeu bengaladas e ordem de traduzir seis capítulos gregos do Novo Testamento, por não ter confessado o delito.

O resto do período lectivo tenhoo confuso na memória: só me lembro da nossa luta diária; da mudança das estações; das manhãs geladas, quando a sineta do colégio nos arrancava da cama e nos chamava de novo, nas noites escuras e frias, para o leito; da aula, à tarde, vagamente iluminada e mal aquecida (a da manhã era também uma máquina de fazer constipações); da carne cozida e da carne assada, do carneiro cozido e do carneiro assado; das fatias de pão com manteiga; dos livros dobrados no cantinho da margem; das ardósias estaladas; dos cadernos molhados de lágrimas; das bengaladas e reguadas; dos cortes de cabelo; dos domingos chuvosos; dos pudins de sebo; da atmosfera de tinta de escrever, que envolvia tudo.

Recordome também, todavia, que a longínqua perspectiva das férias, por muito tempo um simples ponto estacionário, começava a aproximarse a pouco e pouco, a crescer mais e mais. Contávamos os meses, depois as semanas, por fim os dias.

No íntimo receava que não me mandassem buscar, e, quando Steerforth me disse que me reclamavam e eu tive a certeza de ir para casa, quanto temi quebrar uma perna, por exemplo, antes que esse momento chegasse! O dia da partida, que era de uma semana distante, passou a ser da semana seguinte, depois de amanhã e finalmente um hoje, uma determinada noite - em que tomei lugar na malaposta de Yarmouth e regressei ao lar.

De caminho, dormi pouco e mal, com sonhos incoerentes acerca de mil e uma coisas. Mas, quando uma vez por outra acordava, o chão que eu via pela portinhola não era o do pátio de Salem, e o som que me chegava aos ouvidos não era o das pancadas que o senhor Creakle dava no Traddles mas o do cocheiro tangendo os seus cavalos.