Read synchronized with  Chinese  English  French  German  Italian  Russian  Spanisch 
David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 63. UMA VISITA
< Prev. Chapter  |  Next Chapter >
Font: 

O que pretendia memorar está quase no fim, mas há ainda um incidente importante, em que muitas vezes penso deleitado e sem o qual ficaria embaraçado um dos fios da trama que teci.

A minha glória e o meu bemestar iam crescendo, a felicidade conjugal era perfeita, e eu estava casado havia já dez anos venturosos. Certa tarde de Primavera, eu e Agnes achávamonos sentados à lareira quando nos anunciaram a visita de um desconhecido. Tinhamlhe perguntado se se tratava de negócios e ele respondera negativamente. Desejava apenas ter o gosto de me falar, e vinha de longe. Era velho, acrescentou a criada, e pelo aspecto parecia um fazendeiro.

Esta notícia soou como misteriosa às crianças, tanto mais que sugeria o começo de uma das suas histórias favoritas, em que entrava uma velha fada maldosa envolta numa capa e com cara de poucos amigos. A comoção foi grande. Um dos meus filhos escondeu a cabeça nos joelhos da mãe, para fugir a qualquer perigo, e a pequena Agnes (a nossa primogénita), deixando a boneca em cima de uma cadeira, para a substituir, ocultouse atrás do reposteiro, donde assistiria à cena enfiando através dele a cabeça encaracolada.

- Mandao entrar - ordenei.

Vimos daí a pouco aparecer - para se deter na sombra do limiar - um velho robusto de cabelo grisalho. A pequena Agnes, atraída pelo olhar do forasteiro, correra ao seu encontro, convidandoo a entrar. Eu ainda não conseguira verlhe bem o rosto quando minha mulher se levantou de repente e gritou com voz agitada e alegre:

- É o senhor Peggotty!

Era ele, de facto. Velho agora, mas ainda ágil e vigoroso. Passada a nossa primeira impressão, sentouse diante do lume, com os meus filhos nos joelhos, e o reflexo das brasas na cara. Na verdade, devia ser o velhote mais robusto e mais belo que eu vira até então.

- Menino Davy - disse ele (e como me pareceu familiar este tratamento, e o tom da sua voz!). - Menino Davy, é para mim um momento de felicidade este em que o torno a ver, com a sua esposa e os seus meninos!

- Um momento feliz para nós todos - repliquei.

- Não era mais alto, menino Davy, do que a mais pequena destas crianças na primeira vez que o vi. E Emily seria do mesmo tamanho, assim como o nosso malogrado Ham.

- O tempo, a mim, mudou mais do que a si, senhor Peggotty. Mas estes garotos não se vão deitar? O senhor está aqui na única casa de Inglaterra que o pode abrigar. Digame onde deixou a bagagem, para que a mande buscar, e depois, diante de um copo de grogue de Yarmouth, contarmeá tudo o que se passou durante estes dez anos.

- Veio só? - perguntou Agnes.

- Sim, senhora, vim só.

Instalámolo na nossa casa e pusemolo à vontade. Ouvindolhe aquela voz familiar podia crer que ele ainda prosseguia as suas viagens em cata da sobrinha adorada.

- Tive de atravessar muita água - principiou Daniel - por espaço de umas quatro semanas. Mas a água, sobretudo a salgada, já me conhece bem. Além disso, havia os amigos que eu desejava ver, e cá me têm.

- Volta para tão longe, sem uma demora grande? - perguntou Agnes.

- Sim, senhora, prometi à Emily, antes de a deixar. Bem vê, os anos não me remoçam, e, se eu não viesse agora, jamais tornaria a fazer esta viagem. Sempre tive esta ideia de vir visitar o menino Davy e a sua senhora, e gozar da sua felicidade, antes de ser demasiadamente velho.

Olhavanos sempre, como se não se fartasse do espectáculo. Agnes afastoulhe, rindo, as madeixas grisalhas da testa, para que ele nos visse melhor.

- E agora - disselhe eu - contenos como é que as coisas se têm passado.

- Posso contar em duas palavras, menino Davy. As coisas têm andado menos mal. Tudo correu bem. Trabalhámos como devíamos, tanto mais que, a princípio, a vida foi dura. No entanto fomos prosperando. Com a criação das ovelhas e do gado graúdo, e mais isto e aquilo, conseguimos manternos tão à vontade quanto era de desejar. Fomos realmente abençoados - acrescentou Peggotty, inclinando a cabeça com respeito. - É claro que levou tempo. Mas tinha de ser.

- E Emily? - perguntámos em uníssono.

- Oh! Quando a senhora a deixou... e devo dizer que nunca a ouvi nas suas orações da noite, através do tabique que nos separava, na selva, nunca a ouvi rezar sem escutar também o seu nome proferido com fervor. Tínhamos perdido de vista o menino Davy, naquele belo pôr de sol, e Emily estava tão abatida, de começo, que se soubesse logo o que o menino delicadamente nos ocultou, creio que ela não resistiria... Mas havia a bordo desgraçados que adoeceram e Emily ocupouse a tratálos. Além disso, havia crianças que nos acompanhavam e ela tomouas ao seu cuidado. Entretevese, espalhou o bem à sua volta e isso ajudoua muito.

- Quando é que ela soube?

- Não lhe disse nada durante um ano. Vivíamos então num lugar solitário, mas no meio de árvores magníficas e de roseiras que trepavam até ao topo da nossa cabana. Certo dia em que eu trabalhava no campo, apareceu um viajante cá de Norfolk ou de Suffolk (já não sei bem) e, naturalmente, convidámolo a entrar, demoslhe de comer e de beber e, enfim, recebemolo muito bem. Toda a colónia procede sempre assim. Trazia um jornal velho e um relato impresso da tempestade. Foi assim que ela soube. Percebio, quando nessa tarde voltei para casa.

Baixou a voz, ao pronunciar estas palavras, e eu noteilhe no rosto a expressão grave de que me recordava tão bem.

- Afligiuse muito?

- Sim, senhor, e por bastante tempo - respondeu Daniel, meneando a cabeça - se é que o efeito não perdura ainda. Penso, todavia, que a solidão lhe fez bem. Tinha muito trabalho com a criação das aves, e isso também favoreceu a resignação. Quem sabe se o menino Davy ainda a reconheceria se a tornasse a ver?

- Emily mudou dessa forma?

- Não sei. Vejoa todos os dias, de maneira que não posso dizer. Mas, às vezes, pareceme que sim. Está magra, um pouco fatigada. Olhos azuis meigos e tristes, rosto delicado, linda cabeça, um tanto curvada, voz e gestos calmos, quase tímidos... Eis a nossa Emily!.

Sem falarmos, víamolo contemplar o lume.

- Uns crêem que a sua afeição se dirigia a quem não era merecedor; outros pensam que o casamento foi frustrado pela morte. Ninguém sabe a verdade. Emily podiase ter casado quantas vezes quisesse. Mas, como ela dizia, «tio, isto acabou!» Sempre alegre comigo, reservada com os demais, disposta a uma caminhada para ensinar uma rapariga na véspera do casamento (fêlo muitas vezes, mas nunca comparecia às cerimónias), terna e afectuosa com o tio, paciente, querida de novos e velhos, procurada por todos os que tinham dificuldades. Eis a nossa Emily!

Passou a mão pela cara, e em seguida, com um suspiro meio sufocado, ergueu a vista.

- Martha continua lá?

- Martha casouse, menino Davy, no segundo ano da sua estada na Austrália. Um moço de lavoura, que passava pela nossa residência para ir ao mercado com os produtos da herdade (viagem de mais de quinhentas milhas, ida e volta), quis tomála por mulher (as mulheres ali são raras) e instalouse por sua conta no mato. A mim ela pediu que contasse a sua história ao rapaz, o que fiz. Casaramse e vivem a quatrocentas milhas de qualquer povoado.

- E a senhora Gummidge?

Ferira uma corda chocarreira, porque Peggotty soltou uma gargalhada e esfregou as pernas de alto a baixo, como fazia quando estava contente, no velho barcoresidência.

- Imaginem! Pois houve quem a pedisse em casamento, também, a ela!

Eu nunca vira Agnes rir com tanta vontade. Essa súbita jovialidade do antigo pescador pareceralhe tão deliciosa que não podia conterse, e quanto mais ria mais me fazia rir a mim e mais aumentava a jovialidade de Peggotty, que não cessava de esfregar as pernas.

- E que respondeu a senhora Gummidge? - inquiri, quando me foi possível retomar a seriedade.

- Acredite se puder! A senhora Gummidge, em vez de dizer «Muito obrigada estoulhe reconhecidíssima, no entanto na minha idade já não convém mudar de estado», ou coisa parecida, agarrou numa selha que tinha à mão e enfioua pela cabeça do pretendente. E eu tive de acudir aos gritos de socorro que o homem soltava.

Daniel tornou a dar uma gargalhada e eu e Agnes imitámolo.

- Mas devo acrescentar para a defender, coitada - continuou, depois de haver enxugado a cara com o lenço, porque rira até às lágrimas - que ela cumpriu tudo quanto nos prometera, e até mais. É mulher muito serviçal, fiel e útil, menino Davy. Nunca a ouvi queixarse de estar só e abandonada, mesmo quando chegámos à colónia, onde tudo era novo para nós. Desde que saiu de Inglaterra nunca mais lamuriou a respeito do seu defunto.

- E agora... os últimos são os primeiros... falenos do senhor Micawber. Pagou tudo o que ficara aqui a dever (até a letra de Traddles, como deves recordarte, Agnes) e por conseguinte podemos deduzir que tem prosperado. Quais são as últimas novidades a seu respeito?

Com um sorriso, Peggotty levou a mão à algibeira e tirou um macete chato, donde extraiu com muito cuidado uma espécie de jornal.

- Deve saber, menino Davy, que ao presente já deixámos a selva, porque somos ricos, e fomos instalarnos em Port Middlebay Harbour, que é o que lá se chama uma cidade.

- O senhor Micawber esteve consigo no interior?

- Sim, senhor, e com que entusiasmo pôs mãos à obra! Vilhe a cabeça calva suar em bica, ao sol, a ponto de julgar que se derretia. Presentemente é juiz de paz.

- Juiz de paz! - repeti.

Daniel mostroume um artigo da tal gazeta - era o Port Middlebay Times - e eu li em voz alta o que se segue:

«O banquete oferecido ao nosso distinto camarada e concidadão senhor Wilkins Micawber, juiz de paz do bairro de Port Middlebay, verificouse ontem no salão do hotel,

que estava repleto de gente. Crêse que seriam nada menos de quarenta e sete comensais, sem falar dos que se acomodaram no corredor e patamar. Toda a sociedade de Port Middlebay porfiou em prestar homenagem a um homem tão justamente estimado, tão vastamente dotado e tão universalmente popular. Presidiu o doutor Mell (do colégio colonial de Salem House, Port Middlebay), que tinha à direita o nosso ilustre convidado. Depois de levantada a mesa e ouvido o Non Nobis (magnificamente cantado, em que sobressaiu a bela voz do talentoso amador Wilkins Micawber Júnior), fizeramse com entusiasmo os brindes tradicionais de lealdade e patriotismo. O doutor Mell, num discurso que transbordava, de comoção, bebeu em seguida à saúde do nosso «distinto hóspede, ornamento da nossa cidade! Possa ele», acrescentou, «jamais a deixar, a não ser para melhoria da sua situação, e possa o seu êxito, entre nós ser de tal ordem que torne impossível semelhante melhoria!» Não é fácil descrever as aclamações que acolheram este brinde. Elevavamse e desciam, para subir de novo, como as ondas do oceano. Por fim estabeleceuse silêncio e o senhor Wilkins Micawber levantouse para agradecer. Longe de nós a ideia, na imperfeição relativa dos recursos actuais da nossa imprensa, tentar seguir o nosso ilustre concidadão através dos períodos harmoniosos do seu discurso elegante e floreado. Que nos baste dizer que era uma obraprima de eloquência, e que os passos em que ele evocou mais particularmente a origem do seu êxito e pôs de sobreaviso os jovens contra o perigo de contrair obrigações pecuniárias de que não pudessem desquitarse fizeram aflorar lágrimas aos olhos dos mais intrépidos. Os outros brindes foram à saúde do doutor Mell, da senhora Micawber (que saudou graciosamente da porta lateral, onde uma galáxia de beldades subiu às cadeiras para contemplar e ao mesmo tempo adornar essa cena agradável), da senhora Ridger Begs (em solteira, Micawber), da senhora Mell, de Wilkins Micawber Júnior (que deliciou a assistência declarando com humor que se sentia incapaz de agradecer com um discurso, mas que, se quisessem, o faria com uma canção}, da família da senhora Micawber (bastante conhecida na sua pátria, como todos sabem), etc., etc., etc. A cerimónia terminou, as mesas desapareceram como por encanto, e o espaço assim conquistado permitiu se iniciasse o baile. Entre os adoradores de Terpsicore, que se divertiram até ao momento em que Febo deu o sinal de partida, notouse em especial Wilkins Micawber Júnior assim como a encantadora menina Helena, quarta filha do doutor Mell.»

Eu olhava para o nome do doutor Mell, contente por saber que se encontrava numa situação muito melhor do que o antigo senhor Mell, exprefeito do colégio da minha meninice,

quando Peggotty me indicou outra coluna do jornal. O meu nome saltou à vista e eu li o seguinte:

«Ao Sr. David Copperfield, eminente escritor

Caro senhor

«Decorreram anos sem que eu tivesse oportunidade de rever com os meus próprios olhos essas feições familiares hoje a grande parte do mundo civilizado.

«Mais, prezado senhor, ainda que privado (pela força de circunstâncias independentes da minha vontade) da companhia do amigo e camarada de juventude, não o deixei de seguir na sua resplandecente carreira. Não me recuso ao prazer, «embora entre nós os mares bramem escumantes» (Burns), de tomar parte no festim intelectual que nos preparou.

«Não posso, pois, deixar de aproveitar esta ocasião, em que tenho portador, para lhe agradecer publicamente (em meu nome e, é justo acrescentar, no da totalidade da população de Port Middlebay) o prazer de que lhe somos todos devedores.

«Continue, caro senhor! Não é aqui desconhecido, nem sequer mal conhecido! Se bem que «afastados», não estamos «inimistosos», nem «melancólicos», nem (ouso ajuntar) «retardatários».

«Prossiga, caro senhor, o seu voo de águia. Os habitantes de Port Middlebay podem ao menos esperar seguilo com os olhos, com alegria, interesse e proveito!

«E entre os olhos que desta parte do globo se erguem para si, encontrará sempre, enquanto houver vida e luz,

os de

Wilkins Micawber,

magistrado.»

Percebi, observando o resto do jornal, que Micawber era um dos seus colaboradores mais estimados e diligentes. Havia nesse mesmo número outra carta dele acerca de uma ponte. Havia também o anúncio da reimpressão próxima, num bonito volume, de uma colecção de cartas do mesmo autor «consideràvelmente revista e aumentada»; e, por fim, se não me engano, o artigo de fundo igualmente subscrito por Micawber.

Falámos ainda durante vário tempo de Micawber, nos serões em que Peggotty passou connosco. Daniel esteve em nossa casa durante a sua permanência em Londres (cerca de um mês) e a irmã dele e a minha tia vieram de Dover visitálo. Quando nos deixou, eu e Agnes fomos despedirnos ao navio, e foi o último adeus que trocámos neste mundo.

Antes, porém, de partir, acompanhoume a Yarmouth para conhecer a inscrição que eu mandara pôr no cemitério, em memória de Ham. Enquanto, a seu pedido, copiei o texto, Daniel abaixouse e apanhou na sepultura um pouco de erva e um pouco de terra.

- É para Emily - disseme, guardando tudo no seio - Prometilhe, menino Davy.