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David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 62. DIVISO UMA LUZ NO MEU CAMINHO
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Dois meses após o meu regresso do estrangeiro, era Natal. Frequentemente me encontrava com Agnes.

Fossem quais fossem os incitamentos do público e a satisfação que eles me proporcionavam, eu apreciava muito mais uma simples palavra de louvor da boca da minha amiga.

Pelo menos uma vez por semana, se não mais, ia a cavalo até Cantuária e aí passava a noite. Voltava, em geral, antes de amanhecer, pois aquela antiga sensação de malestar perseguiame sempre (sobretudo depois de deixar Agnes) e assim evitava as insónias ou pesadelos nocturnos. Passava deste modo a maior parte das tristes noites invernosas em jornadas deste género, agitando pelo caminho pensamentos que me tinham ocupado o espírito durante a longa ausência no continente.

Ou, melhor dizendo, escutaria eu o eco desses mesmos pensamentos? Eles falavamme de longe. Afastaraos de mim, e aceitara a inevitabilidade da minha situação. Quando lia a Agnes trechos do que escrevera, quando via a sua expressão atenta ou comovida até ao riso ou às lágrimas, e lhe escutava a voz meiga, interessada nos acontecimentos imaginários do mundo irreal em que eu vivia, pensava no que podia ter sido o meu destino, mas punha logo de parte a ideia, lembrandome também do que teria sido a minha vida com Dora, se ela ainda existisse.

Era - tenho motivos de sobra para me lembrar - um dia de Inverno frio e agreste. Nevara durante horas e o chão estava coberto de uma camada pouco profunda mas em parte gelada. Da minha janela via soprar sobre o mar o vento violento do norte. Imagineime nos campos de neve das montanhas suíças, então inacessíveis a pés humanos, e pensava o que seria mais isolado, se essas regiões solitárias se o oceano deserto.

- Sais hoje a cavalo, Trot? - perguntoume Betsey, enfiando a cabeça pela porta do meu quarto.

- Sim, tia, vou a Cantuária. Está um dia óptimo para se cavalgar.

- Espero que o teu cavalo seja da mesma opinião - disse ela - mas neste momento pende a cabeça e as orelhas, ali à porta. Háde supor que a estrebaria lhe conviria mais.

Devo explicar aqui que a senhora Trotwood consentia ao meu cavalo o acesso do terreno interdito, continuando, porém, a ser muito severa com os jumentos.

- Não tardará a espertar - repliquei.

- Em todo o caso, o passeio fará bem ao dono - observou ela, relanceando os linguados dispersos na minha mesa. - Ah, filho, quantas horas passas aqui! Não calculava, quando lia livros, que fosse tão grande trabalho escrevêlos!

- Não deixa também de ser grande trabalho o de os ler. E quanto a escrevêlos, tem também os seus encantos, minha tia!

- Bem vejo. A ambição, o amor dos elogios, a solidariedade, e tantas outras coisas, hem? Pois então monta e parte.

- Teve mais alguma informação acerca desse «afecto da Agnes»? - indaguei com a maior calma, de pé à sua frente, depois de Betsey me haver dado uma pancadinha no ombro e se ter sentado numa cadeira.

Fitoume por momentos, antes de responder:

- Creio que sim, Trot.

- Confirmou a sua impressão?

- Creio que sim, Trot.

Olhavame tão fixamente, com uma espécie de hesitação, piedade e afectuosa incerteza que eu apelei para todas as minhas energias a fim de lhe mostrar expressão jovial.

- E o que é mais, Trot, é que...

- Hem?

- Creio que Agnes se vai casar.

- Deus a abençoe! - repliquei alegremente.

- Que Deus a abençoe - repetiu Betsey - e igualmente ao seu marido.

Fizme eco desse voto, despedime e desci com ligeireza a escada, saltei para o cavalo e parti. Tinha mais do que nunca razões para fazer o que havia resolvido.

Recordome tão bem de todos os pormenores dessa jornada de Inverno: os pequeninos caramelos que o vento arrancava à vegetação, para me lançar à cara, o bater seco das ferraduras da minha montada no solo endurecido, a neve saltando à minha frente, a parelha fumegante de uma carroça de palha que se detivera para resfolgar no alto da encosta e sacudir harmoniosamente as campainhas, o declive e as ondulações brancas dos médáos, perfilandose contra o céu sombrio, como se fossem desenhados numa imensa ardósia...

Encontrei Agnes sozinha. As alunas estavam em férias. Lia defronte do lume e, ao verme entrar, descansou o livro. Depois de me acolher com a cordialidade costumada, pegou no cesto da costura, antes de se sentar no poial duma das janelas.

Senteime a seu lado, num tamborete, e falámos do meu livro, de quando o terminaria e do que fizera depois da minha última visita. Agnes, muito alegre, predisse rindose que eu em breve seria célebre de mais para que se conversasse comigo com aquela familiaridade. E concluiu:

- Já vê que eu aproveito o mais possível a situação presente, se é que não representa já bastante atrevimento...

Quando lhe contemplava o belo rosto atento ao trabalho, Agnes alçou os meigos olhos claros e viu que eu a observava.

- Hoje parecia muito absorto - disse ela.

- Precisa que lhe diga porquê? - ripostei. - Vim por causa disso.

Poisou o trabalho, como fazia sempre que discutíamos assuntos sérios, e olhoume sem pestanejar:

- Querida Agnes, duvida da minha fidelidade?

- Não - declarou com certo espanto.

- Crê que eu já não seja o mesmo que era outrora?

- Isso não.

- Lembrase de que tentei dizerlhe, no meu regresso, quanto lhe estava grato e lhe era afeiçoado?

- Lembrome muito bem - volveu brandamente.

- Você tem um segredo. Confesseo, Agnes.

Ela baixou a vista e começou a tremer.

- Eu não podia deixar de adivinhar, ainda que me tivessem dito. Soube por outros lábios que não os seus, Agnes, o que é esquisito, que existe outro homem a quem concedeu o tesouro do seu amor. Não me oculte o que lhe respeita de tão perto. Se tem confiança em mim, como afirma e como eu sei, permitame que seja seu amigo e irmão, e isto antes de tudo mais!

Com um olhar suplicante e quase de censura, a rapariga deixou o vão da janela e, atravessando o compartimento a toda a pressa, como se não soubesse para onde ir, tapou o rosto com as mãos e desatou em soluços que cortavam o coração.

Todavia essas lágrimas caíamlhe na alma como uma promessa de felicidade. Sem razão aparente, associavamseme no espírito ao sorriso meigo e triste de que tão bem me recordava. Estremeci mais de esperança que de receio ou de dor.

- Agnes, querida irmã, que lhe fiz?

- Deixeme ir, Trot. Não me sinto bem... não estou em mim... Falarlheei mais tarde, noutra ocasião... Escreverlheei. Mas agora não me fale. Não, não!

Tratei de me lembrar do que ela me dissera, depois da minha viagem, acerca daquele afecto que não exigia retribuição. Pressenti uma imensidade de coisas que devia explorar imediatamente.

- Agnes, não posso vêla nesse estado e pensar que sou eu a causa. Minha querida, mais querida do que tudo no mundo, se é infeliz, deixeme partilhar da sua infelicidade. Caso precise de conselho, permita que eu procure darlho. Se o seu coração está triste, deixe que o alegre. Para quem pensa que eu vivo agora? Apenas para si!

- Oh, tenha dó de mim. Não me sinto bem. Mais tarde! Foi tudo o que pude apurar.

Seria um desvaire egoísta que me impelia, ou antes uma luz de esperança que me mostrava uma solução que eu não ousava contemplar?

- Devo acrescentar mais qualquer palavra, Agnes. Não posso deixála assim. Por amor de Deus, não consintamos que entre nós se crie um malentendido, depois de tantos anos que nos trouxeram e roubaram tantas coisas! Heide exprimirme com clareza. Se ainda crê que eu podia invejar a ventura que concedesse a outrem, que não a deixaria escolher alguém da sua preferência, que não suportaria ser testemunha da sua alegria, expulse tais ideias, porque não mereço que assim me julgue. Não foi em vão que sofri. Não foi em vão que me aconselhou. No sentimento que lhe consagro não há sombra de egoísmo.

Agnes sossegou e voltou para mim as faces pálidas. Em seguida falou em voz baixa, sufocada de vez em quando pela comoção.

- É forçoso dizerlhe, em nome da sua amizade tão pura, que está enganado, Trot. Não posso acrescentar mais. Se às vezes tive necessidade de auxílio e conselhos, no decurso destes anos, você sempre mos deu. Se algumas vezes fui infeliz, a minha tristeza dissipouse. Se jamais senti um peso no peito, ele foime retirado. Se há em mim um segredo, esse não é novo... E não é... o que você supõe. Não o posso revelar. Pertenceme há muito tempo e devo conserválo.

- Agnes! Espere um instante!

Ia sair, mas retivea. Passeilhe o braço de roda da cintura. «No decurso destes anos»... «O segredo não é novo»... Pensamentos e esperanças desconhecidas turbilhonavamme no cérebro. A minha vida mudava de aspecto.

- Querida Agnes! Você, que eu respeito tanto, você que eu amo tão fervorosamente! Quando cheguei, julgava que não havia nada que pudesse arrancarme esta confissão! Supunha que poderia guardála no fundo da minha alma a vida inteira, até que fôssemos ambos velhos. Mas, Agnes, se posso alimentar esta esperança nascente de a tratar um dia por um nome mais caro que o de irmã, por um nome tão diverso...

As lágrimas dela deslizavam, mas não eram as mesmas de ainda há pouco. Espelhavam a minha esperança.

- Agnes - disse eu - minha guia e meu amparo, em todos os tempos! Se tivesse pensado um pouco mais em si e um pouco menos em mim, quando crescíamos lado a lado, creio que o meu coração frívolo não teria nunca errado por longe. Mas você valia muito mais do que eu, era tão necessária a todas as minhas esperanças e decepções infantis, que a minha confiança e a minha fé se me tornaram como uma segunda natureza e me fizeram esquecer por momentos o meu primeiro e mais forte instinto, que era de a amar como a amo agora.

Ela chorava sempre, porém de alegria e não de tristeza. E eu conservavaa apertada nos braços, como jamais ela estivera e como jamais eu pensara têla.

- Quando eu amava Dora, -e ternamente, como você sabe, Agnes...

- Sim, sim - murmurou gravemente. - E isso consolame.

- Quando eu a amava - continuei - mesmo então o meu amor teria sido incompleto sem o seu apoio. Mas a sua solidariedade veio coroar aquele amor. E, quando perdi Dora, que seria de mim sem a minha querida Agnes?

Continuei a cingila nos braços, mais perto do coração. A mão dela, trémula, descansavame no ombro, e os seus olhos meigos brilhavam através das lágrimas, mergulhando nos meus.

- Parti, querida Agnes, amandoa. Estive longe de si, amandoa. Voltei, amandoa.

Em seguida tratei de lhe contar as minhas lutas e a sua conclusão. Procurei pôr a minha alma a nu diante dela. Esforceime por lhe mostrar como julgava ter atingido melhor compreensão de mim mesmo e sua; como me abandonara às consequências desta compreensão; e como viera ali, nesse dia, para ser fiel aos meus sentimentos. Se Agnes me tinha bastante amor (disselhe) para me aceitar como marido, deviao decerto não aos meus méritos próprios mas à sinceridade da minha estima, aos sofrimentos por que passara e que haviam amadurecido este amor, levandome enfim a revelarlho. E, ó Agnes, mesmo através dos teus olhos puros, era a alma da minha esposacriança que me olhava nesse momento para me decidir a esta resolução e me lembrar por teu intermédio a terna saudade do Botão de Rosa murcho antes de desabrochar!

- sintome feliz, Trot, e o meu coração transborda, mas há

uma coisa que é necessário te diga.

- Que é, meu amor?

Colocou as mãos suaves nos meus ombros e olhoume tranquilamente.

- Não sabes o que é?

- Não me atrevo a perguntar. Dilo tu, querida Agnes.

- Ameite constantemente.

Grande era a nossa felicidade. Não chorávamos pelas provações sofridas (ela sobretudo), mas pela certeza de que nunca mais nos separaríamos.

De tarde, fomos passear ao campo. A atmosfera sossegada parecia corresponder à nossa calma interior. As primeiras estrelas começaram a cintilar quando ainda estávamos fora. Erguendo os olhos para elas, louvámos o Criador por nos haver conduzido a essa serenidade sublime.

Ficámos juntos no vão da janela, ao luar. Agnes contemplava pacificamente o céu, e eu seguia o seu olhar.

Julguei então ver abrirse diante de mim uma extensa via, sobre a qual avançava a custo um pobre garoto andrajoso, exausto e abandonado, que vinha conquistar o coração que eu sentia nesse momento bater de encontro ao meu.

Aproximavase a hora do jantar, no dia seguinte, quando fomos participar à tia Betsey a nossa deliberação. A velha Peggotty informoume de que ela estava no meu gabinete, pois fazia gala em têlo sempre na melhor ordem, pronto para me receber. Encontrámola sentada defronte do lume, de óculos na ponta do nariz.

- Meu Deus! - exclamou, perscrutando a obscuridade. - Quem me trazes aí?

- Agnes - declarei.

Como tínhamos ajustado não dizer nada de começo, a tia Betsey ficou um pouco desconcertada. Deitarame um olhar de esperança quando eu dissera «Agnes», mas, vendo o meu ar habitual, tirou os óculos e esfregou o nariz, o que era sinal de desespero. Todavia recebeu a visita com muita cordialidade, e daí a pouco encaminhávamonos para a casa de jantar.

Durante a refeição, a tia pôs e repôs várias vezes os óculos para me lançar novos olhares, mas acabou por se sentir descoroçoada. O senhor Dick, que conhecia o significado da manobra, pareceu cheio de consternação.

- A propósito - disse eu depois do jantar - falei a Agnes daquilo que me aconselhou...

- Então, Trot - retorquiu Betsey, corando - fizeste mal e faltaste à tua promessa.

- Não está zangada, pois não? Estou certo de que não ficará quando souber que Agnes não tem nenhuma afeição que se deva lamentar.

- Que tolice!

Como dava a aparência de contrariedade, achei preferível pôrLhe cobro à inquietação. Cingi Agnes pela cintura, para a conduzir por trás da poltrona da tia, e ambos nos inclinámos para ela. A tia, depois de dar palmas e encaixando os óculos no nariz, passou imediatamente a uma crise de nervos... pela primeira e última vez da sua vida.

A Peggotty compareceu. Logo que a tia se recompôs, saltou ao pescoço da velha criada e apertoua com toda a força nos braços. Após o que, fez o mesmo ao senhor Dick - muito honrado mas algo surpreendido. Por fim explicoulhe a razão das suas demonstrações. E nós impámos de satisfação.

Não pude descobrir se a tia, na sua conversa anterior comigo, proferira uma mentira piedosa e se realmente se enganara

quanto aos meus sentimentos. Uma coisa era certa, disse ela: derame a entender que Agnes se ia casar. E, afinal, mal sabia a que ponto falava verdade!

Casámonos duas semanas depois. Os únicos convidados para a cerimónia foram Traddles e Sophy, o doutor Strong e a mulher. Deixámolos radiantes de alegria.

Amparei nos braços aquela que era a fonte de todas as minhas mais nobres aspirações, o próprio centro do meu coração, a mulher que eu amava com um amor imarcessível.

- Adorado marido! - murmurou Agnes. - Agora que te posso dar este nome, restame uma coisa a acrescentar.

- Dila, meu amor.

- Isto vem da noite em que Dora morreu. Ela tinhame pedido...

- Continua.

- Adivinhas o que era?

Julguei que sim e aperteia mais contra o peito.

- Disseme que tinha um pedido para me fazer e uma missão para confiar.

- E era...

- Que ninguém mais, senão eu, ocupasse o lugar vazio.

E Agnes poisou a cabeça no meu coração e chorou. Eu chorei com ela, apesar de toda a nossa felicidade.