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David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 61. MOSTRAMME DOIS PENITENTES INTERESSANTES
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Instaleime por algum tempo - pelo menos até que o meu livro se completasse, o que exigia vários meses - na casa da minha tia, em Dover. E ali, diante da janela donde vira o mar prateado de luar na noite da minha chegada, prossegui descansadamente o meu trabalho.

Neste relato, só falo dos meus romances quando eles interferem com a minha vida. Não entro em pormenores quanto a aspirações, alegrias, ansiedades e triunfos da minha arte. Já disse que lhe consagrava todo o ardor do meu entusiasmo e todas as energias da minha alma. Se esses livros têm algum valor, aí se lhes achará o resto; de outro modo, haveria escrito inutilmente e aquele resto não teria interesse para ninguém.

De tempos a tempos ia a Londres, quer para me perder no bulício da vida, quer para consultar Traddles acerca de um assunto. Traddles administrarame muito judiciosamente os bens durante a minha ausência e eu desfrutava de uma situação material próspera. A notoriedade começava a proporcionarme numerosas cartas de pessoas que até aí me eram completamente estranhas - em geral a propósito de nada, o que tornava a resposta muito difícil - e eu combinara com Traddles colocar um letreiro com o meu nome na porta. Assim, o dedicado carteiro da área descarregava lá os maços de cartas que me eram dirigidas, e eu de vez em quando ia examinálas, como um ministro... sem vencimentos.

Nessa correspondência insinuavase de tempos a tempos a proposta amável de um desses numerosos parasitas que estão sempre à coca nos Doctor's Commons: ofereciase para actuar em meu nome (se eu me dignasse dar os últimos passos para ser nomeado solicitador) e pagarme uma percentagem sobre os ganhos obtidos. Declinei sempre estas propostas. Sem isso, já havia tantos impostores e tanta corrupção naquele departamento judicial!

As cunhadas de Traddles já lá não estavam quando o meu nome começou a figurar na porta do advogado, e até o paquete dirseia nunca ter ouvido falar de Sophy, que vivia encerrada no quartinho do lado do pátio, por onde, ao deixar a costura, ela mergulhava o olhar numa nesga de quintal negro de fuligem e dotado de uma bomba. Mas aí a encontraríamos sempre, activa na faina doméstica, cantarolando baladas do Devonshire quando não ouvia passos estranhos na escada.

De início admireime por ver Sophy a escrever num caderno que ela tratava logo de esconder na gaveta, quando eu aparecia.

Este mistério, porém, acabou por me ser desvendado. Certo dia Traddles (que voltava do tribunal sob uma chuvinha fria) tirou da secretária um papel e perguntou o que eu pensava daquela caligrafia.

- Não, não, Tom! - interveio a mulher, que estava a aquecerLhe as pantufas diante do fogão.

- Por que não, minha querida? - volveu Traddles, entusiasmado. - Que te parece, hem, Copperfield?

- É muito regular e nítida. Não me lembro de ter visto nenhuma assim tão exacta.

- Nada de letra feminina, pois não?

- Feminina? Máscula é que ela é!

Traddles desatou a rir de satisfação e informoume de que era a letra de Sophy. Esta tinhalhe observado que em breve necessitaria de um escrevente e que ela podia ocupar esse lugar. Estudara aquela caligrafia numa norma e seria capaz de copiar não sei quantas páginas por hora. Sophy mostravase confusa por ouvir aqueles elogios e declarou que, se o Tom fosse nomeado juiz(1), já não teria necessidade de explicar isto a ninguém. Mas o marido declarou que, sucedesse o que sucedesse, orgulharseia sempre daquela prenda de mulher.

*1. Em Inglaterra podem ser nomeados juízes vultos eminentes do foro.

Depois de ela sair, muito risonha, eu comentei:

- Que esposa excelente e encantadora tu tens, meu caro Traddles!

- Prezado Copperfield - retorquiu ele - é sem excepção a rapariga mais adorável deste mundo. E se soubesses a forma como se encarrega deste apartamento, a sua exactidão, os seus conhecimentos domésticos, a ordem, o bom humor!

- Tens boas razões para a louvar - repliquei. - És um felizardo! Creio que dão um ao outro a maior dose possível de felicidade.

- Seja como for, acredito que somos felizes. Vejoa levantarse de madrugada, nestas manhãs de Inverno, e ocuparse dos preparativos para o dia; ir à praça antes que cheguem os empregados do cartório e não se preocupar nunca com o tempo. Fazme deliciosos primeiros almoços, utilizando as coisas mais simples. E também pudins, e tortas. Anda sempre tão bem arranjada e tão garrida! Está comigo ao serão até altas horas da noite. Sempre bem disposta, sempre pronta a animarse! Quando penso que procede assim por minha causa, mal posso crer, Copperfield!

Até as pantufas, que ela lhe aquecera, o fizeram enternecerse. Estendeu beatificamente os pés para o lume e continuou:

- Há dias em que eu realmente tenho dificuldade de acreditar nesta ventura. Sem falar dos nossos prazeres mais simples... ah, não são dispendiosos, mas tão agradáveis! Quando ficamos aqui à tarde, fechamos a porta e puxamos os reposteiros, que são obra sua. Onde estaríamos melhor? Se o tempo está bonito, vamos dar uma voltinha. As ruas fervilham de distracções. Admiramos os escaparates das lojas, que cintilam de jóias, e eu mostrolhe serpentes de olhos de brilhantes, enroladas em estojos de cetim branco, coisa que eu lhe daria se tivesse dinheiro. Sophy apontame para relógios de ouro em bocetas adornadas de pedras preciosas, com todos os aperfeiçoamentos da arte, objectos que ela me ofereceria se dispusesse de meios. Escolhemos mentalmente os pratos, os talheres de peixe, as facas da manteiga e as pinças dos torrões de açúcar, utensílios que adquiríríamos se ambos dispuséssemos daquilo com que se compram. Em seguida vamonos embora, tão satisfeitos como se trouxéssemos a mercadoria. Quando deambulamos pelos largos e avenidas e vemos uma casa para alugar, acontece pensarmos se ela nos serviria, se eu chegasse a ser juiz. E então contamos as divisões: tal quarto para nós, tais outros para as irmãs, e assim por diante. Concluímos que está ou não a calhar, conforme os casos. Às vezes vamos ao teatro com bilhetes mais baratos, de plateia, e saímos encantados com a peça. De caminho para o lar, não raramente compramos qualquer coisa numa salsicharia ou uma lagosta na marisqueira, e ceamos ainda a conversar acerca do espectáculo a que assistimos. Bem vês, Copperfield, se eu fosse ministro da Justiça, não poderíamos fazer melhor.

E eu pensei:

«Farás sempre algo de bom e agradável, sejas o que fores, meu caro Traddles!»

E em voz alta disse:

- A propósito, suponho que já não desenhas esqueletos...

- Para ser franco - respondeume rindo e corando ao mesmo tempo - não o posso negar de forma peremptória. Outro dia, estando numa das últimas filas do tribunal de King's Bench, com uma pena na mão, ocorreume a ideia de verificar se não perdera esse talento. E bem me parece que deixei lá, no tampo da carteira, o esboço de um esqueleto de peruca.

Rimos ambos com vontade, e Traddles, mirando o lume com um sorriso, concluiu cheio de indulgência:

- Coitado do Creakle!

- Tenho uma carta desse velho patife - declarei, pouco disposto a perdoarlhe as chibatadas que ele dava no Traddles e vendo como este se inclinava para a compaixão.

- O Creakle do colégio? Não me digas!

- Entre as pessoas que se sentem atraídas para a minha glória e riqueza incipiente, e que se julgam haver sido sempre muito dedicadas à minha pessoa, figura esse tal Creakle. Agora já não é professor, está aposentado. Tornouse director de uma cadeia no Middlesex.

Contrariamente à minha previsão, Tradles não exteriorizou a menor surpresa.

- Como pensas que ele arranjou isso? - inquiri.

- Não é fácil responderte, Copperfield. Se calhar votou em alguém, ou emprestou dinheiro a alguém, ou comprou qualquer coisa a alguém e obrigou alguém, ou especulou por alguém que conhece alguém que lhe conseguiu o cargo através do deputado do círculo.

- Seja como for, eilo carcereiro! - exclamei. - Escreveume dizendo que gostaria de me mostrar o único verdadeiro sistema de disciplina nas prisões, o método infalível para criar penitentes sinceros e conversões duradoiras. Enfim, o sistema celular. Que te parece?

- O seu sistema? - perguntou gravemente o meu amigo.

- Não, o convite. Devo aceitar? Queres ir comigo?

- Se for da tua vontade...

- Então voulhe escrever. Lembraste (para não falar do que nos sucedia) como esse Creakle pôs o filho no olho da rua? E que inferno de vida passava a mulher e a filha?

- Se me lembro!

- Pois leste a carta e verás como é o mais terno dos homens para com os presos réus confessos de todos os crimes possíveis e imagináveis, sem que todavia essa ternura pareça estenderse a qualquer outra categoria de indivíduos.

Traddles encolheu os ombros, sem dar sinais de admiração. Aliás não esperava que ele estivesse admirado, porque eu também o não estava, para não desmentir a minha prática de semelhantes contrasensos. Fixámos a data da nossa visita e eu enderecei nesse sentido uma carta ao Creakle, naquela mesma noite. No dia previsto (creio que era o seguinte, mas isso pouco importa), eu e Traddles apresentámonos na cadeia onde o director remava como senhor absoluto. Era um edifício enorme, de construção dispendiosa. Não pude coibirme de pensar, atravessando o portão, no alarido que se levantaria no país se houvesse alguém suficientemente louco para propor que se despendesse metade do dinheiro que a prisão devia ter custado na fundação de uma escola técnica ou de um asilo para velhos achacados. Num escritório que se julgaria situado no résdochão da Torre de Babel (tão maciça era a edificação), fomos recebidos pelo nosso antigo professor, que estava num grupo de dois ou três magistrados e alguns visitantes. Acolheume como quem tivesse outrora formado o meu espírito e me houvesse sempre ternamente estimado. Quando lhe apresentei Traddles, ele insinuou da mesma forma, ainda que com menos ardor, que fora sempre o seu guia espiritual, seu conselheiro e nosso amigo. Creakle envelhecera muito, e a velhice não o favorecia. A cara parecia mais rubicunda, os olhos continuavam pequeninos e talvez mais encovados.

Os cabelos ralos, brancos e oleosos, de que me lembrava ainda, já não existiam por assim dizer, e as veias grossas da testa calva continuavam a ser desagradáveis à vista.

Ao escutar a conversa daqueles senhores, poderseia concluir que não havia mais nada neste mundo vil senão o supremo conforto dos presos, por mais custoso que fosse, e que nada existia na terra além das prisões. Em seguida iniciámos a visita. Era justamente a hora do jantar, e nós fomos em primeiro lugar à espaçosa cozinha, onde se preparava o jantar de cada recluso para o enviar separadamente à respectiva cela, com a regularidade e a precisão de um relógio. Murmurei ao ouvido de Traddles que ninguém decerto ainda notara o contraste surpreendente entre essas refeições copiosas e cuidadas e os jantares, não falo dos indigentes, mas dos soldados, dos marinheiros, dos operários, de todos os que trabalham honradamente. Mas soube então que o «sistema» exigia boa alimentação; para pôr ponto final no dito sistema, digamos sem demora que ele resolvia todas as dúvidas e todas as anomalias. Ninguém parecia suspeitar que se pudesse tomar em consideração outro sistema qualquer além deste.

Enquanto atravessávamos corredores magníficos, perguntei ao senhor Creakle e aos seus amigos quais eram as vantagens principais deste método universal e dominante. Por um lado, elucidaramme, seria o isolamento completo dos encarcerados, de forma que nenhum dos ali internados soubesse fosse o que fosse do seu vizinho, e, por outro lado, o restabelecimento naqueles espíritos de uma mentalidade sã, que os levasse a uma constrição sincera, a um arrependimento genuíno.

Com isto, trataram de nos proporcionar a visita dos reclusos nas suas celas: lá nos levaram através desses mesmos corredores, para onde elas davam, explicandonos como os detidos iam à capela, etc.; achei todavia que estes sabiam alguma coisa da vida recíproca e que tinham encontrado meio de comunicar entre si. À hora em que escrevo, creio que isto é facto provado, mas nessa altura considerarseia um insulto ao sistema insinuar tal suspeita, e eu apliqueime a verificar os sintomas da verdadeira contrição.

Senti, porém, novas apreensões. No cárcere, a moda era a penitência, tão tirânica como a que reinava cá fora quanto ao corte de coletes e casacos nas lojas dos alfaiates. Escutei uma porção de confissões, mais ou menos semelhantes no fundo e também (o que me levou a desconfiar) na forma. Vi muitas raposas desfazendo de vinhas inteiras com cachos inacessíveis; mas poucas a quem eu deixasse ao alcance das uvas. Notei também que os homens que professavam maior arrependimento tinham a certeza de suscitar interesse. O amorpróprio, a vaidade, a falta de distracção e o hábito da mentira (que muitos possuíam em alto grau, como mostrava o seu cadastro)

induziamnos a essas declarações, em que pareciam deleitarse.

Entretanto, ouvi tantas vezes falar, no decorrer das nossas idas e vindas, de um tal número 27 (que era o favorito e parecia ser de facto um prisioneiro modelo), que resolvi sustar o meu juízo até que o tivesse conhecido. Também o 28, conforme percebi, era astro particularmente brilhante mas, para sua infelicidade, o esplendor do 27 fazia empalidecerlhe a glória. Realmente, tanto me mataram o bicho do ouvido com os louvores do 27, os seus discursos sensatos, as belas cartas que escrevia constantemente à mãe (como se ela estivesse no caminho da perdição) que fervia de impaciência por o ver.

Tive de reprimir esta impaciência, pois deixaram o 27 para um efeito espectacular. Finalmente chegámos à porta da sua cela. O senhor Creakle, olhando por um orifício, anunciounos, com a mais profunda admiração, que o preso lia um hinário.

Houve logo uma tal profusão de cabeças em busca do buraquinho que este ficou literalmente obstruído. Todos queriam ver o homem na sua ocupação seráfica. Para obviar a este inconveniente e nos permitir uma conversa com o recluso, o director deu ordem para se abrir a porta e convidou o 27 a vir ao corredor. Assim fizeram. Qual não foi, porém, o meu assombro e o do Traddles ao reconhecermos nesse 27 o arrependido Uriah Heep em pessoa! Também ele nos reconheceu imediatamente e, ao sair da cela, dissenos com uma das suas antigas contorções:

- Como está, senhor Copperf ield? Passou bem, senhor doutor Traddles?

Estas saudações causaram espanto nos circunstantes. Tive a impressão de que pasmaram de o ver tão humilde, pois confessava assim que não lhe desconhecíamos a história.

- E então - disse Creakle, com certa compunção - como vai hoje o nosso 27?

- Num estado de grande humildade - respondeu Uriah.

- Como de costume - retorquiu o director. Alguém indagou com profunda ansiedade:

- Não lhe falta nada? Sentese bem?

- Sim, senhor, e agradeço reconhecido. Melhor do que me sentia anteriormente. Agora compreendo os meus desvarios. Por isso encontro aqui consolação.

Muitos daqueles senhores mostraramse impressionados, e um terceiro curioso inquiriu deste modo, colocandose na primeira fila:

- Que tal acha a carne de vaca?

- Obrigado pelo seu interesse, mas sempre digo que, ontem, estava razoavelmente rija. A minha obrigação é, todavia, ser paciente. Cometi erros, meus senhores - acrescentou com um sorriso humilde - e devo sofrer as consequências sem me queixar.

Um murmúrio de satisfação sublinhou o ar conformado do 27. Contudo houve certa indignação contra o ecónomo que dera origem àquela reclamação, e o director tomou logo nota. Uma vez acalmado, o 27 continuou de pé no meio de todos, como se se considerasse o objecto mais precioso duma colecção magnífica. A fim de que os visitantes ficassem ainda mais edificados, deram ordem para sair ao corredor o 28.

Eu estava já tão estupefacto que não me surpreendi demasiadamente ao ver surgir Littimer, antigo criado de Steerforth, mergulhado na leitura de uma obra de devoção.

- 28! - exclamou um cavalheiro de óculos, que ainda não havia falado - você queixouse do cacau, na semana passada. Como tem ele sido depois disso?

- Muito obrigado - replicou Littimer - ao presente já o preparam melhor. Se me permitem, no entanto, uma observação, direi que não acho o leite com que o fazem suficientemente puro. Sei, contudo, que o leite é muitas vezes falsificado em Londres e que este produto raras vezes se encontra em toda a sua pureza.

Pareceume que o cavalheiro dos óculos fazia valorizar o 28 em detrimento do 27 (o predilecto do senhor Creakle), porque cada um deles porfiava em evidenciar o seu favorito.

- E como se sente? - perguntou ainda o mesmo visitante, dirigindose a Littimer.

- Obrigado pela sua atenção, eu actualmente compreendo os meus erros. Sintome tão perturbado quando penso nos pecados dos meus velhos companheiros! Mas espero que lhes sejam perdoados.

- E você, considerase realmente feliz? - insistiu o inquiridor, com um movimento de cabeça para o animar.

- Agradeçolhe muito. Considerome, de facto, perfeitamente feliz.

- Tem necessidade, neste momento, de dizer mais alguma coisa? Não receie.

- Se não me engano - respondeu o preso, sem levantar os olhos - vejo aqui alguém que me conheceu outrora. Talvez convenha a essa pessoa saber que eu atribuo os meus erros passados à vida negligente que levei ao serviço de gente moça e às fraquezas a que cedi por sua influência. Espero que esse senhor compreenda a minha advertência e não se ofenda com a liberdade que tomo. É para seu bem. Não ignoro as minhas culpas passadas; espero que ele se arrependa de todas as depravações e de todos os pecados em que participou.

Reparei que vários dos presentes se comportavam cheios de deferência, como se se encontrassem num templo.

- Isso fazlhe honra, 28. Outra coisa não esperava de si. Não tem mais nada a acrescentar?

- Há uma rapariga que resvalou para vida dissoluta - retorquiu Littimer, erguendo de leve as sobrancelhas, mas sem mover os olhos - e que eu tentei salvar, sem o conseguir. Peço a este senhor, se lhe for possível, que informe essa criatura de que lhe perdoo o comportamento que teve comigo e que a convido a arrependerse, se é que o mesmo senhor se digna de aceitar esta comissão.

- Não duvido, 28, de que o cavalheiro de quem fala não esteja impressionado, como nós todos, com o que você acaba de exprimir tão bem. Não o retenho mais.

- Muito obrigado. Desejo a todos felicidades e espero que os senhores e suas famílias compreendam também os seus pecados e se emendem.

Assim se retirou o 28, depois de haver trocado com Uriah um olhar que deixava supor que (por qualquer meio de comunicação) eles não se desconheciam inteiramente. Tornaram a fechar a porta da cela, no meio de murmúrios lisonjeiros, pois se tratava de um preso excelente e de um caso edificante.

- E agora, 27 - recomeçou o senhor Creakle, ocupandose novamente do seu predilecto, já que o campo ficara livre com a saída do 28 - acha que se pode fazer alguma coisa por si? Nesse caso, digao!

- Gostaria de pedir muito humildemente - replicou Uriah Heep, com um tique nervoso que lhe fazia oscilar a cabeça - autorização para escrever mais uma vez à minha mãe.

- Serlheá naturalmente concedida - informou o director.

- Muito obrigado. Estou inquieto por causa dela. Receio que corra qualquer perigo.

Alguém perguntou estouvadamente que perigo seria. Mas um «caluda!» escandalizado obrigouo a meter a viola no saco.

- Perigo quanto à salvação - explicou Uriah, virandose com uma contorção para o lado donde viera a voz. - Queria que a minha mãe chegasse ao mesmo estado que eu. Nunca me sentiria como hoje se não tivesse vindo para aqui. Seria bom para toda a gente ser presa e conduzida cá.

Esta declaração causou imenso prazer, maior, suponho, que tudo o que fora dito até aqui.

- Antes de vir para aqui - continuou Uriah, lançandonos um olhar furtivo como se quisesse aniquilar o mundo externo de que fazíamos parte - eu entregavame ao pecado, mas agora tomei consciência dos meus erros. Há muitos pecados na terra. Há muitos pecados no coração da minha mãe. Por toda a parte só pecado! Salvo aqui.

- Está completamente transformado? - perguntou o senhor Creakle.

- Se estou! - redarguiu esse penitente cheio de optimismo.

- Não voltaria a pecar se saísse daqui? - perguntou alguém.

- Meu Deus, nunca!

- Muito bem - confirmou Creakle - isto é bastante animador. Você, 27, falou com o senhor Copperfield. Quer dizerlhe mais alguma coisa?

- Senhor Copperfield, conheceume antes de vir para cá e salvar a minha alma - começou Uriah Heep, lançandome um olhar mau, como eu nunca lhe vira. - No meio dos meus desvarios, eu era humilde com os orgulhosos e manso com os violentos. O senhor mesmo foi violento comigo, um dia, porque me deu uma bofetada. Háde lembrarse...

Comiseração geral. Houve olhares indignados na minha direcção.

- Mas eu perdoolhe, senhor Copperfield - prosseguiu Uriah, saboreando o seu perdão. - Perdoo a toda a gente. De nada me serviria querer mal fosse a quem fosse. Perdoolhe sem ideia preconcebida e espero que o senhor saiba dominarse para o futuro. Espero que o doutor W. se arrependa e a filha também, e toda essa súcia de pecadores. O senhor teve desgostos e penso que isso lhe háde ter feito bem; mas seria melhor ter vindo para aqui, assim como o doutor W. e a filha. O mais que posso desejarlhe, senhor Copperfield, e aos outros senhores que me escutam, é serem todos presos e conduzidos para esta casa. Quando penso nos meus erros passados e na minha felicidade presente, fico persuadido que isto é o que mais convém a todos nós. Lastimo os que ainda não foram internados nesta cadeia!

Dizendo isto, escapuliuse para a cela, no meio de um sussurro de aprovação, e nós sentimonos aliviados, eu e Traddles, por o ver desaparecer atrás das grades.

Entretanto eu pensava o que teria levado aqueles dois homens ao cárcere, pois que ninguém fizera alusão a isso. Dirigime nesse sentido a um dos guardas, o qual achei, por certos indícios fisionómicos, estar apto a tirarme de dúvidas.

- Sabe em que consiste o último «erro» do 27?

Respondeume que era um caso relacionado com a vida bancária.

- Alguma fraude em prejuízo do Banco de Inglaterra?

- Nem mais - confirmou. - Foi preso por gatunice e falsificação, juntamente com outros. Ele é que esboçou o plano. Maquinação de grande envergadura. Foram condenados a deportação. Este 27 é o mais esperto do bando e esteve quase a escapar à justiça. O Banco, no entanto, conseguiu apanhálo, mas com dificuldade.

- E conhece o delito do 28?

- Esse - replicou o meu informador, falando sempre em voz baixa e virandose para todos os lados, com medo de que o ouvissem darme estes esclarecimentos confidenciais - estava empregado e roubou ao patrão coisa como duzentas e cinquenta libras em dinheiro e objectos valiosos, na véspera do dia em

que devia embarcar para o continente. Esse caso tem seu quê de impressionante, pois o homem foi surpreendido por uma anã.

- Uma...?

- Sim, senhor, uma mulherzinha muito pequena, cujo nome esqueci.

- Será Mowcher, por acaso?

- Justamente. Escapara às buscas e ia fugir para a. América, disfarçado com peruca e suíças loiras, quando a anã, que se encontrava em Southampton, o descobriu na rua. Reconheceuo e agarrouse a ele como um demónio.

- Excelente senhora Mowcher! - exclamei.

- Se a visse, como eu vi, em cima de uma cadeira, a servir de testemunha! Ele tinhaa tratado mal, mas a mulherzinha não o largou sem o ver engaiolado. Seguravao com tanta força que os polícias tiveram de trazer os dois. Também, por isso, recebeu felicitações do Tribunal e aclamações da multidão.

Tínhamos visto tudo o que havia para ver. Seria inútil demonstrar a um homem como Creakle que o 27 e o 28 continuavam como eram - os mais consumados hipócritas deitados a este mundo. Em suma, toda esta história deixounos uma impressão penosa. Abandonámos, pois, os dois malvados a si mesmos e ao sistema prisional de que gozavam e retirámonos meditando no caso.

- Talvez seja proveitoso - disse eu a Traddles - quando cavalgamos uma montada perigosa, fazêla correr a toda a brida. Rebentamola mais depressa.

- Pareceme que sim - respondeu Traddles.