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David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 55. TEMPESTADE
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Abeirome de um acontecimento da minha vida, tão indelével, tão tremendo, tão preso por uma infinidade de laços a tudo o que o precedeu nestas páginas que, desde o começo da minha história, o vejo crescer mais e mais e mais como uma torre enorme na planície, e até julguei sentirlhe antecipadamente a sombra nos incidentes da minha infância.

Com ele sonhei depois durante anos. Muitas vezes acordei em sobressalto, crendo ouvir a sua fúria desencadearse no meu quarto, no silêncio da noite. Ainda hoje tenho esse sonho, embora a intervalos mais ou menos distanciados. Associoo ora a um vento tempestuoso ora ao rumor mais atenuado de um marulho na praia. Tratarei de o registar tão claramente como o vi desenrolarse. Não é uma lembrança, tenhoo à minha frente, desdobrase de novo diante de mim.

Quando o navio dos emigrantes se preparava para se fazer ao largo, a minha velha criada chegou a Londres. Ela, o irmão, os Micawbers e eu tornámonos então inseparáveis. Mas nunca pude ver a Emily.

Uma noite dos últimos dias eu estava só com os dois Peggottys. Acertámos de falar do Ham. Contaramme a ternura com que o rapaz se despedira da tia e a calma viril de que se revestira. Nos derradeiros tempos ele devia ter sofrido muito, segundo pensavam. A Peggoty não fazia segredo neste particular, e todos nós lhe escutámos atentos o que ela (que vivera com o sobrinho tantas semanas) nos aprouve contar a este respeito.

Eu e a minha tia, por essa altura, deixámos as nossas vivendas de Highgate, eu porque tencionava partir em viagem pelo estrangeiro, Betsey porque queria regressar à sua casa de Dover. Passámos entretanto a habitar um résdochão em Covent Garden. Certa noite, depois da conversa de que acabo de falar, regressei a penates reflectindo no que Ham (quando da minha última visita a Yarmouth) me dissera e na ideia que me ocorrera de deixar então uma carta a Emily: afinal decidira escreverlhe mais tarde, admitindo sempre a hipótese de a rapariga desejar remeter ao infeliz noivo duas palavras de despedida. Sentiame na obrigação de lhe oferecer essa possibilidade.

Instaleime, pois, no quarto, para lhe escrever antes de me deitar. Disselhe que falara com Ham e que ele me pedira lhe comunicasse o que os leitores já sabem. Repetilhe isso fielmente. Não havia oportunidade de fazer censuras, ainda que me assistisse esse direito. Deixei a carta bem em evidência,

para que a remetessem ao seu destino no dia seguinte, e escrevi umas palavras a Daniel Peggotty relativas ao assunto. Quando me deitei já era de madrugada.

Sentiame mais fraco do que supunha, e, como o sono não veio logo, só me levantei muito tarde. O que me despertou foi a presença silenciosa da minha tia à cabeceira do leito. Percebia através de uma espécie de nevoeiro, como em geral sucede em casos semelhantes.

- Trot, meu filho - disse ela, quando abri os olhos - não podia decidirme a acordarte. O senhor Peggotty está lá fora. Deve entrar?

Respondi afirmativamente e ele apareceu logo.

- Menino Davy - começou, depois de me haver apertado a mão - entreguei a sua carta à Emily e ela envialhe esta. Rogalhe o favor de a ler e de se encarregar de tudo.

- Conhece o texto? - indaguei.

O pescador, com ar triste, confirmou a hipótese. Abri o papel e inteireime do que se segue:

«Recebi a sua informação. Não sei que lhe diga para agradecer tanta bondade, tanta generosidade que me concede!

«Conservarei no meu coração, até à morte, as suas palavras. São espinhos cruéis, mas ao mesmo tempo grande consolação. Rezei, enquanto as lia; rezei tanto! Quando vejo o que o senhor é, e o que é o meu tio, compreendo o que deve ser Deus, e atrevome a imploráLo.

«Adeus para sempre, meu amigo, adeus para sempre neste mundo. Se, no outro, eu for perdoada, talvez lá me reveja criança e corra para si! Mais uma vês obrigada, que Deus lhe pague! Adeus para sempre.»

Tal era a carta, manchada das suas lágrimas.

- Poderei dizer, a ela, que o senhor não vê inconveniente... e que terá a bondade de se encarregar...? - perguntoume Daniel, quando eu terminei a leitura.

- Sem dúvida - ripostei. - Mas estou a pensar...

- Em quê?

- Penso que vou voltar a Yarmouth. Ainda temos muito tempo, antes da partida do navio. Lembrome tanto do rapaz, que está tão só! Se eu lhe transmitisse esta carta e depois dissesse à Emily que ele a recebeu... não seria concorrer para o bem de ambos? A viagem não me custará nada: tenho o espírito perturbado e a deslocação sermeia salutar. Partirei esta tarde.

Embora ele porfiasse em me dissuadir, eu percebia que Peggotty comungava nos meus sentimentos. Bastarmeia este incitamento, se eu precisasse de algum. A meu pedido, Daniel foi ao

escritório da diligência marcarme um lugar ao lado do cocheiro. E, à hora aprazada, seguimos por aquela longa estrada que eu já percorrera no meio de tantas vicissitudes.

- Não acha - perguntei ao cocheiro - este céu muito estranho? Não me lembro de ter visto nada semelhante.

- Eu também não - respondeume. - Isto pressagia vento. Não tarda muito que o mar esteja encapelado.

Realmente o céu, semeado de manchas num tom do fumo da lenha verde, era cruzado por nuvens rápidas, que formavam pirâmides enormes. A Lua dirseia transtornada ao aparecer de vez em quando no meio daquela confusão, como se alguma perturbação terrível das leis naturais a assustasse e lhe fizesse perder o rumo.

O vento soprara todo o dia e o barulho que se ouvia agora tornavase medonho. Uma hora após a nossa partida, a força dele aumentara imensamente e o firmamento enegrecera mais. Com o avanço da noite, as nuvens aproximavamse umas das outras, cobriam todo o céu e adensavam as trevas. Os cavalos da diligência progrediam com dificuldade. Várias vezes pararam a meio da noite (estávamos em fins de Setembro, quando elas se tornam mais compridas). Podiase recear que a viatura, impelida pelo vento, se voltasse na estrada. O temporal, de tempos a tempos, trazia consigo remoinhos de chuva fustigante. Então, quando um grupo de árvores ou um muro nos oferecia abrigo, nós sentiamonos contentes por nos deter ali, na impossibilidade de prosseguir a luta.

Raiou a aurora e aumentou mais a força do vento. Recordavame de, em Yarmouth, ter assistido a tempestades que apavoravam os marítimos, porém nunca vira nada que se comparasse a esta. Chegámos a Ipswich com grande atraso, depois de disputar às rajadas cada palmo de terreno das dez milhas que nos separavam de Londres, e topámos no mercado diversos moradores que tinham saído da cama, temendo que as chaminés das casas desabassem. Outros apareceram no pátio da estalagem, enquanto se fazia a muda dos cavalos. Contaramnos que grandes placas de chumbo haviam sido arrancadas a um campanário e projectadas numa viela, que inteiramente bloqueavam. Diziase que gente do campo, recentemente chegada, observara pelo caminho portentosas árvores desenraizadas e até mós atravessadas na passagem. E o vento, longe de se acalmar, soprava cada vez mais forte.

Quanto mais nos aproximávamos do mar (a pouco e pouco, e a custo), mais essa força se fazia poderosa, porque dali é que ela irradiava. Muito tempo antes de vermos as ondas, sentimos na boca os borrifos salgados. A maré estava baixa, e o mar haviase retirado, deixando à mostra grande extensão plana da vizinhança de Yarmouth. Havia inúmeras poças disseminadas. Ao descobrirmos a água, por intervalos, no horizonte, acima dos abismos flutuantes, veionos a impressão de outra costa, com os seus edifícios, as suas torres. Atingimos finalmente a cidade. Os habitantes acorreram às respectivas portas, mostrandose de través, com o cabelo despenteado, cheios de admiração pela proeza da diligência, que ousara afrontar semelhante noite.

Apeeime na velha estalagem, e em seguida fui na direcção do mar, escorregando na rua invadida pela areia, pelas algas, pelos flocos de espuma. Tinha medo das telhas e ardósias que caíam e esbarrava com os transeuntes com quem me encontrava nas encruzilhadas mais fustigadas do vento. Próximo da praia, vi não só pescadores mas a metade dos moradores da terra encostados às paredes das casas; de vez em quando alguns atreviamse à borrasca para contemplar ao largo o vendaval, mas logo recuavam aos ziguezagues.

Junteime a estes grupos. Havia mulheres lamuriando: os maridos tinham partido para a pesca do arenque e das ostras e, segundo todas as probabilidades, deviam ter naufragado antes de poder alcançar abrigo. Viamse velhos marinheiros de cabelo branco, que oscilavam a cabeça olhando o céu e a água e conversavam entre si em voz baixa; armadores agitados e tristes; crianças apertadas umas contra as outras, interrogando mudamente os adultos; e até lobos do mar afeitos ao perigo mas que se mostravam preocupados como os outros homens: quando investigavam o mar, dirseia que espiavam um inimigo.

Por fim houve uma calma suficiente para eu observar os elementos no meio da ventania que levantava pedras e areia, e fiquei estupefacto. A mais pequena dessas muralhas líquidas, que chegavam sempre mais altas, parecia capaz de submergir a cidade. Quando a vaga se retirava com um rugido rouco, dirseia abrir furnas na areia como se quisesse minar a costa. De cada vez que uma dessas ondas de crina branca se quebrava com fragor antes de atingir a terra, os seus fragmentos, talvez animados da mesma fúria, reuniamse imediatamente para formar um novo monstro. Colinas movediças cavavamse em vales; outros vales em movimento (roçados por vezes pela asa de uma procelária isolada) erguiamse então em colinas; afundavamse massas de água para logo ressaltar, abalando a costa com um trovão medonho. Todas estas formas rolavam tumultuosas, deslocandose, transformandose sem tréguas. A margem imaginária do horizonte subia e descia com as suas torres e edifícios, as nuvens corriam rápidas e negras; eu julgava assistir a uma dilaceração, a uma revolta da natureza inteira.

Ham não se achava entre as pessoas que essa tempestade memorável tinha reunido, e eu deliberei ir procurálo a casa. Bati à porta e ninguém veio abrila. Fui então pelas ruas e travessas até ao arsenal em que o rapaz trabalhava. Aí me informaram de que ele partira para Lowestoft, chamado para reparações urgentes, em que era muito hábil;

mas estaria de volta no dia seguinte de manhã.

Retrocedi para a estalagem e, depois de me ter lavado, vestido e tentado em vão dormir, vi que eram cinco horas da tarde. Estava ao canto do lume, no salão do café, quando o criado veio atiçar as brasas para ter oportunidade de tagarelar. Disseme que dois navios carvoeiros haviam soçobrado com a equipagem, a algumas milhas da costa, e também que se avistavam barcos em perigo na baía, os quais diligenciavam evitar que o temporal os lançasse à terra. «Que Deus se amerceie deles e de todos os pobres marinheiros», acrescentou o homem, «se a próxima noite for igual à última!»

Muito abatido, sofrendo da solidão e mais inquieto pela ausência de Ham, perdera a noção do tempo e do espaço, pois a confusão dos últimos dias afectarame mais do que eu supunha. Se, por exemplo, saísse, não me admiraria de ver na cidade alguém que eu sabia estar na capital. De uma forma estranha, trazia o espírito alheado, mas simultaneamente desperto pela recordação dos lugares sempre evocadores para mim e particularmente vivos e penetrantes na memória.

Assim neste estado, as notícias tristes que o criado me deu quanto àqueles barcos intensificaram a minha preocupação acerca de Ham. Não me coibia de pensar que ele era capaz de vir de Lowestoft por via marítima, arriscandose a perecer afogado. Esta apreensão tornouse tão obcecante que resolvi voltar ao arsenal antes do jantar a fim de perguntar ao capataz se ele julgava que Ham Peggotty tomaria, para regresso, alguma embarcação. Nesse caso, seguiria logo para Lowestoft no propósito de evitar essa viagem, e traria Ham comigo, por terra.

Na dúvida, porém, jantei à pressa e fui lá; cheguei mesmo a tempo, porque já iam fechar a porta. O capataz riuse da minha desconfiança e disseme que o carpinteiro não corria perigo. Era moço ajuizado, incapaz de embarcar com semelhante tempo. Estava, desde criança, habituado a conhecer o mar.

Era o que eu calculava, e quase tive vergonha da minha resolução, à qual todavia me senti obrigado. O uivar do vento, o bater de portas e janelas, a oscilação aparente dos muros e paredes e o tumulto prodigioso do mar eram ainda mais pavorosos que de manhã. Além disso reinava escuridão profunda, o que emprestava ao temporal aspectos medonhos, reais ou imaginários.

Eu não podia nem comer nem estar parado, nem fazer nada de concreto. Alguma coisa em mim, correspondendo dèbilmente à tempestade exterior, vinha perturbarme as profundezas da memória e provocava aí o tumulto. Contudo, no turbilhão das ideias que corriam tão vertiginosas como as vagas, a minha apoquentação quanto a Ham ocupava sempre o primeiro lugar. Mal tinha jantado e procurei reconfortarme com dois copos de vinho. Em vão!

Amolentado, senteime diante do lume, sem perder consciência do tropel dos elementos nem do lugar em que me encontrava. Em mim dirseia pairar apenas um horror indefinido e, quando despertei, ou melhor, quando me desfiz da letargia que me pregava à poltrona, todo o meu ser fremiu de um medo inexplicável e sem objecto.

Andei cá e lá no quarto, quis ler uma velha gazeta, prestei atenção aos ruídos espantosos do exterior, e contemplei rostos, cenas e formas variadas que as chamas desenhavam. Por fim o tiquetaque regular do relógio imperturbável causoume tamanha tortura que decidi ir para a cama.

Foime reconfortante, em tal noite, saber que alguns dos criados da estalagem, tinham deliberado ficar de vigília até de manhã. Deiteime bastante cansado e cheio de sono, porém mal me estendi na cama estas sensações desapareceram como por mágica e eu sentime bem acordado, com todos os sentidos alerta.

Fiquei horas a escutar a água e o vento, supondo ouvir ora gritos ao largo, ora o tiro de alarme, ora prédios que se desmoronavam. Levanteime várias vezes para ir ver o que se passava: mas só enxergava, na vidraça, o reflexo da vela que deixara acesa e a minha cara de espanto a investigar o vazio da noite.

Até que a minha agitação atingiu tal paroxismo que enfiei precipitadamente o fato, e desci a escada. Na cozinha monumental, em cujas traves lobriguei presuntos e résteas de cebolas, os vigilantes agrupavamse em atitudes várias de roda da mesa, expressamente afastada da chaminé e encostada à porta. Uma rapariga bonita, que tapara os ouvidos com o avental, soltou um grito ao verme chegar, crendo tratarse de um fantasma; mas os outros tiveram maior presença de espírito e alegraramse por ver aumentar o número dos circunstantes. Um dos homens, voltando ao tema da conversa interrompida, perguntoume se eu acreditava que as almas dos marinheiros dos dois barcos naufragados errassem no meio da tempestade.

Demoreime com eles pelo menos duas horas. Uma vez fui abrir a porta do pátio, a fim de espreitar a rua deserta. A areia, as algas, os flocos de espuma continuavam a esvoaçar e eu vime obrigado a pedir ajuda para fechar a porta, que as rajadas impeliam para dentro.

Quando por fim voltei ao meu quarto solitário, reinava aí completa escuridão. Mas estava fatigadíssimo e, logo que me deitei, caí - do alto de uma torre ao fundo do precipício - no sono mais intenso. Fossem, porém, quais fossem as cenas variadas em que se desenvolveram os meus sonhos, o vento nunca deixou de soprar. Até que perdi este último contacto com a realidade, e, em companhia de dois amigos queridos, mas cujos nomes ignoro, me achei prestes a atacar uma cidade, sob o estrondo do canhão!

O canhoneio era tão violento e contínuo que eu não chegava a perceber uma coisa que no entanto desejava ouvir; enfim, com um esforço sobrehumano, acordei. Era dia, oito ou nove horas; a tempestade rugia, substituindo os tiros de canhão. Alguém batia e chamava por mim à porta.

- Que é? - perguntei.

- Um naufrágio! Muito perto.

Saltei da cama e indaguei que naufrágio era.

- Uma escuna espanhola ou portuguesa, carregada de fruta e vinho. Despachese, senhor Copperfield, se quiser ver. Na praia dizem que ela vai despedaçarse de um momento para outro.

A voz excitada afastouse e esmoreceu na escada. Eu vestime tão depressa quanto pude a fim de me precipitar para a rua.

Adiante de mim corria a multidão, seguindo o mesmo caminho, o da praia. Apresseime ainda mais e ultrapassei várias pessoas: dentro de pouco estava frente ao mar embravecido.

Talvez o vento se houvesse acalmado um pouco, mas na proporção, por exemplo, de meia dúzia de canhões que, em cem, se tivessem calado no meu sonho. E o mar, cuja agitação crescera durante a noite, estava sem dúvida mais pavoroso do que na véspera. Todos os aspectos que ele oferecera então dirseiam ampliados, e a altura a que as vagas se elevavam e de que se precipitavam depois cavalgando umas sobre as outras, para rebentar em hostes intermináveis, essa altura era uma coisa aterradora.

No primeiro instante, incapaz de ouvir outro som além do vento e das ondas, perdido na chusma em que remava indizível confusão, com a respiração sufocada pela tempestade, eu sentiame tão aturdido que nem pude descobrir o navio quando olhei para o mar: via apenas a crista espumante das vagas alterosas. Um marinheiro, seminu, que se achava perto de mim, estendeu para a esquerda o braço, no qual uma seta tatuada indicava a mesma direcção. E, de repente, descobri o navio muito próximo!

Tinha um mastro quebrado, a cerca de meio metro do convés, e pendia pela borda fora numa baralhada de velas e aparelhos, e, enquanto o navio oscilava com violência inconcebível, essa massa de despojos vinha baterlhe no costado como para o destruir de vez. A bordo lutavam por se desembaraçar dos destroços, pois, quando a embarcação, que estava de esguelha, se virou para nós por efeito do balanço, claramente distingui os homens que trabalhavam com machados e, entre eles, um vulto ágil de cabelos encaracolados e compridos. Mas, nessa ocasião, subiu um grito estridente da multidão, abafando o ruído do vento e das ondas. Uma vaga enorme cobriu o navio, submergindoo com a tripulação, mastaréus, barris, tábuas, paveses, todos esses acessórios despedaçados.

Viase ainda o segundo mastro com farrapos de uma vela e uma desordem indescritível de cordas partidas, que flutuavam

ao vento. O mesmo marinheiro gritoume aos ouvidos que o barco havia culapado uma primeira vez, e se erguera para de novo ir embater no fundo. Pareceume ouvir acrescentar que se partira pelo meio. Realmente, era impossível resistir a um ataque tão violento. Entretanto outro grito soava na praia. Do abismo surgiam quatro homens, que se agarravam ao cordame do segundo mastro; entre esses homens estava o rapaz ágil do cabelo encaracolado.

Havia a bordo um sino e, enquanto o navio balanceava, arrojandose como um animal furioso, ora a mostrar todo o arqueamento quando se voltava na direcção em que estávamos, ora somente a quilha quando dava um salto selvático para as águas, o tal sino badalava dobrando a finados por aqueles infelizes; o som atingianos, trazido pelo vento. De novo se submergiu o destroço, para reaparecer à superfície. Já faltavam dois dos náufragos. Em terra a angústia aumentava. Os homens gemiam, unindo as mãos numa prece. As mulheres choravam e desviavam a cabeça. Corria gente como louca através da areia, pedindo socorro quando afinal já não havia possibilidade de o prestar. Supliquei também a um grupo de marítimos que eu conhecia: «Não deixem morrer esses dois desgraçados perante os nossos olhos!»

Aflitos, os homens davamme a entender - não sei como, mas eu estava muito impressionado para compreender o pouco que conseguia ouvir - que tinham corajosamente preparado a canoa de salvamento havia já uma hora, mas que não podiam lançála ao mar. Ninguém perdera o juízo ao ponto de, por outro lado, se atirar às ondas amarrado a uma corda e ir buscar os náufragos. Nada mais se podia tentar. De repente, porém, correu uma notícia sensacional. Vi abriremse alas e aparecer Ham no primeiro plano.

Corri ao seu encontro, talvez para lhe repetir a minha súplica de salvação. Qual foi, porém, o meu terror - espectáculo terrível e novo para mim - ao perceber no seu ar resoluto (exactamente como no dia seguinte ao da fuga de Emily) que o rapaz se decidira a correr um sério risco. Agarreio então pelos braços e roguei aos camaradas que não o deixassem perderse, que não consentissem no seu acto de heroísmo.

Sentindo novo burburinho, olhei para os destroços ao sabor das ondas. O resto de vela, com pancadas cruéis, forçou um dos náufragos a largála; o outro, mais ágil, continuou sozinho pendurado do pedaço de mastro.

Perante tal cena os meus rogos seriam já inúteis, tanto mais que conhecia a vontade indomável de Ham Peggotty.

- Menino Davy - disseme ele em tom jovial, apertandome as duas mãos - se chegou a minha hora, paciência. Que o Senhor nos abençoe a todos! Amigos, preparemme. Eu vou.

Vime arrastado, mas suavemente, a alguns metros dali, e escutei confusamente as pessoas que me rodeavam explicarme que ele estava decidido a ir, com ou sem ajuda, e que eu aumentaria o perigo se dificultasse as precauções que tomavam para sua salvaguarda. Não me lembro o que respondi nem o que eles alegaram mais. Havia idas e vindas na praia; notei que corriam velozes com a corda de um cabrestante e que entravam no grupo que escondia Ham aos meus olhos. Em seguida descobrio, só, com a sua camisola e calças de marinheiro; tinha uma corda enrolada na mão ou no punho, e outra em volta do corpo; alguns dos melhores homens daquela costa seguravam na extremidade, deixandoa deslizar, sem que a esticassem, na areia que lhes estava aos pés.

Tornavase evidente, mesmo para os meus olhos pouco experimentados, que o destroço se deslocava, separandose pelo meio, e que a sobrevivência do último náufrago, agarrado ao mastro, seria coisa de minutos. O rapaz, no entanto, mantinhase firme, tinha na cabeça um boné vermelho, de feitio esquisito: e enquanto a prancha que o sustinha se desfazia a pouco e pouco, ele agitava o boné num gesto que me recordou, de súbito, alguém outrora muito da minha intimidade.

Ham espiava o mar, em lugar desviado, e havia atrás de si o grande silêncio da multidão que retinha o fôlego. À sua frente desenrolavase a tempestade. Uma vaga enorme refluiu e ele, lançando um olhar aos que seguravam na corda, atirouse na perseguição da onda. Daí a instantes entrava em luta com outras que retrocediam, elevandose no cimo delas, caindo nos vales que se abriam, perdido no meio da espuma. Então foi repelido para a praia e os camaradas puxaramno precipitadamente.

Estava ferido. Do lugar onde me conservava, enxerguei sangue no rosto. Ham, porém, não fazia caso disso. Pareceume que dissera aos camaradas para o deixarem mais lasso, afrouxando a corda (pelo menos assim inferi dos seus gestos); e voltou a atirarse ao mar.

Desta vez dirigiuse para o local do sinistro, alçado na crista das ondas, tombando no côncavo delas, tão depressa rechaçado como impelido para diante, mas lutando sempre sem desfalecimento. A distância era curta, mas a violência do mar e do vento tornavam o combate mortal. Por fim aproximouse do destroço. Achavase tão perto que bastaria uma braçada vigorosa para lhe tocar... quando uma imensa muralha de água verde avançou para a costa, subvertendo tudo - e os restos do navio desapareceram.

Ao correr para o ponto em que içavam a corda, vi voltear no mar uns pequenos fragmentos, como se fosse um simples barril que se houvesse despedaçado. Em todos os rostos liase sincera consternação. Puxaram o corpo e eu contempleio a meus pés, inerte. Era cadáver. Transportaramno para a casa mais próxima

e, como agora ninguém mo impedia, andei de volta dele, azafamado, porque eu procurava por todos os meios reanimar o que já não tinha vida. A vaga enorme matarao num instante e aquele coração generoso tinha parado para sempre.

Encontreime sentado à beira do seu leito, perdidas que foram todas as esperanças. Um pescador, que me conhecia desde a minha infância e a de Emily, veio sussurrar o meu nome à porta.

- Quer descer? - perguntoume alguém de uma palidez de cinza, com as lágrimas a correremlhe pelas faces.

O seu olhar despertou em mim uma antiga recordação, confirmando a suspeita que eu pouco antes tivera.

- Deu um cadáver à costa? - inquiri.

- Sim, senhor.

- Conheceo?

Não me respondeu, mas conduziume à praia. E, no sítio onde eu e Emily, crianças, apanhámos conchinhas, ali onde o vento espalhara destroços do velho barcoresidência, destruído nessa noite, no meio das ruínas daquele lar que ele injuriara, o rapaz de cabelo encaracolado jazia com a cabeça apoiada no braço, como muitas vezes eu o vira dormir no colégio.