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David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 51. INÍCIO DE UMA VIAGEM MAIS LONGA
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De manhã cedo, no outro dia, passeava eu no jardim, com a minha tia (que já não fazia muito exercício, pois se ocupava quase sempre de Dora) quando me vieram dizer que Daniel Peggotty queria falar comigo. Entrou no jardim, caminhando ao meu encontro, logo que me viu ir em direcção do gradeamento; e, como de costume, desbarretouse diante da senhora Trotwood, por quem tinha o maior respeito.

Eu acabara de contar à tia o que se havia passado na véspera à noite. Sem abrir a boca, ela aproximouse do visitante, olhandoo com muita simpatia, apertoulhe a mão e deulhe uma pancadinha no braço. Tudo isto foi tão expressivo que eram realmente desnecessárias as palavras, e Peggotty compreendeu tão bem como se Betsey Trotwood lhe tivesse feito um discurso.

- Volto para dentro, Trot - declarou ela - por causa do nosso botãozinho de rosa, que não tardará a levantarse.

- Não é por mim que se vai embora? - observou o recémchegado. - Dáme a impressão de que a expulso...

- O senhor tem qualquer coisa que dizer - respondeu a tia - e isso farseá melhor sem mim.

- Pois, se não se importa, darmeia prazer ficando... a não ser, é claro, que as minhas palavras a aborreçam.

- Realmente? - volveu Betsey, bem humorada. - Então ficarei. E passou o braço no de Peggotty a fim de o conduzir ao caramanchel do fundo do jardim, onde se sentou num banco a meu lado. Havia lugar para o pescador, mas este preferia conservarse de pé, com a mão apoiada a uma mesa rústica. Não pude deixar de notar, vendoo nesse momento, quanta força e energia revelava essa mão musculosa, assim como a harmonia que reinava entre ela e a testa serena, coroada de cabelos grisalhos.

- Levei ontem à noite - começou ele fitandonos -, a minha querida sobrinha para os meus aposentos, onde a esperava havia tanto tempo e tudo preparara para ela. Emily esteve umas horas sem me reconhecer. Em seguida ajoelhou diante de mim e, depois de rezar, descreveume como tudo se passara. Bem pode calcular como me senti confrangido, apesar de todo o meu reconhecimento ao Salvador, ao ouvir ressoarlhe a voz que tão alegre escutara outrora no meu lar e ao vêla humilhada no pó em que Ele um dia escreveu com o seu dedo divino.

Limpou a cara com a manga, sem se importar de esconder a razão do facto. Clareou a voz e prosseguiu:

- Mas não demorou muito, pois que a reencontrei.

Bastou-me essa ideia para não pensar em mais nada. E nem sei agora por que lhe falo do assunto. Ainda há pouco não tinha intenção de referir isto. Veiome naturalmente à boca, antes que eu compreendesse.

- Nunca pensa na sua pessoa, senhor Peggotty - disse a minha tia. - Será um dia recompensado.

Daniel, em cujo rosto brincava a sombra das folhas, inclinouse admirado diante da senhora Trotwood, para lhe agradecer a bondade, e retomou o fio do discurso:

- Quando a minha Emily fugiu dessa casa em que a fechara aquela serpente que o menino Davy conhece (a sua história é verdadeira, Deus o confunda!) aproveitou a noite para correr sempre. Havia escuro mas o céu estava estrelado. Ia como louca. Foi pela praia adiante, crendo topar o velho barco e gritando que não olhássemos, porque ela passava nesse instante. Ouvia a própria voz como se fosse alheia. Magoouse nos seixos, mas não deu por isso, como se também fosse feita de pedra. Correu muito tempo, com zumbidos nos ouvidos e clarões nos olhos. De repente (pelo menos assim julgou) o dia apareceu. Chovia e soprava vento. Viuse deitada ao pé de um monte de calhaus e uma mulher na língua do país, perguntando que lhe sucedera.

Daniel Peggotty via tudo quanto contava. A cena desfilavalhe distintamente perante o olhar e por isso a descrevia com tanta nitidez. Até me parece que, neste momento em que escrevo, assisti de facto ao episódio.

- Quando Emily examinou essa mulher, reconheceu uma dessas com quem muitas vezes conversava à beiramar. Conhecia tão bem o país, milhas e milhas de costa! Andara por ali a pé, de barco, de carruagem. A dita mulher não tinha filhos, casara pouco antes, mas esperava um. Que Deus me oiça quando rogo que essa criança seja a sua felicidade, o seu consolo, o seu orgulho até ao fim da vida! Possa amar a mãe e respeitála na velhice, ajudála até às derradeiras horas e ser o seu anjo bom neste mundo e no outro!

- Amém - disse a tia.

- De começo aquela mulher fora muito tímida e arisca, e punhase de lado, com a sua roca, se Emily lhe ia falar e às crianças. Mas Emily tomara a iniciativa de se lhe dirigir e, como a criatura gostava muito dos miúdos, e a minha sobrinha também, depressa se tornaram amigas, e a tal ponto que, nessas ocasiões, oferecia flores à visitante. Pois na noite da fuga perguntou à Emily o que lhe acontecera, e a pequena contoulhe tudo. A outra levoua para sua casa. Sim, senhores, deulhe abrigo!

Peggotty tapou o rosto. Estava mais comovido com aquele acto de bondade do que por qualquer outra coisa ocorrida após a noite memorável. Eu e a tia não tentámos intervir.

- Era uma simples cabana, como se imagina - continuou ele. - Ali, porém, Emily achou lugar (o marido da sua protectora andava embarcado) e ali se manteve escondida: aos vizinhos haviam pedido o maior segredo. Emily adoeceu a certa altura, com imensa febre, e o que me parece estranho (mas talvez os sábios expliquem) a língua desse país esqueceua por completo, só conhecia presentemente a sua, a qual por seu lado ninguém compreendia. Emily recordase, como se se tratasse de um sonho, que estava deitada, a falar o seu idioma, e a julgar que o velho barco existia no outro lado da ponta mais próxima, na baía; orava e implorava que para aí mandassem alguém com a missão de participar que se encontrava moribunda e para lhe trazerem nem que fosse uma só palavra de perdão. Pensava a todo o tempo que esse de quem falei rondava perto ou então que entrara no próprio quarto, e gritava desalmadamente à mulher para que a livrasse dessa presença, embora soubesse que não podiam entender a linguagem. Sentia zumbidos outra vez, e via clarões diante dos olhos. Para ela não havia nem passado nem presente nem futuro, mas tudo ao mesmo tempo, juntamente com o que nunca houvera nem poderia haver. Tudo se lhe baralhava na cabeça, numa extraordinária confusão. De contínuo ria e cantava. Não sei quantos dias isto durou, o certo é que, após um sono muito prolongado, acordou mais fraca do que uma criancinha.

Aqui se deteve, como se buscasse lenitivo aos terrores sugeridos pela própria descrição. Em seguida a um silêncio que durou instantes prosseguiu a narrativa:

- Despertou, pois, uma bela tarde em que não havia outro rumor senão o marulho do mar azul. De princípio supôs que se achava em sua casa, num domingo de manhã: mas dissiparamLhe a ideia as folhas de vinha que enquadravam a janela e as colinas distantes. Então a amiga entrou e foi sentarse à borda do leito. Emily compreendeu que o velho barco não estava do outro lado da porta, porém muito mais longe; lembrouse de onde se encontrava, e porquê, e desatou a soluçar ao peito daquela honrada mulher que a recolhera.

Não podia referirse a esta boa amiga de Emily sem que lhe corressem as lágrimas. Seria difícil coibirse e soluçou outra vez, abençoandoa.

- Isso fez bem à minha sobrinha - acrescentou, depois de haver testemunhado uma comoção que não pude impedirme de partilhar, Quanto à tia Betsey, chorava como uma criança. - Fez bem à Emily, que começou a restabelecerse. Mas esquecera por completo, como disse, a língua desse país e viase obrigada a exprimirse por sinais. Continuou melhorando de dia para dia, devagar mas com segurança. Aprendia os nomes dos objectos usuais (que parecia nunca ter ouvido na sua vida), quando um dia, sentada à janela, olhava para uma petiza que brincava

na praia, a pequena estendeulhe de repente a mão e gritou qualquer coisa que significava: «Filha de pescador, vê esta concha!» Emily compreendeua, chorou, e a memória voltoulhe de súbito.

«Quando Emily readquiriu forças - disse Peggotty depois de breve silêncio - tratou de deixar aqueles sítios e de regressar ao seu país. O marido da sua amiga voltara já, e ele e a mulher conseguiram embarcála num barco de carga que ia para Leorne e, de lá, para França. Emily possuía algum dinheiro, contudo eles não quiseram aceitar nada por tudo o que tinham feito. Quase me regozijo, embora fossem tão pobres. O que praticaram serLhesá contado na Eternidade, onde nem as traças nem a ferrugem fazem dano, nem os ladrões têm azo para roubar. Menino Davy, esse tesouro durará mais que todos os tesouros da terra.

«Emily chegou a França e empregouse como criada numa estalagem do porto. E foi aí que, certo dia, surgiu a tal serpente. Se me cair sob as mãos nem sei o que lhe farei nessa altura! Logo que ela o enxergou (sem ser vista por ele) o seu terror voltoulhe e desatou a fugir para longe do ar que esse maldito respirava. Veio ter a Inglaterra e desembarcou em Dover.

«Não sei ao certo quando principiou a lhe faltar a coragem, mas a verdade é que, a bordo, fizera tenção de regressar à velha residência. Uma vez em Inglaterra, pôsse a caminho para lá ir ter. O medo, porém, de que não lhe perdoassem, de ser apontada a dedo, de haver causado a morte deste ou daquele dentre nós, e outras coisas mais, levaramna a mudar de ideias, forçosamente, pelo caminho. «Querido tio!», disseme ela, «o receio de não ser digna de fazer o que o meu coração despedaçado e sangrento tanto queria foi a pior das provações. Quanto desejei beijar a soleira da nossa porta, de aí poisar esta cara amaldiçoada e ser, de manhã, achada morta ali mesmo!»

«Veio a Londres - ajuntou Peggotty baixando a voz até ficar num murmúrio temeroso. - Ela que, na sua vida, jamais viera aqui, e sem dinheiro, e bela, e nova! Logo que chegou, ainda atrapalhada, encontrou uma amiga: uma mulher decente, que lhe falou de costura, lhe prometeu arranjar trabalho e um abrigo para a noite e procurar por mim, na manhã seguinte. Quando a querida pequena - comentou o pescador com voz vibrante de gratidão - estava à beira de um abismo que eu nem quero imaginar, essa amiga, Martha, fiel à sua promessa, apareceu para a salvar.

Não pude reprimir um grito de alegria.

- Menino Davy - disseme ele, apertando a minha mão com vigor - foi o menino quem me falou dessa Martha. Agradeçolhe do coração. Ela não nos iludiu. Sabia, por amarga experiência, o que convinha fazer. E fêlo. E o Senhor encaminhoua. Veio, pálida e agitada, acordar Emily. «Levantate», disse, «foge a um perigo pior do que a morte. Vem comigo.»

As pessoas do prédio tentaram detêla, mas era o mesmo que deter o mar. «Afastemse», ordenou. Contou depois a Emily que me tinha visto, que sabia quanto eu a estimava e lhe perdoara. Cedeulhe a sua roupa e arrastoua consigo, trémula e quase a desfalecer, sem dar ouvidos ao que diziam os outros. Cortou por meio deles com a minha querida sobrinha, no escuro da noite, para longe do abismo da perdição.

«Velou a minha Emily esgotada até bastante tarde, no dia seguinte - prosseguiu Peggotty, que levou a mão ao peito arfante - e em seguida andou à minha procura, e também à sua, menino Davy. Não dissera à pequena o motivo por que saía, com medo de que lhe faltasse a coragem, mais uma vez, e tentasse esconderse. Como é que aquela mulher cruel soube que Emily estava ali, é que não percebo. Talvez esse de quem tenho falado as visse entrar. Não importa. O principal é que a minha sobrinha está salva.

«Ficámos juntos toda a noite. Terá sido pouco, como tempo (segundo ela observou); e menos ainda se pensar o que vi desse rosto adorado; mas os seus braços, a noite inteira, cingiramme o pescoço e a cabeça poisouseme no peito. E sabemos que podemos confiar um no outro, para sempre.

Calouse, e a mão que poisara na mesa sugeria, pela sua imobilidade absoluta, uma vontade capaz de combater leões.

- Trot - interveio a tia Betsey - foi uma alegria para mim quando tomei a decisão de amadrinhar tua malograda irmã; mas, depois disso, nada me daria tanto prazer como ser madrinha do filho dessa mulher.

Daniel inclinou a cabeça para corroborar a senhora Trotwood, mas a sua comoção não lhe permitiu falar do objecto dos seus desvelos. Mantivemos todos silêncio, imersos nas nossas reflexões. A tia enxugava os olhos, por momentos chegava a chorar convulsivamente, e depois ria como uma tonta. Acabei por dizer:

- Ainda não lhe perguntei, senhor Peggotty, se tem planos feitos para o futuro.

- Sim, senhor, e já os participei à Emily. Há muitos países, longe deste, e o nosso futuro estendese além dos mares...

- Tia - observei - eles vão emigrar, os dois.

- É verdade, menino Davy. Na Austrália ninguém fará censuras à minha querida sobrinha. Aí começaremos uma vida nova.

Quis saber se já tinham fixado a data da partida.

- Esta manhãzinha fui às docas pedir informações acerca de navios. Dentro de seis semanas ou dois meses há um que deve partir. Vio e até subi a bordo. Embarcaremos nesse.

- Coitado do Ham! - sussurrei.

- A minha irmã tratalhe da casa, e ele afeiçoouselhe - explicou Peggotty à tia Betsey. Habituarase a falarlhe pacificamente, ao passo que, diante de outras pessoas, nem se decidia a abrir a boca. - Coitado do Ham, sim! - disse por seu turno,

abanando a cabeça. - Poucas esperanças lhe ficaram na vida.

- E a senhora Gummidge? - indaguei.

- Ah, bem arreliado me trouxe - replicou o pescador, com. um olhar de perplexidade que a pouco e pouco se foi dissipando e que lhe surgia quando se ocupava da viúva. - Bem sabe o menino, se ela começa a pensar no defunto não se torna muito divertida. Aqui para nós, se eu não tivesse conhecido o velhote, achálaia implicante, mas, como conheci os méritos do marido, posso desculpála.

Eu e a tia concordámos.

- A minha irmã... não digo sempre, mas, enfim, algumas vezes... talvez achasse a senhora Gummidge enfadonha. Por isso não tenciono deixála muito tempo com eles; heide encontrar onde a instale, para que viva sozinha, e, antes de me ir embora, deixolhe estabelecida uma pensão, para que não passe dificuldades. Não há ninguém mais fiel do que esta criatura. Com a idade que tem, não se lhe vai pedir que entre num navio e demande terra desconhecida, do outro lado do mundo. Pois é isto que penso fazer dela.

Não se esquecia de ninguém. Acudia às necessidades de todos, excepto as de si mesmo.

- Emily fica comigo. Coitada, precisa de repouso, de paz! Prepara o vestuário de que vamos carecer. Depois, embarcamos. Espero que os seus desgostos se dissipem um tanto ao verse de novo envolvida pelo carinho do tio.

A tia Betsey, com um sinal de cabeça, confirmou essa esperança, o que Peggotty considerou como uma grande honra.

- Há ainda uma coisa, menino Davy - disse ele enfiando a mão na algibeira interior e tirando gravemente o maço de papéis que eu já tinha visto e que ele espalhou na mesa. - Existem estas notas, cinquenta libras e dez xelins. Quis acrescentarlhes o dinheiro com o qual ela fugiu; pergunteilhe quanto era (sem a informar do motivo) e já o pus de parte. Não sou perito neste assunto; quer fazer o favor de verificar?

Apresentoume um bocado de papel, desculpandose da sua ignorância, e olhoume enquanto eu somava. A conta estava certa.

- Muito obrigado - replicou, guardando a importância. - Isto, se não põe objecção, menino Davy, vou meter num sobrescrito com o nome dele, e esse noutro sobrescrito endereçado à mãe. Direi, sem mais explicações, qual a sua procedência; que me vou embora e que não vale a pena devolvermo.

Afirmeilhe que achava muito bem, e que esse rasgo o dignificava.

- Disse que havia ainda uma coisa - prosseguiu Daniel com um sorriso pensativo. - Mas afinal eram duas. Eu não tinha a certeza, ao sair esta manhã, de poder anunciar ao Ham, em pessoa, o que acabava tão miraculosamente de acontecer.

Por isso lhe escrevi uma carta, que pus no correio, e na qual conto tudo o que se passou, acrescentando que iria lá amanhã para regularizar tudo mais e, naturalmente, despedirme das pessoas de Yarmouth.

- E gostava que eu o acompanhasse? - perguntei, vendo que ele não despejara todo o saco.

- Se puder prestarme esse grande favor, menino Davy - replicou Peggotty.

Como Dora, que tinha bom fundo, desejasse que eu fosse útil a Daniel (segundo ela me sugeriu em conversa), prometi que de boa vontade iria com ele. No dia seguinte, de manhã, tomámos a diligência de Yarmouth para aquele trajecto tão nosso conhecido.

À noite, ao atravessarmos a rua familiar (com Peggotty a carregar a minha mala, apesar dos meus protestos), deitei uma olhadela à loja de Omer & Joram e lobriguei ali o velho a fumar o seu cachimbo.

Eu preferia não estar presente quando Daniel encontrasse a irmã e o sobrinho, de maneira que o senhor Omer me serviu de pretexto para ficar uns momentos atrás.

- Então como vai -inquiri ao entrar na loja - depois deste tempo todo?

O ancião desfez com um gesto o fumo, para ver quem era, e reconheceume, o que lhe deu satisfação.

- Deveria levantarme, senhor Copperfield, para lhe agradecer a honra desta visita, mas tenho as pernas em tal estado que só me desloco em cadeirinha de rodas. À excepção, porém, das pernas e dos pulmões, posso dizerlhe, cheio de gratidão, que estou tão bem como qualquer mortal.

Feliciteio pelo seu bom aspecto e bom humor e verifiquei então que a sua poltrona tinha realmente rodas.

- É engenhoso, não é? - observoume, seguindo a direcção do meu olhar e afagando o braço da poltrona. - E tão leve como uma pena e vai tão direita como a malaposta. Basta dizerlhe que a minha neta apoia nas costas a cabeça e eisme a caminho! E então para se fumar cachimbo não há melhor instalação do que esta.

Nunca ninguém soube, mais do que ele, tomar as coisas tão alegremente. Estava tão radiante como se a poltrona, a asma, a paralisia das pernas fossem estratagemas inventados para lhe dar mais valor ao cachimbo.

- Afiançolhe - disseme - que vejo melhor a vida daqui donde me confino do que de outra maneira qualquer. Ficaria surpreendido se soubesse a porção de gente que se detém um momento para tagarelar comigo durante o dia. Além disso, acho mais que ler nas gazetas, sentado nesta cadeira, do que antigamente quando andava por fora. Quanto aos livros em geral, é incrível a quantidade que devoro! Eis o que faz a minha força.

Se a doença fosse nos olhos, que teria sido de mim? Mas, nas pernas, que importância tem? Quando as utilizava, só serviam para me tornar o fôlego mais curto. Agora, quando quero ir até à rua ou mesmo à praia, chamo o Dick, o aprendiz mais novo de Joram, e parto de carrinho como o presidente do Município de Londres!

Ao proferir estas palavras quase sufocava de riso.

- Meu Deus! - concluiu, retomando o cachimbo - é preciso aceitar as coisas boas e más ao mesmo tempo. A nossa função é habituarmonos. Sabe que o Joram tem feito bom negócio?

- Ainda bem.

- Calculei que a notícia lhe agradasse. Joram e Minnie continuam a ser dois pombinhos. Que podia eu desejar de melhor? Que valem as minhas pernas ao lado disso?-O desprezo supremo que testemunhava aos próprios membros, enquanto fumava na sua poltrona, constituía uma das mais deliciosas extravagâncias que eu conheci. - E depois que comecei a ler, o senhor, por sua banda, principiou a escrever, hem? - acrescentou com um olhar de admiração. - Que belo livro compôs! Que expressões soberbas! E quanto a ter vontade de dormir... ah, não!

Ri, para lhe demonstrar a minha satisfação. Mas devo aduzir que essa associação de ideias me pareceu significativa.

- Quando ponho esse livro em cima da mesa - continuou o senhor Omer - e o contemplo, um, dois, três volumes, palavra que me sinto orgulhoso ao pensar que tive a honra de conhecer a sua família. Há quanto tempo já! Em Blunderstone, onde uma linda criança repousa ao lado da mãe. E o senhor também era pequenino, nessa altura. Meu Deus, meu Deus!

Desviei a conversa e falei de Emily. Depois de lhe haver garantido que não me esquecera do interesse que ele lhe dedicara sempre e da bondade com que a tratara, fizlhe um relato sucinto da forma como o tio a encontrou, graças a Martha, o que, sabia eu, dava gosto ao velho. Escutou com a maior atenção e, quando acabei, disseme comovido:

- Alegrame deveras, senhor Copperfield! Há muito tempo que não ouvia notícias tão boas. Meu Deus, meu Deus! E agora que vão fazer em benefício dessa pobre Martha?

- Toca num ponto em que ultimamente tenho pensado, senhor Omer, mas acerca do qual ainda o não posso esclarecer. Daniel Peggotty não se explicou ainda e eu tenho escrúpulo de o interrogar neste assunto. Estou certo de que ele a não esqueceu; nunca se esquece de quem é bom e desinteressado.

- Pois, senhor Copperfield - volveu ele, retomando o curso dos seus pensamentos - façam o que fizerem, eu insisto em participar de qualquer acção. Inscrevame pela soma que achar conveniente, e previname. Nunca acreditei que essa rapariga fosse má no fundo, e aprazme saber que tinha razão. Minha filha Minnie também vai ficar contente por ver que eu tinha razão. As raparigas gostam de nos contradizer de vez em quando

(a mãe dela era assim!), mas possuem bom coração. O que Minnie diz de Martha é só por falar. Não me atrevo a contarlhe os motivos pelos quais a minha filha acha necessário dar tanto à língua. É só por falar, acredite. Será capaz de fazer tudo pela outra, com a condição de a coisa ficar secreta. Então, senhor Copperfield, inscrevame pela quantia que quiser, e mandeme informar para onde devo expedir o dinheiro. Meu Deus! - continuou o senhor Omer - quando a gente percebe que se aproxima o Instante em que o fim da existência se liga com a infância; quando, por mais forte que for, se vê passeado de carrinho, como um nené, o que o pode regozijar é praticar uma boa acção. Não falo particularmente de mim, a minha opinião é que estamos todos a descer a encosta, não interessa a idade. Rejubilemos, portanto, se nos deparar ocasião de praticar o bem!

Sacudiu a cinza do cachimbo, que poisou no rebordo arranjado para isso, no braço da poltrona, e recomeçou:

- Olhe o primo de Emily, esse que deveria ser o seu marido, um dos mais belos moços de Yarmouth. Pois saiba que vem cá muitas vezes conversar ou lerme em voz alta, não raramente durante uma hora. Eis o que classifico de boa acção. A vida deste rapaz é toda generosidade.

- Eu vinha precisamente visitálo - declarei.

- Palavra? Digalhe então que vou indo bem, que lhe mando cumprimentos. Minnie e Joram estão num baile. Haviam de apreciar muito a sua visita, como eu, se se encontrassem em casa. Minnie quase nem quer sair, «por causa do papá», como ela diz. De maneira que esta noite jurei que me deitava às seis horas, se a rapariga não saísse! O resultado - o senhor Omer riu com tal estrondo do seu ardil que a poltrona e todo o corpo estremeceram - foi ela e Joram comparecerem no baile!

Estendilhe a mão e deilhe boanoite.

- Um momento, senhor Copperfield. Se se vai embora sem ver o meu elefantinho, nem sabe o que perde. Nunca viu coisa parecida! Minnie!

A voz musical da netinha respondeu de algures do andar de cima.

- Cá estou, avô.

Era uma linda petiza, de compridos cabelos loiros e encaracolados. Entrou a correr na loja.

- Eis o meu elefantinho - disse o senhor Omer, acariciando a pequena. - De raça siamesa! Vamos, elefantinho.

Minnie abriu a porta que dava para a sala, o que me permitiu ver que estava agora convertida em quarto do velho, pois ele não podia transportarse ao andar superior. Depois, com a cabeça, empurrou a poltrona de rodas.

- O elefante empurra com a cabeça - disse o senhor Omer. - Vamos, elefantinho, um, dois, três!

A este sinal, a pequena, com uma destreza que parecia miraculosa, fez a poltrona rodar para a sala, sem tocar na porta, enquanto o avô se divertia sinceramente com esta proeza, e virava para mim a face radiante, com ar de triunfo, como se fosse a consequência dos seus próprios esforços.

Após uma volta pela povoação, fui ao domicílio de Ham. A minha velha criada vivia agora aí e alugara a casa ao sucessor do defunto Barkis, que por óptimo preço adquirira a carroça, o cavalo e a clientela. Creio que era ainda o mesmo cavalo do tempo de Barkis.

Encontrei-a na cozinha muito asseada, em companhia da senhora Gummidge, que Daniel Peggotty fora pessoalmente chamar ao barcoresidência. Suponho que mais ninguém a convenceria a abandonar o seu posto. A Peggotty e a senhora Gummidge tinham os respectivos aventais a cobrirlhes a cabeça. Ham saíra nesse momento para «dar um giro pela praia»; daí a pouco regressou, agradouse muito da minha presença e eu julgo que realmente dei prazer a todos com a visita. Aludimos com entusiasmo às riquezas que Daniel iria acumular nesse país novo e às maravilhas que nos descreveria nas suas cartas. Não se pronunciou o nome de Emily, mas fizemoslhe várias referências veladas. Foi Ham quem se exprimiu com maior serenidade.

A minha velha criada, ao acompanharme com uma vela ao seu quartinho (onde vi em cima da mesa o Livro dos Crocodilos), deume a entender que o rapaz tinha o coração alanceado, embora mostrasse sempre muita coragem e doçura e trabalhasse mais e melhor do que qualquer carpinteiro naval dessa costa. Havia ocasiões, à noite, disseme ela, em que falava dos tempos do barcoresidência e da infância de Emily, mas nunca da mocidade da rapariga.

Afiguraraseme, por certos indícios, que Ham desejava encontrarse a sós comigo. Resolvi, pois, pôrme a caminho, no dia seguinte, à tarde, a fim de o topar na volta do trabalho. Com esta decisão, adormeci. Nessa noite, pela primeira vez desde há muito tempo, a vela desapareceu de trás das vidraças da janela; Daniel dormiu na sua velha rede e o vento murmuroulhe em torno da casa a sua canção de embalar.

. No outro dia, ele vendeu o barco e os apetrechos de pesca. Para Londres, mandou tudo aquilo de que podia precisar; desfezse do resto ou deuo à senhora Gummidge, que ficou todo o dia a acompanhálo. Como me assaltasse o desejo saudoso de rever o velho barco, disselhes que iria lá ter nessa noite. Mas fiz as coisas de forma a poder avistarme, antes, com o sobrinho.

Era fácil encontrálo, pois sabia onde o rapaz trabalhava. Dei com ele, de facto, numa região deserta da praia,

que eu sabia ser seu ponto de passagem. Não me enganei quanto à suspeita de que pretendia conversar comigo.

- Viua, menino Davy? - foi logo a sua primeira pergunta.

- Só um instante, e desmaiada - respondilhe brandamente. Daí a um minuto recomeçou:

- Espera vêla, menino Davy?

- Seria penoso para ela, pareceme.

- Sim, também creio.

- Ham - disselhe com doçura - posso escreverlhe da sua parte, no caso de me ser impossível falarlhe directamente. Desempenharmeei disso como de uma missão sagrada.

- Acredito, e agradeçolhe do coração. Penso que há qualquer coisa que ela devia saber.

- O quê?

Demos uns passos em silêncio, e o rapaz explicou:

- Não é que eu lhe perdoe. Não, não é isso. Antes serei eu a pedirlhe perdão por lhe haver imposto o meu amor. Às vezes considero que, se a Emily não tivesse prometido casar comigo, mostrarmeia tanta confiança fraterna que talvez me houvesse contado o que a atormentava e pedido conselho. Talvez eu a tivesse salvado.

Pegueilhe na mão.

- Nada mais?

- Há ainda outra coisa, menino David, se é que sou capaz de me explicar.

Andámos desta vez maior espaço em silêncio antes que Ham retomasse a palavra. As pausas que eu indicar por reticências não significam que ele chorasse, mas apenas que se recolhia para se expressar com mais clareza.

- Amava-... e amo a saudade que sinto... tão profundamente... que seria, capaz de a fazer crer que sou feliz. Só podia ser feliz esquecendoa... mas não acho que tenha coragem de a deixar supor tal coisa. No entanto, o menino Davy, que é tão hábil, talvez descobrisse o que se deve dizer para que ela não julgue que eu sofro muito... embora a estime sempre e esteja tão triste... Não vá imaginar que estou fatigado da vida... se bem que espere reencontrála, sem recriminações... lá onde os perversos deixam de fazer mal e os aflitos têm repouso... para que os remorsos dela sejam apaziguados... apesar de saber que eu não poderia casar com outra... Digalhe que rezo por sua intenção... pelo muito amor que lhe tinha...

Aperteilhe outra vez a mão viril e garantilhe que transmitiria tudo isso o melhor que pudesse.

- Muito obrigado, menino Davy. Foi bondade sua vir ao meu encontro. E ter acompanhado aqui o meu tio. A minha tia viúva deve ir a Londres antes da partida deles, de maneira que se acharão todos mais uma vez reunidos. Eu é que não tornarei a ver,

isso bem no sei, o meu tio Daniel. Não o dizemos, mas sentimos. E mais vale que assim seja. A última vez que lhe falar, peçolhe que lhe diga... quanta afeição e gratidão de órfão lhe tributo. Foi para mim mais do que um pai.

Também lhe fiz esta promessa, e da melhor vontade.

Com um gesto de mão, que significava a sua impossibilidade de tornar a entrar no barcoresidência, Ham afastouse.

Fiquei a vêlo atravssar a praia, ao luar, e prosseguir o seu caminho, até ao momento em que se perdeu na distância.

A porta do barcoresidência estava aberta e, ao entrar, acheio vazio de todo o mobiliário, salvo um dos velhos baús, no qual estava sentada a senhora Gummidge, com um cabaz ao colo e de olhos fitos em Daniel Peggotty. Este, de cotovelo apoiado no fogão, via esmorecerem as brasas no fundo da lareira. Quando me pressentiu, ergueu a cabeça e falou com desembaraço.

- Com que então, menino Davy, vem dizer adeus como prometeu? - Pegou na vela, para iluminar o quarto, e acrescentou:

- Está nu de tudo, hem?

- Vejo que não perdeu o seu tempo.

- Não, não nos estivemos a divertir. A senhora Gummidge trabalhou como... - E Peggotty olhou para ela, esperando provocarlhe um sorriso aprovador.

A mulher, curvada sobre o cabaz, não respondeu.

- Ali está o baú em cima do qual se sentava, sempre com a Emily - disseme ela em voz baixa. - Leváloei comigo, assim como tudo mais. E olhe o seu aposento, menino Davy. Não se podia desejar maior desolação.

Na verdade, o vento, embora fraco, tinha um rumor solene e envolvia a casa abandonada, como se numa queixa lúgubre. Tudo desaparecera, até o espelhinho com moldura de embrechado. Lembreime das noites que ali passara, da rapariga de olhos azuis que me havia enfeitiçado tanto; lembreime de Steerforth - e logo me acudiu a ideia louca de que ele estivesse perto e eu o fosse encontrar de um momento para outro.

- Isto vai levar tempo - observou Peggotty, baixando a voz

- para achar novos inquilinos. Hãode crer, agora, que dá pouca sorte!

- Pertence a alguém destas redondezas? - inquiri.

- A um construtor de mastros, que mora na parte alta da cidade. Esta noite vou entregarlhe a chave.

Dirigimonos a outro aposento e voltámos junto da senhora Gummidge, sempre sentada no baú. Ao descansar o castiçal no fogão, Peggotty pediulhe que se levantasse, a fim de poder retirar aquele móvel antes de apagar a luz.

- Daniel - disselhe a viúva, largando o cabaz e agarrandose ao seu protector - meu caro Daniel,

as últimas palavras que quero proferir nesta casa é que não deve deixarme. Com certeza não tem essa tenção, não é verdade?

Peggotty, estupefacto, relanceou a vista por mim e pela senhora Gummidge, como se despertasse de um sonho. Ela continuou, suplicante:

- Oh, não, Daniel, não! Leveme consigo. Serviloei com fidelidade. Se há escravos nesse país para onde vai, serei eu a sua escrava, e com alegria; mas não me abandone, Daniel!

- Boa alma - retorquiu ele, abanando a cabeça - não faz ideia da duração desta viagem nem da nossa vida lá longe.

- Calculo, Daniel. Mas, pela primeira vez sob este tecto, digoLhe que voltarei aqui para morrer, se não me levar consigo. Sei trabalhar. Sei viver com dureza. Sei ser paciente e dócil, mais do que imagina. Ao menos experimente, Daniel! Não levantarei a minha pensão, ainda que esteja cheia de fome, mas irei consigo e com a Emily até ao fim do mundo, se mo consentir! Sei muito bem o que há, sei que me supõe uma inútil, mas já não é assim, Daniel: tanto pensei nas suas desgraças que fiquei um pouco melhor. Menino Davy, interceda por mim. Conheço os desgostos deles, conheço os hábitos da Emily, talvez os possa consolar de vez em quando, ao mesmo tempo que trabalho. Daniel, meu caro Daniel, deixeme partir consigo!

E a senhora Gummidge pegou na mão do pescador e beijoua com afecto simples e comovente, num transporte humilde de abnegação e reconhecimento que ele bem merecia.

Pusemos o baú cá fora, apagámos a vela, fechámos a porta à chave e partimos, deixando o velho barco bem guardado, semelhante a um ponto negro no meio da noite.

No dia seguinte, quando nos encontrámos na imperial da diligência, a caminho de Londres, a senhora Gummidge e o seu cabaz já estavam no banco traseiro e ela resplandecia de satisfação.