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David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 50. REALIZASE O SONHO DE DANIEL PEGGOTTY
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Haviam decorrido uns meses depois da entrevista que tivéramos com Martha, à beira do Tamisa. Eu não a tornara a ver, ela todavia escrevera por várias vezes a Daniel Peggotty. Nada resultara das suas porfiadas diligências. Não se recolhera o menor indício que conduzisse à descoberta de Emily, Devo confessar que principiava a crer que ela tinha morrido.

Contudo a confiança do tio nunca enfraquecera. Tanto quanto sei - e esse coração simples creio que não tinha segredos para mim - ele manteve sempre a certeza de a encontrar. Dispunha de uma paciência infinita. E embora eu temesse ao pensar no que seria a sua angústia se um dia lhe fosse roubada essa firme certeza, havia nela qualquer coisa mística, e comovia tanto sentila nas mais puras profundezas da sua alma que o respeito e veneração que ele me inspirava aumentavam constantemente.

Essa esperança não era do género que crê e não actua. Toda a vida fora homem de acção. Sabia quanto era necessário, em tudo, começar por agir sem desfalecimentos. Vio levantarse a meio da noite, receando que por qualquer circunstância a luz se houvesse apagado na janela da velha embarcação ancorada; vio depois pôrse a caminho para Yarmouth; vio pegar no bordão e calcorrear sessenta a oitenta milhas. Até Nápoles foi por mar, depois de ouvir a narrativa da senhora Dartle. Realizava todas estas viagens constante e resoluto, fazendo economias severas com vista ao instante em que toparia a sobrinha. Nunca, nessa busca porfiada, lhe ouvi soltar um queixume ou dizer que estava cansado, ou confessar desânimo.

Dora tinhao visto por várias vezes depois do nosso casamento. Lembrome dele, de pé ao lado do sofá, com o boné de pêlo comprido na mão; lembrome do espanto tímido que se manifestava nos olhos azuis da minha mulher. Em certas ocasiões, quando ele vinha, ao cair da tarde, conversar comigo, eu animavao a fumar cachimbo no jardim, enquanto passeávamos; e então confrangiame a ideia do seu lar destruído. Recordavame do bemestar que ali sentira, em pequeno, quando o lume crepitava e o vento gemia derredor.

Certo dia, pela mesma hora, Peggotty veio dizerme que Martha o esperara na véspera à noite, perto da sua casa, no momento em que ele saía. E recomendaralhe que de nenhum modo deixasse Londres antes de ela o procurar novamente.

- Explicoulhe porquê? - indaguei.

- Não lhe perguntei, menino Davy, mas a rapariga nunca fala muito. Obrigoume a prometerlhe isso, e foise embora.

- Disselhe mais ou menos quando tornaria a procurálo?

- Não, menino Davy - replicou Peggotty, passando com ar pensativo a mão pela cara. - Também quis saber, mas não obtive outra informação.

Eu já evitava darlhe muitas esperanças, de maneira que me limitei a acrescentar, sem mais comentários, que ele decerto a veria em breve. Guardei para mim as reflexões que a notícia me inspirara; e essas reflexões não eram optimistas.

Outra vez à tarde, passeava eu no jardim. Guardo a recordação precisa do momento: era a segunda semana de incertezas acerca de Micawber. Chovera todo o dia e a atmosfera estava húmida, com a folhagem espessa vergando ao peso das gotas de água. Mas, embora ainda houvesse nuvens no céu, a chuva cessara e a passarada chilreava. Eu ia e vinha, e entretanto descera a noite e as vozes das aves calaramse. Em mim se concentrou esse silêncio especial das noites do campo, quando os mais ténues dos ramos de árvore se imobilizam e não se ouve senão o ruído das folhas que largam os últimos pingos.

Existia ao lado da vivenda um corredor coberto de hera, ao fim do qual se descortinava a estrada. Absorto nos meus pensamentos, virei a cabeça naquela direcção e vi que estava alguém do lado de fora a olhar ansiosamente para mim e a fazerme sinais.

- Martha! - exclamei, indo ao seu encontro.

- Pode sair comigo? - perguntoume muito agitada. - Fui a casa dele, mas não estava. Deixeilhe um bilhete dizendolhe onde nos encontraria, o qual ficou em cima da mesa. Informaramme de que não tardava a entrar. Tenho notícias. Pode acompanharme já?

Por única resposta, transpus a vedação. A rapariga, com um gesto dos dedos, impôsme silêncio, e encaminhouse para Londres, donde devia ter vindo a pé e a toda a pressa.

Pergunteilhe se era para lá que nós íamos. Respondeume afirmativamente, com o mesmo gesto rápido que já empregara, e eu mandei parar um trem vazio que passava... Subimos para ele. Disse a Martha que indicasse a direcção ao cocheiro.

- Mais ou menos nas imediações de Golden Square. E sem demora! - elucidou.

Em seguida, encolheuse num canto da carruagem, tapou a cara com a mão trémula, e, com a outra, fez gesto idêntico aos precedentes, como se não suportasse o som de vozes.

Agora já muito perturbado, e perdido entre os fogos cruzados da esperança e do temor, olhei para Martha em busca de uma explicação. Vendolhe, porém, o desejo insistente de silêncio e não tendo, por minha parte, grande vontade de falar, continuei mudo. Não trocámos uma palavra. De vez em quando,

ela olhava para o exterior, como se achasse que íamos muito devagar, o que aliás não era o caso; depois retomava sempre a atitude primitiva. O trem deixounos numa das entradas do largo que ela indicara e eu disse ao cocheiro que esperasse, porque não sabíamos se ainda seria preciso. Martha apoiou a mão no meu braço e arrastoume por uma dessas ruas escuras, tão numerosas naqueles sítios, onde as casas, outrora belas residências familiares, se haviam tornado há muito tempo pobres habitações de aposentos alugados. Depois de passarmos a porta aberta de uma delas, Martha largoume o braço e fez sinal que a seguisse pela escada, tão concorrida que parecia um afluente da rua.

A casa estava repleta de inquilinos. À nossa passagem abriamse portas e apareciam rostos; antes de entrar vi mulheres e crianças que nos espiavam à janela, atrás de vasos de plantas. Suponho que excitáramos a curiosidade dos locatários. A escada era larga e assoalhada, de corrimão maciço feito de madeira escura, as portas sobrepostas de cornijas, ornadas de frutos e flores esculpidas; havia bancos nos vãos. Mas todos estes sinais de grandeza pretérita se apresentavam lastimàvelmente desfigurados e sujos; a podridão, a humidade e a velhice tinham atacado o soalho, nalgumas partes já pouco sólido e perigoso. Notei que se tentara deter a derrocada geral insuflando sangue novo nessa carcaça oscilante; aqui e ali velhas obras de madeira consertadas com pinho: dirseia a união inconveniente de um nobre arruinado com uma rapariga do povo, em que cada um se arrepia do outro. Algumas das janelas que davam para o pátio mostravamse tapadas, e as outras exibiam vidraças partidas. Através dos caixilhos apodrecidos, pelos quais entrava ar corrupto, descobri outras janelas sem vidros de outras casas arruinadas.

Subimos até ao último andar. Duas ou três vezes, pelo caminho, parecerame que ia à nossa frente uma mulher, pelo menos divisavalhe a saia. Ao alcançarmos o derradeiro patamar, que nos separava do telhado, vimos perfeitamente a desconhecida parar um instante defronte da porta, depois girar o puxador e entrar. - Que é isto? - murmurou Martha. - Entrou no meu quarto. E não a conheço.

Conheciaa eu. Estupefacto, verificara que era Rosa Dartle. Em termos vagos, expliquei à minha companheira que se tratava de uma senhora que eu já tinha visto. Daí a pouco ouvimoslhe a voz, mas sem poder distinguir ainda o que ela dizia. Martha, surpreendida, impôsme outra vez silêncio e conduziume sem ruído por uma porta pequena, sem fecho, que pertencia a um quartinho minúsculo, pouco maior do que um armário. Entre este e o quarto que ela dissera ser o seu, existia uma comunicação, nesse momento entreaberta. Detivemonos ali, ofegantes da subida; não descortinava do aposento contíguo, que parecia grande, senão a cama e algumas vulgaríssimas estampas

de navios nas paredes. Não podia lobrigar nem a senhora Dartle nem a pessoa com quem ela falava. E decerto a Martha acontecia o mesmo, porque eu estava mais bem colocado. Por instantes reinou silêncio absoluto.

- Não importa que essa criatura não esteja - dizia Rosa Dartle. - Nunca ouvi esse nome. A si é que eu desejo falar.

- A mim? - retorquiu uma voz branda. Percorreume o corpo um arrepio: a voz de Emily!

- Sim, senhora. Vim admirála. O quê? Não se envergonha desse rosto que tanto mal causou?

O ódio intenso e implacável que vibrava naquela voz, a violência fria e calculada, a raiva contida, deramme o retrato exacto da senhora Dartle, como se a visse em plena claridade. Percebialhe os olhos pretos fulgurantes e o corpo emagrecido, e a cicatriz branca que lhe cruzava os lábios e que fremia e palpitava.

- Vim ver - continuou Rosa - o objecto dos caprichos de James Steerforth, a criatura que fugiu com ele e que alimenta as más linguas da sua terra natal, a companheira descarada, hábil e provocante de um homem como James Steerforth! Quis saber como era feita uma mulher desse género.

Ouviuse um rumor, como se a pobre rapariga, a quem se dirigiam estes ultrajes, se houvesse precipitado para a porta. Mas a outra impediulhe a saída. Pairou o silêncio.

A senhora Dartle voltou a falar, de dentes cerrados e batendo o pé:

- Fique aí! Ou então participarei a todo o prédio e a toda a rua o que você é! Se tentar fugir, retêlaei, nem que seja pelos cabelos, e levantarei contra a sua pessoa as pedras da calçada.

Como resposta, senti um murmúrio apavorado. Depois houve novo silêncio. Eu não sabia que fizesse. Por maior desejo que fosse o meu de pôr cobro à cena, achava que não tinha o direito de me mostrar. Só Daniel Peggotty poderia aparecer e levála. Não chegaria ele, nunca mais? Isto pensava eu cheio de impaciência.

- Com que então - prosseguiu Rosa, rindo desdenhosamente - vejoa por fim! Coitado do rapaz, que se deixou prender por essa falsa modéstia e essa cabecinha à banda!

- Por amor de Deus, calese! - suplicou Emily. - Seja a senhora quem for, conhece a minha triste história. Então, poupeme, por amor de Deus, se quer que os outros lhe façam o mesmo.

- A mim, querer que me poupem? - respondeu Rosa, enfurecida. - Que é que existe de comum entre nós, desejava saber!

- Apenas o sexo - volveu Emily lacrimosa.

- E isso, invocado por um ser tão abjecto como você, é um laço que bastaria para me gelar o coração, se nele houvesse ainda espaço para outra coisa além do desprezo e do horror. O nosso sexo! Muita honra faz ao nosso sexo...

- Mereço que assim me tratem, mas é cruel. Pense no que sofri e naquilo em que me tornei. Ó Martha, volta para cá, volta depressa!

Rosa instalarase numa cadeira defronte da porta e baixou os olhos, como se Emily se lhe rojasse aos pés. Estando nesse momento entre mim e a janela, eu podia verlhe o lábio desdenhoso e o olhar atroz fixandose intensamente num único ponto, com uma avidez triunfante.

- Oiça o que lhe vou dizer e reserve as suas manhas para os incautos. Espera comoverme, a mim, com lágrimas? Nem com lágrimas nem com sorrisos, sua escrava vendida!

- Tenha dó desta infeliz. Mostreme um pouco de compaixão, para que eu não enlouqueça.

- Não seria grande castigo para as suas culpas. Sabe o que fez? Já pensou no lar que destruiu?

- Ah, não se passa um só dia, uma só noite em que eu não pense nisso! - exclamou Emily.

Pude então entrevêla, de joelhos, com a cabeça lançada para trás, o rosto pálido erguido ao céu, as mãos juntas e estendidas com desespero e o cabelo lustroso esparso pelos ombros.

- Não se passou um dia - continuou - em que o não revisse tal como na hora funesta em que lhe voltei costas para sempre. Ó minha casa! Querido tio! Se tu houvesses sabido a tortura que seria para mim o teu amor, quando me desviei do bom caminho, se ao menos te zangasses uma vez comigo... eu não conheceria a força desse amor nem experimentaria tantos remorsos... Que consolo posso ter, se foram sempre tão bons para com esta ingrata?

Caiu com a face para o chão perante a criatura imperiosa sentada na cadeira e, com gestos imploradores, tentou pegarlhe na fímbria da saia.

Rosa Dartle não deixava de a contemplar, tão impassível como uma estátua de bronze. Apertava os lábios com força, talvez pela necessidade de se conter (esta foi a minha convicção) para não agredir com os pés a bela a eles ajoelhada. Distinguiaa perfeitamente: toda a energia da mulher se concentrava naqueles lábios cerrados. Peggotty nunca chegaria? - Oh, mísera vaidade dos vermes da terra! - disse ela quando acabou por dominar as pulsações desaustinadas do coração.

- O seu lar! Imagina que eu supus que você praticou um acto que se não emenda com dinheiro? Você era apenas uma mercadoria nesse lar, e foi vendida e comprada como todas as outras mercadorias que os da sua laia negoceiam.

- Ah, isso não! Diga o que quiser, mas não faça recair a minha desonra, o meu opróbrio, mais do que é necessário, sobre pessoas que são tão honestas como a senhora. De mim não tenha dó, mas a eles respeiteos, se é uma dama!

- Refirome - objectou Rosa Dartle, sem fazer caso daquela súplica e subtraindo a saia ao contacto impuro da mão de Emily - refirome ao lar dele, onde vivo! Realmente - acrescentou olhando para a pobre rapariga prostrada a seus pés e apontando para ela, com um riso desdenhoso - aí está um belo assunto de divisão entre mãe e filho de boas famílias, uma digna razão de desgosto onde você não seria admitida nem sequer como criada. Lama apanhada no rego da rua para divertimento de uma hora, e depois recambiada ao lugar de origem!

- Não, não! - bradou Emily, unindo as mãos. - Até ao dia em que ele se me atravessou no caminho... ah, por que alvoreceu esse dia para ele e não me trouxe, a mim, a tumba?... eu fui educada tão virtuosamente como a senhora ou outra dama qualquer, e ia casar com um homem como nenhum melhor casaria consigo ou com outra senhora da melhor estirpe! Se vive em casa desse homem e o conhece, a senhora sabe decerto o poder que James era capaz de exercer numa rapariga fraca e frívola. Não me defendo, mas sei bem, e James sabe igualmente muito bem (pelo menos sabêloá à hora da morte), que se serviu desse poder para me iludir e que eu nele acreditei e o amei.

Rosa Dartle pulou da cadeira, recuou, e, recuando sempre, ergueu a mão para Emily, com um rosto tão desfigurado pela cólera que eu estive quase a lançarme entre ambas. Mas o golpe desferido ao acaso caiu no vácuo. Quando a vi de pé e ofegante, fitando Emily com todo o ódio de que era capaz, e tremendo dos pés à cabeça na sua raiva e no seu desprezo, pensei que não presenciara até aí e jamais voltaria a presenciar espectáculo semelhante.

- Você, amálo? Você? - gritou, de punhos fechados e tão trémula como se apenas esperasse encontrar uma arma para a brandir sobre o objecto da sua ira.

Emily afastarase para longe do alcance da minha vista. Não houve resposta.

- E tem o descaramento de mo dizer? - insistiu Rosa. - Por que não são açoitadas criaturas desta ordem? Se estivesse na minha mão castigar, faria morrer sob o chicote esta mulher desaforada!

E têloia feito, não tenho dúvida. Não seria eu que lhe confiaria qualquer instrumento de tortura, enquanto durou aquele olhar carregado de ódio.

Mas lentamente, muito lentamente, começou a rir e apontou para Emily com o dedo, qual se tratasse de um símbolo de chacota para toda a gente.

- Ela, amar! Aquela carcaça! E pretender que ele também a amou! Ah, ah, ah! Que intrujonas, estas criaturas!

A troça era pior do que o extravasar da raiva. Tivesse eu de ser exposto a alguma delas, haveria preferido a última.

Mas Rosa não consentiu a si mesma a continuação desse abandono à hilaridade. Depressa se dominou e, fossem quais fossem os seus sentimentos, soube então reprimilos.

- Vim aqui - declarou - ver, como já disse, com que se parecia esta pura fonte de amor... Era a curiosidade que me impelia. Estou satisfeita. Também lhe queria dizer que mais vale voltar sem demora à sua casa e esconderse aí no meio das dignas pessoas que a esperam e a quem o dinheiro que você leva consolará. Quando o gastar de todo, pode tornar a amar e a ter confiança... Eu julgava encontrar um brinquedo partido, que já durara o bastante: uma lantejoula barata, descorada, lançada fora. Mas, desde que tenho à minha frente ouro de lei, uma dama autêntica, uma inocente enganada, cujo coração juvenil está ainda cheio de amor e confiança... é assim que finge ser, de acordo com a sua história... acrescentarei mais alguma coisa. Oiça bem, pois vou fazer o que digo. Está atenta? Isto é a sério!

Voltara a ser violenta, mas foi coisa rápida, e a fisionomia tornouse risonha.

- Escondase - acrescentou - ou na sua casa ou noutro lado qualquer. Mas num lugar inatingível. Faça uma vida obscura, ou, melhor, uma vida de morta. Se o seu coração não estalou, admirome que não achasse meio de o forçar a calarse. Tenho ouvido dizer que há processos para isso, e creio que são fáceis de encontrar.

Interrompeua um gemido sufocado de Emily. Rosa emudeceu e escutou o gemer da outra como música celestial.

- Talvez eu seja de uma natureza estranha - recomeçou a senhora Dartle. - Não posso respirar livremente o mesmo ar que você respira. Achoo viciado. Por isso quero que ele se purifique, desembaraçandoo da sua presença. Se amanhã souber que ainda cá se encontra, contarei alto e bom som a sua história a toda a gente. Constame que há por aqui mulheres honestas, e é pena que tenham semelhante companheira no seu seio. Se, ao irse embora, procurar refúgio nesta cidade, sob qualquer condição que não a sua (que pode usar sem que ninguém a moleste), eu prestarlheei o mesmo serviço, se souber onde se abriga. Ajudada por um homem que ainda há pouco aspirava à honra de obter a sua mão, não duvido de que alcançarei os meus fins.

Peggotty nunca chegaria? Por quanto tempo mais suportaria eu aquilo?

- Meu Deus, meu Deus! - murmurou a infeliz Emily no tom que, pensei, sensibilizaria um coração empedernido mas que não provocou nenhuma comoção no rosto sorridente de Rosa Dartle. - Que vai ser de mim? Em que vou acabar?

- Acabar? - ripostou a outra. - Vai viver contente com os seus pensamentos. Consagrar a existência às recordações da ternura

de James Steerforth (que desejava fazer de si a mulher do seu criado, não é verdade?) ou a um sentimento de gratidão para com o ente recto e virtuoso que a receberia como uma dádiva. Ou ainda, se essas lembranças magníficas, se a consciência da sua própria virtude e do esplendor que ela lhe deu aos olhos de tudo que tem figura humana lhe não bastarem, despose o homem sério de que lhe falei e que a condescendência dele lhe traga felicidade. Se isto, todavia, lhe não for suficiente, então morra! Há montes de lixo para tais mortes; subaos e erga o seu voo para o céu.

Senti um passo distante na escada; reconhecio imediatamente. Era ele, graças a Deus!

Depois de dizer aquelas palavras, Rosa afastouse e eu deixei de a ver.

- Mas tome cuidado - ouvi ainda recomendar aquele algoz, no momento em que abria a porta para sair - estou resolvida, por motivos pessoais, a originar a sua perdição se não se colocar longe da minha alçada ou não abandonar a máscara que ostenta. É isto que quero salientar. E, quando digo uma coisa, façoa!

Os passos na escada aproximavamse cada vez mais; o homem passou ao lado daquela que descia e entrou à pressa no quarto.

- Meu tio!

A este nome seguiuse um grito tremendo. Esperei um momento, e então, olhando para lá, vi Daniel segurar o corpo inanimado de Emily. Contemploulhe a cara durante algum tempo, curvouse para a beijar (com que ternura!) e tapoua com um lenço.

- Menino Davy - disseme ele em voz baixa e trémula - agradeço ao Pai celeste por ter realizado o meu sonho! Agradeço do fundo do coração por me ter conduzido, pelas Suas vias, até à minha querida sobrinha.

Dizendo estas palavras, levantoua nos braços e, com aquelas faces veladas pendidas no seu peito, transportoua imóvel e inconsciente até ao baixo da escada.