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David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 5. SOU EXPULSO DE CASA
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Devíamos ter andado cerca de meia milha, e o meu lenço estava já ensopado, quando o carroceiro estacou bruscamente.

Alcei a vista para ver de que se tratava, e descobri, com grande espanto, Peggotty surgir de uma sebe e tomar assento na carroça. Apertoume nos braços e cingiume contra o espartilho, pelo que fiquei com o nariz a doer, mas não disse uma única palavra. Desembaraçando uma das mãos, mergulhoua no bolso e extraiu de lá vários sacos de doces, com que me encheu as algibeiras, assim como uma bolsa, que me entregou, continuando sempre sem abrir a boca. Depois de me ter abraçado mais uma vez, apeouse da carroça e fugiu a correr. Pensei, e ainda hoje o creio, que não lhe ficara nenhum botão no vestido; apanhei um dos que caíram e guardeio por muito tempo como recordação.

O carroceiro contemploume como para inquirir se ela voltaria. Meneei negativamente a cabeça e respondi que não achava provável. «Então, a caminho!», disse ele ao cavalo mandrião, que obedeceu à ordem dada.

Tendo já chorado o mais que me fora possível, comecei a considerar a inutilidade do pranto, tanto mais que nem Roderick Random nem o capitão da Marinha Real Britânica choraram em situações críticas como esta, se é que bem me recordava. O carroceiro, ao notar esta minha resolução, propôsme estender o lenço na garupa do cavalo, para o secar. Agradecilhe e concordei; e como ele parecia pequenino, ali desdobrado!

Havia agora tempo para examinar a bolsa. Era de cabedal grosso, com um fecho, e continha três xelins luzidios, e, para meu maior encanto, muito bem polidos com greda, Mas o que mais me agradou foi encontrar duas meias coroas embrulhadas num bocado de papel em que estava escrito, na caligrafia da minha mãe, «Para o Davy, com muitas saudades». Isto comoveume tanto que pedi ao carroceiro me devolvesse o lenço. Ele, porém, aconselhoume a dispensálo, e achei que o homem tinha razão, de modo que enxuguei os olhos na manga do casaco e deixei de chorar. Filo de vez, embora, devido às comoções sofridas, ainda soltasse, a espaços, um grande soluço. Depois de havermos seguido a meio trote por mais uns momentos, perguntei ao carroceiro se ele ia levarme todo o caminho.

- Até onde? - inquiriu o homem.

- Até lá.

- Lá o quê?

- Arredores de Londres.

- Este cavalo - replicou ele, sacudindo as rédeas para indicar o animal - ficaria mais morto que vivo antes de metade do trajecto.

- Então vai só até Yarmouth?

- Mais ou menos. Aí entrego o menino na diligência, e esta é que o leva... para onde vai.

Como isso constituía conversa para o carroceiro (que se chamava Barkis), pois era, como já expliquei num capítulo anterior, de temperamento fleumático, e nada tagarela, oferecilhe um dos bolos em testemunho de consideração, e o homem engoliuo duma vez, exactamente como faria um elefante - e ficou tão impassível como ficaria um mastodonte.

- É ela que os faz? - perguntou Barkis, sempre inclinado para a frente, com o seu ar pesadão e os braços apoiados aos joelhos.

- Referese a Peggotty?

- Hem? Ah, sim, a ela mesma.

- Pois é Peggotty quem faz os doces e cozinhados lá em nossa casa.

- Palavra? - volveu Barkis.

Afeiçoou a boca como se fosse assobiar, mas não assobiou. Continuou a olhar para as orelhas do animal, tal se aí descobrisse algo de novo. Permaneceu assim largo tempo. Por fim disse:

- Espera marido? Acha que sim?

- Esperamaridos e todos os doces - repliquei, supondo que ele aludia a essa excelente guloseima.

- Não é Isso. Se alguém tenciona casar...

- Com Peggotty?

- Sim, senhor.

- Não, nunca teve namorado.

- Ah, não?! - exclamou Barkis.

Afeiçoou outra vez os lábios para assobiar, e de novo desistiu, continuando, porém, a observar as orelhas do cavalo.

- Com que então - disse por fim, após demorada reflexão - ela faz todos os doces e todos os cozinhados, hem?

Informeio de que assim era realmente.

- Muito bem - retorquiu. - Voulhe pedir uma coisa. Naturalmente pensa em escreverlhe...

- Com certeza que lhe escreverei.

--Ah! - tornou ele, virando lentamente os olhos para mim.- Se lhe escrever, talvez pudesse dizerlhe que o Barkis suspira...

- Que o senhor Barkis suspira? - repeti com a maior inocência. - É só esse o recado?

- E - confirmou, parecendo meditar. - É. O Barkis suspira.

- Mas o senhor amanhã estará de volta a Blunderstone - tartamudeei, na ideia de que eu já me encontraria então muito longe. - Pode perfeitamente entregarlhe o recado...

Todavia, como abanasse a cabeça, repudiando a alternativa e insistindo em que eu devia escrever, prontifiqueime a servir de intermediário. Enquanto esperava pela diligência no albergue de Yarmouth, nessa mesma tarde, arranjei uma folha de papel e um tinteiro e escrevi uma cartinha à Peggotty, concebida nestes termos:

«Querida Peggotty. Cheguei aqui são e salvo. Barkis suspira. Saudades à mamã. Teu muito amigo David.

«P. S. Diz ele que deseja particularmente recomendarte isto: Barkis suspira.»

Depois de me prontificar a esta incumbência, Barkis recaiu em absoluto silêncio; e eu, sentindome esgotado pelos acontecimentos, estireime em cima de um saco, na carroça, e adormeci. Dormi profundamente até chegarmos a Yarmouth; pareceume tão diferente, em especial o pátio da estalagem onde penetrámos, que abandonei a secreta esperança de reencontrar alguém da família do senhor Peggotty, talvez a própria Emily!

A diligência estava lá, mas ainda sem os cavalos, o que me deu a impressão de que tão cedo não partiria para Londres. Cogitava nisto, e no que fora feito da minha mala, que Barkis deixara no pátio, junto da cavalariça, quando uma mulher enfiou a cabeça pela janela em que havia galinhas e peças de carne penduradas e me perguntou:

- É o passageiro de Blunderstone?

- Sou, sim, senhora.

- Como se chama?

- Copperfield.

- Não é esse nome. Pagaram o jantar mas não foi para si.

- Será Murdstone?

- Se é Murdstone, então está bem. Por que começou por me dar outro nome?

Expliquei o caso. A senhora tocou a campainha e gritou: «William, leva este menino à casa de jantar!», após o que saiu, a correr, um criado da cozinha, no extremo oposto do pátio, e indicoume o refeitório. Pareceu muito admirado de que fosse eu a pessoa a quem devia servir.

A casa de jantar era larga e comprida, adornada de mapas enormes. Creio que me sentiria menos estranho se esses mapas fossem verdadeiros países estrangeiros e eu me encontrasse de repente nalgum deles. Tive a impressão de que praticava um sacrilégio sentandome, de barrete na mão, à beirinha da cadeira mais aproximada da porta. E, quando o criado estendeu uma toalha expressamente para mim, e sobre ela colocou o galheteiro, todo eu me ruborizei na minha modéstia.

O homem trouxe costeletas e legumes, destapando as travessas com tanta veemência que eu supus havêlo de qualquer maneira ofendido. Tranquilizeime, porém, ao vêlo arrastar uma cadeira para junto da mesa e convidarme a tomar aí assento.

Agradeci e instaleime. Todavia achei bastante difícil manejar a faca e o garfo com a necessária destreza, e evitar que o molho se entornasse, tanto mais que o criado se mantinha de pé à minha frente, observandome com fixidez. Como eu corei de cada vez que os nossos olhares se encontravam! Ao verme iniciar a segunda costeleta, participou:

- Há uma cerveja para si. Querea agora?

- Pois sim, obrigado.

Despejouma do jarro numa caneca avantajada, admiroulhe a transparência, de encontro à luz, e disse:

- Que beleza, hem?

- Não há dúvida - concordei, sorrindo. Encantavame verificar que ele era tão amável.

Tratavase de um homem de olhos piscos, cara com borbulhas, cabelo eriçado. Enquanto segurava o copo, apoiava a outra mão à ilharga e tomara uma atitude condescendente.

- Esteve cá ontem um senhor - disse ele - um senhor gordo, chamado Topsawyer(1)... talvez o conhecesse...

*1. Familiarmente, Topsawyer é um senhor de importância.

- Não, creio que não.

- Usava calções e polainas, um chapéu largo, casaco cinzento, gravata de pintinhas...

-Não - repeti envergonhado - não tenho o gosto de...

- Pois veio aqui - continuou o criado, mirando sempre a minha cerveja - pediu um copo disto... Aconselheio a não tomar... Mas insistiu em beber e caiu morto. Era forte de mais para ele. Não o deviam ter servido. Ora aí tem.

Fiquei muito impressionado com o triste acontecimento e declarei que talvez fosse preferível eu tomar água em vez de cerveja.

- Já vê... - replicou o homem, ainda com o copo erguido à luz e fechando um dos olhos. - A patroa não gosta que se encomendem coisas e se deixem ficar... Sentese vexada. Não importa, eu tomo, se me dá licença. Estou habituado. Não me fará mal se inclinar a cabeça para trás e ingerir tudo rapidamente. Permite?

Respondilhe que era um favor que me fazia, se tinha a certeza de que não lhe traria dano; mas só com esta condição. Quando deitou a cabeça para trás, a fim de absorver a cerveja de um trago, senti um medo terrível, devo confessálo: podia o homem ter o destino do senhor Topsawyer e cair redondo no chão. Ora, pelo contrário, a coisa pareceu fazerlhe bem.

- Que temos aqui? - perguntou, metendo um garfo no meu prato. - Não são costeletas?

- São - repliquei.

- Deus seja louvado! Não sabia que eram costeletas. Exactamente o que é preciso para contrariar os maus efeitos desta cerveja. Que sorte, hem?

Com a mão bifoume uma costeleta, agarrandoa pelo osso; com outra agarrou numa batata, e tudo devorou com apetite extraordinário, o que me causou admiração. Serviuse de segunda costeleta e de segunda batata, e, depois de as haver comido, foime buscar um pudim. Colocouo à minha frente, mas conservouse com ar absorto, como se perdido em meditações. De repente indagou:

- Que tal o pastelão?

- É um pudim - informeio.

- Pudim!-repetiu. - Oh, meu Deus, é verdade!-acrescentou, olhandoo mais de perto. - Não tem crosta de pastelão?

- Tem, sim.

- Pudim com uma crosta! O meu pudim predilecto! Continua a sorte, hem? Vamos ver então qual é o que come mais depressa.

Evidentemente que ele levou a melhor na competição. Por mais de uma vez incitoume a ganhar, mas havia grande diferença entre a minha colher de café e a sua colher de sopa, entre o meu desembaraço e o seu, entre o meu apetite e o dele. Estive sempre, pois, em desvantagem. Creio que nunca vi ninguém comer um pudim com tanto gosto. Quando tudo desapareceu do prato, ainda o homem ria, como se o prazer continuasse.

Achandoo tão amigo e camarada, pedilhe pena, tinteiro e papel a fim de escrever à Peggotty. Não só me obsequiou imediatamente como seguiu com os olhos, por cima do meu ombro, o que eu ia redigindo. Terminada a carta, quis saber onde ficava o meu colégio.

- Perto de Londres. Era tudo o que eu sabia.

- Oh! -murmurou, contristado.- Lamento muito.

- Porquê? - indaguei.

- Oh, Deus meu! --retorquiu, oscilando a cabeça. - Foi mesmo nesse colégio que partiram as costelas de um rapaz... duas costelas... e era um rapazinho. Devia ter... vejamos... que idade é a sua?

Informeio de que ia nos nove.

- Precisamente o mesmo. Ele tinha oito anos e seis meses quando lhe quebraram a primeira costela; oito anos e oito meses quando da segunda.

Não pude dissimular o desagrado que essa notícia me provocava e pergunteilhe como acontecera tal coisa. A resposta não foi animadora, pois esclareceume com uma palavra sinistra: açoites.

Um som de trompa no pátio desviounos oportunamente a atenção. Levanteime e inquiri, hesitante, com um misto de vaidade e temor (que me inspiravam a ideia de possuir uma bolsa com dinheiro) se havia alguma coisa em dívida.

- Uma folha de papel de carta. Já comprou algum dia papel de carta?

Bem me parecia que não.

- É caro - prosseguiu ele - por causa dos impostos. Três dinheiros-. Assim são as alcavalas neste país! A tinta é de graça. Resta só o criado.

- Quanto é.que... quanto devo... O que é que se costuma pagar ao criado? - tartamudeei, corando.

- Se eu não tivesse família, e a família não estivesse com bexigas... - observou o homem - não aceitaria meio xelim... Se não tivesse mãe, por sinal velha, e uma irmã adorável... não aceitaria nada... - acrescentou, em tom comovido. - Se possuísse um bom lugar, e fosse bem tratado... seria capaz de pedir que aceitasse uma lembrança, em vez de ser eu a recebêla. Mas vivo... sabese lá como vivo e como durmo!

Nesta conjuntura desatou a chorar. A infelicidade do homem afligiame bastante, e achei que gratificálo com menos de nove dinheiros seria muita dureza de coração. De maneira que lhe dei um dos meus xelins luzidios, que ele aceitou com grande humildade e veneração, e logo a seguir fêlo saltar com um piparote, para experimentar a genuidade da moeda.

Foi um tanto desconcertante verificar, quando me ajudaram a subir a diligência, que supunham ter eu comido todo o jantar, sem a colaboração de ninguém. Ouvi a dama que estava à janela dizer ao cocheiro: «Cuidado com essa criança, não vá rebentar!», e vi as criadas da estalagem acorrerem a observar o fenómeno, sufocando risadinhas. O meu infortunado amigo, aquele que me servira o jantar, recobrara o bom humor e associavase ao desfrute e não parecia nada comprometido. Isto despertoume certa desconfiança quanto à sua seriedade, embora, de um modo geral, eu possuísse então a boa fé das crianças, que lastimo haver depois trocado pela sabedoria das pessoas experientes.

Considerei todavia um pouco duro, confesso, dar azo, sem o merecer, às graçolas do cocheiro, que fingiu recear que a diligência tombasse para o lado que eu ocupava. A história do meu suposto apetite não tardou a espalharse entre os passageiros, que se divertiram à minha custa. Até me perguntaram se, no colégio que eu ia frequentar, pagaria por dois ou três; se tinham feito preço especial para mim ou se se resignavam à tarefa ordinária; e muitas outras perguntas chocarreiras. Mas o pior de tudo era saber que me envergonharia de tornar a comer, quando se oferecesse oportunidade, e que, após uma refeição tão frugal, passaria fome toda a noite - pois na minha precipitação esquecerame dos bolos no albergue. As minhas apreensões não foram vãs. Quando nos apeámos para cear, faltoume a coragem de o

fazer, se bem que tanto me apetecesse, e eu senteime ao canto da lareira e declarei que não queria nada, o que não evitou novas pilhérias: um cavalheiro de voz rouca e feições grosseiras, que todo o caminho mastigara sanduíches (além de ter emborcado uma garrafa), disse que eu era como a jibóia, que se alimenta por uma vez e passa o resto do tempo a digerir.

Partíramos de Yarmouth às três horas da tarde e devíamos chegar a Londres na manhã seguinte, às oito horas. Estava um tempo magnífico e a tarde apresentavase deliciosa. Quando atravessámos uma aldeia, imaginei o que seria o interior dessas residências e as ocupações dos habitantes; e quando os garotos corriam atrás de nós, agarrandose aos varais do veículo e ali balançando por uns momentos, eu pensava se eles teriam os pais vivos e se reinava a felicidade nos seus lares. Não me faltavam temas para meditação, além de que o meu espírito jamais deixava de incidir no colégio para onde eu ia, o que era motivo de horríveis conjecturas. Às vezes, bem me lembro, a memória evocava Peggotty e a minha casa, e eu tentava, de forma confusa e obscura, recordarme dos meus sentimentos passados, antes de haver mordido a mão do senhor Murdstone: mas não consegui fazêlo inteiramente, tanto me parecia remota a data em que sucedera o incidente.

A noite não foi tão amena como a tarde, porque o tempo refrescara; e, como me tinham encaixado entre dois senhores (um deles o da voz rouca), para evitar que eu caísse da diligência, aqueles quase me sufocaram, cabeceando de sono e apertandome de um lado e outro. Em certa ocasião não me coibi de gritar «Por amor de Deus!», o que lhes desagradou, pois acordaram. Defronte de mim ia uma senhora idosa, com um casaco enorme de peles, a qual ao escuro mais parecia um molho de feno, tanta era a roupa que a cobria. Essa dama transportava um cabaz, de que não soubera como desembaraçarse antes de mo pôr debaixo dos pés. O cabaz provocavame cãibras e tornavame infeliz; mas, a cada movimento meu, chocavamse lá dentro objectos de vidro, e a sua possuidora pespegavame um pontapé doloroso, dizendo: «Esteja quieto, menino!»

Finalmente nasceu o Sol e os meus companheiros puderam dormir mais sossegados. Não se imaginam as dificuldades que tiveram durante a noite, manifestadas em suspiros e roncos espantosos. Conforme, porém, clareava, o sono tornavase mais leve, e, a pouco e pouco, foram despertando. Fiquei admirado quando os vi fingir que não haviam dormido nada, repudiando indignados a simples hipótese de terem fechado os olhos. Eis o que ainda hoje me surpreende, pois cheguei à conclusão que, de todas as fraquezas humanas, a que estamos menos dispostos a confessar (sei lá porquê!) é a de pegar no sono em viagem.

Não me deterei aqui a relatar que lugar assombroso se me afigurou Londres quando descobri de longe a cidade, nem como imaginei que as aventuras dos meus heróis predilectos ali se desenrolavam de contínuo, nem como vagamente entrevi esse cenário repleto de maravilhas e perversões, como nenhum outro no mundo. A pouco e pouco nos fomos aproximando, e chegámos à estalagem do bairro de Whitechapel à hora prevista. Não me lembro se era a do Touro Azul se a do Javali Azul, mas sei que era qualquer coisa dessa cor e que havia uma reprodução pintada na parte posterior da diligência.

O condutor relanceoume, ao descer, e disse à porta do escritório:

- Vem um menino chamado Murdstone, de Blunderstone, Suffolk. Alguém espera por ele?

Ninguém se apresentou.

- Experimente com o nome de Copperfield - lembrei, desalentado.

O homem repetiu a pergunta, com o meu verdadeiro apelido.

Mas não. Não havia ninguém à minha espera. Aliás o inquérito não impressionara os assistentes, excepto um sujeito de polainas, cego de um olho, e que sugeriu me pusessem ao pescoço uma coleira de latão e me guardassem na cavalariça.

Trouxeram uma escada e eu apeeime atrás da senhora que se assemelhava a um molho de feno: não me atrevera a mexerme sem que ela recolhesse o cabaz. Já não havia mais passageiros na diligência, as malas foram todas retiradas, e começavam a desatrelar os cavalos. E ninguém aparecia para reclamar o moço embarcado em Blunderstone, Suffolk!

Mais solitário do que Robinson Crusoe (que não teve quem contemplasse a sua solidão), eu entrei no escritório e, por convite do funcionário de serviço, passei para trás do balcão e senteime na balança em que pesavam a bagagem. Aí, enquanto olhava os embrulhos, fardos, livros, e aspirava o odor dos estábulos (desde então associado no meu espírito a essa manhã), começou a desfilarme na mente um cortejo de formidáveis considerações. Se ninguém viesse buscarme, por quanto tempo consentiriam na minha permanência ali? Deixarmeiam ficar até que nada mais restasse dos meus sete xelins? Dormiria essa noite num daqueles caixotes, com as outras bagagens, e lavarmeia de manhã debaixo da bomba do pátio? Ou pôrmeiam na rua todas as noites e voltaria no dia seguinte ao escritório, quando este reabrisse, até ser definitivamente reclamado? E que devia fazer se, afinal, o senhor Murdstone tivesse ideado esse plano para se desembaraçar de mim? Se permitissem a minha estada só até ao consumo completo dos sete xelins, que aconteceria quando eu começasse a sentir os efeitos da fome? Isso seria obviamente desagradável para os fregueses, além de implicar fosse para quem fosse a possibilidade de despesas do funeral.

Admitindo que partia imediatamente, iniciando uma marcha de regresso ao lar: como descobrir o caminho? E como esperaria andar tanto a pé? E, caso fosse bem sucedido na jornada, talvez o acolhimento o não fosse, excepto no tocante à Peggotty. Poderia apresentarme às autoridades competentes e oferecerme para soldado ou marinheiro; mas, com a minha idade, quem me aceitaria? Estes pensamentos, e muitos outros semelhantes, faziamme ruborizar. O medo, as apreensões davamme volta ao miolo. Estava no auge da minha aflição quando entrou um sujeito que disse qualquer coisa ao ouvido do empregado; este foi logo buscarme à balança, puxandome de esguelha, e empurroume para o recémvindo como se eu acabasse de ser pesado, pago e expedido.

Ao sair do escritório, de mão dada com esse novo conhecimento, lanceilhe um olhar de revés. Tratavase de um rapaz esgalgado, de faces cavadas, e queixo quase tão negro como o do senhor Murdstone; mas nisto acabavam as semelhanças, pois não tinha suíças, e o cabelo, em vez de ser lustroso, era seco e rebelde. Envergava um fato preto, mal adaptado ao corpo, de mangas e pernas um tanto curtas. Usava plastrão branco, que não parecia impecavelmente limpo. Não quero dizer que o plastrão fosse toda a sua roupa branca, mas foi esta a impressão que me deixou.

- É o novo aluno? - perguntoume.

- Sou, sim, senhor. Supus que sim. Não sabia.

- Sou um dos professores do Internato de Salem - explicou ele. Fiz uma vénia, dominado pelo mais profundo respeito. E tive

tanta vergonha de aludir a uma coisa tão prosaica como a minha mala perante uma sumidade daquelas que andámos uns poucos de passos antes que eu me atrevesse a mencionála. Voltámos, pois, atrás, após a insinuação discreta que fiz de que essa mala me poderia ser necessária mais tarde. O professor informou o empregado da estação de que o carroceiro se encarregaria do transporte, ao meiodia.

- É longe? - perguntei timidamente, quando nos pusemos de novo a caminho.

- Depois de passar Blackheath.

- Mas fica longe? - insisti.

- Um bom bocado de caminho. Iremos na diligência. Cerca de seis milhas.

Sentiame tão fraco e cansado que a perspectiva dessa distância me inquietou bastante. Tomei então alento para lhe declarar que não comera nada em toda a noite e que lhe agradecia se me permitisse comprar qualquer alimento. Pareceu admirado - ainda o vejo deterse e olharme - e, após uns instantes de reflexão, disse que precisava visitar uma velha que morava ali perto e que o melhor seria eu adquirir pão ou outra coisa que fosse saudável e preparar um almoço em casa da tal mulher; aí podia até encontrar leite.

Por consequência, entrámos numa padaria e, depois de eu ter proposto sucessivamente o que havia de mais indigesto, e que ele foi rejeitando, decidimonos por um belo pãozinho escuro, que me custou três dinheiros. A seguir, numa mercearia, comprámos um ovo e uma fatia de presunto bastante entremeado, e disto resultou uma bela demasia do segundo dos meus xelins, pelo que considerei muito barata a vida na capital. Munidos destas provisões, recomeçámos a andar, no meio de tumulto e algazarra, de que se ressentiu a minha cabeça enfraquecida. Atravessámos a Ponte de Londres (creio que o meu companheiro assim a nomeou, mas eu já ia cheio de sono), e chegámos finalmente à casa da infeliz criatura a que me referi. Esta casa fazia parte de um bairro pobre, como percebi pelo seu aspecto, e também pela inscrição gravada numa pedra, sobre o portão: nela se dizia que o bairro havia sido fundado para vinte e cinco mulheres indigentes.

O professor do Internato de Salem levantou a aldrava de uma dessas portinhas pretas, todas semelhantes; tinham a um lado uma janela de vidraças, e, por cima, outra janela igual. Nessa casa vivia uma mulher velha e pobre, que nesse momento agitava o lume a fim de ferver o conteúdo de uma caçarola. A velha, ao descobrir o visitante, parou e, com o abanador nos joelhos, disse qualquer coisa que me soou como «Meu Charley!»; mas, ao verme também, pôsse de pé e, esfregando as mãos, embaraçada, fez uma espécie de reverência curta.

- É capaz de cozer o almoço deste menino? -perguntou o meu companheiro.

- Se sou capaz? Pois não havia de ser?

- Como está hoje a senhora Fibbitson? - inquiriu o professor, olhando para a outra mulher, que ficara sentada numa poltrona, próxima da lareira; lembrava de tal modo um saco de roupa, que ainda hoje me felicito por não me haver sentado em cima dela, por engano.

- Não vai bem - respondeu a primeira. - Está num dos seus dias maus. Se o lume se apagasse, por casualidade, acredito que a sua vida se apagaria também.

Olharam para a velha doente, e eu olhei também. Embora o dia estivesse temperado, a criatura dirseia só pensar no fogo. Até a julguei ciumenta da caçarola! Devia terse indignado com o facto de o meu ovo ser posto logo a cozer e o meu presunto a fritar, pois via (quando mais ninguém olhava) brandirme o punho no decorrer dessas operações culinárias. O sol entrava a jorros pela janelinha, mas a enferma voltavalhe as costas e só se preocupava com o calor do fogão. Terminados que foram os preparativos do meu almoço, e desembaraçado o lume, a mulher desatou a rir, com grande regozijo - e devo esclarecer que as suas risadas não eram nada melodiosas.

Senteime à mesa, diante do pão, do ovo e da delgada fatia de presunto, assim como de uma tijela de leite, e saboreei a minha refeição. Enquanto estava assim ocupado, a primeira das velhas indagou do professor:

- Trouxeste a flauta?

- Trouxe - respondeu ele.

- Então toca qualquer cousa - rogou a mulher. - Faz esse favor!

Com isto, o professor levou a mão à algibeira da sobrecasaca e exibiu três bocados de uma flauta, os quais atarrachou uns nos outros, e começou logo a tocar. A minha impressão, passados todos estes anos, é que jamais se tocou tão mal neste mundo. Extraiu do instrumento os sons mais tristes que eu até então ouvira, produzidos natural ou artificialmente. Não sei de que música se tratava (se música era, o que duvido), mas o caso é que me reconduziu aos meus desgostos, de tal maneira que a custo reprimi as lágrimas. Além disso tiroume o apetite e em seguida fezme tal sono que mal podia conservar os olhos abertos. Estes principiam a fecharse e a cabeça pendeme para a frente sempre que recordo aquela cena. Mais uma vez o quartinho com a sua cantoneira, as cadeiras de espaldar direito, a escada íngreme que conduzia ao andar superior, as três penas de pavão que ornavam a prateleira da chaminé (quando lá entrei a primeira vez pensei que diria esse pavão se soubesse o destino que as suas penas teriam) - mais uma vez tudo isso se dissipa aos meus olhos, e eu inclino a cabeça e adormeço. A flauta tornase inaudível, substituída pelo rumor das rodas da diligência, e eisme de novo em viagem. Um solavanco do veículo despertame em sobressalto e a ária volta a soar; o professor do Internato de Salem, sentado de pernas cruzadas, toca com ar melancólico, enquanto a velha da casa o contempla deliciada. Ela, por sua vez, desaparece, ele desaparece também; já não há flauta, nem professor, nem Internato, nem David Copperfield: unicamente impera um sono profundíssimo.

Foi sonho, com certeza, mas em certo momento, enquanto ele soprava na flauta incrível, a velha da casa, que se aproximara cada vez mais do professor como se enlevada, debruçouse sobre as costas da cadeira e cingiulhe meigamente a cabeça nos braços, o que fez parar por instantes a música. Eu estava meio acordado meio adormecido, naquela ocasião ou logo após, pois quando o homem recomeçou, vi e ouvi a velha perguntar à senhora Fibbitson se não era um encanto (o som da flauta, naturalmente), ao que a outra respondeu:

- Com certeza! Com certeza!

E curvouse para o lume, ao qual atribuiu, estou em crer, todo o mérito do concerto.

Transcorrido muito tempo do meu estado de torpor, o mestre do Internato de Salem desatarrachou a flauta, guardou no bolso os três pedaços, e trouxeme para fora da casa. A diligência encontravase ali à mão; subimos para o lado do cocheiro, mas o sono não me largava, e foi preciso (quando houve nova paragem) meteremme no interior, onde eu dormi como um justo, até à subida de uma encosta íngreme, entre folhagem verde. Aí se deteve a diligência, pois atingíramos o término.

Meia dúzia de passos, e eu e o professor achámonos no Internato de Salem, que era rodeado de muros de tijolo e tinha um ar soturno. Sobre a porta, aberta num desses muros, viase uma tábua com o nome do estabelecimento, e, por uma abertura gradeada, alguém nos examinou lá de dentro, quando puxámos a campainha. Era uma cara carrancuda, que eu, depois, vi pertencer a um homem forte, de pescoço taurino, fontes estreitas e cabelo rapado. Usava uma perna de pau. o professor explicou:

- É o novo aluno.

O coxo inspeccionoume dos pés à cabeça (não demorou muito tempo, atendendo à minha pequena estatura) e fechou a porta atrás de nós, arrecadando a chave. Encaminhámonos para a casa, que ficava no meio de árvores grandes e sombrias, e ele, que permanecia no seu posto, chamou pelo meu guia:

- Senhor Mell!

Retrocedemos. O homem, de pé à porta de um cubículo, onde vivia, segurava um par de botas na mão.

- O sapateiro - continuou ele - veio depois de o senhor ter saído e disse que não podia consertálas mais. Já nada resta das primitivas!

Com estas palavras atirou as botas ao senhor Mell, que recuou uns passos para as apanhar e as considerou com ar desconsolado quando retomávamos a marcha. Notei então, pela primeira vez, que o calçado que ele trazia estava muito gasto e tinha até um buraco por onde espreitava a peúga.

O prédio, construção quadrada, de tijolos, compunhase de duas alas e parecia totalmente desguarnecido. Em volta estava tudo tão calmo que eu disse ao senhor Mell ter a impressão de que os alunos se haviam ausentado. O professor admirouse então de que eu não soubesse ser tempo de férias. Os estudantes tinham recolhido a penates, e o proprietário do estabelecimento, senhor Creakle, achavase com a mulher e a filha numa estância balnear. Segundo informação também do senhor Mell, eu fora para ali mandado como castigo do meu mau procedimento. Isto tudo foime dito enquanto caminhávamos.

A aula, aonde ele me levou, deume uma impressão de desamparo e tristeza como nunca sentira. Ainda hoje a recordo.

É uma sala comprida, com três longas filas de carteiras e seis bancos, e paredes eriçadas de escápulas para chapéus e ardósias. No chão mal lavado espalhamse restos de cadernos velhos. Há caixas de papel para bichosdaseda dispostas por cima das carteiras. Dois pobres ratinhos brancos, abandonados pelo dono, percorrem de alto a baixo um castelo bolorento feito de cartão e arame, e os seus olhinhos vermelhos procuram por todos os cantos um pouco de comida. Numa gaiola quase do seu tamanho, um pássaro salta ao poleiro e desce imediatamente, fazendo um rumor de matraca; mas não pia nem canta. Erra na aula um cheiro estranho e malsão, como o que se exala da belbutina húmida, das maçãs maduras de mais, dos livros apodrecidos. Se a sala não tivesse tecto e do céu caísse tinta em forma de chuva, neve ou granizo, conforme as estações do ano, o soalho não poderia estar mais negro e conspurcado.

Como o senhor Mell me deixasse só para ir guardar o par de botas sem conserto, eu dirigime lentamente até ao outro extremo da aula, observando tudo isto, de caminho; e foi então que descobri de súbito um aviso de cartão, deixado na secretária. Tinha escritas estas palavras: Cuidado com ele, porque morde.

Saltei logo para cima da mesa, receoso de que estivesse debaixo dela pelo menos algum canzarrão. Mas, por mais que olhasse ao redor, não vi nada de semelhante. Estava ainda a investigar a sala quando voltou o senhor Mell e me perguntou que fazia eu ali empoleirado.

- Desculpe - respondi. - Procurava o cão. - Cão? Qual cão?

- Aquele de que é preciso ter cautela. O que morde.

- Não, Copperfield - volveume gravemente. - Não se trata de um cão mas de um menino. Tenho instruções para colocar este cartaz nas suas costas. Lastimo verme obrigado a começar assim, mas são ordens.

Fezme descer da secretária e penduroume dos ombros o cartão (que fora preparado para esse fim), como quem assenta uma mochila. Por toda a parte por onde andei, depois disso, tive o consolo de o trazer comigo.

O que sofri por causa desse letreiro ninguém pode imaginar. Quer o vissem ou não, eu julgava que o estavam sempre a ler; nem era alívio o facto de me virar e não ver ninguém, porque supunha que havia fatalmente alguém atrás de mim. O homem da perna de pau agravavame o sofrimento com o seu rigor feroz. Constituía uma autoridade, e, se me topava apoiado a uma árvore ou à parede, berrava lá do seu cubículo, com voz estentórea: «Você, aí, Copperfield! Mostre o distintivo, ou então faço queixa!»

O pátio do recreio, terreno vazio, de cascalho, ficava entre as traseiras da casa e as dependências, e eu sabia que os criados liam o cartaz, que o homem do talho e o padeiro também o liam, que todos, em suma, que entravam e saíam, tomavam conhecimento do meu opróbrio e tomavam precauções para não ser mordidos. Cheguei a ter realmente medo de mim, como de um selvagem perigoso.

Havia nesse pátio uma porta velha, na qual os rapazes costumavam gravar o nome. Estava inteiramente coberta de inscrições deste género. No terror de ver chegar o fim das férias e o regresso dos alunos, eu não podia ler o nome de nenhum sem pensar no que imaginariam ao ver o aviso Cuidado com ele, porque morde. Entre eles figurava o de J. Steerforth, gravado tão profunda e tão repetidamente que me convenci de que iria soletrar o cartaz com voz fortíssima e me puxaria pelos cabelos. Encontrei também outro, Tommy Traddles, que me deu a impressão de ser trocista e fingir que a minha pessoa o assustava. E ainda um terceiro, George Demple, que me incutiu a ideia de que entoaria o aviso com acompanhamento musical. Olhava assim, pobre criatura trémula, para todos esses nomes e ouvia já os seus possuidores - eram quarenta e cinco os estudantes matriculados, conforme dissera o senhor Mell - decretarem a minha exclusão, por unanimidade, e gritarem, cada qual a seu modo: Cuidado com ele, porque morde!

O mesmo quanto aos bancos e carteiras. O mesmo quanto à selva de leitos abandonados, que lobriguei furtivamente ao subir para me deitar, e o mesmo quando na cama. Todas as noites sonhava com minha mãe, tal como ela fora, ou que ia de visita a casa do senhor Peggotty, ou que viajava em diligência, ou que tornava a jantar com aquele infeliz criado meu amigo; e em todas estas ocasiões as pessoas gritavam alarmadas ao descobrir que eu não tinha como vestuário senão a camisa de dormir e o nefando cartaz às costas. Insuportável aflição esta, na monotonia da minha vida, sempre com a ideia de que as aulas reabririam! Diariamente me impunha o senhor Mell diversos trabalhos, de que eu me desempenhava menos mal, porque não tinha a presença dos irmãos Murdstones. Antes e depois desses exercícios escolares, passeava sob a vigilância do homem da perna de pau. Quão vívida me resta a lembrança da humidade da casa, das lajes estaladas do pátio, de um velho tonel rombo que aparava a água da chuva, dos troncos descorados de certas árvores sinistras, que pareciam gotejar mais, no Inverno, do que as outras, e florir menos na Primavera! Almoçávamos à uma hora, eu e o senhor Mell, no extremo da comprida sala desguarnecida, que só continha mesas de pinho e que cheirava a ranço. Em seguida voltavam os exercícios escolares, até à hora do chá, quando o professor se servia de uma xícara azul e eu de uma tijela de estanho. Todo o dia (só terminava às sete ou oito da noite), o senhor Mell, sentado à secretária na aula, e munido de papel, livros, pena, tinteiro e régua, fazia as contas (ao que averiguei) do último semestre. Depois de arrumar tudo aquilo, à noite, extraía a flauta da algibeira e soprava nela - e eu a pouco e pouco cria vêlo transformarse em sopro e sumirse pelos buracos do instrumento.

Evocome ainda naquela tenra idade, nesses quartos mal iluminados, com a cabeça apoiada na mão, a escutar a música do senhor Mell e preparando as lições para o dia seguinte. Vejome depois, com os livros fechados e postos de parte, ainda a ouvir as melodias lúgubres do professor; mas, sentindome triste e solitário, o que eu imaginava era a música que se tocava em minha casa ou o vento varrendo os plainos de Yarmouth. Revejome a subir os degraus para me ir deitar e profiro, entre lágrimas, o nome de Peggotty; ou a descer de manhã e a espreitar, por uma fresta comprida da escada, para o sino do colégio, suspenso no topo de um alpendre sobrepujado de catavento, o que me fazia lembrar a hora em que ele soaria para as aulas, convocando J. Steerforth e os outros... Isto, todavia, era o menos comparado com a apreensão que me tolhia ao pensar no momento em que o coxo desferrolharia o portão ferrugento para dar entrada ao temível senhor Creakle. Não posso acreditar que fosse, em nenhum destes aspectos, personagem realmente perigosa; a verdade, porém, é que exibia sempre, nas costas, o cartaz ignominioso.

O senhor Mell não falava muito comigo, mas também não me tratava com rudeza. Julgo que, sem palavras, fazíamos companhia um ao outro. Esquecime de dizer que ele falava às vezes consigo mesmo, rangia os dentes, cerrava os punhos, arrepelava os cabelos de modo incrível, e fazia caretas. E, se de começo me inspirou medo, o certo é que depressa me habituei.