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David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 41. AS TIAS DE DORA
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Finalmente recebi resposta das duas senhoras. Apresentavam cumprimentos ao senhor Copperfield e informavamno de que tinham prestado à carta a atenção merecida «para a felicidade dos dois interessados», o que me pareceu expressão assaz inquietante, não só por causa do uso que dela haviam feito quando do dissentimento familiar de que já falei, como porque observara que tais fórmulas estereotipadas são uma espécie de fogo de artifício, fáceis de lançar e susceptíveis de tomar uma infinidade de formas e de cores impossíveis de prever na origem. As damas Spenlows acrescentavam ser seu desejo não se pronunciarem «em carta» acerca da comunicação que lhes fizera o senhor Copperfield; mas se o senhor Copperfield quisesse darlhes a honra de as visitar em determinado dia (na companhia, se achasse preferível, de um amigo íntimo), com muito gosto discutiriam com ele o assunto.

«O senhor Copperfield» respondeu logo com os seus cumprimentos respeitosos e declarou que teria a honra de comparecer em casa das senhoras Spenlows, na data fixada, acompanhado (em virtude da amável permissão) do seu amigo senhor Thomas Traddles, estudante de Direito. Expedida que foi a missiva, o senhor Copperfield caiu num estado de grande excitação nervosa, que durou até ao citado dia.

Afligiame também a ideia de estar privado, nesse momento decisivo, dos serviços inestimáveis da senhora Mills. O pai dela, que passava o tempo a fazer coisas que me arreliavam, chegou ao cúmulo de projectar uma viagem à índia. Realmente, que tinha ele em vista com esta deliberação senão causarme transtorno? Para falar verdade, o senhor Mills não precisava de ir a parte nenhuma senão à índia, porque aí é que residiam os seus interesses comerciais. Vivera em Calcutá na sua mocidade e resolvera lá voltar, acompanhado de Julia. Por isso iniciou as despedidas à família da província, deixando na casa de Londres letreiros que anunciavam a sua venda ou aluguer. E assim me tornava eu joguete da segunda catástrofe, ainda mal refeito da primeira!

Hesitei muito quanto à escolha do fato para esse dia assinalado, indeciso entre o desejo de parecer o melhor possível e o receio de exibir qualquer coisa que pudesse vir a prejudicarme no espírito das Spenlows. Diligenciei encontrar um meio termo e a minha tia declarouse satisfeita com o resultado. No tocante ao senhor Dick, esse atirou um sapato pela escada abaixo, atrás de mim e de Traddles, para nos dar sorte, velho costume inglês usado em especial nos casamentos.

Por mais simpático que fosse Traddles e por maior amizade que eu lhe consagrasse, não me coibi de lamentar, nessa ocasião delicada, que ele usasse o cabelo tão cortado à escovinha. Isto proporcionavalhe um ar espantado (para não dizer de vasculho de limpachaminés) e eu, no íntimo, augurava a esse propósito qualquer fatalidade. Pelo caminho, ousei comunicarlhe os meus temores, sugerindolhe acamasse um pouco o cabelo.

- Meu caro Copperfield - disse ele tirando o chapéu e passando a mão pela cabeça, em todas as direcções - bem gostaria eu de o fazer. Mas é inútil.

- Não podes achatálo?

- Não. Nada o decidiria, nem que eu transportasse um peso de cinquenta libras até Putney: logo que o retirasse, o cabelo voltaria à posição habitual. Não fazes ideia de quanto é teimoso, Copperfield. Sou um autêntico porcoespinho.

Fiquei um tanto descoroçoado, confesso, embora o seu bom humor me fizesse sorrir. Disselhe quanto apreciava aquela disposição de espírito e observei que os cabelos deviam estar carregados de toda a obstinação da sua natureza, porque no resto não havia quaisquer vestígios.

- Ah - ripostou Traddles - estes cabelos não acabam de me dar aborrecimentos. A mulher de meu tio não os suportava, e bastante me constrangeram quando me apaixonei por Sophy.

- Também lhe desagradavam?

- A ela, não, mas à irmã mais velha, a que é uma beldade. Aliás, todas as outras irmãs se divertem à custa disto. Tornouse objecto de chacota. Contam as raparigas que Sophy tem guardada uma madeixa, mas que precisa de a conservar dentro de um livro para evitar que se erice.

- A propósito, Traddles, a tua experiência pode serme útil. Quando ficaste noivo dessa menina, fizeste um pedido em forma aos pais? Quer dizer, uma diligência no género da que vamos fazer hoje - acrescentei ansioso.

- Oh! - retorquiu o meu amigo, cujo rosto pensativo se ensombrou. - Foi uma coisa deveras penosa para mim. Bem vês, Sophy é tão necessária à família que ninguém admitia a ideia de a poder dispensar. Até haviam decidido que ela jamais se casaria e já lhe chamavam solteirona. Foi por isso que, ao aflorar o assunto, com muitos circunlóquios, diante da senhora Crewler...

- É a mãe?

- E. O pai é o reverendo Horace Crewler. Falei, pois, com toda a circunspecção possível à senhora Crewler, e o resultado foi ela ter soltado um grito e desmaiado. Durante meses não me atrevi a tocar no assunto.

- E, por fim...

- Não fui eu, mas o reverendo Horace. Homem excelente, e exemplar a todos os respeitos. Fezlhe compreender que era

da sua obrigação de cristã aceitar esse sacrifício (afinal tão duvidoso!) e não me querer mal. Quanto a mim, Copperfield, tive a impressão de ser uma ave de rapina introduzida naquela casa.

- As irmãs tomaram o teu partido, naturalmente...

- Não bem assim. Depois de conseguirmos que a senhora Crewler aceitasse a ideia, foi preciso prevenir Sarah. Lembraste de que te falei de Sarah, a que tem uma doença na coluna vertebral?

- Lembrome, sim.

- Pois apertou os punhos - explicou Traddles, com ar consternado - fechou os punhos, empalideceu e ficou hirta. Durante dois dias só comeu pão torrado e bebeu água que lhe davam com uma colherinha.

- Que criatura antipática - exclamei.

- Espera, Copperfield. É uma rapariga encantadora, porém muito sensível. As outras também o são. Sophy, mais tarde, disseme que as palavras não exprimiriam os remorsos que sentiu quando tratou de Sarah. Até me considerei criminoso! Quando Sarah se restabeleceu, tivemos de dar a notícia do futuro casamento às outras irmãs: em todas produziu efeitos penosos, embora diferentes. As duas mais pequenas, cuja educação está a cargo de Sophy, só agora começam a gostar mais de mim.

- Ao menos, conto que, presentemente, se hajam habituado

à ideia.

- Hum... Talvez estejam resignadas. A verdade é que evitamos falar do caso. E a incerteza do dia de amanhã, de mistura com a mediocridade da minha situação, servelhes no fim de contas de consolo. Haverá uma cena das piores no dia em que nos casarmos! Vai parecer mais um enterro do que um casamento. Com que ódio verão levar a irmã do lar!

A modéstia do seu rosto, enquanto ele me considerava, meneando a cabeça com ar meio sério meio cómico, impressioname mais agora do que me impressionou então, porque nessa altura a minha ansiedade não me deixava fixar a atenção fosse no que fosse. Ao aproximarmonos da residência das irmãs Spenlows, eu tinha um aspecto tão lastimável que Traddles propôs um estimulante sob a forma prosaica de cerveja. Tomeia num café da vizinhança e ele encaminhoume, vacilante, até à porta das duas solteironas.

Quando a criada veio abrir, tive a impressão vaga de ser, por assim dizer, inspeccionado; depois, a de atravessar, cambaleando, o vestíbulo, em que havia um barómetro, para entrar enfim numa saleta muito asseada do résdochão, que dava para um jardim bem tratadinho. Senteime no sofá e vi o cabelo de Traddles eriçarse, agora que ele tirara o chapéu, como aqueles diabinhos das caixas de molas quando se ergue a tampa. Ouvi o tiquetaque de um relógio na prateleira do fogão e tentei acertar com esse ritmo as pulsações desordenadas do coração. Procurei em volta um sinal da presença de Dora, sem o encontrar. Julguei mesmo ter sentido ao longe

um latido do Jip, logo refreado por alguém, E acabei dando por mim a repelir Traddles para um canto, no momento em que eu saudava cheio de embaraço as duas senhoras secas e idosas, vestidas de preto e ambas semelhantes a um esboço encolhido e crestado do defunto doutor Spenlow.

- Faça favor de se sentar - disse uma delas.

Quando, havendo tropeçado sobre Traddles, pude sentarme sobre outra coisa que não o gato (à primeira tentativa quase esborrachei o felino), consegui a visão suficiente para verificar que o doutor Spenlow devia ter sido o mais novo da família e que haveria uma diferença de seis a oito anos entre as duas irmãs. A menos velha pareceume encarregada de orientar a conversa, pois exibia uma carta (tão familiar e todavia tão estranha aos meus olhos) e consultavaa através da luneta de cabo. Trajavam da mesma maneira, mas esta usava o vestido mais juvenilmente que a outra e ornavao de uma gola suplementar, ou broche ou qualquer penduricalho que a tornava mais airosa. Conservavamse direitas, rígidas, cerimoniosas, dignas e calmas. A que não segurava a minha carta tinha cruzado os braços no peito, um sobre o outro, como um ídolo.

- É o senhor Copperfield, creio eu - disse a que estava munida da epístola, voltandose para Traddles.

Mau começo. Traddles precisou declarar que o Copperfield era eu, e eu tive de confirmar a asserção, e elas viramse obrigadas a rejeitar a opinião preconcebida de que Traddles era Copperfield. Em suma, estávamos todos altamente embaraçados.

Para compor as coisas, soou distintamente o latir de Jip, por duas vezes, antes que fosse de novo sufocado.

- Senhor Copperfield... - recomeçou a da carta.

Fiz não sei quê (provavelmente um cumprimento) e torneime todo ouvidos. Mas a outra irmã interveio:

- Lavinia, que é mais versada nesta matéria, vai dizerlhe o que se nos afigura susceptível de conduzir o assunto da melhor forma para o bem dos dois interessados.

Percebi a pouco e pouco que Lavinia se tornara autoridade em coisas de coração, devido à existência pretérita de um tal senhor Pidger, que jogava ao whist e que se pressupunha ter sido seu namorado. A minha opinião pessoal é de que se trata de uma suposição gratuita e que Pidger estava de todo inocente de haver mostrado semelhantes pretensões. Contudo, Lavinia e Clarisse haviamse convencido de que o homem declararia o seu amor se não tivesse sido arrebatado em plena mocidade (cerca dos sessenta anos) por um pernicioso excesso de bebidas seguido, à laia de remédio, da absorção não menos excessiva de água de Bath. Chegaram a imaginar que o homem morrera de paixão solapada, embora na casa houvesse um retrato de Pidger que o representava de nariz rubicundo, o que não parecia favorável à persistência dessa hipótese romântica.

- Não insistiremos - disse Lavinia - sobre esta história passada. A morte do nosso pobre irmão Francis pôslhe ponto final.

- Nós não mantínhamos relações frequentes com o nosso irmão Francis - interveio Clarissa. - Mas não havia verdadeiro desacordo nem desunião entre nós. Francis seguia o seu caminho e nós o nosso. Acháramos que era preferível para o bemestar de todos os interessados. E assim se fez.

Cada uma delas inclinavase um pouco para a frente, quando falava, sacudia a cabeça ao terminar, e endireitavase depois. Clarissa nunca movia os braços; às vezes dava pancadinhas nos cotovelos, com a ponta dos dedos, como se marcasse o compasso de um minuete ou de uma marcha, porém os braços, esses nunca mexiam.

- A posição da nossa sobrinha modificouse com a morte do pai - disse Lavinia - e é como se a opinião dele tivesse mudado também. Não temos qualquer motivo, senhor Copperfield, para duvidar das suas qualidades e honradez, nem da afeição que sente (ou que julga sinceramente sentir) pela nossa sobrinha.

Respondi, como fazia sempre que tinha oportunidade, que ninguém jamais amara como eu amava Dora. Traddles confirmou com um murmúrio aprovador.

Lavinia preparavase para replicar, quando Clarissa, que parecia obcecada pela tentação de falar do irmão Francis, interveio outra vez:

- Se a mãe de Dora houvesse dito, logo após o casamento, que não havia lugar à sua mesa para toda a família, isso teria sido melhor para todos os interessados.

- Mana Clarissa - objectou Lavinia - talvez seja supérfluo recordar agora essas coisas.

- Mana Lavinia, isto faz parte do assunto. Se se tratasse de matéria que só tu estás qualificada para resolver, eu não me atreveria a intervir. Mas a este respeito tenho a minha opinião e achome no direito de a expor. Mais valera para a felicidade de todos os interessados que a mãe de Dora houvesse dito claramente, ao casar com o nosso irmão Francis, quais eram as suas intenções. Saberíamos então em que regime vivíamos. Terlheíamos pedido que nunca nos convidasse e assim se evitaria qualquer risco de malentendido.

Depois de Clarissa menear a cabeça, Lavinia prosseguiu, lançando previamente um olhar à minha carta através da luneta de cabo. Notei que ambas tinham olhinhos redondos, brilhantes e piscos como os dos pássaros. Aliás, possuíam mais de uma semelhança com os indivíduos emplumados: um ar vivo, desperto, ágil, e um modo ao mesmo tempo brusco e garrido de alisar as penas, que fazia pensar nos canários.

Lavinia encetou o tema da minha visita à sua casa:

- O senhor pediunos licença, a mim e à minha irmã,

senhor Copperfield, para vir cá como pretendente oficial à mão da nossa sobrinha.

- Se o nosso irmão Francis - acudiu Clarissa, com ar pacífico - desejasse viver no mundo da magistratura, e só aí, nós não estaríamos no direito nem desejávamos contrariálo. Sempre evitámos impornos fosse a quem fosse. Mas por que não dizêlo francamente? Que o nosso irmão e a mulher tivessem os seus amigos! E eu e minha irmã os nossos! Não haveria necessidade de mais ninguém.

Como isto parecesse endereçado a mim e a Traddles, mastigámos ambos uma resposta. A de Traddles foi ininteligível. Quanto a mim, observei, suponho, que era tudo para honra dos interessados. Bem gostaria de saber o que é que eu entendia por aquilo!

- Mana - disse Clarissa, que já desabafara suficientemente - podes continuar.

Lavinia, pois continuou:

- Senhor Copperfield, eu e minha irmã Clarissa examinámos atentamente a sua carta e não nos esquivámos a mostrála à nossa sobrinha e a discutila com ela. Estamos persuadidas de que a estimamos muito.

- Oh, se creio! - principiei, cheio de fervor. - Oh!

Mas Clarissa lançoume um olhar perscrutante, como o de um canário, destinado a pedirme que não interrompesse o oráculo, e eu desculpeime.

- A afeição - continuou Lavinia, procurando com a vista a aquiescência que a irmã lhe dispensava sob forma de pequenos sinais de cabeça, no final de cada frase - a afeição amadurecida, feita de respeito e dedicação, não se exprime com facilidade. A voz dela é baixa, discreta, reservada: escondese e espera. Eis como é o fruto realmente maduro. Às vezes a vida passa, enquanto o fruto continua a amadurecer na sombra.

Naturalmente que não percebi logo tratarse de uma alusão aos sentimentos imaginários do pobre Pidger. Mas, pela gravidade com que Clarissa movia a cabeça, adivinhei que ligavam grande importância àquelas palavras. Lavinia prosseguiu:

- As inclinações passageiras das pessoas muito novas são apenas pó em comparação com outros sentimentos que se assemelham a rochedos. Não será fácil saberse se duram nem se o seu fundamento é sólido, e eu e minha irmã ficámos na verdade indecisas. O senhor Copperfield, e o senhor...

- Traddles - disse o meu amigo, vendo que esperavam declinasse o nome.

Nesse momento, embora ainda não me tivessem dado nenhum incitamento concreto, julguei discernir nas duas velhotas, em especial Lavinia, um prazer muito vivo nesse assunto cheio de novidade e fértil em sentimentalismo; deviam, calculei, prepararse para o avolumar e extrair dele o maior partido possível, o que me fez luzir nos olhos um brilhante clarão

de esperança. Compreendi que Lavinia experimentaria imensa satisfação em vigiar dois namorados e em tomar parte na conversa deles, no seu departamento particular, quando se sentisse impelida para tanto. Isto deume coragem para repetir com veemência que amava Dora mais do que o poderia dizer e do que o poderiam acreditar; que todos os meus amigos sabiam a intensidade do meu amor; que a minha tia, e Agnes, e Traddles eram testemunhas do facto e de quanto esse amor estava amadurecido. Recorri a Traddles, e Traddles, animandose como se fosse intervir num debate parlamentar, confirmou admiravelmente os meus protestos, sem ambiguidade, e com uma franqueza imbuída de bom senso, o que, sem dúvida, causou a melhor impressão.

- Falo, se me permitem, por experiência - explicou ele - porque estou noivo de uma menina de Devonshire, de uma família de dez irmãos, e porque não vemos, por enquanto, qualquer possibilidade de nos casarmos.

- Então pode corroborar o que acabo de dizer, senhor Traddles - observou Lavinia com um interesse crescente - quanto à afeição discreta e reservada, que sabe esperar...

- Absolutamente, minha senhora!

Clarissa olhou para Lavinia e moveu gravemente a cabeça. E Lavinia olhou para Clarissa com ar de circunstância, soltando um suspiro breve.

- Mana, tome dos meus sais - recomendou Clarissa. Lavinia recompôsse mercê de algumas aspirações de vinagre

aromático, ao passo que eu e Traddles a envolvíamos num olhar repleto de solicitude. Ela então continuou, com voz sufocada: - Eu e minha irmã hesitámos muito, senhor Traddles, quanto à atitude que deveríamos adoptar relativamente aos sentimentos, reais ou imaginários, de dois entes tão novos como o seu amigo senhor Copperfield e a nossa sobrinha.

- A filha do nosso irmão Francis - esclareceu Clarissa. - Se a mulher do nosso irmão se dignasse, durante a sua vida (embora fosse livre para agir à sua vontade), convidar a família para a sua mesa, nós conheceríamos melhor a filha do nosso irmão, neste momento. Continua, mana.

Lavinia virou a carta para a página da assinatura e examinou com a ajuda da luneta de cabo os apontamentos de letra miúda que aí escrevera.

- Acho prudente, senhor Traddles, submeter esses sentimentos à nossa observação pessoal. Neste instante nada sabemos quanto a eles nem estamos aptas para julgar da profundidade que possam ter. Por isso tencionamos permitir as visitas do senhor Copperfield a fim de avaliar as intenções do seu pedido.

- Minhas senhoras - exclamei aliviado de um peso enorme - jamais esquecerei a sua bondade!

- Mas - acrescentou Lavinia - preferimos considerar, por enquanto, que essas visitas nos sejam feitas e não à nossa sobrinha. Temos de evitar o reconhecimento prematuro de qualquer compromisso oficial entre o senhor Copperfield e Dora, antes de termos oportunidade de...

- Antes de teres oportunidade, Lavinia - corrigiu Clarissa.

- Pois seja - concordou esta, suspirando. - Antes que eu tenha oportunidade de os observar.

- Copperfield - disseme Traddles, voltandose para mim - hásde reconhecer que não pode existir nada de mais razoável...

- Certamente! - acudi eu. - Tenho plena consciência de que assim é.

- Posto isto - prosseguiu Lavinia, consultando outra vez os seus apontamentos - e admitidas as visitas apenas nessa base, devemos rogar ao senhor Copperfield que nos dê a sua palavra de honra que não procurará ter, às ocultas, qualquer comunicação com Dora nem combinará nada com ela sem nolo comunicar previamente.

- Sem te comunicar previamente, mana - emendou Clarissa.

- Pois seja - respondeu Lavinia em tom resignado. - Insistiremos neste ponto, que é primordial. Desejámos que o senhor Copperfield viesse acompanhado de um amigo íntimo - fez um movimento de cabeça na direcção de Traddles, que se inclinou - a fim de que não houvesse dúvidas ou malentendidos acerca deste assunto. Se o senhor Copperfield ou se o senhor Traddles achar que precisa de tempo para reflectir, eu não me oponho.

Redargui, arrebatado de entusiasmo, que não precisava nem de um minuto de reflexão. Fiz a promessa requerida com solenidade e ardor. Pedi o testemunho de Traddles e declarei que seria o mais louco dos homens se algum dia faltasse à palavra dada.

- Espere - disse Lavinia, erguendo a mão - nós tínhamos decidido, antes de havermos o gosto de os receber aqui a ambos, que os deixaríamos sós um quarto de hora para meditação. Dêemnos licença que nos retiremos por esse prazo.

Foi em vão que repeti a desnecessidade de qualquer reflexão. Elas insistiram em sair da sala durante o tempo fixado. E assim aquelas duas criaturas se afastaram com toda a dignidade, abandonandome às felicitações de Traddles e à minha impressão de ser transportado para alguma região de suprema ventura. Exactamente à expiração dos quinze minutos, as Spenlows reapareceram com a mesma dignidade: tinham saído sussurrando as saias como se fossem feitas de folhas secas, e do mesmo modo regressaram.

Comprometime mais uma vez a observar as condições impostas.

- Mana - disse Lavinia - o resto é contigo.

Então Clarissa, descruzando os braços pela primeira vez, pegou nos apontamentos e percorreuos com a vista.

- Teremos muito prazer - declarou - em receber todos os domingos, para jantar, o senhor Copperfield, se for do seu agrado. Jantamos às três horas.

Baixei a cabeça.

- Durante a semana teremos muito gosto em oferecer chá ao senhor Copperfield. Tomamolo às seis e meia.

Inclineime de novo.

- Será duas vezes por semana, não mais, como regra geral. Curveime imediatamente.

- A senhora Trotwood, de que o senhor Copperfield nos fala na sua carta, farnosá uma visita. Quando as visitas concorrem para o bem de todos os interessados, consideramonos felizes em as receber. Mas quando mais vale para o bem de todos os interessados que não se faça nenhuma visita (como no caso do nosso irmão Francis e da mulher), a coisa muda de figura.

Dei a entender que a minha tia se consideraria muito honrada em travar conhecimento com as senhoras Spenlows, embora no íntimo não tivesse a certeza de que se compreendessem por aí além. Combinado que foi tudo isto, agradecilhes calorosamente, pegando em primeiro lugar a mão de Clarissa e depois a de Lavinia, as quais levei sucessivamente aos lábios.

Lavinia pôsse então de pé e, pedindo a Traddles que nos desculpasse por um minuto, convidoume a acompanhála. Seguia, trémulo, a outro quarto, onde encontrei a minha querida Dora tapando as orelhas, atrás da porta, de cara voltada para a parede, e Jip encerrado numa alcofa, com a cabeça envolta num pano.

Que linda estava no seu vestido preto, e como ela chorou, como soluçou, sem querer, a princípio, sair de trás da porta! Como me regozijei quando ela consentiu, finalmente, em se aproximar de mim, e em que felicidade me senti mergulhado quando retirámos Jip da alcofa para o restituir, espirrando, à luz do dia, e nos vimos de novo todos três reunidos!

- Querida Dora! Enfim, agora és minha para sempre!

- Oh, n-ão, por favor! - suplicou Dora.

- Não és minha para sempre?

- Com certeza - replicou. - Mas tenho tanto medo!

- Medo, meu amor?

- Sim, sim. Não é a ele que eu amo. Por que não se vai embora?

- Quem?

- O teu amigo. Nada disto lhe diz respeito. Deve ser muito estúpido!

- Meu amor! - Nunca vira nada tão encantador como a sua puerilidade. - É o melhor dos homens!

- Não temos necessidade dos melhores dos homens - retorquiu Dora, amuada.

- Queridíssima - objectei - em breve o conhecerás e hásde gostar muito dele. E a minha tia virá igualmente e tu gostarás também dela, quando a conheceres.

- Não, peçote, não ma tragas - ordenoume Dora, dandome um beijo apressado e unindo as mãos em súplica. - Estou convencida de que é uma velha má. Não a deixes vir, Doady.

Este nome era uma corruptela de David.

De nada me serviu entrar em explicações. Por isso ri, fui amável e considereime feliz. Dora mostroume a nova habilidade de Jip, que aprendera a estar nas patas traseiras, a um canto, durante uns segundos. Não sei quanto tempo eu seria capaz de ficar naquele quarto, esquecido do Traddles, se Lavinia não tivesse vindo buscarme. Esta tia estimava muito a sobrinha - contoume que Dora era o seu vivo retrato, na mesma idade; a velha devia ter mudado bastante! - e tratavaa como a uma criancinha. Tentei decidir Dora a ir cumprimentar Traddles, mas, quando lhe falei nisso, ela fugiu para o seu quarto e lá se fechou. De maneira que fui reencontrar Traddles sem a levar comigo e daí a pouco saí com ele. Julgavame pairando nas nuvens.

- Decorreu tudo o melhor possível - disse Traddles - e as Spenlows são duas velhotas simpaticissimas. Não me admiraria se te visse casado muito antes de mim, Copperfield.

- A tua Sophy toca algum instrumento, Traddles? - pergunteilhe envaidecido.

- Conhece suficientemente piano para ensinar às irmãs mais novas.

- E canta?

- Canta baladas, às vezes, para animar os outros, quando estão desmoralizados. Mas nada de perfeito.

- E canta acompanhandose à viola?

- Isso não!

- Pinta?

- Também não.

Prometi a Traddles que ele ouviria Dora cantar e que veria flores pintadas por ela. Respondeume que gostaria muito e voltámos para casa contentíssimos, de braço dado. De caminho inciteio a falarme de Sophy. Reveloume quanta confiança lhe inspirava a rapariga e eu admireia de antemão. Em espírito, compareia a Dora, mas reconheci que para Traddles é que ela estaria a matar.

Naturalmente que participei logo à tia Betsey o desfecho feliz da entrevista e tudo quanto se tinha dito e feito durante esses momentos. Ficou satisfeita por me ver tão entusiasmado e disseme que iria visitar as senhoras Spenlows o mais cedo possível. Passeou tanto cá e lá no quarto, nessa noite,

enquanto eu escrevia a Agnes, que eu pensei se ela continuaria assim até ao dia seguinte. A minha carta a Agnes era cheia de ardor e de gratidão. Conteilhe as venturosas consequências dos seus conselhos sábios, e Agnes, pela volta do correio, repetiume as suas esperanças, num tom meio sério meio jovial.

Estive daí por diante mais ocupado do que nunca. Considerando as minhas idas diárias a Highgate, Putney somava uma distância razoável; eu, porém, fazia gala em lá ir tantas vezes quantas pudesse. Ao chá não me era fácil comparecer, mas obtive de Lavinia Spenlow licença para me apresentar aos sábados de tarde, sem prejuízo dos jantares dominicais. Deste modo os fins de semana se tornaram para mim um manancial de delícias, em cuja expectativa passava todo o resto do tempo.

Para meu imenso alívio, o encontro entre a minha tia e as tias de Dora produziu menos atritos do que seria de esperar. A tia fez a visita prometida uns dias depois, e, decorridos outros dias, as senhoras Spenlows retribuíramna com grande aparato. Em seguida foramse trocando atenções deste género, e com maior cordialidade, quase todos os meses. A tia Betsey escandalizou um pouco as tias de Dora com o seu desprezo das carruagens e da distinção que elas conferem, pois aparecia em Putney a pé, e a horas inconvenientes, como logo após o almoço e imediatamente antes do chá. Deploraram igualmente a sua indiferença quanto à forma de pôr o chapéu, sem se preocupar com as exigências da moda. Mas não tardaram a considerála como pessoa excêntrica e um tanto masculina, sem deixar de lhe reconhecer inteligência pouco vulgar. De vez em quando as duas Spenlows arrepiavamse ao ver que a minha tia professava opiniões heréticas em matéria de etiqueta; contudo Betsey Trotwood estimavame o bastante para sacrificar uma ou outra das suas extravagâncias e manter destarte a boa harmonia geral.

O único do nosso grupo que se recusou a adaptarse às circunstâncias foi Jip. Perante a minha tia arreganhava sempre os dentes, metiase debaixo de uma cadeira e só deixava de rosnar para emitir de tempos a tempos um uivo aflitivo. Experimentaram todos os processos para o vencer, desde os castigos às lambarices, desde os ralhos às visitas à Buckingham Street (onde se precipitou logo atrás de dois gatos, com grande terror dos assistentes); nada conseguiu persuadilo a tolerar a presença da senhora Trotwood. Às vezes parecia ter dominado a sua aversão mostrandose amável por momentos; mas em seguida, erguendo o focinho achatado, uivava tão forte que era preciso vendarlhe os olhos e escondêlo na alcofa. Dora, quando lhe anunciavam a minha tia, envolviao já numa toalha e punhao no esconderijo.

Entretanto, quando este pacífico teor de vida se transformou em rotina, atormenteime um tanto por ver que tratavam Dora como um brinquedo, uma linda bonequinha. A tia Betsey,

com quem ela acabou por se dar muito bem, chamavalhe sempre «Florinha»; e Lavinia não tinha maior gosto na vida do que servila, frisála, mimála de todas as maneiras. E o que Lavinia fazia a irmã achavase na obrigação de imitar. A coisa afiguravaseme deveras estranha: guardadas as proporções, faziam a Dora o que Dora por seu turno fazia ao Jip.

Resolvime a chamar para isto a atenção da própria rapariga. Certo dia em que passeávamos juntos (pois, ao fim de algum tempo, Lavinia autorizounos a andar sós), disselhe quanto gostaria que ela as convencesse a tratála de modo diverso.

- Porque - expliquei - bem sabes que já não és criança.

- Olá! Vais outra vez zangarte?

- Eu, meu amor, zangarme?

- Acho que são amáveis comigo e isso dáme prazer.

- Tanto melhor, Dora. Mas o prazer seria outro se procedessem contigo de forma mais sensata.

Dora lançoume um olhar de censura (um lindo olhar!) e começou soluçando. Se a não amava, alegou, por que motivo queria desposála? E por que não a deixava já, se a não podia suportar?

Que havia eu de fazer senão secarlhe as lágrimas com beijos e dizerlhe que a adorava?

- Tenho a certeza de que te amo bastante, Doady! Não devias ser tão cruel para mim.

- Cruel, meu amor? Como poderia, como teria alma de ser cruel contigo? Nem que me dessem um império!

- Então não me repreendas - volveu Dora, pondo a boquinha em forma de botão de rosa. - E eu serei boazinha.

Fiquei encantado, daí a pouco, ao ouvila pedirme espontaneamente que lhe desse o tal livro de cozinha de que falara um dia e que a ensinasse a fazer contas, como lhe prometera. Na visita seguinte leveilhe o livro (mandarao encadernar de forma a substituirlhe o ar severo por um aspecto mais garrido) e, enquanto divagávamos no passeio, mostreilhe o velho caderno de despesas da tia Betsey; e oferecilhe um, novo, e uma lapiseira com recarga, para ela se exercitar na sua contabilidade.

Mas o manual de culinária provocoulhe dores de cabeça, e os algarismos fizeramna chorar. Recusavamse às adições, declaroume. E, em vez de contas, desenhou raminhos de flores ou esboços do Jip e da minha pessoa naquelas folhas ainda em branco.

Procurei depois, brincando, instruíla em assuntos domésticos, sempre durante as nossas deambulações dos sábados à tarde. Por exemplo, ao passar defronte de um talho, observeilhe:

- Suponhamos, minha querida, que estamos casados e que tu vais comprar uma costeleta de carneiro para o jantar. Serias capaz de a escolher?

O belo rosto da minha Dora ensombrouse e a boca formou botão de rosa, como se desejasse fechar a minha com um beijo.

- Serias capaz de a comprar? - insisti, disposto a ser inflexível.

Dora meditou um minuto e depois respondeu triunfante qualquer coisa neste teor:

- Ora, o cortador sabe o que vende, que necessidade tenho

eu de saber comprar? Não sejas pateta!

O mesmo aconteceu no dia em que, pensando no livro de cozinha, perguntei a Dora que faria ela se estivéssemos casados e eu lhe dissesse que gostava de carne guisada. Replicoume:

- Recomendaria à cozinheira que a preparasse.

E isto foi acompanhado de uma gargalhada estrepitosa.

Assim o volume de culinária passou a servir ao Jip, que se punha em cima dele para exibir a sua última habilidade. Todavia não me arrependi de lho ter comprado, porque Dora ficava satisfeitíssima ao ver o animal naquela posição, e até lhe metia na boca, para a equilibrar, a lapiseira que eu também lhe oferecera.

Regressámos, pois, à viola, à pintura e às canções e vivemos felizes semanas inteiras. Às vezes apeteciame fazer compreender a Lavinia que tratava a sobrinha um pouco como uma boneca; outras, porém, surpreendiame a fazer coro com os demais e a tratála, por meu turno, como o brinquedo que eu não queria que ela fosse. Mas isto era mais raro.