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David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 39. WICKFIELD & HEEP
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A tia Betsey, já seriamente inquieta com o meu prolongado abatimento, achou o pretexto de me enviar a Dover para verificar se tudo corria bem na vivenda alugada e para assinar com o locatário um arrendamento a mais largo prazo. Janet entrara para o serviço da senhora Strong, e aí eu a encontrava todos os dias. Ao deixar Dover, ela pensara se deveria dar um golpe de misericórdia nessa renúncia aos homens em que fora educada, casando com um piloto. Mas não se atrevera a correr o risco: não tanto pelo princípio (suponho), porém mais exactamente pela razão de que o não amava.

Se bem me custasse separarme da senhora Mills, acedi de boa vontade à ideia da tia Betsey para ter oportunidade de passar umas horas tranquilas junto de Agnes. Perguntei ao doutor Strong se me concedia dispensa de três dias; ele até quis que eu lá ficasse por mais tempo, mas a minha energia não chegava para tanto. Enfim, resolvime a partir. Quanto ao estágio de solicitador, não tinha de me preocupar. Para ser franco, perdíamos prestígio entre os solicitadores de primeiro plano e a nova posição tornavase duvidosa. A coisa não prosperara no tempo do doutor Jorkins, antes da sua sociedade com o doutor Spenlow; e, se bem que a entrada deste lhe insuflasse novo vigor, ainda a nossa posição não tomara o incremento que seria mister para resistir ao golpe desferido nela pela perda de um dos seus chefes. Rapidamente declinou. O doutor Jorkins, apesar da reputação da sua banca forense, era um desses homens negligentes, incapazes de manterem o bom nome da firma. Era agora com ele que eu devia lidar, e, quando o via tomar rapé e deixar os negócios ao deusdará, lastimava cada vez mais o mau emprego das mil libras da minha tia.

Mas havia pior. Existiam então nos Doctor's Commons inúmeros parasitas, que sem serem procuradores se encarregavam de casos de direito civil em nome de outros que o eram, dividindo depois os lucros. Como o nosso escritório tinha necessidade de se ocupar de processos a todo o custo, associámonos àquela seita e tentámos convencer os ditos parasitas a nos confiarem os seus casos. Disputávamos todas as licenças de casamento e qualquer homologação testamentária. Isto constituía a parte mais proveitosa e a competição era grande. Angariadores e aliciadores colocavamse às portas do tribunal, com ordem de fazer o possível para pescar todas as pessoas de luto e toda a gente de aspecto tímido e as encaminhar para os cartórios dos respectivos patrões. E estas instruções eram tão cumpridas que eu próprio, antes de ser conhecido no local,

fui por duas vezes arrastado ao cartório do nosso principal competidor. Os conflitos de interesses de tais indivíduos tornavamnos irritáveis, donde se originavam conflitos. E o tribunal, durante vários dias, apresentou o espectáculo escandaloso do nosso angariador deambulando com um olho negro! Nenhum desses cavalheiros hesitava em ajudar a sair da carruagem uma dama de preto, a anunciarlhe a morte do solicitador que ela procurava « a indicarlhe o seu patrão como o sucessor legitimo do defunto, arrastando a criatura (por vezes alarmada) para o escritório do referido patrão. Muitos foram os cativos que nos trouxeram desta maneira. Quanto às licenças de casamento, a rivalidade era tamanha que um pobre rapaz, se fosse tímido, ou devia entregarse ao primeiro engajador que lhe aparecesse ou ser joguete duma luta e tornarse vítima do mais forte. Um dos nossos empregados, que pertencia ao número desses parasitas, entrava no mais aceso da refrega para arrancar um desgraçado e o obrigar a apresentarse à nossa frente. Este sistema ainda dura, ao que suponho, pois, a última vez que lá fui, um mancebo robusto, emboscado num corredor, saltou sobre mim e segredoume: «Quer uma licença?» E foi com dificuldade que o persuadi a me largar o braço e a não me conduzir ao seu solicitador.

Mas deixemos esta digressão e partamos para Dover. Achei a casa em excelente estado. Tive o prazer de comunicar à minha tia, no regresso, que o inquilino lhe sucedera nas querelas e tratava com os jumentos uma guerra perpétua. Depois de haver regularizado o assunto que ali me levara e dormido lá uma noite, parti a pé para Cantuária, no dia seguinte de manhã. Voltara o Inverno e, à brisa que soprava, perante o horizonte imenso dos médãos, senti as minhas esperanças reanimaremse um pouco.

Ao chegar a Cantuária, divaguei uns momentos pelas ruas velhas, com uma alegria discreta que me acalmou a imaginação e aliviou a alma. Reencontrei antigas tabuletas, antigos nomes na fachada das lojas, as mesmas caras atrás dos balcões. Os meus anos de colégio pareciamme tão recuados que me admirei de ver a cidade tão pouco mudada, até ao instante em que reflecti quão pouco eu mesmo mudara. Coisa singular, esta paz que o meu espírito associava sempre à presença de Agnes dirseia impregnar a própria terra que ela habitava. Nas torres venerandas da catedral, que os gritos das gralhas tornavam ainda mais recolhidas do que se o silêncio as povoasse; nos portais desfeitos, outrora ornados de estátuas (que o tempo derrubara ou desfizera em pó, como aos peregrinos que as vinham admirar); nos cantos tranquilos em que a hera secular subia pelas paredes, cobrindolhes as ruínas; nas casas de outrora, no cenário pastoril dos campos, dos pomares e jardins, por toda a parte, enfim, eu senti pairar a mesma serenidade, o mesmo sopro calmo, pensativo, apaziguador.

Ao entrar na residência do doutor Wickfield, encontrei na saleta baixa do résdochão o senhor Micawber a escrever com ar muito aplicado. Estava com um fato preto de aparência jurisdicional e enchia com a sua corpulência o compartimento exíguo.

Ficou satisfeitíssimo por me ver, mas ao mesmo tempo um tanto vexado. Desejou acompanharme logo à presença de Uriah; eu declinei a oferta.

- Conheço a casa há muito, como sabe - respondi - e sei orientarme sozinho. Que impressão tem do Direito, senhor Micawber?

- Meu caro Copperfield, para uma pessoa dotada de imaginação superior, o inconveniente dos estudos jurídicos está na quantidade de minúcias que implicam. Até na nossa correspondência profissional - acrescentou relanceando as cartas que redigia - ao espírito escasseia liberdade de se elevar às formas mais altas da expressão. Contudo é uma bela carreira, uma belíssima carreira!

Disseme em seguida que ia alugar a antiga casa de Uriah Heep, e que a mulher se regozijaria muito de me receber mais uma vez sob o seu tecto.

- Tecto humilde - sublinhou - para usar uma expressão predilecta do meu amigo Heep. Mas pode tornarse um degrau para residência mais sumptuosa.

Pergunteilhe se se sentia contente com a maneira como o tratava o seu amigo Heep. Levantouse, para se certificar de que a porta estava bem fechada, e replicou baixando a voz:

- Copperfield, meu caro, uma pessoa que se debate no meio de embaraços pecuniários vêse num pé de inferioridade em relação à maior parte dos mortais. E essa inferioridade decerto não se atenua quando a pressão das circunstâncias acarreta um adiantamento sobre os salários, antes que os emolumentos sejam estritamente devidos e pagos. Tudo o que posso observarlhe é que o meu amigo correspondeu a apelos de que não necessito de precisar a natureza, fazendo igualmente honra à sua inteligência e ao seu coração.

- Não o julgava, a ele, tão liberal em matéria de dinheiro...

- Desculpe, mas falo do meu amigo Heep segundo a minha própria experiência.

- Rejubilo com o facto de essa experiência lhe ser favorável.

- Você é muito amável, meu caro Copperfield - concluiu ele, trauteando.

- Encontrase muitas vezes com o doutor Wickfield? - inquiri, para mudar de assunto.

- Não muitas - volveu com ar desdenhoso. - O doutor Wickfield é, não duvido, um homem cheio de óptimas intenções, mas... em suma, envelheceu.

- Oxalá não tenha sido obra do seu associado.

- Meu caro Copperfield - recomeçou Micawber, após umas evoluções no tamborete, para disfarçar o constrangimento

- permita um comentário. Ocupo aqui um lugar de confiança. Contam com a minha discrição. Discussões sobre certos assuntos, mesmo com a minha mulher (que é no entanto companheira de tantos anos de vicissitudes e, além disso, pessoa de espírito notavelmente sagaz), discussões destas, repito, são incompatíveis, em meu parecer, com as funções que desempenho. Atrevome, pois, a propor que, nas nossas relações tão amigáveis (as quais espero se mantenham), nós tracemos uma linha de demarcação. De um lado dessa linha - que Micawber representou na secretária servindose de uma régua - haverá todo o campo das preocupações humanas, com uma única excepção, e do outro, essa única excepção, isto é, os negócios dos senhores Wickfield e Heep, com todas as suas limitações. Espero não ofender o companheiro da minha mocidade submetendo esta proposta à imparcialidade do seu julgamento.

Ainda que adivinhasse em Micawber certo malestar (pois as novas funções pareciam constrangêlo como um fato muito apertado), achei que não tinha razão para me considerar ofendido. Ele mostrouse aliviado e apertou a minha mão.

- Que admiração eu sinto - disse Micawber - perante a senhora Wickfield! É mulher superior, cheia de encantos, de graças, de virtudes. Palavra de honra que me alegra prestarlhe esta homenagem.

- Aí está, ao menos, uma coisa que me dará prazer.

- Se você, caro Copperfield, não nos tivesse afirmado, quando passámos aquele delicioso serão em sua casa, que tinha preferência pela letra D., eu julgaria que era pela letra A.

Acontecenos termos às vezes a impressão de que o que estamos a fazer ou a dizer já foi por nós feito e dito noutra ocasião, que nos rodeavam nessa altura as mesmas caras e as mesmas circunstâncias; que sabemos com antecedência o que vai ser dito, como se tivéssemos uma recordação súbita do momento passado. Eu nunca experimentei aquela sensação misteriosa com tanta força como naquele instante em que falou o senhor Micawber.

Despedime dele por então, encarregandoo das minhas lembranças para todos os seus. No minuto em que o vi retomar o tamborete e a pena e ajeitar o pescoço no colarinho, como para dar à cabeça a verdadeira posição do escriba, compreendi perfeitamente que havia entre nós, desde que ele entrara nas suas novas funções, algo que nos impedia o entendimento de outrora e mudava por completo o carácter das nossas relações.

Não estava ninguém na velha sala, embora aí se notassem vestígios da passagem recente da senhora Heep. Relanceei o compartimento que Agnes reservara para si e enxergueia sentada ao canto do lume, ocupada a escrever diante de uma linda secretariazinha, propriedade sua. Como eu a privasse da luz, ela ergueu a vista. Que felicidade ter sido a causa da expressão radiante que lhe apareceu no rosto e de um acolhimento tão afável!

- Agnes - disselhe após nos havermos sentado lado a lado - você fezme tanta falta nos últimos tempos!

- Palavra? Outra vez? E já? Movi a cabeça afirmativamente.

- Não sei como isto é - continuei. - Julgo que me escasseia uma faculdade. Você habituarase a pensar por mim e eu vinha tão naturalmente buscar conselhos junto de si que me privei de certa faculdade...

- Qual? - perguntou em tom festivo.

- Não sei que nome lhe dê. Acha que possuo seriedade e perseverança?

- Tenho a certeza - replicou Agnes.

- E paciência? - insisti hesitante.

- A suficiente, Trotwood.

- Contudo, sucedeme ser tão infeliz e estar tão inquieto! Tudo instável e tão indeciso! Quando quero ser firme... não encontro a necessária confiança.

- Prefiro esse nome a outro.

- Pois bem, veja: você chega a Londres, eu recupero a estabilidade, defino os meus propósitos... Depois extraviome, venho cá, e num instante sou outro. As coisas que me atormentam não se alteraram desde que entrei nesta sala: mas nestes poucos minutos agiu sobre mim uma influência capaz de me transformar, e com que vantagem! Que é, pois? Qual é o seu segredo, Agnes?

A rapariga curvou a cabeça e olhou o lume.

- Não é nada de novo - recomecei. - Não se ria se lhe disser que sempre assim foi, tanto nas coisas grandes como nas pequenas. Os meus antigos cuidados eram apenas criancices, ao passo que presentemente são de vulto; mas, de cada vez que me afastei da minha irmã adoptiva...

Agnes levantou a vista. E que face angelical! Depois estendeume a mão, que beijei.

- De cada vez que você não estava, Agnes, para me reconduzir ao bom caminho e me dar coragem, eu parti à aventura e deparei dificuldades de todo o género. Mas, quando voltava para junto de si, como sempre fiz, achava paz e felicidade. Eisme hoje de regresso, como um viajante fatigado que encontra o repouso bendito.

Sentia tão profundamente tudo quanto estava a dizerlhe, achavame tão comovido, que a voz me faltou e, escondendo a cara nas mãos, principiei a soluçar. Isto é a pura verdade. Fossem quais fossem as contradições e inconsequências da minha alma (que tantos outros também conhecem); fosse melhor ou pior o meu comportamento; fosse qual fosse a obstinação que usei por vezes em ignorar a voz do meu coração, tudo isto me passava despercebido. Sabia que experimentava sempre um sentimento profundo de descanso e de paz ao lado de Agnes;

as suas maneiras plácidas e fraternais, o seu olhar cintilante, a voz branda, aquela serenidade que de todo o tempo me fizera sagrada a casa que ela habitava, depressa me arrancaram a esse desfalecimento, e eu conteilhe tudo o que se havia passado desde o nosso último encontro.

- Não há mais nada para acrescentar - disse eu a Agnes, ao chegar ao fim das minhas confidências. - Agora conto consigo.

- Mas não é comigo que deve contar, Trotwood - respondeu ela com um sorriso meigo. - É com outra pessoa.

- Dora?

- Certamente.

- É que não lhe disse - ajuntei um tanto contrafeito - que se torna difícil... - Não queria, por nada deste mundo, confessar a impossibilidade de contar com Dora, por ser a personificação da lealdade e da pureza. - Não sei como exprimirme... Ela é um ser tímido, fácil de se inquietar, fácil de se assustar. Há pouco tempo, antes da morte do pai, quando julguei azado falarlhe de... Mas voulhe contar tudo, se tiver a paciência de me ouvir.

Expus então a Agnes a minha confissão, a história do livro de culinária, das contas domésticas e do resto.

- Oh, Trotwood! - replicou, com um sorriso de censura. - Isso é que é intrepidez! Nada o impedia de se resolver a um esforço para o desembaraçar na vida, sem, para tal, ter de assustar uma criança inexperiente e tímida. Coitada da Dora!

Jamais ouvi tanta indulgência expressa por alguém do que a contida nesta resposta. O efeito que me produziu foi semelhante ao que teria se a visse beijar Dora com admiração e ternura. Arrependime, de facto, de haver alarmado a minha amada. Fiquei altamente reconhecido a Agnes. Viaas, a uma e outra, reunidas num quadro encantador, amigas eleitas para se amarem mutuamente.

- Então que devo fazer, Agnes? Qual será a melhor solução?

- Penso que a maneira mais digna de proceder seria escrever às duas senhoras. Não lhe parece que estes segredinhos são desprezíveis?

- Decerto... visto ser a sua opinião.

- Não estou qualificada para ajuizar em semelhante matéria - replicou ela com hesitação e modéstia - mas afiguraseme que... Em resumo, acho estas maneiras clandestinas e misteriosas incompatíveis com o seu carácter, Trotwood.

- Devido ao bom conceito que forma de mim, Agnes.

- Não, mas devido à sua honestidade natural. Eu própria escreverei às duas irmãs Spenlows. Pôlasei ao facto de tudo quanto se passou, e com simplicidade e franqueza. Pedirei licença para as visitar de vez em quando. Como você é novo e vai iniciar uma carreira, julgo que seria bom acrescentar que está disposto a aceitar todas as condições que elas considerem necessárias. Suplicarei que não indefiram o seu pedido

sem ouvir Dora e que discutam com ela quando acharem ocasião favorável. Não serei muito veemente - ajuntou Agnes com doçura - nem muito imperiosa. Confiarei na minha fidelidade e perseverança, e na própria Dora.

- Mas se elas tornarem a meter medo à rapariga, falandolhe no assunto? E se Dora chorar, sem dizer nada a meu respeito?

- Crê nessa probabilidade? - perguntou Agnes com a mesma benévola doçura de expressão.

- Coitada! É tão fácil de assustar como um passarinho. Sim, é provável. Ou se as duas Spenlows não forem acessíveis a um requerimento desta ordem... As velhas como elas são às vezes originais.

- Pareceme, Trotwood - volveu Agnes, alçando para mim os olhos - que não me deterei nessas considerações. Mais vale indagar somente se se deve agir assim, e, no caso afirmativo, pôr mãos à obra.

Não duvidei mais. De coração aliviado, ainda que imbuído da responsabilidade da minha tarefa, consagrei a tarde a fazer o rascunho da carta, ocupação para que Agnes me cedera a sua secretária. Mas, primeiramente, fui visitar Wickfield e Uriah Heep.

Encontrei este último instalado num escritório novo, que ainda cheirava a estuque, construído a meio do jardim. Tinha um ar tão mesquinho entre os livros e a papelada que o rodeavam! Recebeume com a afabilidade costumada e fingiu que Micawber o não prevenira ainda da minha chegada. Acompanhoume ao compartimento do doutor Wickfield, que já não parecia o que fora pois tinham retirado a maior parte dos móveis para adornar o do seu sócio. Este ficou de pé defronte do fogão, a aquecer as costas e a afagar o queixo com a mão ossuda, enquanto Wickfield e eu nos cumprimentávamos.

- Hospedarseá aqui, Copperfield, durante a sua permanência em Cantuária - disse o velho advogado, não sem lançar a Uriah um olhar com que pedia aprovação.

- Mas tem lugar para mim?

- Afiançolhe, menino Davy... devia dizer senhor Copperfield mas isto vem instintivamente, que lhe cedo de bom grado o seu antigo quarto, se é que lhe dá gosto.

- Não, não - acudiu Wickfield - por que havia de ser você a desalojarse? Há outro quarto, pareceme...

- Olhe que tenho o maior prazer! - insistiu Heep, com um sorriso que lembrava uma careta.

Para pôr ponto final na discussão, declarei que aceitava o outro quarto, e assim ficou decidido. Depois, despedime da firma até à hora do jantar, e subi a escada para voltar à saleta de Agnes. Esperava encontrála sozinha, mas a senhora Heep solicitara licença para se instalar ao pé do lume com o seu trabalho de malha (lugar mais favorável, dizia,

para o seu reumatismo do que a sala grande ou a casa de jantar, devido à direcção do vento). Embora eu preferisse abandonála ao vento, sem remorsos, no mais alto campanário da Catedral, fiz das tripas coração e saudeia cortesmente.

- Humildemente lhe agradeço, senhor Copperfield - disse ela

respondendo às perguntas que lhe fiz acerca da sua saúde. - Vou indo como posso. Já não espero muito da vida. Bastarmeá ver o meu Uriah bem estabelecido para não desejar mais nada. Como o achou?

Eu acharao horrível como sempre, e informeia de que não lhe encontrara mudança.

- Ah, encontrouo na mesma? Pois rogolhe humildemente perdão para discordar do seu parecer. Não se lhe afigura mais magro?

- Nem por isso.

- Deveras? É que o não vê com os olhos de uma mãe.

Esse olhar materno, por mais meigo que fosse para ele, considereio o pior para as outras pessoas quando se poisou em mim. Mas creio realmente que eram muito dedicados um ao outro, mãe e filho. O dito olhar resvalou em seguida para Agnes.

- E a menina, não o acha mais magro e fatigado?

- Não - replicou Agnes, que prosseguiu pacificamente no seu trabalho. - A senhora apoquentase em excesso quanto a ele. Em minha opinião, direi que vai bem.

A senhora Heep retomou a sua malha, fungando ruidosamente.

Nem por um minuto abandonou as agulhas ou a vigilância. Eu chegara cedo e faltavam ainda umas três ou quatro horas para o jantar: mas a criatura mantevese ali, trabalhando com a monotonia de uma ampulheta que deixa a areia escorrer. Estava sentada a um dos lados do fogão; eu, diante da secretária e do lume; e, um pouco mais longe, encontravase Agnes. De cada vez que, no meio das minhas lucubrações epistolares, levantava a vista e deparava o rosto pensativo da filha de Wickfield a iluminarse e enviarme um olhar de incitamento, logo sentia a influência maléfica da velha sobre mim e sobre Agnes. O que era a malha que ela fazia, não sei ao certo, por ser pouco versado nessa arte: pareceume uma espécie de rede. A mulher agitava as agulhas como pauzinhos de chinês, à luz das brasas, tal uma feiticeira horrenda conservada em atitude respeitosa pela fada boa que nos acompanhava, mas disposta a largar a rede à primeira oportunidade.

Durante o jantar, esses olhos que piscavam continuaram a observarnos. Em seguida a fiscalização coube ao filho. Quando fiquei com ele e com o doutor Wickfield, o homem fez tantas caretas e contorções que me senti fora de mim. Na sala reunimonos à senhora Heep, que retomara as agulhas. Todo o tempo que Agnes tocou e cantou, a velha conservouse ao pé do piano, e até pediu uma balada, da qual, segundo se depreendia,

o seu Uriah gostava muito. Nesse momento, o mencionado Uriah bocejava na poltrona. De vez em quando, ela voltavase para Agnes e dizia que o filho escutava extasiado. Nunca falava sem fazer alusão ao seu rebento. Dirseia obedecer a uma combinação de família.

E assim foi até à hora de deitar. O facto de ter visto a mãe e o filho pairarem como dois grandes morcegos pela casa toda, escurecendoa com as suas sombras disformes, transtornarame tanto que preferiria continuar onde estava (apesar da malha e do resto) a ir enfiarme na cama. Quase nem dormi. No dia seguinte as agulhas e a vigilância recomeçaram e duraram até à noite.

Não tive oportunidade de ficar só com Agnes nem por dez minutos. Mal pude mostrarlhe a carta definitivamente redigida. Propuslhe ir passear comigo, mas a senhora Heep queixouse de se sentir cada vez pior e Agnes conservouse caridosamente em casa, para lhe fazer companhia. À noite saí só, pensando que partido devia tomar se não pudesse prevenir Agnes do que me dissera em Londres Uriah Heep.

Fui na direcção de Ramsgate, onde o caminho era bom: ainda não me afastara muito da cidade quando ouvi chamaremme atrás de mim. Apesar do escuro, o vulto desengonçado e o sobretudo encolhido eram facilmente identificáveis. Parei, esperando por Uriah.

- Então? - murmurei.

- Como anda tão depressa! As minhas pernas não são curtas, mas custoume a alcançálo.

- Aonde vai?

- Vou acompanhálo, menino Davy, se me quer dar esse prazer.

- Uriah! - disselhe após um momento de silêncio, tão delicadamente quanto pude.

- Menino Davy?!

- Para falar verdade... e espero que não se ofenda... saí expressamente para estar só; já tive hoje excesso de companhia...

Lançoume um olhar de revés e observou com o mais cruel dos seus sorrisos:

- Referese à minha mãe?

- Desculpe, mas é verdade.

- Como sabe, temos tamanha consciência de sermos humildes que precisamos de tomar cuidado para que não nos suplantem aqueles que o não são. Em amor todos os estratagemas servem.

Levantou as mãos enormes, tocou no queixo e esfregouo devagar, rindo baixinho; assemelhavase tanto a um babuíno perverso como o pode ser um ente humano.

- Compreende - prosseguiu ele, continuando a sua picardia e oscilando a cabeça, enquanto me fitava. - O menino é um rival perigoso. Sempre o foi.

- Foi então por minha causa que montou essa vigilância em volta da menina Wickfield e que tornou o seu lar insuportável?

- Oh, menino Davy, que palavras tão rudes!

- Exprimo o meu pensamento com as palavras que quiser. Sabe o que pretendo insinuar, Uriah, e sabeo tão bem como eu.

- Ah, não! Digao claramente, peçolhe.

- Mas imagina - retorqui, procurando manter a calma e a moderação por causa de Agnes - que eu considero a menina Wickfield de outra forma diferente de uma irmã querida?

- Bem vê que não sou obrigado a responder a essa pergunta, menino Davy. Talvez não, talvez sim...

Nunca conheci astúcia semelhante àquela, tão abjecta. E, demais a mais, reflectida nuns olhos sem pestanas!

- Olhe - continuei - no próprio interesse da menina Wickfield...

- A minha Agnes! - bradou ele com uma contorção de epiléptico. - Tenha a bondade de lhe chamar Agnes, menino Davy.

- Então, no interesse de Agnes Wickfield (que Deus a proteja)...

- Obrigado por este voto...

- ... dirlheei o que, noutras circunstâncias, teria preferido dizer a Jack Ketch...

- A quem? - replicou Uriah, estendendo o pescoço e pondo a mão em concha na orelha.

- Ao carrasco, a pessoa mais inverosímil em que eu poderia pensar... - No entanto, fora a cara dele que me sugerira a comparação. - Estou noivo de outra rapariga. Espero que isto o tranquilize.

- Juramo?

Eu estava prestes a dar às minhas palavras, em tom indignado, a confirmação que ele requeria quando Uriah me agarrou a mão e a apertou.

- Oh, menino Davy, acaba de me honrar com as suas confidências, retribuindo assim a confiança com que lhe abri o meu coração nessa famosa noite em que o incomodei tanto, a ponto de dormir no sofá do seu escritório! Jamais duvidaria de si. Mas, seja como for, vou já desembaraçálo da minha mãe, porque me sinto imensamente feliz. Estou certo que desculpará as precauções que tomei, como apaixonado ciumento. Que pena não me haver contado isso mais cedo! Não quis descer até mim, é o caso. Não ignora que a sua estima nunca igualou a que lhe dedico.

Sempre a falar, apertava a minha mão nos seus dedos húmidos e moles, embora eu fizesse mil esforços para a retirar. E não se contentou com isso mas passou o meu braço por baixo do seu e assim continuámos, unidos, o passeio.

- Voltase para trás? - sugeriu Uriah, virandose na direcção da cidade, sobre a qual nesse momento brilhava o luar, tornando prateadas as vidraças das janelas.

- Antes de concluir o assunto - ripostei, quebrando o silêncio que já se prolongava - gostaria que compreendesse isto: considero Agnes Wickfield tão superior a Uriah Heep, tão acima dele e tão estranha a todas as suas aspirações, como esta Lua que ora admiramos.

- Bem se vê que nunca me estimou, menino Davy. Sempre me achou muito humilde, não é verdade?

- Não aprecio muito as profissões de humildade, nem, aliás, as de fé, seja de quem for.

- Ah, não me admira - acudiu Uriah, com faces flácidas e cor de chumbo banhadas de luar. - No entanto, entende mal a humildade que convém aos da minha posição, menino Davy! Eu e meu pai fomos educados numa escola de rapazes sustentada pela caridade pública, e a minha mãe, por seu lado, criouse num estabelecimento de beneficência. Aí, inculcavamnos boa dose de humildade, e só isto, desde a manhã à noite. Devíamos ser humildes perante Fulano ou Sicrano, desbarretarnos a este, fazer vénias àquele, estarmos sempre no nosso lugar e curvarmonos diante dos superiores. Meu pai ganhou, pela humildade, uma medalha de aluno mais bem comportado. Mais tarde foi sacristão, sempre devido à sua humildade. Tinha tal reputação de bem educado que estavam resolvidos a eleválo. «Sê humilde, Uriah», diziame, «e desbravarás o teu caminho. Foi o que me ensinaram na escola, e a ti ensinam também. E o que convém. Sê humilde, e vencerás!» E, de facto, a coisa não tem ido mal.

Pela primeira vez me acudiu a ideia de que se tratava de um produto consumado de falsa humildade, engendrado no seio de uma família que disso tirava o seu esteio.

- Ainda pequeno - prosseguiu Uriah - compreendi a força da humildade e tomeilhe o gosto. Com apetite comia o pão da humildade. Detiveme, na educação, em um nível modesto e pensei: «Já chega.» Quando me propuseram ensinarme latim, não me deixei tentar. «As pessoas gostam de se sentir superiores a ti», observavame o pai. «Evita elevareste.» Continuei humilde até hoje, menino Davy, mas disponho de certo poder.

Se me contava tudo aquilo (percebio vendolhe a cara na claridade argêntea) era para eu saber quanto estava decidido a se indemnizar usando desse poder. Nunca duvidara da sua abjecção, da sua habilidade ou da sua malícia; mas compreendi, pela primeira vez, que alma vil, impiedosa, sedenta de vingança, a sujeição da juventude criara naquele corpo.

A autoapologia teve ao menos a consequência agradável de o levar a retirar o braço do meu para afagar o queixo, como de costume. E eu, com o braço liberto, estava disposto a não o deixar de novo no dele - e assim regressámos a casa,

sem dizer mais nada de importante pelo caminho.

Não sei se Uriah se sentia exaltado pela comunicação que acabava de receber ou pela sua evocação do passado, mas havia efectivamente qualquer coisa que o entusiasmava. Durante o jantar, falou mais que de costume; perguntou à mãe (desobrigada da sua vigilância desde a nossa chegada) se não estava a tornarse muito velho para continuar solteiro, e lançou tal olhar a Agnes que eu teria dado tudo, nesse instante, para o esmagar ali mesmo. Quando nós três, homens, ficámos na casa de jantar, ele usou de liberdades mais audaciosas. Tomara pouco vinho, se algum tomara, de maneira que só a insolência do triunfo o excitava, acirrada ainda, suponho, pela minha presença.

Notara eu, na Véspera, que Uriah se esforçava por que o doutor Wickfield ingerisse vinho. Por isso, interpretando o olhar que Agnes me deitara ao sair da sala, não consenti que a garrafa passasse mais de uma vez de um para outro, e propus que fôssemos reunirnos às senhoras. Mas Uriah interrompeume:

- As visitas do nosso hóspede - disse ele dirigindose a Wickfield, que, sentado no extremo da mesa, formava perfeito contraste com o sócio - são tão raras que eu sugiro despejemos mais um ou dois copos em sua honra, se não vê nisso inconveniente. Senhor Copperfield, à sua saúde!

Vime obrigado a aceitar a mão que me estendia. Depois, com sentimentos muito diversos, apertei a do velho advogado, agora tão deprimido.

Não me alongarei nos brindes que Wickfield propôs à saúde da minha tia, do senhor Dick, do Tribunal, de Uriah, em todos bebendo duas vezes. Não falarei também da consciência que ele tinha da sua fraqueza nem dos esforços vãos que fazia para resistir; nem da luta que nele se travava entre a vergonha que Uriah lhe inspirava e o seu desejo de a combater; nem da manifesta exaltação do velhaco, que se contorcia, agitava e impelia o velho sócio a fazer triste figura à sua frente. Tudo isto me causou náuseas e a mão recusase a descrever.

- Meu caro sócio - disse Uriah - vou alvitrar outro brinde, e peçolhes humildemente que encham os copos, pois tenciono beber à saúde da mais divina do seu sexo.

O pai de Agnes conservava o copo vazio. Vio descansálo na mesa; olhar para o quadro da pessoa com quem ela tanto se parecia, levar a mão à testa e recair na cadeira.

- Sou muito humilde para ter lembrado isto - acrescentou Uriah - mas admiroa tanto... adoroa!

Creio que nenhuma dor física suportada por aquela cabeça grisalha me seria mais penosa de ver do que o sofrimento moral que Wickfield tentava comprimir, agora com as duas mãos.

- Agnes - continuou Uriah Heep, quer fingisse não notar a atitude do advogado, quer não compreendesse a significação do gesto. - Agnes Wickfield é, posso dizêlo sem receio, a mais divina do seu sexo. Permitemme que fale francamente, aqui entre amigos? Pois bem: ser pai dela é motivo de orgulho, mas ser seu marido...

Que Deus me guarde de jamais ouvir outro grito como o que soltou Wickfield, levantandose da mesa.

- Que foi? - perguntou o biltre, empalidecendo horrorosamente. - Espero que o senhor não tenha enlouquecido... Se digo que tenciono tornar Agnes minha mulher é que tenho tanto direito como outro qualquer. Melhor: tenho mais direito do que outro!

Eu passara o braço de roda do corpo de Wickfield e imploravalhe por tudo (e sobretudo por amor de Agnes) que se acalmasse um pouco. Nesse instante ele parecia doido, arrepelava os cabelos, batia na testa, procurava desembaraçarse de mim... Não me respondia, não olhava nem via ninguém, mas debatiase desesperado sem saber porquê, com a fisionomia alterada, os olhos alucinados.

Supliqueilhe de forma incoerente, mas com veemência, que não se entregasse àquele arrebatamento e me escutasse; que pensasse em Agnes; que não se esquecesse de que eu e ela crescêramos juntos; que a respeitava e estimava; que para ele era um motivo de orgulho e de alegria. Diligenciei imporlhe a ideia de Agnes fosse de que forma fosse. Cheguei a incriminálo por não ter energia para ocultar da filha uma cena como aquela. Talvez lhe atingisse qualquer fibra, talvez a sua cólera esmorecesse por si mesma. O caso é que a pouco e pouco Wickfield sossegou e começou a olharme, a princípio de maneira estranha, depois como se me reconhecesse. Por fim disseme:

- Bem sei, Trotwood! A minha querida filha e você... Bem sei. Mas vejao!

Mostravame Uriah, que estava pálido e ameaçador, a um canto, evidentemente frustrado nos seus cálculos e apanhado de surpresa.

- Veja o meu algoz - continuou o dono da casa. - Cedilhe o terreno passo a passo, abandonandolhe o meu nome, a minha reputação, o repouso e a tranquilidade, o meu tecto, o meu lar...

- Conserveilhe o nome e a reputação, a paz e a tranquilidade do tecto e do lar - ripostou Uriah no tom precipitado e rabugento de um vencido. - Não seja ridículo, doutor Wickfield! Se ultrapassei um pouco os limites permitidos, poderei recuar. Não há nisso nenhum mal irremediável.

- Empregueio porque julguei que me podia ser útil - volveu Wickfield. - E de começo sentime satisfeito. Mas olhe, Copperfield, em que ele se transformou!

- Mais vale que o detenha, David! - gritoume Uriah, apontandome o dedo magro e comprido. - É capaz de dizer qualquer coisa de que mais tarde se arrependa...

e que o menino lastimará ter ouvido.

- Direi o que me apetecer - insistiu o advogado, que atingia o cúmulo do desespero. - Que me importa cair sob a alçada da sociedade, se já estou debaixo da sua?

- Tome cuidado, repitolhe! - Uriah voltarase para mim. - Se não lhe fechar a boca é que não é seu amigo. Por que não está à mercê de toda a gente? Porque tem uma filha. Eu e o senhor sabemos o que sabemos, não é verdade? Ah, não acorde o cão que dorme. Para quê? Não vê que sou o mais humilde que é possível? Torno a dizer: se me excedi, lamento. Que mais quer?

- Oh, Trotwood, Trotwood! - exclamou Wickfield, torcendo as mãos. - Em que me tornei desde que o vi pela primeira vez nesta casa! Já declinava, nessa altura, mas que caminho atroz percorri depois disso! A minha queda foi provocada por uma indulgência culposa: indulgência na lembrança e indulgência no esquecimento. A dor natural pela morte da minha mulher tornouse uma coisa mórbida. Contaminei tudo em que pus as mãos. Causei a infelicidade do ente que tanto amo: seio e você também sabe. Julguei possível amar uma única criatura no mundo, pondo de lado os demais. Julguei possível chorar um ente desaparecido, sem tomar parte no luto dos outros que choram. Assim se perverteram as lições da minha vida. Quis alimentarme do sofrimento lânguido do coração, e esse coração nutriuse de mim. Ignóbil na dor, ignóbil no amor, ignóbil na fuga cobarde para escapar às sombras de ambos, vejam a ruína que sou agora, detestemme, fujam!

Deixouse cair na poltrona e soluçou desabaladamente. Abandonarao a excitação em que o lançara a objurgatória de Heep. Este regressou do seu canto. Wickfield continuou, estendendo as mãos como para repelir a sua condenação:

- Já nem sei o que fiz na minha cegueira. Ele sabe melhor do que eu - falava de Uriah - porque esteve sempre a meu lado, para me aconselhar. Já se pode ver que peso tenho ao pescoço. Encontramolo na casa, nos negócios. Ainda há pouco falou. Preciso de dizer mais?

- Não precisa de dizer tanto, nem metade, nem sequer nada - observou Uriah, meio impertinente, meio obsequioso. - O senhor não teria tomado as coisas dessa maneira se não fosse o vinho que bebeu. Amanhã estará mais lúcido. Se eu falei demais, ou mais do que queria, que importa? Não insisti.

Abriuse a porta e Agnes, entrando sem ruído, de rosto imensamente pálido, passou o braço em torno do pescoço do pai e disselhe com firmeza:

- Papá, não se encontra bem de saúde. Venha comigo.

Wickfield apoiou a cabeça no ombro da filha, como se acabrunhado pela vergonha, e saiu com ela. O olhar de Agnes cruzouse com o meu, por um segundo, mas isto bastou:

compreendi que não ignorava o que tinha decorrido.

- Não pensei - observoume Uriah - que ele tomasse a coisa tão a peito. Mas não tem importância. Amanhã reconciliarnosemos. É para seu bem. Trabalho humildemente para seu bem.

Sem responder, subi à saleta tranquila em que tantas vezes Agnes ficara a sós comigo, enquanto eu estudava. Até tarde ninguém mais entrou. Peguei num livro e comecei a lêlo. Ouvi os relógios soarem meianoite, e eu continuava a ler, sem dar fé do que fazia, quando Agnes me tocou no braço.

- Parte amanhã cedo, Trotwood. Vamos despedirnos já. - Chorara, mas o rosto parecia outra vez belo e calmo. - Deus o acompanhe - acrescentou, com a mão estendida.

- Querida Agnes, vejo que não deseja que eu lhe fale desta noite... Mas não haverá outra solução?

- Devemos ter confiança em Deus! - respondeu.

- E eu não poderei ser útil, eu que vim importunála com os meus pequeninos dissabores?

- Que tornaram os meus muito mais leves! Não, caro Trotwood.

- Agnes, será presunção da minha parte, porque sou tão desprovido de tudo o que constitui a sua riqueza... bondade, energia, e as mais nobres qualidades... duvidar de si ou aconselhála; mas sabe quanto a estimo e quanto lhe devo. Não vai sacrificarse a um falso sentimento do dever, pois não?

Mais comovida nesse momento do que eu a vira em toda a vida, Agnes retirou a mão da minha e recuou um passo. Insisti:

- Prometame que não tenciona fazer nada disso! Minha mais do que irmã! Pense no dom inestimável de um coração como o seu, de um amor como o seu!

Durante muito tempo, pela existência adiante, revi aquela face erguerse diante de mim, com a mesma expressão em que se não lia nem espanto, nem censura, nem pena. Por muitos anos a evoquei e a vi transformandose num sorriso encantador, como então, para me dizer que ela já não receava nada. Depois disso, com um adeus fraternal, Agnes desapareceu.

No dia seguinte ainda estava escuro quando subi para a imperial da diligência, à porta da estalagem. Eu pensava sempre em Agnes mas vi surgir no crepúsculo matutino a cabeça de Uriah Heep.

- Menino Davy - disse ele num grasnar abafado, agarrandose ao varal do veículo - pensei que gostasse de saber, antes de partir, que não houve qualquer ruptura lá em casa. Já fui procurálo no seu quarto e tudo se recompôs. Meu Deus, sou tão humilde, mas não deixo de lhe ser útil. E ele compreende o seu interesse, quando não toma nada. Que homem simpático, em suma!

Forceime a participarlhe quanto me senti feliz por saber que ele apresentara desculpas.

- Oh decerto! Quando se é humilde, que importância tem isso? É tão fácil! Oiça, creio que já lhe aconteceu colher uma pêra antes de estar madura, menino Davy...

- Julgo que sim.

- Foi o que eu fiz ontem. Ela, porém, háde amadurecer. Só precisa de cuidados. Posso esperar.

Desfazendose em adeuses, Uriah desceu no momento em que o cocheiro subia. Suponho que ele comia qualquer coisa para o preservar da frescura húmida do ar; mas o queixo moviase como se a pêra estivesse já madura...