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David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 38. DISSOLUÇÃO DE SOCIEDADE
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Não deixei arrefecer a minha resolução de assistir às sessões da Câmara dos Deputados. Era um dos ferros que eu começava a malhar e que continuava a aquecer e a levar à bigorna com uma perseverança de que tenho o direito de me orgulhar. Comprei um método dessa nobre ciência da estenografia e dos seus mistérios (que me custou dez xelins e seis dinheiros) e mergulhei num oceano de perplexidades que em poucas semanas me arrastou quase à loucura. As diferenças marcadas por pontos que, colocados de certa maneira, queriam dizer uma coisa e, de outra, algo de absolutamente diverso; as fantasias inconcebíveis a que se entregavam os círculos; as consequências inopinadas do emprego de simples pernas de moscas; os efeitos terríveis de uma curva mal delineada, tudo isto não só perturbava as minhas vigílias como me tirava o sono. Quando consegui avançar às cegas no meio destas complicações e dominar o alfabeto (ele só um verdadeiro templo egípcio!), vi aparecer novo cortejo de horrores qualificados de caracteres arbitrários e que eram de facto os caracteres mais tirânicos que algum dia vira. Por exemplo, um sinal que se assemelhava ao início de uma teia de aranha queria dizer expectativa, e o rabo de um foguete significava desvantagem. Depois de encaixar estes déspotas na cabeça, compreendi que eles haviam desalojado todo o resto; voltei então ao começo e foram eles, dessa vez, que me escaparam; porfiei por reencontrálos, mas perdi a outra parte do sistema. Em suma, era um homem desesperado. E sêloia até sem a ansiedade que sentia quanto a Dora, Dora o esteio e a âncora da minha barca impelida pela tempestade! Cada dificuldade do método formava um carvalho nodoso na floresta das mesmas, mas eu abatiaos um após outro, com tamanho vigor que, ao cabo de três ou quatro meses, tive vontade de experimentar os meus conhecimentos estenografando o discurso de um dos nossos palradores do foro. Jamais esquecerei como o bacharel tomou a dianteira, sem esperar por mim, deixando o meu lápis perplexo errar no papel como se tomado de loucura.

A coisa não progredia, era evidente. Fora demasiado ambicioso e, dessa maneira, não alcançaria nada. Fui pedir conselho a Traddles e ele prontificouse a ditarme discursos a um ritmo e com as paragens adaptadas à minha fraqueza. Cheio de gratidão por essa ajuda amigável, aceiteilhe a proposta; e, durante muitas e muitas noites, quase ininterruptamente, formámos uma espécie de Parlamento em miniatura na Buckingham Street, quando eu regressava de casa do doutor Strong.

Era digno de verse, aquele Parlamento! A tia Betsey e o senhor Dick representavam o governo ou a oposição (conforme os casos) e Traddles, munido do Orador de Enfield(1), ou de um volume de discursos parlamentares, fulminavaos de invectivas tremendas. De pé ao lado da mesa, com o dedo sobre o livro para conservar a página aberta, e o braço direito erguido acima da cabeça, Traddles personificava os senhores Pitt, Fox, Sheridan, Burke, lorde Castlereagh, visconde Sidmouth ou o senhor Canning. Atacava com eloquência a imoralidade e a corrupção da minha tia e do senhor Dick, ao passo que eu, sentado a certa distância e com o caderno sobre os joelhos, me esforçava como podia para o seguir. A inconsistência e a audácia de Traddles não cediam em nada às de nenhum homem público. No decurso de uma semana, adoptava alternadamente todas as opiniões políticas e içava no mastro os pavilhões de todos os partidos. A tia, tão imperturbável como um ministro das Finanças, fazia de tempos a tempos a sua interrupção: «Apoiado!» ou «Não apoiado!», ou um simples «Oh» sempre que o texto o exigia, o que era repetido, como um eco, pelo senhor Dick, com o máximo vigor. Mas o senhor Dick foi acusado de tantas irregularidades no decurso da sua carreira parlamentar, e responsabilizado por consequências tão espantosas, que acabou por ficar inquieto. Creio que sentiu verdadeiro medo de haver trabalhado para o aniquilamento da constituição britânica e para a ruína do país.

*1. W. Enfield, autor de Speaker: Selections from the best English Writers (1832).

Muitas e muitas vezes aconteceu prosseguirmos estes debates até o relógio soar a meianoite e as velas estarem todas consumidas. Mercê de um bom treino, pude a pouco e pouco seguir Traddles menos mal, e o meu triunfo teria sido completo se eu fizesse a mínima ideia do que diziam as minhas notas. Mas a verdade é que as decifrava tanto como se houvesse copiado caracteres chineses de uma vasta colecção de caixas de chá ou os signos dourados dos bocais verdes ou vermelhos das farmácias. Só me restava retroceder e principiar de novo.

Era penoso, porém resigneime, embora de coração amargurado, e recomecei laboriosamente pelo mesmo caminho, a fim de examinar com cuidado cada sinal, por todos os lados, fazendo esforços consideráveis, desesperados, para reconhecer à primeira vista esses caracteres desconcertantes. Fui sempre pontual no meu estágio, assim como em casa do doutor e em tudo isto trabalhei como um moiro.

Certo dia, quando chegava ao tribunal à hora costumada, encontrei à porta o doutor Spenlow, a falar só, com ar extremamente preocupado. Como em geral se queixava de dores de cabeça (tinha o pescoço curto e abusava da roupa muito engomada), pensei de início que se tratasse de uma coisa dessas, mas o advogado dissipou a minha apreensão nesse sentido.

Em lugar de corresponder aos meus bonsdias com a afabilidade habitual, olhoume sobranceiro e cerimonioso e pediume com frieza que o acompanhasse a um café cuja porta dava para o pátio dos Doctor's Commons, perto da entrada do cemitério de São Paulo. Obedeci, intrigado. Quando o deixei passar à minha frente, devido à estreiteza do caminho, notei que ele erguia bem a cabeça, o que não me agoirava nada de bom. E quase sucumbi à ideia de que o pai de Dora houvesse descoberto as minhas relações com a filha.

Se eu já não tivesse suspeitado isto, não poderia deixar de perceber a natureza do assunto quando entrei atrás dele numa sala do primeiro andar em que se encontrava a senhora Murdstone. Esta estendeume a ponta dos dedos gelados e permaneceu rígida e severa na sua cadeira. O doutor Spenlow fechou a porta, fezme sinal para que me sentasse e mantevese de pé junto do fogão.

- Queira ter a bondade de mostrar ao senhor Copperfield - disse ele à senhora Murdstone - o que tem na sua bolsinha.

Suponho que era a mesma, de fecho de aço, que ela usava na minha infância e que se fechava como uma mandíbula. Mordendo os lábios, condoída, a solteirona abriu (não sem abrir ao mesmo tempo a boca) a dita bolsinha e exibiu a última carta que eu escrevera a Dora, epístola recheada de amor furibundo.

- Julgo ser a sua caligrafia, senhor Copperfield - observou o advogado.

Eu estava ruborizadíssímo e a voz que ouvi proferir não a reconheci como sendo minha, quando dei esta resposta:

- É, senhor doutor.

- Se não me engano - continuou ele, enquanto a senhora Murdstone tirava da bolsa um maço de cartas amarrado com uma linda fita azul - tudo isto lhe pertence, não é verdade?

Peguei no maço com uma sensação de desespero e, lobrigando inícios de carta do género de «Querida e adorada», «Meu anjo amado», «Dora da minha alma», fiquei ainda mais corado, se era possível, e baixei a cabeça.

- Não, obrigado - disse o doutor Spenlow, quando eu tentava maquinalmente devolverlhe o maço. - Não quero priválo disso. Senhora Murdstone, continue, se faz favor.

Esta adorável criatura, depois de observação demorada e meditativa do tapete exprimiuse nestes termos, com uma secura cheia de unção:

- Confesso que vinha tendo desconfianças acerca da menina Spenlow e das suas relações com o senhor David Copperfield. Espiaraos quando do seu primeiro encontro, e a minha impressão não fora boa. É tal a perversidade do coração humano que...

- Agradecialhe - atalhou o advogado - que se restringisse aos factos.

A dama baixou a vista, meneou a cabeça em sinal de protesto contra aquela interrupção descabida e prosseguiu com uma dignidade melindrada:

- Já que devo limitarme aos factos, expôlosei tão sucintamente quanto puder. Talvez se ache aceitável esta atitude. Como disse, senhor doutor, eu já suspeitava da menina Spenlow e do senhor Copperfield. Diligenciei, por várias vezes, obter a confirmação definitiva destas dúvidas, mas sem êxito. Abstiveme, pois, de falar ao pai da menina Spenlow - acompanhou a frase com um olhar severo ao interessado - sabendo muito bem que se tende, em semelhante caso, a querer mal a quem pratica conscienciosamente o seu dever. Por isso a vigiei com redobrada atenção.

Querida e bela Dora, que não desconfiavas da vigilância do Dragão!

- Todavia - concluiu a senhora Murdstone - só anteontem obtive uma prova. Pareceume que a menina Spenlow recebia demasiadas cartas da sua amiga Julia Mills; mas como esta era íntima com o pleno assentimento do pai - outra pedra atirada ao jardim do doutor Spenlow - não me competia intervir. Se não estou autorizada a aludir à perversidade do coração humano, posso ao menos, assisteme até o direito de alegar que a confiança está muita vez mal colocada...

O doutor Spenlow murmurou uma aquiescência contrita.

- Ontem à noite, depois do chá, vi o cãozinho saltar e rolar na sala, rosnando e brincando com qualquer coisa. Disse à menina: «Dora, que é que o seu cão tem na boca? Será papel?» Logo a menina Spenlow levou a mão ao vestido, soltou um grito, e precipitouse para o animal. Interpusme, dizendo: «Permita, Dora, que...»

Ó Jip! Miserável cachorro, esta catástrofe foi obra tua!

- A menina Spenlow tentou subornarme com beijos, caixas de costura e jòiazinhas, naturalmente sem resultado. Quando me aproximei, o cão enfiou para baixo do canapé e foi preciso expulsálo com o atiçador do fogão. Mesmo assim, conservou a carta nos dentes e, quando procurei tirála, filo devagar, com grande dificuldade. Mas conseguio. Depois de a ter percorrido com a vista, acusei a menina de ter em seu poder várias cartas da mesma origem, e acabei por obter dela o maço que está neste momento nas mãos do senhor David Copperfield.

Calouse. Fechou a bolsa, mordeu os lábios e disse:

- Sou de antes quebrar que torcer.

- Copperfield, você ouviu a senhora Murdstone - recomeçou Spenlow, voltandose para mim. - Posso perguntarlhe se tem alguma coisa a acrescentar?

A imagem que eu tinha diante dos olhos, a do tesouro do meu coração chorando e soluçando toda a noite, amorteceu a pouca dignidade que conseguira manter. Viaa só, apavorada e infeliz. Tinha suplicado tão instantemente àquela mulher empedernida que lhe perdoasse, despendera vãmente os seus beijos, prometera as suas caixas de costura e os seus objectos de estimação. Estava deprimida, e tudo isto por minha causa! Suponho que fiquei trémulo por um ou dois minutos, apesar dos esforços que fizera para me dominar.

- Só posso dizer uma coisa, senhor doutor - respondi. - É que sou o único culpado. Dora...

- A menina Spenlow - rectificou o pai, com ar majestoso.

- ... foi impelida por mim - continuei, engolindo aquela admoestação cerimoniosa - a consentir na dissimulação, o que lamento deveras.

- Tenho muito que lhe censurar, Copperfield - disse o advogado, passeando cá e lá ao longo do fogão e acompanhando as palavras de movimentos não só da cabeça mas de todo o corpo, devido à rigidez do colarinho e da espinha. - Procedeu de forma clandestina e indecorosa. Copperfield, quando acolho em minha casa um homem bem educado, tenha ele dezanove, vinte e nove ou cinquenta anos, façoo com toda a confiança. Se ilude essa confiança, comete um acção pouco digna.

- Compreendo, senhor doutor. Mas não tinha pensado nisso, francamente lho afirmo. Gosto tanto da menina Spenlow...

- Oh, que loucura! - exclamou, purpureandose. - Peçolhe, não me diga cara a cara que ama a minha filha!

- Que desculpa poderia ter o meu procedimento, se não fosse assim? - repliquei com a maior humildade.

- Que desculpa? - repetiu o doutor Spenlow, detendose de súbito no passeio. - Pensou na sua idade e na da minha filha, Copperfield? Pensou no que é destruir a confiança que devia existir entre mim e ela? Pensou na categoria a que pertence a minha filha, nos projectos que tenha podido fazer a respeito do seu futuro, nas minhas intenções testamentárias? Pensou em alguma coisa destas, Copperfield?

- Confesso que pouco - retorqui, com o respeito que lhe tinha e o desgosto que experimentava. - Mas façame a justiça de crer que pensei na minha própria situação. Quando lhe participei a perda dos bens da minha tia, nós já estávamos noivos...

- Peçolhe me não fale de noivado! - acudiu ele, batendo com energia as mãos uma contra a outra e com o ar mais teatral que é possível. (Por mais desesperado que eu estivesse, não pude coibirme de o notar.)

A senhora Murdstone saiu da sua impassibilidade para soltar um risinho desdenhoso.

- Quando lhe participei a alteração ocorrida na minha existência - continuei, adoptando uma nova forma de expressão para substituir a que tanto lhe desagradava - já havia começado a dissimulação a que infelizmente arrastei a menina Spenlow. Desde essa mudança, procurei afincadamente melhorar a minha situação. Hoje estou confiante no futuro. Concedame tempo, senhor doutor, o tempo que quiser. Somos ambos tão novos, eu e ela...

- Tem razão - interrompeu Spenlow com vigorosos gestos de

cabeça e carregando o cenho. - São ambos novos. Tudo isto é loucura. Não se fala mais do assunto. Leve essas cartas e deiteas ao lume. Depois restituame as que a minha filha lhe escreveu, para que eu as queime. Para o futuro, as nossas relações serão apenas de ordem profissional, e não se aludirá mais ao passado. Vamos, Copperfield, não lhe escasseia bom senso, e isso é a única solução sensata.

Eu é que não podia consentir em semelhante solução. Havia algo que se sobrepunha ao bom senso. O amor prevalecia sobre quaisquer outras considerações, e eu amava Dora até à idolatria, e era correspondido.

Não foi isto precisamente o que eu disse ao doutor Spenlow. Atenuei as expressões tanto quanto pude: mas foi o que lhe dei a entender, e filo de maneira categórica. Ignoro se teria sido ridículo, mas categórico fui com certeza.

- Muito bem, Copperfield, recorrerei à influência que tenho sobre a minha filha.

A senhora Murdstone, por uma aspiração prolongada, que não era nem suspiro nem gemido, mas partilhava dos dois, deu a entender que ele devia ter começado por ali.

- Experimentarei - declarou Spenlow, fortalecido com este apoio - usar a minha influência junto dela. Recusase a levar essas cartas, Copperfield?

Disse isto porque eu as colocara em cima da mesa.

- Recusome.

Esperava não o magoar, mas não podia aceitálas da mão da senhora Murdstone.

- Nem da minha? - indagou Spenlow.

- Não, senhor - respondi com o mais profundo respeito. - Nem da sua mão.

- Muito bem.

No silêncio que se seguiu, eu pensava se mais valeria partir ou ficar. Decidirame a alcançar lentamente a porta, achando que teria tempo de dizer que a minha retirada era melhor para ele, quando Spenlow, com as mãos enfiadas nas algibeiras do casaco, e com aspecto que, em suma, qualificarei de incontestavelmente compassivo declarou:

- Deve saber, Copperfield, que não estou desprovido de bens terrenos e que a minha filha é o meu parente mais próximo.

Respondi que esperava não ter sido levado por ideias interesseiras quando a violência da paixão amorosa me arrastou.

- Não é bem o que eu quero dizer. Mais valia para todos nós que o movesse o interesse, isto é, se fosse menos infantil e um pouco mais circunspecto. O que eu queria dizer era que possuo bens que heide legar à minha filha.

Ripostei que não punha em dúvida.

- E não háde supor que, com os exemplos que temos todos os dias debaixo dos olhos quanto a negligências inexplicáveis que os homens se permitem quanto às suas disposições testamentárias (o que, entre tudo, nos revela em mais alto grau e inconsequência humana), eu não tenha tomado as minhas providências...

Inclinei a cabeça em sinal de concordância.

Spenlow, baloiçando o corpo sobre a ponta dos pés ou sobre os calcanhares, prosseguiu cada vez mais compungido:

- Ora eu não deixarei que as disposições tomadas em favor da minha filha sejam anuladas por uma loucura da mocidade, como esta. Porque é autêntica loucura, é uma infantilidade! Daqui a tempos não restará nada dela, como se tivesse sido uma bola de sabão. Mas eu podia... podia... se se não desfizesse esta tolice... proteger a minha filha e pôla ao abrigo das consequências de um casamento precipitado. Por isso, Copperfield, conto que não me obrigue a tanto. Não me obrigue a cancelar coisas que estão de há muito regularizadas.

Assim falando, mostrava uma aparência de serenidade perante a qual me sentia comovido, como se diante de um ameno pôr de Sol. Viao tão tranquilo, tão resignado! Sem dúvida que os seus negócios estavam em perfeita ordem, metodicamente estabelecidos. Até enternecia, só de pensar! Creio mesmo que lhe notei lágrimas nos olhos, impressionado ele próprio com a regularização da sua existência.

Que podia eu, no entanto, fazer? Não ia renegar Dora nem o meu coração. Spenlow aconselhoume uma semana de repouso para reflectir nas suas palavras. Como recusar, ainda que soubesse de antemão que um número infinito de semanas em nada alteraria um amor como o meu.

- Entretanto - disse ele - fale de tudo isto à senhora Trotwood ou a quem tiver experiência da vida. - Ajustou a gravata, com as duas mãos, e concluiu: - Aproveite a semana que lhe proponho, Copperfield.

Submetime. E, diligenciando dar ao rosto uma expressão de confiança desesperada, saí da sala. As sobrancelhas espessas da senhora Murdstone acompanharamme até à porta. (Digo sobrancelhas em vez de olhos porque elas avultam muito mais do que estes.) Acheia exactamente igual ao que fora, a essa mesma hora, em Blunderstone, e tanto que poderia supor que faltara de novo nas lições e que o peso morto que eu arrastava

era o tremendo livro de leitura com gravuras ovais, desenhadas de tal modo que na minha imaginação surgiam como lentes de óculos.

No tribunal, isoleime do velho Tiffey e dos outros, e senteime à minha secretária para meditar na catástrofe inesperada que se acabava de produzir, e para amaldiçoar o diabo do cachorro que a provocara. O meu tormento acerca de Dora tornouse de tal ordem que me admiro de não ter corrido imediatamente para Norwood. A ideia de que a assustariam, que a fariam chorar sem que eu estivesse presente para a consolar, crescia de forma tão angustiante que não me coibi de escrever uma carta desvairada ao doutor Spenlow para lhe suplicar que não descarregasse na rapariga as consequências do meu desatino. Imploreilhe que a poupasse, que não fizesse emurchecer uma flor frágil; enfim, faleilhe como se ele, em vez de ser um pai, fosse um lobo ou um dragão! Lacrei a epístola e coloqueia no gabinete do doutor, antes que este regressasse. E quando ele voltou, enxergueio, pela porta entreaberta, a pegar na carta e a abrila.

Não me dirigiu a palavra durante toda aquela manhã. Mas, antes de se ir embora, à tarde, chamoume e disseme que eu não tinha necessidade de me afligir quanto à felicidade da filha. Considerava tudo aquilo puerilidade e, como pai indulgente, não voltaria a tocarlhe no assunto. Quanto a mim, achava que me devia abster de qualquer solicitude em relação à rapariga.

- Se você, Copperfield, persistisse, eu vermeia obrigado a mandar de novo, e por algum tempo, a minha filha para o estrangeiro. Mas tenho melhor opinião a seu respeito. Espero que seja prudente. No que se refere à senhora Murdstone (eu aludira a ela na carta), respeito a sua vigilância e estoulhe grato; mas recomendeilhe que não tornasse a falar no assunto com a sua pupila. Tudo o que desejo, Copperfield, é que isto fique esquecido! A si compete principiar a esquecêla.

Ora eu, na carta que mandei a Julia Mills, empregava mais ou menos aqueles termos. Tudo o que devia fazer, repeti com amargo sarcasmo, era esquecer Dora. Era tudo, e tão pouca coisa, afinal! Pedia à senhora Mills que me recebesse nessa noite. Se a entrevista se não pudesse realizar com o consentimento do dono da casa, sugeria na carta um encontro clandestino no pátio onde havia a máquina de calandrar. Acrescentei que não confiava já no meu juízo e que só a amiga de Dora me poderia impedir de endoidecer de todo. Rematei assim: «O seu desesperado...» E, quando reli esta obraprima antes de a entregar ao portador, não deixei de pensar, sorrindo, que ela parecia saída da pena do senhor Micawber.

Todavia, despacheia. À noite, segui para a rua em que morava a senhora Mills e esperei até que a criada me viesse buscar, às escondidas, para me introduzir pela entrada de serviço.

Aliás, bem poderia ser recebido pela porta principal e ir até à sala se não fosse o pendor romanesco e misterioso de Julia Mills.

Nesse pátio, dei largas aos meus sentimentos. Fora ali para me tornar ridículo e tenho a certeza de que o fui. Ela recebera à última hora um bilhete garatujado à pressa por Dora, no qual participava que fora tudo descoberto. Terminava assim: «Vem depressa, Julia, vem!» Mas a destinatária, calculando que a sua presença lá não seria bem vista pelos adultos, deixarase ficar. E assim a noite nos envolveu, como o deserto do Sara.

Julia Mills era dotada de eloquência fora do vulgar e gostava de a expandir. Não pude impedirme de sentir, se bem que ela misturasse as suas lágrimas com as minhas, que extraía do nosso desgosto uma extraordinária volúpia. Saboreavao, acarinhavao por assim dizer. Um abismo, declarou, acabava de se abrir entre mim e Dora, o qual só poderia ser transposto pelo arcoíris do amor. O amor, neste mundo triste, estava destinado ao sofrimento. Sempre assim fora, e sempre assim havia de ser. Mas que importava! Os corações aprisionados em teias de aranha libertarseiam por fim, e o amor seria vingado.

Não era grande consolo, mas a senhora Mills não queria incutirme vãs esperanças. Tornoume ainda mais infeliz do que me sentia e compreendi (como lhe disse sinceramente) que a considerava amiga verdadeira. Resolvemos que Julia Mills fosse visitar Dora no dia seguinte, de manhã cedo, e que acharia maneira de lhe garantir, por palavras ou olhares, a minha devoção e o meu desespero. Separámonos acabrunhados pela dor. Creio que ela gozou essa dor até às fezes.

De regresso a casa, contei tudo à tia Betsey e, apesar dos seus lenitivos, deiteime desanimado. Levanteime ainda sob a impressão desse desânimo e fui direito ao tribunal. Era sábado.

Fiquei admirado, ao aproximarme da nossa banca, por ver os porteiros discutindo e meia dúzia de ociosos olhando para as janelas fechadas. Estuguei o passo e atravessando o grupo, sem compreender ainda o que acontecia, apresseime a entrar no edifício.

Os empregados estavam lá, mas não faziam nada. O velho Tiffey, talvez pela primeira vez na sua vida, sentarase na carteira de outro escrevente e esquecerase de pôr o chapéu no cabide.

- Que horrível calamidade, senhor Copperfield! - disseme ele.

- Que foi? Que aconteceu?

- Então não sabe? - exclamaram todos, rodeandome.

- Não - respondi, olhandoos sucessivamente.

- O doutor Spenlow... - começou Tiffey.

- E depois?

- Morreu!

Julguei ver oscilar as paredes do escritório, mas um dos empregados seguroume. Sentaramme numa cadeira e trouxeramme água. Não sei quanto tempo durou isto.

- Morreu? - repeti.

- Ontem jantou fora de casa e regressou sozinho no faetonte - explicou Tiffey. - Tinha mandado embora o cocheiro, pela diligência, como fazia muitas vezes.

- E...?

- A carruagem voltou vazia. Os cavalos pararam diante da porta da estrebaria. O moço saiu com uma lanterna e não viu ninguém dentro da carruagem.

- Os animais desbocaramse?

- Não estavam a transpirar - respondeu Tiffey, pondo os óculos. - Era como se tivessem andado em passo normal. As rédeas achavamse rebentadas, mas por se terem arrastado no chão. Acordaram toda a gente da casa, e três criados partiram para inspeccionar a estrada. Encontraram o doutor Spenlow a uma milha dali.

- Mais de uma milha, senhor Tiffey - corrigiu um dos escreventes mais novos.

- Tem a certeza? Sim, deve ter razão, a mais de uma milha, perto da igreja, estendido de cara para baixo, meio na berma, meio no caminho. Foi um ataque ou foi uma queda? Ou sentiuse mal e apeouse antes? Estava morto quando o descobriram ou apenas desmaiado? Ninguém sabe. Se ainda respirava, em todo o caso perdera o uso da fala. Chamaram logo um médico, que não o pôde salvar.

Não consigo descrever o estado em que esta notícia me pôs. O abalo causado por semelhante facto, sucedido subitamente a uma pessoa com quem me encontrava mais ou menos em litígio; o vácuo terrível do gabinete que ele ainda na véspera ocupara, em que a poltrona e a secretária pareciam esperálo e onde o que ele escrevera nessa altura se me afigurava já a obra de um fantasma; a impossibilidade absoluta de imaginar aquela banca sem a sua presença, e a sensação, sempre que a porta se abria, de que ele ia entrar; o silêncio e a imobilidade que reinavam no ambiente e o prazer insaciável com que os empregados contavam o caso a toda a gente de fora, que desfilava sem descanso para se refastelar de pormenores; nada disto é fácil de imaginar e muito menos de descrever. E o próprio ciúme da Morte que eu senti, pois a via expulsarme dos pensamentos de Dora! A inquietação ao lembrarme que ela chorava com outros e que outros a consolavam, o desejo avaro e egoísta de expulsar os estranhos e de ser tudo para a minha amada no momento mais inoportuno de todos os momentos!

Neste estado de espírito perturbado - que espero não fosse só meu e que outros o tenham também experimentado na vida - apresenteime naquela noite em Norwood. Sabendo por um criado, depois de haver tocado a sineta, que a senhora Mills se encontrava com a amiga, voltei a casa e pedi à tia Betsey

que escrevesse uma carta, que eu próprio ditei. Nela deplorava de todo o coração a morte do doutor Spenlow. Suplicávamos a Julia Mills que comunicasse a Dora (caso esta fosse capaz de a escutar) que ele me falara sempre com muita cortesia e bondade e que pronunciara o nome da filha com a maior ternura, sem uma única palavra de exprobração. Bem sei que me impelia apenas o desejo egoísta de lhe impingir o meu nome, mas tentei persuadirme de que praticava um acto de justiça para com a memória do defunto.

A tia recebeu no dia seguinte umas linhas de resposta, endereçadas a ela mas na realidade destinadas a mim. Dora estava prostrada com o desgosto, e, quando a amiga lhe perguntara se não tinha nenhum recado para David Copperfield, a rapariga dissera entre lágrimas (pois não cessava de as verter): «Oh, papá querido! Coitado do papá!» Todavia não proferira a palavra «não», e eu consoleime com esta certeza.

O doutor Jorkins, que se instalara em Norwood logo no dia seguinte, compareceu na banca uns dias depois. Fechouse com Tiffey durante uns minutos, no seu gabinete, até que o velho escrevente entreabriu a porta e me chamou.

- Copperfield - disseme o advogado - eu e o Tiffey estamos a verificar as gavetas e as pastas do meu colega para separar os documentos e ver se, entre eles, aparece algum testamento que ele tenha feito. Mas por enquanto nem vestígios. Quer ajudarnos?

Eu pensava com ansiedade qual seria a situação futura de Dora, quem deveria ser o seu tutor, etc. Talvez agora soubesse de tudo isso. Recomeçámos a busca. Jorkins abria as gavetas e retirava os papéis, que dividíamos, para um lado os da profissão e para outro os pessoais (que não eram muito abundantes). Fazíamos esse trabalho com recolhimento e, sempre que topávamos alguma coisa que nos recordasse o defunto, baixávamos a voz.

Já tínhamos formado alguns maços e continuávamos a tarefa no meio do silêncio e do pó, quando Jorkins nos disse, aplicando exactamente ao seu falecido sócio as palavras que este lhe consagrara:

- O doutor Spenlow raras vezes se afastava do ramerrao. Você sabe como ele era. Chego a crer que não fez testamento.

- Sei que fez! - exclamei. Pararam ambos e olharamme.

- No último dia em que lhe falei - prossegui - ele informoume de que fizera testamento e que as coisas estavam há muito tempo regularizadas.

Jorkins e Tiffey menearam a cabeça, significando comunidade de opinião.

- Não é animador - observou o escrevente.

- Mesmo nada - asentiu o advogado.

- Com certeza não duvidam de que... - comecei.

- Caro senhor Copperfield - disseme Tiffey, poisandome os dedos no braço e fechando os olhos com um gesto de cabeça - se estivesse há mais tempo nos Doctor's Commons saberia que não existe assunto em que os homens sejam mais inconsequentes e tão pouco dignos de confiança.

- Mas, meu Deus, isso foi precisamente o comentário que ele fez! - repliquei obstinado.

- Então é o mesmo que declarar que o caso está arrumado. Não há testamento, em minha opinião.

O facto pareceume extraordinário, mas a verdade é que não havia testamento. O doutor Spenlow nunca pensara em o fazer, a avaliar pelos seus papéis, porque não se encontrou nenhuma espécie de minuta, esboço ou o que quer que fosse. E o que não me espantou menos foi estarem os seus negócios na maior desordem. Era difícil saber o que devia, e o que fora pago, e o que ele possuía à sua morte. Achouse provável que nem fizesse ideia muito clara desse assunto, e isso já desde há muito tempo. Tornavase evidente que, para manter o seu nível na rivalidade que lavrava entre a gente daquele departamento em todas as questões de aparato e elegância, despendera mais do que lhe proporcionava a profissão e assim reduzira os bens pessoais (se algum dia foram avultados, o que se afigurava pouco crível) a uma soma muito pequena. Venderamse os móveis de Norwood, e transferiuse o arrendamento. Tiffey contoume, sem calcular o interesse que tinha para mim, que uma vez pagas as dívidas do defunto (feita a dedução da parte que lhe competiria nos créditos da firma, alguns duvidosos e discutíveis), o activo do doutor Spenlow não ultrapassaria as mil libras.

Isto passavase seis semanas depois do falecimento. Eu sofrera martírio durante esse mês e meio e cheguei por vezes a pensar pôr fim aos meus dias. A senhora Mills informoume de que a querida Dora, reduzida ao desespero, só dizia, quando pronunciavam defronte dela o meu nome: «Oh, pobre papá! Coitado do papá!» Participoume também que a parentela de Dora se limitava a duas tias, irmãs do pai, solteiras e residentes em Putney, as quais desde muitos anos quase nenhumas relações tinham com o irmão. Não que tivessem brigado (acrescentou Julia Mills) mas porque, tendo sido convidadas para o copod'água no dia do baptizado de Dora, não o foram para o jantar. Daí fazerem constar que, «para bem de uns e outros, mais valia conservaremse afastados». Depois disto, haviam seguido o seu próprio destino e o irmão seguira o dele.

Essas duas solteironas deixaram então o seu retiro e propuseram tomar conta de Dora. E Dora, agarrandose a elas, chorava e gemia: «Sim, sim, queridas tias! Levemme, e à Julia Mills, e ao Jip!» Deste modo seguiram todos para Putney, pouco tempo depois do enterro.

Nem eu sei como achava oportunidade de rondar, uma vez por outra, os arredores de Putney. A senhora Mills, para se desempenhar mais rigorosamente dos deveres da amizade, escrevia um diário. Não era raro vir ao meu encontro, à rua, para mo ler, ou (se não tinha tempo) para mo emprestar. Que tesouro para mim representava esse jornal, de que dou aqui um extracto!:

Segundafeira. A minha querida D... ainda muito abatida. Dores de cabeça. Chameilhe a atenção para o pêlo sedoso de J... Ela acariciouo. As recordações assim despertas reabriram as comportas do desgosto. Explosão de dor. As lágrimas serão o orvalho do coração?) J. M.

Terçafeira. D. adoentada e nervosa. Bela na Sua palidez. (Não será o mesmo quanto à Lua? D., J. M. e J. foram tomar ar, de carruagem. J., à portinhola, para ladrar a um varredor, provocou um sorriso nos lábios de D. (É destas frágeis malhas que se compõe a cadeia da vida!) J. M.

Quartafeira. D. relativamente alegre. Canteilhe uma ária apropriada: Os Sinos da Tarde. Efeito longe de ser apaziguador. D. indizivelmente comovida. Acheia instantes depois, no quarto, lavada em lágrimas. Citeilhe versos feitos a mim e a uma Gazela, pequena. Sem êxito. É alusão à Paciência num monumento. (Pergunta: Porquê num monumento?) J. M.

Quintafeira. D. parece que melhora. Progressos à noite. Leve rubor rosado nas faces. Decidime a mencionar o nome de D. C. Filo com precaução, durante um passeio. D. imediatamente agitada,. «Júlia, querida Júlia, como fui ingrata e desobediente!» Consoleia com afagos. Em seguida esbocei um retrato imaginário de D. C. levado à cova por desespero. D. de novo agitada. «Oh, que heide fazer? Levemme a qualquer parte!» Muito inquieta. Desmaiou. Fuilhe buscar um copo de água a um café. (Afinidade poética: na porta, como emblema, um tabuleiro de xadrez. A vida humana, jogo de vicissitudes!} J. M.

Sextafeira. Dia movimentado. Aparição à porta da casinha de um homem com um saco azul para levar «sapatos de senhora a conserto». A cozinheira vai indagar, deixando o homem só com J. À volta da mulher, ele torna a insistir, mas acaba por se ir embora. J. desapareceu. D. louca de aflição. Polícia prevenida. O homem pode ser identificado assim: nariz grosso, pernas como pilares de uma ponte. Buscas em todas as direcções. Nada de J. Inconsolável, D. chora. Nova alusão à Gazela pequena. Oportuna, mas infrutífera. Pela tarde, chegada de um rapaz de nariz grosso mas sem pilares. Pede uma libra para devolver o cão. Recusase a dizer mais, embora assediado de perguntas. D. entrega a libra. Ele leva a cozinheira a uma casita onde J., só, está amarrado à perna de uma mesa. Alegria de D. que dança em torno de J., enquanto este devora a sua ceia. Animada por esta mudança feliz, aproveitoa para falar de D. C., uma vez no quarto. D. chora de novo, suplicando:

«Oh, não, seria mal feito pensar noutra coisa além do meu querido papá!» Beija J. e adormece a chorar. (D. C. não deveria entregarse aos remígios poderosos do Tempo?) J. M.

A senhora Mills e o seu jornal foram as únicas consolações que tive nessa época. Vêla, a ela que acabava de ver Dora, descobrir a inicial do nome de Dora em todas as páginas do seu relato compassivo, eis o meu único reconforto. Tinha a impressão de haver vivido num castelo de cartas, que acabava de se desmoronar, deixando apenas a mim e a Júlia Mills entre as ruínas; tinha também a impressão de que um feiticeiro cruel traçara de roda da rainha inocente do meu coração um círculo mágico, o qual só essas asas poderosas, capazes de conduzir tanta gente através das procelas, me permitiriam fazer transpor!