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David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 35. DEPRESSÃO
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Logo que pude recuperar a presença de espírito que me abandonara por completo com a revelação inesperada da minha tia, propus ao senhor Dick que me seguisse até à mercearia e tomasse posse da cama que Daniel Peggotty acabava de deixar livre. A mercearia situavase em Hungerford Market, bairro muito diferente do que é hoje. Havia diante da porta uma colunata de madeira que foi do agrado do senhor Dick. A vaidade de morar junto dessa obra-prima bastava para o compensar de alguns inconvenientes; e como estes eram poucos (à parte a variedade de odores, de que já falei, e talvez certa falta de espaço) o homem apreciou a sua instalação. A senhora Crupp, indignada, afirmaralhe que era tudo acanhadíssimo, mas Dick conformouse depressa e sentouse ao pé da cama, afagando as pernas.

Tentei descobrir se ele fazia alguma ideia das causas que provocaram tão grande alteração, e tão súbita, no estado financeiro da senhora Trotwood; mas, como era de calcular, Dick não sabia nada. Tudo o que pôde dizerme foi que, na antevéspera, a tia lhe perguntara:

- Você é realmente o filósofo que eu julgo? Que sim, respondera. Então ela declararalhe:

- Dick, estou arruinada!

- Ah, sim? - volvera o filósofo.

A seguir a sua protectora encherao de elogios, com o que o agraciado se mostrou muito contente. Tinham, depois, vindo procurarme e, durante a viagem, comeram sanduíches e tomaram cerveja engarrafada.

Dick apresentava um ar tão satisfeito, sentado perto da cama, esfregando as pernas e contandome esses poucos pormenores, de olhos arregalados e o rosto banhado num sorriso de assombro, que eu (confesso penalizado) me senti disposto a explicarlhe que ruína significava miséria, necessidades, privações, mas fui duramente castigado da minha crueldade vendoo empalidecer e marejaremselhe os olhos de lágrimas, enquanto fixava em mim um olhar tão triste que enterneceria um coração mais empedernido que o meu. Custoume mais a consolálo do que me custara a causarlhe desolação. Depois compreendi (e já o devia saber de antemão) que a sua serenidade era apenas o reflexo da fé que depositava na mais extraordinária das mulheres e da confiança ilimitada nos meus recursos intelectuais. Contava com estes para todo e qualquer desastre que não fosse decididamente mortal.

- Que se vai fazer, Trot? - perguntou. - Há ainda o memorial...

- Com certeza - repliquei. - Mas, por agora, tudo o que podemos fazer, senhor Dick, é aparentar alegria e não dar a entender à senhora Trotwood que estamos a pensar no caso.

Consentiu com toda a seriedade e suplicoume que, se eu o visse afastarse, nem que fosse um nadinha, do bom caminho, o fizesse retroceder por um desses meios incomparáveis de que possuía o segredo. Mas lastimo observar que o medo que lhe incuti sublevou a todos os esforços que empreendeu para o dissimular. Toda a noite os seus olhos se poisaram na minha tia, repletos de apreensão, como se a visse desaparecer constantemente. Cônscio disto, tentou disfarçar, imobilizandose, porém o movimento dos olhos traíao a cada instante. À ceia, vio contemplar o pãozinho (na verdade, de reduzidas dimensões) como se representasse o prelúdio da miséria. Quando a tia insistiu por que comesse como de costume, surpreendio a guardar no bolso uma côdea e um pouco de queijo, que destinava, sem dúvida, a reanimarnos quando atingíssemos um estado avançado de inanição.

Pelo contrário, a senhora Trotwood continuava imperturbável, o que, bem me parece, nos serviu de lição, pelo menos a mim. Mostrouse simpática com a Peggotty, excepto quando eu tratava a minha criada por esse nome. Por mais deslocada que estivesse em Londres, sentiase perfeitamente à vontade. Devia ocupar o meu leito, e eu dormiria na sala, para lhe servir de guarda. Apreciava imensamente a proximidade do rio, para o caso de incêndio, e eu creio que ela encontrava nisso, de facto, verdadeira satisfação.

- Trot, meu filho - disseme ao ver que lhe ia preparar o vinho que usualmente ingeria à noite. - Não faças tal coisa.

- Não quer nada, tia Betsey?

- Vinho, não. Cerveja.

- Mas, aqui temos vinho. É a sua bebida costumada.

- Guardao para a hipótese de uma doença. Não desperdicemos, Trot. Bastame um pouco de cerveja.

Pensei que o senhor Dick ia perder os sentidos. Mas a tia mantevese inabalável e eu fui buscar a cerveja. Como já era tarde, ele aproveitou a ocasião para recolher aos seus aposentos por cima da mercearia. Deixei à esquina da rua o pobre homem, genuína imagem do desespero, com o enorme papagaio de papel às costas.

Encontrei a senhora Trotwood a andar cá e lá no quarto, quando voltei, compondo com os dedos os cantos da touca de dormir. Amornei a cerveja e fiz a torrada, segundo os preceitos infalíveis e tradicionais. Uma vez tudo pronto, e ela também, com a touca na cabeça e a saia arregaçada até aos joelhos, disseme a tia Betsey, depois de provar a bebida:

- Meu filho, isto é muito melhor do que o vinho. Pelo menos,

menos indigesto. - Vendo o meu ar céptico, aduziu: - Se não nos acontecer coisa pior, podemonos considerar felizes.

- No que me diz respeito, acredito plenamente - respondi.

- E por que não crês quanto ao resto?

- Porque nós somos muito diferentes um do outro.

- Ora adeus!

A tia continuou, com o seu ar de satisfação pacata, um tanto afectada (se realmente o era), a tomar a cerveja tépida às colherinhas e a molhar aí fatias de pão torrado.

- Trot, não gosto geralmente de caras novas, mas agradame

a tua Barkis.

- Ouvila dizer isso regozijame mais do que receber uma oferta de cem libras!

- Este mundo é esquisito - retorquiu, esfregando o nariz. - Não compreendo como essa mulher pôde vir a ele com semelhante nome. Seria mais fácil nascer Jackson, ou algo de parecido.

- Talvez seja também a opinião dela. Mas não o pôde evitar.

- Suponho que não - concordou a tia, embora de má vontade. - Mas olha que é vexatório! Enfim, agora chamase Barkis, sempre lhe servirá de consolação. A Barkis estimate deveras,

Trot.

- E faria tudo para nolo provar, tia Betsey.

- Acredito. A pobre criatura insistiu comigo para que aceitasse dinheiro seu, de que dispõe com abundância. Uma simplória!

As lágrimas de prazer da tia chegavam a cair no copo de

cerveja.

- É a criatura mais ridícula que Deus deitou ao mundo - prosseguiu ela. - Percebio logo quando a vi com essa pobre criança que era a tua mãe. Mas tem o seu lado bom, esta Barkis. - Fingiu rir, e aproveitou o ensejo para levar a mão aos olhos. Depois recomeçou a comer a torrada e a expender as suas opiniões. - Ah, Trot, eu sei tudo! Eu e Barkis conversámos enquanto saíste com o Dick. Sei tudo. Que julgarão poder vir a ser, essas pobres raparigas? Admirome de que não quebrem a cabeça de encontro... ao fogão - concluiu, ideia que lhe foi sugerida provavelmente pela contemplação do meu.

- Coitada da Emily! - murmurei.

- Coitada, não. Devia ter pensado um pouco antes de se meter numa aventura dessas. Dáme um beijo, Trot. Lamento que conhecesses tão cedo os sofrimentos da existência.

Como eu me inclinasse, ela poisoume o copo nos joelhos, a fim de evitar que me fosse embora; e disse:

- Ah, Trot, Trot... consideraste assim apaixonado?

- Considerarme apaixonado? Oh, tia, amo Dora de todo o

coração!

- Sim, amas Dora. E vais dizerme, naturalmente, que essa

pequena é sedutora em extremo.

- Ninguém pode fazer ideia de como ela é.

- Não será patetinha?

- Qual!

Creio sinceramente que nunca se me formulara na mente semelhante problema. A simples ideia magooume; no entanto, feriume também por ser tão inesperada.

- Nem frívola?

- Frívola, minha tia?! - repeti, e, com igual vigor, repudiei uma suposição tão errónea.

- Está bem, Trot. Eram apenas perguntas. Não quero diminuíla. Pobre casalinho! Com que então julgamse feitos um para o outro e destinados a se completarem na vida?

Disseme isto com tal expressão de bondade e doçura, meio divertida meio triste, que fiquei de todo enternecido.

- Somos novos e inexperientes - repliquei. - E sei também que pensamos e dizemos muitas tolices. Mas o nosso amor é sincero, disto é que não tenho dúvida nenhuma. Nem sei o que faria se Dora deixasse o meu amor por outro ou se tal acontecesse a mim. Enlouqueceria, pareceme.

Abanando a cabeça, sorrindo pensativamente, a tia Betsey murmurou:

- Ah, Trot! Cego que és! - Suspendeuse e daí a instantes acrescentou: - Conheço alguém que, embora de carácter maleável, tem grande seriedade nas feições, o que me faz lembrar a tua mãe. Seriedade é o que a gente precisa para que se mantenha e progrida. Seriedade profunda, completa, leal.

- Se a tia conhecesse a seriedade de Dora... - observei.

- Ah, Trot, cego que és - repetiu. - Cego!

E, sem saber porquê, senti uma impressão vaga e triste de fracasso passar sobre mim, como a sombra de uma nuvem.

- Não quero, todavia - acrescentou ela - tirar as ilusões a dois moços, nem tornálos infelizes. Por isso, apesar de ser apenas um amor de crianças, e apesar de geralmente (atenção, não digo sempre) tais amores não conduzirem a nada, falaremos disso a sério. Esperemos, mais dia menos dia, um desfecho venturoso. Há todo o tempo para esperar.

Isto, em resumo, não era muito animador para um apaixonado como eu; mas fiquei satisfeito por ter posto a tia no segredo do caso. Pensei que estivesse fatigada e agradecilhe profundamente essa prova de afecto e todas as outras atenções que tivera comigo. Depois de uma despedida terna, vi a sua touca de dormir desaparecer na obscuridade do meu quarto.

Uma vez deitado, quanta angústia sofri! Pensava e repensava na minha pobreza e no que imaginaria a esse respeito o doutor Spenlow. A verdade é que eu já não era o que julgara ser quando tinha falado com Dora: devia confessarlhe, cavalheirescamente, qual a minha presente situação material e restituirlhe a palavra,

se ela o quisesse. Pensava também em como viveria até ao termo do meu estágio (visto ainda não ganhar), e no que poderia fazer para auxiliar a tia. Ficaria reduzido à última penúria, com um sobretudo esfiapado, sem possibilidade de oferecer a Dora fosse o que fosse, de montar belos cavalos, de me mostrar como até aí? Amava tanto Dora! No fundo, considerava vileza preocuparme mais com o meu futuro do que com a sorte da senhora Trotwood; mas o egoismo surgiame como inseparável da ideia da minha amada. Enfim, passei uma noite terrível. No pouco que dormi, sonhei com a miséria debaixo de todas as formas; ora, andrajoso, ia à porta da casa de Dora vender pacotes de fósforos, seis por meio dinheiro; ora, de roupão e chinelas, recebia o público na banca dos advogados Spenlow e Jorkins e era severamente admoestado pelo primeiro; ora me precipitava para apanhar as migalhas do pão quotidiano que o escrevente Tiffey comia pontualmente quando o relógio de São Paulo soava a hora do almoço; ora tentava, debalde, obter licença para desposar Dora, sem ter nada com que a pagasse senão uma luva de Uriah Heep. Mas, no meio de tudo isto, conservei sempre a consciência de estar na minha casa, agitandome como um navio em apuros, num mar de roupa de cama. A tia passou uma noite igualmente agitada, pois a ouvi, por várias vezes, andar de um lado para outro no quarto. De tempos a tempos, embrulhada num penteador de flanela, apareceu na sala e, como uma alma penada, aproximouse do sofá em que eu me deitara. Da primeira vez soerguime assustado: participoume ela, então, que certo reflexo no céu lhe fizera suspeitar que a abadia de Westminster estava em chamas; desejava consultarme quanto à probabilidade de o incêndio se comunicar à Buckingham Street, impelido pelo vento. Mas, como eu não tugisse nem mugisse, sentouse à minha beira e murmurou: «Pobre pequeno!», o que me tornou vinte vezes mais infeliz, pois via a que ponto ela se preocupava comigo, ao passo que eu, egoisticamente, só pensava em mim.

Parecia difícil acreditar que uma noite tão comprida para uns pudesse ser curta para outros. Esta reflexão trouxeme ao espírito uma festa em que as pessoas passassem o tempo a dançar, e isto transformouse, a pouco e pouco, num sonho. Ouvi música que tocava sempre a mesma coisa, e vi Dora enlevada sempre numa dança, sem me prestar a mínima atenção. O homem que toda a noite desferira as cordas da harpa tentava em vão cobrir o instrumento com um barrete de dormir. Finalmente despertei (ou melhor, renunciei a lutar contra a insónia) e dei conta de que o sol me entrava pela janela.

Havia, ao fundo de uma das ruas que dão para a Strand, uns antigos banhos romanos, de que costumava servirme. Depois de me vestir à pressa e de deixar à Peggotty o cuidado de se ocupar da senhora Trotwood, fui dar um mergulho na água fria

desse balneário e em seguida segui para Hampstead. Esperava que aquele tratamento enérgico me refrescasse as ideias, e creio que, de facto, me fez bem, porque cheguei depressa à conclusão de que devia, em primeiro lugar, propor a anulação do meu contrato de estagiário e obter o reembolso de parte do pagamento feito. Almocei em Hampstead, encaminheime para os Doctor's Commons através de ruas regadas de fresco e aromatizadas pelas flores que as revendedoras levavam à cabeça, e alcancei o cartório - tão cedo ainda que tive de passear por meia hora nas imediações, antes que Tiffey (sempre o primeiro a chegar) aparecesse com a sua chave. Senteime no meu canto obscuro e contemplei o sol que brilhava nas chaminés do lado fronteiro; pensava em Dora, quando vi surgir o doutor Spenlow, de ponto em branco.

- Bom dia, Copperfield. Que linda manhã!

- É verdade, senhor doutor. Permiteme uma palavrinha antes de ir ao tribunal?

- Sem dúvida. Vamos para o meu gabinete.

Seguio até lá. O doutor Spenlow envergou a toga e fez uns últimos retoques ao traje diante de um espelhinho na parte interior da porta de um armário.

- Lamento informálo - comecei - que tenho notícias desagradáveis a respeito da minha tia.

- Meu Deus! Espero, ao menos, que não seja paralisia.

- Não se referem à saúde - repliquei. - Acaba de perder muito dinheiro. Para dizer tudo, está arruinada.

- Você deixame sem fôlego, Copperfield! - exclamou o advogado.

- Pois é verdade, senhor doutor. Os negócios dela tomaram tão mau rumo que lhe pergunto se é possível... naturalmente sacrificando uma percentagem - acrescentei, sob inspiração momentânea, vendoo mudar de expressão - ... cancelar o nosso contrato...

Bem se Imagina quanto me custou propor semelhante coisa. Tanto como se pedisse, por favor, que me afastassem para sempre de Dora.

- Cancelar o contrato? - repetiu ele.

Expliqueilhe então, com mais clareza, que não sabia como poderia subsistir, a não ser arranjando um emprego com que ganhasse a vida. Não receava o futuro, ajuntei, e insisti neste ponto para o fazer compreender que não deixava de ser um genro, para uma data mais ou menos próxima. Todavia, na ocasião, só me era possível contar comigo mesmo.

- Sinto muito saber tudo isso, Copperfield - respondeu o doutor Spenlow. - Sinto deveras. Não é costume cancelar um contrato por motivos dessa ordem. Foge às nossas tradições, e abrir um precedente traria inconvenientes. Entretanto...

- É muito bondoso, senhor doutor - murmurei, na esperança de uma concessão.

- Nem por isso. Não vale a pena falar de mim. Entretanto, ia eu dizendo, se eu fosse só, se não tivesse um sócio... o doutor Jorkins...

Acabaramseme as esperanças. Contudo, tentei novo esforço.

- Não acha que, se eu falasse com o doutor Jorkins...? Spenlow oscilou a cabeça de forma desanimadora.

- Deus me livre, Copperfield, de agravar seja quem for... sobretudo um colega. Conheço bem o doutor Jorkins: não será pessoa para compreender uma proposta dessa natureza; é difícil fazêlo sair da rotina. Você sabe como ele é!

Eu, é claro, nada sabia a seu respeito, a não ser que fora o fundador daquela banca e que vivia perto do Montagu Square, num prédio muito maltratado do tempo; que chegava tarde e se demorava pouco; que ninguém parecia consultálo fosse no que fosse; que o seu gabinete era um cubículo hediondo no andar de cima, onde se não resolvia nada e sobre cuja secretária existia uma agenda há vinte anos intacta.

- Vê algum inconveniente em que eu lhe fale? - perguntei.

- Nenhum - redarguiu Spenlow. - Mas, como disse, conheço

bem o doutor Jorkins. Gostava que ele fosse diferente, porque teria prazer em conformarme com a sua vontade, Copperfield. Contudo, não posso objectar a que você lhe fale, se acha que isso tem alguma

utilidade.

Aproveitando aquela autorização, dada com um aperto de mão caloroso, tornei a sentarme, pensando em Dora e olhando para o sol, que deixava as chaminés dos prédios fronteiros e descia pela parede. Assim estive até à vinda do doutor Jorkins. Subi então ao seu gabinete e causei ao advogado o maior espanto com a minha presença inesperada.

- É você, Copperfield!

Entrei, senteime e expus o meu caso, mais ou menos nos mesmos termos com que o fizera ao sócio. Jorkins não era nada a personagem assustadora que se podia supor; tratavase de um senhor dos seus sessenta anos, alto e moderado, de rosto plácido, e que consumia tanto rapé que se dizia no tribunal viver ele desse estimulante: parecia não haver no seu organismo mais espaço para outro alimento.

- Creio que explicou isso ao doutor Spenlow - observou Jorkins, depois de me ter escutado até ao fim, com certa agitação, devo acrescentar.

Respondi afirmativamente e notei que o colega me sugerira o

seu nome.

- Disse que eu havia de me opor, não é verdade?

Fui obrigado a confessar que o doutor Spenlow achara essa opinião provável.

- Lamento responderlhe, Copperfield, que não posso concordar com o seu projecto... Mas tenho uma entrevista no Banco e peçoLhe me desculpe...

Com isto levantouse à pressa e ia a sair quando me atrevi a dizerlhe que, vistos os factos, não havia maneira de se arranjar a coisa...

- Pois não! - declarou, detendose à porta e abanando a cabeça. - Não. Oponhome, como vê. - E acrescentou já no corredor, lançando um olhar inquieto ao gabinete: - Se o doutor Spenlow recusa...

- Pessoalmente não se recusa, senhor doutor.

- Oh, pessoalmente! - repetiu Jorkins, sempre impaciente. - Afiançolhe que há um obstáculo, Copperfield. É inútil. O que você deseja não se pode fazer... e eu agora tenho uma entrevista no Banco.

Desta vez foise embora sem parar, e, se não me engano, esteve três dias sem reaparecer nos Doctor's Commons.

Ansioso por tentar tudo, esperei o regresso de Spenlow e conteilhe o que se passara, dandolhe a entender que não desesperava: talvez ele pudesse convencer o inflexível doutor Jorkins, se quisesse tomar a seu cargo essa tarefa.

- Copperfield - respondeu Spenlow com um sorriso amável - você não conhece o meu sócio tão bem como eu. Longe de mim atribuir ao doutor Jorkins a mínima astúcia. Ele o que tem é uma forma de expor as suas objecções que muitas vezes chega a iludir. Não, Copperfield - concluiu, meneando a cabeça - Jorkins não se deixará abalar, acrediteme.

Entre um e outro eu perdiame por completo e não sabia de qual dos dois vinha afinal a oposição. Mas compreendi que a barreira era difícil de transpor e que não seria fácil reembolsarme das mil libras da tia Betsey. Foi mergulhado neste desânimo que abandonei nesse dia o escritório e voltei para casa.

Procurava habituarme ao pior e imaginar que resoluções se deviam tomar para um futuro que se antolhava tão sombrio, quando me ultrapassou um trem. Olhei para dentro do veículo, que acabava de parar, e vi que, por cima da portinhola, se me estendia uma mão delicada. Ao mesmo tempo fitavame o olhar de um rosto sorridente, que eu conhecia e que jamais contemplava sem um sentimento de segurança - desde o dia em que se voltara para mim na velha escadaria de carvalho, de corrimão maciço, e que a sua beleza se associara no meu espírito ao vitral da igreja.

- Agnes! - exclamei radiante de alegria. - Oh, querida amiga, que prazer em vêla! Logo você!

- Palavra? - disse ela com a sua voz cordial.

- Precisava tanto de falar consigo! Sintome de coração aliviado só de olhar para si. Tivesse eu uma varinha de condão e formulava o desejo de a ver.

- Hem?

- É como lhe digo: mas talvez, em primeiro lugar, quisesse ver Dora - confessei, corando.

- Agora sim - replicou Agnes, rindo.

- Mas você em seguida. Para onde vai?

Ia visitar a minha tia. O tempo estava bonito e Agnes saiu com prazer do trem, que mandou embora, tomoume o braço e caminhámos juntos. Agnes era para mim a incarnação da Esperança. Considereime logo outro homem.

A senhora Trotwood escreveralhe uma das suas cartas estranhas e lacónicas, a que se limitava em geral o esforço epistolar que fazia: anunciavalhe que caíra na adversidade e que deixara Dover para sempre; todavia tomara as necessárias disposições e estava tão bem que ninguém devia incomodarse por sua causa. Agnes viera a Londres para a visitar, pois havia anos as ligava uma simpatia recíproca, precisamente desde a época em que eu me instalara em casa do doutor Wickfield. Não se encontrava só, acrescentou: tinha chegado com o pai e com... Uriah Heep.

- Eilos então associados! - comentei. - Diabos o levem!

- Pois é verdade - confirmou Agnes. - Precisavam de tratar aqui de um processo e eu aproveitei para vir também. Não julgue que a minha visita seja apenas amigável e desinteressada, Trot, pois (lamento ter certas prevenções que podem ser injustas) não gosto de deixar partir o meu pai sozinho com ele.

- Exerce sempre a mesma influência sobre o doutor Wickfield? Agnes fez sinal afirmativo com a cabeça.

- A casa mudou tanto que você não a reconheceria. Eles estão agora lá instalados.

- Eles quem?

- Heep e a mãe. Heep dorme no seu antigo quarto, Trot - explicou Agnes erguendo os olhos para mim.

- Se ao menos eu pudesse destinarlhe os sonhos! - murmurei. - O homem não dormiria lá muito tempo.

- Conservei uma saleta onde dava lições. Como o tempo passa! Lembrase? É aquela forrada de lambrins, que liga com a sala grande...

- Se me lembro, Agnes! A primeira vez que a vi não foi defronte dessa porta? Você tinha o seu chaveiro...

- Ainda o tenho - disse ela sorrindo. - Foi bom ter guardado essa recordação agradável. Éramos tão felizes!

- É verdade.

- Pois conservo a tal saleta para mim. Contudo, não posso deixar a senhora Heep sempre só. Compreende, Trot? Sou obrigada a fazerlhe companhia, nos momentos em que preferia estar desacompanhada. Outras razões de queixa não tenho. É claro que me fatiga às vezes com os elogios que faz do filho, no entanto naturais numa mãe. Ele, afinal, é bom filho.

Ao ouvir estas palavras, olhei para Agnes, porém não lhe surprendi nenhum reflexo dos anseios de Uriah. O seu olhar suave mas sério encontrou o meu e o rosto calmo não se modificou.

- O inconveniente principal da presença deles lá em casa é que não posso estar com o papá tanto quanto desejo... Uriah surge sempre de permeio... Desejaria cuidar do meu pai com maior solicitude... Se tentarem qualquer traição ou dolo contra a sua pessoa, espero que o amor e a sinceridade acabem por triunfar. Creio que esse triunfo é sempre certo sobre todas as injustiças e desgraças deste mundo.

Esse sorriso radioso, que nunca vi noutro rosto senão no seu, acabou por se extinguir no próprio momento em que eu pensava quanto era bom vêlo e quão familiar me fora outrora. Agnes perguntoume, mudando bruscamente de expressão (estávamos muito perto da minha rua), se eu sabia o que originara o revés da tia Betsey. Respondilhe que não, que ela ainda me não contara, e Agnes tornouse pensativa; pareceume sentir o seu braço tremer no meu.

Encontrámos a senhora Trotwood sozinha e bastante agitada. Entre ela e a senhora Crupp levantarase divergência de opinião acerca de um assunto abstracto (saber se era conveniente para o sexo fraco viver em quartos mobilados), e a tia, absolutamente alheia aos espasmos da senhora Crupp, cortara cerce a conversa declarandolhe que ela cheirava ao rum do sobrinho (eu, evidentemente) e mandandoa sair do quarto. Estes dois factos foram considerados insultuosos pela dona da casa, que participou a sua resolução de recorrer aos tribunais.

Entretanto a tia, acalmandose nesse meiotempo (a outra fora mostrar ao senhor Dick os soldados da polícia montada) e satisfeita por ver Agnes Wickfield, recebeunos de muito bom humor, que a própria história anterior lhe devolvia fortalecido. Quando a visita pôs o chapéu em cima da mesa e se sentou ao lado da senhora Trotwood, eu não pude deixar de compreender quanto o olhar luminoso da rapariga e a sua presença gentil continham de naturalidade. Apesar de se tratar de uma pessoa tão nova, inspirava à minha tia grande confiança, acrescida dos valores da afeição e da sinceridade.

Começámos a falar da perda de dinheiro e eu conteilhe as minhas tentativas dessa manhã.

- Foste pouco sensato, mas bem intencionado - observou a senhora Trotwood. - És rapaz generoso (suponho que já devia dizer homem) e eu orgulhome de ti. Por esse lado vai tudo bem. Trot e Agnes, enfrentemos o meu caso, analisemos os factos.

Vi Agnes empalidecer, olhando atentamente para a tia Betsey. Esta, afagando o gato, olhava por seu turno para a rapariga.

- Eu possuía certos bens - continuou. - Não importa qual o valor exacto. Enfim, o bastante para viver, e até mais, porque consegui economizar. De início, comprei fundos do Estado, depois, a conselho do meu procurador, coloquei o dinheiro em hipotecas. Os juros foram compensadores. Um dia, recuperei o capital e tive necessidade de arranjar nova colocação. Como o procurador já não estava tão esperto como era (falo do teu pai, Agnes), decidi ser mais inteligente do que os homens de negócios e optei pelo mercado estrangeiro. É, aparentemente, um péssimo mercado. Perdi, de começo, nas minas, em seguida nas pescarias... pesca de tesouros, feita por mergulhadores... uma história disparatada, à Tom Tiddeler - acrescentou, esfregando o nariz. - E novamente perdi nas minas, e por fim, como último recurso, perdi nos Bancos. Não explico a que se elevaram os dividendos durante certo tempo, nunca menos de cem por cento, pareceme. Mas o Banco ficava no outro extremo do mundo e, tanto quanto sei, evaporouse. Nunca mais pagou absolutamente nada! Ora eu tinha lá tudo quanto possuía. Pronto. Quanto menos se falar no caso, tanto melhor.

A senhora Trotwood terminou este resumo filosófico da sua situação fitando Agnes Wickfield (que retomava a pouco e pouco as cores) com um ar que se podia classificar de triunfo.

- Foi isso realmente o que aconteceu? - perguntou a rapariga.

- Querida Agnes, pareceme que chega. Se ainda houvesse dinheiro para perder, a história continuava. Eu teria descoberto nova colocação e assim se abriria outro capítulo. Mas como o dinheiro se esgotou, a história acabouse.

Agnes principiara por escutar com a respiração opressa. As faces empalideciam e purpurizavamse alternadamente, mas já não se sentia tão sufocada. Pensei que tinha receio de ouvir que o pai fosse responsável, embora em pequeno grau, pelo que acontecera à amiga. A senhora Trotwood tomoulhe as mãos nas suas e desatou a rir.

- Se foi isto, realmente? A não ser que acrescente ainda: vivi muito e fui feliz. Agora, tu, Agnes, que és pessoa de bom senso, e tu, Trot, que também és em certo sentido, embora às vezes... - e a tia abanou a cabeça, fitando-me - oiçam o que vou fazer. A vivenda pode render umas setenta libras por ano. Acho que é possível contar com isto. Pronto, é tudo o que me resta - concluiu. Como alguns cavalos, ela tinha a particularidade de estacar quando se supunha que iam bem lançados numa corrida.

- E também - recomeçou ela, depois dessa pausa -, há o senhor Dick. Recebe cem libras anuais, mas, naturalmente, para seu uso pessoal. Preferia mandálo embora (se bem que eu seja o único ente que o aprecia) em vez de o conservar e gastar

com ele todo o seu dinheiro. Como será que eu e Trot nos arranjaremos, com os meios de que disponho? Que te parece, Agnes?

- A mim pareceme - atalhei - que devo fazer qualquer coisa.

- Alistareste na tropa, é o que queres dizer? - acudiu ela. - Ou embarcar? Não me fales disso. Serás solicitador. Na nossa família não se perde a cabeça, ouviste?

Eu ia explicar que não tencionava seguir aquela carreira quando Agnes perguntou se os meus aposentos estavam alugados por um prazo longo.

- Aí é que bate o ponto, minha filha - disse a tia Betsey. - Não podemos largálos antes de seis meses, a não ser que se consiga sublocálos, o que não espero. O último inquilino morreu aqui. Esta mulher de corpete de algodão e saia de flanela bastaria, tenho a certeza, para matar cinco pessoas ou seis. Trago um pouco de dinheiro comigo e penso, como tu, que o melhor é aguardar o termo do contrato e arranjar um quarto para Dick, nestas imediações.

Achei do meu dever aludir à guerra aberta que se estabeleceria entre ela e a senhora Crupp; mas a tia afastou esta objecção declarando que, à primeira manifestação de hostilidade, espantaria a senhora Crupp para o resto dos seus dias.

- Pensei, Trot - observou Agnes - que se você tivesse tempo...

- Disponho de muito tempo - informeia. - Estou sempre livre depois das quatro ou cinco horas, e de manhã cedo também. De qualquer maneira - acrescentei, sentindome ruborizar à ideia das minhas caminhadas pela estrada de Norwood -, sobrame bastante tempo.

- Sei que um lugar de secretário lhe não desagradaria - replicou Agnes, aproximandose e falando com voz baixa tão animadora e tão delicada que ainda julgo ouvila.

- Me não desagradaria, querida Agnes?

- É que o doutor Strong - prosseguiu ela - já se aposentou, como tencionava, e veio instalarse em Londres. Sei que pediu ao meu pai lhe recomendasse um secretário. Não acha que ele gostaria mais de ter consigo o seu aluno predilecto do que outro qualquer?

- Oh, querida Agnes! Que seria eu sem você? É sempre o meu anjo bom. Já o disse. É só nestes termos que eu me refiro a si.

Agnes respondeume com o seu sorriso calmo, dizendo que bastava um único anjo bom (alusão a Dora). Depois lembroume de que o doutor Strong costumava trabalhar no seu escritório de manhã cedo, e à noite: provavelmente as minhas horas vagas convirlheiam. Agradavame ganhar não só na profissão como também trabalhando com o velho professor; em suma, aconselhado por Agnes, escrevi uma carta ao doutor Strong expondolhe os meus desejos e a intenção de o visitar no dia seguinte, às dez horas. E dirigi a carta para Highgate (pois era nesse lugar,

tão memorável para mim, que ele vivia). Sem perder um minuto, fui levar a carta ao correio.

Em qualquer parte em que Agnes se encontrasse, aí se notava um sinal agradável da sua presença silenciosa. Quando voltei, vi os pássaros da tia Betsey empoleirados, como haviam estado durante muito tempo à janela da sala de Dover. A minha poltrona figurava defronte da janela aberta, assim como a da minha tia, muito mais confortável. Até o anteparo verde (que ela trouxera) se ostentava já no peitoril. Eu sabia quem colocara ali todos estes objectos, que tinham o ar de se haverem disposto por si próprios; e adivinharia quem distribuíra, na bela ordem de outro tempo, os meus livros abandonados, ainda que julgasse estar Agnes a muitas milhas de distância.

A senhora Trotwood apreciava imensamente o Tamisa (que, na verdade, aparentava excelente aspecto aos raios solares, embora não valesse tanto como o mar em frente da vivenda de Dover), mas não podia desculpar o fumo de Londres que, segundo dizia, tinha a função de «apimentar tudo». Uma verdadeira revolução, na qual Peggotty representava o papel principal, operavase em todos os cantos dos meus aposentos, em consequência desses efeitos fuliginosos: e eu pensei como Peggotty parecia fazer pouco trabalho agitandose muito, ao passo que Agnes fazia tanto sem a menor agitação! Nesse momento bateram à porta. - Deve ser o meu pai. Prometeu vir - disse Agnes. Abri a porta e deixei entrar os recémvindos: era não só o doutor Wickfield como também Uriah Heep. Havia muito tempo que eu não via o advogado e esperava encontrálo mudado, depois do que a filha me dissera; mas não pensava que fosse tanto! Não que parecesse muito envelhecido (o vestuário era sempre impecável); nem pela vermelhidão malsã que lhe coloria a cara, nem porque tivesse os olhos lacrimejantes injectados de sangue; nem pelo tremor nervoso das mãos, cuja causa eu não ignorava e que já principiara anos atrás. Também não era por ter perdido a beleza das feições ou a nobreza do porte (pois conservava uma e outra); mas o que me impressionou deveras foi ver que, mau grado os sinais ainda evidentes da sua superioridade inata, ele se submetia a esse indivíduo que representava a incarnação servil da mediocridade: Uriah Heep. A troca de posições dos dois - Uriah o superior, Wickfield o inferior - constituía para mim um espectáculo dos mais confrangedores. Se eu tivesse visto um homem às ordens de um macaco, isso não seria para mim mais degradante do que o caso presente.

Ele próprio parecia darse conta do facto. Ao entrar, permaneceu de pé, imóvel, de cabeça curvada; isto, porém, durou só um instante. Agnes faloulhe brandamente:

- Papá! Está aqui a senhora Trotwood, com o sobrinho. Não os vê há muito tempo.

Ele então aproximouse, apertou com ar submisso a mão da tia Betsey e mais cordialmente a minha. Entretanto eu vira o rosto de Uriah exibir um sorriso maligno. Agnes notouo igualmente, suponho, porque se afastou. Quanto ao que a tia viu ou não viu, isso nem o melhor fisiognomónico do mundo poderia dizer. Creio que nunca houve semblante mais impassível que o dela. A senhora Trotwood quebrou o silêncio que se estabelecera, exprimindose com a costumada brusquidão:

- Ora viva, Wickfield. (Este olhoua pela primeira vez.) - Acabo de contar à sua filha o belo uso que fiz do meu dinheiro, depois que o senhor deixou de se ocupar disso. Deliberámos já e chegámos a uma conclusão. Agnes, em meu entender, vale por meia dúzia de advogados.

- Se posso dar humildemente uma opinião - disse Uriah Heep - é que subscrevo a da senhora Trotwood a respeito da menina Agnes. Vale a pena têla como sócia!

- Como vai? - replicou a tia. - O senhor já é sócio, e isso deve bastarlhe.

Uriah Heep, apertando constrangido a pasta que trazia, declarou que estava bem, que agradecia o interesse da senhora Trotwood e que esperava achála também da melhor saúde. E acrescentou:

- Quanto ao menino David... devia dizer senhor Copperfield... confio em que se encontra optimamente. Tenho muito gosto em tornar a vêlo, mesmo nestas tristes circunstâncias. - No fundo, regozijavase, tenho a certeza. - Mas não é o dinheiro o principal na vida, senhor Copperfield. Na realidade, as minhas modestas faculdades não me permitem explicar melhor - rematou ele, ao mesmo tempo que o corpo, agitado por um abalo nervoso, tomava uma atitude servil.

Concluído o discurso, apertou a minha mão, não como toda a gente, mas sacudindoa a distância, de alto a baixo, como a picota de uma bomba de que se tivesse certo receio em manejar. Em seguida iniciou outra oração:

- Não acha o doutor Wickfield com esplêndido aspecto? Os anos passam sem deixar marca na nossa casa, senhor Copperfield, a não ser que elevam os humildes... isto é, minha mãe e eu - ajuntou. - E também fazem desabrochar a beleza, isto é, a menina Agnes...

Fez tal trejeito após este madrigal que a tia Betsey, que o observava, perdeu por completo a paciência.

- Diabos o levem! - exclamou. - Que é que tem? Choques eléctricos?

- Desculpe, senhora Trotwood - respondeu Uriah. - Compreendo que esteja nervosa.

- Deixeme em paz! - intimou a tia Betsey, cada vez mais irritada - e não torne a chamarme nervosa, que não sou.

Se o senhor é enguia, então proceda como uma enguia; mas, se é homem, tome cuidado com os gestos! - concluiu a tia, furiosissima. - Não consinto que um sacarolhas... ou uma serpente... me faça perder a cabeça.

Heep, como aconteceria a outro qualquer no seu lugar, ficou desconcertado com aquela explosão, cujo efeito foi ainda consideravelmente aumentado pela raiva que a tia manifestava. Betsey agitavase na cadeira e brandia a cabeça como se fosse atirarse a ele. Mas Heep chamoume de parte para dizer com voz humilde:

- Bem sei, senhor Copperfield, que a senhora Trotwood, excelente pessoa como é, possui um génio irascível. Conhecia antes do senhor, quando eu era modesto empregado, e não admira que a situação actual lhe provoque o mau humor. Até me espanta que não esteja pior. Vim apenas dizer que, se lhe pudermos ser úteis nas circunstâncias presentes, eu, ou minha mãe, ou o escritório de Wickfield & Heep, ficaremos muito satisfeitos. Posso falar assim, não é verdade? - perguntou ao doutor Wickfield.

- Uriah Heep - explicou este com ar constrangido - desempenha na casa um papel muito activo. Apoio sem reservas o que ele acaba de dizer. Você, Trot, sabe que sempre me interessei por si e pela sua tia.

- Que bela recompensa - comentou Uriah - esta de inspirar semelhante confiança! Espero, senhor Copperfield, aliviar o doutor Wickfield de boa parte do seu trabalho.

- Heep éme deveras útil - confirmou o advogado, com a. mesma voz sufocada. - Descarregame de um grande peso. É uma sorte ter um sócio como ele.

O astucioso Uriah forçavao a dizer tudo aquilo, bem o sabia eu. No seu rosto vialhe o sorriso mau tão meu conhecido. O homem observavame com a maior atenção.

- Vamonos embora, papá? - insinuou Agnes. - Seguimos a pé e Trot acompanhanos.

Creio que o advogado consultaria o seu sócio, pelo menos com o olhar, se o outro se não adiantasse.

- Tenho um encontro, para tratar de negócios - disse ele. - Senão gostaria muito de ficar com os meus amigos. Mas deixo o doutor a representar a nossa firma. Sempre às suas ordens, menina Agnes. Senhor Copperfield, adeus, e os meus respeitos à senhora Trotwood.

Com estas palavras, Heep retirouse, depondolhe um beijo na mão larga; e a sua expressão, quando ele nos fitou, assemelhouse à de uma carranca.

Demorámonos uma hora ou duas a conversar acerca dos bons tempos de outrora em Cantuária. O doutor Wickfield, ao ficar só com Agnes, voltou a ser mais semelhante a si próprio, apesar de certo abatimento de que não lograva descartarse. Entretanto reanimoume e manifestou sincero prazer

em ouvirnos recordar pequenos incidentes da nossa vida de então, de que em geral se lembrava bem. Disseme que equivalia regressar a essa época acharse sozinho comigo e a filha. Quem lhe dera, notou, que não houvesse mudado nada! Estou persuadido de que a imagem plácida de Agnes e o simples contacto da sua mão no braço do pai exerciam neste uma influência miraculosa.

A tia Betsey, ocupada todo esse tempo no outro quarto, com Peggotty, não os pôde acompanhar ao domicílio, mas insistiu comigo por que o fizesse, e eu obedeci. Jantámos juntos e, depois, Agnes sentouse ao lado do pai, como antigamente, e serviulhe o vinho. Wickfield tomou apenas o que ela lhe deu e nada mais, e nós três ficámos a admirar, pela janela, o cair da tarde. Quando começou a escurecer, o advogado estirouse num canapé: de volta à janela, ainda estava luz suficiente para que eu lhe visse brilhar lágrimas nos olhos.

Peço a Deus que nunca me faça esquecer o amor e a fidelidade desta adorada rapariga, nesse período da minha existência; pois, se tal sucedesse, era que o meu fim se aproximava, e seria então a altura em que eu mais me desejaria lembrar. Agnes enchiame a alma de resoluções excelentes, fortificava de tal maneira a minha fraqueza com o seu exemplo, dirigia tão bem (não sei como, visto ser tão modesta para me dar conselhos frequentes) o ardor vagabundo e a energia sem fito do meu coração, que julgo poder afirmar solenemente que lhe devo o pouco de probidade de que me revesti e todo o mal de que me abstive.

Sentada no poial da janela, na obscuridade, Agnes faloume de Dora. Escutou os elogios que teci a respeito desta, louvoua por seu turno, e espalhou sobre a fadazinha alguns raios de pura luz que me fizeram considerála ainda mais preciosa e mais inocente. Ó Agnes, irmã da minha infância, se eu tivesse sabido então o que soube muito tempo depois...

Quando saí, estava um pedinte na rua. Pensei nos olhos calmos e angélicos que deixava, virei a cabeça para a janela e estremeci no momento em que o mendigo murmurou, como se fosse o eco de palavras pronunciadas de manhã:

- Cego, cego!