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David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 32. COMEÇO DE UMA VIAGEM LONGA
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O que é natural para mim deve sêlo para muitos outros, suponho eu; por isso não tenho medo de escrever que nunca estimara tanto Steerforth como na ocasião em que os laços que me uniam a ele se romperam afinal. Na angústia em que a revelação da sua iniquidade me havia mergulhado, pensei mais em tudo o que ele possuía de bom, pensei mais nos seus aspectos brilhantes, enternecime por tudo o que existia de belo no meu amigo, prestei maior justiça às qualidades que poderiam ter feito dessa criatura uma natureza nobre e um grande nome - coisas que não me ocorriam tanto na época da minha adoração por James Steerforth. Embora profundamente sentisse a minha parte de responsabilidade na desonra que ele levara a esse lar honesto, creio que se nos pudéssemos encontrar cara a cara eu não seria capaz de proferir a mínima exprobração. Têloia ainda estimado tanto - se bem que já sem cegueira -, teria ainda experimentado tanta ternura ao lembrarme do meu afecto, como se fosse uma criança ferida nos seus sentimentos, apesar da certeza de uma reconciliação impossível. Como ele, admiti que estava tudo acabado entre nós. Que recordação conservou Steerforth de mim, eis o que nunca vim a saber: talvez fosse uma lembrança vaga, fácil de dissipar. Eu, porém, evocoo como um amigo que me fosse querido e que a morte arrebatasse.

Sim, Steerforth, tu que vais por muito tempo deixar o cenário desta história triste. A minha mágoa testemunhará decerto, involuntariamente, contra ti no Juízo Final; mas não as minhas censuras nem a minha cólera. Isto seio muito bem.

A notícia do caso depressa se espalhou pela localidade. Ao atravessar as ruas, na manhã seguinte, ouvi gente que falava dele à porta de casa. Muitas pessoas condenavam severamente a pequena Emily; outras recriminavamno, a ele; mas, para lastimar o pai adoptivo e o noivo, as vozes eram unânimes. Em todas o que predominava era o respeito pelo desgosto de ambos, um respeito cheio de amizade e delicadeza. Quando viram os dois divagar pela praia, os marítimos ficaram de parte, em pequenos grupos, discorrendo entre si com verdadeira compaixão. Foi aí, próximo do mar, que os encontrei. Facilmente percebi que não tinham dormido em toda a noite; nem era necessário que a minha criada me houvesse dito que eles estiveram sentados onde eu os deixara, até de madrugada. Pareceramme cansados; a cabeça do tio Peggotty curvarase mais naquelas horas do que em todos os anos em que o conheci. Ambos se mostravam sérios, circunspectos,

calmos como o mar então sem vagas, sob um céu sombrio no horizonte e atravessado de uma luz argêntea provinda do Sol invisível.

- Conversámos muito - disse o tio, quando passeámos um

momento sós - acerca do que devíamos e não devíamos fazer. Mas agora vemos o caminho que temos de seguir.

O meu olhar envolveu Ham, que andava mais afastado, de olhos fitos na faixa de claridade, e uma ideia pavorosa me acudiu à mente: não que o seu rosto estivesse truculento, mas lembrome de que aí se lia uma resolução terrível, a de matar Steerforth se alguma vez o encontrasse.

- As minhas obrigações aqui já acabaram - continuou o pescador.-Vou procurar a minha... - Detevese, e acrescentou com voz firme:-Vou procurála. De hoje em diante o meu dever é esse.

Abanou a cabeça quando lhe perguntei onde a encontraria. Quis saber se eu voltava para Londres no dia seguinte. Expliquei que ainda não partira com medo de perder uma oportunidade de lhe ser útil, mas que estava pronto a seguir quando ele quisesse.

- Então irei consigo, menino Davy. Amanhã, se for da sua vontade.

Demos uns passos em silêncio.

- Ham - continuou ele - ficará no seu trabalho e irá viver com minha irmã. Quanto àquele velho barco...

- Vai abandonálo, senhor Peggotty? - objecteilhe com brandura.

- O meu lugar, menino Davy, já não é ali; e se jamais um barco naufragou na noite escura, à superfície das águas, esse foi o meu. Não, não, menino, não tenciono abandonálo. Longe disso.

Andámos mais, novamente silenciosos. Peggotty explicoume:

- O que quero dizer é que, de dia como de noite, de Verão como de Inverno, ele háde ter o aspecto que tem desde que ela o conhece. Se ela voltar e errar por aqui, não quero que o velho barco pareça repelila; pelo contrário, que pareça convidála a aproximarse e, um pouco como um fantasma ao vento e à chuva, possa lançarlhe uma olhadela pela janelinha e ver o seu antigo lugar junto do fogão. Talvez que então, menino Davy, caso não descubra lá dentro senão a senhora Gummidge, tenha a coragem de entrar e de se deitar na velha cama, repousando a cabeça fatigada onde noutro tempo foi tão feliz...

Não consegui responderlhe, apesar dos meus esforços.

- Todas as noites - prosseguiu o marítimo - será necessário que a vela fique acesa atrás da vidraça para que, vendoa, ela possa julgar que a luz lhe está a dizer: «Volta, minha filha, volta.» Ham, se baterem à porta da tua tia, mesmo que seja uma pancadinha leve, não abras. Que seja ela, e não tu,

quem veja a minha filha perdida.

Adiantouse um pouco a nós e ficou uns instantes à nossa frente. Durante este tempo, tornei a olhar para Ham e, notandolhe a mesma expressão nos olhos, fitos na claridade longínqua, toqueilhe no braço.

Foi preciso chamálo duas vezes seguidas, no tom próprio para acordar um dorminhoco; então ouviume e, quando lhe perguntei enfim o que o absorvia tanto, respondeume:

- Veja o que se estende diante de mim, menino Davy, lá ao longe...

- A vida à sua frente, não é isso?

Ham fizera um gesto vago em direcção ao mar.

- Ah, menino Davy, não sei como explicar... mas creio vir dali... o fim de tudo. - E olhoume como se despertasse, porém sempre com a mesma expressão nos olhos.

- Que fim? - inquiri, de novo cheio de apreensão.

- Não sei - respondeu pensativamente. - Lembreime de que principiou tudo aqui e que depois veio o final. E acabouse. Menino Davy - continuou, replicando, suponho, ao meu olhar - não tenha medo de mim. Mas as ideias embrulhamseme. Não atino seja com o que for.

O tio parara, a fim de esperar por nós. Fomos ter com ele, e não tornámos a falar. Esta lembrança, reunida aos meus temores, não deixou contudo de me perseguir de tempos a tempos, até ao dia em que, à sua hora, chegou o desfecho inexorável.

Inconscientemente, fomonos aproximando do barcoresidência, e entrámos. A senhora Gummidge, que deixara de gemer ao seu canto, preparava o almoço. Recebeu o chapéu do senhor Peggotty, chegoulhe a cadeira e faloulhe com voz tão reconfortante e tão meiga que eu mal a reconheci.

- Daniel, meu amigo, tem de comer e beber para conservar as forças, senão vaise abaixo com certeza. Experimente, façame esse favor. Se a minha tagarelice o fatiga, eu já me calarei.

Depois de nos servir à mesa, retirouse para o vão da janela, onde se ocupou activamente a consertar as camisas e mais roupa do dono da casa; feito isso, dobrou tudo com cuidado e guardou num velho saco de oleado, como possuem os marítimos, sem todavia deixar de ir dizendo, na mesma voz calma:

- Sempre, em qualquer estação, sabe que estarei aqui, Daniel, e que tudo se fará segundo a sua vontade. Não sou muito instruída, mas escreverlheei nas minhas horas vagas, quando estiver longe, e mandarei as cartas ao menino Davy. Talvez o Daniel me escreva também, de vez em quando, para me dizer como passa durante as suas viagens solitárias.

- Temo que fique muito só, senhora Gummidge - disse o pescador.

- Não, não, Daniel. Decerto que não. Não se preocupe comigo.

Terei muito em que me ocupe, a guardar aqui uma casa para quando regressarem aqueles que esperamos. Nos dias bonitos, sentome à porta, como de costume. Se aparecer alguém, logo verá, de longe, a velha viúva, fiel no seu posto.

Que mudança na senhora Gummidge, em tão pouco tempo! Parecia outra mulher. Mostravase tão dedicada, sabia tão bem o que devia dizer e o que devia calar, esqueciase tanto de si mesma para só pensar nos que a rodeavam, que eu me senti tomado de grande respeito por ela. Que trabalho realizou naquele dia! Havia muitas coisas que se precisava de trazer da praia, para as conservar abrigadas no alpendre: remos, redes, velas, cordame, mastaréus, covos de lagostas, sacos de lastro, e muitas outras. Apesar das ajudas que lhe deram (não houve homem válido que não se oferecesse para ser útil a Peggotty), ela persistiu, o dia inteiro, a labutar com fardos muito pesados para o seu corpo, a ir e vir, a realizar todo o género de fainas supérfluas. Quanto aos desgostos próprios, até parecia nem se lembrar deles. Das alterações que manifestou, não foi das mais pequenas a que se refere à sua disposição: já não se lamentava; em todo o dia não lhe notei tremor na voz, nem lágrimas nos olhos, até à hora - o cair da tarde - em que, ficando só comigo (o dono da casa adormecera de fadiga), teve uma crise de choro e de soluços meio sufocados e me fez sinal de a seguir até à porta. Aí, murmurou: «Deus o abençoe, menino Davy, seja sempre amigo daquele pobre homem.» Em seguida foi à pressa lavar a cara, para que ele a visse trabalhar de rosto prazenteiro a seu lado, quando acordasse. Enfim, ao partir nessa noite, considereia como o sustentáculo, o apoio de Daniel Peggotty na sua aflição. Que lição a tirar do seu comportamento, que novos horizontes ela me abria!

Eram quase dez horas quando cheguei à porta do senhor Omer, depois de ter atravessado melancolicamente a povoação. O velho cangalheiro tomara a coisa tão a peito, disseme a filha, que estivera todo o dia abatido e fora deitarse sem haver fumado o seu cachimbo.

- Que rapariga falsa, sem coração! - comentou a senhora Joram. - Nunca teve nada de bom.

- Não fale assim. Com certeza que não pensa tais coisas.

- Penso, sim! - ripostou agastada.

- Não - insisti.

A senhora Joram oscilou a cabeça, procurou manter uma expressão severa, mas não pôde dominar os seus bons sentimentos e começou a chorar. Eu era novo, sem dúvida, mas soube apreciar aquela atitude que tanto convinha a uma esposa e mãe virtuosa.

- Que vai ela fazer? - balbuciou Minnie. - Para onde irá? Qual será o seu destino? Como pôde ser tão cruel para si mesma e para ele?

Lembreime do tempo em que Minnie era nova e bonita e agradoume ver que ela se recordava também com tanta comoção. - A pequena Minnie - recomeçou a senhora Joram - está a adormecer, e, mesmo assim, ainda exige Emily, e chora. Todo o dia a menina chorou e perguntou várias vezes se a Emily era má. Que lhe posso responder? Quando penso que Emily, da última vez que aqui esteve, prendeu ao pescoço da miúda a fita que trazia no seu e ficou com a cabeça encostada ao travesseiro até que Minnie caiu no sono! A fita ainda ela a traz ao pescoço. Talvez devesse tirála, mas será justo? É possível que a Emily procedesse mal, contudo estimavamse tanto! E a pequena não sabe nada.

A senhora Joram sentiase tão infeliz que o marido veio consolála. Ao deixálos, entrei em casa da minha criada, e ia ainda mais triste, se é possível. A digna criatura, sem manifestar a mínima fadiga depois das suas angústias recentes e das noites de insónia, fora para a residência do irmão, onde devia passar a noite, e eu só encontrei uma velha que viera ocuparse do serviço doméstico nas últimas semanas. Como eu não precisasse dela, disselhe que se fosse deitar, o que fez sem qualquer protesto, e eu fiquei um momento diante do lume, na cozinha, pensando nos acontecimentos.

Estes confundiamseme no espírito com a morte do Barkis e eu já me imaginava a partir com a maré para esses longes que Ham contemplara com tão estranha expressão naquela manhã, quando um movimento na porta me arrancou a essas visões. Havia um batente, contudo o som não procedia dali. Eram uns dedos que batiam directamente na madeira, e baixinho, como fazem as crianças.

Estremeci, fui abrir e o meu olhar poisou num imenso guardachuva que parecia andar sozinho. Depressa descobri que, debaixo dele, se abrigava a senhora Mowcher. Não me achava muito disposto a um acolhimento jovial, mas a anã, saindo de sob esse chapéu que apesar de todos os esforços ela não conseguira fechar, mostroume esse ar divertido que já da primeira vez me causara hilaridade. Todavia, ao fitarme, o rosto tornouselhe grave e, quando a desembaracei do guardachuva, contorceu as mãos de maneira tão aflitiva que eu acabei por me apiedar.

- Senhora Mowcher - disselhe após ter olhado de alto a baixo a rua deserta (sem aliás saber porquê) -, como se explica a sua presença aqui? Que aconteceu?

Passou rapidamente diante de mim e entrou na cozinha. Fechei a porta, seguia com o guardachuva na mão e já a encontrei sentada ao canto do guardafogo, que era baixo, com duas barras por cima para colocar os pratos, e à sombra da panela, baloiçandose e agitando as mãos (que descansavam nos joelhos) como uma pessoa sofredora.

Muito inquieto por ser a única testemunha dessa visitante tardia e único espectador desse comportamento alarmante, tornei a perguntarlhe:

- Que aconteceu? Peçolhe que me informe. Está doente?

- Meu caro mancebo - replicou, levando as duas mãos ao

peito - dóime aqui, aqui. Quando penso que as coisas chegaram a este ponto! E eu que as podia ter impedido, se não fosse tão desmiolada!

De novo o chapéu da cabeça (grande de mais em proporção com o corpo) se agitou com o balanço deste, projectando uma sombra que se deslocava na parede.

- Estou admirado - disselhe - de a ver tão apoquentada...

Mas a senhora Mowcher interrompeume.

- É sempre a mesma coisa! - exclamou. - Ficam sempre surpreendidos, esses moços vaidosos, quando atingem o termo da sua bela adolescência, por encontrar sentimentos naturais num ente como eu. Fazem de mim um joguete de que se servem a seu belprazer e que repelem quando saciados... e ficam perplexos se verificam que tenho mais sentimentos do que um cavalo de pau ou um soldadinho de chumbo. É sempre assim!

- Talvez os outros façam isso - repliquei. - Eu, não, palavra de honra. Nem devia sequer admirarme de a ver como está nesta ocasião. Conheçoa menos mal. Se disse aquilo foi sem reflectir.

- Que posso fazer? - replicou a mulherzinha, levantandose. - Sou como era meu pai, como é minha irmã. E o meu irmão! Trabalho para estes dois, e há muitos anos, arduamente, senhor Copperfield. O dia inteiro! Temse de viver. Não faço mal a ninguém. Se há pessoas inconscientes e cruéis que se riem de mim, que heide fazer se não rir também, de mim, deles e de tudo? Se assim procedo, de quem é a culpa? Minha?

Não, sua não, isso bem eu via.

- Se me apresentasse ao seu falso amigo com o aspecto de uma pigmeia sensível - prosseguiu a senhora Mowcher, sacudindo a cabeça com uma gravidade que exprimia censura -, julga que ele me tinha auxiliado e protegido? Se esta anã, que não é responsável do seu tamanho, se lhe dirigisse (e aos seus iguais) falando das próprias desditas, quando supõe que lhe escutariam a voz débil? Fosse eu azeda e enfadonha, como conseguiria viver?

Tornou a sentarse, tirou um lenço e enxugou os olhos.

--Admire o facto de eu estar alegre e resignada, sabendo bem o que sou, e isto se o senhor tem realmente bom coração. Eu, pelo menos, regozijome por ser capaz de seguir o meu caminho, sem dever nada a ninguém. Se não discuto o que me falta, é melhor para mim e não prejudico os outros. Mas tratemme com carinho, já que sirvo de brinquedo aos gigantes.

A senhora Mowcher guardou o lenço, sem deixar de olhar para mim com a máxima atenção. E prosseguiu ainda:

- Vio passar na rua. Compreende que não consigo andar tão depressa como o senhor, com estas perninhas e o fôlego curto, e que, por isso, o não alcancei. Mas adivinhei para onde vinha e seguio. Já aqui estive hoje mesmo, sem no entanto ter a sorte de encontrar a dona da casa.

- Conhecea?

- Ouvi falar dela no estabelecimento de Omer & Joram. Foi às sete horas da manhã. Lembrase do que me disse Steerforth a respeito desta infeliz rapariga, na noite em que conversámos na estalagem?

Neste momento o grande chapéu da senhora Mowcher e a sua sombra enorme na parede retomaram a sua oscilação. Recordeime perfeitamente do que ela sugeria, pois já tinha pensado nisso, e de tal a informei.

- Que o leve, a ele, o maior dos diabos! - bradou a mulherzinha, erguendo um dedo à altura dos seus olhos cintilantes - e leve também esse criado perverso. Mas eu julguei que era o senhor quem estava apaixonado por ela.

- Eu?!

- Pois se a elogiou tanto, e corou, e pareceu perturbado! - replicou a anã, torcendo as mãos, impaciente.

Não pude negar que assim fizera, embora com intenção muito diferente.

- Como havia eu de saber? - contraveio a senhora Mowcher, tirando outra vez o lenço e batendo com os pés a compasso sempre que, a curtos intervalos, o levava aos olhos. - Eles ora o contrariavam, ora o mimavam, e o senhor Copperfield parecia moldarselhes nas mãos. Mal eu deixei a sala, o criado disseme que o «inocentinho» (era o nome que lhe dava, e o senhor poderia retribuirlhe chamandolhe o «malandrão») se apaixonara pela rapariga e que esta andava tontinha e lhe queria muito, e que o patrão desejava evitar qualquer coisa mais no interesse do senhor Copperfield do que da moça, e que esta era a razão da sua presença aqui. Quem não acredita nisto? Vi Steerforth sossegálo e louvar a pequena, para lhe dar gosto, a si. O senhor fora quem pronunciara primeiramente o nome dela. Confessou admirála desde há muito. Tinha frio e calor sucessivamente, corava e empalidecia ao mesmo tempo. Que podia eu imaginar senão que era um moço libertino, a quem só faltava experiência, e que caíra nas mãos de pessoas experimentadas, para o dirigirem (se quisessem)? Oh, oh, oh! Tinham medo de que eu descobrisse a verdade! - exclamou descendo do guardafogo e dando passinhos miúdos na cozinha, com os braços erguidos, desesperada. - É que eu sou esperta... assim é preciso, se tenho de viver! Mas o caso é que me ludibriaram por completo, e entreguei à

pobre pequena uma carta que (estou persuadida) a decidiu a falar com Littimer, o qual aqui permanecia para esse mesmo fim. Fiquei mudo de estupefacção perante tamanha perfídia, enquanto via a senhora Mowcher andar cá e lá até perder alento: então voltou a sentarse no guardafogo, levou outra vez o lenço aos olhos e esteve a oscilar a cabeça sem dizer palavra.

- As minhas diligências, senhor Copperfield - ajuntou ela - conduziramme anteontem à noite a Norwich, e a descoberta que fiz, por acaso, das idas e vindas deles (sem a sua companhia) despertoume desconfianças. Tomei então a malaposta de Londres e cheguei cá esta manhã. Ah, era demasiado tarde!

A pobre anã, trémula dos pés à cabeça e lavada em lágrimas, deu meia volta no guardafogo, pôs os pèzinhos nas cinzas, para os aquecer, e contemplou o lume numa atitude de boneca. Eu estava sentado da outra banda, numa poltrona, perdido em reflexões sombrias, também com os olhos fitos no lume e, de vez em quando, na minha companheira.

- Tenho de partir - declarou esta, pondose de pé. - Já é tarde. Não suspeita de mim?

Encontrando o seu olhar, mais penetrante do que nunca, eu não pude, perante esse desafio brusco, deixar de responder «não» com absoluta franqueza.

- Vamos - disse ela, aceitando a mão que lhe estendi para a ajudar a passar sobre o guardafogo e olhandome com ar pensativo - confesse que não desconfiaria de mim se a minha estatura fosse normal.

Senti que havia verdade nessas palavras e tive vergonha de o confirmar.

- O senhor é novo - continuou. - Oiça um bom conselho, mesmo dito por uma pessoa de palmo e meio. Evite confundir defeitos físicos com defeitos morais, a não ser que haja motivo peremptório.

A senhora Mowcher já tinha passado por cima do guardafogo e eu já havia dominado a minha desconfiança. Respondi que acreditava na veracidade do que me dizia e que nós fôramos ambos tristes instrumentos em mãos pérfidas. Agradeceume afirmando que eu era bom rapaz.

- E agora oiça - acrescentou, virandose para trás antes de chegar à porta e, de dedo erguido, lançandome outro olhar perscrutante -, tenho razões para supor (os ouvidos estão sempre abertos, pois não desprezo nenhuma das minhas faculdades) que eles saíram de Inglaterra. Se, porém, algum dia voltarem, e eu esteja viva, é muito possível que o saiba e farei tudo para socorrer essa pobre rapariga seduzida. Creia, senhor Copperfield, que não deixarei de o informar. Quanto ao Littimer, mais vale que tenha um rafeiro às canelas do que esta anãzinha da Mowcher.

E acompanhou a declaração com um olhar tão significativo que, desta vez, me inspirou cega confiança.

- Não me considere nem mais nem menos do que uma mulher de estatura normal, senhor Copperfield. - Dizendo isto, poisoume no braço uns dedos suplicantes. - Se alguma vez me vir diferente do que sou e do que era na primeira que me viu, repare em que sociedade me encontro. Olhe que sou um ente minúsculo, sem defesa. Pense em mim quando regresso a casa, depois do meu dia de trabalho, para o lado de uma irmã e um irmão que me são semelhantes. Talvez então me não julgue tão severamente; não se admire de que eu possa estar séria e preocupada. Boa noite.

Estendilhe a mão (modificarase por completo a minha opinião a seu respeito) e abri a porta para a deixar sair. Não foi muito fácil prepararlhe o guardachuva e colocarlho na mão, mas por fim via afastarse saltitando debaixo de água, sem que parecesse haver uma pessoa sob a imensa umbela, salvo quando a descarga de alguma goteira a atingia em cheio e fazia descobrir a senhora Mowcher lutando desesperada para manter o seu abrigo em equilíbrio. Depois de ter feito duas ou três tentativas para a ir socorrer, mas inutilmente, porque o chapéudechuva já pulava ao longe, reentrei em casa, fui deitarme e dormi até de manhã.

O senhor Peggotty apareceu então acompanhado da irmã, e fomos logo para o escritório da diligência, onde a senhora Gummidge e o Ham nos esperavam para se despedir de nós.

- Menino Davy - segredoume o rapaz, puxandome para um canto no momento em que o tio acondicionava o seu saco com a bagagem -, a vida dele está destroçada. Não sabe para onde vai, nem o que lhe pode acontecer. Parte para uma viagem que, com interrupções, pode durar até ao fim da sua existência, a não ser que encontre o que procura. Estou convencido de que o menino lhe será o melhor amigo nestas circunstâncias.

- Tenha confiança em mim - respondi, dandolhe um aperto de mão.

- Muito obrigado. Mais uma coisa: tenho um bom emprego e agora não preciso de gastar o que ganho. O dinheiro já não me serve de nada, senão para viver. Se quiser guardálo para que sirva às despesas do meu tio, eu por mim continuarei aqui a trabalhar com coragem; não julgue que falto aos meus deveres e que não procedo sempre como um homem.

Declareilhe que acreditava plenamente, e acrescentei esperar que um dia ele deixasse a vida solitária que nesse momento planeava.

- Não, senhor, para mim tudo acabou. Ninguém jamais poderá preencher o lugar vazio. Mas, quanto ao dinheiro, faça o que lhe peço. Que esteja sempre à disposição do tio!

Prometilhe, embora lhe lembrasse que o senhor Peggotty receberia um rendimento, ainda que modesto, do legado de Barkis.

Em seguida despedimonos. Não posso recordar sem um aperto de coração a dignidade da sua coragem e a extensão do seu desgosto.

Quanto à senhora Gummidge, se eu tentasse descrever como correu ao longo da rua, junto da diligência, de olhos fitos em Daniel Peggotty e gemendo todo o tempo, decerto empreenderia um trabalho difícil. Por isso mais vale deixála sentada (onde por fim ficou) à porta da padaria, esbodegada e esbaforida, com o chapéu desabado e um sapato esquecido no meio da rua.

Chegados ao termo da nossa viagem, o primeiro cuidado que tivemos foi de procurar alojamento para Clara Peggotty, com um quarto para o irmão. Por sorte, descobri coisa muito capaz e barata, por cima duma mercearia, à distância de dois quarteirões da minha casa. Uma vez apalavrada esta habitação, fui comprar carnes frias a um restaurante e levei os meus companheiros à minha residência, para tomarem chá comigo, o que, lastimo dizêlo, não agradou à senhora Crupp, muito pelo contrário. Devo acrescentar que a ofendeu bastante ver a Peggotty, dez minutos depois de lá ter entrado, arregaçar o vestido de viúva e começar espanejando o pó do meu quarto. A senhora Crupp tomou o caso como uma impertinência, e as impertinências não as suportava nunca.

O senhor Peggotty comunicarame, pelo caminho, a sua intenção (não inesperada para mim) de ir primeiramente visitar a senhora Steerforth. Como eu achasse do meu dever ajudálo nessa diligência, servindo de medianeiro, a fim de poupar quanto possível o amor maternal daquela dama, resolvi escreverlhe naquela mesma noite. Disselhe, com a necessária circunspecção, quanto mal o filho fizera ao pai adoptivo de Emily e expliqueilhe a minha interferência no caso. Acrescentei que Daniel Peggotty era de condição humilde, mas pessoa recta, de bom carácter, e concluía esperançado de que ela se não recusasse a recebêlo naquele enorme desgosto por que o homem passava. Anunciei a nossa visita para as duas horas e eu próprio levei a carta à primeira malaposta da manhã.

À hora aprazada, estávamos à porta da residência dos Steerforths, nessa em que, dias antes, eu fora tão feliz, em que a minha confiança juvenil e os meus sentimentos se haviam expandido à vontade, mas cuja entrada ao presente me era quase interdita.

Littimer não apareceu. A figura, mais agradável, que substituíra a dele quando da minha última visita acolheunos outra vez e precedeunos até à porta da sala, onde se achava a senhora Steerforth. Nesse momento, Rosa Dartle deixou o canto que ocupava e passou para trás da poltrona daquela, onde ficou de pé.

Vi logo, no rosto da mãe, que ela soubera do próprio James o que este havia feito. Este rosto mostravase pálido, denotando comoção mais profunda do que lhe podia ter causado a minha simples carta. Pareciase como nunca com o filho, e eu percebi que esta semelhança não escapara ao meu companheiro.

Encontrámola sentada, muito hirta, na sua poltrona, com ar digno, tão impassível e fria que pensámos nada a poder perturbar. Olhava com fixidez para o pescador, de pé à sua frente e fitandoa de igual modo. O olhar penetrante de Rosa Dartle envolveunos a todos. Durante minutos reinou silêncio. Então a dona da casa, com um gesto, convidou Daniel Peggotty a sentarse, ao que ele respondeu em voz baixa:

- Não é natural, minha senhora, que me sente nesta casa. Prefiro estar de pé.

Seguiuse novo silêncio, que ela quebrou com estas palavras: - Soube com profunda tristeza o motivo da sua vinda. Que

exige de mim? Que quer que eu faça?

O marítimo enfiou o chapéu debaixo do braço para tirar do

bolso a carta de Emily. Desdobrandoa, apresentoua à senhora

Steerforth.

- Tenha a bondade de ler, minha senhora. É da minha sobrinha. A dona da casa leu com ar calmo e digno, sem parecer impressionada com o conteúdo da carta, que restituiu.

- «Se ele fizer de mim uma senhora» - disse Peggotty, sublinhando esta frase com o dedo. - Venho saber se o seu filho cumprirá a palavra.

- Não cumpre.

- Porquê?

- Porque é impossível. Seria um casamento desigual. O senhor não ignora que a rapariga lhe é muito inferior.

- Elevea até à sua classe - ripostou o pescador.

- Não tem educação nem instrução.

- Talvez que sim, talvez que não. Eu creio que sim. Mas não sou bom juiz. Ensinelhe o que lhe falta.

- Visto que me obriga a pôr os pontos nos iis, o que desejava evitar, digo que a baixa condição da família torna a coisa impossível, fora o resto.

- Escute, minha senhora - replicou ele tranquila e lentamente. - Sabe o que é estimar os filhos. Eu também sei. Fosse ela cem vezes minha filha que eu a não estimava mais. A senhora não sabe o que é perder uma filha. Eu sei. Todos os tesouros do mundo, se os tivesse, eu daria para a recuperar. Mas salvea ao menos da desonra e nunca mais a importunaremos. Nenhum de nós, no meio de quem ela cresceu e viveu e de quem foi a razão da existência até agora, nenhum jamais tornará a verlhe o rosto. Bastanos sabêla sossegada, pensar nela de longe, como se estivesse debaixo de outro sol e de outro céu. Contentamonos com o facto de a confiar ao marido... aos filhos, talvez... e esperar o dia em que seremos todos iguais diante de Nosso Senhor.

Esta eloquência rude não deixou de produzir algum efeito. Sem abandonar a sua expressão orgulhosa, mas com certa doçura na voz, a senhora Steerforth respondeu:

- Não justifico nada, abstenhome de qualquer contestação.

Mas lamento ter de repetir: é impossível. Semelhante casamento prejudicaria irremediavelmente a carreira do meu filho e arruinarlheia o futuro. O casamento não se fará, nem agora nem nunca. Disso estou certa. Se outra compensação...

Mas o pescador, cujo olhar fixo se inflamara a pouco e pouco, atalhou:

- Estou a contemplar a imagem desse que, na minha casa, à lareira, me olhava com um sorriso mas sob o qual se escondia tal traição que só de nela pensar me enlouquece. Se a imagem desse rosto se não tornar escaldante de vergonha com a ideia de me oferecer dinheiro em troca da ruína e da desonra da minha filha adoptiva, é que não vale mais do que ele. Nem mesmo sei se, pertencendo a uma dama, não será pior...

A senhora Steerforth mudou então. Num instante, invadiulhe as faces uma onda de cólera. Implacável, de mãos crispadas nos braços da poltrona, redarguiu:

- E que compensação podia o senhor oferecer por ter cavado um abismo entre mim e o meu filho? Que é a sua afeição comparada com a minha? Que representa a sua separação ao lado da minha?

A senhora Dartle tocoulhe de leve no ombro e inclinou a cabeça para lhe murmurar umas palavras ao ouvido. Mas a outra recusouse a escutála.

- Não, Rosa, calate! Este homem tem de ouvir o que eu quero dizerlhe. O meu filho, o único motivo da minha vida, a quem consagrei cada um dos meus pensamentos, cujos desejos satisfiz desde a infância, em cuja vida, desde que nasceu, eu perdi a minha... apaixonarse assim, de repente, por uma rapariga qualquer, e abandonarme! Pagar a minha confiança com dolos sistemáticos, por causa dela, por quem me trocou! Opor essa estúpida fantasia aos direitos da mãe e ao seu dever, ao respeito, amor, gratidão... Direitos que deviam fortalecerse a cada hora e tornaremse capazes de resistir a tudo! Não é isto um gravame?

Outra vez Rosa Dartle tratou de acalmar a senhora Steerforth, sem obter maior resultado.

- Repitote, Rosa: calate. Se ele é capaz de apostar tudo por um assunto fútil, eu sou capaz de o fazer por um muito maior. Deixálo ir aonde quiser, com os meios que o meu amor lhe garantiu. Julgará que me vence com uma ausência prolongada? Nesse caso conhece mal a própria mãe. Que renuncie desde já ao seu capricho, e será bem recebido; se o não fizer, jamais tornará a verme, viva ou morta, enquanto tiver forças para o impedir, a não ser que, desembaraçado dela, venha humildemente pedirme perdão. É o meu direito, e exijo que ele o reconheça. Eis o abismo que se abriu entre nós. E não é isto - concluiu,

olhando para o visitante com o ar altivo e implacável do começo - não é isto uma ofensa?

Enquanto escutava e via a mãe exprimirse daquela forma, pareciame escutar e ouvir o filho desafiála. Tudo o que eu sabia do espírito inflexível e voluntarioso de James, reencontrava nela. Todo o conhecimento que eu adquirira das energias mal encaminhadas do filho ajudavame a compreender a mãe e a perceber que, afinal, o carácter de um e de outro era o mesmo. Voltando a achar as suas reservas primitivas, a senhora Steerforth virouse para mim a fim de observar, em voz alta, que não tínhamos mais nada que dizer e nos pedia que saíssemos. Levantouse com dignidade, para deixar a sala, mas o senhor Peggotty deu a entender que era inútil.

- Não receie que a importune, minha senhora, não tenho mais nada para acrescentar - declarou encaminhandose para a porta.- Vim cá sem esperança e retirome sem esperança. Fiz o que julguei da minha obrigação, mas nunca pensei obter qualquer coisa da minha visita. Esta casa foi demasiado funesta para mim e os meus: que podia eu esperar?

Com isto, saímos, deixandoa de pé, bela estátua majestosa, ao lado da sua poltrona.

Precisávamos de atravessar uma varanda lajeada, de paredes e tecto de vidro, coberto de latada. As folhas já estavam verdes e, como havia sol, tinham deixado aberta a porta envidraçada que dava para o jardim. Ao aproximarmonos, Rosa Dartle, que viera atrás de nós silenciosamente, disseme:

- Que boa ideia, na verdade, ter trazido aqui este homem!

A raiva e o desprezo que lhe ensombravam o rosto e se reflectiam nos olhos de azeviche eram mais intensos do que eu teria crido possível, mesmo naquela máscara. A cicatriz, como sempre que semelhante excitação lhe animava as feições, apresentavase mais nítida. Quando o tremor, que eu pressentia, se manifestou ali, notei que ela levara a mão à boca para a esconder.

- Como se atreve a protegêlo e a trazêlo cá? - continuou. - Realmente, podemos confiar no senhor.

- Minha senhora - repliquei - não será injustiça condenarme?

- Por que vem semear a discórdia entre esses dois impetuosos? Não sabe que ambos estão loucos de obstinação e orgulho?

- Tenho culpa? - inquiri.

- Por que é que se mete nisto? Por que trouxe cá esse indivíduo?

- É um homem profundamente magoado, minha senhora. - Talvez não saiba...

- O que sei - declarou com a mão no peito como para aplacar a tempestade que aí se desencadeara - é que James Steerforth

tem o coração corrupto de um traidor. Mas a mim que me importa esse sujeito e a sua sobrinha intriguista?

- Está a aprofundar a ferida, que já era suficientemente dolorosa. Acrescentarei apenas, para acabar, que está a ser injusta para com este homem.

- Não estou. São todos uns refinados patifes. Gostava de a ver açoitada, a ela!

Daniel Peggotty não pronunciara palavra, e saiu à minha frente.

- Não tem vergonha, senhora Dartle? - disse indignado. - Como pode calcar aos pés uma dor tão pouco merecida?

- Quem me dera calcálos todos aos pés! Queria ver a casa deles arruinada, e ela marcada a ferro quente, depois lançada à rua, em andrajos, para aí morrer de fome. Eis o que faria, se estivesse na minha mão julgála. E executaria a sentença, por mim mesma. Odeioa. Se pudesse exprobrarlhe a infâmia, iria fosse aonde fosse para o fazer. Se a pudesse perseguir até à cova, não hesitaria.. Se existisse uma palavra que a aliviasse à hora da morte, e que eu só a conhecesse, não a diria, mesmo a troco da vida.

A veemência das frases não basta para significar, senão debilmente, a paixão que a dominava e se exprimia por todo o seu ser, embora a voz, em vez de se elevar, se tornasse mais surda que de costume. As palavras são impotentes para expressar a memória que me ficou do seu arrebatamento e abandono de toda ela à cólera. Tenho visto a paixão sob muitas formas, mas nunca assim desencadeada.

Quando me reuni ao marítimo, ele descia lentamente a rua, com ar pensativo. Disseme logo que, tendose desempenhado da missão que o trouxera a Londres, tencionava «pôrse a caminho» nessa mesma tarde. Pergunteilhe aonde queria ir: respondeume só que partia em busca da sobrinha.

Alcançámos os aposentos que eles haviam tomado e aí repeti à minha antiga criada o que o irmão acabava de me participar. Por seu turno ela informoume que já o sabia desde a manhã. Ignorava, como eu, o destino de Daniel, mas pensava que este tinha a sua ideia. Como eu não queria deixálo em semelhante conjuntura, resolvi que jantássemos todos juntos; a refeição constou de um pastelão de carne, especialidade da Peggotty, que nesse dia foi singularmente acompanhado dos aromas de chá, café, manteiga, toucinho, queijo, pão quente, lenha, velas e conserva de nozes verdes que sem cessar subiam da mercearia em baixo. Depois do jantar ficámos perto de uma hora sentados junto da janela, sem falar muito. Em seguida, Daniel levantouse, foi buscar o saco de oleado e o bordão e poisou os objectos em cima da mesa.

Aceitou por conta do seu legado, uma pequena importância de dinheiro (o bastante, julgo, para viver um mês). Prometeu prevenirme de tudo o que lhe acontecesse; e então,

deitando o saco ao ombro, pegou no bordão e no chapéu e despediuse de nós ambos com um «até à vista».

- Deus te guarde em tudo, boa irmã! - disse à minha criada, beijandoa. --E a si, menino David - acrescentou apertando a mão que lhe estendi. - Vou procurála tão longe quanto for preciso. Se ela voltar durante a minha ausência (o que, infelizmente, não é provável), ou se eu a trouxer, a minha intenção é ir viver e morrer na sua companhia, nalgum sítio onde ninguém a possa censurar. Caso me suceda qualquer desgraça, lembremse de que o meu último pensamento era de amor e perdão.

Proferiu isto de cabeça descoberta, solenemente; depois, pondo o chapéu, desceu a escada e partiu. Seguimolo até à porta. A tarde estava morna e poeirenta. Era a hora a que, na rua a que a nossa travessa ia dar, caía com a luz ardente essa calma momentânea que sucede ao constante deambular dos transeuntes. Daniel Peggotty dobrou, sozinho, a esquina e perdeuse na reverberação crepuscular.

Será difícil que eu reveja esse momento da tarde, que acorde de noite, que contemple o luar e as estrelas, que sinta cair a chuva e oiça o vento sem rever na memória esse pobre peregrino caminhando desacompanhado, e sem me lembrar destas palavras: «Caso me suceda alguma desgraça, lembremse de que o meu último pensamento era de amor e perdão.»