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David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 3. MUDO DE SITUAÇÃO
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O cavalo do carroceiro era o mais indolente do mundo, em minha opinião. Arrastavase pela estrada adiante, de cabeça baixa, como se quisesse fazer esperar as pessoas a quem as encomendas eram dirigidas. Imaginei até que ele se ria à socapa com esta ideia, mas o dono esclareceume que era apenas por causa da tosse que o importunava.

O homem conservava também a cabeça pendida, como o animal, e todo o corpo se inclinava sonolento, com os braços poisados nos joelhos, enquanto conduzia a carroça; mas, se digo que conduzia, não deixo de pensar que o veículo seria capaz de ir sem ele até Yarmouth, pois o cavalo se encarregaria de tudo. Quanto a conversar, não era coisa que soubesse fazer: limitavase a assobiar. Peggotty levava sobre os joelhos um cabaz de mantimentos que duraria lindamente até Londres se lá fôssemos pelo mesmo transporte. Comemos muito e dormimos muito. Em geral a criada adormecia com o queixo apoiado à asa do cesto, que nunca largava. Custarmeia a acreditar, se não tivesse ouvido eu mesmo, que uma mulher tão fraca dessonasse daquela maneira.

Demos tantas voltas, subindo e descendo atalhos, e demorámos tanto tempo a descarregar num albergue uma armação de cama, e parámos em tantos outros lugares, que eu já estava fatigadíssimo quando, com enorme júbilo, avistámos Yarmouth. Achei aquilo bastante húmido e ensopado no instante em que vagueei o olhar pela imensa extensão desgraciosa que campeava para lá do rio; e não me coibi de pensar que, se o mundo era na verdade redondo (como ensinava a minha Geografia), como é que podia haver uma parte dele tão plana. Mas considerei que Yarmouth talvez se situasse num dos pólos, e assim a coisa teria explicação.

Aproximandonos mais, vi todo o panorama como uma linha baixa sob o céu e sugeri a Peggotty que um ou dois outeiros bem poderiam melhorar a paisagem. E que seria também mais bonito se a terra estivesse menos ligada ao mar, e as marés não invadissem tanto a cidade. Mas Peggotty declarou, com maior energia que a usual, que se deviam aceitar os factos tais como eram e que ela se honrava de ser um Arenque de Yarmouth.

Entrámos numa rua (deveras inesperada para mim), e respirámos o cheiro do peixe, do breu, da estopa e do alcatrão, e vimos [ marinheiros que deambulavam, e ouvimos o tinido das carroças que oscilavam sobre o empedrado. Sentia então quanto fora injusto para com um lugar tão animado, e disseo à minha companheira, que se mostrou satisfeita com a retratação.

Afirmoume ser bem sabido (creio que daqueles que tiveram a sorte de nascer Arenques) que Yarmouth era o ponto mais belo do universo inteiro.

- Ali está o Ham! - gritou Peggotty. - Como ele cresceu! Com efeito, o rapaz esperavanos no albergue. Perguntou como

é que eu passava, exactamente como fazem os velhos conhecidos. De começo, achei que o não conhecia tão bem como ele a mim, porque não fora lá a casa desde o meu nascimento, e isto era uma vantagem da sua parte. Mas a nossa intimidade progrediu quando me levou às cavalitas para a sua residência. Ham estava um mocetão de seis pés de altura, espadaúdo, de cabelos loiros encaracolados, que lhe davam o ar de carneirinho. Vestia casaco de lona e calças tão rígidas que se manteriam sozinhas mesmo que não houvesse duas pernas lá dentro. Quanto a chapéu não se poderia dizer que o tinha, pois o que se lhe via na cabeça era qualquer coisa alcatroada, como um tecto de velha construção.

Seguimos, pois, Ham comigo às costas e uma das nossas malas debaixo do braço, e Peggotty com a outra, através de carreiros sinuosos juncados de aparas e de montículos de areia. Passámos por um gasómetro, cordoarias, estaleiros, oficinas de reparação e de calafetagem, forjas e muitos outros estabelecimentos do género, até chegarmos à extensão deserta que eu já vira à distância. Então o rapaz explicou:

- É aqui a nossa casa, menino Davy.

Olhei em todas as direcções, tão longe quanto pude, para aquele ermo que confinava com o mar e o rio, mas a respeito de casa, foi coisa que não lobriguei. Não muito para além havia uma barcaça escura ou embarcação fora de uso, alta e encalhada, donde saía, à laia de chaminé, um cano de ferro fumegante, de aspecto caseiro; todavia, em matéria de habitação nada se me deparou.

- Não háde ser aquilo - observei. - Essa coisa parece um barco!

- Pois é isso mesmo, menino Davy - replicou Ham.

Se fosse o palácio de Aladino ou o ovo do roque eu creio que me não teria encantado tanto a perspectiva romanesca de aí morar. Abriase no costado uma porta encantadora. Possuía telhado e janelas pequeninas. O que, porém, me seduziu a valer foi verificar que se tratava de um barco autêntico, um barco que sem dúvida navegara centenas de vezes e jamais fora destinado a servir de habitação em terra firme. Era isto o que me cativava. Se o construíssem de propósito para alojamento, eu acháloia pequeno, ou incómodo, ou isolado; mas, nunca tendo sido projectado para tal uso, tornavase para mim a residência ideal.

Que asseio no interior! O mais limpo que se poderia desejar. Existia mesa, relógio, cómoda, e, em cima desta, um tabuleiro de chá, onde se via pintada uma senhora de guardasol, a qual passeava uma criança de aspecto marcial, que rolava um arco.

Esse tabuleiro estava escorado com uma Bíblia, pois, se caísse, reduziria a fanicos uma porção de xícaras e pires, assim como um bule, objectos agrupados de roda do livro. Nas paredes avultavam estampas vulgares coloridas, com vidro e moldura, relacionadas com temas tirados das Escrituras. Sempre que as vejo nas mãos dos bufarinheiros, revejo logo o interior da casa do irmão de Peggotty. As mais evidentes dessas imagens eram um Abraão de encarnado, disposto a sacrificar um Isaac de azul, e um Daniel de amarelo dentro da fossa de leões verdes. Por cima da pequenina prateleira do fogão exibiase um quadro que figurava o lugre Sarah Jane, construído em Sunderland, e ao qual tinham colado uma popa de madeira, obra de arte que combinava a pintura com a marcenaria. Considerei esse quadro como um dos maiores valores que se poderiam possuir neste mundo. Nas vigas do tecto sobressaíam ganchos, cuja utilidade não consegui perceber. Para obviar à ausência de cadeiras, serviamse de caixas, baús e outras coisas semelhantes.

Tudo isto eu vi ao primeiro relance, depois de transpor o limiar - o que é próprio de uma criança, de acordo com a minha teoria. Em seguida Peggotty abriu uma portinha e mostroume o meu quarto de dormir. Era o mais apetitoso e completo que eu até aí contemplara e ficava à popa do barco; no lugar do leme tinha uma janela minúscula; um espelho pendurado na parede, precisamente para a minha altura, enquadrado de conchas; uma cama, tão pequena que eu mal me poderia estender; e, na mesa, um ramo de algas marinhas num vaso azul. As paredes, caiadas, eram de um branco de leite e a colcha de retalhos ofuscavame a vista com o brilho das suas cores. Uma circunstância que eu notei particularmente nessa deleitosa casa foi o cheiro a peixe: era tão penetrante que, ao tirar o lenço da algibeira para me assoar, poderia julgarse, pelo odor, que ele tinha servido para embrulhar uma lagosta. Quando fiz a Peggotty uma observação a este respeito, disseme ela que o irmão negociava com lagostas, caranguejos e camarões. Mais tarde descobri que havia montes desses animais envolvidos uns nos outros e agarrandose a tudo quanto podiam; estavam num reservatório de madeira, onde se guardavam caldeirões e panelas.

Fomos recebidos por uma mulher atenciosa, de avental branco, que eu já vira à porta quando vinha às costas de Ham, a cerca de um quarto de milha de distância. Também se encontrava presente uma linda menina (pelo menos assim a considerei) que ostentava um colar de contas azuis: não consentiu que a beijasse, quando pretendi fazêlo, e correu para se esconder algures. Depois de um jantar excelente, composto de azevias cozidas, com batatas e manteiga derretida (e ainda uma costeleta para mim), fez a sua aparição um homem cabeludo, de cara simpática. Tratou Peggotty por «rapariga», e deulhe um beijo repenicado na face: vi logo, pela atitude circunspecta da minha criada, que se tratava do seu irmão. E erao na verdade, porque mo apresentaram como o senhor Peggotty, dono da casa.

- Muito prazer em conhecêlo - disse ele. - Vainos achar

rudes, mas estamos aqui para o servir.

Agradecilhes e disse que tinha a certeza de me dar bem num lugar tão agradável.

- E como está a sua mamã? - perguntou o senhor Peggotty. - Deixoua de boa saúde?

Informeio de que ela estava o melhor possível e que lhe mandava cumprimentos, o que era uma delicada invenção da minha parte.

- Fico muito reconhecido - volveu ele. - Se o menino se acomodar aqui, por duas semanas, com aquela - fez um gesto de cabeça para designar a irmã -, com Ham e a Emily, todos teremos muito gosto na sua companhia.

Tendo feito assim as honras da casa, com tanta hospitalidade, o senhor Peggotty para se lavar utilizou uma cafeteira de água quente, porque, explicou, «a água fria não bastava para se desemporcalhar». Voltou daí a pouco, muito melhorado na aparência, mas tão rubicundo que eu não pude coibirme de pensar que aquela cara se assemelhava muito às lagostas, lagostins e caranguejos, os quais entravam pretos na água quente e dela saíam vermelhos.

Terminado o chá e uma vez fechada a porta, quando nos instalámos voluptuosamente à lareira (porque as noites estavam frias e brumosas), considereime no mais delicioso retiro que a imaginação humana pode conceber. Que coisa encantadora, de facto, ouvir o vento levantarse sobre o mar, saber que lá fora o nevoeiro se arrastava pela planura desolada, olhar para o lume e pensar que não havia outra casa nas imediações e que essa casa era um barco! A pequena Emily dominara a timidez: sentarase a meu lado, no baú mais baixo e mais estreito, onde só nós dois caberíamos e que ocupava o cantinho do fogão. A senhora Peggotty, com o seu avental branco, fazia meia no extremo oposto. A minha criada achavase tão à vontade como se nunca houvesse conhecido outro lar, e trabalhava com os apetrechos do costume. Ham, que se entretivera a ensinarme um jogo de cartas, deixara em todo o baralho já sebento, com os dedos sujos da faina piscatória, novas manchas ainda mais evidentes. O senhor Peggotty saboreava o seu cachimbo. Calculei, pois, que fosse o momento azado para dois dedos de conversa.

- Senhor Peggotty - comecei.

- Faça favor de dizer.

- Deu ao seu filho o nome de Ham por viver numa espécie de arca?(1)

*1. Ham, em inglês, corresponde ao português Cam ou Cão, um dos três filhos de Noé.

O senhor Peggotty parecia achar que era uma ideia profunda, mas respondeu:

- Não, senhor, não lhe dei nome nenhum.

- Então quem foi?

- O pai dele.

- Julgava que o senhor fosse o pai.

- O pai era o meu irmão Joe.

- Já morreu? - sugeri, após uma pausa respeitosa. - Afogado - disse o senhor Peggotty.

Fiquei muito admirado com o facto de o senhor Peggotty não ser o pai de Ham e reflecti se não estaria enganado quanto ao parentesco das restantes pessoas de família. A curiosidade de saber era tanta que resolvi tirar o caso a limpo.

- E a pequena Emily? - inquiri, relanceandoa. - Não é sua filha, senhor Peggotty?

- Não, senhor, essa é filha do meu cunhado Tom.

Não pude resistir e observei, após outro silêncio respeitoso:

- Morreu, senhor Peggotty?

- Afogado - replicou ele.

Compreendi a dificuldade de recomeçar a conversa; mas ainda não atingira o âmago da questão e queria fazêlo a todo o custo. De maneira que disse:

- Não tem filhos, senhor Peggotty?

- Não, menino Davy - retorquiu, dando uma risada. - Sou solteiro.

- Solteiro! - exclamei, assombrado. - Então quem é...? E indiquei a mulher do avental.

- É a senhora Gummidge.

- Gummidge, senhor Peggotty?

Neste comenos, Peggotty (quer dizer, a minha Peggotty) fezme tais accionados para que me calasse que me limitei a ficar sentado, olhando os circunstantes em silêncio, até ao momento de ir para a cama. E aí, na intimidade do meu camarote, a minha criada informoume de que Ham e Emily eram um sobrinho e uma sobrinha órfãos, adoptados em diferentes ocasiões, quando estavam ao desamparo; e que a senhora Gummidge era a viúva de um Sócio dele num barco, homem que morrera muito pobre. O irmão de Peggotty, declarou ela, possuía duas grandes virtudes, a bondade e a rectidão, mas insurgiase quando lhe falavam nos seus actos de generosidade, chegando a dar murros na mesa (com que uma vez a rachou). Se tornassem a aludir a isso, dizia, estava disposto a desaparecer para sempre.

Fiquei muito impressionado com a bondade do meu hospedeiro e sentime num estado de beatitude perfeita, enquanto ouvia as mulheres deitaremse num camarote do mesmo lado do meu e o senhor Peggotty e o sobrinho pendurarem as redes nos ganchos que eu já havia notado. O sono principiou a invadirme e eu ouvi

o vento soprar fortemente do mar através da extensão deserta, o que me fez temer que, durante a noite, não se abrissem os abismos marítimos. Lembreime então de que estava num barco e que, se acontecesse qualquer percalço, tinha a bordo uma pessoa tão prestável como o senhor Peggotty.

Nada sucedeu, porém, além do amanhecer. Logo que a claridade do dia se projectou na moldura de conchas do meu espelho, saltei da cama e saí com Emily para a praia, onde começámos a apanhar pedrinhas.

- Tu és boa marinheira? - observeilhe. Creio que não pensava a sério em semelhante coisa, mas filo por simples galanteio, para dizer qualquer coisa. A ideia ocorrerame por causa dum barco que passava nesse instante e cuja vela se reflectiu nos olhos da pequena.

- Não - respondeu esta, abanando a cabeça. - Tenho medo do mar.

- Medo! - repeti, num rompante de ousadia, olhando para o oceano poderoso do alto da minha importância. - Eu, não!

-Ele é tão mau! - volveu Emily. - Tenhoo visto muito mau para os nossos homens. Vio despedaçar um barco do tamanho da nossa casa.

- Espero que não tenha sido aquele em que...

- Se afogou o meu pai? Não, não foi. Esse não o vi.

- E ele?

A pequena abanou a cabeça.

- Dele não me lembro.

Eis uma coincidência. Comecei logo a explicar que também não conhecera o meu pai; que eu e minha mãe sempre vivêramos juntos na melhor das harmonias, que assim continuávamos e que do mesmo modo seria para o futuro; que o túmulo do meu pai ficava no cemitério próximo da nossa casa, à sombra de uma árvore, sob cujos ramos eu passava manhãs agradáveis ouvindo cantar os pássaros. Havia, porém, algumas diferenças entre a minha orfandade e a de Emily. Ela perdera a mãe antes do pai; ninguém sabia onde este estava sepultado, salvo que devia ser nas profundezas do mar.

- Além disso - disse Emily, enquanto procurava conchas e pedrinhas - o seu pai era um senhor e a sua mãe uma senhora, ao passo que o meu pai era pescador e a minha mãe filha de pescador. Pescador também é o meu tio Dan.

- Dan é o senhor Peggotty? - inquiri.

- Fala do meu tio Dan... além?-perguntou ela, designando com a cabeça o barcohabitação.

- Sim, é desse que falo. Deve ser muito bom homem, não te parece?

- Se é bom? Fosse eu uma senhora e davalhe um casaco azulceleste com botões de diamantes, calças de nanquim, colete de veludo encarnado, chapéu tricórnio, um relógio grande, de ouro, um cachimbo de prata e um cofre cheio de dinheiro.

Afirmeilhe que o senhor Peggotty merecia tudo isso. Devo confessar que me sentia duvidoso quanto à figura que o homem faria vestido do modo proposto pela sobrinha, em especial no que se referia ao tricórnio. Mas guardei para mim estas apreensões.

A pequena Emily havia parado e enumerara todos aqueles artigos de vestuário e adorno olhando para o céu, como se estivesse a contas com uma visão celestial. Depois recomeçámos na colheita das conchas e pedrinhas.

- Gostavas de ser uma senhora? - indaguei.

A pequena miroume, riuse e, assentindo, murmurou: - Gostava muito. Passávamos então a ser pessoas de categoria, eu, o tio, o Ham e a senhora Gummidge. Já não nos importávamos que viesse mau tempo. Nós não, mas os pobres pescadores, esses sim. Com o nosso dinheiro havíamos de os socorrer.

Isto pareceume justo e, por isso, nada inverosímil. Disselhe quanto essa ideia me regozijava e a pequena animouse e redarguiu timidamente:

- Agora já tem medo do mar?

Nessa ocasião o mar estava suficientemente calmo para me tranquilizar. Todavia, se visse levantarse uma vaga, daria às de viladiogo, lembrandome dos parentes de Emily, todos afogados. Ainda assim não dei resposta afirmativa, observando:

- Tu também parece que não tens medo, apesar de dizeres o contrário. - Falei assim porque a vi andar muito à beira da velha prancha por onde seguíamos e receei que ela caísse à água.

- Não é disso que tenho medo - declarou Emily. - O que acontece é acordar quando o vento sopra rijo e tremo ao pensar no tio Dan e no Ham. Até julgo ouvir gritos de socorro! Por isso é que queria ser uma senhora. Agora, quanto a andar por aqui, é coisa que não me assusta. Mesmo nada. Ora veja!

Afastouse do meu lado e correu ao longo de uma viga oscilante que não apresentava qualquer resguardo e que ficava a certa altura sobre a água. O incidente fixouseme de tal maneira na memória que, se eu fosse desenhador, ainda hoje poderia representar a pequena Emily precipitandose para a destruição (segundo ali se me afigurou), com um olhar que nunca mais esqueci, dirigido para o mar ingente.

A figurinha leve, audaciosa, aérea, virouse e voltou para junto de mim sã e salva, e eu não tardei a rir dos meus temores e do grito de angústia que tinha soltado (inútil, no fim de contas, porque não havia ninguém nas proximidades). Contudo, muitas vezes mais tarde, tenho pensado se seria possível que, nessa brusca temeridade infantil, nesse olhar alucinado, não houvesse, pelo efeito da graça divina, a atracção do perigo ou o chamamento do pai afogado, para que a vida de Emily terminasse naquele dia?

Ainda agora reflicto neste ponto: se o futuro dessa criatura me fosse revelado naquele mesmo instante, com a clareza necessária para ser compreendido por uma criança, e admitindo que a existência da pequena dependia de um gesto meu, deveria eu correr ao seu encontro e salvála do abismo? Em certas ocasiões (muito breves, mas no entanto inegáveis) pensei se não teria sido preferível para ela que as águas se fechassem sobre a sua cabeça, naquela manhã, diante dos meus olhos. E cheguei à conclusão de que realmente teria sido melhor.

Isto pode ser prematuro. Talvez tenha ido longe de mais. Paciência, já fica dito.

Caminhámos por muito tempo, enchendonos de coisas que achámos curiosas e pondo cuidadosamente na água estrelasdomar dadas à costa - mal sei, nem mesmo hoje, quais são ao certo os hábitos desta espécie para acreditar que nos ficariam reconhecidas - e depois regressámos à residência do senhor Peggotty. Detivemonos sob o alpendre das lagostas para trocar um beijo inocente e entrámos por fim, resplandecentes de alegria e saúde, para tomarmos o almoço.

- Parecem dois tordozinhos - comentou o senhor Peggotty. Eu sabia o que isto significava, no nosso dialecto local, e aceitei como um cumprimento.

É claro que eu estava enamorado da pequena Emily. Tinha a certeza de que amava aquela criança com a franqueza, ternura e pureza que não se encontram na idade adulta, por mais alto e nobre que seja o amor. Sem dúvida que a minha imaginação punha naquela migalha de gente, de lindos olhos azuis, algo de etéreo que a fazia angelical. Se ela, por uma tarde soalheira, estendesse um par de asas e voasse perante mim, creio que presenciaria esse espectáculo com a maior naturalidade.

Passeávamos, como namorados, horas e horas, na planura sombria de Yarmouth. Os dias passavam por nós, risonhos, como se o próprio tempo não envelhecesse e se conservasse uma criança jovial. Declarei à Emily que a adorava e que, se ela me não correspondesse explicitamente, eu me veria forçado a matarme com uma espada. Respondeu que me adorava, sim, e eu acredito que fosse sincera.

Não possuíamos o mínimo sentido da desigualdade social, ou da pouquidade dos anos, ou de outro obstáculo qualquer, pois o porvir não existia para nós. Não nos preocupava mais a ideia da maturidade do que a do rejuvenescimento. Provocávamos a admiração da senhora Gummidge e da Peggotty, que murmurava à noite, ao vernos sentados lado a lado, em cima do baú: «Deus do Céu, como enternece!» O senhor Peggotty sorrianos por trás do seu cachimbo e Ham não fazia outra coisa senão sorrirnos também. A eles proporcionávamos nós dois o mesmo prazer que um brinquedo delicado ou uma reprodução miniatural do Coliseu.

Cedo descobri que a senhora Gummidge se não mostrava sempre tão amável como se poderia esperar, atendendo às condições da sua permanência em casa do senhor Peggotty. Era pessoa mal disposta e lastimavase com frequência, ao ponto de incomodar os outros habitantes de tão exígua residência. Eu aborreciame com isso e pensava que seria melhor para nós que ela dispusesse de aposentos à parte, onde curasse o seu mau humor.

O senhor Peggotty ia uma vez por outra a um botequim chamado «Boa Vontade». Dei pelo facto quando se ausentou na segunda ou terceira noite da minha estada ali, e a senhora Gummidge, entre as oito e as nove horas, começou a olhar para o relógio, dizendo que ele devia estar na taberna e que sabia, desde a manhã, que assim devia suceder. Todo o dia ela estivera irritada. Chegara mesmo a chorar, de manhã, quando acendeu o fogão e o fumo se espalhou pela casa.

- Sou uma infeliz - resmungou, na ocasião desse incidente desagradável. - Estou só no mundo e só me acontecem contrariedades.

-Vai passar depressa - atalhou Peggotty (falo da minha criada). - E, além disso, o mal é tanto para si como para nós.

- Eu sofro mais do que os outros - ripostou a senhora Gummidge.

Estava um dia frio, com fortes rajadas de vento. O canto reservado à senhora Gummidge afiguravaseme o mais quente e abrigado, tal como a sua cadeira o assento mais cómodo da habitação. Todavia, desta vez, ela não achava nada a seu gosto. Queixavase constantemente do frio, o qual lhe provocava uma sensação nas costas, a que dava o nome de formigueiro. Por fim, tornou a verter lágrimas e repetiu que estava só no mundo e só tinha contrariedades.

- Não há dúvida de que está frio - disse Peggotty. - Todos o sentem.

- Eu sinto mais do que ninguém - replicou a senhora Gummidge.

Ao jantar foi a mesma coisa. A senhora Gummidge era servida logo depois de mim (a quem concediam as honras de hóspede de distinção). O peixe, muito pequeno, tinha inúmeras espinhas, e as batatas estavam levemente queimadas. Todos nos mostrámos desanimados, mas a senhora Gummidge recomeçou a chorar e repetiu as declarações do costume, com reforçada amargura.

Nestas condições, achavase ela bastante contristada e chorosa, a um canto, fazendo meia, quando o senhor Peggotty regressou, aí pelas nove horas. A minha criada, muito jovial, reiniciou o seu trabalho, e Ham sentouse a consertar um par de botas de água. Eu, com a pequena Emily a meu lado, lia para todos. A senhora Gummidge só se manifestava com suspiros e nunca mais levantara os olhos do chão.

- Então, como se passa? -perguntou o senhor Peggotty, sentandose no seu lugar habitual.

Cada qual proferiu uma palavra de saudação, excepto a senhora Gummidge, que se limitou a menear a cabeça, sem largar as agulhas.

- Que lhe aconteceu, santinha? - inquiriu ele. - Animese. A viúva não parecia disposta a animarse. Tirou da algibeira um

velho lenço de seda preta e enxugou os olhos; e, em vez de o tornar a guardar, conservouo na mão e tornou a secar as lágrimas. O lenço ficava assim preparado para servir na primeira oportunidade.

- Que lhe aconteceu? - repetiu o senhor Peggotty.

- Nada. Vem da «Boa Vontade», Dan?

- Venho. Passei lá um bocadinho esta noite.

- Tenho pena que o faça por minha causa - disse a senhora Gummidge.

--Essa agora! Ninguém me obriga a isso! - redarguiu ele, dando uma risada. - Vou por gosto.

- De bom gosto - comentou a viúva. - Sim, sim, de bom gosto - repetiu, enxugando outra vez os olhos. - O que lastimo é que seja por minha causa e que o faça de tão bom gosto.

- Por sua causa! Não tem nada que ver consigo! - asseverou o senhor Peggotty. - Não suponha semelhante coisa.

- Ora, ora, eu sei quem sou. Uma pobre criatura sem mais ninguém, que não só tem contrariedades como origina as contrariedades dos outros, é verdade, sofro mais do que todos e douo a entender em excesso. Aí está a minha desgraça.

Não pude impedirme de pensar, ao ouvir o que ela dizia, que a mesma desgraça atingia outros ocupantes da casa, além da senhora Gummidge. Mas o senhor Peggotty não deu resposta, limitandose a aconselhála de novo a que se animasse.

- Quem me dera não ser assim! - disse a viúva. - Mas quê! Conheçome bem. Isto provém dos meus aborrecimentos e eles trazemme contrariada. Pudesse eu deixar de sofrer! Infelizmente, não posso. Preferia estar calejada e não estou. Apoquento os outros. Todo o dia apoquento a sua irmã e o menino Davy.

Aqui enternecime subitamente e interrompi.

- Não, senhora Gummidge, de maneira nenhuma!

- Não tenho o direito de proceder assim - continuou ela. - Recompensoos muito mal! O que eu devia era ir para um hospício e lá morrer. Sou uma pobre mulher e aqui não passo de um estorvo. Se é necessário que só tenha contrariedades, melhor será que as sofra na minha freguesia. Dan, deixeme ir morrer longe, para não incomodar mais ninguém.

Dito isto, a senhora Gummidge retirouse e foi meterse na cama. Então o senhor Peggotty, que não manifestara outro sentimento senão profunda compaixão pela infeliz, olhou de roda para nós e, ainda com uma expressão penalizada, murmurou:

- Ela pensava no velhote!

Não compreendi qual era o velho que ocupava desse modo os pensamentos da senhora Gummidge. Mas a minha criada, quando foi deitarme, explicou que se tratava do defunto marido, e que essa verdade inegável comovia sempre o irmão. Passado algum tempo, quando ele já estava na sua rede, ouviuo repetir a Ham: «Coitada! Pensava no velhote». E sempre que a senhora Gummidge se sentia dominada por aquela angústia (o que sucedeu algumas vezes durante a minha permanência no barco), o senhor Peggotty dizia a mesma frase como se alegasse uma circunstância atenuante e nunca deixava de exteriorizar a maior comiseração.

Neste teor decorreram as duas semanas, sem outra variedade senão a das marés, o que modificava o horário das idas e vindas do senhor Peggotty e também das ocupações do Ham. Quando este último estava inactivo, passeava às vezes connosco para nos mostrar as barcaças e os navios. Em duas ou três ocasiões levounos num barco de remos. Não sei por que motivo um conjunto de impressões gerais se associa mais particularmente a um lugar do que a outro; realmente deve acontecer isto à maior parte das pessoas, sobretudo no que toca às suas recordações da infância. Quanto a mim, nunca ouço ou leio a palavra Yarmouth sem me lembrar de certa manhã de domingo na praia, com os sinos a convocar os fiéis para a igreja, a pequena Emily apoiada ao meu ombro. Ham atirando distraído pedras ao mar, e o Sol, atravessando a bruma densa a nos revelar os navios, que pareciam as suas próprias sombras.

Chegou por fim o dia do regresso. Não me importava muito deixar o senhor Peggotty e a senhora Gummidge, mas separarme da Emily, isso, só de pensar, é que me cortava o coração. Fomos de braço dado até ao albergue, onde a carroça parava, e eu prometi à pequena, pelo caminho, escreverlhe de vez em quando. (Cumpri esta promessa em caracteres maiores do que os dos anúncios manuscritos dos quartos para alugar.) Comovemonos enormemente na altura dos adeuses. E se jamais, na minha vida, eu experimentei um grande vácuo, esse foi com certeza no dia da partida.

Durante todo o tempo da ausência eu fora ingrato para com o meu lar, porque nunca mais pensara nele, ou muito pouco. Mal, porém, iniciara a viagem, a consciência infantil logo me apontou o remorso. E eu senti, naquele abatimento, que era lá o meu ninho e que a minha mãe era o meu consolo e a minha amiga.

Conforme avançávamos no caminho, mais isto se me avolumava no espírito. Quanto mais as coisas se tornavam familiares, mais crescia a excitação e o desejo de estar em casa e de cair nos braços maternos. Mas Peggotty, em vez de compartilhar destas comoções, tentava refreálas (suavemente, embora) e parecia embaraçada e abatida. Todavia, e a despeito deste modo de pensar da minha criada, Blunderstone surgiu à vista. Como conservo esse instante na memória! A tarde estava fria e cinzenta, o céu era triste e havia ameaças de chuva.

Abriuse a porta, e, meio a rir, meio a chorar, alegre e simultaneamente preocupado, busquei com os olhos a minha mãe. Não era ela que lá estava, mas uma criada desconhecida.

- Que aconteceu, Peggotty? - exclamei, lastimoso. - A mamã ainda não voltou?

- Voltou, sim, menino... Espere um instante... Eu vou... eu vou dizerlhe uma coisa.

Peggotty saía com dificuldade da carroça, tanto pelo embaraço da roupa como pela atrapalhação moral em que se achava. Todavia, caleime. Uma vez apeada, ela pegoume na mão, e levoume, sempre confusa, até à cozinha. Aí, fechou a porta.

- Que aconteceu? - repeti então, já assustado.

- Não foi nada. Sossegue, querido menino - replicou, afectando um ar satisfeito.

- Tenho a certeza de que há qualquer coisa - insisti. - Onde

está a mamã? -Onde está a mamã? - disse ela, arremedando as minhas

palavras.

- Sim, sim. Por que é que não foi esperarme ao portão e por que motivo viemos para aqui?

Marejaramseme os olhos. Senti que ia desfalecer.

- Deus lhe valha, meu filho! Que é que tem? Fale!

- Morreu... também?

A criada gritou um «não» com extraordinária força, e depois sentouse, anelante. Eu pregaralhe um susto, declarou.

Deilhe um abraço apertado, para atenuar esse efeito, e então, de pé diante dela, olheia interrogativamente.

- Eu já lho devia ter dito, menino Davy, mas não houve ensejo. Devia têlo provocado, esse ensejo... No entanto, não consegui decidirme...

- Continua, Peggotty - supliquei, mais alarmado do que nunca. Ela desatou as fitas da touca, com dedos trémulos, e começou,

sempre ofegante:

-Pois quer saber? Tem agora um papá!

Tremi, fiquei pálido. Não sei o quê nem como, mas algo que se relacionava com o cemitério e a ressurreição dos mortos atingiume como uma baforada insalubre.

- Outro - acrescentou.

- Outro pai?

Peggotty abriu a boca, como se fosse engolir qualquer coisa muito dura, estendeu a mão e disse:

- Venha vêlo.

- Não quero.

- E a mamã, também- acrescentou Peggotty.

Cessei a resistência e fomos direitos à sala, onde a criada me deixou. A um lado do fogão estava a minha mãe; do outro o senhor Murdstone. A mãe interrompeu o trabalho de costura que tinha entre mãos, e ergueuse precipitadamente, mas com ar receoso, segundo me pareceu.

-Então, Clara, minha querida! - disse Murdstone. - Dominate. Davy, estás bom?

Deilhe a mão. Após um momento em que ficámos indecisos aproximeime da mãe, que me afagou brandamente o ombro e recomeçou o seu trabalho. Eu não podia olhar nem para ela nem para ele, mas pressentia que Murdstone nos observava a ambos. Então fui até à janela e olhei para fora, para os arbustos que curvavam os ramos na aragem fria.

Logo que me foi possível, escapeime e subi a escada O. meu antigo quarto havia sido transformado, e eu devia dormir muito longe dali. Desci ao résdochão, e também lá encontrei tudo com aspecto diferente. Em seguida vagueei no pátio - mas recuei vivamente, porque a casota sem cão tinha agora um ocupante enorme, de bocarra ameaçadora e um pêlo negro que me fez recordar o senhor Murdstone. O animal enfurecerase ao verme e tentou saltar sobre mim.