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David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 25. ANJOS BONS E MAUS
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Na manhã que se seguiu a esse dia de enxaqueca, de dores no estômago e de remorsos, vinha eu a descer a escada, com uma noção assaz confusa quanto à data do meu malfadado jantar, quando encontrei a meio caminho um portador munido de uma carta. Como me visse olhálo do patamar, o homem correu para mim e, ofegante, perguntoume, tocando com a bengala na aba do chapéu:

- É o senhor T. Copperfield?

A custo confessei que era esse o meu nome, tão persuadido estava de que a carta procedia de Agnes Wickfield. Entretanto assegurei ser essa a minha identidade; o portador, acreditandome, deume a carta e declarou que esperaria pela resposta. Filo esperar à porta e reentrei em casa tão agitado que tive de pôr a missiva em cima da mesa para me familiarizar com o sobrescrito e me resolver a rasgar a obreia.

Abrindoo, vi que eram breves linhas do punho de Agnes, sem a mínima alusão ao estado em que eu me apresentara no teatro. Eis o teor:

«Caro Trotwood

«Estou neste momento em casa do correspondente do papá, o senhor Waterbrook, em Ely Place, Holborn. Quer vir visitarme hoje à hora que lhe agrade marcar?

«Sua afeiçoada

Agnes.»

Gastei tanto tempo a encontrar uma resposta que fosse satisfatória que o portador decerto julgou estar eu aprendendo a escrever. Na realidade, comecei várias. A primeira iniciavase deste modo: «Jamais poderei apagar da sua lembrança, querida Agnes, a impressão de revolta que...» Mas isto não me agradou, e eu rasguei a folha. Outra principiava assim: «Shakespeare notou, querida Agnes, ser deveras estranho que a gente introduza um inimigo na própria boca...» Mas isto também não servia, porque me fez lembrar Markham, e suspendi o período. Comecei mesmo uma epístola em verso: «Oh, esquece, esquece...», o que se me afigurou, afinal, absurdo. Após todos estes ensaios, escrevi: «Querida Agnes, a sua carta reflecte a signatária: que mais poderei dizer como elogio? Irei às quatro horas. Saudades do T. C.» Foi com esta resposta que o portador partiu, embora eu, mal a entreguei, tivesse desejado retêla.

Se esse dia fosse tão terrível para algum profissional dos Doctor's Commons como o foi para mim, creio sinceramente que ele o teria expiado nesse queijo podre que era o Tribunal Eclesiástico. Se bem que saísse de lá às três horas e meia e começasse minutos depois a rondar as imediações de Ely Place, já trazia um bom quarto de hora de atraso, pelo relógio de Santo André, em Holborn, quando, levado pelo desespero, me atrevi finalmente a puxar a sineta particular colocada à esquerda da porta do senhor Waterbrook.

O résdochão da casa era consagrado aos negócios e o andar superior às obrigações mundanas (estas em grande número). Introduziramme numa sala bonita mas um tanto atravancada de móveis e lá se me deparou Agnes Wickfield entretida a fazer um saco de rede.

Agnes tinha um ar tão calmo e bondoso, recordoume tanto os bons tempos descuidados da minha estada em Cantuária (em contraste com a atmosfera brumosa, saturada de álcool, do festim da véspera), que eu, achandome assim a sós com ela, me abandonei aos remorsos e à vergonha... e me portei como um idiota. Confesso que verti lágrimas, e não sei ainda se isso foi o que podia fazer de mais sensato ou de mais ridículo.

- O que me aflije, Agnes, é o facto de a haver encontrado lá. Tinha de ser você! Oh, bem me parece que mais valia ter morrido.

A rapariga descansou um instante a mão no meu braço (essa mão cujo contacto não tinha par) e eu sentime de tal modo aliviado e confortado que não resisti à tentação de a levar aos lábios e de a beijar, cheio de gratidão.

- Sentese - disse ela jovialmente. - Não esteja aborrecido, Trotwood. Se não pudesse ter confiança em mim, em quem mais, pois, a poderia ter?

- Ah, Agnes, você é o meu anjo bom!

Ela sorriu, um pouco melancolicamente, segundo se me afigurou, e abanou a cabeça.

- Se na verdade o fosse, Trotwood, haveria uma coisa que eu tomaria muito a peito.

Interrogueia com o olhar, mas já pressentia o que ela queria dizer.

- Seria - continuou, fitandome -, pôlo de sobreaviso contra o seu anjo mau!

- Querida Agnes, se se refere a Steerforth...

- Nem mais, Trotwood.

- Pois nesse caso está a ser injusta. Ele, o meu anjo mau... ou seja lá de quem for! Ele que foi sempre o meu guia, o meu sustentáculo, o meu grande amigo! Querida Agnes, não será impróprio da sua pessoa fazer esse juízo só pela maneira como o viu na outra noite?

- Não é por aí que eu o julgo.

- Então?

- Por certas coisas... talvez insignificantes em si mesmas, mas que reunidas podem adquirir importância. Julgo em parte pelo que você me disse dele e também pela influência que exerce no seu carácter, Trotwood.

Aquela voz branda tinha o condão de fazer vibrar em mim a corda sensível. Em geral era grave, porém quando era assim grave, como naquele momento, acrescentavase de um frémito que me submetia. Quando Agnes se curvou de novo sobre o seu trabalho, demoreime a contemplála, supondo ainda que a estava a ouvir. E, apesar de todo o meu entusiasmo por Steerforth, a sua imagem enublouse diante de mim.

- Isto pode ser arriscado - disse ela, erguendo a vista - tanto mais que sempre vivi afastada e mal conheço a sociedade. Mas sei, Trotwood, que esta opinião se consolidou pela lembrança dos anos que vivemos juntos e pelo interesse que tomo por tudo quanto lhe respeita. É o que me torna tão ousada. Estou certa de que não me engano. Penso que não sou eu quem fala, mas outrem que o previne contra um amigo tão perigoso.

Mais uma vez a observei, crendo ainda escutála, embora Agnes já se tivesse calado. E mais uma vez, embora tão fiel eu fosse à amizade de Steerforth, a imagem deste se entenebreceu aos meus olhos.

- Não sou tão insensata - disse ela daí a pouco, com a sua voz habitual -, para supor que você queira ou possa mudar de um instante para o outro de sentimento, sobretudo quando esse sentimento está tão radicado e se liga a todas as fibras da sua natureza confiante. Não deve modificarse levianamente. O que lhe peço Trotwood, é que se jamais pensar em mim... quero dizer - acrescentou com um sorriso calmo, vendo que eu a ia interromper e Agnes sabia porquê - ... quero dizer que de cada vez que pensar em mim não se esqueça de pensar nos meus conselhos. Espero que me perdoe...

- Perdoarlheei quando fizer justiça a Steerforth e o estimar tanto quanto eu o estimo.

- Só então? - perguntou.

Noteilhe uma sombra no rosto, mas Agnes sorriu e a nossa confiança restabeleceuse por completo.

- E quando me perdoa, a mim, o meu procedimento do outro dia?

- Quando o recordar.

Gostaria ela de mudar de assunto, mas eu andava tão imbuído dele que não lho podia consentir, e insisti em lhe contar como chegara a cobrirme assim de opróbrio e por que série de acasos havíamos acabado por ir ao teatro. Aliviavame a ideia de repisar o reconhecimento que devia a Steerforth pelos cuidados que o amigo me dispensara, quando eu já não estava capaz de tomar conta de mim.

- Lembrese - atalhou Agnes, passando tranquilamente a outro tema -, que tem obrigação de me revelar não só os seus aborrecimentos como também os seus amores. Quem sucedeu à menina Larkins, Trotwood?

- Ninguém.

- Mente! Com certeza que há outra... - volveu sorrindo e ameaçandome com o dedo.

- Não, Agnes, jurolhe. Há, por exemplo, em casa da senhora Steerforth, uma pessoa muito inteligente, com quem eu gosto de conversar... a senhora Dartle... mas não a amo.

Agnes riuse da sua própria sagacidade e disseme que, se eu continuasse a fazerlhe fielmente as minhas confidências, ela organizaria um registo das minhas paixões, com datas, duração e fim de cada uma, como a relação dos reis e rainhas de Inglaterra. Depois perguntoume se eu tinha visto Uriah.

- Uriah Heep? Não. Está em Londres?

- Vem todos os dias ao escritório do résdochão deste prédio. Chegou uma semana antes de mim, creio que para um assunto desagradável.

- Um assunto que a inquieta, Agnes. Bem o percebo. Que é, afinal?

A rapariga descansou o trabalho e, cruzando as mãos, respondeume com um olhar pensativo.

- Suponho que vai ser sócio do papá.

- O quê? Uriah? Esse ente abjecto e servil, que rasteja como um verme, pretende semelhante promoção? - exclamei indignadíssimo. - Você não opôs objecções, Agnes? Lembrese o que podem vir a ser tais relações! Deve falar, impedir essa loucura do seu pai. E isto enquanto é tempo...

De olhos sempre fixos em mim, Agnes abanou a cabeça e sorriu um pouco da minha veemência. Respondeu então:

- Recordase da nossa última conversa a respeito do papá? Foi dias depois que ele me falou do projecto. Quanto confrangia vêlo debaterse entre o desejo de me levar a crer que tomava essa decisão de livre vontade e a sua impotência em esconderme que ela lhe era imposta! Fiquei tão condoída!

- Imposta, Agnes? Quem a impunha?

- Uriah - declarou após um momento de hesitação -, tornouse indispensável ao papá. É manhoso e observador. Adivinhou todas as fraquezas do seu chefe, animase e tira partido delas ao ponto de (se quer saber tudo o que penso) o papá ter medo dele.

Agnes podia continuar. Conhecia mais coisas, ou suspeitavaas, isso viase bem. Mas não quis causarlhe maior dor interrogandoa, pois sabia que se calava para poupar a honra do pai. Compreendi que há muito tempo as coisas

haviam tomado esse caminho; portanto, guardei silêncio.

- O seu ascendente sobre o papá - prosseguiu - é muito grande. Mostrase humilde e reconhecido (ao menos espero que seja sincero), mas na realidade é todo poderoso e eu temo que ele abuse desse poderio.

Declarei que o considerava um cachorro, o que por momentos me deu grande satisfação. Agnes acrescentou:

- Quando o papá me falou, Uriah disseralhe que o ia deixar, que o fazia com pena e de má vontade, mas que lhe tinham oferecido um lugar melhor. O papá estava então muito deprimido e cheio de preocupações, como você nunca o vira antes, nem eu. Assim, a ideia de tomar Uriah como sócio pareceu aliviálo, apesar de o facto o ferir e vexar.

- E você que lhe disse, Agnes?

- Penso ter agido pelo melhor. Convencida de que o sacrifício era necessário ao repouso do papá, pedilhe que levasse isso a efeito. Observeilhe que lhe mitigaria o malestar (creio que não me enganei) e que essa solução permitiria que estivéssemos mais tempo juntos. Oh, Trotwood - e Agnes escondeu a cara nas mãos, porque as lágrimas lhe deslizavam pelas faces - tenho quase a impressão de ter actuado mais como inimiga do papá do que como filha amantíssima. Eu sei como a sua ternura por mim o transformou, quanto ele comprimiu o círculo das suas relações e dos seus deveres para concentrar em mim todos os seus pensamentos. Sei de quantas coisas se privou por minha causa, sei que a sua inquietação quanto a mim lhe diminuiu as forças, fazendo convergir a energia sempre para o mesmo ponto. Se eu pudesse reparar tudo isto! Se pudesse levarlhe a cura, depois de haver sido a causadora involuntária do seu declínio!

Eu nunca vira Agnes chorar: vira, sim, lágrimas nos seus olhos quando me cobria de louros na escola, e na última vez que faláramos do doutor Wickfield; e reparara que ela desviara o rosto quando disséramos adeus; mas jamais a tinha visto desolarse daquela maneira. Senti tanta mágoa que não pude deixar de balbuciar tolamente:

- Ó Agnes, não chore! Querida irmã!

Mas, como agora sei e então ignorava, Agnes erame muito superior quanto a vontade e energia; não precisava, pois, das minhas súplicas. Essa bela tranquilidade que a extrema tanto nas minhas recordações reapareceu como reaparece o céu azul após a passagem da nuvem.

- Temos poucas ocasiões de estar sós - disseme ela. - De maneira que, aproveitando esta, lhe peço que seja amável com Uriah. Não o repila. Não se irrite (pois creio que tem propensão para tal) com o que lhe é antipático na pessoa dele.

Não sabemos se o homem é realmente mau, e podemos estar a ser injustos. Em todo o caso, pense mais em mim e no papá.

Agnes não teve tempo de prosseguir, porque se abriu a porta e entrou, majestosamente, a senhora Waterbrook. Era uma dama imponente (ou pelo menos vestida com imponência; não cheguei a destrinçar o que, no caso, pertencia mais à portadora ou ao vestido). Eu tinha a vaga ideia de a ter visto no teatro, mas a senhora parecia recordarse perfeitamente de mim e desconfiar que me encontrava ainda no mesmo estado de embriaguez.

Convencendose, porém, de que não bebera e (atrevome a supôlo) de que se encontrava diante de um rapaz educado, a senhora Waterbrook abrandou consideràvelmente a sua prevenção e perguntoume, em primeiro lugar, se eu ia muito aos parques, e, em segundo lugar, se frequentava a sociedade. Pareceme que a resposta negativa que dei às suas perguntas me fez descer de novo na sua estima, mas dissimulou, complacente, o facto e convi doume para jantar no dia seguinte. Aceitei o convite e despedime, mas, ao sair, passei no escritório para visitar Uriah; como o não encontrasse, deixeilhe um bilhete.

Logo que, na tarde seguinte, cheguei para jantar, e, uma vez transposta a entrada, me senti mergulhado num banho de vapor de perna de carneiro, percebi que não era o único conviva; com efeito, reconheci sem dificuldade o portador da carta disfarçado de lacaio para ajudar o criado da casa e colocado ao pé da porta para me anunciar. Tomou, ao perguntarme confidencialmente o nome, o ar de quem nunca me vira antes, embora já fôssemos conhecidos.

O senhor Waterbrook, pessoa de idade madura, tinha o pescoço curto, com um colarinho postiço muito largo; só lhe faltava o nariz preto para ser o vivo retrato de um buldogue. Disseme que experimentava grande prazer com a minha presença; depois, feitos os meus cumprimentos à dona da casa, ele apresentoume cerimoniosamente a uma dama de aspecto rebarbativo, vestido de veludo negro e com um imenso chapéu de veludo da mesma cor. Dava a impressão (tanto quanto me lembro) de ser parente próxima do Hamlet, algo como sua tia.

Esta senhora era casada com o doutor Henry Spiker, que também se encontrava lá: homem tão frio que a cabeça, em vez de cabelos brancos, me pareceu estar polvilhada de gelo. Todos testemunhavam grande respeito aos Spikers, e isto porque (explicoume Agnes) ele era advogado de qualquer coisa ou de alguém (esqueci quem ou quê) vagamente relacionado com a Fazenda Pública.

Entre os convivas figurava Uriah Heep, vestido de preto e nimbado de humildade. Quando lhe apertei a mão, declarouse orgulhoso da deferência que eu lhe fazia e muito grato pela minha condescendência. Gostaria de o ver menos reconhecido,

pois, na sua gratidão, rodou à minha volta toda a noite. E, sempre que eu dizia qualquer coisa a Agnes, tinha a certeza de ver atrás de nós o seu rosto cadavérico e os olhos cavos e sem pestanas.

Havia outras pessoas, todas geladas para o banquete, como se faz ao vinho. Uma, porém, atraiume a atenção antes que entrasse, porque ouvi proferir o nome: o senhor Traddles! Evoquei logo o internato de Salem; talvez fosse Tommy, pensei, esse que costumava desenhar esqueletos.

Esperei pelo senhor Traddles com enorme curiosidade. Era um rapaz de ar sério, com modos circunspectos, cabelo um tanto esquisito e olhos esbugalhados. Depressa se encafuou num canto sombrio, onde eu mal o distinguia. Por fim consegui extremálo, e, se o olhar me não atraiçoava, tratavase realmente do infeliz Traddles.

Aproximeime do senhor Waterbrook e disselhe que julgava ter o gosto de conhecer um dos meus antigos camaradas de curso.

- Palavra? - replicou, surpreendido. - Mas o senhor é muito novo para ter andado no liceu com o doutor Henry Spiker.

- Não falo desse. Refirome ao senhor Traddles.

- Ah, ah... Realmente?-volveu com interesse mais comedido. - É possível.

- Caso seja ele de facto, conhecemonos no internato de Salem. Era excelente rapaz.

- Sim, sim. Traddles é bom rapaz - respondeu o dono da casa, meneando a cabeça com indulgência. - Traddles é bom rapaz.

- Que estranha coincidência!

- Com efeito, é uma coincidência encontrar aqui o Traddles, pois só o convidei esta manhã, quando se verificou que o lugar destinado à mesa ao irmão da senhora Spiker não podia ser ocupado por este, devido a uma indisposição. Homem deveras notável, o irmão da senhora Spiker...

Murmurei uma confirmação, bastante sentida se se pensar que não sabia nada a seu respeito, e inquiri qual era a profissão do senhor Traddles.

- Estudante de Direito. Ah, sim, excelente rapaz. Só faz mal a si mesmo.

- Como? - retorqui, penalizado.

O senhor Waterbrook mordeu os lábios, brincou com a corrente do relógio, cheio de tranquila satisfação, e disse:

- Creio que é desses que se prejudicam a si próprios. Não me parece que venha a ganhar algum dia mais de quinhentas libras. Foime recomendado por um colega. Não há dúvida que tem talento para redigir sumários e expor claramente um caso. Estou até disposto a darlhe, este ano, qualquer coisa para experimentar... qualquer coisa importante.

O senhor Waterbrook lembrava não digo já um homem que nascera

com uma barra de oiro no berço mas pelo menos com um escadote com que podia subir aos píncaros da existência; de maneira que lhe era agora fácil contemplar, do alto das muralhas, com o olhar protector de um filósofo, os infelizes que tinham ficado no fosso.

Prosseguia eu nestas cogitações quando anunciaram o jantar. O dono da casa ofereceu o braço à tia de Hamlet; o doutor Henry Spiker à senhora Waterbrook; Agnes, que eu tanto desejaria conduzir, teve de se deixar acompanhar por um indivíduo de sorriso pateta e pernas flácidas. Uriah, Traddles e eu, por sermos os mais novos, fomos os últimos a descer para a sala da refeição, sem qualquer ordem estabelecida. Compensoume a perda de Agnes o facto de poder falar com Traddles, que ficou encantado com o nosso reencontro. Uriah, durante este tempo, torciase com um misto de tão evidente satisfação e humildade que me apetecia atirálo por cima do corrimão da escada.

Ao jantar sentámonos nos dois extremos da mesa, ele faiscando ao lado de uma senhora vestida de veludo encarnado e eu à sombra da tia de Hamlet. O banquete foi demorado e a conversa versou sobre Aristocracia e Sangue. Por várias vezes nos disse a senhora Waterbrook que, se tinha um fraco, esse era o Sangue.

Se fôssemos menos distintos talvez nos houvéssemos aborrecido menos. Mas, sendo de uma distinção absoluta, os nossos temas forçosamente que resultaram limitados. Estavam presentes uns esposos Gulpidges, ligados de certa maneira (pelo menos ela) ao contencioso bancário; e assim, com os Bancos e a Fazenda Pública, nós formávamos um círculo bastante fechado. Ainda por cima, a tia de Hamlet fora atacada da mania dos solilóquios e começou a falar com desenvoltura de todos os assuntos que vinham à balha. Estes eram poucos, sem dúvida, e como recaíamos sempre no tema do Sangue, ela encontrou largo campo para especulações abstractas, no género do seu sobrinho. Até nos poderiam tomar por uma família de vampiros, tão sanguinária se tornou a nossa conversa.

- Confesso que sou da opinião de minha mulher - disse o dono da casa, com o copo de vinho em riste. - Há muitas coisas dignas de atenção, mas nenhuma como o Sangue.

- Não há nada tão consolador - observou a tia de Hamlet - nada que seja tão beau ideal de..., enfim, do que estamos a dizer. Há espíritos bastante vulgares (felizmente em pequeno número) para preferirem curvarse diante do que chamarei os ídolos. Sim, verdadeiros ídolos: do Trabalho, da Inteligência... Mas isto são coisas impalpáveis, o que não acontece com o Sangue. O Sangue vêse no nariz, vêse no queixo, podemos dizer: «cá está!» A sua presença é inegável.

O jovem idiota de pernas flácidas, que conduzira Agnes à casa de jantar, resolveu a questão, em meu parecer, de forma definitiva.

- Diabos me levem - começou ele, circunvagando a vista pela mesa com um sorriso parvo -, o Sangue é coisa a que não se pode renunciar. Precisamos dele. Há rapazes cuja educação e comportamento deixam muito a desejar quando se pensa na classe a que pertencem... Mas diabos me levem se não é consolador saber que têm sangue azul! Eu, por mim, prefiro ser derrubado por um homem que tenha sangue azul a ser levantado por um que o não tenha.

Esta opinião, que resumia tão eloquentemente o problema, causou grande contentamento e pôs em evidência o seu autor até à altura de as senhoras se retirarem da sala. Notei então que os senhores Gulpidge e Spiker, até aí reservados, formaram uma espécie de aliança defensiva contra o inimigo comum, isto é, contra nós, e trocaram através da mesa um diálogo misterioso destinado a confundirnos e perdernos.

- Esse caso das primeiras obrigações de quatro mil e quinhentas libras não deu o resultado que se esperava - observou Gulpidge.

- Referese à operação D. de A.?

- AC. de B.

Spiker alçou as sobrancelhas e pareceu contrariado.

- Quando a questão foi apresentada a Lorde...-explicou Gulpidge. Mas detevese, sem terminar a frase.

- Bem sei, Lorde N. - disse Spiker. O outro prosseguiu, com ar soturno:

- Quando a questão lhe foi apresentada, ele respondeu: «Ou o dinheiro, ou tribunal.»

- Meu Deus!-exclamou Spiker. E Gulpidge repetiu com firmeza:

- Ou o dinheiro ou tribunal. Então o fiador responsável...

- K. - declarou Spiker, no tom de quem esperava o pior.

- Recusouse terminantemente a assinar, embora esperassem por ele em New Market, para esse mesmo fim.

Spiker estava tão atento que parecia petrificado.

- E assim estão as coisas neste momento - concluiu Gulpidge, reclinandose no espaldar da cadeira. - O nosso amigo Waterbrook desculparmeá se não sou mais explícito, mas atendendo à magnitude dos interesses que isto envolve...

O senhor Waterbrook mostravase felicíssimo, segundo se me afigurou, pelo facto de se falar à sua mesa de tão grandes interesses e tão grandes nomes. Tomou um ar sombrio e compreensivo (embora percebesse tanto do assunto como eu) e concordou plenamente com a discrição observada pelos seus convivas. Depois de haver sido objecto de tamanha confiança,

o doutor Spiker quis naturalmente retribuir a cortesia do seu amigo, e por isso o diálogo foi seguido de outro, durante o qual chegou a vez a Gulpidge de ficar embasbacado. E assim por diante, sucedendose os diálogos no mesmo teor, enquanto o nosso anfitrião nos considerava com orgulho, a nós, vítimas de salutaríssimo temor e espanto.

Foi um alívio quando subi mais tarde e reencontrei Agnes, a quem apresentei Traddles, que era tímido mas simpático e tão bom rapaz como outrora. Como tinha de se retirar cedo, porque partia no dia seguinte, não pude conversar com ele demoradamente como desejava; mas tomámos nota dos respetivos endereços e prometemos encontrarnos na sua volta a Londres. Ficou contente por saber que eu estivera com Steerforth, a quem se referiu com entusiasmo; pedilhe então que repetisse a Agnes o que pensava do nosso amigo comum, mas a rapariga limitouse a olhar enquanto ele falava e a oscilar levemente a cabeça quando eu era o único a observála.

Tive a impressão de que Agnes não se sentia muito à vontade naquela casa, e assim rejubilei quando soube que regressava à sua dentro de poucos dias, embora por outro lado lastimasse separarme dela. Esta perspectiva aconselhoume a ser o último a sair: a sua presença recordavame com delícia a minha existência feliz na austera mansão de Cantuária, que Agnes soubera tão bem aformosear; seria capaz de permanecer assim o resto da noite, mas como não tinha explicação para a minha demora e os convivas se haviam retirado já, despedime constrangido, sentindo mais do que nunca que ela era o meu anjo bom.

Disse que todos haviam partido, porém devia abrir uma excepção para Uriah Heep, que não deixava de nos rondar. Desceu comigo e saiu a meu lado, enfiando os longos dedos de esqueleto nos dedos, mais compridos ainda, de um par de luvas à Guy Fawkes(1). Não era que me tentasse a companhia de Uriah, mas, lembrandome do pedido de Agnes, tolerei a sua presença e pergunteilhe se queria tomar café na minha casa.

*1. Conspirador inglês, enforcado em 1605, acusado de, com outros, pretender matar o rei e fazer explodir o Parlamento.

- Ah, menino David... perdão, queria dizer senhor Copperfield... mas o hábito, não é verdade? Não quero que se sinta na obrigação de convidar uma pessoa tão humilde como eu...

- Não se trata de obrigação. Quer vir?

- Teria imenso prazer...

- Nesse caso, venha.

Não podia evitar falarlhe em tom seco, mas o homem pareceu que não dava conta disso. Seguimos pelo caminho mais curto, sem dizer nada de importante durante o trajecto. Aquelas luvas de espantalho causavamlhe tão humilde respeito que ele ainda

estava a enfiálas e realmente não fizera grandes progressos quando chegámos ao meu prédio.

Guieio pela escada escura, para impedir que esbarrasse em qualquer obstáculo; mas senti a impressão de pegar numa rã quando lhe toquei na mão fria e húmida. Até me apeteceu largála e fugir! A ideia de Agnes e os deveres da hospitalidade dominaram, porém, e eu introduzio na minha saleta e indiqueilhe o canto do lume. Quando acendi as velas, Uriah desfezse em exclamações quanto à excelência da minha instalação. E, ao aquecer café num modesto recipiente de zinco que a senhora Crupp usava para esse efeito (pela razão de que, sendo para a barba, lhe era inútil nesse aspecto, e que uma boa cafeteira podia enferrujar), o meu hóspede enterneceuse tanto que eu de boa vontade o teria escaldado entornandolhe por cima o líquido

fervente.

- Oh, menino David... isto é, senhor Copperfield... como poderia eu imaginar que me serviria assim algum dia? Mas acontecemme tantas coisas, que eu jamais esperaria na minha humildade... Parece que chovem bênçãos sobre mim! Suponho que ouviu falar da mudança de situação ocorrida na minha existência, menino David... isto é, senhor Copperfield...

Vendoo sentado no meu sofá, com os joelhos pontudos sob a xícara do café, e o chapéu e as luvas no chão, à sua beira, e a colher girando lentamente, e os olhos avermelhados (que pareciam ter queimado as pestanas) fixos nos meus, sem todavia me verem, e as narinas arfantes, e todo o corpo agitado, desde o queixo aos pés, numa espécie de ondulação, vendoo dessa maneira senti quanto o detestava, do mais profundo do coração. Indignavame têlo por convidado, porque eu era novo e não sabia ainda dissimular uma aversão tão forte como a que ele me inspirava.

- Suponho que ouviu falar da mudança de situação... - repetiu Uriah.

- De facto...

- Ah, já calculava que a menina Agnes soubesse - observou pacificamente. - Agradame verificar que ela sabe. Obrigado, menino Da... senhor Copperfield.

Terlheia com prazer atirado à cara a calçadeira (que estava no tapete) por me haver apanhado em qualquer coisa relativa a Agnes, por menos importante que fosse. Mas contenteime com levar à boca o resto do café.

- O senhor foi bom profeta - continuou ele. - Realmente, que bom profeta! Não se lembra decerto, mas disseme um dia que eu seria sócio do doutor Wickfield e que a firma apresentaria esta constituição: Wickfield & Heep. Talvez já se esquecesse... Mas, quando se é humilde como eu, menino David, fixamse preciosamente palavras destas...

- Recordome, na verdade, de ter falado disso. Mas nessa altura não acreditava.

- E quem poderia acreditar, senhor Copperfield! - exclamou fervoroso. - Eu não, pelo menos. Lembrome de lhe ter respondido que me sentia muito humilde, e nisto é que eu cria a valer.

Olhava para o fogão, com um sorriso maquinal estampado nos lábios. Eu, por meu turno, olhava para ele.

- Mas os entes mais humildes, menino David - recomeçou daí a pouco - podem tornarse instrumentos de felicidade. Alegrome ao pensar que pude ser o instrumento da felicidade do doutor Wickfield, e que ainda posso tornar a sêlo. Que homem digno, esse senhor! Mas que imprudente também!

- Lamento muito - repliquei. E não pude deixar de aduzir: - Por tudo.

- Exactamente, senhor Copperfield, por tudo. E sobretudo no que se refere à menina Agnes. O senhor já se esqueceu das palavras eloquentes que pronunciou, mas eu recordome bem de lhe ouvir dizer um dia que toda a gente devia admirála e dos agradecimentos que lhe fiz a esse respeito. Com certeza que se esqueceu, menino David.

- Não - declarei secamente.

- Oh, ainda bem! Pensar que o senhor foi o primeiro a provocar a faísca da ambição no meu peito humilde e que não se esqueceu desse facto! Oh!... Atrevermeei a pedirlhe mais café?!

A ênfase que deu àquela frase e o olhar que me deitou fizeramme estremecer como se a tal faísca se houvesse transformado em labareda. Recaindo em mim, ao ouvir o último pedido formulado noutro tom, aproximei da sua xícara a vasilha de aquecer a água da barba, usada mais vulgarmente para o café; mas foi com mão trémula que o fiz, pensando ser incapaz de competir com ele e cheio de apreensão pelo que poderia seguirse. Uriah devia fatalmente reparar na minha excitação, todavia calouse e remexeu infindavelmente a bebida, tomou um gole, tacteou devagar o queixo com a mão ossuda, mirou o lume, circunvagou a vista pelo quarto, sorriume de uma orelha à outra, encolheuse com obsequiosa deferência, tornou a açucarar e a mexer o café, mas por fim deixoume o cuidado de renovar a conversa. Para dizer alguma coisa, observei:

- Com que então, o doutor Wickfield, que vale por quinhentos homens como o senhor... ou eu - não resisti a cortar em duas a minha frase -, foi, em sua opinião, imprudente, senhor Heep?

- Ah, sim, muito imprudente. Mas preferia que me tratasse por Uriah, se não se importa, como costumava...

- Está bem, Uriah - retorqui, proferindo esse nome com dificuldade.

- Obrigado - sacudiu caloroso. - Oh, muito obrigado, menino David! Sinto soprar as auras de outrora e soar os sinos desse tempo, quando diz Uriah! Desculpe... falava de...?

- O senhor faloume do doutor Wickfield.

- Ah, sim, é verdade. Uma grande imprudência, menino David. Este assunto não o quereria aflorar com mais ninguém. Se outrem estivesse no meu lugar, durante todos estes anos, há muito que teria o doutor Wickfield... apesar de tão digno homem!... fechado na sua mão. Na sua mão - repetiu lentamente, estendendo a dextra cruel por cima da mesa, até que esta tremeu, fazendo estremecer a casa.

Creio que não o detestaria mais se o tivesse visto colocar o pé chato sobre a cabeça do doutor Wickfield.

- Pois, menino David - continuou em voz branda, contraste evidente com a acção do punho, de que não diminuía a pressão.

- Não há dúvida. Ele conheceria a ruína, a desonra e sabe Deus que mais! O doutor Wickfield não o ignora. Sou o instrumento humilde que humildemente o serviu; por isso me eleva a uma posição eminente que não poderia esperar atingir. Quanto reconhecimento lhe devo!

Dizendo estas palavras, de cara virada para mim, mas sem me olhar, Uriah retirou o dedo adunco do ponto da mesa em que o pusera, e devagar, com ar pensativo, coçou o queixo magro como se estivesse a barbearse.

Lembrome da cólera que me fez bater o coração quando lhe percebi no rosto manhoso, em que tão bem acertava o reflexo vermelho do lume, que ele ainda tinha qualquer coisa de reserva.

- Menino David, naturalmente quer dormir...

- Não. Em geral deitome tarde.

- Obrigado, menino David. Erguime acima da minha condição humilde desde a primeira vez que me viu, isso é verdade. Mas sou ainda humilde e espero sêlo sempre. Não duvidará da minha humildade se eu lhe fizer uma pequena confidência?

- Não - respondi com esforço.

- Obrigado.

Tirou o lenço e começou a enxugar a palma das mãos.

- A menina Agnes...

- E então, Uriah?

- Oh, que prazer ouvilo chamarme Uriah, espontaneamente

- exclamou dando um pulo convulsivo. - Achoua bonita esta noite, não é verdade?

- Acheia como sempre: superior em todos os aspectos aos que a rodeavam.

- Obrigado! Como isso é verdadeiro! Oh, obrigado por essas boas palavras.

- Mas porquê? - volvi desdenhoso. - Não tem nada que me agradecer.

- Tenho, menino David, é justamente a confidência que tomo a liberdade de lhe fazer. Por mais humilde que eu seja - enxugava as mãos com maior energia e olhava alternadamente as palmas e o fogo -, e por mais humilde que sempre fosse a nossa casa, pobre mas honesta, a imagem da menina Agnes habita o meu coração há muitos anos. Não hesito, menino David, em confiarlhe o meu segredo, porque me inspirou grande simpatia desde o momento em que o vi pela primeira vez na carruagem da senhora Trotwood. Oh, quanto amo a menina Agnes! Até o chão que ela pisa...

Creio que tive, por momentos, a ideia louca de agarrar no atiçador, que estava ao rubro, e de traspassar com ele o meu convidado. Esta ideia, porém, atravessoume o espírito como um relâmpago. Mas a imagem de Agnes, ultrajada pelos pensamentos daquele animal de cabeça ruiva, ficou fixada na minha mente e, quando o tornei a olhar, sentado acolá, de lado, como se a sua alma vil lhe torcesse o corpo, senti uma vertigem e julguei vêlo inchar sob os meus olhos. Os ecos da sua voz pareceram encher o quarto e apoderouse de mim o sentimento estranho de que tudo aquilo se passara já, numa época indeterminada.

Lilhe a tempo, no rosto, a consciência que ele tinha do seu poder e isto obrou mais que todos os esforços para acatar os rogos de Agnes. Pergunteilhe, com o ar calmo que um minuto antes eu acharia impossível, se comunicara os seus sentimentos à filha do doutor Wickfield.

- Oh, não! Isso não! A ninguém excepto ao menino David. Bem compreende, eu acabo de sair da minha humilde condição. Conto muito com a circunstância de que ela avaliará o bem que faço ao pai, pois que lhe espero ser útil; verá como sei aplanar as dificuldades e encaminhálo pela boa via. A menina Agnes é muito afeiçoada ao pai... e que bela coisa esse amor filial! Talvez isso me seja favorável...

Medi a profundeza das maquinações daquele patife e compreendi a razão das suas revelações.

- Se fizer o favor de guardar este segredo - prosseguiu Uriah - e evitar prejudicarme, ficarlheei profundamente reconhecido. Não háde querer a minha infelicidade. Sei que tem um coração de ouro. Mas como só me conheceu na minha condição humilde (ou mais humilde, porque humilde sempre sou) poderia empecerme junto da minha Agnes. Chamolhe minha Agnes, imagine, menino David!

Querida Agnes, tão bondosa, tão dedicada para todos! Estaria destinada a ser a mulher daquele miserável?

- Por enquanto não há pressa, menino David - continuou Uriah, com o seu tom melifluo, enquanto eu, preocupado com as ideias que ele me sugeria, me limitava a contemplálo. - A minha Agnes é ainda muito nova, e eu e a minha mãe teremos

de conquistar a nossa posição e fazer preparativos antes que isso seja possível. Terei assim tempo de me familiarizar a pouco e pouco com as minhas esperanças conforme se for apresentando ocasião. Ah, quanto lhe agradeço haverme facilitado esta confidência! Se soubesse que alívio é para mim saber que compreende a nossa situação e que (naturalmente desejoso de evitar dissabores à família) não tentará com certeza prejudicarme.

Pegoume na mão, que não ousei recusarlhe, e, após um aperto húmido, consultou o seu relógio.

- Meu Deus! - exclamoujá passa da uma hora! Os minutos correm tão depressa quando se evocam os bons tempos antigos, menino David!

Respondi que pensava ser mais tarde, não que realmente acreditasse em tal mas porque estava esgotado o meu poder dialogador.

- Meu Deus! - repetiu, com ar perplexo. - A casa em que me hospedei, uma espécie de hotel ou de pensão familiar, perto de New River Head, já deve ter fechado as portas há duas horas.

- Lastimo que não haja aqui mais nenhuma cama e que eu...

- Oh, não fale de cama, menino David - respondeu cheio de beatitude. - Aborrecerseia muito que eu passasse a noite deitado diante do fogão?

- Se é isso -- repliquei - peçolhe então que se sirva do meu leito e serei eu quem ficará aqui.

O excesso de surpresa e a sua humildade impuseramlhe recusa a esta oferta feita numa voz quase estridente para atingir os ouvidos da senhora Crupp, que estaria a dormir, suponho, nalgum quarto distante. Nenhuma das razões que invoquei, no meu susto, conseguiram decidir o modesto Uriah a aceitar a minha alcova, de maneira que o tive de instalar como pude numa cama improvisada diante do fogão. O colchão do sofá (demasiado curto para aquele grande corpo magro), as almofadas do mesmo, o pano da mesa, uma toalha limpa e um sobretudo serviram, pois, para esse efeito. Empresteilhe um barrete de dormir, que ele enfiou logo e com o qual ficou tão feio que resolvi nunca mais o usar.

Jamais esquecerei essa noite. Jamais esquecerei como a passei, a atormentarme e a revolverme na cama, a pensar em Agnes e naquela criatura, a perguntar o que devia e podia fazer, sem chegar a qualquer conclusão além desta: para a tranquilidade de Agnes, o melhor seria não fazer nada e guardar para mim o que sabia. Se adormecia por uns minutos, o rosto da rapariga, com os seus olhos meigos, e o do pai olhandoa com ternura, como eu vira tantas vezes, apareciamme suplicantes e enchiamme de terrores inominados. Quando despertava, a ideia de que Uriah dormia no quarto contíguo insistia em mim como um pesadelo e oprimiame como se eu tivesse por hóspede um demónio da pior espécie.

O atiçador do fogão não me saía do pensamento. Na minha vaga sonolência, julgavao ainda ao rubro e cria que o arrancara do lume para traspassar com ele Uriah Heep. Esta lembrança acabou por me obcecar ao ponto que, embora sabendoa absurda, me vi forçado a ir ao quarto contíguo para observar o hóspede. Aí o vi deitado de costas, com as pernas infinitamente compridas, gorgolejos na garganta, roncos no nariz, e a boca aberta como um marco de correio. Ainda se me afigurou mais feio na realidade do que na minha imaginação doentia, e a repulsa que me inspirou exerceu em mim tamanha atracção mórbida que não pude deixar de aí vir de meia em meia hora, para deitar uma vista de olhos. A noite imensa pareciame tão triste, tão desesperadora! No céu torvo não surgia a mínima claridade.

Quando o senti descer a escada, de manhã cedinho (pois, graças a Deus, não quis ficar para almoçar), tive a impressão de que a noite desaparecia com ele; e quando fui ao tribunal, recomendei com insistência à senhora Crupp que abrisse as janelas de par em par para me arejar o gabinete e o expurgar da presença de Uriah.