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David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 23. CONCORDO COM O SENHOR DICK E ESCOLHO UMA PROFISSÃO
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Na manhã seguinte, ao acordar, pensei muito em Emily e na sua comoção da véspera, após a partida de Martha. Pareciame ser da minha obrigação guardar fielmente o segredo daquela cena íntima de abandono e ternura e que seria mal feito, da minha parte, contar fosse a quem fosse, mesmo a Steerforth. Por ninguém deste mundo experimentava eu sentimentos mais ternos do que por essa deliciosa criaturinha que fora outrora minha companheira de jogos e que (estava persuadido de que o seria até à morte) eu amava então com tamanho enlevo. Achava ser uma acção vil e indigna de mim, indigna da nossa infância tão pura (e cuja claridade parecia ainda aureolarme), repetir, mesmo a Steerforth, o que a rapariga não conseguira dissimular quando o acaso me permitira lerlhe no coração. Resolvi, por consequência, guardar tudo isso para mim, e a imagem de Emily assumiu até novo encanto.

íamos tomar o primeiro almoço quando me trouxeram uma carta da tia Betsey. Nela se tratava de um assunto em que Steerforth me poderia aconselhar tão bem como outrem, e eu rejubilei à ideia de o consultar; deliberei, pois, falarlhe durante a nossa viagem de regresso: por então havia muito ainda que fazer, pois devíamonos despedir de todos os amigos. O senhor Barkis não era o último (longe disso) a lamentar a nossa partida, e bem me parece que extrairia mais um guinéu do seu baú se assim nos pudesse reter por umas vinte e quatro horas em Yarmouth. A nossa ausência ia mergulhar na desolação toda a família Peggotty. A casa Omer & Joram, patrões e empregados, veio em peso dizernos adeus; na ocasião de colocar a bagagem na diligência, os marítimos acorreram em tão grande número, para oferecer benevolamente os seus serviços a Steerforth, que mesmo que tivéssemos dez vezes mais de malas não deixaríamos de encontrar portador. Em suma, partimos no meio das saudades e da admiração de todos, deixando atrás de nós muitos corações alanceados.

- Ainda se demora muito, Littimer? - perguntei ao criado, quando ele assistia à nossa partida.

- Não, senhor - respondeu. - Não é provável.

- Não poderá dizerobservou Steerforth. - Sabe o que tem de fazer, e cumprirá o encargo.

- Não duvido - acrescentei.

Littimer tirou o chapéu como para me agradecer a minha frase justa; voltou a tirálo para nos desejar boa viagem,

e ficou lá especado, no meio da rua, tão misterioso e respeitável como uma pirâmide do Egipto.

Por momentos não trocámos palavra. Steerforth estava anormalmente silencioso; quanto a mim, pensava quando tornaria a ver a minha terra natal e nas alterações que, ela e eu, sofreríamos até esse momento. Por fim Steerforth, de novo alegre e falador (tinha o dom de mudar subitamente de disposição), puxoume por um braço e disse:

- Que fizeste da língua, David? Que há acerca dessa carta de que me falaste ao almoço?

- Ah, a carta da tia Betsey!-repliquei, tirando o papel da algibeira.

- E que há aí de tão importante?

- Minha tia, Steerforth, recordame que empreendi esta viagem no propósito de observar e reflectir um pouco.

- Naturalmente foi o que fizeste.

- Talvez não... A bem dizer, parece que me esqueci disso.

- Pois emendate da tua negligência - volveu Steerforth. - Olha à direita e verás um país plano e muito pantanoso; olha à esquerda, é a mesma coisa. Olha em frente e atrás... e é sempre o mesmo.

Respondilhe, rindo, que a paisagem, decerto em razão da sua lisura, me não sugeria a ideia de qualquer profissão que me conviesse.

- E que diz a tua tia? - perguntou Steerforth, lançando uma olhadela à carta que eu conservava na mão. - Tem alguma ideia?

- Tem. Quer saber se me agradaria ser solicitador. Que te parece?

- Sei lá - retorquiu pacificamente. - Ou isso ou outra coisa. Não pude coibirme de rir de novo e observeilhe que, para ele,

Steerforth, todas as profissões se equivaliam. E acrescentei:

- Em suma, que é isso de solicitador?

- É uma espécie de advogado. Trabalha num tribunal prestes a desaparecer, que funciona nos Doctor's Commons, lugar sossegado, perto do cemitério de São Paulo. Serviço semelhante ao de tribunal de Justiça. Essa função já devia estar extinta há mais de cem anos. Aí se aplica o Direito Canónico e se lida com os Actos do Parlamento, verdadeiros monstros préhistóricos que a população quase ignora por completo ou julga que se desenterraram, como fósseis, no tempo dos descendentes do rei Eduardo. É aí também que, em virtude de um antigo privilégio, se dirimem questões relativas a testamentos, contratos de casamento, e processos marítimos.

- Que disparate, Steerforth - exclamei. - Não me digas que há relação entre os processos eclesiásticos e os marítimos!

- Não é bem assim, meu caro. Digo apenas que tudo isso está nos Doctor's Commons. Se lá fores vêlosás percorrer metade

das páginas do Dicionário de Young em cata de termos náuticos por causa do abalroamento do Nancy com o Sarah Jane, ou porque o senhor Peggotty e os barqueiros de Yarmouth lançaram um cabo, em ocasião de tempestade, ao Nelson, paquete da carreira das índias, que estava em perigo. Noutra ocasião vêlosás entregues ao estudo dos depoimentos, favoráveis ou desfavoráveis, acerca de um ministro da Igreja cujo comportamento levantou dúvidas, É possível que o juiz esteja ocupado do processo marítimo e o causídico do processo eclesiástico, ou viceversa. São como os actores, tanto fazem um papel como outro. Mudam continuamente. Mas é sempre uma espécie de teatro apresentado a um auditório selecto.

- Então solicitador e advogado não vem a dar no mesmo? - indaguei um tanto perplexo.

- Não. Os advogados tiraram carta na Universidade (o que explica a razão de eu estar tão ao facto disto). Os solicitadores aproveitamse dos advogados. Uns e outros são bem pagos e formam um grupo muito próspero. Em resumo, David, se devo darte um conselho, decidete pelos Doctor's Commons. Acrescentarei se te apraz, que os solicitadores não se envergonham nada da sua profissão.

Sem desprezar a ironia com que Steerforth tratara o assunto, lembreime da gravidade solene desse «lugar sossegado perto do cemitério de São Paulo» e achei que a proposta da senhora Trotwood me não desagradava de todo. Aliás, a tia deixavame a maior liberdade na decisão e não escondia que tal ideia lhe ocorrera recentemente quando fora a esse tribunal consultar o seu procurador a fim de testar a favor da minha pessoa. Comuniquei isto a Steerforth.

- É em todo o caso, muito louvável da sua parte - opinou o meu amigo - e merece ser atendido. Bonina, aconselhote os Doctor's Commons.

A decisão estava tomada. Expliquei a Steerforth que a tia me esperava em Londres (como já se via pelo carimbo da carta): reservara aposentos por uma semana na Lincoln's Inn Fields, estalagem que tinha a vantagem de uma escada de serviço e porta de acesso fácil para o telhado. A tia estava persuadida de que todas as casas desse género, em Londres, podiam de um momento para outro ser pasto das chamas.

O resto da jornada decorreu agradavelmente. De vez em quando tornávamos a falar da profissão escolhida, pensando nos tempos ainda distantes em que eu seria solicitador. Steerforth aludia ao caso de forma tão cómica que nos fazia rir a bandeiras despregadas. Quando chegámos ao termo da viagem, Steerforth foi para a sua residência, prometendo ir visitarme no dia seguinte, e eu tomei um trem para a Lincoln's Inn Fields, onde a tia me esperava para jantar.

Se eu tivesse dado a volta ao mundo, desde que nos víramos pela última vez, não seria maior o prazer que sentimos com o reencontro. A tia chorou beijandome, e disse, com ar de riso, que se a minha mãe fosse viva não teria igualmente deixado de chorar.

- Com que então - observei - a tia abandonou o senhor Dick? Janet - acrescentei, dirigindome à criada - como vai isso?

Janet fez uma vénia e estimou que eu estivesse de saúde. Notei nessa ocasião que o rosto da senhora Trotwood tomava um aspecto taciturno.

- Estou desolada - declarou. - Desde que aqui cheguei não tenho um momento de descanso. - Antes que eu pudesse indagar a causa do seu desassossego, ela continuou: - Creio que o nosso Dick não tem jeito para escorraçar os burros. Estou convencida de que esse homem é um fraco. Devia ter deixado Janet no seu lugar, e talvez me encontrasse agora mais tranquila. Se alguma vez um burro me pisou a relva - sentenciou martelando as palavras- foi esta tarde às quatro horas. Fui tomada de um arrepio dos pés à cabeça, e fiquei com a firme impressão de que fora um burro.

Tentei, baldadamente, acalmála.

- Era um burro - insistiu ela - e com certeza o burro de cauda cortada que montava aquela irmã do Murdstone ou lá como se chama ele. Se há burro em Dover mais atrevido, juro que é o tal!

Janet ousou observar que a tia talvez se inquietasse sem razão; que em seu parecer o dito burro se ocupava agora no transporte de areia e cascalho, e não estava, portanto, disponível. Mas a tia não lhe deu ouvidos.

Os aposentos escolhidos na estalagem eram no andar mais elevado, naturalmente para se achar mais perto do telhado, em caso de incêndio. O jantar foi bem servido; compunhase de galinha cozida, bife, legumes, tudo excelente. A tia, que tinha ideias pessoais quanto à alimentação de Londres, comeu por isso mesmo muito pouco.

- Esta pobre galinha - disse ela - nasceu nalguma cave, onde foi criada. Quanto ao bife, espero que seja de vaca, mas tenho pouca confiança. Em minha opinião só é autêntica, nesta cidade, a lama.

- Não acha possível, tia - redargui - que a galinha viesse do campo?

- Com certeza que não. Que prazer teria um londrino em vender uma coisa pelo que ela é realmente?

Não procurei contradizêla, mas jantei oplparamente, com grande satisfação da tia. Uma vez levantada a mesa, Janet ajudou a patroa a pentearse, a pôr a touca de dormir (mais elegante que do costume, para a hipótese do incêndio, explicou ela) e a colocarlhe o vestido, dobrado, em cima dos joelhos,

tudo preparativos usuais destinados a aquecêla antes de se deitar. Depois ocupeime do copo de vinho com água quente, consoante as regras imutáveis de que jamais nos devíamos afastar, assim como da torrada, que cortava sempre em tiras compridas: a tia, olhandome com ternura, sob os folhos da touca, principiou a tomar o vinho, no qual molhava as tiras de torrada.

- Ora muito bem, Trot, que dizes à ideia de fazer de ti um solicitador? Talvez ainda não reflectisses no caso...

- Reflecti bastante, tia Betsey, e falei disso ao Steerforth. A proposta é sedutora.

- Ainda bem. Estimo muito que te agrade.

- Só tenho uma objecção...

- Diz lá - replicou a tia.

- É esta: gostava de saber se essa carreira, tão reservada, lhe vai custar um preço excessivo.

- O estágio custa exactamente mil libras.

- Já vê como isso me preocupa - insisti, aproximando a cadeira.- É muito dinheiro! Já gastou tanto comigo, em matéria de educação, além das despesas que a sua generosidade a tem obrigado a fazer. Deve haver outra profissão menos dispendiosa, em que eu poderia iniciarme com menos gastos mas na qual triunfasse à custa de boa vontade e coragem. Não acha que seria preferível? Está certa de que dispõe de tão elevada importância? A senhora tem sido para mim uma segunda mãe e eu peçolhe que reflicta no assunto.

A senhora Trotwood, fitandome, acabou o bocado de pão que estava a comer, descansou o copo na prateleira do fogão e, cruzando as mãos sobre o vestido dobrado, respondeume nestes termos:

- Trot, meu filho, só tenho um fim na vida: é o de fazer de ti um homem bom, sensato e feliz. Insisto nisso, assim como o senhor Dick. Gostaria que certas pessoas que eu conheço escutassem as conversas de Dick a este respeito. Que extraordinária sagacidade! Infelizmente, apenas eu estou ao par dos recursos do seu intelecto.

Interrompeuse um instante e tomou a minha mão entre as suas.

- É inútil - continuou - recordar o passado, a não ser que influencie o presente. Talvez eu me entendesse melhor com o teu pai. Talvez pudesse entenderme melhor com a tua pobre mãe, mesmo depois da decepção que me causou tua irmã Betsey Trotwood. Devo ter pensado em tudo isto quando chegaste à minha casa, como um fugitivo, coberto de poeira e extenuado. Desde então, Trot, só me tens dado satisfação, tens sido o meu orgulho e alegria... Ninguém se arroga direitos aos meus bens, pelo menos ...- Aqui, com surpresa minha, hesitou e pareceu constrangida. - Não, ninguém se arroga direitos, salvo tu, e és meu filho adoptivo. Contentate com ser afectuoso para mim,

na minha velhice, e tolerame os caprichos e manias. Agradarás a uma velha cuja mocidade não foi tão venturosa nem tão triste quanto poderia ser, e farei o que nenhuma outra fez por ti.

Era a primeira vez que eu ouvia a senhora Trotwood aludir ao seu passado, e isto de uma forma tão nobre, tão calma e simples - como se falasse de uma vez para sempre - que maior seria o meu respeito e afecto se não fossem tão grandes.

- Fica, pois, entendido e combinado entre nós, Trot - concluiu a tia. - Não falemos mais no caso. Beijame, e amanhã de manhã, depois do almoço, iremos aos Doctor's Commons.

Conversámos ainda um bom bocado ao canto do fogão, antes de nos irmos deitar. O meu quarto era no mesmo andar do da tia, que me acordou várias vezes durante a noite batendome à porta sempre que ouvia o rumor de carruagens... para me perguntar se havia incêndio. De manhã, porém, sossegou e deixoume dormir em paz.

Pelo meiodia, encaminhámonos para o escritório dos doutores Spenlow e Jorkins, advogados. A tia, que abundava na ideia geral de que todos os transeuntes eram carteiristas, confioume a bolsa, na qual guardava dez libras esterlinas e moedas de prata.

Detivemonos em frente de uma loja de brinquedos de Fleet Street para ver os gigantes da igreja de São Dustano martelar nos sinos do relógio (fizéramos de maneira a estar ali ao meiodia em ponto); depois continuámos o nosso caminho em direcção a Ludgate Hill, quando notei que a senhora Trotwood apressava o passo e parecia alarmada. Vi ao mesmo tempo um homem pobremente vestido e de mau aspecto, que parara (tendo antes olhado uns momentos para nós); em seguida o sujeito principiou a seguirnos de tão perto que roçava quase a saia da tia.

- Trot, querido Trot - disse ela, num murmúrio de terror, apertandome o braço - não sei que heide fazer!

- Esteja tranquila - retorqui. - Não há motivo para ter medo. Entre numa loja e eu tratarei de a livrar do homenzinho.

- Não, não, filho! Peçote que não lhe fales. Ordenote.

- Meu Deus, tia, é apenas um mendigo mais descarado.

- Não o conheces. Não sabes quem é. Não sabes o que dizes. Exprimindonos deste modo, parámos sob uma porta. O desconhecido fez o mesmo.

- Não olhes para ele - disse a tia, quando me virara com ar indignado -, mas chama um trem e vai esperar por mim no cemitério de São Paulo.

- Esperála? - repeti.

- Sim, convém que eu vá sozinha. Tenho de ir com ele.

- Só com ele, tia? Com este homem?

- Sei o que digo. Tenho de ir com ele. Chama um trem!

Por maior que fosse a minha estupefacção, compreendi que não tinha o direito de recusarme a obedecer a uma ordem tão peremptória. Dei uns passos rápidos e fiz sinal a uma carruagem vazia que passava. Mal abaixara o degrau, a tia precipitouse, seguida pelo homem: esboçou um gesto para me afastar e entrou no veículo, dizendo ao cocheiro que seguisse não sei para onde, e o trem partiu imediatamente, subindo a rua íngreme. Eu fiquei e fui ter ao cemitério, conforme o combinado, onde esperei cerca de meia hora. Então vi aparecer o trem, que parou onde eu me encontrava; a tia estava só lá dentro.

Lembreime do que me dissera o senhor Dick a respeito de uma pessoa misteriosa que vagueara de noite pelos arredores da vivenda. Supusera eu, então, que fosse ilusão da sua parte. Quem podia ter tanto ascendente sobre ela? O caso é que ainda não estava refeita da comoção sofrida. Entretanto pediume que subisse e ordenou ao cocheiro que desse uma voltinha.

- Meu filho, nunca me perguntes quem era nem faças nenhuma alusão ao incidente.

Não disse mais nada até ao momento em que, recobrando a calma, me declarou que já se sentia bem e que nos podíamos apear. Entregoume outra vez a bolsa, para que eu pagasse a corrida. O ouro havia desaparecido todo: só restavam as moedas de prata.

Entravase nos Doctor's Commons por uma porta abobadada. Mal déramos uns passos na rua que para lá se abria, sentimos atenuarse o rumor da cidade, transformandose num zumbido longínquo. Atravessámos uma série de pátios melancólicos e corredores estreitos e achámonos diante da banca dos advogados Spenlow e Jorkins. No átrio desse templo em que os fiéis eram admitidos sem se anunciar, trabalhavam três ou quatro escreventes. Um deles, pequenino e magro, cuja peruca tesa e acastanhada parecia um pão de espécie, levantouse para receber a minha tia e introduziunos no gabinete do doutor Spenlow.

- O senhor doutor está no tribunal, minha senhora - disse o escrevente. - É dia de audiência. Mas como é aqui perto, vou já mandarlhe recado.

Deixounos, e eu aproveitei a oportunidade para deitar uma vista de olhos derredor. O mobiliário da sala era antiquado e estava coberto de pó. O pano verde da secretária apresentavase desbotadíssimo, e na dita secretária só se viam maços de papéis em que se lia Alegações ou Libelos, uns pertencentes a um juízo, outros a juízo diferente. Quanto tempo me seria necessário para compreender tudo isso? Havia vários autos de depoimentos, solidamente unidos e cosidos, formando um livro para cada processo, e cada processo devia ser uma história em dez ou vinte volumes. Quanto não custaria aquilo? Eis o que me dava uma ideia agradável da profissão de solicitador! Olhava em volta de mim, com satisfação crescente, quando ressoaram passos rápidos no átrio

e o doutor Spenlow, de toga preta adornada de arminhos, entrou à pressa no gabinete, tirando a gorra.

Era um homenzinho loiro, impecavelmente calçado, com gravata branca e colarinho engomado maravilhosamente. A casaca estava abotoada até ao pescoço; as suíças, frisadas com esmero, deviam darlhe imenso trabalho. Tinha uma corrente de relógio tão maciça que imaginei ser preciso, para a puxar, uma daquelas mãos douradas que servem de insígnia nas lojas dos batedores de ouro. Pareceume rígido ao máximo, pois mal se podia curvar; uma vez sentado, tinha de desmanchar toda a rima de documentos para poder tirar este ou aquele.

A tia Betsey apresentoume e ele acolheume cheio de cortesia, dizendo:

- Com que então, senhor Copperfield, deseja entrar para o foro? Já informei a senhora Trotwood, quando tive o gosto de a receber aqui outro dia, que havia cá uma vaga. A senhora Trotwood dignouse comunicarme a existência de um sobrinho por quem se interessava muito e que pretendia estabelecer uma carreira decente. É a esse sobrinho, calculo, que tenho o prazer de...

Inclinouse, e eu fiz o mesmo, à laia de aquiescência. Depois expliquei que, de facto, a minha tia me dissera haver uma vaga e que o lugar me agradava. Que a profissão condizia com as minhas preferências e que aceitara logo a sugestão. Gostaria, porém, de a conhecer melhor. E que, embora fosse apenas uma formalidade, esperava me dessem o ensejo de me certificar de que a carreira me convinha, antes de a abraçar irrevogàvelmente.

- Oh, sem dúvida, sem dúvida! - exclamou o doutor Spenlow. - Aqui propomos sempre um mês de estágio. Por mim achava preferível dois ou três meses, ou mais ainda, mas tenho um sócio, o doutor Jorkins ...

- E o preço da admissão é de mil libras? - indaguei.

- Sim, senhor, mil libras, incluindo os direitos de inscrição - replicou o doutor Spenlow. - Como já notei à senhora Trotwood, eu não estou interessado. Poucos o estão menos do que eu. Mas o doutor Jorkins tem as suas ideias a esse respeito e eu devo acatálas. Na realidade, o meu colega acha que as mil libras é pouco ...

- Não sei, senhor doutor - atalhei, querendo defender sempre os interesses da minha tia -, se é costume, aqui, ao admitir um empregado que se torne particularmente útil e fique logo dentro dos segredos do ofício... - Não pude coibirme de corar, pois tinha o aspecto de que me gabava- ... não sei se é costume concederlhe ...

O doutor Spenlow, com grande esforço, conseguiu desembaraçar a cabeça do colarinho, para a abanar, e não me deixou acrescentar à minha frase a palavra «gratificação».

- Não - declarou ele. - Não quero dizer que, pessoalmente, eu não considerasse a justiça do caso, senhor Copperfield, se tivesse as mãos livres. Mas o doutor Jorkins é inabalável nesse ponto.

Sentime apavorado à ideia desse terrível Jorkins, mas vim depois a verificar que se tratava de um homenzinho brando, melancólico, cujo papel consistia em manterse à parte e ser constantemente citado como o mais duro, o mais impiedoso dos homens. Se um praticante pedia aumento de ordenado, o doutor Jorkins não queria saber nada disso; se um constituinte tardava em pagar a conta de honorários, o doutor Jorkins exigia a sua satisfação; e embora isto fosse penoso para o compassivo doutor Spenlow (como acontecia sempre), o doutor Jorkins é que não perdoava. O bondoso Spenlow estava sempre pronto a todas as condescendências, mas o perverso Jorkins cortavalhe de contínuo as vazas. Mais tarde conheci muitos estabelecimentos que funcionavam segundo o princípio SpenlowJorkins.

Ficou combinado que eu podia começar o estágio quando quisesse e que a tia Betsey não seria obrigada a permanecer em Londres até esse início da minha carreira, nem precisaria de voltar à capital, porque facilmente lhe mandariam o contrato para assinar. Após isto, o doutor Spenlow prontificouse a levarme sem demora ao tribunal para eu fazer uma ideia do que era e, como eu o desejasse com ardor, aí fomos, abandonando a senhora Trotwood, a quem todos os tribunais produziam o efeito de minas que poderiam rebentar de um momento para outro.

O advogado conduziume por um pátio lajeado, com austeras construções de tijolos em toda a volta. Supus, vendo os nomes que encimavam todas as portas, serem residências oficiais dos doutores eminentes de quem Steerforth me falara. Em seguida introduziume numa sala vasta, que se me afigurou uma capela: a extremidade da sala era dividida por uma barra, e aí, nos dois lados de um estrado em forma de ferradura, estavam sentados em poltronas confortáveis vários senhores de peruca branca e toga encarnada - precisamente os doutores da Lei. A meio da ferradura, um senhor de olhos piscos ocupava uma espécie de cátedra: se o tivesse visto numa gaiola decerto o tomaria por um mocho, mas afinal informaramme que era o presidente do tribunal. Na mesma parte, mas um pouco mais abaixo, isto é, ao nível do estrado, os colegas do doutor Spenlow, revestidos como ele de toga ornada de arminhos, sentavamse a uma mesa comprida coberta de baeta verde. Usavam gravata rígida e mostravam um ar altivo, mas depois verifiquei ser má interpretação minha, porque a uma pergunta do presidente, dois ou três responderam com inesperada humildade. O público compunhase de um rapaz, com um lenço de lã ao pescoço, e de um sujeito que comia às escondidas bocados de pão que tirava da algibeira do sobretudo: ambos se aqueciam junto do fogão que ocupava o meio da sala.

A tranquilidade embaladora do local era perturbada pelo crepitar do lume e pela voz de um dos advogados; este dava a impressão de que passeava ao longo de uma biblioteca de provas testemunhais, e que parava, de vez em quando, à beira de uma estalagem de debates, no decurso da sua jornada. Em resumo, nunca na minha vida eu assistira a uma pequenina reunião de família tão íntima, tão sonolenta, tão arredada do mundo, e pensei que seria um delicioso soporífero fazer parte dela sob qualquer título, excepto o de litigante.

Satisfeitíssimo com a atmosfera de sonho desse retiro, declarei ao doutor Spenlow que já vira o suficiente, e nós voltámos para o lado da senhora Trotwood, em cuja companhia cedo deixei os Doctor's Commons. Ao abandonar o escritório dos advogados, sentime infinitamente remoçado: nessa altura os escreventes deram cotoveladas uns nos outros, indicandome com as penas que empunhavam.

Chegámos sem novidade à Lincoln's Inn Fields, não falando no espectáculo de um pobre burro atrelado à carroça de um vendedor de hortaliça, que despertou as recordações da tia Betsey. Uma vez dentro da estalagem, repisámos o assunto da minha carreira e, como eu sabia que a senhora Trotwood tinha pressa de regressar à sua vivenda, e que não podia gozar Londres à vontade por causa dos incêndios, da comida e dos ladrões, rogueiLhe que não se preocupasse comigo e me deixasse desenvencilhar sozinho.

- Desde que estou aqui - disse ela - tenho pensado também na tua instalação. Há uns aposentos mobilados, agora vagos, em Adelphi. Estão mesmo a calhar para ti, meu caro Trot.

Com isto, extraiu da algibeira um anúncio, que recortara cuidadosamente do jornal. Os aposentos ficavam na Buckingham Street, com vista para o rio, tudo muito agradável e próprio para um cavalheiro novo, um membro do tribunal, etc. Podiam ser ocupados imediatamente. Preço módico. Cediamse, querendo, só por um mês.

- É uma pechincha, tia! - exclamei, corado de prazer pela ideia de ter a minha instalação condigna.

- Nesse caso, vamos ver - ripostou ela, tornando a pôr o chapéu que pouco antes tirara.

Eisnos, pois, de novo a caminho. O anúncio dizia que se dirigissem ao local, à senhora Crupp. Tocámos à porta de serviço, supondo que a campainha iria soar no alojamento da referida dama, mas tivemos de o fazer duas e três vezes antes que esta se dignasse responder. Por fim apareceu. Era uma mulher opulenta, de saia de folhos, de flanela, e corpete de algodão amarelo.

- Podemos dar uma vista de olhos ao apartamento? - perguntoulhe a tia.

- É para este senhor? - retorquiu a senhora Crupp, procurando as chaves na algibeira.

- Sim, é para o meu sobrinho.

- Aposentos lindíssimos para um rapaz! - comentou a dona da casa.

Subimos. Os quartos ficavam no último andar, o que para a minha tia representava grande vantagem, pela proximidade do telhado em caso de incêndio. Compunhase de uma antecâmara um tanto escura, um gabinete, também sombrio, e um quarto de dormir. A mobília estava um bocado velhota, mas razoável para mim e, efectivamente, o rio deslizava defronte das janelas.

Como eu me mostrasse encantado, a tia e a senhora Crupp retiraramse para o escritório, a fim de discutir o preço, enquanto eu ficava sentado no canapé da sala, mal me atrevendo a acreditar que iria viver nessa residência soberba. Voltaram por fim (após se haverem defrontado em combate singular durante uns bons minutos) e eu lilhes na fisionomia, com imenso gáudio, que o negócio fora concluído.

- São os móveis do último locatário? - inquiriu a senhora Trotwood.

- São - respondeu a senhora Crupp.

- Que é feito dele?

A senhora Crupp, tomada de uma tosse impertinente, mal pôde articular:

- Adoeceu aqui... e morreu.

- Ah, sim? E de quê?

- Morreu por beber de mais - confidenciou a dona da casa. - E também por causa do fumo.

- Fumo? Referese à chaminé?

- Não, senhora. Refirome a charutos e cachimbo.

- Seja como for, não me parece contagioso - sentenciou a tia. - Que achas, Trot?

- Com efeito, não deve ser...

Em suma, vendo quanto o apartamento me agradava, a tia arrendouo por um mês, com a faculdade de renovar a locação após aquele prazo. A senhora Crupp deveria fornecer a roupa de cama e fazer a comida. Quanto ao resto, eu já tinha tudo o que era necessário. A senhora Crupp prometeu tratar de mim como de um filho. Ficou estabelecido que me instalaria no dia seguinte. A dona da casa deu graças a Deus por haver encontrado alguém por quem se interessasse.

No regresso, a tia disseme estar inteiramente convencida de que a nova vida me daria a firmeza e confiança em mim, que me faltavam ainda. Repetiuo no dia seguinte, enquanto tomávamos providências para mandar buscar os livros e roupa que eu deixara em casa do doutor Wickfield; a este respeito escrevi uma extensa carta a Agnes e aproveitei a ocasião para lhe

descrever como passara as férias. A tia, que devia partir no dia seguinte, incumbiuse de levar a carta. Para não me alargar em pormenores, acrescentarei apenas que ela me brindou com todo o dinheiro de que eu podia necessitar durante o mês de estágio; que tivemos pena de não ver aparecer Steerforth antes da partida; que fui acompanhar a tia e Janet à diligência de Dover, onde a deixei exultando à ideia de que os jumentos vagabundos iriam ser em breve desbaratados; e que, uma vez em marcha a diligência, me dirigi para Adelphi, pensando no tempo em que errava sob aquelas arcadas subterrâneas e nas mudanças felizes que me haviam trazido à superfície.