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David Copperfield.  Charles Dickens
Capítulo 11. INICIO A VIDA POR MINHA CONTA E NÃO A ACHO AGRADÁVEL
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Conheço agora suficientemente a vida para ser capaz de me admirar demasiado seja do que for; mas surpreendome, ainda hoje, da facilidade com que fui abandonado em idade tão tenra. Acho extraordinário que ninguém intercedesse em favor de uma criança tão dotada, possuidora de grandes faculdades de observação, de espírito vivo, ardente, delicado e muito sensível de alma e corpo. Mas ninguém esboçou um gesto e eu, aos dez anos, torneime servente da casa Murdstone & Grinby.

O armazém de Murdstone & Grinby ficava situado à borda de água, em Blackfriars. Melhoramentos recentes alteraram a fisionomia do local: nesse tempo era o último prédio ao fim de uma rua estreita que descia serpenteando até ao rio e que terminava nuns degraus de embarque e desembarque. Casa velha, arruinada, com um embarcadouro privativo, dava para a água quando a maré subia e para o lodo quando esta baixava. Os ratos corriam por toda a parte.

Murdstone & Grinby tinham negócios variados, mas o fornecimento de vinhos e licores a certos navios constituía parte importante do seu comércio. Não sei aonde se destinavam esses barcos; alguns faziam a travessia das índias Orientais e também das Antilhas. Daí resultava grande quantidade de garrafas vazias, pelo que empregavam muitos homens e crianças a examinálas à luz, a separar as que estavam rachadas e a lavar as outras. Quando não existiam garrafas vazias, havia letreiros para colar nas garrafas cheias, rolhas para adaptar aos gargalos, cápsulas que se punham nessas rolhas, garrafas que se acomodavam em caixas. Eis qual era a minha tarefa, assim como a das outras crianças.

Éramos três ou quatro. Tinhamme instalado num canto perto da entrada, e, para me ver, ao senhor Quinion bastava levantarse, no seu escritório, e olhar por uma abertura praticada na parte superior da secretária. Foi aí que, na manhã do meu primeiro dia de trabalho, compareceu o mais velho dos pequenos operários para me indicar o que eu devia fazer. Chamavase Mick Walker, usava avental esfarrapado e um boné de papel. Disseme que o pai era barqueiro e que figurava, com chapéu de veludo preto, no cortejo do presidente da Câmara. Informoume também de que o nosso camarada principal seria um rapaz que me apresentou com o nome, para mim extraordinário, de Batata Farinhenta. Descobri no entanto que esse nome não era o do baptismo mas que lhe fora dado no armazém

em consequência da sua cor semelhante à farinha. O pai do Batata acarretava água, função que desempenhava com outra, mais honrosa, de bombeiro num grande teatro, onde uma parenta do rapaz, creio que sua irmã, representava nas pantominas.

As palavras não conseguem descrever as torturas secretas da minha alma quando me vi mergulhado em semelhante companhia. Comparava esses colegas da vida quotidiana com os que tive na minha infância feliz, sem falar de Steerforth, Traddles e outros. Senti sufocadas à nascença todas as esperanças de me tornar um homem distinto e instruído. A ideia da minha satisfação desesperada, a vergonha da minha condição, a dor de pensar que tudo quanto aprendera, fizera a minha alegria e me estimulara a imaginação e as ambições se apagaria pouco a pouco sem nunca mais voltar, eis o que realmente é impossível descrever. Todas as vezes que Mick Walker me deixava só, nessa manhã, eu misturava as minhas lágrimas à água com que lavava as garrafas, e soluçava como se também houvesse uma fenda no meu peito e ele ameaçasse romperse.

O relógio do escritório marcava meiodia e meiahora e todos se preparavam para comer, quando o senhor Quinion bateu na vidraça do seu gabinete e me fez sinal para entrar. Acheime diante de um homem de meiaidade, deveras corpulento, com sobretudo castanho e calças pretas justas, calvo, de crânio enorme e luzidio. Voltou para mim a cara larga. O fato estava muito usado, mas o colarinho era imponente. Usava bengala, de cujo castão pendiam duas borlas; do pescoço descialhe um fio que segurava o monóculo: era só para ornamento, como mais tarde descobri, pois raras vezes olhava através dele e, quando o fazia, não conseguia ver nada.

- Aqui o tem - disse o senhor Quinion, designandome.

- É esse o moço Copperfield? - retorquiu o desconhecido com certa entoação condescendente e ar de importância, difícil de definir, mas que pretendia ser distinto e que me causou grande impressão. - Espero que passe bem de saúde.

Respondi que ia muito bem e que pensava o mesmo a seu respeito. Deus sabe como me sentia constrangido, mas não estava no meu feitio queixarme muito nesse período da minha existência.

- Graças a Deus, estou óptimo - replicou o desconhecido. - Recebi do senhor Murdstone uma carta em que manifestava o desejo de que eu o recebesse, a si, Copperfield, num aposento situado nas traseiras da minha casa e que presentemente está vago... para arrendar, evidentemente... - acrescentou, com um sorriso e numa efusão de confiança. - Será o quarto de dormir do jovem estreante que neste momento tenho o prazer de...

Aqui, fez um gesto de mão e repôs a papada dentro do colarinho.

- É o senhor Micawber - explicoume o senhor Quinion.

- É o meu nome - confirmou aquele.

- O senhor Murdstone - prosseguiu o meu patrão - conhece o senhor Micawber, que recebe uma comissão sobre as encomendas que nos transmite, quando as obtém. O senhor Murdstone escreveulhe a propósito do seu alojamento, Copperfield, e ele tomáloá como locatário.

- O meu endereço - participou Micawber - é Windsor Terrace, no caminho da City. Eu... enfim - rematou com o mesmo ar distinto e nova efusão de confiança - é lá que moro.

Cumprimenteio, com uma vénia.

- Como imagino - prosseguiu ele - que as suas peregrinações nesta metrópole ainda não foram muito dilatadas, e que o meu jovem amigo tenha alguma dificuldade em penetrar nos dédalos da moderna Babilónia quando procurar o caminho da City... isto é - resumiu, numa nova efusão de confiança - que possa perderse... terei o gosto de o vir buscar para o iniciar no caminho mais curto.

Agradecilhe sinceramente, pois era mostrar muita amizade aquela proposta que ele se dava o incómodo de apresentar.

- A que horas - disse Micawber - é que...

- Pelas oito - esclareceu o senhor Quinion.

- Está bem, pelas oito. E agora, senhor Quinion, dême a honra de que me despeça de si. Não o quero perturbar por mais tempo.

Com estas palavras, pôs o chapéu e saiu, de bengala debaixo do braço. Ia muito direito e principiou a cantarolar logo que deixou o gabinete.

Então o senhor Quinion exortoume solenemente a ser o mais útil possível no armazém de Murdstone & Grinby e contratoume por um salário semanal de seis xelins. Não tenho a certeza de que fossem seis xelins ou sete; talvez fossem seis de começo e sete depois. Pagoume uma semana adiantada (do seu bolso, suponho), e dessa importância dei seis dinheiros ao Batata Farinhenta para me levar nessa mesma noite a minha mala a Windsor Terrace; embora pequena, era pesada de mais para mim. Gastei ainda outros seis dinheiros no almoço, que constou de um pastel de carne e uma cerveja num botequim da vizinhança. Em seguida consumi a hora destinada a essa refeição passeando pelas ruas do bairro. À noite, quando chegou a hora fixada, reapareceu Micawber. Lavei as mãos e a cara para poder emparceirar com a distinção das suas maneiras, e fomos à nossa casa, pois é assim, julgo eu, que a devo nomear daqui por diante. De caminho, Micawber chamoume a atenção para os nomes das ruas e a forma das esquinas, para que me servissem de pontos de referência no dia seguinte de manhã.

Uma vez em Windsor Terrace (notei que o local, miserável como o seu morador, se esforçava por disfarçar, como ele),

Micawber apresentoume à esposa, que era uma mulher magra e envelhecida e que estava sentada na sala, com uma criança ao colo. O primeiro andar da residência quase não tinha mobília e, para que não se reparasse nisso, costumavam fechar as janelas. Essa criança era gémea de outra, e ora uma ora outra a senhora Micawber segurava nos braços, de forma que nunca as vi lado a lado.

Havia mais dois filhos: um de quatro anos, do sexo masculino, e uma menina dos seus três anos. O número de habitantes completavase com uma rapariga muito morena, que tinha o costume de fungar e que servia de criada. Ainda não decorrera meia hora e já ela me informava que era órfã e que viera do asilo de São Lucas, nos arredores. O meu quarto situavase no último andar, na parte de trás; estreito, de paredes forradas de papel copiografado (onde a minha imaginação via pãezinhos azuis), não continha quase nenhum mobiliário.

- Nunca pensei - disse a senhora Micawber, sentandose para tomar fôlego, depois de ter subido a escada (sem nunca largar a criança) a fim de me mostrar o aposento; - nunca pensei, antes do meu casamento, quando vivia com meus pais, que me veria obrigada um dia a tomar um inquilino... Mas o meu marido tem as suas dificuldades e a gente deve passar por cima dos sentimentos pessoais.

- É verdade - ripostei.

- As dificuldades do Micawber acabrunhamno por agora, e nem sei se conseguirá livrarse delas. Quando eu vivia com meus pais, nem compreendia o que significava essa palavra dificuldades, no sentido em que a emprego nesta ocasião: mas a experiência ensina(1), como dizia o papá.

*1. Experientia does it por experientia docet, trocadilho intraduzível.

Não sei se me disse que Micawber fora oficial dos fuzileiros navais, ou se eu imaginei tal coisa. Sei apenas que me convenci, ignoro porquê, de que ele servira efectivamente na infantaria da Marinha. Nessa altura, era corretor de diversas casas comerciais, mas ganhava pouco, ou quase nada, se tanto me atrevo a supor.

- Se os seus credores - prosseguiu a dona da casa - não lhe quiserem dar uma oportunidade, sofrerão as consequências, e quanto mais cedo as coisas acabarem, melhor. Micawber, neste momento, não pode pagar nada, nem sequer as custas judiciais.

Nunca compreendi se a minha independência precoce fazia esquecer a minha idade à senhora Micawber, ou se o assunto a preocupava a tal ponto que ela seria capaz de o mencionar aos próprios gémeos, se não tivesse outro interlocutor; em todo o caso, foi este o tema que iniciou e que prosseguiu durante todo o tempo em que a conheci.

Coitada da senhora Micawber! Dizia ter feito todos os esforços possíveis, e não duvido. A meio da porta da rua havia uma chapa de cobre onde se liam estas palavras: Pensão para gente moça. Nunca vi, porém, que alguém ali fosse educado, nem sequer que aparecesse qualquer rapaz ou rapariga, ou que se fizessem preparativos para receber um pensionista. Os únicos visitantes de quem se falava eram os credores, e estes vinham a toda a hora do dia (e alguns verdadeiramente ferozes). Conheci um, mal encarado, sapateiro de seu ofício, que se metia no corredor logo às sete da manhã e que gritava ao dono da casa, nos primeiros degraus:

- Ainda não saiu, não é verdade? Então pague! Não se esconda! Cobarde! Eu no seu lugar aparecia e pagava. Vamos a isso!

Como não recebesse resposta a estas palavras contundentes, o homem empregava termos mais fortes, como «ladrão» e «caloteiro». Estes, porém, não faziam mais efeito que os outros, e o credor descia à rua e barafustava sob as janelas, pois sabia que Micawber se achava num dos quartos do segundo andar. Nesse momento Micawber estaria cheio de dor e de remorsos, a ponto (descobrio mais tarde, ouvindo a mulher gritar) de voltar contra si uma navalha de barba; mas, daí a meia hora, quando muito, engraxaria as botas com minucioso cuidado e sairia cantarolando, com um ar mais distinto do que nunca. A mulher também mudava facilmente de humor. Via uma vez desmaiar às três horas, por terem vindo reclamar certos impostos, e depois (às quatro horas) presentearse com costeletas panadas e cerveja morna, tudo pago à custa de duas colheres de café postas no prego. Outra vez, ao voltar para casa mais cedo que o costume, depareia estendida diante do fogão (com um dos gémeos, já se sabe) e aparentemente sem sentidos; e contudo, nessa noite, via muito contente a comer costeletas e a contar a sua vida em casa dos pais, nos bons tempos de outrora.

Foi nesta casa e com esta família que eu passei todas as minhas horas vagas. Por minha conta corria a despesa do primeiro almoço, que se compunha de um pãozinho de um dinheiro e de um dinheiro de leite. Tinha outro pão e um bocado de queijo guardado para quando voltasse, à noite. Isto fazia um furo no meu salário, é certo, mas passava o resto do dia no armazém e o dinheiro devia durarme até ao fim da semana. Desde a segundafeira de manhã até ao sábado à noite, eu não recebia conselho, incitamento, consolo ou auxílio de ninguém, fosse de que género fosse. Esperava tanto isso como ir para o Céu!

Era tão novo, tão criança e tão pouco preparado - como podia ser de outra forma? - para me governar a mim mesmo que me acontecia às vezes, ao dirigirme para o armazém, deixarme seduzir por bolos rançosos vendidos por metade do preço à porta das confeitarias, e gastar assim o dinheiro do meu almoço. Nesses dias, dispensavame de almoçar ou então comprava um pão dos mais pequenos ou uma fatia de pudim. Lembrome de duas pastelarias onde se vendia pudim e que eu

frequentava alternadamente consoante o estado das minhas finanças. Uma ficava situada num pátio próximo da igreja de São Martinho e que hoje desapareceu por completo. Aí, o pudim era de passas de Corinto (verdadeira especialidade), mas custava caro e, por dois dinheiros, não se tinha mais do que o equivalente a um dinheiro da qualidade mais ordinária. Este encontravase numa loja do Strand, num sítio mais tarde reconstruído. Era um pudim pálido, compacto, pesado e mole, com as passas inteiras e muito espaçadas. Estava quente à hora do meu almoço, que muitas vezes constava apenas desse alimento. Quando eu almoçava a valer, comprava chouriço e um pão grande, ou então, num restaurante, um pedaço de carne de vaca por quatro dinheiros; ou, ainda, entrava num café defronte do nosso armazém, estabelecimento velho e de ar miserável, chamado Leão, ou Leão e qualquer coisa mais que esqueci, e pedia pão, queijo e um copo de cerveja. Lembrome de que um dia, trazendo o meu pão debaixo do braço, embrulhado num bocado de papel, como um livro, fui depois a um restaurante famoso perto de Drury Lane comer, com esse pão, meia dose de bife. Não sei o que o criado teria pensado dessa estranha aparição de um rapazinho desacompanhado num lugar tão à moda: o certo é que me viu, com espanto, devorar o pão com bife e até chamou outro empregado para assistir à cena. Deilhe meio dinheiro como gorjeta, e lamento que ele tenha aceitado.

À hora do chá dispúnhamos, creio, de trinta minutos. Quando eu tinha dinheiro suficiente, tomava uma xícara de café e uma fatia de pão com manteiga; caso contrário, contemplava uma loja de caça na Fleet Street, ou ia de passeio até ao mercado de Covent Garden admirar os ananases. Apreciava errar em volta do Adelph(1), por me parecer local misterioso, com as suas arcadas e chegar defronte de uma taberna junto do rio: em frente abriase um largo onde dançavam descarregadores de carvão. Senteime num banco, para assistir ao baile. Que teriam pensado de mim?

Era tão novo, tão pequeno, que muitas vezes, ao entrar num botequim onde me não conheciam, a fim de tomar um copo de cerveja ou de trazer uma garrafa para o meu almoço, os empregados hesitavam em me servir. Recordome de que, numa noite quente, penetrei num café e perguntei ao dono:

- Quanto custa uma caneca da melhor cerveja, de qualidade realmente superior?

Tratavase de uma ocasião extraordinária, não sei qual. Talvez o dia dos meus anos.

- Dois dinheiros e meio. É o preço da cerveja verdadeiramente boa.

- Pois então - disse eu, exibindo a bolsa - dême uma caneca bem tirada.

O homem olhoume dos pés à cabeça, por cima do balcão, com um sorriso estranho. E, em vez de tirar a cerveja, olhou para

o outro lado do tabique e falou com a mulher. Esta compareceu, com a costura na mão, e começou a examinarme. Ainda nos vejo, aos três: o taberneiro, em mangas de camisa, apoiado ao balcão, a mulher olhandome curiosa e eu, um pouco confuso, mirandoos do outro lado do estabelecimento. Interrogaramme abundantemente, quiseram saber o meu nome, idade, morada, emprego e como viera ter ali. A isto, confesso, para não comprometer ninguém, inventei respostas adequadas. Serviramme cerveja, porém desconfio que não foi da melhor; e a dona da casa, inclinandose no seu posto, restituiume o dinheiro e deume um beijo meio de admiração meio de dó, mas onde pôs, tenho a certeza, todo o seu coração de mulher.

Não, não exagero, mesmo inconsciente e involuntariamente, a exiguidade dos meus recursos nem as dificuldades da minha vida. Se o senhor Quinion me dava às vezes um xelim, eu empregavao numa refeição, almoço ou chá. Trabalhava de manhã à noite, miseravelmente vestido, com homens e crianças vulgares. Vagueava pelas ruas, mal alimentado. Sem a Providência divina, atendendo ao pouco cuidado que me dispensavam, eu teria podido tornarme um ladrão ou um vagabundo.

No entanto, adquiri certa posição na firma Murdstone & Grinby. O senhor Quinion, apesar de tão ocupado, procurava diferençarme dos restantes operários; por meu lado, nunca disse a ninguém quais tinham sido as circunstâncias que me levaram àquele emprego. Sofri em segredo, e muito, e esse segredo jamais transpareceu. A extensão desse sofrimento ultrapassa, como já observei, as minhas faculdades de narrador. Calavame, e ia trabalhando. Desde o princípio compreendi que, se não me desempenhasse das funções tão bem como os outros, não escaparia aos insultos e ao desprezo. Depressa fiquei tão hábil e expedito como qualquer dos restantes rapazes. Embora me familiarizasse com eles, o meu comportamento e maneiras divergiam das suas o suficiente para os conservar a distância. Chamavamme em geral (e os homens também) o «fidalguinho» e igualmente o «menino de Suffolk». Um tal Gregory, capataz dos enfardadores, e outro chamado Tipp, carroceiro, que usava jaqueta encarnada, tratavamme por David, mas creio que era só quando estávamos sem mais ninguém e porque eu procurava distraílos (sempre trabalhando, é claro) com o que me ficara de antigas leituras, pois a maior parte delas diluíamse na memória. O Batata Farinhenta revoltouse um dia contra a deferência que me concediam, mas Mick Walk pôlo logo no seu lugar.

Não tinha qualquer esperança de fugir a este género de vida, e até já renunciara à ideia. Estou plenamente convencido de que nunca me conformei nem por um instante, e que me considerava o mais desgraçado do mundo; todavia suportava a minha sorte e não revelava a verdade nas cartas que escrevia,

nem sequer à Peggotty (a minha mais assídua correspondente), não só por vergonha como também pela afeição que lhe consagrava.

Os embaraços financeiros de Micawber aumentavam os tormentos. No estado de abandono em que me achava, ligarame bastante a essa família e, mesmo só, não deixava de cogitar nos aborrecimentos da senhora Micawber e nas dívidas do marido. Sábado à noite era uma alegria para mim, pois voltava com o meu salário de seis ou sete xelins no bolso e vinha de caminho admirando as lojas: até fazia cálculos quanto às coisas que poderia comprar com essa quantia. Demais a mais, a saída do emprego verificavase mais cedo. O mesmo sucedia no domingo de manhã, quando preparava numa bacia de barba a quantidade de chá ou café que adquirira na véspera e me demorava, sentado, a gozar o almoço. Não era raro que o senhor Micawber soluçasse violentamente no começo dos nossos serões de sábado para acabar mais tarde por uma canção. Quantas vezes o vi entrar lavado em lágrimas, declarando que só lhe restava entregarse à prisão! E depois viao deitarse, já fazendo cálculos quanto à despesa de uma varanda na casa, na hipótese de «as coisas mudarem», que era a sua expressão favorita. A mulher navegava nas mesmas águas.

Malgrado a diferença de idade, estabeleceuse entre nós uma camaradagem que, suponho, se originava na semelhança de situações económicas. Todavia nunca aceitei nenhum convite para comer ou beber a expensas deles (sabendo que deviam no talho e na padaria e que possuíam apenas o necessário), até ao dia em que a senhora Micawber me concedeu plena confiança. E fêlo, uma noite, nestes termos:

- Senhor Copperfield, não o considero como um estranho e não hesito em lhe dizer que as dificuldades do meu marido atingiram um ponto crítico.

Estas palavras provocaramme grande desgosto e foi bastante condoído que contemplei os olhos vermelhos da dona da casa. Esta prosseguiu:

- Salvo uma fatiazinha de queijo flamengo, recurso inútil para as necessidades de uma família, não temos na despensa nada que se possa comer. Habitueime a falar de despensa quando habitava com meus pais e emprego o termo quase sem pensar. O que quero dizer é que estamos na última penúria.

Tinha dois ou três xelins das minhas economias da semana, pelo que hoje presumo que esta conversa se verificava numa quartafeira à noite. Tirei precipitadamente o dinheiro do bolso e pedi à senhora Micawber, com sincera comoção, que se dignasse aceitar esse empréstimo. Mas a dama, beijandome, convidoume a guardar outra vez as moedas, explicando que não podia consentir em tal coisa.

- Não, caro senhor Copperfield, longe de mim semelhante ideia! Mas como tem inteligência superior ao comum da sua idade,

pode prestarme, se quiser, um serviço de outra ordem, o qual aceitarei reconhecida.

Incitei a senhora Micawber a declarar de que se tratava.

- Tenhome desfeito dos meus objectos de prata, por várias vezes: seis colheres de café, duas de sal e uma concha de açúcar, tudo isto em segredo. Mas os gémeos ocupamme muito, e, quando me recordo dos meus pais, acho estas transacções penosas. Há ainda algumas coisas de que nos podíamos desfazer. O meu marido é muito sensível para se encarregar do assunto, e Clickett -era o nome da rapariga que viera do asilo - tem um espírito tão vulgar que tomaria grandes liberdades se lhe déssemos essa confiança. Senhor Copperfield, se eu ousasse pedirlhe...

Compreendi, enfim, a senhora Micawber e oferecilhe, sem reserva, os meus préstimos. Comecei nessa mesma noite a separar os objectos de transporte mais fácil, e quase todas as manhãs me incumbia de serviços dessa natureza, antes de ir ao armazém de Murdstone & Grinby.

O senhor Micawber possuía vários livros num cacifo que ele chamava a sua «biblioteca», e foi por eles que principiámos. Leveios uns atrás dos outros a um alfarrabista da estrada que conduz à City (a qual, em grande parte, se compõe de lojas desse género e de mercadores de pássaros) e vendios pelo preço que ele estipulou. Este alfarrabista, que morava nuns aposentos atrás da loja, embebedavase todas as noites, e a mulher ralhavalhe todas as manhãs. Por mais de uma vez, ao ir lá de manhã cedo, encontreio num leito de campanha, com um olho negro, testemunho evidente dos excessos da véspera (creio que era irascível quando bebia); então procurava com mãos trémulas nas algibeiras do fato disperso no chão os xelins necessários à compra, ao passo que a mulher, de sapatos cambados e um filho nos braços, o descompunha de contínuo. Em certas ocasiões o homem perdera o dinheiro e pediame que voltasse mais tarde; mas a mulher nunca estava desprevenida (naturalmente apoderarase do dinheiro durante a embriaguez do marido) e regularizava o negócio secretamente na escada, enquanto descíamos ambos.

Começava a ser conhecido em casa do penhorista. O empregado principal interessavase por mim e pediame às vezes que declinasse um substantivo ou um adjectivo latino ou conjugasse um verbo, ao mesmo tempo que se ocupava do meu assunto. Nessas ocasiões a senhora Micawber preparava uma boa refeição, que tinha para mim um sabor particular, de excelentes recordações.

Enfim, o embaraço financeiro de Micawber atingiu o auge. Um dia foi preso, de manhã cedo, e conduzido à esquadra de Kings Bench, em Boroupgh High Street. Ao sair de casa, declaroume que tudo acabava para ele, e creio que, de facto, estava muito confrangido. Eu também. Soube, depois, que antes do meiodia se entretivera alegremente a jogar aos nove paus, na prisão.

No primeiro domingo após o encarceramento, eu devia ir visitálo e jantar com ele. Tinha de perguntar qual o caminho para certo sítio e, antes de chegar, topar outro sítio e, perto deste, encontrar um pátio que haveria de atravessar, depois seguir direito até descobrir um carcereiro. Fiz tudo isto e, quando lobriguei por fim o carcereiro (pobre criança que eu era!), pensei em Roderick Random na prisão, por dívidas, e no homem que ele vira, o qual só tinha por vestuário uma velha manta: e o coração pulsoume tão fortemente que mal distingui a imagem flutuante do homem.

Micawber esperavame à porta; subimos para a sua cela (no penúltimo andar) e chorámos muito. Declaroume solenemente, bem me recordo, que a sua sorte me devia servir de lição e observoume que, se alguém tivesse um rendimento de vinte libras anuais e gastasse dezanove libras, dezanove xelins e seis dinheiros, seria feliz, mas, se despendesse vinte libras e um xelim, seria desgraçado. Após o que me pediu um xelim emprestado para comprar cerveja, me entregou uma letra sacada sobre a senhora Micawber pela dita importância, e, repondo o lenço na algibeira, recuperou o bom humor.

Ficámos sentados diante do lume (dois tijolos colocados na grelha ferrugenta impediam que se queimasse muito carvão), até ao momento em que outro devedor, que partilhava a mesma cela, chegou da cozinha com o pedaço de carneiro que era a nossa refeição, paga pelos três. Depois mandaramme ter com o «capitão Hopkins», que habitava mesmo por cima, a fim de lhe dizer que eu era amigo de Micawber e lhe pedia me emprestasse uma faca e um garfo.

O capitão Hopkins emprestoume a faca e o garfo e pediume transmitisse os seus cumprimentos ao senhor Micawber. No quartinho estava uma senhora de ar enxovalhado, assim como duas raparigas pálidas, filhas daquele, e de cabelos espessos e sujos. Pensei que mais valia solicitar do capitão Hopkins a sua faca e o garfo do que o seu pente de uso pessoal. O homem usava bigodes enormes e tinha um sobretudo castanho, muito velho, sem outra roupa. O colchão estava enrolado a um canto, com os lençóis e o resto, e tudo quanto ele possuía de loiça e panelas enfileirava numa única prateleira. Adivinhei (sabe Deus como!) que as duas raparigas cabeludas eram filhas do capitão, mas que a mulher enxovalhada não era sua esposa. Permaneci timidamente no limiar, durante uns dois minutos, e depois desci com a faca e garfo emprestados.

Aquele jantar teve qualquer coisa de boémio e agradável, no fim de contas. De tarde fui devolver ao capitão o que ele me cedera e voltei a casa para reconfortar a senhora Micawber, relatandolhe a minha visita. Ao verme regressar, desmaiou.

Depois preparounos uma bebida composta de cerveja, ovos e nozmoscada.

Não sei como a mobília veio a ser vendida, nem quem a vendeu, porque eu não fui. Em todo o caso, tudo foi vendido e levado numa carroça de mudanças, salvo as camas, algumas cadeiras e a mesa da cozinha; com estes móveis acampámos, por assim dizer, nas duas salas de Windsor Terrace, a senhora Micawber, os filhos, a órfã e eu, e assim vivíamos noite e dia. Ignoro quanto tempo durou esta vida, mas pareceme que foi longa. Por fim a senhora Micawber resolveu instalarse na prisão, onde o marido dispunha agora de um quarto particular. Fui encarregado de levar a chave da casa ao senhorio, que ficou contente por a recuperar; as camas seguiram (exceptuando a minha) para a cadeia de Kings Bench. Para mim, alugaram um quarto nos arredores deste estabelecimento, o que me deu prazer, porque nos habituáramos a viver juntos, eu e os Micawbers, através de todos os percalços. Também descobriram, para a órfã, alojamento barato nas proximidades. O meu aposento era uma águafurtada tranquila, que dava para o estaleiro; quando dele tomei posse, julgueime num verdadeiro paraíso, tanto mais que me parecia haver uma solução para as dificuldades de Micawber.

Durante este tempo continuei a trabalhar no armazém de Murdstone & Grinby, nas mesmas ocupações vulgares, com os mesmos companheiros vulgares, e experimentando sempre a mesma sensação de uma decadência imerecida. Felizmente para mim nunca travei conhecimento com aqueles numerosos rapazes que eu via diariamente entrar no emprego e sair de lá, ou errando pelas ruas à hora das refeições: prosseguia nessa vida triste e solitária e só contava comigo. As únicas alterações de que me lembro foram, em primeiro lugar, o estado miserável a que o meu fato chegou e, em segundo, o sentirme liberto, em grande parte, das preocupações dos Micawbers, pois houve parentes e amigos que lhes valeram no transe aflitivo por que passavam. Viviam na prisão com mais conforto do que ultimamente desfrutavam. Eu tomava, ao presente, o primeiro almoço com eles, em virtude de qualquer combinação cujos pormenores esqueci. Esquecime também das horas a que abriam as portas, de manhã, para me deixarem entrar; só sei que estava a pé às seis horas e que o lugar em que esperava, passeando, era em geral a velha ponte de Londres. Às vezes sentavame num dos contrafortes de pedra e observava os transeuntes; por cima dos balaústres via o sol brilhar na água e iluminar a parte superior do monumento. A órfã vinha ao meu encontro e eu inventava, para ela, histórias surpreendentes acerca dos cais e da Torre de Londres: naturalmente eu também acreditava nelas. À noite, voltava à prisão e andava cá e lá no pátio com o senhor Micawber, ou a jogar às cartas com a senhora Micawber, ouvindo ao mesmo tempo o que ela contava

a respeito dos pais. Ignoro se o meu padrasto sabia qual era então o meu domicílio; nunca falei nisso nos escritórios de Murdstone & Grinby.

Os negócios de Micawber, embora já houvesse passado a crise mais aguda, continuavam complicados em virtude de certa acta de que falavam muito e que hoje suponho ter sido qualquer acordo com os credores; mas eu compreendia mal do que se tratava e confundia, bem me recordo, com esses pergaminhos diabólicos que parece foram outrora muito espalhados na Alemanha. Afinal esse documento desapareceu, ao que julgo, não sei como; pelo menos deixou de ser um escolho ameaçador para os Micawbers, e a dama informoume de que a «sua família» decidira que o preso requeresse a sua libertação baseado na lei dos devedores insolventes, o que se devia verificar daí a seis semanas.

- E então - disse por seu turno Micawber, que estava presente - se Deus quiser começarei a deitar a cabeça de fora e a viver de uma forma muito diferente, se... enfim, se as coisas se modificarem.

Para corresponder a todas estas possibilidades, lembrome de que Micawber, por essa época, enviou uma petição à Câmara dos Deputados, em que sugeria a modificação da lei relativa à prisão por dívidas. Aponto isto porque demonstra como eu acomodava o texto dos meus antigos livros à minha nova existência; como contava histórias cujas personagens eram tiradas das pessoas que encontrava na rua; e como certas facetas do meu carácter (que revelarei inconscientemente, escrevendo acerca da minha vida) se já iam formando a pouco e pouco.

Havia na prisão um clube no qual o senhor Micawber, como pessoa bem educada, gozava de muita autoridade. Ele expusera ao clube a ideia da sua petição, e o clube aplaudirao vivamente. Em consequência disto, Micawber (que era homem excelente, activo em tudo menos nos seus negócios e desejoso sempre de trabalhar em qualquer coisa de que auferisse benefício) deitara mãos à obra: escrevera a petição, copiaraa numa folha enorme de papel, colocaraa em cima da mesa e convidara todos os encarcerados a virem assinála no seu quarto, se quisessem.

Quando ouvi dizer que era ocasião da assinatura, tive imensa curiosidade de os ver entrar um após outro, embora já os conhecesse quase todos, e consegui autorização de Murdstone & Grinby Para me ausentar durante uma hora. Assim, instaleime a um canto do quarto de Micawber. O capitão Hopkins (que se lavara nesse dia em honra da cerimónia), postouse a um lado para ler o documento aos que ainda o não conheciam. Por fim abriuse a porta e começaram a entrar os presos, que assinavam e logo saíam. A todos o capitão perguntava:

- Leu o papel?

- Não.

- Quer ouvilo?

Se o interpelado tinha a fraqueza de se mostrar disposto a escutar a leitura, ele, com voz forte e sonora, lia a petição, sem poupar uma só palavra. Têlaia lido vinte mil vezes seguidas se vinte mil pessoas pretendessem ouvir. Lembrome de como dava ênfase a expressões como «Os representantes do povo reunidos em Parlamento... Os autores desta petição dirigemse humildemente aos dignos deputados... Os infortunados súbditos de Sua Majestade...» Dirseia que estas frases tomavam na sua boca forma real e suculenta. Durante esse tempo, Micawber escutava com a vaidade do autor e contemplava (com ar indulgente) as pontas aguçadas que guarneciam o muro fronteiro.

Enquanto eu, todos os dias, fazia o percurso entre Southwark e Blackfriars, e deambulava à hora das refeições pelas ruas sombrias cujo pavimento talvez ainda tenha a marca dos meus passos de criança, a mim mesmo perguntava se faltaria alguém na multidão de indivíduos que desfilavam no meu espírito ao som da voz do capitão Hopkins. Quando evoco o passado, nessa época dolorosa da minha infância, penso a que ponto as histórias, que eu inventava então para eles, sustinham como numa bruma fantástica os factos que a memória me representa. E, quando piso de novo esses lugares, não me admiro de ver andar à minha frente uma criança inocente, que eu sigo com olhar compadecido, uma criança romanesca que, dessas aventuras estranhas e dessas coisas sórdidas, criou um mundo imaginário.